Podemos apenas imaginar o sofrimento daquela mãe. Em 2018, perdeu um filho recém-nascido e, desesperada, carregou o corpo durante mais de duas semanas. O que se passou na mente atormentada pela dor? Alguém consegue colocar-se em seu lugar?
Não bastasse a ferida emocional, inapagável, descomunal, seis anos depois voltou a gerar um filho que resistiu pouco. Os que a acompanhavam à distância desconhecem por quanto tempo voltou a carregar o corpo sem vida, com o mesmo cuidado que as mães doam aos recém-nascidos.
Chama-se Tahlequah, a mãe enlutada. É uma orca e seu martírio duplo foi acompanhado por cientistas de Seattle, nos Estados Unidos. As cenas impressionantes parecem o luto que costumamos viver quando perdemos alguém próximo e levamos um tempo indeterminado para absorver o choque e tocar a vida.
Caso isolado na Natureza, essa imensa, complexa e bela engrenagem que nos habituamos a olhar com soberba? De jeito nenhum. Num zoológico espanhol, Natalia perdeu seu bebê 14 dias após o nascimento. Inconformada, carregou o corpo por sete meses, incapaz de separar-se daquele pequeno ser que emergiu de suas entranhas. Mesmo com a decomposição inevitável do corpo, continuou a carregá-lo, numa expressão de cuidado e, talvez, de desejo de que tudo aquilo não passasse de ilusão e o filho, de repente, abrisse os olhos para a mãe amorosa. O rosto triste atraiu a solidariedade de seus vizinhos, que a acompanharam no calvário.
Natalia é uma chimpanzé da subespécie Pan troglodytes verum, que se encontra em risco crítico de extinção. Mesmo submetida ao cativeiro no zoo, instituição escravocrata que cada vez mais desprezo, ela demonstra como não estamos sós na complexidade de sentimentos e de vivências na maternidade, nos tempos multicores da existência. Somos apenas um subgrupo de tripulantes presunçosos nesta esfera enlouquecida.
Lá atrás, dona Zenaide, pilotando desenvolta o quadro-negro, nos ensinava que éramos animais racionais. Sim, nossa superioridade sobre as demais espécies viventes, todas irracionais, era óbvia nos manuais escolares. Na cabeça quase virgem do Menino, esta informação se traduzia como direito inquestionável de subordinar a Natureza às nossas vontades. A Razão dos homens era soberana. Ao longo dos séculos, extinguimos animais em massa por caça predatória e destruição de habitats. Tudo se passa como se o planeta só existisse para saciar nossos apetites, não importa a que custo.
A vida na Terra é um processo bioquímico extremamente complexo. Pelo conhecimento atual da ciência, ela surgiu há quase 4 bilhões de anos. No início, muito antes da explosão de múltiplas formas de vida, eram seres unicelulares. Os hominídeos, nossos parentes remotos, desceram das árvores nas savanas africanas há 5 milhões de anos. Eram resultado de uma sequência de eventos absolutamente acidentais e que jamais se repetirão. Somos parte de uma imensa cadeia orgânica vital, delicada e única. A cada dia, por prepotência e cobiça, estamos destruindo seus elos.
Pode ser que existam formas de vida em outros planetas. Afinal de contas, apenas na “nossa” Via Láctea existem cerca de 200 bilhões de estrelas. Ao redor de muitas, devem gravitar corpos celestes semelhantes a planetas. Quem sabe em alguns, ou muitos, existirão condições propícias para o nascimento de organismos vivos. Provavelmente, nada a ver com os monstrinhos verdes imaginados pela ficção científica ou os habitantes do planeta Mongo, familiares ao Flash Gordon e à Dale Arden.
Uma coisa parece certa. O Sol, alma mater da vida na Terra, vai esfriar completamente e explodir em 5 bilhões de anos. Nosso planeta, então, se transformará num imenso vazio, estéril, sem vida. Do jeito em que a banda está tocando, vamos acelerar o tempo da destruição. A ação do homem fez com que o ano passado tenha sido o mais quente da história, rompendo a marca de 1,5 º C de aumento da temperatura média da Terra em relação aos níveis pré-industriais. Os resultados estão aí. Enchentes no Saara, incêndios e secas devastadores em todos os quadrantes, furacões com força inédita. Eventos extremos são o novo normal.
Enquanto seu lobo não vem, percebamos com humildade o contraste do desprezo à vida que desfila todos os dias em cada canto do planeta e o comportamento belo das Tahlequahs e Natalias que nos cercam. Irracionais? O que diria de tudo isso a dona Zenaide?
Podia cair na prova. As professorinhas ensinavam que um dos primeiros nomes do Brasil foi Terra de Santa Cruz. Deve ter sido uma imagem deslumbrante para os velejadores portugueses que chegaram à costa do nordeste brasileiro em 1500. O que fizeram depois não merece medalha, mas aí já é outra história.
Hoje, na zona oeste carioca, há um bairro chamado de Santa Cruz. Abandonado pelo poder público e infestado de milicianos, seu IDH é quase lanterninha entre os bairros. Lá falta quase tudo. Em meio às carências muitas, há uma área de quase 200 mil metros quadrados onde funciona a Cidade das Crianças Leonel Brizola, concebida para dar esporte e lazer para a garotada local.
Sem apoio oficial faz tempo, a área degradou-se e está semiabandonada. O que você faria, perguntaria Lenine numa de suas canções e indagaríamos nós em santa aflição? Ora, recuperaríamos o local e incentivaríamos seu uso por escolas e comunidades vizinhas, às quais faltam estrutura para acolher criativamente crianças e adolescentes. Todos, aliás, muito cortejados pelas gangues para movimentar atividades criminosas.
É isso que pensa fazer o janota sorridente que nos governa, do alto de seu chapéu de palha demagógico? Claro que não. Ele acaba de anunciar o plano de transformar a Cidade da Criança em Parque Terra Prometida, um empreendimento dedicado aos evangélicos. Seria, em bom português, um parque de diversões religioso, que simularia lendas consagradas pela Bíblia. A piscina viraria o Mar Vermelho, prontinho para abrir-se aos hebreus em fuga do Egito. Não faltariam o Paraíso, os Montes Sinai e das Oliveiras. Este obsceno favorecimento de um segmento confessional em espaço público é uma agressão ao princípio da separação entre religião e Estado. Está virando rotina.
Fosse completo, não apenas idealizado, o parque deveria reservar uma área para castigar os ímpios, usando métodos sancionados pela Bíblia. Os pais insatisfeitos com as malcriações de seus filhos ganhariam varas para espancá-los, metaforicamente ou não. A morte por apedrejamento seria incentivada, num espaço privé, para os “crimes” de heresia, adultério, homossexualismo e idolatria. Não duvido que surgissem patrocinadores para o fornecimento dos meios para cumprimento das sentenças bíblicas, legitimadas por uma suposta autoridade divina. Pode parecer um roteiro inspirado no filme A Vida de Brian, mas as intenções do alcaide não têm qualquer semelhança com o espírito do Monty Python.
Muitos anos atrás, li um livro de popularização da matemática, escrito pelo soviético Yakov Perelman. Num dos capítulos, ele usa os dados fornecidos pelo Velho Testamento para calcular o que aconteceria no planeta caso chovesse exatamente como sugere o Dilúvio. O resultado é surpreendente. Na pior das hipóteses, a Terra seria coberta por uma película de cerca de 2,5 cm de água, claro que insuficiente para afogar todas as formas de vida como pretendia o deus implacável, de índole cruel e sentenças irrecorríveis. Sei que razão e crença são imiscíveis, a lenda continuará a ser contada e os fieis acreditarão que a arca de Noé tinha capacidade para abrigar casais de todos os seres vivos e comportava estoque de alimentos suficiente para alimentá-los durante longa jornada. Haja tecnologia, haja imaginação. Pré-história em estado bruto.
O prefeito é esperto. Está ampliando apoios para futuros voos políticos e afaga os evangélicos. Religião deixa de ser um assunto estritamente privado para se transformar em ferramenta de poder. Dentro de grupos e seitas há disputas ferozes pelo mercado da fé, que resvalam, não raro, para interesses bem materiais. Bom exemplo disso é a chamada Teologia da Prosperidade, que já deu luxo e riqueza para alguns espertalhões.
Respeito quem pratica sua fé com atitude introspectiva, no silêncio do diálogo com transcendências e na esperança de que encontrará interlocutor atento. Minhas buscas são outras, meus caminhos são diferentes, mas com estas pessoas compartilho as imensas interrogações sobre a existência humana. A combinação imprópria de aparelho estatal com prática religiosa nada tem a ver com estas vivências.
Esta é a última crônica de 2024. Para registro dos autos, detesto o mês de dezembro. Não combino com a agitação mandatória das gentes, tomadas por um espírito de urgência e preparativos para um “ano novo” que, a rigor e como dizia Drummond, é apenas a continuidade de um fluxo que não se interrompe, nem se acelera por causa de champanhes e rituais a gosto do freguês.
Não farei balanços gerais do ano que se encerra, que estes já os há que bastem em todos os meios de comunicação. Sem grandes novidades, gente conhecida bateu as botas (os desconhecidos, os anônimos, estes nunca mereceram manchetes), catástrofes ambientais continuaram acelerando o desfecho cada vez mais irreversível da morte do planeta, guerras seguiram matando a rodo e devastando gerações e esperanças. Antonio Meneses e Ziraldo levaram consigo alguns pedaços meus.
Meneses, um carioca do mundo, continua frequentando meu aparelho de CD (não abro mão dele) com interpretações magistrais no violoncelo. Ziraldo entrou na minha vida pelo Pasquim e a Turma do Pererê e seguiu acariciando filhos e netos com um monte de novos personagens. Cada vez que ouço uma suíte para violoncelo de Bach ou releio a saga do Pererê e sua turma na Mata do Fundão, Meneses e Ziraldo ressuscitam. De qualquer forma, dá uma ponta de tristeza sabê-los fora do meu alcance visual. Morte tem dessas coisas.
Troco, leitor paciente, o balanço geral pelo pessoal. No ano que se encerra, tive algumas experiências contrastantes. No departamento Surpresas & Lamentos, testemunhei os últimos dias de vida de minha irmã. Final doloroso, a mostrar nossa fragilidade estrutural e levantar a questão urgente da abreviação consentida da vida, um direito tão óbvio que deveria ser universal. Também tive uma inesperada aula prática sobre loucura, neurastenia e colapso da razão. Alguém, ante estupefação geral de amigos, trocou a tulipa do chope por um copo de cólera. Sobraram para mim os estilhaços do surto psicocanalha daquele Mark Forest flácido. Li nos seus olhos transfigurados o beabá da ignorância, da alma ressentida e da indignidade. O faniquito sulfuroso do Maçaranduba, que o deixou isolado, serviu para reforçar uma pergunta que faço há tempos: de onde surge e de quê se alimenta o ódio?
No departamento Criação, um prazer longamente sonhado nasceu para o mundo dos vivos. Lancei um livro com seleção de crônicas. É o testemunho impresso da minha valsa com palavras. Quem rodopia neste tipo de dança, sabe como é difícil alinhar sentimentos, pensamentos vadios, memórias, com as palavras que melhor os traduzem. Pior é quando a seção de cordas desafina ou o maestro dormiu mal. Como transformar a hesitação num texto que convide à mesa quem lê? O que fazer quando é o silêncio que deve, que precisa, predominar?
Fim de ano também é época de ações regressivas. Reflexo persistente dos medos ancestrais, multidões procuram filiais das Organizações Tabajara, em busca de elixires que materializem o slogan “seus problemas acabaram!”. É aí que adentra o gramado, triunfal, a Superstição. Como o Homem das Cavernas ou a Maga Patalógica, toda a galera anonovista passa a acreditar em poderes mágicos da Natureza. Na aurora do homo sapiens, o Brucutu acreditava que raios e trovões eram comandados por forças sobrenaturais. Nada diferente de quem hoje acredita que, para atrair dinheiro o ano todo, basta passar a virada com uma nota de real e uma folha de louro (!) na carteira, mantendo-as ali o ano inteiro. Ou que comer 12 uvas à meia-noite do dia 31 de dezembro atrairá toda sorte de fortuna e sucesso. Impressionante como estas “simpatias” convencem gente que ficará ofendida se você perguntar se acredita em terraplanismo.
No ano novo, que não passa de uma convenção, espero apenas continuar seguindo velhos passos que me construíram e alimentar curiosidades que ajudem a dar sentidos aos mistérios que me intrigam. Ah, e também irrigar os afetos que me unem aos que acham que valho a pena.
Comecei citando o Drummond e termino com trecho do poema dele “Receita de Ano Novo”: “Para ganhar um ano-novo/que mereça este nome,/você, meu caro, tem de merecê-lo/tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,/mas tente, experimente, consciente./É dentro de você que o Ano Novo/cochila e espera desde sempre”.
Daí, esqueça as ondinhas, a cor que “dá sorte”, o banho de sal grosso (?), o chá disso e daquilo, os superpoderes da pobre lentilha. A bola não está nas estrelas. Ela está contigo mesmo, mermão. Caminante, já dizia outro poeta, no hay camino, se hace el camino al andar.
Os mais rodados não devem ter esquecido. Delfim Netto, czar da economia no período mais sanguinário da ditadura civil-militar, pedia paciência para o povo. “É preciso deixar o bolo crescer para depois dividi-lo”. Com o cinismo de sempre e protegido pela caserna, garantia que a riqueza gerada pelo processo de acumulação de capital seria dividida por todos. Antes, porém, era necessário engordar o PIB. Por trás da mensagem, a crença na sabedoria dos mecanismos de mercado. Era dele, postulavam Delfim e seus blue caps, que viria a justiça social.
Das ruínas da ditadura sobrenadou a realidade: um país obscenamente desigual. As políticas econômicas delfinistas beneficiaram as camadas mais ricas, que jamais repartiram seus ganhos. A gula da classe dominante não tem limites e, sem luta, continuará voando em céu de brigadeiro. Esperar senso de justiça do capital é o mesmo que acreditar que da gravidez de uma girafa vá nascer um periquito.
Já faz tempo que a imprensa vem falando do humor do “mercado”. Ora está nervoso, ora está eufórico, ora se deprime, ora se exalta. Dito assim, parece um organismo autônomo, predicado sem sujeito. Não é difícil desmascarar esta metáfora mal-ajambrada. Os senhores do “mercado”, na sombra das notícias e com aparência neutra, são os proprietários dos meios de produção material e subjetiva da sociedade. Querem nos convencer de que seus interesses de classe se confundem com os do conjunto da população. A farsa é difundida com a colaboração dos grandes meios de comunicação, eles mesmos parte deste “mercado”.
Não faz muito, uma pesquisa da Genial/Quaest indicou que 90% dos operadores do mercado financeiro não confiam no governo e 85% acham que a isenção do Imposto de Renda de quem ganha até cinco salários mínimos é nociva à economia. Eis aí o “mercado” sem maquiagem. Concorda com todas as isenções fiscais para seus investimentos e aplicações financeiras, discorda com veemência de pequenos alívios na canga que tortura os trabalhadores. Resumo da ópera: ao ler “mercado” no noticiário, substitua por classe dominante. Não compre gato por lebre, não se iluda com o espelho distorcido.
Vejam o que acontece na Argentina. Depois de um ano do governo protofascista de Javier Milei, o “mercado” (representantes do agronegócio, dos setores bancário, industrial e de turismo) anda rindo à toa. Os ajustes macroeconômicos dão sinais positivos em alguns indicadores, mas resultaram na explosão da indigência e da pobreza. Nunca houve tantos pobres no país (já são mais de metade da população), o número de indigentes dobrou em um ano. São vidas sacrificadas no altar das convicções ultraliberais da extrema-direita. Lá como cá, difunde-se o mito de que o sacrifício terminará em breve e a riqueza gerada pelo trabalho será distribuída com justiça. Espontaneamente, por compaixão e solidariedade. Acredite quem quiser. Torço para que a conhecida combatividade dos oprimidos argentinos enfrente a hidra como se deve.
Por aqui, o “mercado”, que já apoiou golpes e aventuras sórdidas, vai desenhando seu representante para 2026. O periscópio visualiza um governador bolsonarista “moderado”, cuja polícia tem cometido atrocidades em série. Com a alergia usual ao povo, setores da classe média tendem a apoiá-lo. Tudo contra os “comunistas”! Não vai ser trivial combater o projeto da extrema-direita fantasiada de civilidade.
Comecei com Delfim, termino com ele. O Gordinho Sinistro morreu este ano, sob salva de loas de boa parte da imprensa e dos que consideram seu apoio à ditadura um pormenor. Ele, que assinou o AI-5 e não se arrependeu disso. Ele, íntimo dos ditadores fardados, e que, garantem várias fontes, intermediou a coleta de recursos empresariais para sustentar a OBAN. Estranho país, o Brasil. Como dizia o Ivan Lessa, a cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos.
Ao Joaquim Ferreira dos Santos, pela inspiração involuntária.
“Agosto, desgosto”. Cresci achando que o oitavo mês do ano chamava desgraça. Mal saído dos cueiros, ouvi os Grandes, expressões pesadas, cochicharem sobre o suicídio do Getúlio Vargas, multidões em desespero nas ruas. Era agosto, 1954. Teria sido uma frustração amorosa? Um bife que desmerecia a memória gaúcha e clamava por haraquiri? Praga daquele mês agourento? Que sabia o Menino dos ardis, tramas, alcovas e trapaças da política nacional? A fase, para ele, era de calças curtas e inseguranças.
A vida preparou outros fados. Para mim vale o dito “fevereiro, vespeiro”. Neste mês, em anos diferentes, morreram cinco familiares diretos. Cinco lutos, cinco sentimentos rascantes, cinco reinícios penosos. Sou o último remanescente da família original e, nesse papel, aprendi a respeitar o mistério insolúvel da Morte. Seria exagero dizer que há uma forma de beleza nestas despedidas. Não há. O que me coube foi descobrir estratégias pessoais para definir o que é a Vida.
No último dia de fevereiro deste ano, minha irmã, radicada há muitos anos nos Estados Unidos, perdeu a batalha contra o câncer. Enfrentou-o corajosamente por três anos, fazendo planos, viajando, lutando. Não deu. Deixara claro que preferia acabar rapidamente caso a perspectiva fosse de transformar-se num vegetal espetado de tubos. Respeitamos seu desejo. Para ela, viver não era apenas durar com expedientes artificiais.
Pertencíamos a galáxias diferentes, mas tive com ela breves momentos em que o prazer da companhia dava algum sentido à vida, com sua essência efêmera. Num impulso mal planejado, casou-se em Los Angeles. Lá estivemos e o inesperado se fez belo. Saímos da casa dela para o local do casório ouvindo no carro uma rádio local. O programa chamava-se Breakfast with The Beatles, versão ianque do nosso Cavern Club, do impagável Big Boy. Minha irmã era devota do quarteto de Liverpool. Cantamos/tralalamos durante todo o trajeto. Foi um tal de Here, there and everywhere, A hard day’s night e She loves you, tudo tão feliz e intenso que, asseguro, ainda não acabou. Transitando para o Led Zeppelin, aquilo foi um Stairway to heaven. Como diz a letra: Makes me wonder.
O avô materno, imigrante, pequeno comerciante, viveu sempre no fio da navalha. Adoeceu gravemente e, hospitalizado em estágio terminal, teve um fim relativamente rápido. Certo dia, fui visitá-lo e cheguei na hora do almoço. Estava semiconsciente, tomando mecanicamente uma sopa rala. Os olhos estranhamente opacos. Apesar daquele estado, em que a Indesejada das Gentes já estava de plantão, afiando sua ferramenta implacável, meu avô reclamou severamente: “A sopa está sem sal!”. Naveguei entre choque e surpresa. Que importância podia ter um tantinho de sal para um moribundo? Não fazia o menor sentido. Hoje, acho que ele se agarrou, sem perceber, ao que simbolizava o sabor da vida. Não era, afinal, um vegetal. Tinha desejo de viver e queria ir assim, dignamente, até a última volta do ponteiro. Com saleiro e tudo.
Minha mãe viveu uma triste coincidência. Como assistente social, trabalhou alguns anos no Instituto do Câncer. Dizia, para um Menino atônito, que entrava em elevadores onde estavam enfermeiros levando órgãos de mortos para pesquisa, usando-os como malabares! Minha imaginação dava cambalhotas de horror. Quando adoeceu, ficou internada por um tempo naquele hospital, o que deve ter-lhe despertado más lembranças. Já em casa, para morrer em ambiente familiar, recusou certos cuidados paliativos. No fundo, decidiu quando era hora de saltar do bonde. Um direito elementar, que ainda hoje certos apóstolos do sofrimento, vestindo capa religiosa, teimam em censurar.
Tudo aconteceu em fevereiro, que não é para mim mês de ziriguidum, esquindô-esquindô e fantasia de pirata. É tempo de pensar nessas histórias, no que podem ensinar enquanto não termina meu prazo de validade. E la nave va.
Livro não enguiça (Millôr Fernandes, fazendo sugestão de slogan para editores de livros enfrentarem a mídia informática de modo geral)
É de amargar. Pesquisa recente concluiu que, pela primeira vez, a maioria dos brasileiros não lê livros. Tudo muito estarrecedor. Entre os entrevistados, 53% não leram sequer uma parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Estão incluídas obras didáticas e religiosas, bem como edições nos suportes impresso e digital. Em números absolutos, houve uma queda de 6,7 milhões de leitores em relação à pesquisa anterior (cinco anos atrás). A parcela dos que afirmaram não gostar de ler subiu 7 pontos percentuais, ultrapassando a fatia dos que gostam muito de ler.
Há muito caroço debaixo deste angu. A ascensão das redes sociais e de todo tipo de detrito eletrônico sequestra tempo e neurônios de boa parte da humanidade. Na pesquisa que mencionei, muitos entrevistados alegaram “não ter tempo” para ler. Ora, é evidente que essa é uma escolha, não uma fatalidade. Mais fácil e ligeiro engolir memes fofinhos, bichinhos se comportando como humanos, receitas mil num país de desdentados, sensacionalismos e piadas imbecis do que encarar um texto que exige atenção, envolvimento com personagens e histórias complexos, exercício da imaginação. O resultado é que despenca o número de livrarias. O Rio de Janeiro perdeu 60 delas em seis anos. É um processo devastador, que propaga ignorância e pavimenta o caminho da desinformação.
Pequeno parêntese. Já existem várias doenças associadas à dependência de telas de tamanho variado. A nomofobia, por exemplo, é uma condição patológica relacionada ao medo de ficar sem o aparelho celular. É um povo que sua frio, tem espasmos nas tripas, taquicardia, boca seca e alucinações não-lisérgicas quando se vê ameaçado de perder conexão por frações ínfimas de tempo. Zumbis instantâneos. Livro não tem disso não. A aflição do leitor é, no máximo, a de lamentar não ter descoberto antes aquela história interessante e uma pontinha de inveja por não ter sido o escritor.
Para agravar o quadro de ataque à leitura, que está longe de ser epidemia apenas verde-amarela, há lugares onde a censura vai bem, obrigado. Na “maior democracia do Ocidente”, está em curso uma blitzkrieg em bibliotecas públicas e escolares. De acordo com a PEN America, organização que defende a liberdade de expressão na literatura, houve este ano 10.046 casos de banimento de livros nos Estados Unidos. As obras são retiradas de prateleiras de bibliotecas públicas ou de escolas. O cardápio da aberração vai de Shakespeare a George Orwell, de Oscar Wilde a Toni Morrison, de James Baldwin à, pasmem!, Bíblia (banida em Utah por “vulgaridade e violência”), de Hemingway a Flaubert.
De mãos dadas com os ianques, o governo argentino atual apoia pedidos de uma fundação conservadora para retirar das escolas de Buenos Aires alguns livros que considera pornográficos. Há resistência. Mais de 120 escritores fizeram leitura pública coletiva das obras ameaçadas, num teatro portenho. Livrarias expõem estes livros nas vitrines.
Sou incapaz de me imaginar sem livros por perto. O Menino se construiu desde cedo pelas palavras impressas. Através delas, percorreu pradarias, atravessou rios e riachos, estraçalhou escudos e armaduras, derrotou Botvinnik e Tal em partidas épicas, aprendeu a sonhar de olhos abertos. Valsou com donzelas setecentistas, capoeirou, tangou, bancou o ladrão de casaca, teve pernas tortas e renasceu em Itabira. Sem se mover, abraçado em capítulos que nunca têm ponto final.
Lamento os que se privam da experiência da leitura. Ficam menos capazes de compreender alhos e bugalhos. Perdem uma das formas mais ricas que o Homem desenvolveu para se comunicar. Desconhecem o prazer do convívio que se processa na imaginação, do compartilhamento de sentimentos que se julgavam isolados, das ideias que brotam de assombros.
Jorge Luis Borges dizia que a melhor imagem do paraíso seria uma livraria (em tradução livre). Ruy Castro pensa diferente. Para ele, em vez de livraria, o paraíso seria um sebo. Atrevo-me a fazer um cruzamento dos dois. Para mim, o Nirvana teria uma arquitetura mista. Parte livraria, com novidades em desfile infinito como a curiosidade humana. Parte sebo, com prateleiras habitadas por livros esquecidos, fungos, traças, poeira e beleza de imagens que marcam os caminhos incertos que nos trouxeram até aqui.