Alguidar

Um dia Cabral ensinou fazer poesia

Dizendo em um verso:

“Catar feijão se limita com escrever”

Foi uma aula para vida inteira.

Mamãe fazia com o feijão

O que Cabral fazia com as palavras

Os dois em lugares tão distantes…

Ensinaram-me exatamente, que poesia e feijão alimentam

Nunca tive apetite para comida, mas amava os livros

Mamãe fazia “capitão” algo como um bolinho de feijão

E goela adentro. Não fiquei desnutrida.

Esperneava, trancava os dentes. Nada adiantava, engolia.

O cuidado e a voz “já comeu?”

Acompanharam-me até o último dia em que ela respirou. Nunca descuidou.

Eu respondia que havia comido uma fruta.

Até hoje é assim, tenho dificuldade com alimentos

Mas as frutas são minha alegria e me salvam de inanição.

Hoje pensei nos poetas que estão partindo.

Com seus alguidares

Deveria ser proibido morrer

Mas todos falam: “É a grande certeza da vida!”

O estranhamento continua. A única incerteza é o dia.

O convite não vem pelos correios e nem por e-mails

Simplesmente chega de supetão com a cara deslavada

E na sua indiferença de sinto muito,

Você é o convidado do dia.

A dor se espalha, lembramos por muitos dias, depois quando ouvimos ou lemos uma música, um poema, um artigo, voltamos as lembranças.

E o velho tempo vai se encarregando de suas ocupações e quando menos esperamos já é sexta-feira.

No volveremos a la normalidad porque la normalidad era el problema (pichação num muro em Madri)

Empilhou três pequenas almofadas. Não foi suficiente. Vou precisar de mais uma, disse meu neto mais novo, quero ver um pouco da cidade. Concluída a escada macia, subiu à janela e acrescentou: Também quero ver aquela pista. Com os olhinhos pouco acima do parapeito, o que procurava ? O sonho de liberdade, que bateu asas e voou ? A teia da aranha bunduda no poste de luz, que tantas vezes nos fascinou na volta da escola, arquitetura da natureza que chora ? O cãozinho, ele morde ?, que nunca lhe recusou o afago ? O salto mortal na escadinha do prédio, folguedo diário que excitava a bravura ? Um detetive do prédio azul, com máscara, envolvido em mistérios transcendentes ?

Como meu neto, ando procurando janelas. No início da clausura, descobri, encantado, pedaços da natureza que me rodeavam, sem que eu me desse conta. Pássaros in concert, o ciclo vital das árvores. Passei a olhar a rua, a mímica dos porteiros, os espectros nas janelas dos prédios. A ouvir músicas, veneno antimonotonia, de gente que gritava contra a solidão. Hoje, é o som de loucos que invade a madrugada. Berram insultos em direção a ninguém, ameaçam, desesperam, de repente desaparecem. O número de moradores de rua aumentou durante a pandemia. Pessoas que perderam a pouca renda que tinham e se amontoam nas filas da caridade para ganhar um prato de comida. Por razões variadas, estima-se que uma das sequelas do isolamento forçado e da queda brutal na qualidade de vida será um surto de doenças mentais. Os gritos na madrugada são o trailer deste filme.

Ainda me adaptando, sob protesto, à televida, vou abrindo pequenas frestas. Indeciso se em janelas Twilight zone ou grife Roger Corman. O fato é que o outro lado está cada vez mais parecido com aqueles filmes, que aterrorizavam o Menino, onde as imagens do espelho ganhavam vida própria. E não adiantava gritar, o efeito não passava.

Que imagens são essas ? Entregadores de aplicativos, que salvam o escalpo da tribo todos os dias, fizeram uma greve. Marqueteiros cínicos os chamam de empreendedores. São autônomos sem autonomia, ganham salário de fome, trabalham até 12 horas por dia, sete dias por semana. Sem direitos trabalhistas. Mal disfarçada escravidão. Quer mais ? A ONU prevê que a pandemia jogará cerca de 420 milhões de pessoas de volta à extrema pobreza no mundo. Destas, 265 milhões, quase um Brasil e meio, viverão em estado de fome crônica. O desastre será particularmente severo na África e na América Latina. No Brasil, governado por um maníaco, pela primeira vez mais de metade de quem tem idade para trabalhar está parado.

O que falar dos lutos ? Vivendo em estado de aflição crônica pela falta de clareza do futuro imediato, mal temos tempo de nos despedir dos afetos que se encerram. Talvez tenhamos que improvisar um Kuarup, a sábia cerimônia de despedida dos mortos que acontece uma vez por ano no Xingu. Os povos locais cortam toras de madeira (kuarups), pintam-nas e enfeitam-nas, atribuindo a elas a materialidade provisória dos mortos. Com cerimônias que incluem cantos e danças, despedem-se dos mortos. As toras são levadas embora, e, sem elas, a dor se dilui. Os mortos passam a habitar a memória e se incorporam ao leito perpétuo da ancestralidade.

Espera aí, acabo de ver dois pequenos lampejos no espelho. O primeiro vem da Etiópia. Uma organização local encontrou uma forma criativa de garantir acesso à leitura para que as crianças, habitantes de áreas isoladas, continuem a estudar durante a pandemia. Vinte dromedários carregam caixas de madeira com livros, uma biblioteca móvel que permite acesso a 4 mil volumes. O outro está aqui do lado. Na Bahia, a enfermeira Monaliza Oliveira usa um jegue para distribuir kits de proteção (máscaras, álcool em gel) durante a pandemia. Só assim ela consegue chegar nos grotões do município de Boa Vista do Tupim. Pequenas esperanças na espécie humana, predadora, insensível, mas às vezes, poucas é verdade, capaz de gestos belos.

Assim que possível, vou querer ver um pouco da cidade ao lado do meu neto. Quem sabe ele me ensina a enxergar o que já não consigo ver ?

Abraço. E coragem.

Tempos de Metamorfose

A herança cultural da humanidade é rica em metamorfoses, palavra consagrada por Ovídio em seu livro “Metamorfoses”. Esse livro marcou artistas como Dante, Shakespeare, Michelangelo, Rembrandt, entre outros. Já no século 20, Franz Kafka escreve “A Metamorfose”, cujo famoso início marcou escritores como García Márquez: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Hoje não somos insetos como Gregor Samsa, mas a vida está estranha. Num supermercado, por exemplo, estão todos mascarados, escondidos como os bandidos que usavam lenços para cobrir os rostos. Agora os que não usam máscaras são os bandidos, pois ajudam a pandemia. Por isso todos os pais, os chefes, os líderes, deveriam usar máscaras para dar o exemplo. Na realidade não é assim, pois nem todos aceitam as orientações médicas, contribuindo com o aumento das mortes.

Um dos maiores exemplos de metamorfose foram as mudanças que viveu Ulisses, na “Odisseia”. Foi um ator ao se fingir de louco para não ir à guerra de Troia, mas atuou mal e foi descoberto. Na guerra sua astúcia se revelou ao criar o cavalo de Troia e assim derrotar os troianos. Depois foram dez anos no mar enfrentando perigos ao enfrentar e matar o ciclope, escutando as sereias sem sucumbir, e, finalmente, se vestindo de vagabundo ao chegar em Ítaca para reconquistar seu reino. As metamorfoses estão presente em Guimarães Rosa no seu “Grande Sertão: Veredas”: “Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou”. As pessoas afinam ou desafinam; torço para que a maioria do País volte a se afinar com as artes, a saúde, a educação, na luta contra o racismo.

Rosa e os poetas são os guardiões da metamorfose, é a capacidade poética de cada um ao ter que resolver seu quebra-cabeça diário. A vida está em movimento, já o mundo, as vezes, torce o nariz à metamorfose, pois ela atua em sentido contrário ao da maioria. Importante que exista sempre gente com coragem criativa, inventando novas estradas. É urgente imaginar levezas num mundo pesado, mundo de solidões, onde hoje cada um se comunica através das frágeis pontes virtuais.

A metamorfose deve se aliar à compaixão, escreveu Elias Canetti em sua conferência “O ofício do poeta”. Ter compaixão é aliviar o sofrimento do outro, é a gentileza com os sofredores. Incrível como um querido país elegeu para presidente um homem sem compaixão com os mortos e suas famílias. Despreza os infectologistas, nem mil mortes por dia o comovem, e, pasmem, onde estão os que deveriam pôr limites nesse líder que mata mais que o vírus? As Forças Desalmadas teriam obrigação de defender o povo, para isso são pagas, mas integram o pior grupo de ministros da História. Seus eleitores estão rindo não se sabe do que, com certeza não é dos mortos, imagino. Trágico mercado, trágica mídia, indiferente Justiça, que abriram as portas para o mais cruel dos governos já eleitos.

Neste país muitos riram da metralhadora, das arminhas, desprezaram a violência, o elogio à tortura e ao assassinato de 30 mil. Em alguma medida, também somos responsáveis, seja pelo que fizemos ou pelo que deixamos de fazer. Desprezar a política, transformar um homem ou um partido no único bode expiatório, é favorecer os canalhas. Porque hoje a questão central já não é só a política, dobrar a direita ou à esquerda, o central são os Direitos Humanos. Direitos dos negros, índios, pobres, dos humoristas e artistas. Ninguém dos três poderes parece se importar com a morte dos outros, já são 61.990 mortos. São tempos de metamorfose, é preciso construir a esperança, poderá tardar, mas haverá um amanhã para o nosso Brasil.

Para não dizerem que não falei de Decotelli

 

Durante uma semana ficamos sabendo quem seria o novo ocupante do MEC e a seguir de sua demissão do cargo. Carlos Alberto Decotelli da Silva teve uma passagem “celeríssima” pelo governo Bolsonaro.

Eu não me importo com a cor da pessoa, mas com o seu caráter, sua honradez, sua capacidade de trabalho, sua honestidade etc. Ele não foi o único ministro do atual governo a mentir em seu currículo, mas foi o mais destacado deles até pedir para sair.

Tenho certeza de que seus amigos e alunos, ao menos os que se dispuseram a dar entrevistas, foram sinceros ao dizerem que se tratava de uma ótima pessoa, muito querida e excelente professor. Com certeza, sua família, além dele próprio sofreram muito com todo o episódio.

O fato é que nada justifica uma fraude. O que ele fez em seu currículo se chama Crime de Falsidade Ideológica e, se quisesse, o MP poderia abrir um processo contra ele. Não se pode atribuir diplomas de cursos não completados, de trabalhos não realizados e de universidades não frequentadas.

Decotelli foi muito ingênuo ao achar que poderia assumir o cargo do até então pior ministro da educação da história do Brasil, que acabava de fugir para os EUA usando um passaporte diplomático que não tinha mais direito, sem ter sua vida escrutinada. Parece ter ficado ébrio com o convite.

Não tenho dúvida que servir como ministro ao país é uma grande honra para qualquer um. Mas vamos falar sério. Uma coisa é servir de ministro em uma ditadura, outra coisa numa democracia. E mesmo em uma democracia, uma coisa é servir a um governo popular, outra a um governo fascista. Muita gente não tem o menor discernimento.

Existem outros ministros que mentiram descaradamente em seus currículos que haviam estudado em Harvard. Foram motivo de piada, corrigiram o erro e se mantiveram no cargo. Decotelli foi um pouco exagerado. Cometeu plágio e também escreveu possuir títulos inexistentes. Começou mal e terminou pior ainda.

Em um governo cheio de estrelas nazistas, de crentes na Terra Plana, adoradores de Trump, adeptos das teorias da conspiração, como a do Covid-19 ser um vírus criado para os comunistas dominarem o mundo, tudo agora é visto com uma lupa. Se mais alguém acha que pode entrar para este governo com qualquer manchinha no passado ser esquecida, perca as esperanças. Sua vida será revirada ao avesso.

O exemplo Decotelli acabou se tronando didático. Imagino que o Lattes nunca teve tanto acesso de pessoas “corrigindo” erros cometidos. É bom que o façam, de farsas e mentiras neste governo, já chegamos ao limite do tolerável.

A classe dos professores foi maculada por um dos seus. Nenhuma classe está a salvo de pessoas assim. Creditar-se ter alcançado na vida aquilo que era desejo, sem ter cumprido as atividades formais, ou ter sido reprovado nos trabalhos, não é algo que a gente esperava de um professor. Muito menos de um economista. É como se ele tivesse trapaceado nas contas.

Bolsonaro consegue errar em absolutamente tudo o que faz. Até na nomeação de um ministro o cara não acerta. Era de se supor que lhe são trazidos nomes que passaram por todo tipo de exame e seriam todos ilibados. Nada disso. Em um governo sem presidente a altura do cargo, são estas baixarias que vamos seguir assistindo.

O tempo e as lembranças

São cabeças envoltas em nuvens de algodão

Tantos sonhos esquecidos

Lembranças que se perdem

Outras tantas que insistem em ficar

Fragmentos de experiências vividas

De dores sufocadas

Cicatrizes profundas

O retorno ao ventre materno

A mão daquele pai

O aconchego do esposo

E a mãe que espera pelos filhos

Com a certeza de que eles virão

E elas serão salvas por essas mãos

Mãos de um amor guardado

Esperança que não desvanece

Uma espera que nunca termina

A cama que mesmo quente, não e a sua

É como se elas caminhassem pelas ruas

No vento gelado

No orvalho que umedece

E em lágrimas viscerais

Recolhem-se à posição fetal

Buscam nas memórias uterinas

O calor para esse frio final.

Depois daqueles dias

Depois daqueles dias,

A vida foi diferente,

A ninguém se olhou impunemente,

Nada mais foi como antigamente,

Depois daqueles dias,

Uma morte a menos era a alegria,

A vida se comemorou como alforria,

E o monstro aos poucos desaparecia,

Depois daqueles dias,

Não havia mais fronteira,

O mundo só tinha uma bandeira,

E a vida era a melhor maneira,

Depois daqueles dias,

A desigualdade foi entendida,

A pobreza foi combatida,

E a fome foi vencida,

Depois daqueles dias,

Houve encontro de almas,

E respeito a todas as faunas,

E heróis que receberam palmas,

Depois daqueles dias,

A nova ordem se fez,

A floresta se refez,

E qualquer vida teve vez,

Depois daqueles dias,

O contato era especial,

Olho no olho era essencial,

E o abraço divinal.