Coração partido

Na história das religiões e civilizações o coração tem sido a principal metáfora do amor. No “Cântico dos Cânticos” da Bíblia, já se usava a expressão “conquistar o coração” nas relações afetivas. E amor se associa tanto ao curativo do vazio como às feridas narcisistas das separações, é quando o coração é partido. Portanto, como as perdas ocorrem desde o nascimento até a morte, a história de cada um também pode ser escrita a partir dos sofrimentos. Um diferencial entre as pessoas são as reações diante das situações traumáticas, quando ocorrem desequilíbrios e crescem as vivências de desamparo. Por outro lado, são emocionantes as reações diante de histórias assustadoras, quando alguém consegue, recuperar a potência criativa. São muitas as explicações para os que caem e se levantam, como a maior possibilidade de suportar as frustrações, a capacidade negativa, a resiliência, entre outras. Entretanto, nada é melhor do que as histórias, pois são elas que revelam como o impossível acontece. São narrativas que ajudam a diminuir o peso das dores e fortalecem a coragem no amanhã.

Nos momentos de coração partido, é bom conhecer como outros viveram e lembrar a frase: “Nada mais inteiro que um coração partido”, que consta do Zohar, o trabalho essencial da literatura cabalística. Quanta verdade encerra essa frase poética, pois a tristeza das perdas envolve sentimentos intensos que podem ser cicatrizados no tempo. O coração partido como expressão de humanidade revela a vitalidade de sonhar. O coração quebra a cada perda, diante das ilusões perdidas, do desânimo político, da decepção com a condição humana. Anima conhecer como os demais suportam tragédias e encontram caminhos para se reerguer.

Nesse sentido impressiona a vida do diretor de cinema Roman Polanski, que se pode ver no excelente documentário “A vida em filmes”. Roman recorda sua vida no Gheto de Cracóvia dos seis aos doze anos, durante a Segunda Guerra Mundial. Perdeu cedo a mãe, morta pelos nazistas, mas a maior quebra de seu coração, ele diz, foi o assassinato de Sharon Tate, sua bela esposa grávida. Na entrevista aborda sua relação sexual com uma adolescente, fala como um erro grave e pagou por ele com uma prisão nos Estados Unidos e outra na Suíça e um pedido de desculpas à moça e sua família. Sua existência transcorreu entre altos e baixos, mas se diz um otimista, diz que vê sempre o copo meio cheio. O documentário mostra como Polanski suportou as quedas e festejou as conquistas sem queixar-se da vida.

Queixas e corações quebrados não faltam hoje no Brasil, que já foi definido como o país do carnaval, como se aqui só desfilassem alegrias. O choque vivido está no desconhecimento da História e na idealização de um país bom e pacífico. Nunca faltou desprezo e violência aos negros, índios e pobres neste país, situação que se mantém ainda hoje.

Diante das piores ditaduras, há ocorrências que desafiam a crueldade, tanto aqui como na História Mundial. Pensando na frieza que se vive aqui, na falta de empatia e humanidade, escolhi relatar sobre o menino e o olho de vidro. Os nazistas atacaram uma aldeia da Europa Oriental cercando o último reduto de resistência concentrado numa casa. Após horas de tiroteio, os soldados alemães conseguem entrar na habitação, onde estão todos mortos, menos um menino de dez anos. Forma-se um pelotão de fuzilamento, mas o comandante se aproxima do condenado e diz:“Não sou assassino de crianças e lhe dou uma chance para não morrer. Tenho um olho perfeito de vidro, e se você acertar qual é ficará livre”. O menino olhou bem e apontou um dos olhos e o comandante disse “Como você acertou qual era meu olho de vidro?”. O menino disse: “Ele tem algo de humano”.

Sobre a vida

Ela é fugaz

Carente de resoluções

De momentos singelos

Um por de sol

A explosão das cores primaveris

Respirar fundo em frente ao mar

Adormecer e despertar

Sem algemas

Punhos livres

Cabelos ao vento

Tendo apenas sentimentos como documento

Sem hora marcada

Vivendo apenas o momento

Ficar ou ir embora

Seguindo o ciclo lunar

Navegando em acordo com as marés

Perseguindo o sonho

Com a certeza de um novo dia

E que o sol irá raiar trazendo poesia

Não aceito a mão que oprime

Porque sou tudo o que a liberdade define

 

 

O rio que será

É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles (Lenin)

Hoje, meu tema seria outro, mas não tem jeito. Vai ter que esperar. As notícias sobre o Rio são tão devastadoras que não dá para passar batido. Não me refiro às imagens das praias no fim de semana, lotadas de gente inconsequente, negacionistas objetivos. O que desmonta a alma é a implosão política e administrativa da cidade. Estamos nos transformando numa espécie de academia de tipos caricatos, oportunistas, medíocres, subprodutos dos vários tons de demagogia. A destituição do governador Witzel é apenas mais um capítulo, bizarro sem dúvida, na fila de governantes criminosos eleitos nas últimas décadas. É bom não esquecer que todos eles tiveram cumplicidades partidárias, que foram da direita à esquerda. Não há ingênuos nessa história.

As consequências do assalto ao poder, no sentido literal e não da tomada do Palácio de Inverno, estão em todo canto. A cidade sangra, amputada de referências afetivas, desovando miséria em cada esquina e cada vez menos acolhedora. Clima propício para que uma espécie de depressão cidadã prospere, levando muita gente a abandonar o barco. Quantos já partiram, empobrecendo a ciência, a cultura, a ginga, o partido alto, o violão virtuoso, tão caros à tradição carioca ?

Jerry Seinfeld publicou artigo no New York Times, defendendo a cidade de New York, criticada em algumas redes sociais. Seinfeld, para quem não sabe, é comediante, criador da série considerada a melhor de todos os tempos. Ele se refere à choradeira de gente que lamenta que, com a pandemia, “todo mundo foi embora”. Reconhece a dureza dos tempos atuais, mas detona os que acreditam que tudo vai se resolver “remotamente”, por isso não faria diferença aonde se mora. Bobagem, rebate Jerry. Uma cidade tem focos de inspiração, uma espécie de personalidade que se coagula em espaços surpreendentes e em memórias em construção. São matéria viva em constante transformação. Nada que se possa resolver com bytes acelerados e conexões virtuais. Enfático, garante que “a cidade se recuperará, por conta de todos os verdadeiros nova-iorquinos, gente batalhadora que compreende a cidade e escolheu ficar para reconstruí-la”.

Gostaria de ter a convicção do Seinfeld. Minha única certeza imediata é de que, embora a razão jogue no sentido contrário, continuarei no Rio. O coração não dá bola para a sensatez. Praticamente todos os meus laços, meus traços, meus abraços, estão aqui. Uma vida que jamais se resumiu à impotência do lamento biliar. Uma pequena passagem ilustra isso. Durante anos, visitei regularmente a rua onde passei a infância. Passava em frente à vila de casas onde morei e dava uma rápida olhada. Tudo sempre parecia igual, engessado. Até que um dia, olhei para o fundo, onde havia um matagal, e um vento mudou a percepção. A árvore, sempre silenciosa e parada, se agitava, criando a sensação de movimento nos arredores. Que me incluíam. Toda a infância, toda a história, despertara. Era Galileu sorrindo. Eppur si muove.

Há focos de resistência, guerrilha que nos prepara para os tempos que virão. A UFRJ, que completa 100 anos, é um desses focos, centro de excelência didática e de criação científica. Ensino público de qualidade. Sou cria dela. Não teria tido acesso ao ensino superior se ele não fosse gratuito. Saí de uma espécie de bolha homogênea (antes da faculdade, só frequentei escolas judaicas) para o ambiente plural do Fundão. Gente de várias rendas e ideias. Turma de suburbanos, como eu, e de mauricinhos, que na época chamávamos de playboys. Salada que me abriu olhos.

Em meio a tanta incerteza e insegurança, uma convicção. A reconstrução do Rio terá que ser obra coletiva, arquitetura militante que talvez jamais tenhamos experimentado. É preciso que nos libertemos, de uma vez por todas, da cultura salvacionista, que cria santos e beatos ao invés de articuladores. Há muito trabalho pela frente, e ele vai além das tribunas virtuais e das carpideiras conformadas.

Petição para suspender envio de armas isralenses para a Rota

Uma petição foi apresentada, pelo ativista de Direitos Humanos Eitay Mack e outros, no Tribunal Distrital de Tel Aviv exigindo a suspensão de carregamentos de metralhadoras Negev para unidades policiais que realizam execuções extrajudiciais em favelas de São Paulo, Brasil

(30.8) Uma petição foi apresentada no Tribunal Distrital de Tel Aviv exigindo que o chefe da Divisão de Controle de Exportações de Defesa do Ministério da Defesa interrompa os carregamentos da metralhadoras Negev para unidades policiais que realizam execuções extrajudiciais em favelas de São Paulo, Brasil:

O IWI anunciou no dia 08/12/2020 que a Polícia Militar e a unidade da ROTA em São Paulo começaram a receber carregamentos da metralhadoras Negev 7,62.

A Polícia Militar de São Paulo, especialmente sua unidade ROTA, estão entre as unidades de polícia urbana mais violentas e assassinas do Brasil, com a maioria das vítimas de execuções extrajudiciais sendo pobres, afro-brasileiros ou mestiços, que vivem com mais de dois milhões de pessoas nas fevelas de São Paulo. .

O fato de a Polícia Militar de São Paulo e especialmente a unidade ROTA realizarem execuções extrajudiciais é bem conhecido e documentado em inúmeros relatos de autoridades governamentais no Brasil, nas Nações Unidas, nos Estados Unidos, em organismos internacionais e em investigações da imprensa brasileira e internacional.

A Polícia Militar de São Paulo e a unidade ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) não são unidades da Polícia Civil como as reconhecidas pelo Estado de Israel. Elas foram instituídas pela ditadura militar do Brasil, como parte da militarização daquele período. Elas são forças militares operando por métodos militares, que originalmente se destinavam não apenas a lidar com o crime comum, mas também com o fenômeno da “subversão”.

Desde o fim da ditadura militar em 1985 até hoje, pelo menos 15.000 pessoas foram mortas por policiais em São Paulo. Segundo relatório oficial da Controladoria da Polícia de São Paulo. Em 2018 policiais foram mortos “em serviço” e “fora de serviço”, dever “851 pessoas e em 2019, 867 pessoas foram mortas, sendo 95% delas mortas pela polícia militar. Em 2018 58 pessoas foram mortas pela unidade ROTA, e em 2019, 104 pessoas foram mortas por ela.

É verdade que o Brasil tem uma das maiores taxas de crimes violentos e homicídios do mundo, e que os pavilhões de São Palo são controlados pelo crime e gangues de drogas, mas em vez de prender suspeitos de crime, a Polícia Militar e especialmente a unidade ROTA executam os suspeitos, passantes e residentes nas prisões.

As execuções em São Paulo são realizadas tanto por policiais em serviço quanto por policiais fora de serviço como parte dos “esquadrões da morte” de policiais que executam assassinatos em troca de pagamento ou para “encerrar contas”. Ou seja, é possível que os policiais das unidades da Polícia Militar e da ROTA também utilizem metralhadoras Negev, nas horas vagas, para eliminar pessoas como uma milícia ou “esquadrão da morte”.

De acordo com os procedimentos e publicações do IDF sobre o uso da metralhadora Negev, e um parecer anexado à petição preparada pelo comandante do batalhão de reserva, Tuli Flint, a “Negev” é uma metralhadora leve automática para assalto e combate a céu aberto, que é projetada para disparar balas não permitindo disparos precisos. Dispara de 600 a 750 balas por minuto – Esta não é uma arma adequada para uma força policial operando em uma área residencial densamente povoada ou favelas em São Paulo, a menos que a intenção seja cometer um massacre.

Nesse contexto, em outubro de 1992, a Polícia Militar e a unidade ROTA, realizaram um massacre no Presídio do Carandiru, em São Paulo, onde dispararam cerca de 5.000 munições reais e mataram 111 presos. Em agosto de 2013, 25 policiais da unidade ROTA foram condenados por sua participação no massacre.

Assim como é inconcebível que policiais no Estado de Israel usem metralhadoras Negev e executem criminosos e civis sem julgamento, também é inconcebível que o Ministério da Defesa e o IWI ajudem no seu uso no Brasil.

Nessas circunstâncias, a petição argumentou que a liderança da API deveria suspender imediatamente a exportação da metralhadoras Negev para a Polícia Militar e para a unidade da ROTA em São Paulo.

A petição foi apresentada junto com a ativista de direitos humanos Aya Gabriel, Nora Bendersky, Dra. Julia Zeitin, Prof. Ruth HaCohen Pinchover, Dra. Shani Pace, Ariel Neizena, ou Ben David, Prof. Orly Binyamin, D. Rabino Hila Dayan, seu irmão Shatz, Hannah Berg, Dr. Yishai Menuchin, Omer Arvili, Rachel Hayut, Dr. Yonatan Nissim Gaz, Efrat Levy, Yael Agmon, Roni Sagoli, Musi Raz, Dr. Hannah Bibliotecária, Edith Breslaur, Noni Tal, Tal Haran, Dra. Zivia Shapira, Shirley Nadav, Dra. Snait Gisis, Naftali Orner, Miako Glico, Dafna Banai, Avshalom Rob, Prof. Gideon Freudenthal, Sigal Kook Avivi, Yehudit Elkana, Guy Botvia, Shoshana London Sapir, Tamar Cohen, Raya Rotem, Dr. Ruhama Merton, Bilha Golan Sonderman, Dr. Gilad Lieberman, Dalia Kerstein, Prof. Nurit Peled Elchanan, Yair Bonzel, Dra. Batina Birmans, Marie Bonzel, Sharon Gamzo, Guy Hirschfeld, Eli Aminov, Daniela Yoel, Dra. Ilana Hamerman Nirad, Daniel Silverman, Naomi Kirshner, Zehava Greenfeld, Ofer Neiman, Alona Cohen, Naftali Sapir, Dr. Anat Matar, Chaya Ofek, Vered Bitan, Itamar Figenbaum, Galia Brand, Shaul Cherikover, Tzila Goldenberg, Haim Schwarzenberg, Avishai Halavi, Irit Halavi, Prof. Veronica Cohen, Dr. Eliot Cohen, Gadi Shen Yitzar, Smadar Ya’aron, Tamar Lehan, Amir Bitan, Oded Efrati, Prof. Ben Zion Munitz, Naomi Schur, Jessica Npomanch, Amnon Lutenberg, Meira Asher e Shahaf Wisbin.

Não chore por mim Brasil

Democracia é um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal.

Eis acima, uma boa definição de democracia, segundo a Wikipédia. Cada cidadão representa um voto e participa de eleições livres regimentares para eleger aqueles que segundo suas convicções, o melhor representa para criar as leis.

Como explicar, por exemplo, que nos últimos 30 anos, todos os governadores do Rio de Janeiro, a exceção de Benedita da Silva (mulher, negra e Petista), se envolveram em corrupção? O mais recente, o Sr. Witzel, um juiz fanfarrão eleito justamente para combater a corrupção. Um cidadão pode se equivocar uma vez, duas, mas eleger continuamente corruptos é uma façanha digna do Guinnes World Records.

Muitos destes corruptos se elegeram quando nem havia Internet com sua fábrica de Fake News. A grande maioria, políticos conhecidos cujos partidos combateram a ditadura. Figuras marcantes do cenário nacional.

E por falar em cenário nacional, a presidência do Brasil também mostra que a nossa democracia ainda é uma utopia. Desde que voltamos a eleger um presidente por voto direto, Fernando Collor foi o primeiro deles. Seu mandato acabou com dois anos em Impeachment. Depois dele, Itamar Franco, seu vice, completou o mandato. Então veio Fernando Henrique Cardoso que numa manobra regimental permaneceu 6 anos deixando um rastro de destruição econômica e miséria. Lula governou por 4 anos e foi reeleito por mais 4. O melhor presidente do Brasil passou o bastão para Dilma Rousseff que depois de um mandato de 4 anos, foi reeleita e deposta por um golpe branco através do Impeachment. Seu vice, Michel Temer concluiu o mandato e  tivemos a eleição de Jair Bolsonaro e sua família miliciana.

Fernando Henrique e Lula foram os únicos que governaram pelos anos para os quais foram eleitos. Antes e depois, somente problemas cujas causas estão justamente na incapacidade da democracia brasileira como uma solução para o desenvolvimento do país.

Nossas instituições acabaram contaminadas pela corrupção política. Um juiz de ocasião, manipulou o julgamento de um ex-presidente para condená-lo por crimes que não cometeu baseado em convicções ideológicas. Envolveu o Ministério Público e em trabalho conjunto construíram uma narrativa ficcional que levou Lula a prisão depois de confirmado em segunda instância Tudo com o objetivo de retirá-lo das eleições onde era apontado como favorito. E claro, este juiz se tornou Ministro da Justiça do vencedor.

Nem mesmo nossa mais alta corte escapa do que se poderia chamar de democracia tupiniquim. Funcionam como um quarto poder. Seus integrantes determinam investigações que eles próprios julgam e promulgam a pena.

E assim, vamos vendo que praticamente todas as instâncias da república estão contaminadas ideologicamente, de uma forma, ou de outra. O Ministério da Justiça cria um dossiê sobre funcionários públicos antifascistas. O ministério do Meio Ambiente protege os destruidores da Floresta Amazônica. O Ministério da Saúde não tem ministro para combater o Covid-19. Na presidência um inepto.

Com as eleições para vereadores e prefeitos se aproximando, o que esperar delas. Quais partidos trazem soluções reais para as cidades que desejam governar? Teremos o voto ideológico, emocional, a cabresto, ou responsável?

O Brasil pode ter se reencontrado com a democracia, mas a democracia não encontrou ainda o Brasil. O fato de não corrermos perigo de uma volta dos milicos ao poder, não significa que não tenhamos a frente outros inimigos tão ruins como, ou ainda piores. Um governo federal tomado pela milícia é um bom exemplo.

Por enquanto o Covid-19 encobre a realidade como uma capa sobre o que de fato está acontecendo. Em breve a capa será removida, a realidade do estrago causado pelos Bolsonaros saltará a vista e a conta será cobrada.

Nas eleições de novembro teremos um termômetro do que está de fato acontecendo. Bolsonaro é maioria, ou a resistência vai superá-lo. Enquanto isso a democracia dorme no colo da esperança, ambas prisioneiras da escuridão. Tomara acordem em breve e  saiam a luz de mãos dadas.

Conduta: expectante

No processo de formação médica aprendemos a lidar com as situações de acordo com os potenciais desfechos que uma dada situação clínica pode evoluir. Há duas formas de se conduzir diante delas. A primeira, é interferir. Em outras palavras, acionar o melhor do conhecimento médico e da ciência em favor do paciente, com o seu consentimento, obviamente. A segunda, diante de um impasse resultante de uma conjunção de fatores que se por um lado não permitem uma visão diagnóstica minimamente precisa, ou por outro lado não apresenta qualquer ameaça ao paciente em questão ou parece ser mesmo a evolução natural de um dado processo, é simplesmente aguardar e observar, o que chamamos tecnicamente de “conduta expectante”.

No ano de 2005 iniciou-se a AP 470 no STF,vulgo  “mensalão”, talvez o marco inicial do processo de partidarização do Poder Judiciário Brasileiro na sua instância máxima, desde o início eivado de heterodoxias que consigno desde já à farta literatura sobre o tema. Mais adiante, 7 ou 8 anos após, inicia-se a colheita desta primeira plantação das primeiras sementes derivadas dos frutos desta primeira árvore podre, que foi a Operação Lava-a-Jato, uma espécie de privatização do “mensalão” levada a cabo por uma verdadeira neorrepública jurídico-midiática sediada no estado do Paraná, que veio a tornar-se um “case” na história da justiça brasileira.

Nestes 6 anos últimos vimos numerosas decisões no STF marcadas pela votação “6 a 5”, todas elas marcadas pelas potenciais consequências nos processos políticos do país, no bojo das quais podemos ler as mais estapafúrdias justificativas para se lubrificar com óleo queimado as engrenagens das burlas constitucionais, em meio às quais, por exemplo, o julgamento da ADIN 1923 que por 7 a 4 considerou constitucional a lei que criou as malfadadas Organizações Sociais (verdadeiras empresas privadas voltadas ao gerenciamento de bens e serviços públicos) fazendo assim em frangalhos o artigo 37 da CF que versa sobre os critérios de ingresso e trabalho no setor público. Cito este exemplo específico pois está relacionado com o que vem a seguir.

A análise clínica de sinais e sintomas não permite outro diagnóstico: Quando um tribunal supremo divide-se meio a meio em tantas decisões que versam sobre princípios fundamentais, está claro que esta corte está partidarizada. Pois nenhuma outra situação admitiria tal divisão que na maioria absoluta das vezes teve as mesmas pessoas de um lado ou de outro. E se a visão partidária penetrou tão profundamente no tribunal, a justiça saiu pela porta dos fundos. Para efeito também ilustrativo, a interpretação de Gilmar Mendes ao negar a posse de Chefe da Casa Civil ao então ex-presidente Lula, sob alegação vazia de “desvio de finalidade” baseada em prova ilegal publicada pelo conluio Moro-Globo não resiste à lógica de um impúbere. Se por um lado, a atividade do ex-presidente não poderia ser outra a não ser coordenar a relação entre executivo e legislativo sob livre e inquestionável escolha da Presidenta Dilma, por outro lado, jamais poderia caracterizar-se como “fuga da justiça” salvo se o STF por combinação prévia com os russos abdicasse de sua função de processar e julgar ministros de estado, o que lhes caberia caso Lula assumisse seu cargo.

Encerrando-se aqui a fase dos “considerandos”, vamos à pauta. Witzel foi deposto por um instrumento que com muita generosidade poderia ser chamado de golpe. Não mais aquele golpe mirabolante, sofisticado e faraônico orquestrado para depor a Presidenta Dilma. Desta vez, foi a tal “boiada”. Uma sentença monocrática proferida contra um governante eleito (que abomino, fique claro) sem direito de defesa baseada em delação premiada que ao momento da sentença falava em valores financeiros desprezíveis diante dos valores habituais dos tribunais superiores. Mais uma heterodoxia a seguir o padrão decadente do judiciário que ainda não levantou-se do tombo causado por uma outra sentença monocrática que concedeu prisão domiciliar a uma foragida da justiça que sequer havia pisado em algum tribunal ou foro.

Aqui, faço a conexão com a acima citada ADIN 1923. Fosse considerada inconstitucional (que é e sempre será, não me importando o que o STF julgou com 4 votos contrários), Witzel não estaria nesta quadra, pois o material apresentado contra ele versa justamente sobre relações de governo com Organizações Sociais de Saúde (OSS), que sob a vista grossa do STF foram instituídas justamente para servir de propinodutos sob fachada de legalidade.

Temos aqui portanto um sistema gravemente doente. Uma mutação iniciada em 2005 no coração do judiciário deu origem a um tumor que por sua vez e como de hábito serve as metástases ao corpo da república.

Minha dupla militância (medicina e política) pode e deve exigir de mim os devidos diagnósticos e propostas terapêuticas. Claro que nestes 15 anos jamais me omiti em alertar o “paciente” das graves consequências de não se tratar o tumor original ou lesão primária, e certamente não fui o único. Mas, da mesma forma que o país engoliu a inércia do atual presidente quanto à atual pandemia de COVID-19 e normalizou o ciclo “doença evitável/morte aceitável”, o país também normalizou a lógica do câncer jurídico e sua infiltração na política.

Vejo muita gente – que respeito, diga-se – denunciando o golpe sofrido por Witzel e a inaceitabilidade da situação, propondo o mesmo comportamento que o setor progressista teve diante do golpe de 2016 seja agora empreendido, em uma tentativa ingênua, ao meu ver, de “medicar” um paciente terminal.

Normalmente os tumores morrem junto com seus hospedeiros, criando entre os pensantes a questão filosófica sobre sua natureza e eventuais objetivos, e que parece não ter resposta ao nosso alcance. No caso de nossa combalida república, parece que o tumor sobreviveria e sobreviverá à morte do corpo. Afinal, procuradores e juízes desfrutam da vitaliciedade e inamovibilidade que as células cancerosas ainda não obtiveram.

De fato, no que depende de meu ânimo, não consigo comemorar a queda de Witzel. Até porque, feita nesta precocidade, não permitiu que conhecêssemos melhor este agente que por um bom tempo funcionou como aquela neovascularização que leva oxigênio e nutrientes aos tumores e suas metástases. Mas por outro lado, não tenho ânimo para neste momento da história natural da doença me contrapor a um mal tão grande e há tanto tempo criando raízes no corpo já em decomposição de nossa democracia.

Com um pouco de sorte, talvez possamos ver as metástases entrando em guerra fratricida. Mas a imunologia de nossa sociedade, corroída até a medula pela hipocrisia e envenenada com cloroquina e outros tóxicos, certamente não dá conta deste tumor. Só resta mesmo, neste caso, a conduta expectante. Submeto-me às críticas, tacitamente. Mas não vou sair de casa para salvar Witzel, comido pelo tumor que ajudou a alimentar.