Trabalhadores do Brasil, uni-vos!

Muitos continuam falando que o PT deveria fazer sua “mea culpa”, como se os demais tivessem somente anjos em seus quadros. Talvez esperem que o PT diga que seus membros faziam caixa 2 para campanhas políticas, que havia corruptos em seus quadros, diferente dos outros partidos.

Tudo que se diga do PT, não é diferente do que foi, e continua sendo a maneira de se fazer política no Brasil. Antes, durante e depois da ditadura, nada mudou. São os mesmos nomes, as mesmas famílias, os mesmos partidos com nova roupagem. Na política brasileira a corrupção começa antes da eleição com dinheiro sujo de campanha, durante o mandato com as rachadinhas de gabinete e “comissões” por favores prestados e depois do mandato com a cobrança por aqueles serviços prestados.

Poucos estão lá para fazerem o bem maior pelo país e pelo povo. Infelizmente a marca registrada do político brasileiro está associada a corrupção. São quatro anos de mandato para pagar de volta os gastos de campanha e ter algum lucro. Em muitos casos, o salário do político durante todo o seu mandato não cobre sequer os gastos da campanha para sua eleição. Então é preciso um “jeitinho”.

É óbvio que no PT também existiram políticos desta laia. Mas do PT se cobra uma áurea moralista imaculada. São muitas as razões para isso. Vão desde o sonho infantil de que com o PT seria diferente, até o ódio puro e simples a um partido de trabalhadores governando o Brasil.

Eu acredito que o PT errou em muitas coisas, mas seu maior erro foi acreditar que ao vestir terno e gravata seria aceito a mesa da Casa Grande. Quando chegou ao poder, o PT não quis ser diferente, desejou ser igual. Achava que como iguais seriam aceitos na sociedade como um todo.

Este não foi, é claro, o único erro, durante os governos do PT as verbas publicitárias foram distribuías para todos os meios de informação. Não falo só da Globo, mas da Abril com a Veja e de outros meios que difamavam o partido diariamente. Como pode haver tamanha ingenuidade? Achavam realmente que em algum momento a mídia coronelista brasileira iria tratar um bando de esquerdistas que ousavam melhorar a vida de milhões de brasileiros, como iguais? Que iriam reconhecer os avanços sociais e econômicos que seus antecessores nunca conseguiram?

O PT deixou de regular a imprensa e continuamos pagando esta conta. Para quem não sabe, regular a imprensa é fazer com os meios de comunicação não fiquem concentrados nas mãos de poucos. É determinar que quem possua uma TV, não possa ter rádios e jornais, por exemplo. O mesmo com donos de outros meios e também quantitativamente. Uma mesma empresa não pode ser dona de mais que um número de canais de TV e rádio, ou jornais.

O PT também não soube passar a mensagem do que é preciso para se governar no Brasil e implantar um projeto de governo. Não deixou claro que o preço a se pagar é se aliar ao Diabo, aos partidos que dão sustentação em troca de favores. Quem sem sustentação política, nada poderia ter sido feito. Que foi preciso fazê-lo em nome do bem maior.

O partido se cobriu com o véu da vaidade e se permitiu rompantes de arrogância. Esnobou aliados tradicionais para permanecer no poder ao lado dos que supunha serem seus novos amigos. A realidade mostrou que quase todos eles eram somente comparsas em troca de cargos e afetos. As fotos com Paulo Maluf, Sergio Cabral, Os Sarneys etc, estão aí para provar o argumento.

O partido não soube aparelhar o estado, uma regra básica na política. Cargos fundamentais foram trocados por apoios em todos os escalões do governo. A falta de aparelhamento, uma medida imprescindível para a manutenção de um projeto de longo prazo foi desprezada. Assim, todos os fracassos e casos de corrupção foram lançados na conta do PT. Todos os acertos, quando reconhecidos, foram creditados ao conjunto de governos passados que pavimentaram o caminho.

De fato, erros foram cometidos, mas nada se compara aos acertos que projetaram o Brasil na comunidade internacional. Acertos que levaram milhões de brasileiros a saírem do mapa da fome, a terem a oportunidade de estudar, de se inserirem no mercado de trabalho com melhores salários e terem o poder de compra.

Nenhum destes acertos diz respeito a classe de brasileiros que abraçou o fascismo. Para eles pobre continua tendo que saber o seu lugar. O mesmo se aplica a mulheres, negros e demais minorias. Se cada um respeitar o lugar que merece na sociedade que eles concebem, tudo vai ficar bem.

A direita brasileira não suportou os acertos de trabalhadores e apoiou o fascismo. Disso ninguém mais tem dúvidas. Este apoio criou o monstro que hoje habita o Palácio do Planalto e levou o país a um retrocesso de tamanha envergadura, que serão necessários muitos anos para se voltar ao ponto de onde paramos antes do golpe.

O Covid-19 é somente mais um exemplo da forma de relacionamento do fascismo com seu povo. A valorização da vida não entra na conta deles. Nunca se importaram com a educação, com o meio ambiente com a melhora da qualidade de vida, porquê se importariam com uma gripezinha? Esta é a forma fascista de governar, o neoliberalismo e a meritocracia acima de tudo.

Impeachment já!

O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Uma surra na educação

De acordo com a Wikipedia, “A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação reformada, portanto, crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática, fonte de toda doutrina ensinada na igreja. Todavia, a IPB subscreve os Símbolos de Westminster: (Confissão de Fé de Westminster (CFW), Catecismo Maior de Westminster e Breve Catecismo de Westminster) que considera ser exposição fiel das Sagradas Escrituras. Tais confissões são modificáveis, caso a igreja perceba erros em suas declarações e não são vistas como sagradas ou inspiradas por Deus.

Entre as doutrinas expressas na CFW estão as doutrinas da:  Trindade; Difisismo; Predestinação; Graça Comum; Divina Providência; Queda e Pecado original; Depravação Total; Vocação eficaz; Expiação eficaz; Eleição Incondicional; Perseverança dos santos; Justificação pela fé; Ordo salutis reformada; Dois sacramentos (Batismo e Eucaristia) e a Guarda do Domingo como “sábado cristão”. Além disso, a CFW expressa uma visão positiva da Lei de Deus, afirmando que embora não seja possível que os homens a cumpram integralmente, ela é o padrão que revela o caráter de Deus e deve ser observada por todos os cristãos. O Evangelho não anula a Lei. Assim, embora o homem não possa ser salvo por cumprir a Lei, ele deve obedecê-la por ser a revelação da vontade de Deus para os homens.]

A CFW também afirma que todo poder é instituído por Deus, e portanto os cristãos devem obedecer os magistrados. Todavia, não pode o poder político interferir na igreja, seus sacramentos, cultos e ordens. A Confissão se opõe a bigamia, define casamento como relação apenas possível entre homem e mulher e só admite divórcio em caso de adultério e deserção irremediáveis. O sistema de governo presbiteriano é também definido na Confissão, regulando-se por sínodos e concílios.”

Sim, esta é a ideologia, ou a teologia, como preferirem do novo ministro da educação, Milton Ribeiro, Pastor da igreja presbiteriana.

Mal assumiu e já chegava as mídias sociais o que ele pensa e diz. Não o que disse há muitos anos, mas o que pensa realmente na atualidade: crianças podem sofrer castigos físicos (tomar uma surra, como se dizia na minha época), na sua teoria da “Vara Disciplinar”. Também diz que o homem é quem deve impor a direção da família. Estas são as suas credenciais.

O que pensar da educação no Brasil nas mãos de um sujeito que ainda obedece a preceitos religiosos ultrapassados? Que tipo de cidadãos vamos educar para o futuro? Um retrocesso no ambiente de respeito ao gênero, da igualdade da mulher e respeito as diferenças. Todo um conjunto de conquistas sociais que pacificaram a sociedade em termos de acolhimento social vão para o ralo. O romance de 1985 da escritora Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) vai se tornando uma possibilidade real.

O Brasil vai tomando todos os caminhos errados possíveis, seja na educação, na saúde ou na economia. Parece uma obcessão pelo quanto pior, melhor. Quanto mais conservador, mais repressivo, mais repulsivo, ideal.

Novamente vou me valer da Wikipedia para uma definição: “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como os principais numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.”

Eu acredito na capacidade humana para superar desafios de toda ordem. Acredito que a cada geração somos capazes de melhorar o mundo em alguns aspectos e mesmo na adversidade, encontrar caminhos éticos e morais que fazem deste mundo um lugar melhor para se viver.

Dito isso, também acredito que existam serem humanos que não fazem parte da nossa humanidade. Não pode haver perdão para aqueles que cometem crimes contra ela. Não se pode admitir que genocidas convivam na mesma sociedade de suas vítimas e desfrutem da impunidade.

Sem justiça, não pode haver paz, repetem os afrodescendentes americanos em suas manifestações contra o racismo, uma praga mundial. Toda sociedade preconceituosa é uma sociedade em permanente atrito social. É o que acontece com maior, ou menor intensidade em todos os países do mundo. Cada passo dado em direção as correções na educação, em punições mais rigorosas contra o preconceito nos elevam a novos patamares de bem-estar social e progresso.

A derrubada de estátuas deste tipo de gente no mundo todo é uma forma de jogar no lixo da história aqueles que prejudicaram as relações humanas, lugar merecido para eles. Que permaneçam sendo mencionados apenas nos livros como exemplo de doutrinas que superamos e renegamos, desejando que nunca mais sejam impostas.

Vivemos dias terríveis de pandemia mundial, de crises existenciais, crises econômicas e futuro incerto. Precisamos repensar o futuro como nunca antes visto. Nada pode voltar ao normal porque o normal deixou de existir. O momento para rever conceitos é o aqui e agora, superar o impossível e juntar forças para seguir em frente.

O mundo tal como o conhecemos até 2019 nunca mais será o mesmo depois de 2020. Como será o Brasil? Agora é o momento de usar toda nossa capacidade racional para sair da resistência passiva, para uma resistência ativa.

 

 

 

 

Conversando com Erich Fried sobre a Israel de hoje

Erich Fried (1921-1988) é um dos mais importantes e interessantes poetas de língua alemã de todos os tempos, e é também um artista que com frequência revisito, pois sua obra é extremamente rica e sempre me traz novas indagações e reflexões. Judeu austríaco de Viena, é um dos grandes representantes da ‘poesia política’ e foi um convicto esquerdista, sempre consciente sobre o mundo e as sociedades ao seu redor. Seu trabalho é repleto de questões identitárias e existencialistas e sua condição judaica é muito presente, seja de forma explícita ou implícita.

Eu poderia falar por horas sobre Fried – me identifico bastante com ele enquanto “judeu de língua alemã” – mas o intuito deste artigo é específico: quero trazer um de seus mais vigorosos e claros poemas (e que o coloca também em um rol de polêmica). Trata-se de ‘Höre, Israel’ (‘Ouça, Israel’), de 1967, que consiste em forte crítica às políticas israelenses frente os árabes. Este faz parte de um ciclo de poemas, todos com temática política, e foi publicado no ano em que foi escrito no tradicional jornal esquerdista alemão ‘Konkret’, que existe até hoje. Em 1974 o ciclo foi transformado em um livro, também intitulado ‘Ouça, Israel’.

Eu não era vivo em 1967, e não posso avaliar exatamente o quão realista era este poema naquela época. Mas sei que hoje, na Era Netanyahu, ele é infelizmente mais real e atual do que nunca. O verdadeiro artista muitas vezes antevê o futuro da sociedade, e acredito que Fried – caso tenha “exagerado” na época (como clamam alguns que o criticam) –, certamente (e de maneira quase profética) não criou nenhum exagero no que diz respeito aos dias de hoje.

Vamos ao poema. (Eu mesmo o traduzi e não sei se há outra tradução para o português, mas aproveito para dizer que não acredito em tradução de poesia. Como amante desta arte, penso que só se pode assimilar e compreender um poema plenamente em seu idioma original. Mas acredito que esta tradução funciona suficientemente bem para veicular ao leitor o conteúdo, que é o que mais nos interessa aqui.)

Ouça, Israel

Quando fomos perseguidos
Eu fui um de vocês.
Como posso continuar a ser
quando vocês se tornam perseguidores?

O anseio de vocês era
serem como os outros povos
quem os assassinaram.
Então agora vocês são como eles.

Vocês sobreviveram
àqueles que lhes foram cruéis.
A crueldade deles
permanece viva agora em vocês?

Vocês ordenaram aos vencidos:
“Tirem os seus sapatos”
Assim como o bode expiatório vocês
os lançaram no deserto

na grande mesquita da morte
onde sandálias são areia
mas eles não assumiram o pecado
que vocês quiseram lhes impor

A impressão dos pés descalços
na areia do deserto
sobrevive às marcas
de suas bombas e tanques.

O poema foi escrito em ocasião à Guerra dos Seis Dias. Em sua publicação Fried adicionou uma nota de rodapé que explica que na quarta estrofe ele se refere a um desagradável episódio ocorrido no fim do conflito: os egípcios capturados na guerra, ao serem libertados, teriam sido obrigados pelos israelenses a tirarem suas sandálias, tendo então de caminhar de volta às suas casas descalços sobre a quente areia do deserto.

Pois bem, com exceção desta quarta estrofe, que é muita específica sobre a guerra de 1967, todas as outras caberiam perfeitamente hoje no contexto do conflito israelense-palestino. Como escrevi acima, não vivi aquela época e não sei dizer se o poema era adequado (talvez alguém que viveu, possa dizê-lo). Mas vivo a época de agora, e infelizmente Fried descreve perfeitamente grande parte dos judeus de hoje (sejam de Israel ou da diáspora), quando afirma que “agora vocês são como eles (os agressores)” e quando lhes pergunta se “a crueldade deles (agressores) permanece viva agora em vocês (judeus)”.

Termino esta breve reflexão lembrando o(a) leitor(a) – seja ele(a) judeu/judia ou não –, que somente parte do povo judeu apoia a opressão israelense aos palestinos. Outra parte luta dia e noite contra ela e espera que ‘Shema Israel’ (‘Ouça, Israel’) possa um dia ser somente um clamor por Deus e não um grito angustiado de um poeta diante do terror causado por parte do seu povo.

Grande Fried, onde quer que sua alma esteja agora, minha resposta à sua pergunta “Como posso continuar a ser (parte do povo) quando vocês se tornam perseguidores?” é: Você pode sempre pôde e pode continuar sendo um de nós. É um dos que nos orgulham e não um dos que nos envergonham. Sua poesia permanece viva e sendo arma de resistência para ser recitada por nós nas batalhas de hoje. Obrigado, poeta companheiro. Es lebe der Widerstand! (Viva a Resistência!)

 

Para não dizerem que não falei de Decotelli

 

Durante uma semana ficamos sabendo quem seria o novo ocupante do MEC e a seguir de sua demissão do cargo. Carlos Alberto Decotelli da Silva teve uma passagem “celeríssima” pelo governo Bolsonaro.

Eu não me importo com a cor da pessoa, mas com o seu caráter, sua honradez, sua capacidade de trabalho, sua honestidade etc. Ele não foi o único ministro do atual governo a mentir em seu currículo, mas foi o mais destacado deles até pedir para sair.

Tenho certeza de que seus amigos e alunos, ao menos os que se dispuseram a dar entrevistas, foram sinceros ao dizerem que se tratava de uma ótima pessoa, muito querida e excelente professor. Com certeza, sua família, além dele próprio sofreram muito com todo o episódio.

O fato é que nada justifica uma fraude. O que ele fez em seu currículo se chama Crime de Falsidade Ideológica e, se quisesse, o MP poderia abrir um processo contra ele. Não se pode atribuir diplomas de cursos não completados, de trabalhos não realizados e de universidades não frequentadas.

Decotelli foi muito ingênuo ao achar que poderia assumir o cargo do até então pior ministro da educação da história do Brasil, que acabava de fugir para os EUA usando um passaporte diplomático que não tinha mais direito, sem ter sua vida escrutinada. Parece ter ficado ébrio com o convite.

Não tenho dúvida que servir como ministro ao país é uma grande honra para qualquer um. Mas vamos falar sério. Uma coisa é servir de ministro em uma ditadura, outra coisa numa democracia. E mesmo em uma democracia, uma coisa é servir a um governo popular, outra a um governo fascista. Muita gente não tem o menor discernimento.

Existem outros ministros que mentiram descaradamente em seus currículos que haviam estudado em Harvard. Foram motivo de piada, corrigiram o erro e se mantiveram no cargo. Decotelli foi um pouco exagerado. Cometeu plágio e também escreveu possuir títulos inexistentes. Começou mal e terminou pior ainda.

Em um governo cheio de estrelas nazistas, de crentes na Terra Plana, adoradores de Trump, adeptos das teorias da conspiração, como a do Covid-19 ser um vírus criado para os comunistas dominarem o mundo, tudo agora é visto com uma lupa. Se mais alguém acha que pode entrar para este governo com qualquer manchinha no passado ser esquecida, perca as esperanças. Sua vida será revirada ao avesso.

O exemplo Decotelli acabou se tronando didático. Imagino que o Lattes nunca teve tanto acesso de pessoas “corrigindo” erros cometidos. É bom que o façam, de farsas e mentiras neste governo, já chegamos ao limite do tolerável.

A classe dos professores foi maculada por um dos seus. Nenhuma classe está a salvo de pessoas assim. Creditar-se ter alcançado na vida aquilo que era desejo, sem ter cumprido as atividades formais, ou ter sido reprovado nos trabalhos, não é algo que a gente esperava de um professor. Muito menos de um economista. É como se ele tivesse trapaceado nas contas.

Bolsonaro consegue errar em absolutamente tudo o que faz. Até na nomeação de um ministro o cara não acerta. Era de se supor que lhe são trazidos nomes que passaram por todo tipo de exame e seriam todos ilibados. Nada disso. Em um governo sem presidente a altura do cargo, são estas baixarias que vamos seguir assistindo.

Que se compreenda de uma vez por todas: Bolsonaro não ama Israel nem os judeus. Bolsonaro ama Netanyahu. (E Trump.)

(publicado originalmente em Brasil247 em 26.06.2020.)

Após um ano e meio de desgoverno, praticamente todos os dias pessoas ainda vêm a mim com as mesmas perguntas: “Por que Bolsonaro ama tanto Israel?” ou “Ele é muito amigo de Israel, não?” ou, ainda pior, “Ele é muito amigo dos judeus, hein?”. E fora perguntas educadas, há também sempre comentários antissemitas em meus textos ou lives, do tipo: “Bolsonaro e Israel são tudo a mesma coisa!” ou “Os judeus amam Bolsonaro porque ele apoia a opressão em Israel.”

Muito bem, sou professor há 20 anos e sei que se uma questão não está esclarecida, a melhor maneira de lidar é repetir a explicação quantas vezes for necessário. Assim, embora eu já tenha escrito outros artigos sobre o tema, cabe sempre mais um. Além disso, novos eventos ocorrem sempre e aumentam os desentendimentos. E a atenção do mundo a Israel, por sua vez, nunca diminui. Parece haver um imaginário quase místico ao redor deste pequenino país (que possui praticamente a metade do tamanho e da população do Estado do Rio de Janeiro, para se ter uma ideia).

Muito bem, vamos lá: a resposta para a questão do suposto amor de Bolsonaro por Israel está resumida no título deste artigo. É simples assim: Bolsonaro não ama Israel, não apoia Israel, não se importa com Israel e isso é completamente claro e evidente em sua agenda. O que ele ama é a direita/extrema-direita que se apropriou de Israel gradualmente na última década, sob o comando do Benjamin Netanyahu. Sim, o “capitão” ama a política e as ideologias do israelense. E uma coisa é totalmente diferente da outra. Apoiar um governo vigente não é apoiar um país e seu povo. Quem de fato apoia Israel deve antes de mais nada atentar para a pluralidade do povo que lá vive. Cerca de um quarto de sua população é árabe e o risco da instalação de uma política de pleno apartheid é cada vez maior. Além disso, a situação de opressão contra os árabes não-israelenses ou palestinos, que vivem na Cisjordânia e em Gaza, é a cada dia mais inaceitável e insustentável. Quem é verdadeiramente amigo de Israel busca chegar a uma situação em que todos no país – e também seus vizinhos – vivam bem, em paz e com dignidade, ou seja, o oposto do que Netanyahu faz e ao que Bolsonaro aplaude.

Deixo muito claro: ao meu modo de ver, Netanyahu é simplesmente a pior coisa que já aconteceu a Israel. Ele é racista, corrupto e possui muito sangue nas mãos. É terrível para os palestinos não-cidadãos do país; é terrível para os árabes israelenses; é terrível para os judeus israelenses que não são direitistas e querem paz e justiça para e com os árabes; é terrível para os judeus da diáspora que não são direitistas pelo mesmo motivo; é terrível para qualquer tipo de contato com o mundo árabe que circunda Israel. Ou seja, ele possui todos os atributos para ser amante de Bolsonaro e, é claro, de Trump, o monstro que representa tudo o que há de pior na essência ianque e que considero também o mais nocivo presidente da história deste país (sim, Nixon e Bush filho eram “fichinha” perto do “very stable genius”).

Estes três estandartes do Neonazifascismo mundial amam somente suas ideologias e seus nefastos projetos. E nada mais. Cada um elege inimigos em seus países (“comunistas” e comunidade LGBT no Brasil; árabes em Israel; imigrantes latinos e árabes nos EUA). Em comum, os três têm o asco pelo pobre, seja ele negro, índio ou parte de outro grupo desfavorecido. Perseguem então os “vilões” de suas nações e trilham a contramão de tudo o que representa Democracia, Justiça Social e Direitos Humanos.

Mas qual é exatamente a razão para esta relação tão estreita entre Bolsonaro e Netanyahu? Pois bem, Netanyahu interessa a Bolsonaro por duas razões principais. Primeira: ao acariciar Netanyahu, o small brother brasileiro agrada seu tão admirado big brother Trump. E como vemos acima na bela charge de meu amigo Renato Aroeira (obrigado pela charge para este artigo, meu caro!), os três “irmãos de fé” passam a formar a perfeita aliança neonazifascista contemporânea, deixando pegadas de sangue por onde passam.

E a segunda razão se dá pelo motivo de que Netanyahu representa a perseguição aos árabes e é o símbolo maior do clamor por uma Israel soberanamente judaica (quase bíblica), e isso agrada uma imensa parte do eleitorado brasileiro: os evangélicos neopentecostais. Estes, que em grande parte seguem a doutrina do Dispensacionalismo, creem que Jesus Cristo retornará ao mundo justamente em Israel, mas somente quando todos os judeus estiverem lá reunidos e o “aceitarem” como o messias (algo completamente contrário ao Judaísmo e que simplesmente não vai acontecer). Mas na mente neopentecostal, vai. E os árabes? Bem, estes devem ser simplesmente varridos de Israel. Ou, se quiserem ficar, terão também de “aceitar” Cristo, ou seja, se converter. Pois é, é mais fácil oprimi-los e expulsá-los, no melhor estilo Netanyahu.

“Ah, mas e as bandeiras israelenses nas manifestações bolsonaristas, não representam amizade entre Bolsonaro e Israel?”, perguntam-me. Respondo: não. Pelas razões doutrinárias que acima expliquei, antes de mais nada é necessário que se saiba que praticamente todas as bandeiras azul-brancas são empunhadas por evangélicos e não por judeus. Os judeus bolsonaristas normalmente não se prestam ao ridículo das manifestações de adoração ao Jair “Messias”, mas sim assistem de longe – do alto de seus olimpos empresariais – o país desmoronar, enquanto os favores econômicos da elite são garantidos. Simples assim: “Rezem para quem quiser, acreditem na fantasia dispensacionalista que quiser, adorem uma Israel cristã o quanto quiser. Contanto que nossa grana esteja garantida, nada mais importa.”

Dito isso, aproveito para fazer uma observação adicional para tentar quebrar mais um esteriótipo equivocado que escuto com frequência: “Os judeus apoiam Bolsonaro porque são todos ricos!” Por favor, né?… Erradíssimo. Existem no Brasil judeus ricos, não ricos, de classe média, de média baixa e até muito pobres, que necessitam de programas sociais e caridade para sobreviver. E todos estes, como toda a comunidade, também se dividem entre pró-Bolsonaro e anti-Bolsonaro.

Em suma, a relação dos judeus brasileiros com Bolsonaro é completamente mista. Ele é apoiado por uma metade da comunidade e rejeitado pela outra. E é combatido diariamente por algumas das mais ativas e militantes instituições contra o seu governo (‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’, ‘Judeus pela Democracia’, ‘Judias e judeus com Lula’, ‘JUPROG (Judeus Progressistas)’, para citar algumas).

Enfim, cabe ainda acrescentar que este movimento neopentecostal é também um enlatado norte-americano que como sempre grande parcela do povo brasileiro consome de olhos fechados e com servil reverência. Os ‘evangelicals’, como são por lá chamados, possuem grande poder no país e seu símbolo maior atualmente foi cuidadosamente escolhido por Trump como seu vice-presidente, o de modo igual perigoso Mike Pence. Assim, uma espécie de “sionismo cristão” ascendeu, algo que é claramente nocivo para judeus (pois advoga por um judeu não-judeu, um judeu cristianizado), para muçulmanos e também para cristãos não-pentecostais. E Netanyahu se importa com isso? Não também. Sua mentalidade se concentra em metas muito bem definidas, das quais ele nunca desvia os olhos: contanto que apoiem seu projeto de subjugar os árabes israelenses a cidadãos de segunda classe e de usurpar os territórios palestinos, ele faz qualquer aliança, até mesmo com líderes que incitam o antissemitismo (ou melhor dizendo, o antijudaísmo), como os próprios Bolsonaro e Trump. (Aqui é necessário um adendo: embora relacionado com o assunto do “amor” de Bolsonaro pelos judeus e por Israel, não entrarei no tema do imenso ‘antissemitismo na Era Bolsonaro’, pois esse é um tema que merece ser tratado à parte. Mas anuncio aqui que o ‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’ está preparando um documento completo sobre este específico assunto, que será publicado em breve, quando completa-se 18 meses da atual presidência. Aguardem.)

Já vimos o interesse de Bolsonaro em Netanyahu. Qual é a reciprocidade para o israelense então? Bem, o brasileiro é tanto um aliado na ONU, quanto pode tornar-se um parceiro mais próximo economica- e até militarmente. Desta forma, em termos diplomáticos, a trica ultradireitista vota sempre em uníssono quando se trata de qualquer resolução que concirna aos planos de Netanyahu. O Brasil é um país grande e importante na América Latina e tê-lo ao seu lado nesta aliança ultradireitista é um grande ganho para este que pretende se tornar uma espécie de “rei moderno de Israel”.

E desta forma chegamos à principal notícia do momento no Oriente Médio: com o aval de Trump (e do irmãozinho brasileiro ao seu lado lhe dando a mão), um dos maiores passos para a anexação definitiva da Cisjordânia está prestes a ocorrer. Compreendam: isto é uma catástrofe para os palestinos, pois sacramenta de vez a ocupação de suas terras. Mas não é somente isso. Esta ação afeta também toda a região e pode implicar até mesmo no rompimento de acordos de paz entre Israel e alguns países vizinhos. Só mesmo a configuração atual do mundo, com Trump no poder e seus aliados de peso, poderiam permitir que isso ocorresse. É a tempestade perfeita sobre a árida “terra de Deus”.

Vejam, se amanhã o governo netanyahista caísse e – por um milagre – Israel voltasse a ser governado pela Esquerda (como foi por décadas) e as negociações de Paz com os palestinos fossem retomadas e progredissem, como aconteceu na época de Yitzhak Rabin, certamente Bolsonaro não teria absolutamente nenhuma amizade com Israel. E a mesma lógica serve para a relação com os EUA. Se em novembro próximo Biden vencer, veremos uma mudança drástica na relação entre Brasil e EUA. E se Bernie Sanders – para mim o maior político do mundo nas últimas décadas – vencesse, a devoção e a continência de Bolsonaro pelo Tio Sam desapareceria imediatamente.

Por fim, cabe ainda comentar mais uma novidade que surgiu nas últimas semanas: a questão da presença da bandeira palestina em manifestações pró-democracia no Brasil. Primeiramente digo que pessoalmente vejo a presença desta flâmula com ótimos olhos, pois nós judeus progressistas e humanistas somos também ativistas pela causa palestina. Para nós, não há Israel livre, justo e seguro, sem um Estado Palestino livre, justo e seguro. Assim, nestas demonstrações brasileiras, ao lado das bandeiras palestinas, há também sempre representações judaicas, ainda que não empunhando a bandeira israelense. É um erro imenso e um grande desconhecimento de causa pensar que estas bandeiras são antagônicas. O mal uso da flâmula israelense – seja por parte de evangélicos que sequestram símbolos judaicos ou por parte de judeus bolsonaristas – não tem o poder de decretar que Israel e Palestina (ou judeus e árabes) estão cada um em um lado, antidemocrático e democrático. Esta simplesmente não é a realidade destes povos nem no Oriente Médio nem na diáspora.

Em janeiro de 2020, no grande evento do grupo ‘Judias e judeus com Lula’, em São Paulo, (com a presença do próprio Lula, de Haddad, de Gleisi e diversas outras personalidades da Esquerda brasileira), era possível ser vista a bandeira israelense ao lado da palestina na decoração do espaço, feita pelos organizadores do evento.

Enfim, espero que este artigo ajude os brasileiros a compreenderem um pouco mais sobre este complexo cenário. É fundamental que a Esquerda brasileira assimile estes conceitos e compreenda os contextos, para que a verdade supere generalizações, esteriótipos e distorções que levam à intolerância dentro da própria esfera da Resistência no país. A consciência sobre o contexto mundial e uma visão panorâmica sobre temas contemporâneos são essenciais para que não ajamos com a mesma postura racista e ignorante que tanto desprezamos no bolsonarismo, no netanyahismo e no trumpismo.