por Mauro Nadvorny | 12 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Israel, Opinião, Política
O voto pelo perdão das dívidas das Igrejas no Brasil de parte do PT e pela totalidade da bancada do PCdoB, e o colapso na gerência da pandemia em Israel, tem muito mais a ver do que parece a primeira vista. É a política mostrando suas incoerências, ou coerências, dependendo da perspectiva de quem lê. É a religião se prosmicuindo com a política.
A nota o PCdoB, para explicar seu voto, entre outras coisas disse o seguinte: ”Para o PCdoB, a ação fiscal do Estado deve estar dirigida ao combate à fraude e ser direcionada prioritariamente aos grandes sonegadores, às pessoas físicas detentoras de grande patrimônio e não mirar ações sociais realizadas por instituições religiosas.”
Em outras palavras, o partido justifica o seu voto ao lado de todos os partidos de centro, direita e extrema direita, com a justificativa de que não se deve cobrar imposto das igrejas, deve-se sim, cobrar dos grandes fraudadores.
Do outro lado do mundo, o governo israelense que havia se saído com mérito no combate a pandemia na primeira onda, se viu obrigado agora a impor um novo lockdown de duas semanas no país depois de chegar a mais de 4500 infectados em um único dia desta semana.
Como é possível tal desastre? Aqui também existe o fator religioso. O Covid-19 impera principalmente nas localidades de judeus ultra-relogiosos e nas árabes. Em ambas, o uso de máscaras, luvas e evitar aglomerações é desrespeitado a luz do dia e a noite. Casamentos com milhares de convidados, desobedecendo as normas, vem sendo uma constante nestes lugares.
O governo tentou uma solução paliativa. Criou o sistema de cores por cidades e aldeias e tentou impor um lockdown nas localidades de cor vermelha. Os partidos religiosos se rebelaram e ameaçaram deixar o governo. Por fim, aceitaram um lockdown a noite, mesmo assim desrespeitado, e que todos sabiam, uma medida inócua.
Com o número de novos doentes diários subindo as alturas, não teve remédio, e a única opção, antes do colapso do sistema de saúde, foi o lockdown geral. Era o que ninguém queria, é o que todos vão ter. Infelizmente, a política da sobrevivência do governo foi imperativa. Se não é possível uma quarentena somente onde é mais necessário, vamos todos entrar nela.
Por trás destes dois eventos, está a relação religião e estado. O fato é que o PCdoB sabe perfeitamente que nem todo religioso é anticomunista e que boa parte do seu eleitorado é composto de crentes. Estas pessoas precisam dos seus templos abertos e, como explicam (sic), o governo não pode cobrar impostos de locais de culto. Nem vou falar da casa do Bispo Macedo.
Em Israel, os partidos religiosos há muito se tornaram partidos ideologicamente de direita. Seus 15 votos em média, são cruciais para a formação de um governo no sistema parlamentarista. Seu peso portanto extrapola em muito os cerca de 12,5% de representatividade que possuem. Mesmo assim, são cortejados e sabem do seu valor para literalmente chantagear o primeiro ministro com suas exigências. Por conta disso, o país inteiro vai parar durante 15 dias e terá enormes restrições nas duas semanas seguintes.
O fato é, que quando se trata de política, a separação dela do estado, vira uma obra de ficção. O estado em ambos os países, Brasil e Israel é laico no papel, na prática o que acontece é uma submissão as necessidades de cada um. Diante da necessidade de angariar votos, ou de formar um governo, é a religião quem dá a última palavra.
Não acredito que caiba uma discussão sobre as questões éticas e morais do que verdadeiramente acontece. Não existe uma solução democrática para isso. Onde ocorrem eleições democráticas, sempre vamos ter este problema. Uma discussão neste sentido não vai levar a lugar nenhum.
O que fica é aquela sensação de ironia no ar. No Brasil, comunistas votando junto com fascistas. Em Israel, uma coalizão formada para resolver o problema da pandemia, não podendo resolver coisa alguma, e portanto, podendo se dispersar e convocar novas eleições.
E assim caminha a humanidade.
por Mauro Nadvorny | 11 set, 2020 | Crônica
O viciado em leitura olha excitado uma biblioteca, a casa onde os livros dormem. O livro fechado é um objeto morto, só vive quando aberto. O livro chama o leitor, uma atração como um ímã, uma sedução irresistível como o canto das sereias da “Odisseia”. Um dia, eu estava na cidade de Perugia, diante de uma pequena biblioteca de livros italianos. Um chamou minha atenção pelo título, abri e aos poucos fui decifrando, pois o italiano não é grego, mas não é fácil. Passei horas com o pequeno volume vermelho, era uma edição simples, composta por mensagens de condenados à morte, os partisans da Resistência Italiana. Resistência construída durante a Segunda Guerra Mundial, em especial a partir de 1943. Ler as últimas palavras de jovens, escritas na noite que antecedia as execuções, foi angustiante.
Todo o dia lia mais algumas das mensagens tristonhas, eram despedidas da vida. A introdução do livro esclarecia que todos os condenados tinham sido mortos por pelotões de fuzilamento. Haviam lutado contra o fascismo e o nazismo, e nos bilhetes constavam as idades dos partisans, que eram em torno de vinte a vinte e cinco anos. Um ou outro tinha trinta e só um quarenta anos, era casado, escreveu primeiro à esposa, que conhecera na adolescência, e se despediu dela e depois de cada um dos seus filhos, bem como dos pais e de uma irmã. Lembro que ao terminar de ler e reler essa carta fechei o livro para respirar diante das lágrimas das palavras. Um livro, as vezes, requer uma leitura lenta, afinal lia as palavras essenciais na vida de quem já vai morrer, sua última mensagem. Frases que expressavam gratidão aos seus, e o encorajamento para os seus amores seguirem a vida.
Os condenados entraram na Resistência sabendo da possibilidade da morte, e escreveram que morriam com o sentimento de terem lutado no lado certo da vida. Combateram o fascismo, a extrema direita, aliado histórico dos nazistas. Todos os dias dediquei algum tempo ao livrinho vermelho, era uma dor ler jovens sabendo que em horas mais estariam mortos, e um alívio estar vivo e no outro dia não enfrentar um pelotão de fuzilamento. Alguns comentaram que não iriam ter tempo de ter filhos, outros até de se casarem. O denominador comum nas cartas eram duas palavras: uma, a gratidão por serem italianos antifascistas, outra, o amor aos seus familiares. Todas as resistências às ditaduras envolvem desafios pessoais, opções existenciais.
Nas leituras das cartas se pode perceber, mais uma vez, como a morte e o amor, o amor e a morte se encontram. Não por acaso, um versículo da Bíblia é um canto repetido do Cântico dos Cânticos: “O amor é forte como a morte”(8,6). No meio da crueldade o amor insiste, resiste, se mantém forte, é a vivacidade pura da vida. O escritor Macedonio Fernández, mestre de Jorge Luis Borges, escreveu que a morte vence a vida, mas o amor vence a morte. Depois da morte o amor segue vivo na vida dos vivos, vivo e gerando efeitos amorosos. Com o tempo os mortos passam a ser os visitantes noturnos através dos sonhos.
Um sonho pode se manifestar como pesadelo, mas sempre é melhor assim que um pesadelo real como se vive hoje aqui. Nossa história é marcada por regimes ditatoriais ditados por medíocres, dominado por Forças Desalmadas, que permitem intervalos democráticos. Para quem está triste, desanimado, e são muitos, vale a pena ler, ver filmes sobre a resistência tanto ao nazismo e ao fascismo, como as ditaduras militares. E escutar a música “Bella Ciao”, hino da Resistência Italiana, que se transformou no hino mundial contra o autoritarismo. E imaginar o vento secando as lágrimas, e o amor voltando a brilhar.
por Mauro Nadvorny | 10 set, 2020 | Crônica
Marina, Morena Marina, Você Se Pintou
Marina , Você Faça Tudo
Mas faça um favor…
Lembro perfeitamente o dia que descobri que no Brasil existem vários brasis. Aqui narro: Certa feita, uma moça , negra foi fazer um trabalho lá em casa e levou a filha da minha idade. A menina, que só vi uma vez e não lembro o nome, ao entrar no meu quarto, ficou maravilhada com as Suzies, fogõezinhos de brinquedo feitos para treinar as meninas a serem donas de casa, aquele monte de tralha de criança de classe média. Minha mãe avisou que iríamos lanchar. E sabe-se lá porque essa criança começou a me falar, com deleite, do pão que havia comido na casa de uma patroa de sua mãe.E repetia sem parar:”Mas era um pão com muita manteiga, muita manteiga”.Logo depois mamãe surgiu com um misto quente para cada uma, eu devorei o meu como bárbara que sou e ela comia devagarzinho, como se quisesse que aquele gosto ficasse na lembrança. Sua mãe chamou, elas se foram e nunca mais as vi. Era um trabalho avulso, acho que a mãe foi substituir uma passadeira que havia faltado.
Sei que fiquei incomodada com o “muita manteiga”.Não era boba, sabia que não podia ser pelo fato dela ser aficionada por essa comida tão trivial. Sozinha entendi o óbvio: Se deseja o que se falta.
Apesar de nascida e criada no Rio, uma cidade que expõe suas diferenças sociais na própria geografia, minha vida se resumia a escola de classe media, colegas do mesmo meio, carro pra levar e buscar na escola e férias em Valença, visitando o sítio que minha avó morava.
Só que a gente vai crescendo, vai olhando ao redor e ter pais esquerdistas e avô comunista ajudam bastante nesse processo. Ainda assim foi com dificuldade que entendi que esses brasis não apenas existem como também se misturam num mesmo espaço. Eles coexistem.
Essa percepção me chegou através de Maria das Dores.Das Dores era ex-interna do hospital psiquiátrico, não tinha família e foi acolhida lá em casa pelos meus pais como vários outros.Era nossa babá.Negra, magrinha, fala rápida, o Brasil de Das Dores era representado por um poster de Amado Batista na parede, Revista Sétimo Céu e um repertório musical completamente diferente do que se costumava ouvir fora dos limites do seu quarto.
Enquanto no mundo dos meus pais e avós imperava Chico Buarque ,muita bossa nova, o jazz da Ella Fitzgerald e uma biblioteca repleta de livros clássicos, no mundo de Das Dores eu mergulhava nas fotonovelas. O programa do Chacrinha também ajudava nessa travessia. Meu avô Arthur, intelectual de porte, não perdia. E eu ficava lá ao lado dele, dividindo o biscoito maisena piraquê com suco de caju, assistindo aquela loucura. No mesmo palco cantava Caetano, logo depois chamavam Almir Rogério. As chacretes e suas botas platinadas de Barbarellas tupiniquins me fascinavam..Quando crescesse, queria ser chacrete. Era meta de vida. O Programa do Chacrinha era o retrato do Brasil.E sim, Abelardo era um gênio.
Essa é a minha lembrança do que eram as músicas populares daquele Brasil dos anos 70.Toda essa rememoração veio através de uma discussão em um grupo que faço parte entre um dos membros e minha amiga Marina Costim. O post em questão falava que Paulo Coelho era ruim de ler, era um autor menor. Marina , firme, defendeu que foi através dele, tanto ela quanto sua geração, que começou a tomar gosto pela leitura. E eu que sou uma intrometida, lembrei que falem o que quiserem mas a historia do Mago é sensacional. Lembrei que só fui saber já bem velha que o meu eterno ídolo Sidney Magal era cover de um cantor argentino de sucesso chamado Sandro.E que quem fazia as traduções das músicas era ninguém mais, ninguém menos, que Paulo Coelho.
Fui tão fascinada pelo Sidney Magal e sua eterna Sandra Rosa Madalena, que guardo profunda inveja de amiguinha que foi ao show dele, foi chamada ao palco e recebeu das mãos dele uma rosa vermelha e um beijo na bochecha. Nem mesmo Ney Matogrosso, meu ídolo máximo, que num show dedicado a Ângela Maria, desceu do palco e dançou babaloo exclusivamente para mim me fez debelar essa inveja.
Não cabe aqui nesse texto discutir sobre o que se considero alta ou baixa cultura. Até porque essas nomenclaturas para mim não importam , deixo isso para os acadêmicos .O que posso falar, da minha vivência, é que existe uma enorme afetividade da minha parte em relação a esses músicos considerados “cafonas”, que fizeram sua história na década de setenta. Foi lendo o definitivo livro de Paulo César de Araújo, historiador, jornalista e escritor “Eu Não Sou cachorro Não” que pude ter compreensão de fatos que até então me passavam batidos. Paulo César, ele mesmo de familia humilde, filho de lavrador de Vitoria da Conquista, ao querer escrever um livro sobre a dita musica cafona da década de setenta, ´percebeu que nada constava na historiografia musical oficial. É uma musica que nasceu bem longe do apartamento da família Leão em Copacabana.É o preconceito que grita.É uma musica banal, óbvia, direta, sentimental, rotineira, palavras do próprio Paulo Cesar.
Independente de ser consumida do Oiapoque ao Chuí, de seus cantores serem recordistas de venda, ao invés desse fato ser visto como uma vitória, é tomado como um defeito.
Paulo César diz que ao contrário das musicas engajadas, de Chico, Caetano, Gil, a musica cafona , para determinados críticos, atuaria como elemento alienante para o povo, daí o desprezo dos historiadores. Lêdo engano.A censura era para todos. Exemplos não faltam. Waldick Soriano quis regravar um bolero dos anos 50 e foi impedido. O título era “Torturas de Amor”.Tortura era a última palavra que poderia existir naqueles tempos numa musica.
Odair José que o diga, Vindo de Morrinhos, interior de Goiás, veio tentar sucesso no Rio.Sem apadrinhamento, sem dinheiro,não foram poucas as vezes que dormiu em escada de hospital para ter uma noite de sono.Odair, que recebeu a alcunha de Bob Dylan da Central, cantava para seu público. Suas músicas eram verdadeiras crônicas .Suas letras eram dedicadas as empregadas domésticas (que nem tinham registro oficial) , as mulheres do baixo meretrício (Eu Vou Tirar Você Desse Lugar) e aquelas mulheres que por necessidade estavam se inserindo no mercado de trabalho. Eram musicas que falavam a alma. Almas que passavam bem longe de barquinhos a navegar.
Morei numa cidade do interior do Rio, dei aulas na universidade de lá e por ser jovem, meio que fui adotada por um grupo de senhores professores do IME. Um deles me contou algo que nunca esqueci. Primeiro sobre a velha tríade da cidade brasileira: Por menor que seja há de se ter uma igreja, um campo de futebol e um puteiro. Engenheiro militar, muitas vezes ia parar em lugares impensáveis, num desses rincões do Brasil, que funcionavam com gerador.Seis da tarde, tudo fechado, menos a casa de tolerância, que sabe-se lá como sempre tinha cerveja gelada.E não era incomum ver uma prostituta, sozinha, diante de uma garrafa cerveja, chorando ao som de Odair José. Não se trata aqui de glamourizar a prostituição e sim de falar que esse sim era o som do Brasil Grande.
Odair, com sua Pare de Tomar a Pílula, tratando de um assunto tabu, acabou caindo nas garras da censura e do governo militar .Numa entrevista ao jornalista Silvio Essinger ele narra: Eu fazia shows pelo Brasil. Uma vez, no Espírito Santo, numa faculdade, me pediram para tocar a “Pílula”. Como estava no interior, cantei, achando que não ia acontecer nada. Mas, naquele mesmo dia, tive que ir prestar depoimento. Depois, a gravadora me levou a Brasília para tentar entender por que a música não poderia ser tocada, e foi só aí que me explicaram o motivo. O governo tinha um programa de distribuição de pílulas nos hospitais públicos, então como é que poderiam permitir uma música chamada “Pare de tomar a pílula”? O programa do governo fracassou. Minha música está aí até hoje.
O estrago maior do regime foi a autocensura. Passei a ter medo da forma como colocava as coisas no papel. Fiquei mentalmente amarrado, tinha dificuldade para compor. Perdi o pique. A música foi proibida de tocar não só no Brasil, como em toda a América Latina..Portanto, não foi por não desafiar a censura que esses cantores dito “cafonas” ficaram excluídos da historiografia musical do Brasil.
E sim, as musicas tocavam a minha alma infantil. Chorei baldes de lágrimas ouvindo Menina da Cadeira de Rodas, de Fernando Mendes. Apesar de ter vários senões em relação a Agnaldo Timoteo, não há como negar sua importância. Quando canta A Galeria do Amor, está a falar da Galeria Alaska, reduto gay do Rio de Janeiro.Se isso não é coragem, não sei que nome dar. Agnaldo como quase todo musico dessa vertente, começou trabalhando cedo, para ajudar sua mãe. Mas sua madrinha foi a maravilhosa Ângela Maria, de quem foi motorista e quem o lançou como cantor.
Há uma história fantástica e deliciosamente improvável narrada por Paulo Cesar.Apesar de estilos e turmas diferentes, Agnaldo e Gonzaguinha desenvolveram uma bela amizade.Gravavam na mesma gravadora e muitas vezes Gonzaguinha ia para a casa do amigo, tomar aquele uisque fim de noite.Numa dessas Agnaldo contou sobre o seu amor, Paulinho.Um rapaz mais jovem, bonito, a quem Agnaldo dava tudo que podia e por quem realmente era apaixonado. Paulinho porém, a cada viagem de Agnaldo, ia se aventurar por aí. E quando sabia disso, Agnaldo morria por dentro. Quem nunca? Ao mesmo tempo que o queria longe da vida, não suportava a dor da perda. Foi com essa historia que Gonzaguinha escreveu, na mesma noite, Grito de Alerta, imortalizada na voz da Bethania.
Nosso caso é uma porta entreaberta
E eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta Veja bem,
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não
Essas pessoas fabulosas fizeram parte da minha vida.Vanusa, Nelson Ned, Antonio Marcos, Almir Rogerio, Perla e sua beleza guarani e tantos outros. Sim, era o som do Brasil Grande. Era o som da Maria das Dores .E provavelmente era o som que a garotinha da manteiga ouvia em casa. Meu enorme respeito e carinho por essas pessoas. Li na Piauí que Paulo Cesar de Araújo desenvolveu uma amizade com João Glberto, numa dessas coincidencias estranhas da vida. E passaram a se telefonar.João Gilberto aconselhou-o a ir em busca do pai lavrador, que havia se distanciado da família.E, quando finalmente o gênio da bossa nova e o historiador foram apresentados pessoalmente João Gilberto disse:”Eu sou o João”.E Paulo Cesar de Araújo, apenas respondeu:”Eu sou o Brasil”.
PS: O texto é dedicado a Marina Costim e por isso a epigrafe de Caymmi. Mais do que isso, é preciso dizer, que num encontro entre o velho baiano e Odair, o que Dorival falou foi:”Rapaz, ninguém nunca fez uma musica de puta como você nesse país, que beleza!”.Se isso não é Brasil, não sei o que é.
PS2:Para quem se interessar, histórias deliciosas e muitas críticas pertinentes no livro de Paulo César de Araújo.ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de janeiro: Record, 2010. 7ª. Ed.
por Mauro Nadvorny | 7 set, 2020 | Crônica
A faxina que não termina acabou me levando a um velho dicionário. Olhei a lombada castigada pelo tempo, os dedos escorregaram para a primeira página. Lá estava. A dedicatória ao Menino, desejando que continuasse a ser “o ótimo aluno que tem sido”. Tios e primos não tinham como saber, mas aquilo foi recebido não como a declaração de bem-querença, de afeto, mas como um imperativo que exigia dedicação monástica, o “melhor aluno” era uma prova atlética de quem se exigia nada menos do que a medalha de ouro. Sempre. Uma carga que deixou não poucas cicatrizes.
O documentário de João Moreira Salles sobre Nelson Freire captou um raro momento de sorriso do enorme pianista. Ele aponta para uma tela que exibia um solo de Errol Garner. O jazzista praticamente brincava com as teclas do piano, intimidade quase erótica que desabrochava em alegria. Para Garner, tocar piano, improvisar, era um grande prazer. Pois Nelson disse invejá-lo. Claro que não se referia a questões técnicas, mas ao espírito livre de cobranças, à leveza de quem não está obrigado a bater recordes olímpicos em cada apresentação. Pelo que se conhece da biografia do mineiro, a música redimiu uma infância solitária e angustiada. Nós, ouvintes encantados pela sua arte, ganhamos um pianista genial. No entanto, o custo para ele foi pesado. Difícil conciliar o prazer de tocar com a leveza, impossível ?, de viver.
Henry Cole, também pianista, personagem do filme A última nota, passava por uma crise. Começou a ter lapsos no meio dos concertos, imperdoáveis para um músico erudito de sua categoria. Conversando com uma amiga, falou sobre como percebia o público. Tinha a impressão de que ninguém se interessava verdadeiramente pelas músicas, de resto velhas conhecidas. Todos esperavam, sádicos ora essa, que ele tocasse um bemol fora de hora, ou pior, glória !, que esquecesse um acorde inteiro. Comparava com as exibições dos trapezistas. Segundo a neura de Cole, a torcida sempre é para que o trapezista se desequilibre e se esborrache. Peso, cobrança.
O Menino jogava suas peladas sempre descalço. Bailava sem precisar de sapatilhas. Um olheiro intuiu o craque (!) por trás daquele moleque e o convidou para treinar num clube tijucano. Como mandava o figurino. Tênis, meião, uniforme. Quando terminou de vestir a camiseta, teve a estranha sensação de estar entalado numa armadura. Dito e mal-feito. Observado pelo técnico, juiz implacável, suas asas foram decepadas. Não conseguiu dar um drible, um passe arrojado. Esquentou o banco até ser logo cortado. Voltou alegre para o campinho de cimento áspero, as balizas de chinelos velhos e as orgulhosas cicatrizes da infância. Peso, cobrança.
Do dicionário cobrador à ilusão de que toda a sabedoria está concentrada nos livros foi um pequeno salto. Levei muita bordoada até me livrar da tradição bacharelesca, bem conveniente para um tímido. Há muita vida fora do papel e isso nem sempre é óbvio. Aqui cabe citar Washington Novaes, jornalista e ambientalista morto recentemente. Em 2000, foi entrevistado no Roda Viva. O então senador Blairo Maggi, magnata do agronegócio, questionou Novaes sobre se ele achava que todos deveríamos viver como índios. A resposta desmascarou o hoje bolsonarista: “Não, nós não teríamos competência para isso. Mas nós poderíamos aprender com eles”. Cultura de transmissão oral, que vem sendo dizimada.
Creio que cheguei a uma forma de equilíbrio. Precário, instável, provisório, como tudo na vida. Uma quietude que, às vezes, não passa de lampejo, mas conforta e estimula. O fiscal interno está menos exigente, os livros deixaram de ser apenas combustível para batalhas imaginárias. Quanto a estes, paixão sensorial, me sinto cada vez mais perto do que disse António Lobo Antunes: “Gosto de descobrir escritores que me ajudam a conhecer a mim mesmo, que me mostram o país que eu sou, (…) a casa cheia de portas fechadas que eu sou, porque no fundo vivemos numa parte muito pequena de nós mesmos”.
por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Protesto
Quando o mundo entrava em plena pandemia com todos entrando em quarentena e as fronteiras sendo fechadas juntamente com todo o comércio e o entretenimento, uma ideia acalentada de muito tempo veio a tona: porque não um festival de canções de protesto?
Sem nenhum patrocínio e com a ajuda de amigos de todas as horas, a ideia se tornou realidade e com mais de 160 canções de todo o Brasil inscritas, o festival entrou na fase da escolha das 10 canções que vão para a final, marcada para 3 de outubro.
São cinco juízes dedicando seu tempo para a difícil escolha entre tanta produção de altíssima qualidade. O país tem uma produção artística e cultural que me surpreendeu. Não imaginava tantos artistas interessados, tampouco fazia ideia de que no Brasil também se produz canções de protesto da mais alta qualidade.
Dia 10 de setembro teremos os finalistas, no que eu sei de antemão, será uma escolha tremendamente difícil, e que vai fazer a audiência pensar muito antes de votar na melhor canção. Sim, o festival será transmitido pelas redes sociais em uma live. Os testes já começaram neste final de semana e está tudo saindo melhor do que a encomenda.
Foram muitas dificuldades que tiveram de ser superadas. Tentamos um autofinanciamento para premiação que não recebeu o apoio desejado. Encontramos outras formas de premiar. Tivemos muito pouco apoio da mídia tradicional e nenhum da mídia de esquerda. Mesmo assim conseguimos envolver uma quantidade expressiva de compositores e intérpretes que acreditaram no projeto. Procuramos parceiros para a transmissão, mas não se interessaram. Vamos transmitir diretamente com a mesma qualidade deles, ou até melhor do que muitos.
A luta na resistência, não é o que muitos acreditam, solidariedade e fraternidade na trincheira da esquerda. A total indiferença e falta de suporte de companheiros da esquerda a este projeto é uma prova de que na esquerda, como na direita, os egos, muitas vezes, falam mais alto do que a razão. Mas também mostra como nós, da esquerda, somos insuperáveis em nossa luta por um Brasil mais justo e um mundo melhor. Mesmo com todas adversidades, vamos mostrar ao mundo pela Internet, que existe resistência e que nosso canto de protesto está aí para todos escutarem.
Eu posso dizer que apesar de tudo sou um cara sortudo. Encontrei parceiros que acreditaram no projeto e dedicaram seu tempo e seu talento para fazer acontecer. Sem a contribuição deles, teria sido muito mais complicado, senão impossível. Cada um deles a sua maneira, com a sua disposição estão dando uma contribuição inestimável que ao mesmo tempo me regozija e me comove. Nem mesmo conheço a todos pessoalmente, e não tenho palavras de agradecimento suficientes para externar o que sinto por eles terem acreditado neste idealista incurável.
O Festival da Canção de Protesto, ou o primeiro Festival da Canção de Protesto, como nós o estamos pensando vai continuar acontecendo nos próximos anos, virá o segundo, terceiro e assim por diante enquanto existirem injustiças para serem denunciadas e clamores para serem cantados aos quatro ventos.
Do fundo do meu coração eu convido a todos, dia 03 de outubro a partir das 20:30 h, assistirem através das nossas páginas no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCbf8UHISaIecsnCfZ_RYiAg), no Facebook (https://www.facebook.com/FProtesto/) ou no Twiter (@Fprotest) ao Festival da Canção de Protesto (https://festivaldacancaodeprotesto.com.br/). Compartilhem muito no dia, escutem, curtam, vibrem e principalmente, votem na sua canção de protesto preferida e elejam as três melhores canções.
Até lá!
por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Direitos Humanos, Opinião
Se hoje a pergunta que não quer calar, dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, é: Por que Fabrício Queiroz depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro, a que pululava nas redes sociais há dois meses era: Onde está Queiroz? A resposta chegou na bucólica manhã do dia 18 de junho, através de uma operação batizada singelamente de “Anjo”. O mistério do paradeiro do policial aposentado, um dos cabeças do esquema de rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro, do qual foi assessor, foi elucidado.
Como é do conhecimento de todos, o advogado de Flávio e dublê do programa humorístico A praça é nossa, Frederico Wassef, escondeu esse senhor durante um ano numa propriedade sua, em Atibaia, alegando “motivos humanitários”.
O Queiroz ali pego de surpresa em nada lembrava o policial militar conhecido por tocar o terror nas comunidades carentes, a ponto de as ruas ficarem vazias a sua passagem. Estava mais pra tiozão de boteco, daqueles que encostam a barriga no balcão e, entre um gole e outro de cerveja, fala dos saudosos tempos da ditadura. Um entre vários do Brasil.
Enquanto a polícia apreendia os celulares e outros objetos eletrônicos, um detalhe na casa me chamou a atenção. Ao lado de uma faixa exaltando o AI-5, sonho de dez entre dez bolsonaristas, três bonequinhos em miniatura do Tony Montana, o Scarface, ornavam a lareira. Por curiosidade, olhei na internet o preço desse inocente bibelô e concluí que, como os nerds que gastam pequenas fortunas em bonecos de Star Wars e os aficionados nos heróis Marvel que são capazes de vender um rim por um Batman que seja modelo raro de colecionador, Queiroz investiu nesses seus brinquedos, o que mostra a importância que dava ao personagem.
O generoso amigo da família Bolsonaro, aquele que deposita dinheiro na conta da primeira-dama por pura bondade, que paga as escolas das filhas de seu ex-chefe por amor, me revelou duas coisas importantes: Tem como herói esse personagem icônico e tem uma qualidade que deve ser ressaltada: amizade verdadeira se vê ali; meus amigos, quando muito, me pagam um chope. É uma cambada de pão-duro. Olho para a generosidade desse senhor para com seus diletos companheiros e caio na dura realidade: Meus amigos são todos uns fuleiros.
Voltando ao bonequinho de estimação do Queiroz: Scarface é um filme de 1983, roteirizado por Oliver Stone e dirigido por Brian de Palma. O Scarface, interpretado magistralmente por Al Pacino, tem esse apelido por conta de uma marca de navalhada na cara e é mais um dos cubanos que chega aos Estados Unidos em 1980, vindo naquele que ficou conhecido como um dos maiores êxodos migratórios do século XX: O êxodo de Mariel. O evento foi precipitado por uma recessão monstruosa na economia de Cuba, o que levou dez mil cubanos a pedirem asilo político na embaixada peruana. Fidel, num acordo com o então presidente americano Jimmy Carter, anunciou a abertura do porto de Mariel para que cubanos descontentes com o regime fossem viver o sonho americano. Centenas de barcos procedentes de Miami (a organização ficou a cargo dos cubanos exilados após a vitória da Revolução Cubana) ancoraram no porto para levar os insatisfeitos. Durante o período de sete meses (de abril a outubro de 1980), 125 mil cubanos saíram da ilha.
Não estamos falando de qualquer líder de nação, estamos falando de Fidel. Aquele dono de respostas certeiras que, ao ser perguntado por um jornalista argentino se as universitárias de Cuba se prostituíam, respondeu: “Não, as prostitutas de Cuba tem nível universitário”. Querem os cubanos na Flórida? Ok. Ardilosamente, ele despachou, junto aos cidadãos comuns, todos os presos , principalmente aqueles de alta periculosidade, a escória.
O dramático êxodo foi interrompido por Jimmy Carter, pois essa migração em massa teve repercussões inacreditáveis na política doméstica. A criminalidade em Miami cresceu terrivelmente e, com ela, problemas graves ligados à corrupção policial. Esses presos alteraram por completo a chamada “Magic City”. Violência e tráfico pesado de drogas imperavam.
O personagem Tony Montana foi um desses presentes bacanas de Fidel para os EUA. Criminoso comum, passava-se por preso político para conseguir seu lugar na Terra dos Sonhos. Mata sem remorsos, com a luxuosa ajuda de uma serra elétrica, compra uma esposa, roubando-a de outro gângster (Michelle Pfeiffer, lindíssima), constrói uma fortaleza que é um ode à cafonice, monta um império, cheira sem parar. Não vamos julgar Queiroz assim, sem provas. Talvez a admiração pelo personagem (cuja casa é bregaça, mas o terno é de uma estileira que até Álvaro Dias copiou o modelo nos benditos debates de 2018) tenha a ver com o fato de ele representar o imigrante que vence na vida, a tal da meritocracia, e de ser um anticomunista ferrenho. Tony Montana, o empreendedor.
O fato é que as rachadinhas são o mínimo. A proximidade da família Bolsonaro com o fã de Scarface remonta há mais de três décadas e vai muito além da relação profissional. Na realidade, ele era amigo mesmo do nosso presida. A ligação íntima entre Queiroz e o Capitão Adriano, morto na Bahia, também era a mais pura broderagem. Se existe alguma dúvida que a família de ogros é miliciana – tem gente que acha que são meros simpatizantes (não é mistério que o mandatário sempre elogiou a milícia e quis legalizá-la, como uma forma de segurança pública; talvez para ter uma SA pra chamar de sua) – lembrem que o finado Capitão Adriano, CEO do Escritório do Crime, e Queiroz eram amigos de fé irmãos camaradas, tendo inclusive trabalhado no mesmo batalhão. Fabrício, com seu coração generoso, também ofereceu emprego para a sogra e para a ex-mulher do capitão miliciano no gabinete do 01 (a.k.a. Flavio Bolsonaro).
Foi pensando nesse lupanar que o Brasil se transformou (sem querer ofender as prostitutas, visto que qualquer puteiro é mais organizado que isso aqui) que me veio uma rememoração. Se você assistiu o horário eleitoral gratuito com apenas os retratinhos dos candidatos na TV, se enchia o baldinho de tatuí na praia, se usava o merthiolate que ardia de fazer chorar e se foi malandro o suficiente para não sufocar e morrer com uma bala soft, deve lembrar do que vou falar.
Meu pai comprava diariamente o jornal O Globo (para ver mentiras escancaradas: detalhe, o jornaleiro escondia O Pasquim dentro do jornal dos Marinho, para ficar acima de qualquer suspeita.), o Jornal do Brasil e O Dia. Esse último com uma pegada bem popular. Quando falo popular, faço uma ressalva. O Dia era enfeitado por fotos de pessoas que não faziam mais parte do nosso convívio e de como elas se retiraram, ou melhor, foram retiradas, do evento vida. Sim, também sou dada a eufemismos.
Claro que eu não tinha permissão para ler nada que fosse além das tirinhas de Charles Brown e seus amiguinhos. Meus pais liam os três jornais para buscar nas entrelinhas o que acontecia. Vivíamos sob forte censura. Ao folhearem O Dia porém, as palavras sempre, sempre, sempre proferidas pelos dois eram: ”Foi o Esquadrão da Morte”. Não sabia o que era, por quem era formado e, aos 7 anos, esse termo parecia quase uma entidade. Meu pai, numa daquelas maravilhosas aulas de educação infantil, certo dia mostrou o adesivo do carro na frente do nosso e disse: “Olha o Esquadrão da Morte aí”. Ver uma caveira e abaixo duas tíbias cruzadas foi o suficiente para gelar a alma. Após ver o símbolo, entendi sem saber que entendia.
O espírito da desobediência, porém, sempre habitou em mim. Esperava meu pai sair para futucar o Pasquim, não entendia nada, mas gostava dos desenhos do Henfil, mesmo que não soubesse o que era sarcasmo. O JB e o Globo não me interessavam, só as tirinhas. Mas a minha curiosidade mórbida me levava ao Dia. Ali, olhando a criatividade em prol da morte, cheguei a uma conclusão rodriguiana: de que a solidão nasce da convivência humana. O Dia era jornalismo popular, noticiava o que acontecia na periferia, na Baixada Fluminense. Morte de pretos, pobres, periféricos. Pessoas retalhadas, decepadas, muitos tiros na cara.
Quem fala que na ditadura militar não houve violência urbana, ou é jovem demais e repete o que ouve sem refletir ou não passa de um velho canalha. A partir do final da década de 1950, no Rio de Janeiro, ou melhor, nos grandes centros urbanos, começam os acirramentos de problemas devidos às contradições sociais, políticas, econômicas, tendo as cidades como uma de suas vitrines. Consequência direta da urbanização do país.
Nesse contexto, surge a Scuderie Le Cocq (embrião do Esquadrão da Morte). A primeira vítima foi o bandido Cara de Cavalo, em 1964. Sua história obedece a de tantos outros excluídos. Morador da Favela do Esqueleto, iniciou a vida criminosa vendendo maconha ainda criança. Isso faria a alegria de Bolsonaro, que vive enaltecendo o trabalho infantil. Com o tempo, tornou-se cafetão e se ligou ao jogo do bicho. O papel que tomou para si era achacar os pontos dos jogos, digamos, um trabalho quase suicida. Diante do abuso, um bicheiro procurou o detetive Le Cocq, ex-integrante da Guarda de Getúlio e primo do brigadeiro Eduardo Gomes. Le Cocq organizou um grupo clandestino de policiais para caçar o criminoso. A emboscada a Cara de Cavalo não deu certo, e o bandido acabou por matar a tiros o policial.
De bandidinho pé de chinelo, Cara de Cavalo passou a ser o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro. Dois mil policiais em quatro estados foram à sua casa. Um mês depois foi encontrado, e o que se seguiu foi uma execução sumária, comandada pela turma da pesada. Foram mais de cem disparos. Enquanto os tiros eram dados, os algozes chupavam pirulito.
Cara de Cavalo (que recebeu homenagem póstuma do artista plástico Hélo Oiticica), foi o primeiro de muitos. A Scuderie Le Cocq tornou-se praticamente uma instituição. Recebeu o apoio extraoficial do governador do estado, Francisco Negrão de Lima, e o secretário de Segurança do Rio, Luis França, escolheu a dedo doze homens com o intuito de “promover uma faxina”, eufemismo para execuções sumárias de ladrões de carro, de táxi, assassinos, assaltantes e afins. Eram “Os Doze Homens de Ouro da Polícia Civil ”. Paralelo a polícia militar, esse esquadrão contava com financiamento de empresários e bicheiros e tinha a simpatia total do regime vigente. Com essa brigada paramilitar, novos tempos se anunciavam. Corpos de marginais torturados e mutilados começaram a pulular pelo Rio de Janeiro, com frequência com marcas de algemas, sem que houvesse o menor indício de que tivessem esboçado alguma reação. O presidente de honra era o jornalista David Nasser, de triste memória, notório apoiador da ditadura. José Gulherme Godinho, o Sivuca, eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 1990, pelo PSC, com o slogan Bandido Bom é Bandido Morto (Bozo que não cita os créditos né?), era um dos líderes mais atuantes. Esse chavão era o lema dos grupos de extermínio e, que surpresa, é uma das expressões preferidas do atual presidente da República.
A história só se repete como farsa, ou a farsa se repete como história, não importa. O fato é que o esquadrão e seus membros, assim como suas táticas dantescas de combate ao crime, recebiam apoio de boa parte da população. Esse é o momento em que temos a resposta para aquela pergunta: “De onde surgiram esses fascistas?”. Sempre existiram. Eis a prova.
A Scuderie Le Cocq (as letras E e M estavam no brasão e queriam dizer “esquadrão motorizado”, ao qual o detetive pertencia) chegou a comportar sete mil membros! Tendo sua origem na polícia, foi fundada no discurso moralista de defesa dos valores da sociedade, contra os elementos indesejáveis e a manutenção da ordem pública. Era apoiada pelo Exército e pela polícia, e seus membros eram considerados heróis. Desde o início, porém, estava ligada a corrupção, venda de proteção a traficantes, associação a grupos criminosos e ao jogo do bicho, prostituição, roubo de carros, furtos, tóxicos além de, obviamente, participação na repressão militar,
Um de seus integrantes permanece muito vivo na minha memória. Era praticamente um bandido celebridade, o famoso Mariel Mariscot. Mariel ingressou aos 17 anos na Divisão Aeroterrestre como paraquedista. Por meio de concurso público, foi ser salva-vidas no Corpo Marítimo de Salvamento. Seu maior desejo era sair de Bangu e morar em Copacabana, o que conseguiu alugando um pequeno apartamento no bairro. Mariscot sonhava com o glamour e tinha o firme propósito de se tornar rico. Foi leão de chácara de inferninho, segurança particular, passou para a Polícia Civil. Matou pela primeira vez um assaltante em flagrante e quando recebeu voz de prisão de um delegado pelo homicídio, rendeu-o com uma 45. Foi aí que recebeu o nome que o acompanharia pela vida “Ringo de Copacabana”.
A partir daí construiu sua trajetória de prisão de bandidos famosos. Boêmio, frequentador da noite, com fama de bonitão, Mariel arrebatou corações cobiçados, como o da atriz Darlene Glória, musa do cinema nacional, com quem teve um filho; a atriz em ascensão Elsa Castro; e a modelo e símbolo sexual Rosi de Primo. Teve também um tórrido romance com a travesti da família brasileira, a inigualável Rogéria. Sempre metido em falcatruas, acabou sendo preso e fugiu da cadeia com a ajuda da sua então esposa Elsa, indo passar um tempo no exterior. Conseguiu o inacreditável na década de 1970: ser expulso da Scuderie Le Cocq por mau comportamento. Mesmo perseguido, aparecia em estádios de futebol com jogos televisionados, ia a boates, se dava com celebridades da época, enfim…
Conseguiu redução de pena e, enquanto ficava albergado num presidio em Niterói, durante o dia trabalhava com o juiz Francisco Horta na Vara de Execuções Penais. Metido com jogo de bicho, Mariel ansiava chegar um dia à cúpula. Em outubro de 1981, ao sair do trabalho, dirigiu-se a uma reunião na fortaleza do contraventor Raul Capitão, onde se encontravam trinta bicheiros. Não chegou lá. Foi alvejado no caminho por oito tiros dentro do seu carro, nas imediações da Praça Mauá. O juiz Horta, seu protetor (e eterno presidente do Fluminense Futebol Clube), ao saber de sua morte, rezou um Pai Nosso com todos os membros do Conselho Carcerário e proferiu: “Foi assassinado aquele que, talvez, foi o maior policial que o Rio de Janeiro conheceu. Era um sacerdote”. Em entrevista posterior, comparou a emboscada que Mariel sofreu ao atentado vivido pelo Papa João Paulo II, na mesma época. Seu enterro foi acompanhado por muitas pessoas, policiais choravam, e eu, menina de dez anos, assistia a tudo pela televisão.
O Esquadrão da Morte teve sua gênese no militarismo truculento de 1964, ódio aos direitos humanos, promoção da cultura de execução primária. Consentimento do Estado, financiamento empresarial, matadores profissionais (fardados ou não), ingredientes que se amalgamaram nos Anos de Chumbo e que renderam frutos. O que é a milícia de hoje senão um esquadrão da morte aprimorado? Nenhuma semelhança é mera coincidência.
Em 2000, a Scuderie foi extinta. Voltou timidamente em 2015, com o nome (não riam, por favor): Associação Filantrópica Scuderie Detetive Le Cocq. Em 2018 eles estavam panfletando para o candidato deles. Possuem página na internet em que tratam o golpe de 64 como Revolução, e os matadores de Lamarca e afins como heróis. Roni Lessa, o assassino de Marielle, é membro de honra. Poderia ser apenas um fim melancólico. Infelizmente, é o recomeço de tudo.