O ódio à Constituição Federal de 1988

O ódio à Constituição Federal de 1988

O Brasil está em sua oitava Constituição (isso mesmo, oitava!) sendo que a primeira é de 1824. De todas as Constituições, as únicas duas realmente democráticas são a de 1946 e, esta, a de 1988. Esse fenômeno revela algumas coisas sobre o Brasil, principalmente que o brasileiro não é afeito à Constituição.

Lembro-me bem, no período da Constituinte, 1987, de como alguns grupos sociais, entre os quais, a TFP, tratava o projeto da nova Constituição com desprezo. Houve muitos embates, mas prevaleceu o texto que, diferentemente de todas as sete Constituições anteriores, estabeleceu como projeto o Estado Democrático de Direito, os Direitos Fundamentais e uma República plural, laica, diversa, impondo-se o equilíbrio entre a livre iniciativa e os valores sociais do trabalho, entre a propriedade e a função social da propriedade, entre homens e mulheres e, ainda, entre Núcleos familiares diversos.

Para uma sociedade que havia criminalizado o pensamento de Esquerda, as lutas sociais, mormente dos trabalhadores, a diversidade sexual e o pluralismo religioso, realmente pareceu odiosa a nova Constituição. A Constituição se impôs, desde o grito sonoro e perpétuo de Ulisses Guimarães, por  ocasião de sua promulgação: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, e continuou a se impor, propiciando a aprovação de uma série de leis de inclusão social, defesa das minorias, combate às desigualdades e ao racismo. É um processo irresistível democrático que vai fortalecendo os alicerces do Estado de Direito.

Mas, o Brasil real, formado, nos seus primeiros quatrocentos anos, por comerciantes portugueses (chamados de brasil-eiros), brancos degredados nascidos nestas terras (chamados pejorativamente de brasilianos, embora este fosse o nome correto da nacionalidade) e os povos originais da terra (brasilienses) e, depois, pelos diversos povos africanos escravizados, nunca foi exatamente um encontro plural, solidário e efetivo de povos. Os brasil(eiros) nunca aceitaram com tranquilidade a presença ou a parceria com os outros grupos. A questão da escravidão, e criminalização das culturas africanas, expõe uma das feridas ainda não cicatrizadas.

A classe dominante (e nem uso a expressão “elite”, pois há pouca elite no exato sentido do termo) manteve, com base em uma religiosidade excludente, a separação absoluta, o desprezo absoluto e o espírito de exploração de quaisquer que lhe oferecessem obstáculo ou competição. Isso ocorreu durante todo o século XX em relação aos italianos e, nos últimos anos, em relação às políticas públicas de inclusão.

Trata-se de uma classe, ou grupo disforme, que não apenas domina, e quer manter-se dominando, mas que também odeia, odeia tudo e todos, odeia quaisquer direitos ao “outro”, ao “diferente”. É uma classe que nunca engoliu a Constituição cidadã e seus direitos fundamentais que elevou toda e qualquer pessoa à condição de dignidade, de igualdade, de titular de direitos fundamentais. Trata-se de um grupo que jamais quis ver o “outro” nos mesmos lugares, aeroportos, universidades etc.

A classe dominante (que não é elite, isto é, não é a porção mais evoluída ou avançada da sociedade) sempre quis um governo para si, não sobre si; um governo que pudesse ser conduzido, não conduzir, que ficasse inerte, não que promovesse aqueles direitos previstos no texto constitucional. Governos que implementaram o projeto constitucional, de início (e em certa medida), Fernando Henrique Cardoso (daquele originário PSDB) e, depois, com maior expressão, Lula e Dilma, passaram a ser odiados pela classe dominante. Não porque tivessem sido “comunistas”, já que nunca houve qualquer brisa comunista nos governos brasileiros. FHC, Lula e Dilma foram governos constitucionais, aquele mais liberal; estes mais sociais, mas todos eles constitucionais. Nenhum comunista.

Mas, as bandeiras da Esquerda ou da Social-democracia, tais como igualdade entre homem e mulher, igualdade de gênero, diversidade sexual, justiça social, inclusão social, acesso à Justiça, emancipação dos deficientes (físicos e mentais) da discriminação e isolamento sociais, os direitos sociais e trabalhistas, a educação pública, o reconhecimento de núcleos familiares diversos, a proteção ambiental etc, acabaram por se identificarem com os primeiros dezessete artigos da Constituição.

A Constituição Federal de 1988 veio sendo realizada pouco a pouco ao longe desses anos. Isso não tranquilizou a sociedade, ao contrário, fez despertar todos os monstros, os mais odiosos e perversos, até o ponto de se converter em antipetismo, lavajatismo e bolsonarismo.

Atacar o PT, aplaudir os desmandos e inconstitucionalidades da Lava-Jato e, finalmente, elevar um miliciano à condição de mito presidencial, são sintomas do ódio aos direitos constitucionais, ódio aos direitos sociais, ódio à inclusão, ódio às Universidades públicas.

A derradeira expressão do ódio da classe dominante que sempre acreditou que seus eleitos jamais tocariam nela, pois se considera intocável, soberana, especial, foi escolher o pior dos piores, não para ser seu Presidente. Não. Esta classe não se submete a governos. Mas, para governar com o todo ódio bolsonarista aos “outros”. O ódio pela Constituição, a inimiga da classe dominante, porque a mesma Constituição inseriu, com dignidade, todos os membros da sociedade (ainda que isso não seja, ainda, uma verdade real). Odeia-se a Constituição porque ela é cidadã; odeia-se a Constituição porque ela coloca em pé de igualdade homens e mulheres, gays e lésbicas, pobres e ricos, negros e brancos, umbandistas e candomblecistas, nacionais e migrantes, empregadores e empregados. Sim, a classe dominante que chamava os trabalhadores de “farofeiros” quando os mesmos se dirigiam às praias, agora deve “suportá-los” nos espaços dos aeroportos.

A classe que odeia a Constituição, que se considera intocável, deu ao Bolsonaro uma missão, não sobre seus interesses ou sobre suas vidas, mas, para impingir dor e dissabor aos “outros”. A missão, sabida, era: fira de morte a “negritude”; fira de morte os “trabalhadores”; fira de morte os gays e lésbicas; fira de morte as reservas florestais; fira de morte a educação; impeça o ingresso do pobre e miserável às Escolas e Universidades; impeça o acesso à Saúde; acabe com a alegria dos “outros” e, finalmente, bata forte contra a Democracia (porque a classe dominante não quer democracia nem com ela se dá bem) e bata forte contra a Constituição Federal porque foi ela, a “maldita” Constituição Federal, o odiosa Constituição Federal, que estabeleceu o projeto do odioso Estado Democrático de Direito.

Janaína e Lindora: a psicopatologia da arquitetura da destruição

Há um fenômeno curioso, descrito no jargão médico como a “lei de Velpeau”, e na visão junguiana como “sincronicidade”, onde coisas de características muito semelhantes e incomuns ocorrem aos pares, ou em trios. Entre ontem e hoje, um claro exemplo deste fenômeno se abateu sobre o Brasil, curiosamente vindo de duas juristas e tratando de coisas distintas mas que compartilham o fundo comum do discurso disruptivo, aquele que se destina a corromper os alicerces das comunicações e dos significados que sustentam a substância abstrata da civilização.

E do que é feita essa substância? Basicamente, do conjunto de relações de confiança. Explico. Quantas vezes você leu ou soube de alguém que observou a queda de uma maçã de sua árvore e iniciou um conjunto de experiências, medidas e formulações teóricas para que se entendesse o fenômeno da queda e as leis da física universal que a determinam? Sabemos apenas de dois episódios, o clássico de Isaac Newton e a vultosa revisão de Einstein, que embora tenha rompido radicalmente com seu antecessor em suas formulações, não causou mudanças práticas nas dimensões em que habitamos como humanos. Em outras palavras, a teoria da gravitação de Newton continua a ser usada na prática do dia a dia, por que é simples e atende às necessidades mundanas.

Assim, ainda que saibamos que a teoria de Newton não é uma explicação válida para o universo das dimensões astronômicas, ela nos abastece plenamente para calcular tudo o que precisamos enquanto humanos terrestres. Temos o conhecimento de tudo isso, e sabemos que podemos confiar, pois é algo amplamente aceito e facilmente verificável, sendo que não temos notícia de que as pessoas ficam observando maçãs caindo e quebrando a cabeça novamente para recriar a teoria ou reverificá-la.

Na minha serara, a prática médica, também valorizamos o conhecimento acumulado pela experiência científica casado com a vivência empírica do dia-a-dia, que constantemente nos informa que as diretrizes da ciência funcionam na prática clínica, de modo que uma boa teoria refletida em bons experimentos cujos resultados são bem conhecidos e facilmente alcançáveis não são cotidianamente reverificados, dado que não se esperam resultados novos com a mera repetição de procedimentos.

Já a prática política, no que tange ao campo da opinião, dos enunciados e das propostas, é hábito saudável que se mantenham no campo dos grandes contratos sociais, entre eles, a Constituição do país, se for o caso de uma república constitucional, ou ao conjunto de valores acumulados pelas jurisprudências e outros códigos. Em síntese, toda sociedade que tem como pretensão a sua evolução, só pode fazê-lo com a confiança nos seus alicerces éticos, morais, científicos, históricos, jurídicos e filosóficos. O emprego de proposições e valores que desarmonizam esses bens abstratos podem sim, em caso de ressonância com algumas estruturas sociais, provocar o solapamento de toda uma sociedade, ou, no mínimo, um trauma grave com enormes perdas humanas, inclusive. Não podemos nos esquecer que todas as catástrofes sociais do século XX – e de outras eras – tiveram como fundamento o domínio das palavras e dos significados. Não se conduz qualquer agrupamento humano sem esse domínio.

Janaína Paschoal e Lindôra Araújo, em um espaço de 24h nos deram uma aula sobre como contribuir para o solapamento das nossas estruturas abstratas que nos mantêm como sociedade. A primeira, em um tweet de hoje, assevera: “Há muitos brasileiros que não concordam com as verdades eleitas pelos formadores de opinião, que são muito fortes, mas não são a maioria! Aliás, penso que o Brasil seja um raro exemplo de país, em que a ditadura é feita pelos que NÃO ganharam a eleição”. A segunda, em parecer exarado pela Procuradoria Geral da República, desincrimina o delinquente da República na sua conduta contumaz de não usar máscaras e promover aglomerações em meio à pandemia de COVID-19, sob a alegação de que “não existe base científica suficientemente robusta que afirme com grande grau de segurança que as máscaras impedem ou diminuem o contágio pelo coronavírus”.

Janaína Paschoal corrompe gravemente e em pouquíssimas palavras, com seu viés patologicamente personalista e autoritário, parte do pressuposto que em uma democracia o eleito pode tudo ao dizer que há uma ditadura dos não eleitos. Nesta formulação sofismática, ela claramente reclama da falta de liberdade dos eleitos imposta por o que ela chama de “não eleitos”, insinuando sutilmente que cada eleição pode (ou deve) fazer de tudo, induzindo o incauto a acreditar que a democracia, regime de instituições estruturadas, estruturantes e estáveis, não é um pressuposto para o exercício de poder por parte de seus eleitos. Quer ela fazer o leitor crer que a vontade do eleito pode facilmente se sobrepor ao conjunto de experiências vividas e praticadas pela sociedade. Assim, chama de “ditadura” o conjunto de forças da sociedade que na realidade são conservadoras, ou seja, as forças que tentam preservar o patrimônio democrático construído até o momento. Aqui jaz um imenso ato corruptor, aquele que pretende através da linguagem sofismática atribuir um valor minoritário, autoritário e individualista a um conjunto que é o que melhor representa o coletivo histórico desenhado por legisladores e cumprido por governantes anteriores, ainda que com qualidades e defeitos que guardam boa distância de danos estruturais graves. O que Janaína nos mostra na realidade é o seu inconformismo com a crítica feita ao seu eleito, que como ela, nutre uma visão peculiar, infantil, paranóica e autoritária de mundo, exibindo pornograficamente a sua estreiteza de visão e sua incapacidade de compreender a nossa Constituição e nossas experiências como nação, dado que não compreende que a Carta Magna é a nossa grande e permanente eleição; que o STF é a instituição que a guarda e que deve ser respeitada; que a ciência é o principal norte de qualquer política pública na nossa civilização, para dizer o mínimo.

Já a Dra. Lindôra, não tão sofisticada em seus métodos e linguagem, ainda que abuse de forma obscena do literalismo na sua compreensão da lei no seu parecer que pretende inocentar um delinquente, (lembrando mesmo o episódio onde o filho de um certo ministro foi absolvido de uma omissão de socorro dado que a vítima morreu no acidente, assim descaracterizando juridicamente a omissão, que só se aplica a vivos!), tenta convencer a sociedade que todo o conhecimento que temos sobre a propagação de vírus respiratórios e suas respectivas medidas de contenção, por mais que secularmente testadas, praticadas, aprovadas e comprovadas, não é válido simplesmente por que ela, com sua douta autoridade de sub-procuradora geral da República, determinou que as informações científicas que temos não são suficientes para caracterizar como infração o seu não uso, ainda que a lei diga o contrário. Em apertada síntese lógica, Lindôra afirmou que a lei é ilegal, tentando justificar sua posição com farta argumentação sofismática e falaciosa.

Tudo isso na mesma semana em que o delinquente da República afirmou que “nossa Constituição é comunista e que isso tem que acabar”, dando a clara impressão de uma ação articulada, o que não seria implausível, dado que estas três pessoas partilham do mesmo projeto de destruição do estado democrático de direito, ardilosamente usando as estruturas constitucionais da República para atingir as suas posições de poder e seus respectivos lugares privilegiadíssimos de fala.

Se há algo a ser aproveitado neste cenário é a compreensão clara dessas mentes doentias, imaturas, deficientes e perversas, eventualmente desonestas (até por que ignoram o significado de honestidade) desfilando agora e à nossa porta, à imagem e semelhança pelo menos simbólica dos desfiles nazistas que adoeceram a sociedade alemã na década de 1930.

As atuais 570.000 mortes e a terra arrasada deixada pela pandemia são indissociáveis desse projeto perverso que infelizmente veio como consequência natural e planejada das manipulações iniciadas já à época do “mensalão” e que se multiplicaram pelo lavajatismo, expressões do moralismo raso que fomenta os projetos fascistas. Caberá aos historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos a tarefa de ligar todos os pontos desse mapa do inferno.

A Torre de Papel

A análise do resultado de ontem na Câmara Federal não pode se perder no mais que óbvio foco do mérito em si, na questão da PEC sobre o voto impresso. Penso que foi um fenômeno bem mais complexo e conduzido com maestria pelo deputado Arthur Lira. Que fique claro que estou examinando o quesito competência política, e não qualquer outro juízo de valor, dado que não somos da mesma enfermaria.

Lira foi um mestre da linguagem e transformou a questão do papel em Babel. Falou uma língua que todos os campos entendiam e cada ato, milimetricamente calculado, não deixou expostas quaisquer de suas reais intenções. Mas o produto final é uma grande confusão e muita fumaça onde fica difícil delinear as intenções de cada ator. Daí, o cuidado que devemos ter na análise.

Mas na minha percepção, fica claro que pelo conhecimento que tem de seus liderados e eleitores (afinal, ele ocupa a presidência por eleição), sempre soube que a proposta da PEC não passaria. Mas, por outro lado, Lira não tem qualquer interesse em impeachment ou qualquer outra forma de desestabilizar este governo, que deixa boa parte da direita conservadora em uma posição confortável diante de um executivo genocida, sanguinário, ignorante e pouco inteligente. E a direita golpista tem assim uma ótima oportunidade de jogar fora a roupa do golpe fingindo que vota contra o governo. Assim, Lira jogou para o plenário de forma mais que absolutamente atípica algo que já havia sido decidido na comissão especial que deu um placar de 22 a 11 ou 23 a 11 contra a PEC, o que já era um sinal claro sobre o destino do voto em papel. Ao fazer isso, acendeu uma vela para Deus e outra para algum diabo. Mas a seguir, não aceitou o adiamento da votação, sinalizando, ao meu ver, que conhecia o resultado e que não queria correr riscos.

Alguns vêem como muito expressiva a votação a favor da PEC, 229 votos. Mas, como eu disse acima, neste pacote tem bolachas de sabores diversos. Certamente, muitos foram constrangidos via WhatsApp com ameaças eleitorais para o próximo pleito, principalmente na questão do financiamento. Outros, certamente ameaçados nas liberações de verbas e outros fatores para as suas bases. Um terceiro grupo, certamente sabedor do resultado, votou a favor do governo pelo simples conforto de não confrontar o governo. E por último, mas não menos importante, o grupo dos “sábios”, que também percebendo o resultado mandam um recado para as massas e para o mercado dizendo nas entrelinhas que não haverá impeachment ou outras aventuras, como por exemplo, a aceitação de uma denúncia criminal contra o delinquente da República.

Destaque-se a unanimidade das esquerdas, que deixaram um digno registro histórico e também a vergonha para o PSDB, que desonrou a história do partido, ou pelo menos, as propostas iniciais de um partido que nasceu em um berço intelectual e político privilegiado e que com o 14 a 12 de ontem, somando-se à vergonhosa abstinência de Aécio Neves. Sim, o PSDB é hoje um braço desarmado da extrema direita.

Em síntese, a única coisa ideológica que aconteceu ontem foi o comportamento das esquerdas. O resto, foi o lixão cuidadosamente desodorizado por um grande e habilidoso lixeiro.

Fulanas e Fulanos

Uma das mais importantes contribuições para a compreensão do mundo da política foi dada (surpreendentemente, ao meu ver) pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, quando disse: “Em política, não se deve fulanizar”.

O que quis dizer o provecto político e ex-acadêmico? Simples. Ou não tanto. O que a máxima quer nos informar é que os fenômenos políticos não são pessoais. Ou melhor, não devemos procurar em pessoas aquilo que é uma elaboração de coletivos, para o bem ou para o mal. Nenhum líder se sustenta sem seus liderados, colaboradores, e até mesmo, eventualmente, cúmplices. E mais que isso, ninguém chega à situação de candidato(a) pelos seus belos olhos ou por acaso do destino, embora isto não seja de todo impossível, embora incomum.

Assim, quando se diz “não temos candidatos ou candidatas para votar”, diz-se, corolariamente, que “não temos compreensão da sociedade na qual vivemos e de seus protagonistas econômicos, sociais, culturais, etc.”. Afinal, as proposições que se organizam em torno de uma candidatura emergem de movimentações de diferentes quantitativos e qualitativos nos diferentes níveis de propositura.

No sentido inverso, de nada valem as tentativas de se responsabilizar um prefeito, um governador ou um presidente da república por aquilo que são elaborações absorvidas pela sociedade e pelos agentes do poder econômico que são representados nos respectivos níveis de governo.

Na atual e recente configuração, criou-se em setores da sociedade, por exemplo, a imagem (falsa) do “Lula ladrão”, amplamente desconstruída pelo gigantesco lawfare que não conseguiu provar absolutamente nada contra ele. O que não significa que não houve corrupção na época de seu governo. Houve a corrupção de sempre, que no que dependeu da vontade pessoal do presidente Lula foi combatida com mais vigor e eficiência, pois sua aposta foi nas instituições do estado democrático de direito. Ainda assim, a fulanização em seu nome trouxe uma sequência de catástrofes políticas que resultou na eleição de Bolsonaro, por sua vez, o fulano da vez. Este pode, na melhor das hipóteses, ser diretamente responsabilizado pelo que fala, o que não seria pouca coisa. Mas, ainda assim, tenta-se responsabilizá-lo por todas as catástrofes da atual pandemia. Que não reste dúvida sobre seu envolvimento pessoal neste processo, mas que também não reste dúvida que o projeto genocida recebeu amplo apoio de diversos setores da sociedade, no que se incluem, para o nosso horror, instituições médicas e seus partícipes, entre diversos agentes econômicos, políticos, ideológicos, e paradoxalmente, democráticos.

A resistência do Congresso Nacional e de seu presidente em relação à abertura de um processo de impeachment contra o atual presidente tem, infelizmente, ampla fundamentação na representatividade de seus membros eleitos pela sociedade. Ninguém caiu lá de paraquedas.

E então, o que fazer? Como escolher os caminhos pelas candidaturas?

Não é tarefa exatamente simples, mas certamente a resposta está nas primeiras partes deste texto. Embora não haja resposta única, ela certamente passa pela cuidadosa observação do passado de médio e longo prazo (10-20 anos) examinando-se no contexto da vida de cada um o que de fato aconteceu no país, estado e município em termos dos coletivos, procurando se afastar o máximo possível das perspectivas individuais, que tratam simplesmente dos nossos desejos pessoais e concepções, quase inúteis se pretendemos uma democracia inspirada em bem-estar social e de respeito aos princípios constitucinais refletidos nas práticas de um dado governo.

Apenas esta “desfulanização” nas duas pontas do processo são capazes de apontar caminhos, onde certamente alguém que não passa lubrificadamente pela nossa goela pode eventualmente representar uma força política capaz das melhores transformações da sociedade.

A perspectiva “higienista” da política, filha do moralismo raso e corrosivo, que cria um imaginário onde o mundo político é a realização do antigo mito do “cândido” (de onde vem o termo candidato) é também uma fonte de repetitivas frustrações, pois nesta mistificação encontra-se a negação da realidade humana e de suas contradições internas. A luta pelo poder não tem nada de cândida, e quem quiser experimentar o sabor desta fruta, por favor, sinta-se convidado(a). Participar da vida política é um ótimo remédio para certos delírios dos quais muitos se alimentam e nos conduzem para quadras históricas como a atual.

Por que votamos em Hitler, digo Bolsonaro

Por que votamos em Hitler, digo Bolsonaro

Existem muitas razões para explicar como Bolsonaro chegou ao poder. Afinal de contas o Brasil tinha experimentado um crescimento econômico, saído do mapa da fome, estava livre de dívidas internacionais, emprestava dinheiro ao FMI, o petróleo descoberto no Pré-Sal garantia saúde e educação para as próximas gerações, havia pleno emprego e milhões de brasileiros ascendiam socialmente.

Em primeiro lugar, os brasileiros tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva dos corruptos cujas políticas forjaram uma crise econômica. Buscava-se um novo rosto. Um antipolítico promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Bolsonaro ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.

Em segundo lugar, Bolsonaro sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Bolsonaro  usava um linguajar simples, espalhava fake-news e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Ele era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada fala era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões.

Em terceiro lugar, muitos brasileiros sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Bolsonaro prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que estavam em voga com as mulheres se tornando cada vez mais independentes e a comunidade LGBT ganhando visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Bolsonaro eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, subverter a ordem para reafirmarem sua masculinidade.

Em quarto lugar, apesar de Bolsonaro fazer declarações ultrajantes – como a de que negros deveriam ter seu peso medido em arrobas e gays deveriam ser mortos – muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos brasileiros que tinham amigos gays ou negros votaram em Bolsonaro, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Bolsonaro poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.

Em quinto, Bolsonaro ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas, seu bode expiatório favorito. Os brasileiros “verdadeiros” não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: “Brasil acima de tudo”, “O Trabalho Liberta”, “Um povo, uma nação, um líder.”

Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Bolsonaro porque ele prometeu — e implementou — um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiou grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Bolsonaro.

Em sétimo, mesmo antes da eleição de 2018, falar contra Bolsonaro tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que o apoiavam, ameaçavam verbalmente os oponentes.  Muitos brasileiros que não apoiavam o então candidato preferiam ficar calados para evitar problemas com os bolsonaristas.

Três anos depois, com mais de 500 mil mortos pela Covid-19,  muitos brasileiros que votaram em Bolsonaro disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao Brasil. “Se soubesse que ele trataria a pandemia desta maneira, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Bolsonaro falou publicamente  que era preciso matar uns 30 mil antes da campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, respondeu minha avó, cujo irmão morreu de Covid.

De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os brasileiros caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas do país. Diferentemente do que se sabe hoje em dia, Bolsonaro não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade brasileira.

Bolsonaro não chegou ao poder porque todos os brasileiros eram bolsonaristas ou homofóbicos, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os brasileiros porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do bolsonarismo estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

Este artigo é um “plágio” de uma publicação do El País de outubro de 2018, assinada por Oliver Stuenkel, intitulada “Por que votamos em Hitler“. Eu apenas fiz a adaptação com a intenção de trazer ao nosso cenário atual que dispensa maiores explicações.

Recomendo muito a leitura do artigo original.

 

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.