O ódio islamita que decapitou um professor é o mesmo da extrema-direita

Após ter sido uma vez mais vítima do terrorismo islâmico, a França vive em estado de choque. Desta vez, ao contrário  dos atentados de 2015, não foram os grandes números de mortos que abalaram a população. Foi apenas um morto, o que de certa forma tornou o ato ainda mais simbólico. Um homem foi decapitado; um professor de história, acusado por seus carrascos de ter dado uma aula sobre a liberdade de expressão.

Um jovem russo, de origem chechena, de 17 anos de idade, com estatuto de refugiado, cortou-lhe a cabeça em plena rua da pacata cidade de Conflans-Sainte-Honorine. Ele não conhecia o homem que assassinou. Até alguns dias antes nunca ouvira o nome de Samuel Paty. Mas fundamentalistas islâmicos, fichados nos serviços de segurança por serem radicalizados, chamaram sua atenção. O professor, como fazia todos os anos,  teria cometido o “crime” de mostrar aos alunos as caricaturas de Maomé numa aula de Cidadania, a propósito da liberdade de expressão. Teve o cuidado de advertir os alunos muçulmanos para que pudessem sair da sala de aula se quisessem. Mesmo assim, alguns pais de alunos, islâmicos integristas, se insurgiram nas redes sociais, alegando blasfêmia. O pai de uma menina, que nem sequer era aluna de Paty, colocou nas redes sociais um vídeo em companhia de um conhecido islamista, denunciando o professor e exigindo sanções. Em um outro vídeo, o agitador afirmava que o professor havia mostrado fotos de um homem nu, simbolizando o profeta. Mentira.

As caricaturas em questão já tinham sido usadas como desculpa para o atentado ao Charlie Hebdo cinco anos antes (12 mortos) e à recente agressão a dois jornalistas, apunhalados em frente ao antigo prédio do jornal.

A França é tida como o país que mais leva a sério a questão da laicidade, baseada na estrita separação entre o Estado e o divino e na liberdade religiosa, dentro do respeito individual. Laicidade é um dos pilares da République Française. Respeita-se o direito de cada indivíduo praticar ou não uma religião. 

Em nome desse respeito, ao contrário do que acontece em outros países, na França a blasfêmia não é punida. Aliás, a sátira não é reservada ao fundamentalismo islâmico. Não passa uma semana sem que Charlie ou o Canard Enchainédesacate indiferentemente um rabino, Moisés, um monge budista, Sidarta, Jesus, o papa.

O problema é que uma minoria de islâmicos radicalizados (nada a ver com a imensa maioria da população muçulmana francesa) se nega a obedecer as leis do país. Defende uma espécie de separatismo (termo utilizado por Emmanuel Macron), e exige que a charia, a lei islâmica, seja superior à Constituição. 

Certos imãs pregam a desobediência civil e a violência contra os infiéis, em nome da leitura de uma versão radical e polêmica do Alcorão. Isso fez com que algumas mesquitas fossem fechadas.

Na verdade, o tema da radicalização islâmica foi ignorado por governos anteriores, abandonado entre as mãos da extrema-direita, cuja propaganda fazia um nauseabundo amálgama entre o fundamentalismo e a comunidade muçulmana como um todo, para desembocar na condenação generalizada da imigração. Para evitar entrar no jogo de Marine Le Pen, optaram por fechar os olhos. Consequência: o tumor cresceu e criou metástase.

Mas verdade seja dita: não foi só a radicalização islâmica que decapitou Samuel Paty. Embora quem apontou para o alvo tenha sido os agitadores, acompanhados dos pais mais ofendidos com a exibição das caricaturas, é preciso levar em conta que  vivemos num mundo onde os conteúdos de ódio se tornaram virais. A violência, ao extremo da  decapitação, é resultado e causa, num círculo vicioso.

Como escreve a economista Maria João Marques no jornal Público, de Lisboa:  “Não é a primeira vez que as palavras de incentivo ao ódio levam a atos de violência e a mortes.”

As Nações Unidas, em seu boletim ONU Info do mês de fevereiro, foi categórico: “La haine sur les médias sociaux contribue directement à la hausse des crimes de haine contre les minorités”, em tradução livre O ódio nas redes sociais contribui diretamente ao aumento dos crimes de ódio contra as minorias.

Muitas vezes, a violência se limita às campanhas de assédio e ódio online. Em outras porém, as palavras de ódio frutificam. Jovens fragilizados e pessoas fanatizadas, prontas a endeusar mitos, se deixam enredar em ideologias promotoras de violência, tomam como ordens o ódio vomitado por terceiros, frequentemente por líderes populistas da hiperdireita como Trump e Bolsonaro.

Em agosto, em meio a protestos por um homem negro ter sido alvejado pelas costas pela polícia americana, um adolescente armado, de 17 anos, matou duas pessoas e feriu uma terceira.  Ele tinha viajado do Illinois ao Wisconsin, onde ocorriam os protestos, para impor a ‘lei e ordem’ – o mantra de Trump contra os Black Lives Matter.

Não foi tampouco por acaso que o número de assassinatos explodiu no Brasil de Bolsonaro, apesar da pandemia.

O ódio alimenta a violência dos islamistas radicais bem como da extrema-direita hipernacionalista e retrógrada. Ambos partilham ideias e ódios. São visceralmente contra a modernidade, a inclusão, a liberdade sexual. Usam a religião – muçulmana num caso, evangélica no outro – como forma de organizar cruzadas, que via de regra nada têm a ver com os valores religiosos.

A este título, o exemplo da ministra Damares no recente episódio da menina grávida, de 10 anos de idade, estuprada pelo tio, foi exemplar. Apesar do direito ao aborto ser reconhecido pela lei e pela Justiça, a ministra da goiabeira insistiu em levar a gravidez até o fim, tratou o médico e a menina de assassinos e, em total ilegalidade, divulgou o nome e o paradeiro da criança para a então bolsominion Sara Winter, formada por neonazistas ucranianos do movimento militar Azov e líder do grupo supremacista 300 do Brasil.

Esse ódio é o mesmo partilhado pelos fundamentalistas islâmicos e radicais de direita em relação aos gays, às feministas, aos transexuais, aos negros, aos democratas, enfim, a toda e qualquer alma que seja diferente da sua e não queira viver na Idade Média. É o ódio que mata e decapita.

Ciência, política e seus filhos órfãos

Nas últimas semanas tivemos episódios talvez inéditos, envolvendo publicações científicas que expressaram em seus editoriais e artigos opiniões políticas e sobre a política, no contexto da pandemia de COVID-19, que certamente só causou até agora o volume de danos e perdas pelas omissões e ações de governos irresponsáveis e desumanos, na saga negacionista em relação à ciência, à história e mesmo aos mais evidentes fatos.

A iniciativa dos periódicos Lancet, New England Journal of Medicine e Nature foi contundente. Em pelo menos um caso, o da revista Lancet, uma forte reação de dois grupos de médicos brasileiros protestou contra o que foi rotulado como uma “intromissão política indevida” para um periódico científico, que nos dois casos foi literalmente instado a não manifestar-se sobre isso.

Um dos subscritores da reação à Lancet é amigo pessoal deste autor, e ocupa posição destacada no meio científico médico brasileiro, e desta amizade de longa data surgiu então um intenso debate sobre a polêmica. De um lado, penso que em um ambiente onde a ciência é negada, atacada e negligenciada enquanto fonte de informação para ações políticas em saúde pública que venham a proteger governados, cabe sim a reação dos veículos legitimadores do conhecimento médico científico. Afinal, se a ciência não tiver como objeto o progresso da humanidade e seus frutos não se transformarem em fomento técnico de bem-estar e segurança pela instrumentação política, estará decretado o seu fim, bem ao gosto do neofascimo hoje à beira da institucionalização. No outro lado, meu velho amigo impugnando a resposta política da ciência, insistindo em uma separação total dos territórios, com uma visão de mundo que isola a ciência da vida real e cotidiana e a coloca em um verdadeiro altar onde os dados e números são de pureza absoluta e totalmente desarticulados do universo político. Tudo se passa como se a carreira acadêmica máxima que fez em instituição pública bem como as verbas que recebeu para suas pesquisas no ambiente da universidade pública nada tivessem a ver com a atividade política ou com a visão de estado daqueles que tomam as decisões sobre os investimentos. Tudo também se passa como se a ciência não necessitasse do processo de debate político para que seus conhecimentos sejam incorporados à vida do cidadão comum, às mudanças de práticas e hábitos, à formulação de leis e políticas de estado.

Paul Feyerabend, falecido professor de filosofia em Berkeley deixou uma vultosa obra que nos clarifica de forma paralisante o mundo onde a ciência tomou o lugar da religião seguindo hoje como verdadeira fonte de poder econômico e…político! Ele nos adverte sobre o tipo de conhecimento que a ciência vem desenvolvendo principalmente no mundo ocidental e capitalista, em um círculo vicioso de financiamento/empoderamento e formação de monopólios de saber que literalmente estão ditando os rumos da humanidade. Não bastasse isso, para aquele autor a ciência reclama permanentemente a si mesma a chancela do conhecimento, criando barreiras a qualquer outra forma de apreensão e compreensão do mundo e da vida que não passe pelo crivo cartesiano. Vale a leitura de suas obras “Como proteger a sociedade da ciência” e “Adeus à razão”.

Meu amigo parece não aperceber-se de que sua (entre outras tantas) vida está condenada em um mundo onde a ciência é atacada, não por aqueles que como Feyerabend possuem uma visão crítica necessária a uma revisão sobre o lugar, o poder e as dimensões da ciência na sociedade moderna, mas por aqueles que certamente não têm alcance mental para compreender o que é ciência e muito menos para fazer uma crítica qualificada. O ataque vem das sombras, das trevas, dos saudosos de tempos de ódio e barbárie, e se não defendido pela ciência, será vitorioso, como mostra a tragédia da pandemia atual.

Diante da desfaçatez do governo brasileiro, que divulgou ontem um estudo dando conta da “eficácia da Nitazoxamida” no combate ao COVID-19 sem apresentar uma única estatística ou debate, provoquei o meu amigo novamente, instando-o a mandar uma carta para o Ministério da Ciência e Tecnologia protestando contra a intromissão de políticos no mundo da ciência, em situação absolutamente simétrica à que ele denunciou antes. A resposta foi de causar frouxos de riso. Para ele, não é papel dele fazer esta reclamação, mas sim dos políticos profissionais, mostrando de forma pornográfica a sua visão fragmentada de mundo, de ciência, de cidadania, de médico e do complexo universo onde vivemos.

Destas conversas que se estenderam por dias, resta a visão de que o meu romântico mundo cultivado durante tantos anos desde o meu ingresso na faculdade de medicina pariu muitos filhos que voluntariamente se puseram na condição de órfãos. O que é verdadeiramente assustador.

A revista Nature, talvez encerrando o episódio, publica na semana que passou um statement: “Está cansado da negação da ciência? Pois abrace a política!”.

Que alívio.

NELSON NISENBAUM

Quem pode, pode

Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido de aparência respeitável), defendem o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.

O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.

O papel do presidente da República não é apenas fazer, ou seja propor reformas através da lei. Longe disso. A comunicação talvez seja hoje ainda mais importante.

A respeito, todos os líderes populistas, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. O pior é que dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro, hors concours. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Lembram-se? Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve inúmeras internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.

Isso mostra o grau de responsabilidade de um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, tem enorme valor simbólico. Governa-se através deles.

Em bom português, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower“. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial um ato com assinatura que não seja a sua.  Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, ameaçar enchê-lo de porrada, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. E assim, desrespeita a Nação. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas nem reservar a publicidade oficial para os amigos do rei. Não pode transformar uma mídia de serviço público em estatal a serviço do Planalto. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.

Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e obediência, afinal o STF, como bem disse Rui Barbosa, é a última autoridade com direito a errar.

O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura nem um ministro da Saúde que não entende nada do assunto em plena pandemia; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet,  Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).

O presidente não pode responder E daí, dando de ombros, quando é indagado sobre a escolha, para diretor geral da PF, de um amigo do filho que está sendo investigado; não pode indicar para o Supremo um farsante plagiador recomendado pelo mesmo filho; não pode ignorar que a primeira-dama recebeu em sua conta dinheiro suspeito; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque os seus apoiadores incondicionais passam a desrespeitar o isolamento correndo soltos rumo ao risco de morte; não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid 19.

Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro tiveram e continuam tendo enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.

Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso.

– Se o presidente da Fundação Palmares pode chamar o movimento negro de “escória maldita”, eu também posso ser racista.

– Se o general Heleno pode lançar apelo ao golpe, eu posso defender a ditadura.

-E se o general Mourão pode defender o torturador Ustra, eu posso sair por aí distribuindo porradas.

Acontece que o capitão e seus asseclas cometem crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.

Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país. Para tanto, conta com um cúmplice de peso na pessoa do Procurador Geral da República, fiel dentre os fiéis.

Hoje temos no Brasil dois lados: um movido a fanatismo e ódio, outro a angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar ao abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia. Se assim não for, como parece que não será, que ao menos seja derrotado, de preferência fragorosamente, daqui a dois anos. É o mínimo que os democratas, inclusive de direita, devem esperar. Mas será que em 2022 o capitão, os militares, os evangélicos, a bancada da bala e do boi, os milicianos largarão o osso por uma simples questão matemática do número de votos nas urnas?

É sempre bom lembrar que o poder tem gosto de mel e quem se lambuza fica viciado.

Samba Perdido – Capítulo 20 – Parte 01

Capítulo 20

 

“E vou cantar entre os cristais azuis do tempo e perceber

A terra longe, longe a se perder.”

Som Imaginário

 

O vestibular, a prova que definiria nosso futuro e o nosso valor para a sociedade, estava esperando na esquina. Esse rito de passagem preocupava até os mais inveterados membros da “esquadrilha da fumaça” do Colégio Andrews. Apesar do nervosismo na escola e em casa e além da obrigação de justificar o dinheiro gasto na nossa educação, nos perguntávamos onde iríamos parar depois que passássemos por aquele portal se passássemos. A sensação era que Molloch, o deus monstruoso do aparato militar industrial capitalista, retratado por Allen Ginsberg no seu genial poema Howl, estaria nos esperando do outro lado, vampiresco e impessoal, escravizador e envenenador de tudo e a todos com seu piche de enquadramento e resignação. 

Era como estivéssemos enjaulados aguardando ser soltos para um futuro de animais de elite adestrados, sangue novo num ciclo de oferecer força vital em troca de mercadorias desnecessárias. Como engolir a máxima arbeit macht frei – o trabalho constrói a liberdade – escrita nos portões de Auschwitz e enraizada no pensamento ocidental, martelada em nossas cabeças por professores, mídia, filmes e, acima de tudo, por nossos pais? 

Embora não fossem, de forma alguma, nazistas, nossos educadores acreditavam que a única maneira de escapar à injustiça inerente ao mundo era trabalhar duro para se tornar uma peça bem remunerada de Molloch. Como nas histórias de vampiros, sabíamos que no momento em que nos tornássemos “um deles”, não haveria volta e reproduziríamos o servilismo de dezenas de gerações passadas. Por mais que nos esforçássemos, o dinheiro ganho jamais compraria nem liberdade nem felicidade. Os únicos que teriam direito a isso seriam os que nem precisariam se esforçar ou se preocupar já que fortunas familiares lhes garantiriam blindagem.

Sem dúvida, num país onde o acesso às universidades era um privilégio de poucos, essas opiniões eram resultado de uma mistura de educação sofisticada com tempo disponível para ler e refletir. Contudo, esta situação confortável propiciava uma distância necessária para discernir claramente a máquina que movia o mundo. Ela estava ali nos esperando, sólida e impassível e mostraria suas garras assim que ingressássemos no mercado de trabalho. Embora o vestibular não fosse a parada final, era o portal para um posto avançado. A vida depois dali viraria séria, em outras palavras estaríamos seriamente ferrados. Isso se passássemos, se não passássemos, a humilhação da ineptitude para servir Molloch seria insuportável.

A versão oficial sobre o que estava do outro lado do portal, era a de um mundo desfrutando a vitória do bem sobre o mal, onde as forças democráticas e socialistas haviam esmagado o nazismo. Nele, a humanidade estava a caminho de um lugar melhor, livre, repleto de avanços tecnológicos que garantiriam prosperidade a todos, a despeito da indevida oposição do comunismo totalitário.

O que tentavam ocultar desse mundo era a locomotiva que o guiava; as grandes corporações. Estas eram as provedoras dos bens e dos serviços que o caracterizavam. Para que a máquina funcionasse a seu jeito, demandavam governos que lhes passassem um cheque em banco. Governos voltados para o bem-estar de todos não interessavam.

A despeito do sucesso econômico durante a reconstrução dos países arrasados pela guerra, teóricos liberais, os sacerdotes de Molloch, se rebelaram. Estes diziam que o estado estava se metendo demais na economia e impedindo que a locomotiva funcionasse direito. Eles se esforçavam – e ainda se esforçam – para provar que os interesses das grandes fortunas e os das populações eram a mesma coisa. Sua lógica de mão única afirmava que sucesso do capital privado era fundamental para o bem-estar da população. O inverso não era verdade; o bem estar “em excesso” da enorme maioria seria nocivo ao bom funcionamento da economia. Baseado nessa premissa, quando havia descontentamento ou quando grandes interesses eram contrariados, a ordem estabelecida, detentora exclusiva do direito à violência, recorria à força. Vista dessa ótica, a democracia liberal era uma ilusão onde todos achavam que tinham escolhido viver em submissão.

Talvez por aprenderem de primeira mão sobre a brutalidade que seus pais e avôs sofreram em duas guerras mundiais na luta pela liberdade e pelos ideais democráticos, talvez por presenciarem diretamente as escolhas decepcionantes feitas pelas lideranças vencedoras na reconstrução de seus países, a geração que se seguiu, a dos babyboomers, viu além da versão oficial. Contando com mais gente cursando ou formada em universidades do que qualquer outra geração anterior, ela carregou o bastão da luta pela democracia verdadeira. 

A luta agora era para prevenir que o triunfo dos aliados levasse no longo prazo a um servilismo sem questionamento, quase voluntário. Apesar do crescimento econômico forte durante a reconstrução, ficou claro onde os frutos mais suculentos iriam parar quando aquele ciclo terminasse: no andar de cima. No fundo, nada tinha mudado. Era preciso desmascarar a farsa e sacudir as estruturas para que um mundo realmente melhor viesse depois da carnificina das guerras. Para essa geração ficou claro que planeta inteiro sofria dos mesmos problemas. O mal ia muito além de ideologias, países ou raças pintados como adversários. O mal estava na maneira como a estrutura tinha sido montada e era gerida e nas manipulações que faziam com que a humanidade aceitasse, sem nenhum questionamento ou resistência, que uma ínfima minoria se impusesse.

Este questionamento se espalhou como fogo pela juventude educada. As possibilidades que eles vislumbravam nas suas preferências para reconstruir o mundo poderiam ser a rota de saída de um legado de guerras, ditaduras, perseguições, fome, genocídio e outras coisas horríveis deixado por múltiplas gerações. 

Na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo a situação no pós guerra era mais complicada ainda. O discurso de que o triunfo dos aliados significou uma vitória contra a injustiça e a tirania, encorajou a luta contra o imperialismo, e revoltas populares como a Revolução Cubana. No entanto, ao sul do Equador, a contradição entre o discurso e a prática dos aliados criou vários absurdos onde as elites apoiavam ditaduras em nome do chamado “mundo livre”. 

Naquela nossa mistura de consciência com inocência acreditávamos que ainda era possível pegar a saída para o mundo descrito por John Lennon em sua música Imagine, onde todos viveriam em função do presente, sem fronteiras e sem diferenças. A saída apontando para o vestibular e o que seguiria depois era o portal para um pesadelo.

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O apocalipse trumpiano

O que poderia salvar Donald Trump do desastre eleitoral anunciado? Os analistas dos grandes jornais do mundo e universitários “experts” em política norte-americana tentam, nesta reta final, identificar um acontecimento extraordinário capaz de inclinar a balança a favor do presidente. Em vão. A diferença apontada nas mais recentes pesquisas, 12%,  é tal que só mesmo algo inimaginável poderia tirar a vitória de Joe Biden no próximo dia 3.

A situação seria diferente de 4 anos atrás, já que Trump é dado como perdedor no cômputo geral, mas também nos decisivos swing states. Numa eleição “normal”, diríamos que a sorte está lançada e que os democratas voltarão ao poder após os anos mais estranhos da história recente dos Estados Unidos, em que a democracia foi colocada em cheque como nunca e só não soçobrou graças à força das instituições e dos contra-poderes representados pela sociedade civil. Acontece que esta não é uma eleição “normal”.

Estamos diante de um fenômeno com uma carga passional quase patológica. Por isso, um pouco de prudência não faria mal a ninguém. Há 4 anos, sempre é bom lembrar, os analistas diziam que Hillary estava eleita. De qualquer forma, repito, esta não é uma eleição normal.

Como escreve Thomas B. Esdall no New York Times, “Em ambos os campos, muitos encaram estas eleições em termos apocalípticos: elas decidirão do sucesso ou do fracasso dos Estados Unidos. Para a extrema-esquerda, uma vitória de Trump abriria caminho a uma ascensão do fascismo. Para extrema-direita, a vitória de Biden e Kamala Harris significaria a “ascensão do comunismo e a anarquia.”

Na visão do historiador português José Pacheco Pereira, a fratura eleitoral mais aguda nos EUA nessas eleições de 2020 é a que separa os eleitores brancos sem escolaridade de todos os outros. Para os “deploráveis”, há aqui duas perdas: ser branco e já não ter os privilégios de o ser, face aos negros, aos latinos e a todos os “não americanos”; e ser trabalhador manual, não ter um diploma e por isso ser marginal na sociedade, estar fora da elite.

Eles, os brancos sem diploma e raiva de todos os demais, que formam o fiel eleitorado de Trump, são capazes de segui-lo cegamente na pior das aventuras.

Face ao cenário atual, o ocupante da Casa Branca se nega a descartar a opção do péssimo, a tentação de lançar o país no caos. Não é impossível que  na madrugada do dia 4 tenhamos  dois candidatos anunciando a vitória. Até agora Donald Trump agiu como um piromaníaco, recusando-se, ao contrário do seu adversário, a dizer se acatará o resultado das urnas e denunciando uma tentativa democrata de preparar uma enorme fraude eleitoral, através do voto por correspondência. Se perder, não garante uma transição pacífica.

Nesse tempo de pandemia, grande número de americanos prefere votar por correspondência, evitando assim a ida aos colégios eleitorais. A maioria destes, atualmente em quarentena, vota Biden. Por isso, ele imputa ao voto por correspondência a tentativa de fraude.

Uma abstenção recorde seria a derradeira esperança de Trump.

Não se deve descartar uma derradeira jogada de Trump, pois dele pode se esperar tudo, a começar pelo menos recomendável. Em caso de vitória democrata por pequena margem, ele poderá se autoproclamar vencedor, desacreditando a legitimidade da vitória de Biden, do processo eleitoral e da própria democracia americana.

“Se o vencedor não for imediatamente claro, o país mergulhará em semanas ou meses de incerteza”, prevê a revista Time, ao advertir: “Devemos estar preparados para um cenário de caos”.

O jornalista Barton Gellman escreveu um ensaio, publicado no jornal  The Atlantic, em que faz previsões apocalípticas:  “The election that could break América”  – A eleição que pode fraturar a América, em tradução livre.

Donald Trump sabia que para recuperar terreno precisaria evitar que o final da campanha ficasse centrado na pandemia; assim, ficaria de mãos livres para atacar seu adversário no terreno escorregadio das fake news. Mas foi o inverso que aconteceu. Após 215 mil mortos, ficou difícil negar sua responsabilidade na condução da guerra contra o coronavírus. Trump, é claro, não a reconheceu e, assim como seu grande amigo Bolsonaro, tentou jogar o fardo dos mortos sobre os ombros dos governadores. Mas a maioria dos americanos não engoliu a insistente minimização do risco.

Infectado, o candidato à reeleição não pode escapar do assunto e, como quase sempre quando pressionado, cometeu várias gafes monumentais ao encorajar a população: “Não tenham medo da covid.”

Como se o vírus pudesse ser combatido e derrotado pela simples determinação do doente, pela força da vontade. Quis vender a imagem de um herói invencível, passou a impressão de um sujeito desesperado e risível. Ficou refém da pandemia.

A imagem que deixou foi tragicômica. Falando para a sua “base”, Trump subiu à varanda da Casa Branca, num ato político retirou a máscara diante dos apoiadores e imitou a pose de Benito Mussolini com cara de imperador romano e ar de mau. Insensato, prometeu fornecer de graça aos velhos seu remédio milagroso. E para concluir, recusou-se a participar de um segundo debate online: “Não sou contagioso”; disse o charlatão, dando-se ares de especialista em corona.

Foi patético.

 

 

 

Solução felina

Invejo minhas duas gatas, Ruby e Getty. Elas não sabem, nem precisam saber, o que é aquecimento global ou hecatombe ecológica, quem são o Trump e o Bolsonaro, não fazem parte de redes sociais, sempre viveram em isolamento e vão continuar a ter a sua comidinha não importa o que aconteça.

Infelizmente pertenço à raça humana e faço parte de uma mega estrutura de produção e de consumo da qual não consigo escapar. Preciso pagar contas, preciso comprar comida, preciso trabalhar e não tenho o luxo que elas têm. 

Junto com todos os que carregam esse fardo, sei que estamos vivendo momentos extremamente inquietantes. Não dá para fugir. Não importa qual a corrente de pensamento, qual a religião, cor, nacionalidade ou mesmo classe social, estamos todos envolvidos. A desigualdade econômica explodiu e continua aumentando, os ecossistemas estão à beira do colapso, existe uma crise econômica seríssima, as novas tecnologias vão precisar cada vez menos da presença humana, uma pandemia nos pegou de surpresa e outras podem vir na sequência. 

O mais perigoso nisso tudo é que nossas lideranças, tanto regionais quanto mundiais, não estão à altura desses desafios cruciais. Muito pelo contrário, salvo raríssimas exceções, são negacionistas ou minimizadoras. Muitos tentam vender uma falsa promessa de conforto através de ficções baseadas em preconceitos, chavões e obscurantismos que visam manter um status quo insustentável. Mesmo lideranças nas oposições – novamente, salvo raras exceções – têm como prioridade vencer disputas eleitorais, algo natural em situações menos emergenciais mas que estão longe de resolver o gravíssimo quadro atual. Quando lideranças mais conscientes aparecem, os que se veem ameaçados, conseguem mantê-las longe da atenção do público para que o circo continue.

Tudo isso faz com que não haja nem estrutura, nem instituições, nem encorajamento, nem respostas, nem priorização para resolver os graves problemas postos na nossa frente. Para piorar as coisas, no geral, há pouquíssimo conhecimento da seriedade da situação. Há muita recusa em encarar a realidade. O que mais vemos são ansiedades em substituí-la por fantasias, sejam elas religiosas, ideológicas, étnicas ou nacionalistas. 

Os paralelos com o que aconteceu na época do nazi fascismo são inevitáveis. Quando sistemas econômicos e políticos aos quais somos umbilicalmente ligados colapsam, as grandes ideias e os líderes messiânicos entram em cena. Nosso reflexo de rebanho, aprendido em escolas, religiões, quartéis, culturas tradicionais e até em nossos lares nos impele a procurar alguém ou algo acima de nós que nos salve, seja como indivíduos ou seja como coletividade. 

Essa é uma hora muito perigosa, pois nos colocamos a mercê de indivíduos, de idéias, de projetos ou de organizações que se apresentam como resposta. A fachada visível e a realidade do seu funcionamento raramente coincidem. É nessa hora que nossa individualidade, nossa liberdade, nossa unicidade, nosso bom senso e o nosso futuro correm o maior perigo. É nessa hora que grandes erros são cometidos pois atribuímos poderes imaginários a seres humanos falíveis e muitas vezes predatórios. Esses erros, quando tomam vida própria, têm consequências imprevisíveis e frequentemente nefastas. 

O propósito dessas palavras não é apresentar soluções milagrosas nem se colocar a favor ou contra personalidades em destaque. O propósito é dizer que indivíduos supra humanos e soluções milagrosas simplesmente não existem. O propósito aqui é dizer que precisamos de instituições fortes, baseadas na racionalidade e voltadas para o bem comum. Precisamos muito mais de políticas do que de políticos. 

Políticos são, ou pelo menos deveriam ser, nossos representantes quando decisões importantes têm de ser tomadas. As instituições onde operam são, ou deveriam ser, as que nós os oferecemos para que trabalhem para a gente. Precisamos, por isso, de comunidades e indivíduos fortes que lutem para que seus interesses sejam atendidos e que escolham bem seus representantes.

Não é à toa que o maior alvo do neo-fascismo seja a democracia. 

Nesses tempos de crise precisamos apenas e sobre tudo que os problemas imensos que enfrentamos sejam resolvidos da melhor maneira possível e no interesse de todos. Não serão salvadores da pátria paternalistas que farão isto por nós. Ao contrário, temos que nos empoderar e nos engajar, onde e como pudermos, para reverter uma situação que está saindo fora de controle. Somos nós que temos que estar a altura dos desafios impostos. Não podemos deixar as coisas nas mãos de outros, sejam eles companhias, líderes religiosos ou políticos e esperar que eles tragam uma solução. 

Devemos escolher gente que nos represente em instituições que controlamos. Porém, dar carta branca a forças hierárquicas que nos veem como peões na esperança que elas resolvam por nós, jamais. Quem tem que ter poder sobre nossas vidas somos nós. 

Voltando às minhas gatas que não entendem nada de política ou de economia e que resolvem suas questões com miados; elas têm mais ciência e controle do mundo em que vivem do que eu do meu. Para elas sou um ser que navega alienado pelo mundo. Que inveja!