por Mauro Nadvorny | 16 jul, 2020 | Crônica
Em tempos tristonhos, convém aceitar a tristeza, o desânimo, a solidão. Não conheço ser humano que não viveu suas perdas que doem como uma dor de dente. Depressão é um tempo em que tudo está mais lento, frente a uma separação, perda profissional, uma desilusão. As dores e os dissabores acompanham o ser humano ao longo de sua vida. Somos seres dependentes mesmo na imaginação de ser independente, porque em cada etapa da existência, da infância à morte, o desamparo ou a ameaça de desamparo está presente. O desamparo é um sentimento de vazio, uma sensação de fragilidade angustiante. Aliás, o desamparo está no centro da clínica psicanalítica; a arte de viver está nos destinos criativos do desamparo.
As depressões, as maiores e as menores, são intensas, extensas, onde o desânimo domina o espírito. Quem nunca caiu num poço, pode não entender os depressivos, que não vivem acelerados, ao contrário. Diminuem as capacidades de amar, trabalhar, conversar e a energia de viver se esvai, e o desânimo cresce. Diminui a energia sexual, o erotismo e aumenta a vontade de dormir. Algo semelhante ao que escrevo, vivi no meu primeiro ano de Buenos Aires, há quase cinquenta anos. Foi quando comecei o aprendizado da depressão na pele, que durou uns oito meses. Perdi o riso, fiquei sem norte, as lágrimas brotavam do nada, sentia saudades do passado. As árvores de Buenos Aires não eram as do Bom Fim, tudo era estranho no mundo portenho, e aos poucos comecei a gostar dos tangos. Na solidão dos sábados à noite escutava os lamentos de Gardel e de Julio Sosa, e assim me sentia acompanhado. Nesse tempo conheci o desamparo, o imenso buraco, um vazio de sentido, e como era difícil conviver com a solidão. Depressão é uma doença do amor, da falta de amor a si mesmo e ao mundo.
O deprimido não tem provas de amor, as que tem são insuficientes; falta a visibilidade, a fé, é difícil perder a segurança, e a vida se torna insuportável.
Nas depressões, em geral, ocorre uma insuficiência de ausência, a criança não pode ficar suficientemente só em suas brincadeiras. Haveria nos depressivos um excesso de presença – uma função materna espaçosa – e um filhinho de mamãe, que sem amparo desaba. Por outro lado, é possível pensar também que o depressivo não enfrenta o pai, fica passivo diante dele, não se rebela, permanece mais dependente da mamãe. A questão é como passar da passividade à atividade, da humilhação para uma atitude ativa da construção de um novo sentido. Construção do crescimento, do amadurecimento, uma nova estrada. Em geral os depressivos reagem bem ao tratamento, onde a transferência é essencial. A depressão tem crescido, fazendo a felicidade da indústria de antidepressivos. Entretanto lembro o provérbio zulu: “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”. Vivemos em sociedade.
Já no nível social, os sonhadores andam tristonhos, quase já não cantam que outro mundo é possível. Porque, se cada um precisa construir sua vida particular, está também integrado na construção ou destruição da vida pública. Nesse sentido talvez os humanistas estejam meio perdidos, pois, entre tantos perigos virais, suportam aqui os ataques mortíferos dos poderes poderosos.
Escrever é um fermento para aumentar a coragem, e assim sustentar a imaginação do amanhã. No fim de semana, aqui, ocorrem os encontros nas esquinas do Face, que é um espaço de conversas. Um dia, sairemos de casa, voltarão as danças circulares, o abraço, mesmo se for com máscara. Aliás, está tudo invertido, pois agora a gente do bem anda com máscara e as do mal sem máscara.
E o amor voltará a mover o Sol e as outras estrelas, como escreveu Dante. Então o Sol secará as lágrimas, sua luz fará renascer o entusiasmo, e os sonhos serão recolhidos do lixo. A poesia não penetra nas rochas, ela toca a alma dos humanistas, realça as cores, excita a vida, vibra com as músicas que secam as lágrimas.
por Mauro Nadvorny | 15 jul, 2020 | Brasil, Crônica, Justiça, Mundo, Opinião, Política
Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.
Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.
O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?
Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.
Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.
Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.
Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?
por Mauro Nadvorny | 13 jul, 2020 | Crônica
Inspirado em Rubem Braga, criador da imperatriz das crônicas (Ai de ti, Copacabana !)
Jacob e Wilhelm, dois alemães muito criativos, entenderam o forrobodó. No século XIX, contaram a minha história. Vinha eu despreocupada numa estrada de terra, quando um carroceiro me atropelou. Fui socorrida, sem maiores estragos, por um jovem camponês. Agradecida, fiz-lhe uma promessa: como sou inevitável e imprevisível para todos, disse que não o visitaria antes de enviar mensageiros. Assim, o susto se diluiria no tempo.
Anos depois, bati na porta do camponês. Apavorado, protestou. Você não disse que antes me enviaria mensageiros? É sempre assim, suspirei, nunca sou bem-vinda. Eu não lhe enviei mensageiros ?, perguntei ao pobre homem. A Febre não te jogou na cama ? A Vertigem não te desorientou ? A Dor de Dente não estremeceu tuas bases ? O Lumbago não te fez pedir socorro aos ancestrais ? Acima de tudo, meu irmão Sono não te fez lembrar de mim todas as noites ? Dito isso, transportei-o para a Noite Sem Volta. Um poeta brasileiro me chamou de Indesejada das Gentes. Ah, Jacob e Wilhelm são mais conhecidos como Irmãos Grimm.
Certo dia, envolvida na colheita eterna, ouvi alguém assobiar e cantar uma valsa. Bonitinha. Falava de uma gente feliz, de céu, mar, gente despreocupada passando pela calçada. Por fim, a declaração de amor: Rio de Janeiro, gosto de você. Fiquei desconfiada. Será que os relatórios de atividades dos meus mensageiros valem tanto quanto o currículo do Carlos Decotelli ? Os recados não foram passados ?
Ai de ti, Rio de Janeiro !
Quem pensa que nasci com o bispo chapado, não entendeu meus recados. Há um século, supervisionei a expulsão dos pobres do centro da cidade, desmontando, a golpes de jato d’água, o morro do Castelo. Enriqueci especuladores e inaugurei o êxodo que hoje se espalha pelas periferias abandonadas. Tinha know-how do processo que transformou escravos libertos em fantasmas urbanos, sem direitos, sem sombra. Será que fui muito sutil ?
Ai de ti, Rio de Janeiro !
Fui o alterego da degradação de tua natureza. Nos anos 1970, seduzi Sérgio Dourado e Gomes de Almeida Fernandes. Não me decepcionaram. De suas pranchetas saíram monstrengos de concreto e bairros estéreis. O pessoal do Pasquim, uma turma que me aplicou dribles de almanaque, sintetizou aquele período num hipotético nome de condomínio: Désir d’Argent. Hipotético, mas, cá entre nós, muito verossímil. A cidade, ferida pelo ouro de tolo, se afastou da imagem romântica da boa vizinhança, da conversa no portão da casa, do moleque soltando pipa, do campinho de pelada, do pé descalço que subia na mangueira, da favela idealizada, da bisnaga quente que o padeiro trazia na bicicleta, em enormes cestas de vime.
Ai de ti, Rio de Janeiro !
E vieram os emergentes da Barra, as gerações que não conheceram nada além do território fortificado de seus condomínios, os alçapões travestidos de moradias, os viadutos engolindo silêncios, os paredões de concreto adulterando a paisagem, a miséria centrifugada pela desigualdade estrutural. Aos poucos, sou paciente, ganhei musculatura, confirmei alianças e cumplicidades. Vivo meus anos dourados. Nesta cidade, derreteram-se noções de solidariedade, de pertencimento a uma vontade comum, de reconhecimento do Outro. Como uma doença, a população elege quem a odeia e despreza. Parece reprise do filme – um dos meus prediletos – Invasores de corpos.
Pensando bem, a valsinha assobiada precisava de uma boa revisão. Vou trocar umas ideias com o Antonio Maria. Gente feliz ? Há controvérsias. Estou perto de concluir meu trabalho. Com a colaboração valiosa do presidente da República, que afirma ser o uso de máscara contra a Covid-19 “coisa de viado”. Também conto com o esforço genocida dos que se aglomeram, sem proteção, em bares e praias, na mureta da Urca, em festas e bailes. A resistência, empacotada em gritos e sussurros, não dá nem pra saída.
Vocês foram avisados.
Ai de ti, Rio de Janeiro !
Ai de ti.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 11 jul, 2020 | Brasil, Justiça, Política
De acordo com a Wikipedia, “A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação reformada, portanto, crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática, fonte de toda doutrina ensinada na igreja. Todavia, a IPB subscreve os Símbolos de Westminster: (Confissão de Fé de Westminster (CFW), Catecismo Maior de Westminster e Breve Catecismo de Westminster) que considera ser exposição fiel das Sagradas Escrituras. Tais confissões são modificáveis, caso a igreja perceba erros em suas declarações e não são vistas como sagradas ou inspiradas por Deus.
Entre as doutrinas expressas na CFW estão as doutrinas da: Trindade; Difisismo; Predestinação; Graça Comum; Divina Providência; Queda e Pecado original; Depravação Total; Vocação eficaz; Expiação eficaz; Eleição Incondicional; Perseverança dos santos; Justificação pela fé; Ordo salutis reformada; Dois sacramentos (Batismo e Eucaristia) e a Guarda do Domingo como “sábado cristão”. Além disso, a CFW expressa uma visão positiva da Lei de Deus, afirmando que embora não seja possível que os homens a cumpram integralmente, ela é o padrão que revela o caráter de Deus e deve ser observada por todos os cristãos. O Evangelho não anula a Lei. Assim, embora o homem não possa ser salvo por cumprir a Lei, ele deve obedecê-la por ser a revelação da vontade de Deus para os homens.]
A CFW também afirma que todo poder é instituído por Deus, e portanto os cristãos devem obedecer os magistrados. Todavia, não pode o poder político interferir na igreja, seus sacramentos, cultos e ordens. A Confissão se opõe a bigamia, define casamento como relação apenas possível entre homem e mulher e só admite divórcio em caso de adultério e deserção irremediáveis. O sistema de governo presbiteriano é também definido na Confissão, regulando-se por sínodos e concílios.”
Sim, esta é a ideologia, ou a teologia, como preferirem do novo ministro da educação, Milton Ribeiro, Pastor da igreja presbiteriana.
Mal assumiu e já chegava as mídias sociais o que ele pensa e diz. Não o que disse há muitos anos, mas o que pensa realmente na atualidade: crianças podem sofrer castigos físicos (tomar uma surra, como se dizia na minha época), na sua teoria da “Vara Disciplinar”. Também diz que o homem é quem deve impor a direção da família. Estas são as suas credenciais.
O que pensar da educação no Brasil nas mãos de um sujeito que ainda obedece a preceitos religiosos ultrapassados? Que tipo de cidadãos vamos educar para o futuro? Um retrocesso no ambiente de respeito ao gênero, da igualdade da mulher e respeito as diferenças. Todo um conjunto de conquistas sociais que pacificaram a sociedade em termos de acolhimento social vão para o ralo. O romance de 1985 da escritora Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) vai se tornando uma possibilidade real.
O Brasil vai tomando todos os caminhos errados possíveis, seja na educação, na saúde ou na economia. Parece uma obcessão pelo quanto pior, melhor. Quanto mais conservador, mais repressivo, mais repulsivo, ideal.
Novamente vou me valer da Wikipedia para uma definição: “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como os principais numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.”
Eu acredito na capacidade humana para superar desafios de toda ordem. Acredito que a cada geração somos capazes de melhorar o mundo em alguns aspectos e mesmo na adversidade, encontrar caminhos éticos e morais que fazem deste mundo um lugar melhor para se viver.
Dito isso, também acredito que existam serem humanos que não fazem parte da nossa humanidade. Não pode haver perdão para aqueles que cometem crimes contra ela. Não se pode admitir que genocidas convivam na mesma sociedade de suas vítimas e desfrutem da impunidade.
Sem justiça, não pode haver paz, repetem os afrodescendentes americanos em suas manifestações contra o racismo, uma praga mundial. Toda sociedade preconceituosa é uma sociedade em permanente atrito social. É o que acontece com maior, ou menor intensidade em todos os países do mundo. Cada passo dado em direção as correções na educação, em punições mais rigorosas contra o preconceito nos elevam a novos patamares de bem-estar social e progresso.
A derrubada de estátuas deste tipo de gente no mundo todo é uma forma de jogar no lixo da história aqueles que prejudicaram as relações humanas, lugar merecido para eles. Que permaneçam sendo mencionados apenas nos livros como exemplo de doutrinas que superamos e renegamos, desejando que nunca mais sejam impostas.
Vivemos dias terríveis de pandemia mundial, de crises existenciais, crises econômicas e futuro incerto. Precisamos repensar o futuro como nunca antes visto. Nada pode voltar ao normal porque o normal deixou de existir. O momento para rever conceitos é o aqui e agora, superar o impossível e juntar forças para seguir em frente.
O mundo tal como o conhecemos até 2019 nunca mais será o mesmo depois de 2020. Como será o Brasil? Agora é o momento de usar toda nossa capacidade racional para sair da resistência passiva, para uma resistência ativa.
por Mauro Nadvorny | 9 jul, 2020 | Israel, Poesia, Política, Protesto
Erich Fried (1921-1988) é um dos mais importantes e interessantes poetas de língua alemã de todos os tempos, e é também um artista que com frequência revisito, pois sua obra é extremamente rica e sempre me traz novas indagações e reflexões. Judeu austríaco de Viena, é um dos grandes representantes da ‘poesia política’ e foi um convicto esquerdista, sempre consciente sobre o mundo e as sociedades ao seu redor. Seu trabalho é repleto de questões identitárias e existencialistas e sua condição judaica é muito presente, seja de forma explícita ou implícita.
Eu poderia falar por horas sobre Fried – me identifico bastante com ele enquanto “judeu de língua alemã” – mas o intuito deste artigo é específico: quero trazer um de seus mais vigorosos e claros poemas (e que o coloca também em um rol de polêmica). Trata-se de ‘Höre, Israel’ (‘Ouça, Israel’), de 1967, que consiste em forte crítica às políticas israelenses frente os árabes. Este faz parte de um ciclo de poemas, todos com temática política, e foi publicado no ano em que foi escrito no tradicional jornal esquerdista alemão ‘Konkret’, que existe até hoje. Em 1974 o ciclo foi transformado em um livro, também intitulado ‘Ouça, Israel’.
Eu não era vivo em 1967, e não posso avaliar exatamente o quão realista era este poema naquela época. Mas sei que hoje, na Era Netanyahu, ele é infelizmente mais real e atual do que nunca. O verdadeiro artista muitas vezes antevê o futuro da sociedade, e acredito que Fried – caso tenha “exagerado” na época (como clamam alguns que o criticam) –, certamente (e de maneira quase profética) não criou nenhum exagero no que diz respeito aos dias de hoje.
Vamos ao poema. (Eu mesmo o traduzi e não sei se há outra tradução para o português, mas aproveito para dizer que não acredito em tradução de poesia. Como amante desta arte, penso que só se pode assimilar e compreender um poema plenamente em seu idioma original. Mas acredito que esta tradução funciona suficientemente bem para veicular ao leitor o conteúdo, que é o que mais nos interessa aqui.)
Ouça, Israel
Quando fomos perseguidos
Eu fui um de vocês.
Como posso continuar a ser
quando vocês se tornam perseguidores?
O anseio de vocês era
serem como os outros povos
quem os assassinaram.
Então agora vocês são como eles.
Vocês sobreviveram
àqueles que lhes foram cruéis.
A crueldade deles
permanece viva agora em vocês?
Vocês ordenaram aos vencidos:
“Tirem os seus sapatos”
Assim como o bode expiatório vocês
os lançaram no deserto
na grande mesquita da morte
onde sandálias são areia
mas eles não assumiram o pecado
que vocês quiseram lhes impor
A impressão dos pés descalços
na areia do deserto
sobrevive às marcas
de suas bombas e tanques.
O poema foi escrito em ocasião à Guerra dos Seis Dias. Em sua publicação Fried adicionou uma nota de rodapé que explica que na quarta estrofe ele se refere a um desagradável episódio ocorrido no fim do conflito: os egípcios capturados na guerra, ao serem libertados, teriam sido obrigados pelos israelenses a tirarem suas sandálias, tendo então de caminhar de volta às suas casas descalços sobre a quente areia do deserto.
Pois bem, com exceção desta quarta estrofe, que é muita específica sobre a guerra de 1967, todas as outras caberiam perfeitamente hoje no contexto do conflito israelense-palestino. Como escrevi acima, não vivi aquela época e não sei dizer se o poema era adequado (talvez alguém que viveu, possa dizê-lo). Mas vivo a época de agora, e infelizmente Fried descreve perfeitamente grande parte dos judeus de hoje (sejam de Israel ou da diáspora), quando afirma que “agora vocês são como eles (os agressores)” e quando lhes pergunta se “a crueldade deles (agressores) permanece viva agora em vocês (judeus)”.
Termino esta breve reflexão lembrando o(a) leitor(a) – seja ele(a) judeu/judia ou não –, que somente parte do povo judeu apoia a opressão israelense aos palestinos. Outra parte luta dia e noite contra ela e espera que ‘Shema Israel’ (‘Ouça, Israel’) possa um dia ser somente um clamor por Deus e não um grito angustiado de um poeta diante do terror causado por parte do seu povo.
Grande Fried, onde quer que sua alma esteja agora, minha resposta à sua pergunta “Como posso continuar a ser (parte do povo) quando vocês se tornam perseguidores?” é: Você pode sempre pôde e pode continuar sendo um de nós. É um dos que nos orgulham e não um dos que nos envergonham. Sua poesia permanece viva e sendo arma de resistência para ser recitada por nós nas batalhas de hoje. Obrigado, poeta companheiro. Es lebe der Widerstand! (Viva a Resistência!)
por Mauro Nadvorny | 8 jul, 2020 | Crônica
Carpintaria
Nas férias de julho, lá pelos anos 60/70, esperávamos ansiosas pelo carpinteiro, o Sr. José Pedro, um grande contador de histórias. Papai o contratava para a fabricação de gamelas, [grandes pratos de madeira para alimentar o gado]. Durante o dia, o oficio era executado com esmero, ora ou outra a gente se aproximava para conhecer o trabalho e recolher uns pedacinhos de madeira que sobravam para serem mesas, cadeiras, camas de nossas casas de brinquedos. Nossas bonecas eram de sabugos ou de pano feitas por mamãe. Eram lindas! As bocas sempre vermelhas como o batom que ela usava. Tempos que sinto saudades…
Após a lida do leite, dos queijos, das louças lavadas, todos e todas banhados com o sabonete alma de flores, sentávamos na varanda da casa para ouvirmos histórias encantadas. O Sr. José Pedro não era só carpinteiro profissional de objetos de madeira, ele era carpinteiro da palavra. Nenhuma história era contada sem gestos, sem o corpo ficar em movimento. Nossos olhos brilhavam, as gargalhadas infantis ou as lágrimas encerravam as noites daqueles tempos ditosos e felizes.
Também tinha em seu repertório histórias de assombração. Mamãe sempre pedia que não contasse muitas para que eu não fizesse xixi na cama. Eu sempre fazia. Talvez por isso tenho uma paixão pelos contos de Edgar Allan Poe e já escrevi três novelas e nunca publiquei.
Fui uma criança feliz, mesmo tendo vivido a maior parte do tempo longe de meus pais, porque precisava estudar. Posso dizer-lhes que saí de casa aos seis anos e nunca mais voltei. Meus retornos eram nas férias e feriados. Mas eram tão lúdicos que parecia a eternidade. Papai sempre preparava os balançadores, as pedrinhas que encontrava nos riachos, as burras leiteiras, as galinhas de pereiro [brincadeiras da natureza]. Mamãe fazia doces, bolos, sequilhos, e uma das coisas que eu mais gostava de fazer era quando me dava a tarefa de colher ovos. Eram os tesouros a serem encontrados. Fico pensando em meu neto e netas com seus tabletes nas mãos.
A carpintaria exerce em mim um fascínio. Seja a arte em esculturas ou a construção de um texto. Exatamente como esmerilar. A palavra se torna sagrada quando exerce a função de historiar a vida, os mundos distantes… Hoje, quero agradecer a possibilidade, com muita humildade e dizer que o senhor José Pedro, meu pai e minha mãe foram os meus professores de sonhos e carpintaria.