por Mauro Nadvorny | 28 jun, 2020 | Brasil, Israel, Política
(publicado originalmente em Brasil247 em 26.06.2020.)
Após um ano e meio de desgoverno, praticamente todos os dias pessoas ainda vêm a mim com as mesmas perguntas: “Por que Bolsonaro ama tanto Israel?” ou “Ele é muito amigo de Israel, não?” ou, ainda pior, “Ele é muito amigo dos judeus, hein?”. E fora perguntas educadas, há também sempre comentários antissemitas em meus textos ou lives, do tipo: “Bolsonaro e Israel são tudo a mesma coisa!” ou “Os judeus amam Bolsonaro porque ele apoia a opressão em Israel.”
Muito bem, sou professor há 20 anos e sei que se uma questão não está esclarecida, a melhor maneira de lidar é repetir a explicação quantas vezes for necessário. Assim, embora eu já tenha escrito outros artigos sobre o tema, cabe sempre mais um. Além disso, novos eventos ocorrem sempre e aumentam os desentendimentos. E a atenção do mundo a Israel, por sua vez, nunca diminui. Parece haver um imaginário quase místico ao redor deste pequenino país (que possui praticamente a metade do tamanho e da população do Estado do Rio de Janeiro, para se ter uma ideia).
Muito bem, vamos lá: a resposta para a questão do suposto amor de Bolsonaro por Israel está resumida no título deste artigo. É simples assim: Bolsonaro não ama Israel, não apoia Israel, não se importa com Israel e isso é completamente claro e evidente em sua agenda. O que ele ama é a direita/extrema-direita que se apropriou de Israel gradualmente na última década, sob o comando do Benjamin Netanyahu. Sim, o “capitão” ama a política e as ideologias do israelense. E uma coisa é totalmente diferente da outra. Apoiar um governo vigente não é apoiar um país e seu povo. Quem de fato apoia Israel deve antes de mais nada atentar para a pluralidade do povo que lá vive. Cerca de um quarto de sua população é árabe e o risco da instalação de uma política de pleno apartheid é cada vez maior. Além disso, a situação de opressão contra os árabes não-israelenses ou palestinos, que vivem na Cisjordânia e em Gaza, é a cada dia mais inaceitável e insustentável. Quem é verdadeiramente amigo de Israel busca chegar a uma situação em que todos no país – e também seus vizinhos – vivam bem, em paz e com dignidade, ou seja, o oposto do que Netanyahu faz e ao que Bolsonaro aplaude.
Deixo muito claro: ao meu modo de ver, Netanyahu é simplesmente a pior coisa que já aconteceu a Israel. Ele é racista, corrupto e possui muito sangue nas mãos. É terrível para os palestinos não-cidadãos do país; é terrível para os árabes israelenses; é terrível para os judeus israelenses que não são direitistas e querem paz e justiça para e com os árabes; é terrível para os judeus da diáspora que não são direitistas pelo mesmo motivo; é terrível para qualquer tipo de contato com o mundo árabe que circunda Israel. Ou seja, ele possui todos os atributos para ser amante de Bolsonaro e, é claro, de Trump, o monstro que representa tudo o que há de pior na essência ianque e que considero também o mais nocivo presidente da história deste país (sim, Nixon e Bush filho eram “fichinha” perto do “very stable genius”).
Estes três estandartes do Neonazifascismo mundial amam somente suas ideologias e seus nefastos projetos. E nada mais. Cada um elege inimigos em seus países (“comunistas” e comunidade LGBT no Brasil; árabes em Israel; imigrantes latinos e árabes nos EUA). Em comum, os três têm o asco pelo pobre, seja ele negro, índio ou parte de outro grupo desfavorecido. Perseguem então os “vilões” de suas nações e trilham a contramão de tudo o que representa Democracia, Justiça Social e Direitos Humanos.
Mas qual é exatamente a razão para esta relação tão estreita entre Bolsonaro e Netanyahu? Pois bem, Netanyahu interessa a Bolsonaro por duas razões principais. Primeira: ao acariciar Netanyahu, o small brother brasileiro agrada seu tão admirado big brother Trump. E como vemos acima na bela charge de meu amigo Renato Aroeira (obrigado pela charge para este artigo, meu caro!), os três “irmãos de fé” passam a formar a perfeita aliança neonazifascista contemporânea, deixando pegadas de sangue por onde passam.
E a segunda razão se dá pelo motivo de que Netanyahu representa a perseguição aos árabes e é o símbolo maior do clamor por uma Israel soberanamente judaica (quase bíblica), e isso agrada uma imensa parte do eleitorado brasileiro: os evangélicos neopentecostais. Estes, que em grande parte seguem a doutrina do Dispensacionalismo, creem que Jesus Cristo retornará ao mundo justamente em Israel, mas somente quando todos os judeus estiverem lá reunidos e o “aceitarem” como o messias (algo completamente contrário ao Judaísmo e que simplesmente não vai acontecer). Mas na mente neopentecostal, vai. E os árabes? Bem, estes devem ser simplesmente varridos de Israel. Ou, se quiserem ficar, terão também de “aceitar” Cristo, ou seja, se converter. Pois é, é mais fácil oprimi-los e expulsá-los, no melhor estilo Netanyahu.
“Ah, mas e as bandeiras israelenses nas manifestações bolsonaristas, não representam amizade entre Bolsonaro e Israel?”, perguntam-me. Respondo: não. Pelas razões doutrinárias que acima expliquei, antes de mais nada é necessário que se saiba que praticamente todas as bandeiras azul-brancas são empunhadas por evangélicos e não por judeus. Os judeus bolsonaristas normalmente não se prestam ao ridículo das manifestações de adoração ao Jair “Messias”, mas sim assistem de longe – do alto de seus olimpos empresariais – o país desmoronar, enquanto os favores econômicos da elite são garantidos. Simples assim: “Rezem para quem quiser, acreditem na fantasia dispensacionalista que quiser, adorem uma Israel cristã o quanto quiser. Contanto que nossa grana esteja garantida, nada mais importa.”
Dito isso, aproveito para fazer uma observação adicional para tentar quebrar mais um esteriótipo equivocado que escuto com frequência: “Os judeus apoiam Bolsonaro porque são todos ricos!” Por favor, né?… Erradíssimo. Existem no Brasil judeus ricos, não ricos, de classe média, de média baixa e até muito pobres, que necessitam de programas sociais e caridade para sobreviver. E todos estes, como toda a comunidade, também se dividem entre pró-Bolsonaro e anti-Bolsonaro.
Em suma, a relação dos judeus brasileiros com Bolsonaro é completamente mista. Ele é apoiado por uma metade da comunidade e rejeitado pela outra. E é combatido diariamente por algumas das mais ativas e militantes instituições contra o seu governo (‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’, ‘Judeus pela Democracia’, ‘Judias e judeus com Lula’, ‘JUPROG (Judeus Progressistas)’, para citar algumas).
Enfim, cabe ainda acrescentar que este movimento neopentecostal é também um enlatado norte-americano que como sempre grande parcela do povo brasileiro consome de olhos fechados e com servil reverência. Os ‘evangelicals’, como são por lá chamados, possuem grande poder no país e seu símbolo maior atualmente foi cuidadosamente escolhido por Trump como seu vice-presidente, o de modo igual perigoso Mike Pence. Assim, uma espécie de “sionismo cristão” ascendeu, algo que é claramente nocivo para judeus (pois advoga por um judeu não-judeu, um judeu cristianizado), para muçulmanos e também para cristãos não-pentecostais. E Netanyahu se importa com isso? Não também. Sua mentalidade se concentra em metas muito bem definidas, das quais ele nunca desvia os olhos: contanto que apoiem seu projeto de subjugar os árabes israelenses a cidadãos de segunda classe e de usurpar os territórios palestinos, ele faz qualquer aliança, até mesmo com líderes que incitam o antissemitismo (ou melhor dizendo, o antijudaísmo), como os próprios Bolsonaro e Trump. (Aqui é necessário um adendo: embora relacionado com o assunto do “amor” de Bolsonaro pelos judeus e por Israel, não entrarei no tema do imenso ‘antissemitismo na Era Bolsonaro’, pois esse é um tema que merece ser tratado à parte. Mas anuncio aqui que o ‘Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil’ está preparando um documento completo sobre este específico assunto, que será publicado em breve, quando completa-se 18 meses da atual presidência. Aguardem.)
Já vimos o interesse de Bolsonaro em Netanyahu. Qual é a reciprocidade para o israelense então? Bem, o brasileiro é tanto um aliado na ONU, quanto pode tornar-se um parceiro mais próximo economica- e até militarmente. Desta forma, em termos diplomáticos, a trica ultradireitista vota sempre em uníssono quando se trata de qualquer resolução que concirna aos planos de Netanyahu. O Brasil é um país grande e importante na América Latina e tê-lo ao seu lado nesta aliança ultradireitista é um grande ganho para este que pretende se tornar uma espécie de “rei moderno de Israel”.
E desta forma chegamos à principal notícia do momento no Oriente Médio: com o aval de Trump (e do irmãozinho brasileiro ao seu lado lhe dando a mão), um dos maiores passos para a anexação definitiva da Cisjordânia está prestes a ocorrer. Compreendam: isto é uma catástrofe para os palestinos, pois sacramenta de vez a ocupação de suas terras. Mas não é somente isso. Esta ação afeta também toda a região e pode implicar até mesmo no rompimento de acordos de paz entre Israel e alguns países vizinhos. Só mesmo a configuração atual do mundo, com Trump no poder e seus aliados de peso, poderiam permitir que isso ocorresse. É a tempestade perfeita sobre a árida “terra de Deus”.
Vejam, se amanhã o governo netanyahista caísse e – por um milagre – Israel voltasse a ser governado pela Esquerda (como foi por décadas) e as negociações de Paz com os palestinos fossem retomadas e progredissem, como aconteceu na época de Yitzhak Rabin, certamente Bolsonaro não teria absolutamente nenhuma amizade com Israel. E a mesma lógica serve para a relação com os EUA. Se em novembro próximo Biden vencer, veremos uma mudança drástica na relação entre Brasil e EUA. E se Bernie Sanders – para mim o maior político do mundo nas últimas décadas – vencesse, a devoção e a continência de Bolsonaro pelo Tio Sam desapareceria imediatamente.
Por fim, cabe ainda comentar mais uma novidade que surgiu nas últimas semanas: a questão da presença da bandeira palestina em manifestações pró-democracia no Brasil. Primeiramente digo que pessoalmente vejo a presença desta flâmula com ótimos olhos, pois nós judeus progressistas e humanistas somos também ativistas pela causa palestina. Para nós, não há Israel livre, justo e seguro, sem um Estado Palestino livre, justo e seguro. Assim, nestas demonstrações brasileiras, ao lado das bandeiras palestinas, há também sempre representações judaicas, ainda que não empunhando a bandeira israelense. É um erro imenso e um grande desconhecimento de causa pensar que estas bandeiras são antagônicas. O mal uso da flâmula israelense – seja por parte de evangélicos que sequestram símbolos judaicos ou por parte de judeus bolsonaristas – não tem o poder de decretar que Israel e Palestina (ou judeus e árabes) estão cada um em um lado, antidemocrático e democrático. Esta simplesmente não é a realidade destes povos nem no Oriente Médio nem na diáspora.
Em janeiro de 2020, no grande evento do grupo ‘Judias e judeus com Lula’, em São Paulo, (com a presença do próprio Lula, de Haddad, de Gleisi e diversas outras personalidades da Esquerda brasileira), era possível ser vista a bandeira israelense ao lado da palestina na decoração do espaço, feita pelos organizadores do evento.
Enfim, espero que este artigo ajude os brasileiros a compreenderem um pouco mais sobre este complexo cenário. É fundamental que a Esquerda brasileira assimile estes conceitos e compreenda os contextos, para que a verdade supere generalizações, esteriótipos e distorções que levam à intolerância dentro da própria esfera da Resistência no país. A consciência sobre o contexto mundial e uma visão panorâmica sobre temas contemporâneos são essenciais para que não ajamos com a mesma postura racista e ignorante que tanto desprezamos no bolsonarismo, no netanyahismo e no trumpismo.
por Mauro Nadvorny | 25 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Respeito quem acha que somos 70%, os que se opõe a Bolsonaro. Aí incluídos os que resistem desde antes da sua eleição e os que se arrependeram de ter votado nele. Entendo a posição de vocês de que devemos nos unir com aqueles que foram responsáveis por esta tragédia em nome do bem maior. Mas, me desculpem, eu estou fora.
Nestes dias, mais uma expoente da intelectualidade brasileira, a escritora Lya Luft, deu uma entrevista contando seu arrependimento em ter votado em Bolsonaro. Mais uma do grupo de arrependidos que deveria ser cumprimentada por se somar aos 70%. Eu postei na hora: “Não sei o que me causa mais asco, se a Lya Luft dizendo que votou no Bozo, ou explicando que se arrependeu.”
Eu posso compreender as razões que levaram a massa de manobra a votar em Bolsonaro. Entendo todas a tiazinhas do WhatsApp que tiveram certeza da existência do Kit Gay e da Mamadeira de Piroca. A falta de conhecimento, de bom senso, de estudo, de cultura, de condições financeiras, enfim, todos os componentes que levam algumas pessoas a acreditarem no que os amigos acreditam.
O que eu nunca vou aceitar é o grupo que ela representa ter votado nele. Os esclarecidos, os que estudaram, os que leram, os cultos, os de boas condições financeiras, os capazes de discernir entre o bem e o mal. Estes não merecem o meu perdão.
Se engana quem pensa que os Nazistas chegaram ao poder apoiados somente pela classe baixa alemã. Quem levou Hitler ao poder foram os intelectuais, os cultos, os letrados alemães que votaram nele e aproveitaram para lucrar com os despojos dos judeus.
Lya Luft representa a classe alta, branca, cristã, escritora, intelectual e boa mãe de família. Uma racista, homofóbica, misógena que apoiou um Fascista que enaltece torturadores. Como perdoar uma criatura destas? Existe algum perdão que faça com que ela se transforme em uma pessoa normal, humanista que respeite o próximo? Que mágica seria esta? Isso é pura fantasia. Ela é o que é, e a esta altura da vida, nunca vai mudar.
Ela é da mesma classe de alemães que sabiam o que estavam fazendo. Bolsonaro nunca escondeu o que era. Seu apoio aos torturadores e assassinos da ditadura eram repetidos a cada entrevista sua. Seu desprezo pelas minorias era sua marca registrada. Ela sabia disso e ainda assim escolheu votar nele a um professor. Que fosse em Amoedo, mas não no fascista. Que fosse em branco, mas nunca em um genocida.
Não tem perdão! Eu não perdoo, como não perdoo os nazistas. Ela tem o meu total desprezo por sua contribuição para levar uma família miliciana ao poder. Uma família que assiste as mortes diárias de brasileiros, vítimas do Covid-19, sem nenhuma comoção. Mais de mil mortes ao dia e o eleito por ela é incapaz de uma demostração de empatia e de ações de combate a pandemia.
Ela e os Lobões arrependidos, que aceitem o que são, será melhor assim. Vocês podem dizer agora que se arrependeram, mas o resultado é o mesmo. O mal que vocês causaram ainda está aí e nada do que vocês disserem vai mudar isso. O Brasil não precisa de vocês.
Eu consigo me imaginar perdoando as massas de manobra. Aqueles que não tiveram capacidade de compreender o que estava acontecendo e, principalmente, as consequências de eleger Bolsonaro. Estes, na minha opinião, são os que vão ajudar a derrotar o fascismo, não a elite brasileira do Zé Carioca da Havan.
Desde já deixo claro que nada contra os companheiros da resistência que pensam diferente. Apenas o meu pedido de que aceitem a minha maneira de pensar e sigamos na luta.
por Mauro Nadvorny | 24 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
O arrependimento público e publicado da escritora Lya Luft na “cuestão” de seu voto em 2018, que foi um dos votos que entre outros votos e outras omissões nos trouxe a esta quadra. “Não havia outras opções, e deu no que deu”, é a síntese de seus argumentos.
A publicação reacendeu com gasolina o debate sobre a outra questão, a dos arrependidos e a dos movimentos pró-democracia que se aglutinam no momento em torno de diversas figuras do mundo político às quais o ex-presidente Lula recusa-se (corretamente, ao meu ver) a aderir.
Importantes pensadores aos quais dedico a devida vênia classificam como prioritário o foco no combate ao fascismo e a este governo como forma de derrubá-lo e abrir o caminho para um mínimo retorno à ordem institucional democrática.
Outros, chegam a fazer uma crítica à visão moralista que setores da esquerda aplicam ao grupo dos arrependidos.
Mas, ao meu olhar clínico, temos um problema de diagnóstico diferencial. Por que o problema não é o governo atual. Insisto que a situação atual é uma resultante de múltiplos vetores que não obstante suas diferenças de orientação e intensidade tem algumas origens e destinos comuns: o antipetismo radical, o antiesquerdismo, o anticomunismo, o lavajatismo, a “venezualização” do debate político, a fobia propagada e contagiosa do tal “Foro de São Paulo”, o terraplanismo, o olavismo, e enfim, todo o extenso cardápio da direita fascista e ignorante que sufocou a sociedade com desinformação, mentiras, delírios e alucinações.
Assim, um arrependimento que não passe pelo reconhecimento de uma ignorância vultosa sobre a realidade brasileira (e global) e que não passe por um processo de extensa revisão dos mecanismos de avaliação da realidade não conduzirá o arrependido a um novo ponto de vista do qual consiga vislumbrar com mínima clareza que as melhores verdades para o nosso país passam por um amplo espectro de abordagens, objetivos e meios. Por que a primeira coisa que esta pretensa coalizão democrática que pretende aglutinar FHC, Huck, Sérgio Moro, Dória, entre outros fará, é jogar a parte “esquerda” do pacto ao mar, na primeira oportunidade, e trabalhará arduamente para reagrupar o pacto da direita em torno do projeto neoliberal que não saiu da pauta.
Como sempre digo (e é o que deu título ao meu primeiro livro publicado), o meu diagnóstico segue as doutrinas clínicas, e o diagnóstico etiológico é fundamental para o tratamento e eventual cura para qualquer doença. A etiologia do processo que levou Bolsonaro ao poder continua bem viva como a bola na marca do pênalti. A parte que não deu certo no grande golpe e sua continuidade foi apenas o surfista da onda, que como tudo no nosso capitalismo, é descartável.
Até prova em contrário, robusta e incontestável, os arrependidos não são confiáveis. Eles apenas admitem que Bolsonaro foi um erro. E nada mais. E Bolsonaro é apenas um acidente de trajeto. É mais do que certo, a não se mobilizarem em um grande esforço intelectual, que também, na primeira oportunidade, arrumarão outro diabo que os carregue.
por Mauro Nadvorny | 20 jun, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Flávio Bolsonaro está em apuros, isso é inegável. Ele sabe que o cerco está se fechando e acha que seus problemas se devem a eleição de seu pai para presidente. Em postagem recente no Twitter afirmou “ Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje (se referindo a prisão de Fabrício Queiroz). A verdade prevalecerá! Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro. Em 16 anos como deputado no Rio nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o Presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!”
Antes de comentar sobre isso, gostaria de mostrar alguns dados sobre a Alerj. Até janeiro de 2019 o número de cargos vinculados aos gabinetes dos deputados era de 20 vagas que podiam ser desmembradas em até 63 postos de trabalho. Agora o desmembramento poderá chegar a “apenas” 40 vagas.
O fenômeno da “rachadinha” é um velho conhecido da política brasileira. Basicamente consiste na divisão do salário do assessor com o parlamentar que o contratou. Ela é considerada comum em outras casas legislativas, tais como Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e até no Congresso Nacional, e resultou em várias denúncias contra parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF) por configurar crime de peculato.
Esses crimes são de difícil apuração, porque geralmente envolvem saques de baixas quantias em dinheiro, com o objetivo de não alertar os órgãos de controle, e pagamentos em dinheiro vivo. Os órgãos de investigação conseguem avançar nas suspeitas quando algum ex-funcionário decide contar o que sabe, o que raramente acontece. Na maioria das vezes o benefício é mútuo.
Na Alerj o salário de um assessor parlamentar parte de uma salário mínimo e com os acréscimos de todos os penduricalhos permitidos legalmente, pode chagar a mais de R$ 20.000,00. Como se pode ver, a “rachadinha” aumenta o rendimento do parlamentar em muito. Normalmente este retorno acontece em dinheiro vivo e paga as contas do parlamentar e de seus familiares. Como as movimentações acontecem com baixos valores, não chamam atenção. Assim, ele foi flagrado fazendo 48 depósitos de R$ 2.000,00 em um Caixa Eletrônico.
Por exemplo, posso citar a Assessora Parlamentar Aparecida Santos Dias Braga que recebe R$ 21.724,50 reais líquidos. A fonte é a Folha de Pagamentos de Abril 2020, disponibilizada no Portal da Transparência.
Com este artifício, Flávio Bolsonaro conviveu por 16 anos na Alerj, tendo como seu principal assessor Fabrício Queiroz, que se encarregava de receber a “rachadinha” dos funcionários e administrar o “fundo de reserva” do patrão.
Fabrício Queiroz pode ser a bola da vez, mas é preciso deixar claro que existem inúmeros casos iguais acontecendo todo final de mês por todo o Brasil. A maioria das “rachadinhas” acontece com pessoas amigas ou conhecidas que recebem este dinheiro como um bônus a mais em suas vidas. Na realidade, sequer batem ponto no gabinete do parlamentar. Não há do que reclamar.
Flávio Bolsonaro vai fazer o possível para atribuir a investigação sobre ele a perseguição jurídica e política que seu pai está sofrendo. O choro é livre. De fato, caso sua família tivesse permanecido na sua insignificância e mediocridade política, nada disso estaria acontecendo. No entanto a ganância falou mais alto, e eles vão pagar caro por isso. Não, ele não está tranquilo e se a verdade vier a tona, vai estar acabado.
Se Queiroz abrir o bico e disser tudo o que sabe, Flávio Bolsonaro pode estar com seus dias contados como Senador, provavelmente abrindo também o caminho para o Impeachment de seu pai. As relações criminosas da família podem vir a tona através de seu mais fiel funcionário.
O jogo é bruto!
por Mauro Nadvorny | 16 jun, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido respeitável) defenda o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.
O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.
O papel do presidente da República não é apenas propor reformas através da lei. Longe disso.
Todos os líderes populistas atuais, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. E pior, dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve muitas internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.
Isso mostra o grau de responsabilidade que tem um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, têm enorme valor simbólico. Governa-se através deles.
Em outras palavras, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower”. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial uma assinatura que não seja a sua. Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.
Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e até obediência.
O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet, Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).
O presidente não pode responder E daí, quando escolhe para diretor geral da PF um amigo do filho que está sendo investigado, nem para comemorar as vítimas da Covid-19; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque o seu apoiador incondicional desrespeita o isolamento e corre solto rumo ao risco de morte. Ele não pode se negar a apresentar o resultado do teste do coronavírus, o que faz até hoje com o teste realizado pela Fiocruz. Ele não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid-19.
Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro têm enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.
Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso. Se o ministro da Educação pode ser racista, eu também posso.
Acontece que o capitão comete crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.
Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país.
Hoje temos no Brasil uma situação de quase guerra civil: de um lado fanatismo e ódio, de outro angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar para o abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse fascista descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. Pouco importa que seja pela via do impeachment, pela condenação da chapa pelo TSE, ou pelos crimes comuns que correm no STF. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia.
por Mauro Nadvorny | 16 jun, 2020 | Brasil, Justiça, Política
Diz o velho adágio que “o pior cego é o que não quer ver”. Pois é certo que por vezes temos a impressão de que o próprio olho, apenas um órgão no complexo sentido da visão, passa a ter vontade própria na rebelde perversidade da cegueira voluntária. É o que transpareceu na entrevista de ontem que o Ministro Luis Roberto Barroso, no programa Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O Ministro Barroso constituiu-se, à época de sua indicação, como uma grande esperança para o setor progressista. Em entrevista pouco anterior à sua posse, descrevia o “Mensalão” como “um ponto fora da curva”, o que dava a impressão de ser uma visão crítica sobre os óbvios arroubos meramente moralistas do STF pelos quais a corte se conduziu, dando a impressão à sociedade de que aquilo que ali se julgava era algo realmente extraordinário e novo na política brasileira, nascida corrupta, crescida corrupta, e consolidada corrupta, sob as barbas longas e grisalhas no nosso sistema de justiça e dos órgãos fiscalizadores.
Se o Ministro exibe ao longo da entrevista um extenso cabedal filosófico pertencente ao mundo humanístico e iluminista, permeado de prudência, racionalidade, amor à ciência e devoção à democracia, escorrega pateticamente no “lavajatismo”, chegando a rezar o credo daquela classe média bem descrita pela filósofa Marilena Chauí, peça litúrgica que pretende nos levar a acreditar, nas suas próprias palavras, que “a eleição de 2018 foi uma resposta da sociedade que acreditou ser o certo o caminho do combate à corrupção”.
Nada pode ser mais contraditório e paradoxal do que em poucos minutos ouvir, da mesma pessoa, um discurso humanista e cientificista e o discurso raso do “o que aconteceu na Petrobrás foi crime”, como se a empresa fosse a sede das eventuais atividades criminosas e como se o tempo destas práticas fossem restritos aos governos do PT. Mas tudo pode piorar. O Ministro prossegue na sua exegese histórica afirmando que “a sociedade mudou depois da Lava-a-Jato, tornou-se menos leniente com a corrupção, e que os costumes mudaram”.
Temos então o tal olho que parece ter vontade própria de não querer ver, conectado a um cérebro que parece não ter processado adequadamente tudo o que o olho viu e ainda sem condições ou vontade de processar tudo aquilo que continua vendo.
Uma rápida passada de olhos no que está acontecendo hoje na gestão das OSS (Organizações Sociais de Saúde), aqueles monstrengos nascidos da maior fábrica de corrupção e corruptos da história recente da República, a Lei 9637/98, considerada constitucional pelo STF (já na presença do Min.Barroso, julgada 14 anos depois da instauração da ADI 1923) bastaria para se enxergar o contrário. A sociedade tornou-se ainda mais cega e leniente com a corrupção, e seus agentes ainda mais ousados, como se a crença na impunidade tivesse mesmo se ampliado aos múltiplos. Numerosos alertas foram feitos desde a sanção daquela lei, e não faltaram alertas de ministros mais antigos da corte (4 votos pela inconstitucionalidade) entre os quais o desesperado voto memorável do Min.Marco Aurélio Mello, que certamente já podia olhar a paisagem devastada pelo retrovisor, dado o alargado prazo entre a impetração da referida ação e seu julgamento.
Como ex-procurador do Estado do Rio de Janeiro, o direito de ignorar as práticas sistemáticas nas relações entre o público e privado que já levaram à prisão de 4 ex-governadores do RJ, de juízes, procuradores, de conselheiros do Tribunal de Contas do RJ, deveria ser algo não digno de ostentação, se não bastasse ainda o cenário do Estado de S.Paulo, onde quase nada se investiga e o pouco que se acha é arquivado sem prossecução criminal dos agentes em troca de acordos de indenização e leniência que poucas mães ofereceriam aos seus filhos.
Assim, a estreita visão espacial e temporal do Min.Barroso não combina com a amplitude e o estofo que exibe ao discorrer sobre as virtudes do iluminismo e do estado moderno, deixando-nos a árdua tarefa de buscar as raízes profundas do comportamento de um sistema ótico que na obsessão de formar uma imagem desejada perde-se nas aberrações cromáticas e geométricas próprias das lentes de má qualidade.
Estas contradições, embora humanas, não nos ajudarão a curar as doenças sistêmicas do Brasil. O Ministro Barroso frustrou-nos, definitivamente. Ingênuos fomos nós, que assistimos ao programa na esperança de algo realmente novo.