Não é censura!

A decisão do Min.Alexandre de Moraes, do STF, que mandou o Twitter e o Facebook suspenderem as contas de 16 bolsonaristas gerou diversas reações na sociedade, vindas predominantemente de entendimentos de que a medida caracteriza censura prévia, o que ao meu ver, constitui equívoco raso pelo mau ou não entendimento do contexto.
Basilarmente, trata a nossa Carta Magna de vedar a censura prévia à expressão livre do pensamento e da opinião. Mas trata também a nossa carta de proteger outros bens dos indivíduos e da sociedade, que de forma ainda muito diferente e grave do que era em 1988, pode ser ofendidos pela difusão rápida e exponencial potencializada pelas mídias sociais e internet. Exemplo claro é a atividade dos “antivaccers”, grupos internacionais de difusão de fake news sobre vacinas, que são culpados pelo ressurgimento do sarampo, da coqueluche e talvez outros agravos que ameaçam a vida de pessoas e a economia de nações. Mas o pior aspecto desse tipo de fake news é que ele vem sem assinatura. Constróem-se narrativas complexas, recheadas de pseudodocumentos científicos caprichosamente elaborados com fotos, citações, ilustrações e outros adereços que inspiram confiança nos incautos ou mal instruídos que assim são arregimentados para a visão tosca e cruel de transtornados mentais e mal-intencionados.
Tipicamente, esse difusores de falsas notícias são covardes e dissimulados. Não assinam o que escrevem, colocando-se apenas como difusores daquilo em que acreditam ou daquilo que sirva aos seus torpes interesses. Fossem essas iniciativas acrescidas da assertiva “isto representa a minha opinião” ou “isto representa o meu desejo pessoal”, talvez o alcance da lei maior fosse mais restrito, pois estaria o leitor alertado da individualidade do pensamento e posição. Mas os difusores de fake news não agem assim, usando de todos os recursos para que seja não percebida a pessoalidade da posição ideológica e argumentativa.
No campo puramente das ideias e iniciativas, bem mostrou um certo filme da série “007” que uma informação falsa disponibilizada em massa tem o potencial de desencadear uma guerra mundial, e isto, nos dias de hoje, não está razoavelmente tão distante.
No caso em tela, tratou o Min. Alexandre, sabiamente, ao meu ver, e também legalmente, de proteger bens difusos de nossa sociedade. Não se tratou a medida de impedir a livre manifestação do pensamento, pois os investigados não têm apenas no Facebook e no Twitter as suas vias de expressão.
Novamente, como argumento, voltemos a 1988, sem internet e sem mídias sociais. Nossa fonte de informação e muitas vezes de expressão, eram os jornais e revistas. Pergunto ao leitor que já era socialmente emancipado à época: quantas cartas que vocês enviaram aos jornais foram publicadas? Pelas minhas, posso responder: pouquíssimas. Ora, que tipo de poder era esse que as mídias da época exerciam sobre a opinião ou expressão individual? Obviamente era uma forma “fisiológica” de censura! Absolutamente ninguém àquela época, excetuando-se os grandes proprietários dos grupos de mídia exerciam livremente a liberdade total de expressão, o que analisando-se à luz dos tempos atuais, soa como absurdo. Neste ponto, as mídias sociais cumprem um papel democratizante da expressão, ressalvando-se, claro, as atividades dos algoritmos que direcionam as postagens de forma calculada a certos públicos.
O território da internet muitas vezes dá a impressão de pretender ser uma verdadeira terra sem lei, demanda daqueles que tem um entendimento radical do princípio da liberdade de expressão. Mas, como já dissemos antes, as instituições democráticas devem cuidar de todos os bens fundamentais abrigados pela Constituição, entre eles, o direito do cidadão de receber informação qualificada e que não seja voltada a atacar os mecanismos de proteção da democracia e à própria democracia. Se as próprias mídias sociais tem suas regras internas, e com certa frequência bloqueiam ou censuram certas postagens, por quê não haveria o STF, que tutela os bens fundamentais da nação, de julgar certas atividades entendidas pelo magistrado como propagadoras do mal, do desentendimento, da ofensa, da calúnia, da difamação, sistematicamente praticados por um grupo de pessoas, que no contexto do inquérito em curso revelam evidências de articulação criminosa e ameaçadora aos bens democráticos, sob financiamento por verbas escusas e ocultas, e com evidências de uso de patrimônio público e verba pública?
Ao incauto e precipitado, junto aos quais observei alguns juristas, jornalistas e ativistas, parece mesmo uma iniciativa de mera censura. Mas não é. Não se trata de limitar a liberdade de expressão de pessoas, mas sim, o de prevenir a continuidade de uma prática já caracterizada no âmbito do inquérito judicial como criminosa contra a democracia e a sociedade. As pessoas envolvidas continuam livres para manifestarem-se individualmente em outros fóruns e eventualmente no palanque público, em entrevistas, textos e todo o tipo de matéria em outras mídias. Seus eventuais partidos, continuam livres para manifestarem-se pelas suas plataformas partidárias oficiais, com nome e assinatura.
Em um curtíssimo espaço de tempo a sociedade vem observando o risco e os danos causados pela má informação alavancada por ferramentas eletrônicas, perfis falsos, robôs e outras transgressões. A catástrofe da pandemia da COVID-19 é um verdadeiro genocídio que entre outras causas tem a atividade desses grupos, capitaneados pelo Presidente da República, que desde o início disseminou mentiras, falsos remédios e desinformação à sociedade sobre os riscos e dimensões da pandemia.
Não há mais tempo para o silêncio. Felizmente, o Min. Alexandre de Moraes falou nos autos. E disse, na minha interpretação: “não se trata de liberdade de opinião, e sim da liberdade para o cometimento de crimes contra a sociedade e a democracia, e esta liberdade não existe.”

Trabalhadores do Brasil, uni-vos!

Muitos continuam falando que o PT deveria fazer sua “mea culpa”, como se os demais tivessem somente anjos em seus quadros. Talvez esperem que o PT diga que seus membros faziam caixa 2 para campanhas políticas, que havia corruptos em seus quadros, diferente dos outros partidos.

Tudo que se diga do PT, não é diferente do que foi, e continua sendo a maneira de se fazer política no Brasil. Antes, durante e depois da ditadura, nada mudou. São os mesmos nomes, as mesmas famílias, os mesmos partidos com nova roupagem. Na política brasileira a corrupção começa antes da eleição com dinheiro sujo de campanha, durante o mandato com as rachadinhas de gabinete e “comissões” por favores prestados e depois do mandato com a cobrança por aqueles serviços prestados.

Poucos estão lá para fazerem o bem maior pelo país e pelo povo. Infelizmente a marca registrada do político brasileiro está associada a corrupção. São quatro anos de mandato para pagar de volta os gastos de campanha e ter algum lucro. Em muitos casos, o salário do político durante todo o seu mandato não cobre sequer os gastos da campanha para sua eleição. Então é preciso um “jeitinho”.

É óbvio que no PT também existiram políticos desta laia. Mas do PT se cobra uma áurea moralista imaculada. São muitas as razões para isso. Vão desde o sonho infantil de que com o PT seria diferente, até o ódio puro e simples a um partido de trabalhadores governando o Brasil.

Eu acredito que o PT errou em muitas coisas, mas seu maior erro foi acreditar que ao vestir terno e gravata seria aceito a mesa da Casa Grande. Quando chegou ao poder, o PT não quis ser diferente, desejou ser igual. Achava que como iguais seriam aceitos na sociedade como um todo.

Este não foi, é claro, o único erro, durante os governos do PT as verbas publicitárias foram distribuías para todos os meios de informação. Não falo só da Globo, mas da Abril com a Veja e de outros meios que difamavam o partido diariamente. Como pode haver tamanha ingenuidade? Achavam realmente que em algum momento a mídia coronelista brasileira iria tratar um bando de esquerdistas que ousavam melhorar a vida de milhões de brasileiros, como iguais? Que iriam reconhecer os avanços sociais e econômicos que seus antecessores nunca conseguiram?

O PT deixou de regular a imprensa e continuamos pagando esta conta. Para quem não sabe, regular a imprensa é fazer com os meios de comunicação não fiquem concentrados nas mãos de poucos. É determinar que quem possua uma TV, não possa ter rádios e jornais, por exemplo. O mesmo com donos de outros meios e também quantitativamente. Uma mesma empresa não pode ser dona de mais que um número de canais de TV e rádio, ou jornais.

O PT também não soube passar a mensagem do que é preciso para se governar no Brasil e implantar um projeto de governo. Não deixou claro que o preço a se pagar é se aliar ao Diabo, aos partidos que dão sustentação em troca de favores. Quem sem sustentação política, nada poderia ter sido feito. Que foi preciso fazê-lo em nome do bem maior.

O partido se cobriu com o véu da vaidade e se permitiu rompantes de arrogância. Esnobou aliados tradicionais para permanecer no poder ao lado dos que supunha serem seus novos amigos. A realidade mostrou que quase todos eles eram somente comparsas em troca de cargos e afetos. As fotos com Paulo Maluf, Sergio Cabral, Os Sarneys etc, estão aí para provar o argumento.

O partido não soube aparelhar o estado, uma regra básica na política. Cargos fundamentais foram trocados por apoios em todos os escalões do governo. A falta de aparelhamento, uma medida imprescindível para a manutenção de um projeto de longo prazo foi desprezada. Assim, todos os fracassos e casos de corrupção foram lançados na conta do PT. Todos os acertos, quando reconhecidos, foram creditados ao conjunto de governos passados que pavimentaram o caminho.

De fato, erros foram cometidos, mas nada se compara aos acertos que projetaram o Brasil na comunidade internacional. Acertos que levaram milhões de brasileiros a saírem do mapa da fome, a terem a oportunidade de estudar, de se inserirem no mercado de trabalho com melhores salários e terem o poder de compra.

Nenhum destes acertos diz respeito a classe de brasileiros que abraçou o fascismo. Para eles pobre continua tendo que saber o seu lugar. O mesmo se aplica a mulheres, negros e demais minorias. Se cada um respeitar o lugar que merece na sociedade que eles concebem, tudo vai ficar bem.

A direita brasileira não suportou os acertos de trabalhadores e apoiou o fascismo. Disso ninguém mais tem dúvidas. Este apoio criou o monstro que hoje habita o Palácio do Planalto e levou o país a um retrocesso de tamanha envergadura, que serão necessários muitos anos para se voltar ao ponto de onde paramos antes do golpe.

O Covid-19 é somente mais um exemplo da forma de relacionamento do fascismo com seu povo. A valorização da vida não entra na conta deles. Nunca se importaram com a educação, com o meio ambiente com a melhora da qualidade de vida, porquê se importariam com uma gripezinha? Esta é a forma fascista de governar, o neoliberalismo e a meritocracia acima de tudo.

Impeachment já!

O brasileiro e seu best self

Em meados do primeiro trimestre deste ano, viu-se de forma quase aturdida as ações de desprezo por parte do presidente e seus apoiadores pela vida dos brasileiros. Ao examinar jornais e fotos daquele mês, é possível detectar as ações das pessoas que participaram das passeatas no dia 15 de março. Postadas em redes sociais e em grupos de mídia de ampla abrangência, muitos desses atualmente investigados na CPI das Fake News, prestavam apoio incondicional ao seu líder. Saudosos à ditadura e a um militarismo a la república de bananas, bem como a pauta presente à época, e ainda hoje: a aclamação (in)popular pelo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal, viram suas ações desmoronar, até certo ponto.

Com o bloqueio e a extinção de vários sites que saíram de circulação, e também pelas imposições causadas pela pandemia, além da prisão de uma representante do grupo “300”, o qual raramente contou com mais de 20 pessoas, essas ações ficaram um tanto quanto adormecidas. Com isso, parece que paira uma certa latência no ar. Estariam os bolsonaristas fazendo um espécie de download existencial? Talvez. É possível que exista relação com o contundente envolvimento em corrupção pelos filhos do presidente, ou ainda, pela própria inoperância e incompetência com que o executivo tem lidado com a administração pública, ou mesmo pelo fato de que se vive a maior pandemia do século sem um ministro da saúde. As razões são infinitas.

O grande número de apoiadores surpreende. E com tudo que têm enfrentado os brasileiros, nestes 18 meses de governo, qualquer um questionaria se há algum traço que identifique tais pessoas (latentes) como anormais. No entanto, não há! Possivelmente, se fala em sujeitos que levam uma vida como a de qualquer outro ser humano que trabalha, estuda, cuida dos filhos, vai à feira, ao supermercado. Devem ser considerados cidadãos de bem. Pergunta-se, porém, o leitor, por qual razão empenham-se em uma cruzada rumo às trevas? Sem qualquer relação direta com o Estado Democrático de Direito?

Ao contrário, é observado um certo fervor em exaltar os anos de chumbo vividos neste país, bem como as múltiplas ações arbitrárias que vão de encontro à própria democracia e às liberdades individuais. Nem nos tempos da ditadura houve tantos militares em cargos políticos. Apontar que esses apoidores são contra a corrupção é uma forma rasa e simplista de tratar o assunto, visto que todos são contra a corrupção. O que gera aqui uma questão pragmática, pois ao falar em corrupção, é preciso dizer de quem, ou como, ou ainda, quando? Fala-se até em perdoar o PT, como se houvesse algo do tipo: “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, mas segue-se a máxima de que não há nada tão ruim que não possa piorar. No campo da educação, a exemplo das trocas com diversos ministros, bem como seus respectivos perfis “técnicos”, essa máxima é levada a níveis consideravelmente altos.

Esses mesmos cidadãos levantam a bandeira do que consideram política e o dito “politicamente correto”, no entanto, estão há anos-luz do pensamento crítico, o qual realmente leva as pessoas a pensarem de forma política, dentro de um contexto sócio-histórico e cultural. Isso, no Brasil, virou coisa de comunista. E é facilmente evidenciado quando empregam frases de efeito e sugestões de tomada do poder pela força, utilizando-se dos símbolos nacionais, para com isso, fortalecer uma ideia suprema de governo, de povo. Estão de fato não só fazendo apologia ao pensamento obscurantista, como à própria ignorância política, característica de quem vê em formas democráticas de poder, um problema a ser vencido. A esses, se lhes fosse dado o direito de escolher, não seriam brasileiros, mas Americanos, Canadenses, Alemães.

Obviamente que esses mesmos sujeitos encontram respaldo em manifestações de caráter neofascista, distorcendo informações e conhecimento, conforme suas orientações ideológicas e até religiosas. Atualmente o que se vê é uma onda negacionista, em parte alimentada por outra esfera altamente ideológica do governo, a ala evangélica. Fica nítido que a necessidade de se fazer presente, mesmo em um momento de pandemia, coloca a figura política (do presidente) e seus apoiadores, ainda com todos os riscos à saúde pública, e infringindo a própria constituição, em uma espécie de simbiose histérica.

Lembra inclusive o líder religioso Jim Jones, que motivado por questões religiosas, e uma loucura coletiva, levou 909 pessoas a cometerem suicídio. Aqui, os apoiadores agem como suicidas, mas também como assassinos indiretos. Uma pesquisa liderada pela FGV apontou que o comportamento do presidente está ligado a pelo menos 10% das mortes decorrentes de Corona Vírus no Brasil, que hoje conta com mais de 75 mil mortos, ocupando o segundo lugar em mortalidade, atrás apenas dos EUA. Isso corresponderia a mais de 7 mil mortes diretas. A pergunta que fica é: quanto ainda o Brasil caminhará para trás e pagará com vidas, por conta de um irresponsável e seus fanáticos seguidores, que têm causado um verdadeiro genocídio em nome de uma obsessão política inoperante?

 

Uma surra na educação

De acordo com a Wikipedia, “A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) é uma denominação reformada, portanto, crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática, fonte de toda doutrina ensinada na igreja. Todavia, a IPB subscreve os Símbolos de Westminster: (Confissão de Fé de Westminster (CFW), Catecismo Maior de Westminster e Breve Catecismo de Westminster) que considera ser exposição fiel das Sagradas Escrituras. Tais confissões são modificáveis, caso a igreja perceba erros em suas declarações e não são vistas como sagradas ou inspiradas por Deus.

Entre as doutrinas expressas na CFW estão as doutrinas da:  Trindade; Difisismo; Predestinação; Graça Comum; Divina Providência; Queda e Pecado original; Depravação Total; Vocação eficaz; Expiação eficaz; Eleição Incondicional; Perseverança dos santos; Justificação pela fé; Ordo salutis reformada; Dois sacramentos (Batismo e Eucaristia) e a Guarda do Domingo como “sábado cristão”. Além disso, a CFW expressa uma visão positiva da Lei de Deus, afirmando que embora não seja possível que os homens a cumpram integralmente, ela é o padrão que revela o caráter de Deus e deve ser observada por todos os cristãos. O Evangelho não anula a Lei. Assim, embora o homem não possa ser salvo por cumprir a Lei, ele deve obedecê-la por ser a revelação da vontade de Deus para os homens.]

A CFW também afirma que todo poder é instituído por Deus, e portanto os cristãos devem obedecer os magistrados. Todavia, não pode o poder político interferir na igreja, seus sacramentos, cultos e ordens. A Confissão se opõe a bigamia, define casamento como relação apenas possível entre homem e mulher e só admite divórcio em caso de adultério e deserção irremediáveis. O sistema de governo presbiteriano é também definido na Confissão, regulando-se por sínodos e concílios.”

Sim, esta é a ideologia, ou a teologia, como preferirem do novo ministro da educação, Milton Ribeiro, Pastor da igreja presbiteriana.

Mal assumiu e já chegava as mídias sociais o que ele pensa e diz. Não o que disse há muitos anos, mas o que pensa realmente na atualidade: crianças podem sofrer castigos físicos (tomar uma surra, como se dizia na minha época), na sua teoria da “Vara Disciplinar”. Também diz que o homem é quem deve impor a direção da família. Estas são as suas credenciais.

O que pensar da educação no Brasil nas mãos de um sujeito que ainda obedece a preceitos religiosos ultrapassados? Que tipo de cidadãos vamos educar para o futuro? Um retrocesso no ambiente de respeito ao gênero, da igualdade da mulher e respeito as diferenças. Todo um conjunto de conquistas sociais que pacificaram a sociedade em termos de acolhimento social vão para o ralo. O romance de 1985 da escritora Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) vai se tornando uma possibilidade real.

O Brasil vai tomando todos os caminhos errados possíveis, seja na educação, na saúde ou na economia. Parece uma obcessão pelo quanto pior, melhor. Quanto mais conservador, mais repressivo, mais repulsivo, ideal.

Novamente vou me valer da Wikipedia para uma definição: “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como os principais numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade.”

Eu acredito na capacidade humana para superar desafios de toda ordem. Acredito que a cada geração somos capazes de melhorar o mundo em alguns aspectos e mesmo na adversidade, encontrar caminhos éticos e morais que fazem deste mundo um lugar melhor para se viver.

Dito isso, também acredito que existam serem humanos que não fazem parte da nossa humanidade. Não pode haver perdão para aqueles que cometem crimes contra ela. Não se pode admitir que genocidas convivam na mesma sociedade de suas vítimas e desfrutem da impunidade.

Sem justiça, não pode haver paz, repetem os afrodescendentes americanos em suas manifestações contra o racismo, uma praga mundial. Toda sociedade preconceituosa é uma sociedade em permanente atrito social. É o que acontece com maior, ou menor intensidade em todos os países do mundo. Cada passo dado em direção as correções na educação, em punições mais rigorosas contra o preconceito nos elevam a novos patamares de bem-estar social e progresso.

A derrubada de estátuas deste tipo de gente no mundo todo é uma forma de jogar no lixo da história aqueles que prejudicaram as relações humanas, lugar merecido para eles. Que permaneçam sendo mencionados apenas nos livros como exemplo de doutrinas que superamos e renegamos, desejando que nunca mais sejam impostas.

Vivemos dias terríveis de pandemia mundial, de crises existenciais, crises econômicas e futuro incerto. Precisamos repensar o futuro como nunca antes visto. Nada pode voltar ao normal porque o normal deixou de existir. O momento para rever conceitos é o aqui e agora, superar o impossível e juntar forças para seguir em frente.

O mundo tal como o conhecemos até 2019 nunca mais será o mesmo depois de 2020. Como será o Brasil? Agora é o momento de usar toda nossa capacidade racional para sair da resistência passiva, para uma resistência ativa.

 

 

 

 

Conversando com Erich Fried sobre a Israel de hoje

Erich Fried (1921-1988) é um dos mais importantes e interessantes poetas de língua alemã de todos os tempos, e é também um artista que com frequência revisito, pois sua obra é extremamente rica e sempre me traz novas indagações e reflexões. Judeu austríaco de Viena, é um dos grandes representantes da ‘poesia política’ e foi um convicto esquerdista, sempre consciente sobre o mundo e as sociedades ao seu redor. Seu trabalho é repleto de questões identitárias e existencialistas e sua condição judaica é muito presente, seja de forma explícita ou implícita.

Eu poderia falar por horas sobre Fried – me identifico bastante com ele enquanto “judeu de língua alemã” – mas o intuito deste artigo é específico: quero trazer um de seus mais vigorosos e claros poemas (e que o coloca também em um rol de polêmica). Trata-se de ‘Höre, Israel’ (‘Ouça, Israel’), de 1967, que consiste em forte crítica às políticas israelenses frente os árabes. Este faz parte de um ciclo de poemas, todos com temática política, e foi publicado no ano em que foi escrito no tradicional jornal esquerdista alemão ‘Konkret’, que existe até hoje. Em 1974 o ciclo foi transformado em um livro, também intitulado ‘Ouça, Israel’.

Eu não era vivo em 1967, e não posso avaliar exatamente o quão realista era este poema naquela época. Mas sei que hoje, na Era Netanyahu, ele é infelizmente mais real e atual do que nunca. O verdadeiro artista muitas vezes antevê o futuro da sociedade, e acredito que Fried – caso tenha “exagerado” na época (como clamam alguns que o criticam) –, certamente (e de maneira quase profética) não criou nenhum exagero no que diz respeito aos dias de hoje.

Vamos ao poema. (Eu mesmo o traduzi e não sei se há outra tradução para o português, mas aproveito para dizer que não acredito em tradução de poesia. Como amante desta arte, penso que só se pode assimilar e compreender um poema plenamente em seu idioma original. Mas acredito que esta tradução funciona suficientemente bem para veicular ao leitor o conteúdo, que é o que mais nos interessa aqui.)

Ouça, Israel

Quando fomos perseguidos
Eu fui um de vocês.
Como posso continuar a ser
quando vocês se tornam perseguidores?

O anseio de vocês era
serem como os outros povos
quem os assassinaram.
Então agora vocês são como eles.

Vocês sobreviveram
àqueles que lhes foram cruéis.
A crueldade deles
permanece viva agora em vocês?

Vocês ordenaram aos vencidos:
“Tirem os seus sapatos”
Assim como o bode expiatório vocês
os lançaram no deserto

na grande mesquita da morte
onde sandálias são areia
mas eles não assumiram o pecado
que vocês quiseram lhes impor

A impressão dos pés descalços
na areia do deserto
sobrevive às marcas
de suas bombas e tanques.

O poema foi escrito em ocasião à Guerra dos Seis Dias. Em sua publicação Fried adicionou uma nota de rodapé que explica que na quarta estrofe ele se refere a um desagradável episódio ocorrido no fim do conflito: os egípcios capturados na guerra, ao serem libertados, teriam sido obrigados pelos israelenses a tirarem suas sandálias, tendo então de caminhar de volta às suas casas descalços sobre a quente areia do deserto.

Pois bem, com exceção desta quarta estrofe, que é muita específica sobre a guerra de 1967, todas as outras caberiam perfeitamente hoje no contexto do conflito israelense-palestino. Como escrevi acima, não vivi aquela época e não sei dizer se o poema era adequado (talvez alguém que viveu, possa dizê-lo). Mas vivo a época de agora, e infelizmente Fried descreve perfeitamente grande parte dos judeus de hoje (sejam de Israel ou da diáspora), quando afirma que “agora vocês são como eles (os agressores)” e quando lhes pergunta se “a crueldade deles (agressores) permanece viva agora em vocês (judeus)”.

Termino esta breve reflexão lembrando o(a) leitor(a) – seja ele(a) judeu/judia ou não –, que somente parte do povo judeu apoia a opressão israelense aos palestinos. Outra parte luta dia e noite contra ela e espera que ‘Shema Israel’ (‘Ouça, Israel’) possa um dia ser somente um clamor por Deus e não um grito angustiado de um poeta diante do terror causado por parte do seu povo.

Grande Fried, onde quer que sua alma esteja agora, minha resposta à sua pergunta “Como posso continuar a ser (parte do povo) quando vocês se tornam perseguidores?” é: Você pode sempre pôde e pode continuar sendo um de nós. É um dos que nos orgulham e não um dos que nos envergonham. Sua poesia permanece viva e sendo arma de resistência para ser recitada por nós nas batalhas de hoje. Obrigado, poeta companheiro. Es lebe der Widerstand! (Viva a Resistência!)

 

Para não dizerem que não falei de Decotelli

 

Durante uma semana ficamos sabendo quem seria o novo ocupante do MEC e a seguir de sua demissão do cargo. Carlos Alberto Decotelli da Silva teve uma passagem “celeríssima” pelo governo Bolsonaro.

Eu não me importo com a cor da pessoa, mas com o seu caráter, sua honradez, sua capacidade de trabalho, sua honestidade etc. Ele não foi o único ministro do atual governo a mentir em seu currículo, mas foi o mais destacado deles até pedir para sair.

Tenho certeza de que seus amigos e alunos, ao menos os que se dispuseram a dar entrevistas, foram sinceros ao dizerem que se tratava de uma ótima pessoa, muito querida e excelente professor. Com certeza, sua família, além dele próprio sofreram muito com todo o episódio.

O fato é que nada justifica uma fraude. O que ele fez em seu currículo se chama Crime de Falsidade Ideológica e, se quisesse, o MP poderia abrir um processo contra ele. Não se pode atribuir diplomas de cursos não completados, de trabalhos não realizados e de universidades não frequentadas.

Decotelli foi muito ingênuo ao achar que poderia assumir o cargo do até então pior ministro da educação da história do Brasil, que acabava de fugir para os EUA usando um passaporte diplomático que não tinha mais direito, sem ter sua vida escrutinada. Parece ter ficado ébrio com o convite.

Não tenho dúvida que servir como ministro ao país é uma grande honra para qualquer um. Mas vamos falar sério. Uma coisa é servir de ministro em uma ditadura, outra coisa numa democracia. E mesmo em uma democracia, uma coisa é servir a um governo popular, outra a um governo fascista. Muita gente não tem o menor discernimento.

Existem outros ministros que mentiram descaradamente em seus currículos que haviam estudado em Harvard. Foram motivo de piada, corrigiram o erro e se mantiveram no cargo. Decotelli foi um pouco exagerado. Cometeu plágio e também escreveu possuir títulos inexistentes. Começou mal e terminou pior ainda.

Em um governo cheio de estrelas nazistas, de crentes na Terra Plana, adoradores de Trump, adeptos das teorias da conspiração, como a do Covid-19 ser um vírus criado para os comunistas dominarem o mundo, tudo agora é visto com uma lupa. Se mais alguém acha que pode entrar para este governo com qualquer manchinha no passado ser esquecida, perca as esperanças. Sua vida será revirada ao avesso.

O exemplo Decotelli acabou se tronando didático. Imagino que o Lattes nunca teve tanto acesso de pessoas “corrigindo” erros cometidos. É bom que o façam, de farsas e mentiras neste governo, já chegamos ao limite do tolerável.

A classe dos professores foi maculada por um dos seus. Nenhuma classe está a salvo de pessoas assim. Creditar-se ter alcançado na vida aquilo que era desejo, sem ter cumprido as atividades formais, ou ter sido reprovado nos trabalhos, não é algo que a gente esperava de um professor. Muito menos de um economista. É como se ele tivesse trapaceado nas contas.

Bolsonaro consegue errar em absolutamente tudo o que faz. Até na nomeação de um ministro o cara não acerta. Era de se supor que lhe são trazidos nomes que passaram por todo tipo de exame e seriam todos ilibados. Nada disso. Em um governo sem presidente a altura do cargo, são estas baixarias que vamos seguir assistindo.