por Mauro Nadvorny | 28 ago, 2020 | Crônica
Na minha adolescência nasceu o desejo de entender o ser humano, mas aprendi que desejava saber quem eu era. Hoje sei algo do quem eu sou, pois é toda uma odisseia conhecer quem se é por dentro. Uma das lições foi aprender a palavra paradoxo, como é a expressão “Trapaça Sagrada”. Esse paradoxo surgiu numa aula de estudos do livro “Finnegans Wake”, a labiríntica obra de James Joyce. O tradutor para o português foi o conhecido Donaldo Schüler, que sugeriu um grupo para ler esse livro composto de uns 65 idiomas. É uma leitura em voz alta para se escutar para pensar os vários sentidos de cada frase. Na primeira reunião me chamou a atenção uma referência de Joyce sobre o patriarca Isaac. Ele foi o pai de Esaú, o mais velho, e Jacob, o mais moço, e foi iludido ao abençoar Jacob como primogênito. Não sabia que muitos anos antes Esaú pediu um prato a mais de lentilha ao Jacob, que prometeu dar em troca da primogenitura. Disse no grupo que Jacob fizera uma trapaça, pois a primogenitura não podia ser vendida. Donaldo concluiu que tinha sido então uma Trapaça Sagrada, pois fora aceita na Bíblia.
Paradoxo vem do grego (paradoxos), em que o prefixo “para” quer dizer contrário a, ou oposto de, e o sufixo “doxa” quer dizer opinião; logo, o paradoxo são opiniões contrárias. Exemplos são afirmar que o riso é uma coisa séria, ou a eterna novidade do mundo, pois são verdades opostas que constituem outra verdade. São expressões paradoxais, pois envolvem contradições que geram um sentido novo, desconcertante. Pensar a complexidade do humano requer conhecer os paradoxos, como a palavra amoródio, que não tem no dicionário. As palavras amor e ódio, em princípio, são excludentes, pois ou é amor ou é ódio, são afetos opostos. Entretanto, as relações amorosas são paradoxais, pois convivem o amor e o ódio em diferentes proporções, daí o amoródio. Pensar o paradoxo é facilitado à medida que se conhece a realidade psíquica na qual o inconsciente tem uma lógica própria, porque nele não há contradições entre o certo e o errado, o amor e o ódio.
A trapaça sagrada é para diferenciar da trapaça profana, conhecida como fraude, dolo, roubo. A trapaça está a serviço do poder, seja do dinheiro, da fama, da vaidade ou do poder político. Uma ambição desmedida leva um país a amputar sua alma, para viver à base da trapaça. A trapaça pode estar num falso atentado contra a vida de um candidato a presidente. Trapaça também são as “fake news” diárias, as mentiras repetidas que se passam por verdades. Trapaças na economia não faltam, como a de queimar a Amazônia, que pertence ao povo, para beneficiar a uns dez milionários. Os índios na Amazônia, na Bahia, estão sendo atacados e a mídia está indiferente. E seguem os mortos da pandemia, já se calcula que chegará a 150 mil mortos, há cem dias sem Ministro da Saúde. A nação foi ocupada pelos fantasmas vivos do passado como a escravidão e as ditaduras. A esperança de uma sociedade democrática, com alguma justiça social, foi atacada pelo ressentimento.
O paradoxo brasileiro hoje, que desconcerta o mundo, é como o país do carnaval, foi dominado pelas sombras da cruel melancolia. Um governo eleito, em nome do combate à corrupção, liderado por um político travestido de juiz. Um dia será escrita a verdadeira história das devastações desse querido país que teve sua alma amputada. A lista dos antifascistas prova que o poder teme a resistência, mesmo ela sendo frágil. O amanhã está vivo na imaginação, e a dignidade será recuperada para o bem de todos.
por Mauro Nadvorny | 25 ago, 2020 | Poesia
Sua face, que tenho de lembrança, o tempo vingou na memoria
Do leite em pote de vidro deixado às portas das casas na infância
Ao som dos canhões emudecidos pelas flores que restaram pelo caminho
Na bola que sela o jogo da vida, mas cala o cárcere subterrâneo que mata
Onde crescem homens e mulheres ecoando distantes navegantes
Por sobre a impotência incandescente, que perpassa a desigualdade social
Em tentáculos que se expandem, como tumores, nódoas sujas de concreto
Respeitemos a morte de quem lhe tiramos a vida, nós, os algozes
A ilusão de um suposto progresso, que encubra um farsesco engôdo
Megalópole, por excelência, me curvo aos seus excêntricos desígnios
Onde faço prumo meus consolos, de muitas recordações registradas
Soubera eu, tampouco não quisera, parte de mim sempre serão.
por Mauro Nadvorny | 25 ago, 2020 | Crônica
O medo é constitutivo. Sem medo, sem ódio, sem nojo, a gente morre. São funções básicas de sobrevivência (Maria Homem, psicanalista)
Personagem dos anos 40, o Spirit sacudiu dogmas dos heróis dos gibis. Will Eisner o concebeu como um (quase) igual aos leitores. Enquanto seus congêneres mascarados Fantasma e Batman jamais se arranharam no enfrentamento dos vilões, o Spirit levava muita pancada, era traído e seu universo pedia meia-luz. Andava de metrô como qualquer mortal. Frequentava ambientes sórdidos e não tinha nascido em berço de ouro.
O mascarado vulnerável do Eisner será meu guia no balanço parcial do confinamento, que já bateu a marca dos cinco meses. Balanço pessoal, bem entendido. Enquanto as redes sociais continuam entupidas de gente sorrindo em selfies inexpressivas, estão rindo de quê ?, a situação está mais pra olho roxo. A verdade é que a máscara do Spirit, como as mazelas da pandemia, não esconde sua insegurança, sua identidade mutante, suas indefinições.
Poderia começar com a caquistocracia brasileira (apud Sérgio Rodrigues). Governo exercido pelos piores indivíduos da sociedade. Não há dia que passe sem as vilanias do Grande Bufão e seus Blue Caps. Mais do que isso. Parte significativa da sociedade vai soltando seus instintos mais abjetos, seus comportamentos indignos. Enfrentar o isolamento sabendo que o que anda por aí é um processo acelerado de autodestruição só faz aumentar a sensação de atordoamento. Poderia falar um pouco mais sobre isso, mas quero olhar para a rotina, o samba do tempo em pequena escala.
Pra começo de conversa, fui apresentado a panelas e vassouras. Não posso dizer que as saudei com um “muito prazer”. Prazer ? Ora, vá pentear macacos. Panelas, vocês sabiam ?, têm vida própria. Quando você acha que terminou a tortura detergente, surge uma nova pilha. São gremlins de teflon, um horror. E as gloriosas piaçavas ? Nunca tinha imaginado que o mundo é tão empoeirado. Você varre cada cantinho, acha que está livre do tormento por, digamos, um ano. Ilusão de calouro. O troço é como o tecido de Penélope, trabalho que sempre recomeça. Trabalho um tantão assim, cansaço é bastante sim. Cartola sabia das coisas.
Gestos de solidariedade ? Não comigo. No meu raio de visão, necas de pitibiribas. Confirmando a solidão nas grandes cidades, nenhum vizinho do meu prédio fez contato para saber como vamos, se precisamos de apoio. Também, pudera, de muitos deles sequer sei o nome.
Você consegue imaginar Woody Allen, notório hipocondríaco, isolado de seus médicos e de suas mezinhas ? Perda de controle, sensação de morte iminente. Pois é, não chego a tanto, mas neste tempo de privações tive que aprender a conviver, longe dos consultórios, com os discursos do meu corpo. E ele nem sempre está de bom humor. A ausência física de amigos e familiares cobra um preço. Nos poucos contatos ao vivo que tive, a sombra do medo nublou o prazer do convívio. Se tudo anda desequilibrado, como acordar disposto a correr a maratona ? Como driblar aquela angústia persistente, que teima em não se identificar na portaria ? Isolamento é ambiente ghost friendly, nossos fantasmas na tocaia grande, ansiosos para aproveitar as fragilidades do momento.
Choro os mortos, compartilho poesias, converso com quem quer conversar, sangro minhas saudades, leio sobre a vida de quem enfrentou outras dores, planejo a fila de abraços para depois, me fortaleço lembrando de gente que passou por guerras, deportações, perseguições, despedidas indesejadas, e não se dobrou. Cheio de hematomas, mas também de esperança. O que resta fazer ? Fazendo colagem com uma letra do Chico, mesmo com toda a lama, com todo o emblema, todo o problema, com a sala escura, com a cara dura, não tem mais jeito, a gente vai levando essa chama.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 22 ago, 2020 | Comportamento, Opinião
Todos os dias aprendemos novas lições. Quem pensa que já viu de tudo, está muito enganado. Muito ainda vai se surpreender.
Uma das muitas surpresas recentes, claro, foi o Covid-19. Um vírus que paralisou a humanidade. Mostrou que não importa onde estejamos, fomos reduzidos a nossa insignificância neste mundo. Ricos ou pobres, sadios ou doentes, jovens ou idosos, ele atacou a todos.
A esperança de que tudo se resolvesse em pouco tempo foi pura ilusão. Os meses foram passando e cada vez ficando mais claro que a solução não chegaria tão cedo, e ao que tudo indica, se a gente quiser estar seguro mesmo, só no ano que vem.
Claro que é possível conviver com o Covid-19 num mundo ideal, onde todos usassem máscara, saíssem a rua somente quando extremamente necessário respeitando o distanciamento social. Este mundo não existe.
Muita gente insiste em sair sem máscara, ou com ela caída sobre o queixo. Não respeitam o distanciamento, seja por opção, ou pura impossibilidade no local onde se encontram.
Festas são organizadas como se nada estivesse acontecendo. Praias e piscinas abertas. Restaurantes e bares abertos. Casas de espetáculos querendo abrir. E muita gente saindo para viajar.
É compreensível que as pessoas estejam no limite da paciência, que não aguentem mais ficar em casa, ou que necessitem voltar a trabalhar para sobreviver. O desejo de rever os amigos, os pais, os filhos, os netos, ou simplesmente tomar um café no bar, se tornam um desejo incontrolável.
Uma pena que sejam eles a engrossarem as estatísticas de infectados, doentes graves e casos fatais. Por conta deles, as medidas mais drásticas de lockdown se tornam imperativas.
Lamentavelmente, nenhum país pode dizer até o momento que é “Livre do Vírus”. Todos que acharam que haviam controlado a situação, estão sentindo a segunda ou terceira onda. Basta uma pequena abertura, e o Covid-19 retorna com força. Sua capacidade de contágio é impressionante.
Em meio a tudo isso, diversos países enfrentam um novo problema chamado eleições. A Nova Zelândia optou por adiar um mês. Os Estados Unidos confirmaram para novembro com o uso do voto pelos correios. Outros países estão com o mesmo problema e ainda não tem uma solução.
O Covid-19 ataca a nossa saúde, a economia e agora a democracia. Como realizar eleições em meio a pandemia é a próxima lição que vamos aprender. Se teremos mais, ou menos fraude, ninguém pode prever. Mas certamente teremos menos gente se dispondo a ir votar.
Muitas soluções foram encontradas para manter a economia. Grande parte através do uso da Internet. Trabalho em regime de Home Office deixou de ser algo para poucos. Compras pelos sites se tornaram comuns. Nunca se leu tanto e se assistiu a filmes e séries como nestes últimos tempos.
Aplicativos como o Zoom e similares passaram a ser utilizados por escolas e universidades. Não só para as aulas, como também para as cerimônias de formaturas. Até as festas comemorativas receberam os convidados virtualmente.
Assim, aprendemos que é possível se poupar muitos gastos com a pandemia. Nossa felicidade não depende unicamente da presença física de quem apreciamos. Estar na tela do computador com os amigos, ou como parte de uma plateia, nos faz sentir parte de algo novo.
Claro que nada substitui um beijo e um abraço físico com o calor humano. Logo vamos poder voltar a isto também. Mas por enquanto, fiquemos próximos assim, lendo este texto e dando graças a vida.
por Mauro Nadvorny | 22 ago, 2020 | Crônica
A palavra esperança é capaz de transpor a página ao estimular a vibrante imaginação. Esperanças, ilusões e desilusões se desenvolvem tanto na vida privada como na vida pública. Um exemplo é o dos imigrantes que sonharam com novas terras para viver, e com sacrifícios viajaram animados com a mudança de ares, em busca de outro mundo. O mundo em geral é composto de mudanças, são movimentos no tempo e no espaço, em que os dias parecem iguais. Se o mundo progride, a esperança dança alegremente, mas a vida oscila entre o entusiasmo e a apatia, a fé e o desânimo, a graça e a desgraça.
Quando milhões de pessoas atacam a cultura, desprezam a vida, é um choque, mas é porque a gente esquece do poder da crueldade no mundo. A crueldade é humana, e ela se revela pela falta de empatia, ao estimular a violência e a divisão das famílias e de um povo. O mundo é destrutivo e criativo, a vida é tecida de altos e baixos, por isso a esperança pode dançar ou não. Quando os tempos são de elogios à ignorância, de proteção ao estuprador e agressividade à vítima, são tempos torturantes.
Não faltam motivos para os tristonhos dizerem que a esperança não dança mais, são os amados que perderam o norte, diante das trevas. Uma letra só separa as palavras amados de armados, a letra “r”, “r” de raiva, a raiva dos armados a serviço não da pátria, mas da elite brasileira responsável por esse desgoverno que. Só dez pessoas hoje são os principais responsáveis pela devastação da Amazônia, com lucros incalculáveis e destruições alarmantes.
Entre as histórias sobre a esperança e a dignidade, lembro essa: Um velho, bem velhinho, estava plantando uma árvore quando um homem viu e disse: ‘Que bobagem você está fazendo. Essa é uma árvore que você não verá crescer, pois ela tardará muitos anos para crescer e você vai morrer antes’. O velhinho então disse calmamente: ‘Quando nasci o mundo já tinha árvores e aproveitei-as, logo, hoje planto para os que vão nascer’. Convém seguir plantando, dançando com a esperança, mesmo que seja noite, com a dignidade desse velho sábio.
As paixões movem o mundo, movem para o melhor, como são os caminhos da liberdade e da fraternidade, mas as paixões também movem para o pior do ser humano.
Quando ocorre o pior na sociedade, a esperança diminui, fica atordoada, mas um dia se recupera e volta ao baile da vida. Convém repetir o momento em que Sartre, já cego e próximo da morte, foi perguntado se ainda tinha esperança na humanidade. Disse: ‘Sim, mas a esperança precisa ser construída’. Portanto, a questão é como construir, criar caminhos para melhorar a vida, tanto a pessoal como a social. E o primeiro passo é a paciência, o que nunca é fácil, ao contrário, pois o imediatismo é um obstáculo a ser contornado.
Para construir a esperança é necessário o conhecimento sobre a psique, pois não é fácil mudar. O ser humano tem uma tendência a repetir seus comportamentos, tem uma compulsão à repetição. Já a nível social é diferente e mais difícil mudar, pois os poderosos, que já experimentaram o poder quase absoluto, ambicionam lucrar mais e mais, e aí se transformam em inimigos da democracia. Já ocorreu em vários países, e hoje retornou aqui com a fúria dos armados.
Construir imaginando o amanhã é o sonho amoroso é manter o entusiasmo na dança da esperança. Ninguém se cura de si próprio, mas estar próximos fortalece a manutenção da luta diante a elite perversa. Dançar em tempos sombrios no meio do terror, alivia o peso da existência e fortalece a dignidade. O gigante deitado em berço esplendido irá se erguer apesar da brutalidade das armas.
por Mauro Nadvorny | 18 ago, 2020 | Crônica
Ao Alvaro Costa e Silva, o Marechal, pela inspiração involuntária
Gaaarrafeiro ! Camiseta regata, bigode farto, às vezes boina, tamanco de madeira machucando a calçada, lá vinha aquele personagem empurrando o burro sem rabo. À espera de cascos velhos de garrafa que lhe rendiam alguns centavos. Era o português de almanaque, imigrante pobre que enfeitou bairros do Rio com seu sotaque carregado, sim senhor, doutoire, pança nos balcões de botecos oferecendo tremoços, seus pequenos varejos. Uma joia da nossa identidade.
Às vezes, os sons vinham adornados por aromas irresistíveis. O lig-lig, vendedor de pirulitos de açúcar queimado e biscoitos doces, se anunciava por uma pequena matraca. Algodão doce, terror dos pais e paraíso dos dentistas, envolvia o ambiente com a antessala do prazer. Nos finais de semana, o chamado para o almoço nos levava para o angu judaico, de apelido mameligue. O fubá, levemente endurecido e salpicado com doses generosas de queijo, era cortado pelos adultos com um barbante. Fascínio daquele ritual, que combinava os quase sussurros da pequena família com o aroma ancestral.
Pouco resta destes tipos, engolidos por uma modernidade cada vez mais impessoal. Ainda ouço o chamado do vassoureiro, vez por outra passa por aqui alguém comprando ferro velho. Desapareceu o amolador de faca, que chamava a atenção improvisando um instrumento musical. Usava a grande roda, que afiava facas e tesouras, para emitir um som agudo, friccionando-a contra uma haste de metal. Hoje, com facas que cortam até a luz dos teus olhos, o simpático amolador foi arquivado na gaveta de obsoletos.
Não se trata de nostalgia barata, agravada pela sensação de conviver com um mundo que se despedaça. Personagens e situações sobrevivem, a seu modo, na memória afetiva, nos diálogos que sugeriam. Um dia, como tudo, desaparecerão de vez. Ocorre que, como dizia o Barão de Itararé, há no ar mais do que aviões de carreira. As relações de trabalho por via remota ganharam grande impulso, e me pergunto se isso não é apenas um primeiro, e largo, passo para que as relações pessoais caminhem nessa direção. Estaremos nos tornando seres bidimensionais ?
Em artigo recente, Fernando Gabeira aborda a questão de forma inteligente. Com ironia, ou não ?, disse: “O país se transformou num imenso centro espírita, e nós baixamos nos computadores de conversa que chamamos de lives, mas poderiam também ser chamadas de deads”. O segundo tempo de qualquer encontro, quando as pessoas relaxam, tomam um cafezinho e trocam dois dedos de prosa, agora some na névoa virtual. Sei de um grupo de leitura, que se reúne mensalmente. Compartilham textos curtos e conversam sobre eles. Finda a leitura, sentam por algumas horas em torno de comes e bebes, e a vida corre frouxa, leve, importante. Os encontros estão suspensos e não acho que zoombidos os substituem. Os sentires são tridimensionais.
A vida em sociedade é cada vez mais mediada por máquinas e a velocidade das inovações não para de crescer. Acaba de surgir um programa de computador capaz de entender qualquer frase, de escrever textos complexos e coerentes. Consegue replicar o comportamento de personagens de livros, dando-lhes voz para opinar, por exemplo, sobre quando será a próxima pandemia. A ficção científica já se fez uma interrogação essencial: existirá um momento em que a máquina criará, por conta própria, um caminho independente do programador ? Ou, como desdobramento, conseguirá desligar-se dos humanos e criar territórios virtuais autônomos ? Como o computador Hal, do filme 2001: uma odisseia no espaço, e os androides do Exterminador do futuro.
Melhor não rir dessas hipóteses. O Homem, sempre curioso, está avançando em áreas até aqui tabus. Vejam só isso. Pesquisadores alemães e japoneses identificaram o gene regulador do desenvolvimento do córtex cerebral humano. Inseriram-no em embriões de micos, depois transplantados para o útero de uma fêmea mico. Em cem dias, verificaram que o cérebro do mico transgênico começava a adquirir configurações semelhantes ao dos primatas maiores, que somos nós. O laboratório conseguiu imitar o que a natureza levou milhões de anos para aprimorar. Analisando a experiência, o neurocientista Roberto Lent cravou: “Os computadores inteligentes podem ser controlados. Poderão sê-lo também os macacos humanizados, homens reinventados ?”. No que eu aconselho os cientistas: corram para rever O planeta dos macacos (o primeiro, com o Charlton Heston) !
Abraço. E coragem.