Quando se está passando por uma forte crise emocional, a sensação do desamparo contamina tudo. Parece que o mundo perde a graça, as referências de sempre ficam machucadas e, sobretudo, não há saídas até onde a vista alcança.
O que acontece no terreno pessoal vale, grosso modo, para a vida social e política. Andei pensando como deveria se sentir um democrata genérico nos anos 30 do século passado. Fase em que a razão estava em estado de choque. A extrema-direita avançava em muitos países. No Brasil, os galinhas verdes andavam assanhadíssimos. Burguesias europeias, assustadas com os ecos da Revolução Russa, apoiavam grupos nazistas e fascistas para formar diques de contenção contra as organizações dos trabalhadores. Enormes manifestações de massa na Alemanha nazista encantavam congêneres a mancheias. A maré montante reacionária deve ter desanimado/deprimido o pacífico democrata. O que fazer?
Se alguém imaginou que há uma onda mundial semelhante hoje em dia, não errou muito o alvo. Crescimento de gastos militares (US$ 2,5 trilhões ao ano, mais de 40% concentrados nos Estados Unidos), xenofobias à tripa forra, crise de hegemonia dentro do capitalismo, fortalecimento de grupos neonazistas, novas tecnologias massificando desigualdade, exclusão e desespero. À diferença dos anos 30, não há um contraponto revolucionário para enfrentar a barbárie. Como resistir?
Para não se cair no imobilismo ou no cinismo, acho útil lembrar de atos de resistência em conjunturas adversas. É possível, e necessário, dizer não. Quero, a propósito, compartilhar uma descoberta recente. O fato aconteceu na Holanda, há 84 anos.
Invadida pelo exército alemão, a Holanda capitulou em maio de 1940. Não demorou muito e o modelo hitlerista começou a ser replicado, com a ajuda de quinta-colunas locais. Legislação antissemita, repressão às organizações de esquerda. No início de 1941, mais de 400 judeus de Amsterdam foram presos e deportados para o campo de concentração de Buchenwald. Agressões antijudaicas nas ruas eram frequentes.
As deportações motivaram uma resposta liderada pelo proscrito Partido Comunista Holandês. Os comunistas convocaram uma greve geral para protestar contra as perseguições antissemitas. Redigiu-se um panfleto onde se convidava os moradores da capital holandesa a paralisarem a cidade por um dia. No dia 25 de fevereiro de 1941, uma terça-feira, calcula-se que cerca de 300 mil pessoas paralisaram suas atividades. Foi ali, nas ruas holandesas, que brotou, exuberante, um exemplo de solidariedade e camaradagem que estão na base do projeto político da esquerda revolucionária.
Pegos de surpresa, os nazistas temeram que as manifestações se alastrassem e se transformassem no embrião de um levante geral contra a ocupação. A repressão foi selvagem. Houve mortos e feridos. Dezoito grevistas foram presos e executados. De acordo com o historiador Jacob Presser, houve, além da repressão policial, um segundo elemento de pressão contra a greve.
Membros do Conselho Judaico local pediram aos grevistas que interrompessem as manifestações, que se prolongaram por dois dias. Temiam que, enfurecidos, os nazistas recrudescessem a perseguição antijudaica. Achavam melhor a passividade, “esperar até as coisas esfriarem”. Anos depois, lideranças judaicas no gueto de Varsóvia repetiram a mesma postura quando souberam que jovens de várias tendências políticas estavam organizando a luta que levaria ao levante armado, em abril de 1943. “Melhor não provocar os alemães”, dizia Adam Czerniakow, presidente do Judenrat, o Conselho Judaico do gueto.
Não é meu objetivo polemizar sobre qual seria a melhor estratégia em ambos os casos. Meu interesse é registrar que, mesmo em condições dolorosamente desfavoráveis, é possível reagir às opressões. Individuais e coletivas. Cada pessoa, cada povo, escolherá a melhor forma de fazê-lo, levando em conta as condições subjetivas e objetivas do momento. Uma boa tradução deste espírito de luta, desta vontade de continuar, tão urgente na atualidade, está muito bem expressa no início do poema No te rindas (Não te rendas), do uruguaio Mário Benedetti.
No te rindas, aun estas a tiempo de alcanzar y comenzar de nuevo, aceptar tus sombras, enterrar tus miedos, liberar el lastre, retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso, continuar el viaje, perseguir tus sueños, destrabar el tiempo, correr los escombros y destapar el cielo.
Take off your shoes/This place you’re standing, it’s holy ground (Woody Guthrie)
Saí do cinema sob forte impacto. A história que acabara de assistir tem semelhanças com personagens e momentos importantes da minha vida. Trata-se de A verdadeira dor, com atuações espetaculares Jesse Eisenberg (David) e Kieran Culkin (Benji). O filme é livremente baseado na história familiar de Jesse. São dois primos judeus nova-iorquinos, com temperamentos e trajetórias radicalmente diferentes. Viajam juntos à Polônia para visitar a casa onde vivera a avó, sobrevivente do Holocausto por obra de “mil milagres”.
Há muito o que falar sobre o filme, fora do foco central da história. Alguns spoilers, poucos, serão inevitáveis. O massacre dos judeus europeus na Segunda Guerra Mundial, planejado e executado metodicamente pelos nazistas, repercutiu diretamente em minha geração (que nasceu pouco depois do conflito). O espectro dos campos de concentração e extermínio invadiu ambiente familiar, escola, relações dentro e fora da comunidade judaica. Verdade que os adultos evitavam falar de temas pesados com as crianças. Morte era “coisa de gente grande”. No entanto, aqui e acolá ouvíamos fragmentos de histórias que, aos poucos, montaram um painel de horrores.
Tive avós imigrantes. Os lugarejos pobres onde viveram na Europa Oriental foram devastados pela guerra, as populações judaicas caçadas e dizimadas. Nenhum deles jamais comentou as perdas que certamente ocorreram. Quem passou pela experiência de perdas extremas ou sobreviveu aos assassinatos podia reagir de duas formas. Falar, contar, testemunhar, é uma delas. Mistura de catarse e compartilhamento que consola. Primo Levi optou por ela e deixou um legado fundamental para se compreender o que aconteceu. Calar é a outra forma. O silêncio é defesa contra uma dupla vivência da dor.
Meu tio Bóris, um bessarabiano porreta, ensinou-me a olhar as estatísticas monstruosas do Holocausto de maneira diferente. Disse-me que os números da matança são importantes, mas mesmo que fossem apenas um centésimo de um por cento do que se conhece, tudo seria igualmente inaceitável. Importavam as razões, melhor seria dizer desrazões, que levaram à barbárie, à desumanidade, à crueldade. Entendê-las é essencial para manter o sentimento de indignação e educar as novas gerações contra todas as formas de bestialidade.
David e Benji visitam o campo de extermínio de Majdanek, a meros 3 km de distância de Lublin. No mais absoluto silêncio, percorrem as instalações construídas para matar em escala industrial. É impossível ficar indiferente. Benji, um tipo simpaticão, sedutor, exuberante, em estado de permanente agitação, não resiste. No trem em que volta para Lublin cai num choro incontido. Creio que foi uma combinação da memória da avó polonesa com o sofrimento pelo qual passaram, quem sabe?, vizinhos e amigos dela. O silêncio em Majdanek tinha muitos significados.
Meus sogros, poloneses, estiveram na Polônia nos anos 80. Visitaram Auschwitz, onde foram assassinadas mais de 1 milhão de pessoas, judias em sua imensa maioria. Em meio aos barracões insalubres, fornos crematórios e objetos pessoais das vítimas, meu sogro parou, abaixou a cabeça e chorou. Seus pais foram mortos lá dentro. É o tipo de ferida que não cicatriza. Não há palavras para descrever a intensidade deste tipo de dor. Palavras, nosso patrimônio mais nobre, são incapazes de descrever um solo de Thelonious Monk, um momento de paz interior, a cor de uma poesia, a banalização da crueldade.
Descobri que o título do filme é uma pergunta. Qual seria a verdadeira dor? A que gruda na alma trazida pelas heranças familiares? A da solidão mascarada pelo movimento permanente? A cena final – um close no rosto de Benji – sintetiza, em silêncio, sutilmente, as interrogações. Ele acabara de recusar o convite de David para jantarem juntos, a família reunida. Preferiu ficar sozinho no aeroporto, “onde tinha um monte de gente doida”. Bicho-homem, este estranho.
Aí pelos anos 70 um livro chamou minha atenção. Enterrem meu coração na curva do rio, do norte-americano Dee Brown, mostrava um novo ângulo sobre a chamada conquista do oeste, a qual conhecíamos apenas pelos bangue-bangues hollywoodianos. Neles, os povos originários apareciam como selvagens, bandidos inescrupulosos e sanguinários, que se rebelavam contra os avanços “civilizatórios”. E tome chumbo. Eram dizimados impiedosamente, ao som de cornetas militares e trilhas sonoras gloriosas. Nós, ingênuos adolescentes, acreditávamos no heroísmo dos colonizadores brancos e seu suposto direito à rapina, à expropriação de terras, ao extermínio. John Wayne era o rosto e o método dos conquistadores.
Dee Brown adota a perspectiva dos dizimados. Eram povos com culturas complexas, profunda ligação com a terra ancestral e a Natureza, valores comunitários transmitidos por muitas gerações. O enterro mencionado no título era evidência da harmonia dos povos originários com a Natureza. Como em muitos outros casos em Nuestra América, estes povos passaram por um sistemático processo de aculturação, desprezo, isolamento e aniquilação física.
Um bom exemplo do que perdemos com a asfixia dos povos originários está nestas palavras do chefe Urso-em-pé, dos Sioux Oglala: “Só para o homem branco a natureza é ‘selvagem’, só para ele a terra estava infestada de animais e pessoas ‘selvagens’. Para nós era inofensiva. A terra era generosa e estávamos cercados de bênçãos do Grande Mistério. Até que o homem peludo do leste chegasse e com brutal furor amontoasse injustiças sobre tudo o que amávamos, não havia ‘selvagem’ para nós. Mas quando os próprios animais da floresta começaram a fugir à sua chegada, o ‘Oeste Selvagem’ passou de fato a existir”.
Essa história de enterro me levou, por associação misteriosa, a dar um salto. No final do século dezoito, existia um pequeno canavial cortado por um arroio em área onde hoje é o bairro da Tijuca. Um homem foi assassinado por aquelas bandas numa segunda-feira e decapitado. Enterraram o corpo ali mesmo e jogaram a cabeça, com os olhos furados, no riachinho. Passaram os séculos, o local virou um largo muito movimentado, confluência de três ruas importantes da Tijuca. É o Largo da Segunda-Feira, meu vizinho por alguns anos. Dizem que o fantasma do defunto perambula pelos ermos tijucanos em busca de sua cabeça. Uma das muitas assombrações desta cidade que tem nos assustado a mancheias.
Ali perto, já no tempo da gomalina, alguns jovens lançaram as bases daquele que seria o movimento da Jovem Guarda. Sem dar bola pra fantasmas, Erasmo Carlos, Tim Maia e Roberto Carlos reuniam-se no bar Divino, esquina de Matoso com Haddock Lobo, ao lado do cinema Madrid, azucrinando a vizinhança até altas horas e sonhando em replicar Elvis Presley e Bill Haley. Repertórios e cabeleiras. Das imitações iniciais começaram a aparecer letras próprias e lembro da febre que mandava tudo para o inferno.
Não vivi os sacolejos da Jovem Guarda. Naquela época, além de vestir uma timidez blindada, estava muito ocupado em sobreviver a uma perda duríssima e definir objetivos imediatos. Ao lado disso, eu começava a fazer parte da turma que achava “alienadas” as letras que os prafrentex compunham. Que negócio era aquele de calhambeque bi, bi? Senhor juiz, pare agora! Tremendão, tremendão! Era preciso, camarada, combater a ditadura em tempo integral. As disputas políticas acabavam vazando para o terreno musical.
A radicalização da classe média levava a excentricidades como a passeata contra a guitarra elétrica, em 1967. Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Gilberto Gil(!), Edu Lobo e o MPB-4, entre muitos outros, marcharam por ruas de São Paulo contra a presença de guitarras elétricas na MPB. Justo no ano em que os Mutantes acompanharam Gil na linda Domingo no parque.
O tempo passou, a Jovem Guarda, tal como o cine Madrid e o bar Divino, faleceu sem chover na minha roseira. Sempre estive em outra vibe. Agora, cá entre nós, como encaixou bem o Erasmo Carlos cantando É preciso dar um jeito, meu amigo no filme Ainda estou aqui ! O sectarismo, e suas variantes moderninhas, nunca faz bem.
Está lá há algum tempo. Num cantinho recuado na boca da estação do metrô em Copacabana, a faixa rabiscada a capricho anuncia: rodízio de caldo de cana. Para acompanhar a bomba calórica, o funcionário anuncia os petiscos homicidas. Nunca dei bola ao palavrório, mas algo me chamou a atenção num dia de menos pressa. Aproveitem! Hoje tem pastel de pizza! No Rio, churrascarias rodízio oferecem também comida japonesa. Nada mais natural (sem duplo sentido) do que comer picanha mal passada acompanhada de sashimi de atum… Os estômagos cariocas têm blindagem dupla e bile à prova de bala. Pastel de pizza, no entanto, derrotou o folclórico pastel de vento da Central do Brasil no torneio dos nossos exotismos gastronômicos. Pessoal aqui gosta de viver perigosamente.
O resultado da comilança jaz nas escadas de acesso à plataforma. Restos mortais de pastéis, guardanapos, embalagens, canudos, copos, jogados nos degraus. A primeira linha de metrô do Rio foi inaugurada em 1979. Não demorou muito e comentava-se, à boca pequena, que o carioca virava sueco assim que entrava no subterrâneo. Um nível de civilidade que não se via no resto da cidade. O João que jogava a guimba na calçada vestia-se de Johanssen enquanto aguardava o trem, depositando o palito do picolé na lixeira. O malandro Kid Morengueira dava passagem para o sóbrio Ingmar Bergman.
Passados tantos anos, com uma privatização no lombo, os cariocas renunciaram à metamorfose nórdica. O metrô sintetiza hoje o comportamento comum aos que confundem espaço coletivo com território sem regras. A encrenca não se resume à sujeira crescente. As portas de acesso aos vagões estão permanentemente bloqueadas por passageiros (grudados em celulares), cada vez mais gente senta no chão dos vagões (o que é formalmente proibido), não há campanhas que orientem os usuários a usarem corretamente as escadas rolantes (quando estas não estão indisponíveis). Cada pessoa acha que é rainha do seu pedaço, cria suas próprias regras. Os incomodados que usem helicópteros ou batmóveis.
Dia desses estava num simpático bistrô perto de casa quando vejo entrar o Raymundo de Oliveira. Conhecemo-nos em várias trincheiras de resistência à ditadura civil-militar. Saudamo-nos fraternalmente e, depois de um dedo relâmpago de prosa, puxou-me para bem perto e segredou, com ironia: “Onde está o mundo melhor que você me prometeu?”. Sei muito bem o que ele quis dizer. Dá um certo travo amargo perceber que, depois de tanta luta, tanta esperança frustrada, o que vemos ao nosso redor é destruição, deixa-pra-lá e fortalecimento de segregações muitas. Nas ruas e cidades, no planeta. O que deu errado?
Falei do metrô carioca, mas há muitos puxadinhos nas vizinhanças. São os mais de 8.000 bares que entulham ruas e trovejam barulheiras. Caixas de som nas praias, urrando “música” (sic) e mensagens religiosas. Motos, patinetes e bicicletas competindo pelo título de bandalha do ano. Balas de todos os calibres em voo livre à procura de cabeças, troncos e membros. Além fronteiras, no mundo de mileis, orbans, trumps e seus parças, os pesadelos gerados há quase um século saem das tumbas e anabolizam-se. No meio do fogo cruzado, povos dizimados, êxodos forçados por miséria e violência, tecnologias a serviço da mentira e da ignorância. O que deu errado?
Talvez Luiz Antonio Simas tenha matado a charada. Simas é meu guru para temas cariocas e de cultura popular. No seu livro “Bestiário brasileiro”, apresenta-nos o Capelobo. Trata-se de um monstro com corpo peludo de homem e cabeça de animal (pode ser tamanduá-bandeira ou anta). Ardiloso, ele consegue parecer gente ao se aproximar das vítimas e, abraçando-as, abre um buraco no crânio delas e chupa-lhes o cérebro. As coitadas deixam de raciocinar e passam o resto da vida falando bobagens. Parece-lhes familiar? Será que houve, e ainda está em curso, uma invasão mundial de Capelobos? A culpa, cáspite!, vade retro!, é deles!
1982. O Brasil era governado pelo general que seria o último do ciclo ditatorial iniciado em 1964. João Baptista Figueiredo, de triste memória, havia comandado o Serviço Nacional de Informações, ninho da arapongagem que aterrorizou democratas de todos os calibres, estilos e vocações. Sujeito de maus bofes, comparáveis aos de outro infame que serviu à ditadura, o general Newton Cruz. Figueiredo não se constrangeu em dizer que preferia cheiro de cavalo ao do povo. Quem viveu aquela época, há de lembrar da expressão azeda do milico, representação facial da caserna golpista.
O imperialismo norte-americano estava de olho no seu histórico quintal. Ronald Reagan, canastrão que presidia os Estados Unidos, desembarcou em Brasília. Foi protagonista de uma gafe patética. No rega-bofe que o Itamaraty ofereceu ao caubói, ele ergueu um brinde ao “povo da Bolívia”. Imagino a revolução gástrica nas tripas do general iracundo. Tentando consertar a bobagem, Reagan emendou: “Bem, na verdade, é para onde eu vou depois”. Pequeno detalhe: a próxima parada do ianque seria na Colômbia. Na cabeça liliputiana dele, no entanto, devia ser tudo a mesma cucaracha.
Esta passagem ilustra à perfeição a visão caricata, banhada em preconceitos, que o Grande Irmão do Norte tem sobre os povos que moram no que antigamente era rotulado como Terceiro Mundo. Somos o Zé Carioca que, em pleno Rio de Janeiro, papagaiava “saludos, amigos”. Por sorte, ou acidente, sem sombrero mexicano… Vestimos turbantes enfeitados com saladas de frutas. Servimos de refúgio para escroques em produções hollywoodianas. Viramos piada quando o personagem de Audrey Hepburn em “Bonequinha de luxo” dá o bote num fazendeiro brasileiro rico, achava que o cidadão ia ser presidente e ela viraria a “rainha dos pampas”. Ainda bem que não gritou “olé!”. Às vezes, este desprezo transforma-se em violência, como aconteceu no apoio norte-americano ao golpe de 1964. Amigos, amigos, canhões à parte.
Vivi a explosão dos quadrinhos nos anos 50 e 60. Devorávamos Fantasma, o Espírito-que-anda, e Mandrake na maior ingenuidade. O Fantasma, codinome de um certo senhor Walker, tinha residência numa caverna africana forrada de joias e metais preciosos. Dominava a tribo dos temíveis pigmeus negros da tribo bandar, que lhe prestavam vassalagem e agiam como guarda pretoriana. Ao longo dos anos, sua imagem foi associada à dominação do justiceiro branco europeu sobre “raças” subalternas.
Mandrake, um ilusionista, tinha um serviçal negro, Lothar. Dizia-se que era um príncipe africano. Nunca entendi como alguém, com linhagem real e força portentosa, subordinava-se tão pacificamente a uma pessoa que não dava a menor importância para sua cultura, suas tradições, suas inquietações. Servia como cenário musculoso para a dinâmica existencial do seu patrão.
São pequenas amostras de um caldo informativo/pedagógico que ajuda a traduzir o jogo bruto das lutas de classes. Penso que quando Trump declara que “não precisamos deles (dos brasileiros)”, não está se referindo apenas ao terreno econômico. Sua presunção, sua arrogância, leva-o ao isolacionismo, à confirmação narcisista de que a América (que ele, erradamente, associa exclusivamente ao seu país) não precisa de ninguém. Econômica, cultural e socialmente. Tal como na marchinha dos carecas, eles se acham os maiorais.
Com tudo isso sambando na cabeça, decidi rever um seriado antigo da televisão. É Jim das Selvas, cópia descarada de Tarzan, criação do Edgard Rice Burroughs. Estrelada, nos dois casos, por Johnny Weissmuller, ex-campeão mundial de natação em 1922. Revi um episódio de 1954, O homem crocodilo. Foram 60 minutos quase insuportáveis. História confusa, atores medíocres. Noves fora, a ladainha que mostra os brancos trazendo a “civilização” para os selvagens, o roubo explícito de riquezas naturais (para um governo convenientemente não identificado), os nativos vestidos como foliões de baile suburbano (mudos, subservientes, ridículos). Para lembrar sem a menor nostalgia.
Sei que há muito debate sobre a influência das primeiras leituras e experiências cinematográficas sobre a forma como enxergamos o mundo na idade adulta. Tendo a acreditar que, de forma complexa, é decisiva (embora não necessariamente definitiva). Na aurora desta segunda Era Trump, é bom lembrar os antecedentes do olhar norte-americano sobre nós. Quando o Agente Laranja defender a Great America, as consequências para nós, o “resto”, “os menores”, não serão pequenas. Tomara que se encontre um caminho de unidade para enfrentar a tempestade.
Minha irmã vivia seus últimos momentos. Antes da sedação profunda, seguida de redução gradual da respiração e colapso final do corpo, conversamos rapidamente. Embora enfraquecida, conseguiu dizer que tinha muita curiosidade sobre a Morte. Entendi que desejava confirmar a veracidade de tudo o que costumamos ouvir sobre o assunto, em grande parte versões de uma jamais provada continuação da Vida post mortem. Encontraria nossos parentes? Se encontrasse, teriam a mesma aparência de quando morreram? Como seria o mundo destas ex-pessoas? A dor da vida estaria extinta? Quem comandaria a orquestra e como seria a rotina dos músicos? Haveria hierarquia, desigualdade, carências afetivas, fronteiras? Desafios? Tédio? Se alguém se ferisse, onde compraria a competente Maravilha Curativa do Dr. Humphrey’s para tratar o ferimento? Os espectros masculinos precisariam aparar a barba ?
Muita gente boa fica aflita quando desenterra a pergunta-chave: Vida é só isso? Entenda-se “isso” como o tempo curto (ah, como tudo passa rápido!) e a condenação certa ao esquecimento, as angústias muitas e a paz volúvel, os encantos raros e os desencantos insistentes. Daí ser um pulo inventar soluções sobrenaturais para aliviar a ansiedade que a dúvida traz. Não dá para contar a quantidade de descrições de uma suposta segunda vida, com seu repertório de almas e realidades etéreas. Às vezes, sofistica-se a fábula descrevendo o processo de transição, enfeitado por luzes brilhantes, túneis camaradas, harpas afinadas, vozes tranquilas.
A ciência, que não costuma dar refresco para tanto delírio, pesquisa o funcionamento do cérebro, aglomerado extraordinário de células e memórias. Como subproduto, debruça-se sobre o mistério do momento em que se morre. As primeiras conclusões são fascinantes porque desmistificadoras. Ao contrário do que se pensa, o cérebro continua ativo durante algum tempo após a parada final do coração. Aumenta a emissão de uma onda cerebral associada a sonho, meditação e recuperação de memória. Os primeiros resultados, espetaculares, sugerem que nosso cérebro pode permanecer ativo e coordenado na transição para a Morte. Esta atividade seria responsável, por exemplo, por certas alucinações vividas por pessoas que passam por experiências de quase morte (paradas cardíacas, por exemplo). Quanto mais conhecermos as complexas capacidades cerebrais, mais nos afastaremos das fantasias do Além Túmulo.
Drácula e Frankenstein, clássicos do terror (Bela Lugosi e Boris Karloff inesquecíveis), são assombrações que dramatizam a busca impossível pela vida eterna. Para o conde, que opera na penumbra com seus caninos salientes, a eternidade é maldição. Colecionar para sempre sangue alheio, e aqui pensa na grife Klaus Kinski, é uma tarefa que o deprime. Já o velho Frank, espécie de Lego orgânico, vive em permanente crise de identidade. Cada parte de seu corpo deformado nasceu de outrem. Qual delas é a hegemônica? A cabeça do açougueiro ou o tronco do coveiro? O braço do acadêmico ou a perna do peladeiro? Uma boa dica para ambos seria que levassem em conta o que disse Mark Twain, um grande gozador: “Quem viveu bastante para descobrir o que é a vida, sabe que dívida de profunda gratidão devemos a Adão, primeiro grande benfeitor da nossa raça. Foi quem trouxe a morte para dentro do mundo”.
Eternidade mesmo parece repousar na natureza. Vejam só. Uma pesquisadora israelense teve acesso a uma semente descoberta numa caverna no deserto da Judeia. Testes indicaram que ela tinha cerca de mais de 10 séculos. Replantada e fertilizada, brotou e deu origem a uma árvore sem congênere no mundo atual. Suas folhas contêm substâncias com grande potencial medicinal. Resumo da ópera: tratada com delicadeza e respeito, a natureza pode regenerar-se e produzir, aí sim e sem contorcionismo, uma segunda vida.