por Mauro Nadvorny | 15 ago, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
“Houston, temos um problema”, Essa frase célebre foi dita pelo astronauta Jack Swigert durante a viagem da Apollo 13 à Lua, em 11 de abril de 1970, com três tripulantes. Um tanque de oxigênio havia explodido e ele tentava alertar a base.
O resultado da última pesquisa Data Folha mostrando que Bolsonaro melhorou em dois quesitos, melhorou sua popularidade e diminuiu sua rejeição, mostram que o país está com um sério problema político e ético.
Depois da incredulidade do resultado, vem a tentativa de digerir os dados, a aceitação deles e a profunda decepção com o que se viu. Como é possível que o país passando de 110 mil mortos com o Covid-19 sem um ministro da saúde, um recorde de desempregos e negócios fechando as portas, sem que o líder da nação tome qualquer providência, o brasileiro sinalize apoio a sua falta de qualquer política de intervenção na crise?
É preciso estudar atentamente os resultados, mas acima de qualquer dúvida, eles mostram o quanto a oposição e a resistência não estão sabendo passar a sua mensagem, de que um presidente inepto é o timoneiro de uma nau a deriva chamada Brasil.
Antes de apontar o dedo para a direita, temos de fazer nossa lição de casa começando por admitir que somos incapazes ainda de vencê-los nas redes, a principal fonte de informação do seu eleitorado. Quando a maioria dos desempregados apoiam seu governo, sejamos honestos, os caras sabem fazer muito bem o seu trabalho.
Bolsonaro atendeu em parte os pedidos de seus marqueteiros e tem mantido a boca fechada, evitado críticas aos costumeiros adversários e se afastando de seus apoiadores mais radicais. Isto me faz lembrar sua não participação em debates durante as eleições. Bolsonaro calado é muito melhor compreendido.
Nós estamos fazendo tudo errado. Nossa voz circula nas redes erradas, pelas pessoas erradas, nos momentos errados. Não estamos sendo capazes de mostrar o óbvio que o mundo inteiro vê, escuta e se assombra. Aquele brasileiro gentil, pacífico, malandro, mas simpático que o mundo enxergava entre um samba e uma partida de futebol, se mostrou uma imagem deturpada da realidade.
Quem apoia Bolsonaro é o estereótipo do que de mais retrógrado existe na nossa sociedade, eles são a imagem do brasileiro real, aquele que a gente achava fossem uma minoria presa no passado. Ledo engano, eles ão a maioria neste momento.
Ainda assim, preciso lembrar que uma maioria de brasileiros elegeu Lula duas vezes, e depois Dilma, mais duas vezes. O que aconteceu foi que ao lado de lá se somaram parte dos que votaram antes no PT. Perdemos votos para a extrema direita e isso permitiu o surgimento deste enorme problema chamado Bolsonaro e família.
Não temos de discutir os números, temos de assimilar a lição e planificar o que fazer. Esta agenda do cada um por si no seu grupo de resistência não está ajudando no principal, derrubar este governo. Nosso marketing é de jardim de infância, o deles é de Mestrado.
Não temos nenhuma agenda. Somos críticos do dia seguinte. Aguardamos pelo que ele disse para jogar nossa pedra. Não somos capazes de nos antecipar a nada. Nenhum pedido de Impeachment, por mais embasado que esteja na Lei e na Constituição avança no Congresso. Este caminho está fechado para nós. Precisamos encontrar outras alternativas, e precisamos já!
Lamento ser o mensageiro de más notícias, mas o mal está vencendo de goleada. Se não começarmos a pensar de outra maneira, encontrar alternativas consonantes com a realidade, mudarmos nosso marketing, Bolsonaro se reelege em 2022.
por Mauro Nadvorny | 14 ago, 2020 | Crônica
Ser humorista é um ato de coragem, visto que o humor é uma visão de mundo, que desnuda os poderes. O humor, antes de ser rebelde, pensa diferente, é livre para pensar, é irreverente, goza as proibições. Os dicionários definem a palavra rebelde como ser do contra, contra a ordem, as instituições, e aí revelam uma carga negativa. O humor expõe sua forma de ver o mundo, vê o outro lado da ordem e do progresso, goza qualquer poder, se diverte ao buscar o outro lado. O humor é um jogo, como já escreveu Freud em 1927: “Vejam este mundo que parece tão perigoso. Um jogo de crianças, bom nada mais que para brincar com ele”. E no final de seu “Humor” elogia o sentido de humor ao escrever que ele é um dom precioso e raro. Apesar disso ainda é difícil o humor abrir espaço na seriedade do mundo psicanalítico.
Aliás, um dos livros menos valorizados da obra de Freud é “A piada e sua relação com o inconsciente”. Título engraçado ao elevar a palavra piada à importância do inconsciente. Um dos méritos de Lacan foi ter recuperado o “witz” (a piada), e escreveu que a própria clínica tem um viés “witzig”, gracioso. Aliás, não faltam pesquisas hoje das neurociências sobre o sorriso do humor e do riso.
O humor começa na infância, aos dezoito meses, no final da Fase do Espelho, dando início a capacidade simbólica da criança. Humor é erótico, abre portas, corações e mentes, e o Supereu no humor alivia, trata de suavizar as derrotas, é mais leveza que peso. O humor é uma ética que elimina toda forma de hierarquia, seja ela econômica, política ou religiosa. Uma ética em que os ricos podem revelar-se pobres de espírito, milionários sem espirituosidade. Uma ética que suporta o inevitável, e pode, como Dom Quixote, sorrir diante dos fracassos. Por isso tudo o humor está presente nas artes, no amor e na vida cotidiana em geral. Já os mal-humorados não acham graça, carecem de sentido de humor, amam as certezas e têm no ódio ao diferente uma razão de viver.
O humor se arrisca a brincar até com as Forças Armadas e a terrível Lei de Segurança Nacional. E foi o que fez Gregório Duvivier no seu recente Gregnews “A ideologia do General”, onde expôs sua visão da história militar. Assegura que não deseja ser acusado de infringir qualquer lei, e então, em vez de criticar, faz um programa em defesa dos armados, saúda a instituição ilibada, infalível, fundamental na República. Revela que a maioria das intervenções das Forças Armadas foi contra nós mesmos. O Brasil está cheio de inimigos internos, como prova a intervenção militar em “Canudos” na Bahia, com vinte e cinco mil mortos entre homens, mulheres e crianças. E depois a guerra do “Contestado” em Santa Catarina, com dez mil mortos em nova intervenção do Exército. Sem esquecer o golpe de 1964, chamado de “Revolução”, mas que foi um golpe na democracia que durou vinte e um anos. Saudosos do poder agora voltam com mais de seis mil militares no governo, e ainda ocuparam o Ministério da Saúde. Um ministro do Supremo Tribunal Federal afirmou que eles podem ser responsabilizados pelo genocídio, e foi logo repreendido pelas Três Forças. Aliás, às vezes, se tem a impressão que há muito receio diante das forças ilibadas e infalíveis.
Realmente é preciso ter coragem para ser humorista, que ao brincar revela as mazelas dos poderes. Lembro o poema “Áporo” de Carlos Drummond de Andrade em que um inseto cava, cava em busca de um escape, em busca de saída. Buscar saídas, furar muros, são desafios atuais diante do autoritarismo, logo bem-vindo o humor capaz de animar os desanimados, dar sua graça diante a desgraça. O humor é um sorriso entre lágrimas.
por Mauro Nadvorny | 13 ago, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
O impacto do discurso de Putin feito ao mundo anunciando o registro da vacina produzida em seu país contra o COVID-19 em grupos intelectuais da esquerda foi impressionante. Sempre tive em relação a Putin uma relação de respeito e temor. Respeito pois considero-o há pelo menos duas décadas o maior estrategista vivo neste recanto do Sistema Solar. Temor pois seu poder, inteligência e capacidade política têm efeitos hipnóticos sobre muitos de seus observadores, seguidores e admiradores.
Putin é um sujeito ambicioso que surfa na onda pós-soviética com uma prancha cheia dos charmes e da carga cultural do exército vermelho, da derrubada dos nazistas, da contraposição ao ocidente. Mas a Rússia de hoje é capitalista, tem um sistema de poder que cultiva um amor platônico com o fascismo, tem na sua estrutura política máfias que reduziriam Sérgio Moro ao nível molecular antes que conquistasse um mero rodapé de um jornaleco de bairro, e acima de tudo isso, a alma russa, apreciável em grande estilo na antológica cena de “Chernobyl” onde os operários da mina de carvão dão simpáticos tapinhas nos ombros do então ministro das minas soviético transformando seu vistoso terno de linho claro em uma bandeira de carbono. E para completar, no campo dos costumes, o governo Putin é uma vergonha.
Dito isto, quero deixar claro que tenho profunda admiração pela ciência russa, soviética e pós-soviética. Certamente há uma subvalorização das conquistas científicas daquele povo. Por exemplo, a tecnologia de invisibilidade de aviões americanos aos radares deriva de um físico russo. O foguete Próton-Soyuz que lançou Gagárin ao espaço está em operação até hoje e por décadas foi o método mais barato de se levar homens e equipamentos à órbita da Terra. Muito da cosmologia moderna deriva de contribuições russas à Relatividade Geral de Einstein. Na biotecnologia não é diferente. Dominam todas as tecnologias. São uma potência científica e cultural de primeira grandeza.
Assim, fica difícil acreditar que a atitude de Putin em anunciar algo que ainda não existe possa causar tanta comoção e comemoração por parte de pessoas que cultivam sentimentos anti-imperialistas, anticapitalistas, antiamericanas, quando o que ele faz e exatamente reproduzir o comportamento de alguém que está em uma mera competição por poder político e hegemonia científica. Por quê “não existe”? Porque uma vacina só existe quando foi minimamente testada em algumas milhares de pessoas, e para isso não basta dizer que “produziu imunidade persistente” porque anticorpos medidos 60 dias após o teste não permite dizer que a imunidade é persistente. E mais que isso, seu desempenho deve ser aprovado por autoridades de abrangência internacional. “Registrar” sua vacina na autoridade sanitária russa, que certamente sofre pressões políticas neste cenário, e anunciar isto ao mundo como conquista científica não passa de bazófia. Alguns argumentam que isto é preconceito contra “qualquer coisa que saia do establishment ocidental”. Não é. Pois nenhuma nação ou laboratório até o momento, mesmo os que estão em fases mais avançadas de testagem de vacinas de diferentes tipos, anunciaram ter o produto “vacina”. Não vemos Xi JinPing posando de herói da vacina, mas sim declarando que a vacina produzida lá será um bem público.
Uma das maiores críticas que a esquerda faz ao bolsonarismo é sobre a aversão à ciência desta corrente de “pensamento”. Da mesma forma, a esquerda demoniza a indústria farmacêutica acusando-a de desvios éticos de todas as naturezas, de projetos hegemônicos, de ocultação de dados, e outras indecências. Então, por quê estas mesmas pessoas rendem-se à idolatria em relação à Rússia e seu líder que anuncia a “primeira” vacina para a COVID-19, sendo que absolutamente nada de científico (em termos de números de testes, metodologias, etc) acompanhou este anúncio? Por quê esta súbita renúncia à argumentação racional que vem mostrando-se homogênea em relação a todos os potenciais produtores de uma vacina? Por quê esta confiança cega? Será só pelo fato de Putin catalisar em si mesmo a grande oposição ao ocidente e “equilíbrio de forças”, trazendo para si a carga moral das “forças do bem”, na avaliação de seus idólatras?
Torço pelo sucesso da vacina russa, da inglesa, da chinesa, da norteamericana, torço por todas. Mas não me sinto motivado a qualquer admiração especial por Putin ou a qualquer esperança adicional à sua vacina. Se ele quer o lugar de “pioneiro”, que apresente ao mundo um produto falando a linguagem do mundo, ou seja, com dados científicos. Alguém poderia questionar (e com certeza irá!) se os dados de outros fabricantes produzem dados confiáveis. Eu até poderia dizer que não há santos habitando a Terra. Mas a linguagem científica é um método sistemático de dificultação de fraudes e personalismos. E é para isso que a ciência existe, para impedir o monopólio do conhecimento e o dogma. Anunciar um feito sem dados é fraude, ainda que o anunciado venha a se confirmar à frente. Uma coisa é o fato, outra coisa é querer transformar em fato aquilo que ainda não é fato. Por isso, quando tomo algumas condutas com certos pacientes, explico: “o que estou fazendo resulta da minha experiência positiva nesta situação e não há estudo científico sobre esta situação, mas não estou fazendo nada que, diante do conhecimento prévio, represente risco.”
Seria mais honesto por parte de Putin dizer: “temos uma vacina muito promissora diante dos testes fase 1 já realizados em 76 pessoas, e vamos registrá-la em nossa autoridade sanitária e diante da emergência, vamos assumir riscos”. Se assim o fizesse, certamente seria também alvo de desconfianças. Mas seu ato foi meramente político, e parte de nossa esquerda abraçou o anúncio como uma vitória do anti-imperialismo ou como derrota de Trump, Bolsonaro e outros atores, políticos ou não.
Em outros termos, gente da esquerda não está percebendo o quanto estão sendo “bolsonarescos” ao comprar Putin do jeito que estão fazendo. Daí o meu temor em relação a Putin. Este grande jogador conseguiu bolsonarizar antibolsonaristas.
E como conclusão, e de modo reverencial, digo: a ciência russa não merecia isto.
por Mauro Nadvorny | 10 ago, 2020 | Crônica
Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ou não de ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia (Albert Camus)
Era só o que faltava. Justo nesta fase pandêmica, em que a morte e o medo dela se fazem tão presentes, me caiu nas mãos a obra poética da Ana Cristina César. Louvada por gente de peso, espécie de musa da geração 70, transição para a de 80, resolvi encarar. O livro é uma egotrip interminável, hermético, garrafa ao mar com mensagem intraduzível. Drummond dizia que sob a pele das palavras há cifras e códigos. Devoto do itabirano, insisti. Tentei, mais de uma vez, filtrar o que lia com um olhar benevolente, curioso. Quem sabe uma pepita no meio do cascalho ? Em vão. O que terá acontecido ?
Intrigado com tanta e tamanha falta de comunicação, resolvi pesquisar a vida de Ana. Pistas. Internou-se várias vezes para tratar de uma depressão persistente. Suicidou-se, aos 31 anos, atirando-se da janela do apartamento dos pais. Terei, então, ouvido gritos de socorro ? Era disso que se tratava ? Não sei. Estou habituado à dificuldade de transformar em palavras aquilo que sinto. Escrever é uma aflição, as palavras serão sempre insuficientes para exprimir a essência dos sentimentos, dos desejos. É, como disse Alberto Manguel, um exercício sempre incompleto. Em que medida a poeta conseguiu fazer-se ouvir ?
Tive um amigo que cometeu suicídio. Emparedado pela névoa depressiva, desligou-se aos poucos do mundo. No final, já não conseguia fazer contato. Seus olhos, antes tão expressivos, estavam vazios. Tomou veneno, morte fulminante. Tal como Ana, teve a consciência definitiva de que queria morrer. Durante anos cultivei um ódio profundo ao seu psiquiatra, que não providenciou uma internação que, talvez, salvasse a vida do meu amigo. Tratamento intensivo, quem sabe ? A tragédia estava mais do que anunciada, só a insensibilidade metodológica não viu. Há, no mundo, cerca de 100 milhões de pessoas com o tipo mais resistente de depressão, que não tem nada a ver com melancolias passageiras. O suicídio é a segunda maior causa de mortes de jovens no mundo.
Não acredito que existam sentidos obrigatórios para a vida. O trabalho de construí-los, permanente, talvez não seja possível para quem sofre de alguma tirania bioquímica ou genética, que leva à depressão. Se o tirano for existencial, é possível, já disse Jards Macalé na pré-história, ser livre e sair de Gotham City. Mas, cuidado, sempre haverá um morcego na porta principal. Isso me leva a Woody Allen.
No filme Hannah e suas irmãs, Mickey Sachs, personagem de Woody, vive crises sucessivas. Novidade ! Queria saber onde estava a mão de deus num mundo cruel, paradoxal e opressivo. Questão trivial, né ? Tenta se aproximar de várias religiões e só acumula fracassos. São hilárias as cenas com os hare krishnas, a compra de símbolos cristãos num supermercado e a discussão com os pais sobre a divindade no judaísmo. Atormentado, sem resposta à dúvida sobre a existência de deus, tenta o suicídio. Encosta uma carabina na testa e, nervoso, erra o tiro. Desorientado, sai à rua, procurando uma “perspectiva racional”. Entra num cinema, sem saber o que estavam exibindo. Na tela, os irmãos Marx, para variar, botam o mundo de cabeça para baixo. Dançam, cantam, tocam xilofone nos capacetes de soldados, riem. Foi uma iluminação. Mickey percebe que, mesmo sem deus, sem uma entidade organizadora, controladora, é possível fazer parte do roteiro dessa vida sem o peso de perguntas sem respostas e uma dieta de angústias intermináveis. Não levar tudo tão a sério, sobretudo não se levar tão a sério. Estava lá a chave para recuperar o prazer de estar vivo. Apenas isto: estar vivo. Sai do cinema transformado.
Se fosse roteirista, eu poderia “nacionalizar” a cena. Nem Sansão, nem Dalila, de 1954. Oscarito, no papel de Sansão nonsense, faz uma paródia impagável do Getúlio Vargas. Usando um saiote grego, discursa: “Trabalhadores de Gaza ! A situação política nacional (e aqui carrega na letra ele, à la São Borja) está uma pouca vergonha. As mamatas andam soltas por aí e todos querem se defender”. Getúlio, que adorava as paródias que lhe faziam no teatro de revista e não tinha o mau humor das hordas ostrogodas de hoje, deve ter dado boas gargalhadas. Assim como nossa saúde mental. Cresci assistindo o chafariz da Atlântida e as chanchadas do Oscarito. Eu os convoco, junto com Grande Otelo, Cyl Farney, Eliana Macedo, José Lewgoy e Wilson Grey, quando os morcegos se insinuam no ambiente, e os espanto para seguir em frente.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 10 ago, 2020 | Poesia
Nasci rio
Trago em mim toda essa liberdade
Não conheço fronteiras
Me recuso a ser contida!
Não me traga barreiras
Que castrem os meus sonhos
Que delimitem o que sou
As águas desse rio
Não foram feitas para cisternas
Se não sabes nadar
Ou sequer, navegar
Que digas um simples adeus
Porque o rio precisa seguir
Mergulhar em mares e oceanos
Espalhando cores diversas
Aromas marcantes
Despertando paixões, ao fazer dueto coma lua
Encantando os amantes
Molhando rostos em forma de chuva
Seguindo o ciclo, ou fazendo curvas
Como orvalho, umedecendo beijos
Molhando os desejos…
E depois de um dia
Corro desfazendo as margens
Desemboco feroz numa cascata
E finalmente me rendo
Ao tanto de amor contigo nessa poesia.
por Mauro Nadvorny | 9 ago, 2020 | Crônica
“Comandando uma astronave
Rasgando o céu
Vou pisando em estrelas, constelações
Deixo longe o mundo aflito e a bomba H
Corpo livre no infinito eu vou
Na estrada do sol …”
Postei dia desses uma foto da Xuxa, de 1986, na TV Manchete, quando começou a trabalhar como apresentadora. Ainda fazendo sucesso como modelo, amargando o fracasso como atriz num filme (Amor estranho amor) em que interpretava uma prostituta que seduzia um menino de 12 anos, Xuxa resolveu apostar suas fichas como apresentadora de programa infantil. A história está aí, provando que sua intuição não falhou.
Ninguém, em lugar nenhum do mundo, acreditaria que uma modelo que usava roupas minúsculas, era símbolo sexual e tinha acabado de fazer um filme em que interpretava uma pedófila poderia virar carro-chefe de programas voltados para crianças. A não ser alguém que conhecesse a história da TV brasileira.
A precursora nessa linha foi nada mais, nada menos que a exuberante Virgínia Lane, vedete do teatro rebolado. Em 1955, trajada com roupas sensuais e orelhinhas de coelho, apresentava o programa O Coelhinho, na TV Tupi, voltado para o público infantil. Era a alegria das crianças, e provavelmente dos marmanjos, afinal, além de belíssima, era dona das pernas mais bonitas do Brasil e o pesadelo das donas da casa, que achavam aquele trajar um descabimento. Meu amigo Nélio foi vítima dessa má vontade para com a sassaricante. Estava num show de auditório e Virgínia pegou no seu queixinho. Apaixonou-se. Perdidamente. A mãe não deixou o romance seguir em frente, afinal ele tinha 4 anos e a apresentadora, 36. O primeiro amor, porém, a gente nunca esquece.
A roupa da Xuxa no programa de 1986 seria hoje um descalabro. Um decote até o umbigo, com seios quase desnudos, não era propriamente indicado para um programa infantil. Para nós, que fomos adolescentes na década de 80, assistindo às duas da tarde o Cassino do Chacrinha, com suas chacretes voluptuosas de collant fazendo danças sensuais no palco, vendo modelos como Monique Evans com um ínfimo fio dental na praia, nada de novo no front. Eram outros tempos. Fumava-se no ônibus, na sala de aula, poucos usavam cinto de segurança e vestíamos saias balonê com scarpins, o que por si só mereceria cadeia por falta de senso estético. Ah esses anos 80…
O fato é que Xuxa fez escola. No seu rastro vieram outras loiras que faziam brincadeiras com as crianças, apresentavam desenhos animados e exibiam sua forma física nas telas de televisão.
Sou do tempo que, ao anunciar o programa que seria passado, aparecia um documento de liberação na TV que indicava a idade mínima para assisti-lo e, o principal, que não era censurado, assinado pelo então Ministro da Justiça Armando Falcão. Homem de triste memória, fazia parte do governo nefasto da ditadura militar linha duríssima, pior que Golbery. Legou-nos, porém, duas coisas importantes. Sempre que, por um motivo ou por outro, você utilizar a expressão “Nada a declarar”, saiba que foi ele que a cunhou, é da sua lavra. A outra merece uma narração e é uma comprovação de que D’us é roteirista e, às vezes, mistura de forma inacreditável os núcleos das novelas. Digo isso e posso provar: Falcão, cearense, estudava Direito no Rio de Janeiro. Morava numa república de estudantes. Foi na mesma época que o grande Luiz Gonzaga largou o exército, saiu de Pernambuco e migrou para o Rio, no intuito de fazer carreira musical. Foi trabalhar na área do mangue, no baixo meretrício, em meio a rufiões, cafetinas e prostitutas. Luiz dedilhava sua sanfona, tocava milongas, tangos, foxtrotes, músicas que animavam o cabaré e depois passava um pires ou o chapéu.
Com o tempo, passou a frequentar a república dos estudantes, estava numa situação financeira difícil. Lá ele cantava, tocava e o pires corria. Até que o jovem Armando virou para ele e perguntou: “Por que você, tão talentoso, não toca o nosso forró de pé de serra? É por aí que você tem que seguir a sua carreira!”. Essa força foi determinante para que Gonzagão abraçasse seu Nordeste, definisse sua música, voltasse para as suas raízes.
Espero que, no julgamento final desse senhor, isso tenha sido levado em conta.
Nós, os nascidos nos anos 1970, fomos privados de loiras lânguidas e ninfetas dançantes ajudantes de palco. Engana-se, porém, quem pensa que, só por ter sido o período mais feroz da ditadura, não tivemos nosso animador infantil! Claro que a infância não passaria incólume às transformações de 64. Eles criaram seu herói, e a saudosa TV Tupi, entre 1966 e 1979, levou ao ar o programa Clube do Capitão Aza. O dono do clube trajava um uniforme da aeronáutica, usava um capacete com duas asas e falava de dentro de uma nave espacial antes de virar modinha (Chupa Xuxa!). Como tudo naqueles tempos, nada era por acaso. O linguajar desse herói era inspirado no militarismo. Capitão Aza (que recebeu esse nome em homenagem ao capitão aviador Azambuja, herói da Força Expedicionária Brasileira – FEB) se proclamava Capitão Chefe das Forças Armadas Infantis.
Hoje, com o distanciamento necessário, vejo que a intenção do programa era melhorar a imagem das Forças Armadas para as crianças, valendo-se das inovações da mídia de massa ao trazer novos produtos culturais importados da TV norte-americana. Desejava-se construir no imaginário infantil um consenso entre valores conservadores e autoritários.
Cercado por uma boa equipe, tendo Oduvaldo Vianna Fiho, o Vianinha, como diretor, com uma linda canção de abertura (Sideral) composta por Tibério Gaspar, autor de Sá Marina, imortalizada na voz de Simonal e Durval Ferreira, que, além de tocar com Sergio Mendes, teve suas músicas gravadas por Sarah Vaughan, Claudete Soares e Leny Andrade, pegava a criançada de jeito. Não sei se por influência dos meus pais, que nutriam grande antipatia pelo personagem, por perceberem o que tinha por trás da programação, ou por feeling mesmo, nunca fui fã do apresentador. No entanto, amava os desenhos e seriados veiculados pelo programa. Turma da Pantera Cor-de-Rosa, Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, A Corrida Maluca, Speed Racer, Mr. Magoo e séries antológicas que fazem parte da minha memória afetiva: Jeannie é um gênio e A feiticeira.
O Capitão Aza costumava visitar as escolas. Levava sempre com ele um bombeiro uniformizado, um policial militar e um ex-membro da FEB, para dar lições de cidadania. Um dia, esteve na minha. Lembro-me de nós todos colocados em fila indiana, em blocos separados. Era uma escola que ia do Maternal à Alfabetização. Vimos o helicóptero pousando, um verdadeiro espetáculo. Sabe-se lá por que, nesse dia ele quebrou o protocolo e apareceu com dois palhaços. Os profissionais circenses que me perdoem, mas tenho fobia a eles que se arrasta até os dias de hoje. Na malandragem dos meus 5 anos, inventei uma dor de barriga e fiquei no banheiro até o evento acabar. Se já não gostava dele, associá-lo a dois palhaços foi um pesadelo. E foi assim que, após ver um clipe no Fantástico com um ser andrógino colorido e cheio de penas, meu ídolo supremo passou a ser Ney Matogrosso acompanhado pelos Secos e Molhados. Sim, existe sabedoria no mundo infantil.
Ah, já ia esquecendo. O ator que fazia o Capitão Aza, Wilson Vianna, era delegado da polícia civil.
Ser criança na década de 70 era isso. Somos sobreviventes. A andar soltos nos bagageiros de carros como Caravan e Belina, geralmente guiados por um adulto embriagado e sem cinto de segurança, a não morrer sufocados por uma bala soft e a ter, como herói infantil, um meganha.