Os Bonecos

Era uma segunda-feira morna, inquietante, mas a menina estava com o coração contente. Era mais um dia de feira-livre. Ela e sua irmã caçula iriam com a mãe doce e entendedora de sonhos infantis, pois no dia anterior, havia colocado nas mãozinhas das miúdas, moedas esperadas por toda semana. A menina sabia o significado daquele gesto: novos bonecos, pequenos, desengonçados e feios, mas ela amava vesti-los, e sem essa percepção, achava-os lindos, pois tudo era sonho e brincadeira.

Acordou animada, cantarolava uma canção que o pai havia ensinado, a mãe lhe deu banho, perfumou com alfazema e vestiu-lhe um vestido de bolinha com fitas e rendas. Sua alegria contagiava. A felicidade infantil é só entendida pelos sensíveis de alma e corações ternos. Foram.

A mãe fez várias recomendações: olhem para os lados, não soltem a mão da outra, comprem os bonecos e voltem. Estarei na banca das laranjas. Olharam com carinho para mãe e sorriram.

As meninas chegaram a banca cheia de quinquilharias, coisa que criança gosta. O senhor era míope totalmente, usava óculos fundo de garrafa, era assim o falar do povo. Coitado! Pouco enxergava, dando assim oportunidade a quem o quisesse roubar. A menina roubou. Ela comprou sim os dois bonecos com as moedas, mas com uma enorme vontade de ter mais um, ela aproveitou a displicência do pobre homem e roubou dois. Uma para si e outro para irmã, pois criança as vezes não é egoísta, principalmente quando precisa de cumplicidade. Meu D’us! Quanta inocência! Cumplicidade infantil é reveladora… Logo os risinhos, os qui-qui-quis, as mãos nervosas, a voz que revela o medo… As mães atentas, logo percebem o que de errado há. A mãe era perita em criar filhos.

Foi assim…

Ao voltarmos para fazenda, estávamos diferentes. Eu por ter feito algo que me levaria ao inferno [os mais velhos diziam essas coisas] e minha irmã louca para revelar. Revelou! Revelou o segredo que eu pensava ser. Mas menino não guarda segredos. Tudo fica claro no risinho nervoso, no olhar que não olha no olho, nas mãos torcidas, no próprio medo. Medo da descoberta e vergonha de morte.

Mamãe ficou chocada. Filha ladra, isso nunca! E o castigo lento veio. Não foi surra como muitos pais faziam. Foi castigo silencioso, de uma semana inteira solitária no medo, na vergonha, nos outros que olhavam o revelado.

Os bonecos ficaram expostos no museu da dor. Todos que passassem, obrigatoriamente os veria. Olhariam para a prova do crime, lugar sagrado do pecado exposto: na Cristaleira! Passar em frente era dor, vergonha revelada nas transparências dos belos cálices, de vinho, licores, bebidas fortes dos dias festivos. Isso durou toda semana. Nenhum livro a encantou naqueles dias, chorava escondido. A próxima segunda-feira a esperava, sagrada, inesquecível e dura. Nunca mais a menina esqueceu. Em suas lembranças ainda guarda a vergonha.

Teria que devolver ao senhor da banca os bonecos roubados e ainda lhe pagar sem trazê-los. Confessaria publicamente a sua falta. Assim foi feito. Foi terrível! Dói ainda hoje. Foi uma surra sem marcas visíveis, mas as lapadas da vergonha, ainda hoje ardem no coração da menina. Que queria apenas mais um boneco para enfeitá-lo como fazia com os outros, pois a vida era efêmera para  aqueles bonecos das segundas-feiras do ano santo do Senhor.

 

 

Guerra Invisível

Estava a assistir uma série num desses aplicativos, e na cena que seguia, havia um hospital de campanha, muitos feridos, enfermeiras e médicos exaustos, quase anestesiados diante de tanta dor e sofrimento. Talvez eu conheça um tanto dessa pseudo sedação, às vezes é preciso endurecer a cerviz. Mas foi na cena seguinte, onde na saída daquele hospital, pessoas gritavam, buzinavam carros, e festejava, uma mulher parou diante da enfermeira exausta e que trazia em seu corpo e vestes, o sangue do último soldado que havia atendido, e a mulher sorridente, disse a enfermeira: você não sabe? Acabou a guerra, a guerra acabou, e entregou-lhe uma garrafa de bebida e seguiu com os demais, foram comemorar. A enfermeira permaneceu inerte, carente de emoções, abriu a garrafa que lhe foi entregue, e sorveu o líquido como se quisesse assim, resgatar a sua alma, que há muito, já a abandonara.

Olho o mundo a minha volta, o percebo tão cheio de enfermeiras exaustas e descrentes da vida, são seres com ausência de emoções, porque sobreviver a essa guerra é preciso. As batalhas se multiplicam a cada dia, são travadas em campos estéreis de emoção, alimentadas por tanta solidão. São fronteiras que se fecham, asas que já não conseguem voar, respirações ofegantes, pulmões que colavam. Existe uma guerra sombria, de razões obscuras, de mortalidade exacerbada, uma guerra que não respeita os civis, que desconhece as leis internacionais, e assim, é capaz de abater sem misericórdia, o inocente comum, a criança, a mulher, ainda que grávida. E eu, sinto que poderia ser essa enfermeira, que precisou abster-se dos sentimentos para sobreviver, porém, sigo lutando, resistindo e alimentando a esperança, de que dias melhores virão!

Tá certo, ou não tá?

Rotina de aglomeração. Aí pelo finzinho da tarde, nos reuníamos em torno de um móvel imponente que demandava um ritual para ser apreciado. Primeiro, o adulto girava um botão. Cerca de um minuto depois, as válvulas esquentavam e começavam a aparecer imagens, de início meio opacas, aos poucos mais nítidas, não raro instáveis. Um chumaço de Bom Bril na antena ajudava a melhorar a nitidez. Nós, televizinhos, não tínhamos do que reclamar. Habituados a imaginar personagens pelas ondas do rádio, agora a televisão permitia ver rostos e corpos por trás das vozes. Bem verdade que em preto e branco, mas não precisávamos mais ir às matinês do Metro Tijuca para assistir desenhos animados.

A primeira transmissão da televisão brasileira completa setenta anos. Nos anos 50, os aparelhos, tal como as rádio vitrolas, eram decorativos, destaque nas salas da classe média mais abonada. Sem essa de controle remoto. Para mudar de canal, alguém tinha que se levantar e girar um botão (que se desgastava com facilidade; “chama aí o técnico” era um mantra bem conhecido na época). A corrente elétrica oscilava muito, alguns modelos traziam um estabilizador embutido, quebra-galho que nem sempre funcionava.

Fomos colecionando tipos, heróis, jingles, sonhos, humores. No início, tudo ao vivo, com acidentes inesquecíveis. Falcão Negro, um capa-espada de fundo de quintal, apresentado na hora do jantar, levou Gilberto Martinho para o estaleiro várias vezes. Cortes, tombos, pancadas, tudo fora do script e nas nossas barbas espantadas. A gente descobria que o mocinho tinha carne fraca, ossos frágeis e sangue que jorrava.

O Vigilante Rodoviário, que surfou o boom automobilístico dos anos JK, brigava e o quepe jamais caía do cocuruto. Como John Wayne, na tarefa interminável de dizimar peles-vermelhas e bandoleiros. Aliás, o cão Lobo era melhor ator que o canastrão Carlos. De noite ou de dia, firme no volante, vai pelas rodovias, bravo vigilante ! Flávio Migliaccio e Stênio Garcia fizeram pontas valiosas. As histórias eram invertebradas, mas, oh !, como a gente vibrava.

Depois do almoço dominical, corre pra frente do tubo de imagem. Era o Teatrinho Trol. Zilka Salaberry, Norma Blum, Roberto de Cleto, Fábio Sabag, nos introduziam ao faz-de-conta dos contos de Grimm e outros craques. Numa das histórias, a bruxa transformava alguém em coruja. O câmera vacilou e mostrou o contrarregra, quase rastejando, trazendo a ave empalhada e colocando no lugar do personagem, que se escafedia sem saber que era flagrado na fuga. Queixos caídos.

Durante a semana, éramos informados de que Tonelux era a mais bonita loja da cidade, que a Galeria Silvestre era a galeria da luz, que Phymatosan era o amigo que nos convinha, que a bola Pelé ia nos tornar campeões. Daniel Filho, Dorinha Duval, Grande Otelo, Zélia Hoffman e várias certinhas do Lalau estavam no musical Times Square, da Excelsior, onde se cantava: Diga madame, diga madame,/que quer que eu faça/pra que lhe ame?/Quero que empenhe/seus capitais/pra ter meu nome/entre as dez mais.

No circo do Carequinha, o malabarista mambembe tropeçava e caía nos braços do Oscar Polidoro, de cartola como convinha aos mestres de cerimônia. O Arrelia perguntava como vai, como vai, vai vai ? Bat Masterson, de chapéu coco e bengala, enfrentava os mal-encarados sem amarrotar o terno preto, nem desabotoar o colete. Traje estranho para paisagens desérticas. Teddy Boy Marino podia não beber rum Montilla, mas aplicava voadoras no Verdugo e no Tigre Paraguaio. Gostava da TV Continental, a 100% esportiva, mas via mesmo era a Resenha Facit, com Saldanha, Nélson, Scassa, Armando.

Inverno ? Não adianta bater, eu não deixo você entrar. É nas Casas Pernambucanas que eu vou aquecer o meu lar. Para encher o tanque, só Esso dava ao seu carro o máximo. E tudo andava bem com Bardahl. Mercado ? Vou dançar o chá-chá-chá, Casas da Banha, alegria vem de lá, também vou aproveitar, é lá que eu quero comprar. De manhã, pla ple pli plo Plus-Vita. Marcou aquele encontro ? Brylcreem, apenas um pouquinho, você irá brilhar, é o melhor caminho, para mil pequenas conquistar. Bateu aquela fome ? Alô, alô, quem fala? É do armazém do seu José ? A mamãe pediu para comprar uma lata de biscoitos Aymoré. Ah, para acompanhar, bom mesmo era o café Capital.

Pensando bem, ou melhor, sentindo bem, esta suave nostalgia está tatuada nos meus melhores afetos. Sou um pouco disso tudo. E como já sabiam os cobertores Parahyba, já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sono pra você, e um alegre despertar. Despertar ? Mesmo ?

Tá certo ou não tá ?

Abraço. E coragem.

Israel em Lockdown

Afinal de contas, qual é o valor de uma vida? É com esta pergunta que Israel entrou ontem, quando comemoramos a entrada de 5781, no seu segundo Lockdown. Desta vez, por pelo menos 3 semanas consecutivas.

Ainda tentando digerir as novas regras de distanciamento social, o governo já anuncia, para a semana que vem, a possibilidade de aumentar as restrições e deixar mais pessoas em casa. Desta vez o alvo são os trabalhadores privados de empresas que não recebem público e foram autorizados a continuar trabalhando. Mercados públicos de rua que foram autorizados a permanecerem abertos, talvez tenham de fechar.

Na última semana o número de novos infectados chegou a bater em alarmante 6.000 casos em um único dia. Para um país com apenas 9 milhões de habitantes, este é um número inaceitável. Dentro de duas semanas teremos um aumento significativo de pessoas em estado grave necessitando internação. Os hospitais já estão chegando ao seu limite e novas alas para receber pacientes do Corona precisam ser abertas. Isto significa cerrar para outro tipo de pacientes como Câncer, Coração etc. A conta não vai fechar.

Tudo se encaminha para um colapso do sistema. Traduzindo, vão faltar camas em UTIs para receber novos pacientes graves do Corona. Como eles precisam de isolamento, os hospitais não podem usar corredores ou alas que são abertas. Eles terão de voltar para casa com prognóstico pessimista de sobrevivência.

Enquanto isso, o governo é atacado de todos os lados. Desde aqueles que culpam pelo mau gerenciamento da crise, passando pelos religiosos que não aceitam seus lugares de culto fechados, até obviamente, aqueles que tiveram fechados seus negócios e fonte de renda. Cada um, por suas razões, acredita que podemos manter uma vida quase normal, bastando que todos usem máscaras e mantenham distância uns dos outros.

O uso obrigatório de máscaras e o distanciamento estão em voga desde que o Corona chegou por aqui. Sair a rua sem máscara implica em multa. Se o cidadão estiver dentro de uma loja sem máscara, ele e o local são multados. Mesmo assim, o número de novos casos não parou de crescer. Parte da população, pelas razões mais absurdas, não obedece as normas, e aquela que obedece paga o mesmo preço.

O Lockdown é terrível para a economia como um todo. Negócios quebram e o desemprego aumenta vertiginosamente. Por mais que o governo coloque em prática planos de ajuda, eles nunca são suficientes. O país sofre, mas é a população mais fragilizada que recebe o maior impacto.

Israel não é o único país a enfrentar a segunda onda. Inglaterra, Espanha e Itália, por exemplo, estão se vendo com o mesmo problema e relutam em decretar o Lockdown. Não será por muito tempo. Cada pessoa infectada, infecta ao menos outras 3. A progressão é geométrica fazendo os números aumentarem rapidamente. Mais infectados, mais casos graves, maior ocupação de UTIs. Não existe alternativa responsável.

Até a chegada das vacinas, o remédio será amargo. Este é o ano que todo mundo vai desejar esquecer. Salvo os poucos bilionários que estão ficando trilionários com o Corona, e os laboratórios que vão vender as vacinas, todos nós estamos sendo atingidos de uma maneira, ou de outra.

Raro quem ainda não teve um parente, amigo ou conhecido que faleceu devido ao Corona. Eu mesmo, já perdi a conta. Vidas perdidas que nunca mais vão voltar. E afinal de contas, qual é o valor de uma vida?

 

O poder da astúcia

Ulisses é o herói da astúcia, foi quem inventou o cavalo de Troia, e assim os gregos venceram a guerra. Já no canto XII da “Odisseia” ocorre o episódio das sereias, em que Ulisses satisfaz o desejo de escutá-las, mas por estar amarrado ao mastro do navio não foi ao encontro da morte. Sua história é uma viagem perigosa, é a passagem da natureza à cultura, do desejo ao domínio das pulsões, é uma conquista difícil.

Astúcia é a busca de satisfazer o desejo, e, não renunciar ao desejo, como fez Sherazade, uma mulher astuta. Ela contava histórias, e a cada noite a história seduzia o rei que desejava saber como seguia, logo não matava a esposa e terminou sendo curado. Foram centenas de histórias que deram origem ao livro “Mil e uma noites”. E tem a injustiçada Eva da Bíblia, mulher que optou pelo conhecimento ao comer o fruto da árvore proibida, e assim nos fez humanos através do erotismo.

A palavra astúcia vem do latim, “astutia”, e expressa a manha, o engano, o ardil, a sagacidade, a inteligência prática. Astúcia é preciso para vencer a arrogância, a indolência, a desesperança, para suportar as desgraças e assim desfrutar das graças. Astúcia requer paciência, humildade, aprendizagem com parcerias que somam Astúcia da capoeira criada pelos negros na escravidão que juntaram dança, música e luta em rodas fraternas. É preciso astúcia na construção de laços de amizade, laços amorosos consigo mesmo e com os demais. Laços que diminuam a necessidade de castigo. Com astúcia, José interpretou os sonhos do Faraó do Egito e assim transformou-se de preso em ministro.

Os artistas e cientistas, os que amam o conhecimento, precisam da astúcia para inventar, criar o novo. Que difícil, por exemplo, é escrever, pois as palavras escapam, têm muitos sentidos e nunca se sabe com certeza quais escolher. Aí são os leitores que orientam os viciados na escrita, pois não existe escritor solitário sempre. Nos esportes, nas competições, no trabalho, na arte de amar, se requer astúcia para se saber fraco, como o fez Ulisses no episódio das sereias, e Mandela nos seus 27 anos de prisão. Ambos conseguiram, diante de forças poderosas, encontrar os meios para sobreviver, a paciência diante dos fracassos.

Entretanto, não se pode esquecer que astúcia não é só virtude positiva, pois pode estar a serviço da crueldade, como é o caso dos bandidos. Os bandidos fora da lei e, mais ainda, os terríveis bandidos protegidos pela lei, como se vê cada vez mais.
Também na guerra a astúcia é essencial, e aí pode vencer a turma do mal, como foi o caso dos impérios, ou a guerra da informação, onde as mentiras tendem a se impor diante das verdades. Astúcia política, às vezes, envolve qualidades canalhas, onde matar para lucrar é a pior das corrupções. Forças desalmadas se vendem como honestas, mas se revelam mais cruéis que a corrupção, ao buscar ordem só para seu progresso. O país das forças desalmadas com armas e sem armas se aproxima hoje da velha Sicília, onde o crime não tinha castigo, porque a tradição histórica impedia a revelação da verdade.

Foi muito difícil desmontar o poder nazista, o fascismo, as ditaduras militares, mas hoje há um novo desafio: criar astúcias para diminuir o poder dos inimigos internos da democracia, como Trump e os trompetes. A sabedoria é a forma mais elevada de uma sociedade que requer tolerância, prudência, inovação e a busca da justiça que não aceita pressões das armas. É preciso astúcia, unir as forças nas odisseias da vida e manter o sentimento do mundo. Bravos são os amantes da poesia, do conhecimento, das parcerias amorosas apesar do desânimo. Apesar do fogo dos dragões armados, apesar do cansaço, apesar dos pesares, a dignidade da luta está na paciência e no entusiasmo.

5781

De cara, a coisa assusta. O que pensar quando você está prestes a entrar no período dos Dias Temíveis ? Não, nada a ver com a Covid-19 ou com a última batatada dos demolidores da República. São os Iamim Noraim, período de dez dias em que se celebra o ano novo judaico. Começa na próxima sexta-feira, dia 18, à noite, e termina dia 28, também à noite, quando o shofar é tocado e se quebra o jejum do Iom Quipur.

O que haverá de tão assustador nesta celebração da passagem do tempo ? Os religiosos acreditam que é nesse período que seu destino será selado por um juiz inacessível e implacável, ao qual não cabe apelar com as armas da razão humana. Para quem, como eu, a devoção é de outra natureza, os dez dias entre o Rosh Hashaná e o Iom Quipur podem ser um bom pretexto para meter o pé no freio e fazer um balanço da vida. Isso nunca é fácil, e não recomendo que seja feito como exercício solitário. Enfrentar nossas circunstâncias, nossa fragilidade, nossos mortos, nossas mortes. Perceber as consequências das nossas ações sobre indivíduos e sociedade.

Com o tempo, sempre ele, fui aprendendo que os significados dos Iamim Noraim são muitos e variáveis. Criança, eu os encarava como festa. Afinal de contas, as aulas eram suspensas, comidas típicas, adocicadas para atrair dias de mel, não faziam feio, as bobes eram craques. Já menos inocente, comecei a prestar atenção especialmente ao Iom Quipur. Cheguei a jejuar na adolescência, um jejum radical que não permitia sequer escovar os dentes. Prova de macheza pós-bar mitzvá, que, numa das vezes, terminou mal. Ensinam os faquires das escolas tradicionais que jejum prolongado se quebra com prudência. Biscoito de água e sal, um pedacinho de bolo, chá. Pois os adultos, igualmente famintos, resolveram cortar caminho. Encomendaram uma pizza. Daquelas pingando gorduras cis, trans, e outros babados. Passei mal a noite inteira, botando bofes e estrofes pra fora.

Com mais quilometragem, me libertei da liturgia severa e me dei o direito de entender os símbolos. Saí dos manuais e transitei para a arte de perguntar. O Kol Nidrei, oração que inaugura o jejum do Quipur, é uma espécie de feijoada completa. Tem de tudo. Uma de suas possíveis origens é exemplo de respeito às diferenças. Seria um legado da época da Inquisição, quando os judeus foram forçados a abandonar sua fé e se converter ao catolicismo. Sob pena de exílio ou, pior, fogueira. As palavras de abertura do Kol Nidrei dizem que, na congregação reunida, todos são iguais, aí incluídos os que cometeram faltas graves. Os que foram forçados a fazer o que não queriam não são discriminados. O espírito é de tolerância e acolhimento, democrático, tão importante quanto a sentença do destino. Mishivo shel malo, mishivo shel mato, com a autoridade do Tribunal Celeste, e com a aprovação do tribunal terrestre. As instâncias se equivalem, numa surpreendente concessão do dogma ao crivo social. Tudo cantado pelo hazan, o cantor litúrgico, numa melodia belíssima (que inspirou Max Bruch, um não-judeu, a compor uma das mais lindas peças eruditas de todos os tempos). Diálogo, democracia, arte.

Momento solene da sequência quipuriana é o Izkor. Lembrança, literalmente. Os que perderam familiares são convidados a rezar o Kadish, a oração dos mortos. Desde muito cedo eu a aprendi, e até hoje a sei de cor. Falar sobre a passagem do tempo é, inevitavelmente, lembrar da nossa finitude, parte inseparável de qualquer balanço de vida. Não com melancolia, mas como memória em trânsito. Converso com meus mortos, sempre torcendo para que estejam de bom humor. Já tomei shnaps com eles, outras vezes me deram boas palmadas, noutras gargalharam com sotaques diversos.

Às vésperas da virada de ano, peço desculpas a quem não compreendi e, involuntariamente, magoei. Também a quem ofendi com silêncio quando o afeto pedia diálogo. A quem frustrei, ignorei, subestimei, irritei. Que possamos reconstruir pontes danificadas pelas humanas fraquezas. Nenhum de nós é o nebech, o coitadinho do folclore ídish. Somos todos, consciente e inconscientemente, responsáveis por nossos atos. O nebech, lembram meus mortos, é aquele que, quando cai de costas, quebra o nariz.

Salve 5781 ! Gut ior ! Shaná tová ! Anyada buena !

Abraço. E coragem.