Em boa companhia

( Em homenagem ao meu saudoso amigo e primo Celso )
Durante a pandemia, fiquei isolada,na companhia da minha gata Conchita.
Comunicação com os filhos, somente por telefone ou pelo Whatsapp. Mas, não me sinto sozinha. Pelo contrário, em meu quarto conto com o apoio de uma dinastia de pernilongos.
Dizem que os insetos se reproduzem numa velocidade inversamente proporcional ao seu tamanho. Eu nem conseguiria informar com quantas gerações de pernilongos venho compartiĺhando meu espaço…
Caros amigas e amigos, podem ficar tranquilos:
Os pernilongos do meu quarto são inteiramente “do bem”. Não transmitem dengue, zika ou chicungunha. E mostram – se apenas um tantinho invasivos.
À noite, costumam perturbar meu sono, mordiscando – me os dedos.Como sou avessa aos inseticidas, procuro me defender, puxando as cobertas, até à cabeça….
Nos dias mais quentes, adoto a estratégia de direcionar para a cama o fluxo de dois circuladores de ar – arcaicos mas eficientes ! Consigo ,assim, dormir sossegada  sem sufocar sob o lençol .
Particularmente, sinto – me gratificada , pois é  graças ao meu sangue , que as mamães pernilongas conseguem nutrir sua prole: Como sucede com as leoas, são as pernilongas que saem à caça para alimentar os filhotes.
Ocasionalmente, acabo estapeando uma pernilonga mais lerda,  empanturrada de
 sangue. Nessas ocasiões, fico dividida entre o instinto satisfeito de caçadora e a culpa por haver eliminado uma vidinha da face da Terra: Segundo a crença budista, tratam – se de  almas em evolução!
Viver é estar em permanente conflito com a consciência! E o jeito mesmo é ir levando, com o cuidado de manter, sempre ao alcance da mão,um potinho de Pomada de Ledum, em caso de coceira.

Frente ou verso?

Pode ser efeito colateral do isolamento, afinal já são 100 dias de prisão domiciliar, os neurônios e a alma não são de aço. O fato é que sinto uma mistura de tédio e aborrecimento quando vejo a incompetência das oposições em compreender a gravidade do momento atual e agir de acordo com ela. A unificação tática, acima de divergências de maior ou menor bitola, parece mais remota do que o nono círculo do Inferno de Dante. Me faz lembrar de um espetáculo do Juca Chaves, que assisti nos também remotos anos 70. O Juquinha cantava um dos mantras da ditadura: “Este é um país que vai pra frente …”. Enquanto cantava, andava pra trás.

Simplificando a encrenca. De um lado a gente vê a construção de uma frente totalitária, heterogênea, com elementos comuns ao fascismo histórico (mas com diferenças importantes em relação a ele), combinando, como bem observou Marcelo Coelho, “não só os que são contra o Estado, mas também os que estão à margem, ou fora, da lei”. O balaio comporta desde milícias, garimpeiros e militantes racistas a parcela dos trabalhadores informais e donas de casa inconformadas com os novos direitos de suas empregadas domésticas. É uma base social surpreendente, que tem se mostrado razoavelmente coesa e estável. Mesmo após a prisão do Queiroz, 33% da população continua aprovando o governo Bolsonaro. Há um dinamismo imprevisível neste caldeirão, que merece elaboração que vá além dos insultos e declarações de indignação.

Do outro lado, nenhum passo dado na direção de um programa mínimo que unifique todos os que se opõem ao avanço da extrema-direita. Entre tapas e rabos de arraia, alguns figurões pensam, grosso modo, apenas nos seus currais, além do horizonte só enxergam eleições. Minha triste impressão é de que, no fundo, muita gente ainda alimenta a imagem fuleira de que os mais de 57 milhões de brasileiros que votaram no JMB são fascistas irrecuperáveis. A consequência é óbvia. Para entrar na frente que se quer construir (quer mesmo ?), será necessário mostrar atestado de pureza. Um erro grave, que me conduz ao seguinte raciocínio. Com a liberação do chamado auxílio emergencial de R$ 600, a popularidade do presidente aumentou substancialmente em áreas do nordeste. Usando a lógica dos puristas, estaríamos frente a um surto fascistoide nordestino, uma adesão tardia ao bolsonarismo. Como essa gente se atreve a vender a alma por uns trocados ? Estão todos banidos do “meu grupo” !

Para os imaculados e de nariz sensível, um pouquinho de História não faz mal. Ulysses Guimarães foi a favor do golpe de 1964. José Sarney foi da ARENA até os estertores da ditadura. Teotônio Vilela, o Trovador das Alagoas, também foi filiado por muitos anos à ARENA (o partido do sim, senhor). Aureliano Chaves, cuja ruptura com a ARENA ajudou a pavimentar a eleição indireta de Tancredo Neves, foi vice-presidente do general Figueiredo. Por que cito estes personagens ? Se as vestais da época resolvessem apontar as marcas de Caim ao invés de incorporá-los, sem agressões, aos movimentos de ultrapassagem da ditadura, talvez os milicos tivessem demorado mais nos tronos de Brasília.

Como na época da ditadura, hoje temos claramente um inimigo comum. Isso não tem sido suficiente para alavancar a mudança de qualidade da luta contra este inimigo. Por enquanto, ficamos nas notas de protesto, nos espasmos adolescentes das redes sociais, na hepatopolítica. A unidade, tão adiada, implica num comportamento adulto, ou seja, reconhecendo as diferenças de quem luta e jogando o balanço delas para outro momento. O programa mínimo seria resultado deste encontro dos diferentes. E sem ele não se avançará. Claro que o caminho não é simples. Há questões, para as forças de esquerda, que não são triviais. Setores liberais da frente tenderão a deixar os interesses populares em segundo plano (como de praxe na história brasileira). Caberá, então, aos representantes destes interesses disputar espaços que garantam a presença dos trabalhadores na agenda mínima de luta. É uma luta ampla, mas o centro imediato dela é a derrota do bolsonarismo, blitzkrieg esquizoide do subsolo brasileiro.

Termino lembrando de Mario Benedetti, o grande poeta e intelectual uruguaio, cujo centenário de nascimento se comemora este ano. Sem abandonar suas profundas convicções de esquerda, sempre privilegiou a unidade de todas as forças democráticas para isolar a ditadura. Em 1977, escreve uma carta ao dirigente do Partido Nacional (Blanco) Wilson Ferreira Aldunate: “Os matizes virão depois, quando a paz e a liberdade permitirem estes matizes, que são o sal (e a pimenta) da prática política (…) Todos cometemos erros, mas o momento é demasiado grave para nos fixarmos em fazer este inventário. Não precisamos de mais frustrações, mas de pretextos para a esperança”.

Bolero

Bolero
Prezada Amália ,
Fiquei surpresa ao encontrar seu” pedido de Amizade” no Facebook.
E me veio a dúvida, se foi um ato consciente ou foi uma distração sua clicar naquele botão.
Embora nunca a tenha encontrado pessoalmente,você não é uma desconhecida
para mim.
Dando uma vista de olhos no Facebook, posso saber que você fez carreira universitária , é autora de obras de prestigio e construiu uma bela família ,na cidade onde mora.
Percebo igualmente, que compartilhamos posições políticas, de oposição à onda fascista que assola nosso país.
Porém  isso não é tudo: Lá no distante passado,nossos destinos já se cruzaram, numa trama inquietante, com toques de novela mexicana.
Naqueles dias, um certo jovem, muito dedicado à profissão e bastante confuso sentimentalmente ,colocou na minha e na sua testa (ou vice versa) uns belos chifres!
Ele nos traía uma com a outra e ,como se não bastasse, com uma terceira, quarta ou quiçá quantas moçoilas atraídas por sua virilidade!
A mim,ele contava que era separado da esposa.
O que ele contava a você, só vocês dois podem saber…
Esse episódio rocambolesco, veio subitamente à tona, quando me deparei esses dias , com seu pedido no meu Facebook.
Ha muitas décadas, o afoito galã do melodrama, sumiu da minha vida. Mas, na sua ,ele continua  presente , com papel de destaque!
Por tudo isso, Amália,  e sobretudo porque –  eu Cloé – sou avessa a situações ambíguas ,
é  que não me sinto confortável, em aceitar sua Amizade, sem antes colocar na mesa os fatos acima relatados.
Cabe agora a você decidir se deseja mesmo iniciar Amizade comigo.
Sinceramente
Cloé

Que se compreenda de uma vez por todas: Bolsonaro não ama Israel nem os judeus. Bolsonaro ama Netanyahu. (E Trump.)

(publicado originalmente em Brasil247 em 26.06.2020.)

Após um ano e meio de desgoverno, praticamente todos os dias pessoas ainda vêm a mim com as mesmas perguntas: “Por que Bolsonaro ama tanto Israel?” ou “Ele é muito amigo de Israel, não?” ou, ainda pior, “Ele é muito amigo dos judeus, hein?”. E fora perguntas educadas, há também sempre comentários antissemitas em meus textos ou lives, do tipo: “Bolsonaro e Israel são tudo a mesma coisa!” ou “Os judeus amam Bolsonaro porque ele apoia a opressão em Israel.”

Muito bem, sou professor há 20 anos e sei que se uma questão não está esclarecida, a melhor maneira de lidar é repetir a explicação quantas vezes for necessário. Assim, embora eu já tenha escrito outros artigos sobre o tema, cabe sempre mais um. Além disso, novos eventos ocorrem sempre e aumentam os desentendimentos. E a atenção do mundo a Israel, por sua vez, nunca diminui. Parece haver um imaginário quase místico ao redor deste pequenino país (que possui praticamente a metade do tamanho e da população do Estado do Rio de Janeiro, para se ter uma ideia).

Muito bem, vamos lá: a resposta para a questão do suposto amor de Bolsonaro por Israel está resumida no título deste artigo. É simples assim: Bolsonaro não ama Israel, não apoia Israel, não se importa com Israel e isso é completamente claro e evidente em sua agenda. O que ele ama é a direita/extrema-direita que se apropriou de Israel gradualmente na última década, sob o comando do Benjamin Netanyahu. Sim, o “capitão” ama a política e as ideologias do israelense. E uma coisa é totalmente diferente da outra. Apoiar um governo vigente não é apoiar um país e seu povo. Quem de fato apoia Israel deve antes de mais nada atentar para a pluralidade do povo que lá vive. Cerca de um quarto de sua população é árabe e o risco da instalação de uma política de pleno apartheid é cada vez maior. Além disso, a situação de opressão contra os árabes não-israelenses ou palestinos, que vivem na Cisjordânia e em Gaza, é a cada dia mais inaceitável e insustentável. Quem é verdadeiramente amigo de Israel busca chegar a uma situação em que todos no país – e também seus vizinhos – vivam bem, em paz e com dignidade, ou seja, o oposto do que Netanyahu faz e ao que Bolsonaro aplaude.

Deixo muito claro: ao meu modo de ver, Netanyahu é simplesmente a pior coisa que já aconteceu a Israel. Ele é racista, corrupto e possui muito sangue nas mãos. É terrível para os palestinos não-cidadãos do país; é terrível para os árabes israelenses; é terrível para os judeus israelenses que não são direitistas e querem paz e justiça para e com os árabes; é terrível para os judeus da diáspora que não são direitistas pelo mesmo motivo; é terrível para qualquer tipo de contato com o mundo árabe que circunda Israel. Ou seja, ele possui todos os atributos para ser amante de Bolsonaro e, é claro, de Trump, o monstro que representa tudo o que há de pior na essência ianque e que considero também o mais nocivo presidente da história deste país (sim, Nixon e Bush filho eram “fichinha” perto do “very stable genius”).

Estes três estandartes do Neonazifascismo mundial amam somente suas ideologias e seus nefastos projetos. E nada mais. Cada um elege inimigos em seus países (“comunistas” e comunidade LGBT no Brasil; árabes em Israel; imigrantes latinos e árabes nos EUA). Em comum, os três têm o asco pelo pobre, seja ele negro, índio ou parte de outro grupo desfavorecido. Perseguem então os “vilões” de suas nações e trilham a contramão de tudo o que representa Democracia, Justiça Social e Direitos Humanos.

Mas qual é exatamente a razão para esta relação tão estreita entre Bolsonaro e Netanyahu? Pois bem, Netanyahu interessa a Bolsonaro por duas razões principais. Primeira: ao acariciar Netanyahu, o small brother brasileiro agrada seu tão admirado big brother Trump. E como vemos acima na bela charge de meu amigo Renato Aroeira (obrigado pela charge para este artigo, meu caro!), os três “irmãos de fé” passam a formar a perfeita aliança neonazifascista contemporânea, deixando pegadas de sangue por onde passam.

E a segunda razão se dá pelo motivo de que Netanyahu representa a perseguição aos árabes e é o símbolo maior do clamor por uma Israel soberanamente judaica (quase bíblica), e isso agrada uma imensa parte do eleitorado brasileiro: os evangélicos neopentecostais. Estes, que em grande parte seguem a doutrina do Dispensacionalismo, creem que Jesus Cristo retornará ao mundo justamente em Israel, mas somente quando todos os judeus estiverem lá reunidos e o “aceitarem” como o messias (algo completamente contrário ao Judaísmo e que simplesmente não vai acontecer). Mas na mente neopentecostal, vai. E os árabes? Bem, estes devem ser simplesmente varridos de Israel. Ou, se quiserem ficar, terão também de “aceitar” Cristo, ou seja, se converter. Pois é, é mais fácil oprimi-los e expulsá-los, no melhor estilo Netanyahu.

“Ah, mas e as bandeiras israelenses nas manifestações bolsonaristas, não representam amizade entre Bolsonaro e Israel?”, perguntam-me. Respondo: não. Pelas razões doutrinárias que acima expliquei, antes de mais nada é necessário que se saiba que praticamente todas as bandeiras azul-brancas são empunhadas por evangélicos e não por judeus. Os judeus bolsonaristas normalmente não se prestam ao ridículo das manifestações de adoração ao Jair “Messias”, mas sim assistem de longe – do alto de seus olimpos empresariais – o país desmoronar, enquanto os favores econômicos da elite são garantidos. Simples assim: “Rezem para quem quiser, acreditem na fantasia dispensacionalista que quiser, adorem uma Israel cristã o quanto quiser. Contanto que nossa grana esteja garantida, nada mais importa.”

Dito isso, aproveito para fazer uma observação adicional para tentar quebrar mais um esteriótipo equivocado que escuto com frequência: “Os judeus apoiam Bolsonaro porque são todos ricos!” Por favor, né?… Erradíssimo. Existem no Brasil judeus ricos, não ricos, de classe média, de média baixa e até muito pobres, que necessitam de programas sociais e caridade para sobreviver. E todos estes, como toda a comunidade, também se dividem entre pró-Bolsonaro e anti-Bolsonaro.

Em suma, a relação dos judeus brasileiros com Bolsonaro é completamente mista. Ele é apoiado por uma metade da comunidade e rejeitado pela outra. E é combatido diariamente por algumas das mais ativas e militantes instituições contra o seu governo (‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’, ‘Judeus pela Democracia’, ‘Judias e judeus com Lula’, ‘JUPROG (Judeus Progressistas)’, para citar algumas).

Enfim, cabe ainda acrescentar que este movimento neopentecostal é também um enlatado norte-americano que como sempre grande parcela do povo brasileiro consome de olhos fechados e com servil reverência. Os ‘evangelicals’, como são por lá chamados, possuem grande poder no país e seu símbolo maior atualmente foi cuidadosamente escolhido por Trump como seu vice-presidente, o de modo igual perigoso Mike Pence. Assim, uma espécie de “sionismo cristão” ascendeu, algo que é claramente nocivo para judeus (pois advoga por um judeu não-judeu, um judeu cristianizado), para muçulmanos e também para cristãos não-pentecostais. E Netanyahu se importa com isso? Não também. Sua mentalidade se concentra em metas muito bem definidas, das quais ele nunca desvia os olhos: contanto que apoiem seu projeto de subjugar os árabes israelenses a cidadãos de segunda classe e de usurpar os territórios palestinos, ele faz qualquer aliança, até mesmo com líderes que incitam o antissemitismo (ou melhor dizendo, o antijudaísmo), como os próprios Bolsonaro e Trump. (Aqui é necessário um adendo: embora relacionado com o assunto do “amor” de Bolsonaro pelos judeus e por Israel, não entrarei no tema do imenso ‘antissemitismo na Era Bolsonaro’, pois esse é um tema que merece ser tratado à parte. Mas anuncio aqui que o ‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’ está preparando um documento completo sobre este específico assunto, que será publicado em breve, quando completa-se 18 meses da atual presidência. Aguardem.)

Já vimos o interesse de Bolsonaro em Netanyahu. Qual é a reciprocidade para o israelense então? Bem, o brasileiro é tanto um aliado na ONU, quanto pode tornar-se um parceiro mais próximo economica- e até militarmente. Desta forma, em termos diplomáticos, a trica ultradireitista vota sempre em uníssono quando se trata de qualquer resolução que concirna aos planos de Netanyahu. O Brasil é um país grande e importante na América Latina e tê-lo ao seu lado nesta aliança ultradireitista é um grande ganho para este que pretende se tornar uma espécie de “rei moderno de Israel”.

E desta forma chegamos à principal notícia do momento no Oriente Médio: com o aval de Trump (e do irmãozinho brasileiro ao seu lado lhe dando a mão), um dos maiores passos para a anexação definitiva da Cisjordânia está prestes a ocorrer. Compreendam: isto é uma catástrofe para os palestinos, pois sacramenta de vez a ocupação de suas terras. Mas não é somente isso. Esta ação afeta também toda a região e pode implicar até mesmo no rompimento de acordos de paz entre Israel e alguns países vizinhos. Só mesmo a configuração atual do mundo, com Trump no poder e seus aliados de peso, poderiam permitir que isso ocorresse. É a tempestade perfeita sobre a árida “terra de Deus”.

Vejam, se amanhã o governo netanyahista caísse e – por um milagre – Israel voltasse a ser governado pela Esquerda (como foi por décadas) e as negociações de Paz com os palestinos fossem retomadas e progredissem, como aconteceu na época de Yitzhak Rabin, certamente Bolsonaro não teria absolutamente nenhuma amizade com Israel. E a mesma lógica serve para a relação com os EUA. Se em novembro próximo Biden vencer, veremos uma mudança drástica na relação entre Brasil e EUA. E se Bernie Sanders – para mim o maior político do mundo nas últimas décadas – vencesse, a devoção e a continência de Bolsonaro pelo Tio Sam desapareceria imediatamente.

Por fim, cabe ainda comentar mais uma novidade que surgiu nas últimas semanas: a questão da presença da bandeira palestina em manifestações pró-democracia no Brasil. Primeiramente digo que pessoalmente vejo a presença desta flâmula com ótimos olhos, pois nós judeus progressistas e humanistas somos também ativistas pela causa palestina. Para nós, não há Israel livre, justo e seguro, sem um Estado Palestino livre, justo e seguro. Assim, nestas demonstrações brasileiras, ao lado das bandeiras palestinas, há também sempre representações judaicas, ainda que não empunhando a bandeira israelense. É um erro imenso e um grande desconhecimento de causa pensar que estas bandeiras são antagônicas. O mal uso da flâmula israelense – seja por parte de evangélicos que sequestram símbolos judaicos ou por parte de judeus bolsonaristas – não tem o poder de decretar que Israel e Palestina (ou judeus e árabes) estão cada um em um lado, antidemocrático e democrático. Esta simplesmente não é a realidade destes povos nem no Oriente Médio nem na diáspora.

Em janeiro de 2020, no grande evento do grupo ‘Judias e judeus com Lula’, em São Paulo, (com a presença do próprio Lula, de Haddad, de Gleisi e diversas outras personalidades da Esquerda brasileira), era possível ser vista a bandeira israelense ao lado da palestina na decoração do espaço, feita pelos organizadores do evento.

Enfim, espero que este artigo ajude os brasileiros a compreenderem um pouco mais sobre este complexo cenário. É fundamental que a Esquerda brasileira assimile estes conceitos e compreenda os contextos, para que a verdade supere generalizações, esteriótipos e distorções que levam à intolerância dentro da própria esfera da Resistência no país. A consciência sobre o contexto mundial e uma visão panorâmica sobre temas contemporâneos são essenciais para que não ajamos com a mesma postura racista e ignorante que tanto desprezamos no bolsonarismo, no netanyahismo e no trumpismo.

O novo ovo da serpente

Um homem caminha no amanhecer de uma segunda-feira, entre dois guardas, em direção à forca. Vive seus últimos minutos de vida, e ao atravessar o pátio para cumprir a sentença olha o céu estrelado e diz, calmamente: “A semana está começando bem”. Outro condenado a forca, ao ser perguntado se desejava um cigarro, respondeu: “Obrigado, não posso fumar, meu médico proibiu”. O SuperEu no humor é gracioso, amável, revelando sua outra face, pois em geral seu retrato é sério e crítico. Assustador mesmo é quando o SuperEu, essa função paterna, é exercida por um chefe sádico. E uma boa porcentagem das pessoas se submetem a esse pai/líder, é a chocante servidão voluntária. Aí, vem um humorista e goza a maldade do meio comandante, meio psicopata, e revela um novo ovo da serpente.

Foi o que fez o humorista Aroeira ao exibir a serpente que tinha nascido aqui. Aroeira, numa charge, transformou a cruz da saúde numa suástica e o “B” dizendo aos seus seguidores irem pixar em outro hospital. Recordo que “B” tinha dito para invadirem os hospitais para fiscalizar. Foi mais um ataque à vida de sua necropolítica, mas a charge provocou um ataque da INjustiça contra Aroeira. Ele foi ameaçado com a Lei de Segurança Nacional, e seria cômica essa decisão se não fosse trágica; quem deveria ser enquadrado é a serpente que despreza a pandemia. O mundo vê o escândalo, mas os poderes poderosos daqui são tolerantes. Somar os mortos um a um: 1+1+1+1+1+1+1 e seguir escrevendo até mais de 55.000 famílias sofredoras. Aroeira, perguntado sobre o fato de ser acusado de difamação, lembrou o pintor Picasso. Um oficial nazista perguntou-lhe apontando para o seu quadro “Guernica”: “O senhor fez isso?”, e Picasso respondeu: “Não, vocês fizeram”. A mesma coisa agora, pois, se ele me pergunta se o estou chamando de nazista, respondo: “Não, você próprio se chamou de nazista, eu só desenhei. É a minha defesa”. Aroeira teve muitos apoios de seus amigos, de instituições e do Quino. A serpente ficou magoada.

As armas do humorista não matam, mas o descaso com a saúde mata. O que choca o mundo, mas não tanto o País, é como um chefe de Estado põe em prática o que pregou com ódio: elogio à tortura e à morte. Pergunta que não quer calar: qual é a surpresa, se “B” só faz o que prometeu. O povo é torturado com as mil ou mais mortes diárias, porque elegeu um herdeiro do passado escravagista, um herdeiro dos que batiam e, matavam negros, índios, pobres. O idealizado país da cordialidade, da liberdade, da alegria, revelou ao mundo a sua face cruel. Hoje é uma longa quarta-feira de cruzes. Há uma guerra em que as “Forças Desalmadas” não combatem a pandemia, não cumprem assim com o dever de segurança do povo. Manchete de capa do jornal “La Republica” da Itália no dia 25 de junho: “Brasile girone infernale” (O Brasil ronda o inferno).

A morte tem muitas pontes com o humor. Não faltam histórias, pois o humor é uma forma de aliviar as perdas, e a morte é a perda derradeira. Woody Allen disse sobre a morte: “Não tenho nada contra a morte, só não quero estar presente quando ela chegar”. Um amigo humorista do Allen, o nosso L.F. Verissimo, disse que a morte era uma sacanagem, já o jovem Gregorio Duvivier definiu o humor como um drible da morte.

O humor é aliado da poesia, portanto, chamo mais uma vez, o poeta John Donne, para lembrar, a cada um, o que é a morte dos demais: “Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, a morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. Imaginem, se a cada morte, os sinos de todas as igrejas do país dobrassem. Seriam sons ensurdecedores para alertar a todos da urgência da luta pela vida!

O Guru Antissemita dos Bolsonaro

Olavo de Carvalho, o guru da chamada “ala ideológica” do bolsonarismo é antissemita?

A pergunta não tem razão de ser, tão evidente é a resposta: SIM. Poucas pessoas foram a tal ponto explícitas no ódio aos judeus.

Num livro de 2012, intitulado “Os EUA e a nova ordem mundial”, uma compilação de um debate entre ele e o escritor neofascista russo Aleksander Dugin, Olavo de Carvalho denuncia uma organização judaico-globalista ( que ele denonima Consórcio) composta por “grandes capitalistas e banqueiros internacionais, empenhados em instaurar uma ditadura mundial socialista”.

A discriminação aos judeus vem no meio de um pacote de teorias da conspiração, num emaranhado paranoico que vai do terraplanismo ao marxismo cultural, passando pela Pepsi Cola, que usaria células de fetos para fabricar adoçantes.

Ao responder a uma provocação de Dugin sobre a presença de judeus no fantasioso Consórcio, Olavo afirma:

1) A presença de banqueiros judeus nos altos círculos do Consórcio;

2) A de militantes judeus na elite revolucionária que instaurou o bolchevismo na Rússia.

Para Olavo, é óbvio e patente que esses dois grupos de judeus – banqueiros e militantes comunistas – colaboraram entre si para a “desgraça do mundo”. Eles continuaram colaborando até na época em que Stálin desencadeou a perseguição geral aos judeus e a KGB começou a devolver a Hitler os refugiados judeus que vinham da Alemanha. A colaboração duraria até hoje.

3) O barão Rothschild é dono do Le Monde, o jornal mais esquerdista e anti-israelense da grande mídia européia, assim como a família judia Sulzberger é dona do diário americano que mais mente contra Israel. Enquanto George Soros, judeu que ajudou os nazistas a tomar as propriedades de outros judeus, financia tudo quanto é movimento anti-americano e anti-israelense do mundo.

Nessas quinze linhas, o guru da Virginia acumula fake news. Ele confunde o jornal Le Monde com Libération, que em 2005 teve capital da família Rotschild. Além do que Le Monde não é nem nunca foi um jornal esquerdista. Quanto a Soros, ele foi perseguido pelos nazistas durante a Segunda Guerra e ao final do conflito tinha apenas 15 anos de idade. Por pouco o pequeno George não foi enviado para os campos de extermínio.

Portanto, as acusações de Olavo de Carvalho aos judeus não passam de mentiras antissemitas tiradas dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, dentre as quais a mais antiga e disseminada – a de que fazem parte de uma conspiração para dominar o mundo, controlando a economia e a mídia.

Quanto à relação entre os judeus e o bolchevismo revolucionário russo, só mesmo o antissemitismo explica. Afirmar que “militantes judeus” estavam por trás da revolução que instaurou o comunismo na Rússia em 1917 remonta a uma mentira utilizada pela propaganda do partido nazista para instigar o ódio contra seus dois principais inimigos: judeus e comunistas.

Se é verdade que alguns revolucionários russos, como Leon Trotsky e Grigorii Zinoviev, eram de fato judeus, a imensa maioria tinha origem cristã.

No mesmo texto, Olavo deixa ainda mais claro o seu preconceito: “Alguns judeus merecem proteção; enquanto outros, falsos e impuros, devem ser demonizados. Quando se trata desses, eu abraço o antissemitismo.

Dos textos antisemitas de Olavo, talvez o mais surpreendente tenha sido sua comparação entre judeus e nazistas.

Num artigo de 1995, publicado no livro “O imbecil coletivo”, ele critica Jeff Lesser, brasilianista que acabara de publicar uma pesquisa sobre o antissemitismo durante o Estado Novo:

“Ou aderem ao modernismo ateu, ou, quando se apegam à religião, é para rebaixá-la a um fundamentalismo rancoroso, fanático e assassino. Quanto a esta última alternativa, cabe lembrar: ninguém neste mundo está imunizado por garantia divina contra a contaminação de uma mentalidade nazifascista, muito menos aqueles que ontem foram vítimas dela. O homem perseguido, seviciado e traumatizado tende, por uma compulsão inconsciente quase irresistível, a incorporar os traços do seu perseguidor, disfarçando-os sob um discurso contrário.

Olavo de Carvalho foi ainda mais explícito numa crônica publicada em O Globo, em 1997:

“Entre o fim da 1° Guerra e a ascensão de Hitler, ninguém foi mais excluído e discriminado que os alemães — e vejam só a porcaria que depois eles fizeram a pretexto de enderechar entuertos. Os judeus copiam na Palestina a meleca germânica, e os pretos já começam a bater no peito com demonstrações ostensivas de orgulho racial, nostálgicos talvez do tempo em que, faraós no Egito, desciam o chicote no lombo semita.”

E dizer que ainda há judeus bolsonaristas …