por Mauro Nadvorny | 7 maio, 2020 | Israel, Oriente Médio, Política
Nos atuais tempos, como todos sabem, quase todos os dias algo desagradável nos salta aos olhos ao abrirmos a internet ao amanhecer, não é mesmo?
Pois então, hoje não foi diferente aqui na Alemanha. Uma amiga me chamou a atenção para um novo post do partido de extrema-direita alemão, o AfD, que, como venho explicando há anos, nada mais é do que o partido neonazista com uma roupagem atualizada ao século XXI.
Este partido veicula todos os tipos possíveis de agressão aos muçulmanos, os escolhidos “inimigos” maiores da vez da “pátria alemã”. O antissemitismo do AfD é completamente velado, porém para os judeus que possuem um “olhar clínico” sobre o assunto, é facilmente – e obviamente – detectado. Já a admiração do partido pela atual Israel direitista é evidente e escancarada. Assim como é a do psicótico presidente brasileiro e a do palhaço da Casa Branca. Sim, Netanyahu parece ter o poder de conquistar aplausos de todo o lixo ultradireitista que governa boa parte do mundo.
Muito bem, hoje o AfD e a Dinastia Netanyahu deram juntos um passo à frente nesse asqueroso affaire. O filho do primeiro ministro, Yair Netanyahu – um energúmeno que em muitos pontos consegue até superar seu pai –, declarou o seguinte: “Schengen está morta. Esperamos que em breve a globalista União Europeia também esteja. Aí então a Europa será novamente livre, democrática e cristã.”
Aguardo um momento para o(a) caro(a) leitor(a) se recuperar da ânsia de vômito.
…
Pronto? Pois é, a declaração do filhinho do papai funcionou como prato cheio para o AfD, que rapidamente publicou um post com sua fala, foto, nome e filiação (como vocês veem acima). É, um judeu direitista que odeia árabes e muçulmanos, clamando por uma “Europa cristã”, é um presente de Natal adiantado para os nazis germânicos.
Note-se que no post, além do logotipo do AfD, aparece também o do ‘Identidade e Democracia’, grupo do Parlamento Europeu que reúne os partidos de extrema-direita de dez países, e tem como mais forte representante a italiana ‘Lega Nord’ (‘Liga Norte’, dirigida por Salvini). Ou seja, a declaração tomou proporções continentais. (Ah, sim, mais um detalhe a ser mencionado: da mesma forma como fez Yair Netanyahu, esse grupo também utiliza em seu nome o termo ‘Democracia’, virando conceitos às avessas, como sempre foi e continua sendo do feitio dos nazifascistas.)
Enfim, amigxs, nada de novo no fronte: a Dinastia Netanyahu continua contribuir para com a destruição da imagem dos judeus no mundo, os neonazifascistas continuam a inverter valores e propagar ódio, e nós, a Resistência, – da maneira que podemos – continuamos a combater o terror que tomou o planeta nos últimos anos. Sigamos. Abraços.
por Mauro Nadvorny | 2 maio, 2020 | Brasil, Opinião, Política
Ser judeu bolsonarista, ou bozojew como chamamos, é realmente uma tarefa difícil. Defender todo dia o cara que passa o tempo todo falando merda, fazendo merda, ou pensando merda, exige uma certa capacidade de dissonância mental com a realidade.
Para um brasileiro qualquer, ser bolsonarista, já está ficando complicado. Cada dia escutamos outro arrependido se lamentando nas redes sociais. Não aguento mais, dizem eles, peço desculpas, falam alguns. Tem até quem confesse que votou num jumento.
E para os judeus? Aqueles que estavam dentro da Hebraica-RJ enquanto a maioria os alertava para o erro do lado de fora, como podem continuar apoiando este imbecil?
Nenhum argumento parece fazer efeito. O cara disse que nazismo é de esquerda. O cara disse para a gente perdoar os nazistas, mas não esquecer. Ele disse que ia transferir a embaixada para Jerusalém, só não disse quando. Falou que o Covid-19 foi fabricado na China e seus eleitores afirmam que o laboratório onde isto aconteceu pertence aos judeus. Não faltam argumentos, falta bom senso e muito caráter.
Um judeu que apoia este inepto, acredita que a pandemia é um boato. Que o número de mortos é ficção e que caixões vazios estão sendo enterrados. Deve de ser um complô alienígena fomentado por aquelas espaçonaves que os americanos filmaram e só agora reveladas.
Este tipo de judeu é o escárnio comunitário. Pensam somente neles mesmos. Seu bem estar acima de tudo. São aqueles que desejam reabrir seus negócios, mas eles mesmos continuam na quarentena. Fazem carreatas a favor da abertura com bandeirinhas do Brasil.
Claro que não estão sozinhos. São parte de uma parcela da população que ainda apoia este presidente. Talvez a menor parcela de todas, mas são a parte que me toca como judeu que sou e não poderia deixar de mencioná-los quando falo desta família miliciana que está no poder.
O judaísmo tem uma tradição milenar de respeito e preservação da vida. Quem salva uma vida, salva a humanidade, diz a Torá. E estes mentecaptos adorando o cara que debocha das mortes pelo vírus. Isto é deplorável, inaceitável.
Felizmente esta parcela podre da comunidade judaica brasileira não é maioria. Existem muitos movimentos judaicos na resistência contra este governo. Lançamos em 12 de setembro de 2018 o grupo do Facebook “Judeus Contra Bolsonaro” com 8.000 membros e que hoje se chama “Resistência Democrática Judaica”. Grupos como os Judeus pela Democracia do RJ e de SP, Judias e Judeus com Lula são atuantes e protagonistas de diversas atividades na resistência. O Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil – Henry Sobel é outro belo exemplo de como nós judeus atuamos. E existem outros grupos judaicos resistindo!
Também é nossa a ideia do primeiro Festival da Canção de Protesto que já está com as inscrições abertas e acontece dia 6 de Junho. Não nos entregamos e continuamos na luta até que este governo saia do poder. Este é o compromisso dos judeus que honram sua história e não compactuam com nenhuma forma de fascismo.
Diversos judeus brasileiros estão comprometidos em diversas formas de atuação contra Bolsonaro. Fazem parte de partidos políticos, sindicatos, Centrais Sindicais, movimentos de base e outros. Cada um deles é uma voz a mais, um ombro na trincheira por um Brasil democrático.
Somos brasileiros que temos um compromisso com o país que aceitou nossos pais sobreviventes do Holocausto. Temos filhos nossos que combateram a ditadura e muitos foram torturados e mortos por ela. Isto nós não esquecemos Bolsonaro, nem perdoamos.
Neste momento difícil pelo que passa o Brasil, cerramos fileiras com todos os brasileiros e brasileiras que já não suportam mais tanta vergonha vendo um país com um presidente que se tornou um pária para o mundo.
Basta! Fora Bolsonaro!
por Mauro Nadvorny | 27 abr, 2020 | Brasil, Política
O sr. Moro é um péssimo exemplo de pessoa (do e para o bem). Foi um péssimo, inconstitucional e antijurídico juiz, um miserável de dignidade e um vazio de ética (vide The Intercept), e está falando, agora, em seu “público, político e inadequado” pedido de demissão, contra o sr. Bolsonaro, outro péssimo exemplo de pessoa, lixo de (quase já ex) Presidente, desprovido de dignidade e absolutamente antiético.
A diferença entre esses dois seres inferiores é que um praticou atos típicos e antijurídicos no meio da “milícia política” do MPF curitibano, enquanto o outro, no meio (e em função) da milícia carioca.
O que iguala esses seres inferiores brasil(eiros) é que o seguidor e defensor anencéfalo e estúpido de um, é seguidor e defensor anencéfalo e estúpido do outro. O sr. Moro e o sr. Bolsonaro são o mesmo tipo, com a diferença de que aquele antecede e cria este. Moro destruiu o sistema constitucional brasil(eiro) e alimentou o doentio ódio antipetista, criando condições propícias para Bolsonaro chegar ao poder e, em recompensa, carregar ele, Moro, ao governo.
Moro, o perverso ex-rei de Curitiba, morre politicamente aqui – e agora! Bolsonaro, que está apodrecendo a vida do país, seguirá, entretanto, um pouco mais, talvez até o final de seu (falso) Mandato. Havia uma esperança de conseguirmos o seu “Impeachment”, mas, com a saída e gosma verbal de Moro contra ele, provavelmente será mantido. O Congresso não vai arrancar Bolsonaro para lançar holofotes sobre Moro. Esse é o relatório!
NOTA IMPORTANTÍSSIMA
Acabei de assistir, e ouvir, não apenas um ataque contra Bolsonaro, e um pedido (inadequado) de demissão de Moro, mas a sua “CONFISSÃO” de crime. No seu pronunciamento, ele confessa ter cometido vários crimes enquanto Ministro e, pior, quando era Juiz da 13a Vara de Curitiba. Na sua confissão, ele revela que pediu, e aceitou, ainda como Juiz, promessa de vantagem financeira indevida de Bolsonaro. Isso é grave, isso é confissão de crime no exercício de função pública. Repito: ele confessa que pediu, e aceitou, promessa de vantagem PECUNIÁRIA indevida de Jair Bolsonaro! ISSO É GRAVE!
por Mauro Nadvorny | 25 abr, 2020 | Brasil, Política
Que dia foi este de 24 de abril de 2020 que vai ficar marcado muito mais pelo que se disse, do que pelo que se fez efetivamente. Não tenho recordação de um presidente reunindo seu staff superior para explicar em Rede Nacional a demissão de um ministro, um deles de meias e máscara facial, como deveriam estar os demais, ou mantendo um distanciamento de 2 metros, um do outro.
Bolsonaro já sangra. Está ferido e até mesmo suas explicações mais incisivas começam a diminuir o ímpeto. Talvez não estivesse acreditando até o final de que Moro se demitiria. Afinal de contas, ambos têm em comum um certo apego pelo poder de decidir as coisas. No entanto, egos que não se entendiam.
Dos dois, Moro foi o mais esperto, e é o mais perigoso. Moro soube chegar onde queria e até o momento acha que saiu por cima pavimentando seu caminho para disputar a presidência quando acontecerem novas eleições. Sequer se deu conta de que confessou crimes, mas conhecendo nosso histórico com Bolsonaro, quem se importa com estas questões pequenas?
Bolsonaro está cavando sua própria sepultura, acho que todos concordam com isso. Ele perde apoiadores dia a dia, sua reserva está terminando. Logo vai ficar sozinho como Collor nos seus últimos dias. Ou vai descer a rampa do Palácio por si mesmo, ou será obrigado a fazê-lo. Se até o dia de ontem ainda compunha com o Centrão para evitar o Impeachment, hoje ficou mais complicado.
Moro acaba de ficar desempregado momentaneamente. Perde também os privilégios que tinha como Ministro da Justiça e não pode voltar a ser juiz. Provavelmente vai receber uma oferta para lecionar em alguma Faculdade de Direito (pobre de seus alunos). Vai perder espaço na mídia. Um Impeachment precisa passar por todo o processo de acordo com a Lei, ou seja, meio ano, no mínimo. Aí entra o Mourão e carrega a faixa até 2022. Moro ainda será lembrado até lá?
A direita é como uma barragem cheia de furos vazando cada vez mais água. Ninguém mais para colocar os dedos e tampar os furos. O desmoronamento já é previsível. Mas o que acontece com a esquerda?
Hoje já ficou claro de que Bolsonaro foi eleito, muito mais por ser o maior anti-PT do mercado, do que por suas qualidades como parlamentar, ou suas propostas como candidato. Mesmo com todas as defecções que vem acontecendo, o motivo da sua eleição ainda está presente. Não se trata de ex-bolsonaristas se declarando petistas e abrindo voto para Lula (se ele for candidato). Trata-se de arrependidos que, por hora, vão buscar outro candidato com a mesma afinidade “anticomunista”.
Com tudo o que está ocorrendo ainda não existe uma Frente Ampla de esquerda. Não conseguimos uma unidade de linguagem e de propostas para voltar ao poder. Precisamos apontar o caminho, discutir propostas e nos unirmos em torno de uma mesma bandeira. É uma ilusão imaginar que os neoliberais não aprenderam com seus erros. Eles continuam vivos e fortes.
Em termos financeiros eles não tem limites de gastos para uma corrida presidencial. Sua capacidade de reunir fundos para todo tipo de campanha, seja ela legal, ou ilegal, é infinita. Sabem jogar sujo e vão continuar jogando assim. Não será fácil combater tanto poder econômico.
A pandemia vai deixar um rastro de mortos e economia arrasada. Quem será capaz de lidar com isso e de que forma, esta é a questão central do debate político que se avizinha. O neoliberalismo já está mostrando sua força. Demissões e diminuição de salários, para eles, é a melhor fórmula para salvar as empresas e consequentemente a economia.
A esquerda não está sabendo passar sua mensagem. Não adianta somente falar o óbvio, é preciso sair da posição cômoda de oposição que aponta os dedos, para um papel de maior relevância. Temos de apontar saídas factíveis numa linguagem clara e objetiva. Assim, ou vamos assistir um “Moro” da vida se elegendo o próximo presidente do Brasil.
por Mauro Nadvorny | 24 abr, 2020 | Brasil, Política
No episódio da saída de Moro do governo, Bolsonaro disse com todas as letras a Moro que precisa de gente de sua proximidade na PF, para quem possa telefonar a qualquer momento para obter informações sobre inquéritos e investigações, tanto no âmbito da PF como do STF. Afirmou que sim, o objetivo é interferir politicamente na PF.
Ao se dirigir nestes termos ao tido como paladino da Justiça brasileira e que desfruta de amplo apoio popular, sendo no momento a maior estrela política de seu governo, o palhaço do pantanalto fornece todas as provas de sua insanidade, de sua total incapacidade política, de seu narcisismo patológico, de seu autoritarismo pueril, de sua falta de limites, de sua inconsequência, de sua sociopatia, e de seu pensamento desorganizado e amoral, além de francamente ilegal e inconstitucional.
Nem chega a fazer o cálculo do potencial destruidor que Moro, tendo ficado 15 meses à frente da PF e da Justiça, pode ter sobre a sua imagem em um eventual embate eleitoral no futuro próximo. Bozo realmente acredita que é um salvador nacional e que nada se abaterá sobre ele. Deve pensar todas as noites no atentado fracassado de Von Stauffenberg contra Hitler, que por sua vez atribuiu sua sobrevivência à Providência, reforçando sua vocação messiânica.
Bolsonaro não surpreende a absolutamente ninguém que tenha um mínimo de experiência política, conhecimento histórico, mínimos conhecimentos de psicologia e psicopatologia, a quem tenha um pingo de sabedoria e experiência de vida em geral.
Infelizmente, 57 milhões de brasileiros, de alguma forma identificados com algum ou alguns dos aspectos horripilantes e deficientes desse monstro, sujaram suas mãos com sangue ao votar 17. O Sangue da pátria que diziam amar, que ora corre caudalosamente pela opinião pública mundial, envergonha-nos como nunca em nossa história.
A única rima pronunciável nos dias de hoje, é: Brasil rima com imbecil. Até quando será este o nosso mantra?
NN
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Hoje pela manhã reli em algum lugar a famosa frase de Winston Churchill: “A democracia é o pior regime que há, à exceção de todos os outros.”
Também li no blog do Reinaldo Azevedo que o assim dito “presidente” do Brasil comete todos os dias inúmeros crimes, e que nada disso provoca o menor incômodo no Procurador Geral da República, Augusto Aras, único cidadão no mundo com atribuição legal para iniciar um processo judicial por tais atos.
Lembrei-me de uma preocupação que me acometeu há uns 17 anos atrás, quando era Chefe de Gabinete recém-nomeado, da Secretaria de Segurança do Paraná.
Surgiu uma denúncia de que o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado apresentava à instituição notas fiscais frias, para ser “reembolsado” de despesas que não fizera. Foi encaminhada ao Corregedor Geral, que detinha competência exclusiva para abrir sindicância em face daquela autoridade.
Novato na área, descobri que o Corregedor era cargo de confiança do próprio chefe da polícia, o denunciado. Escolhido e nomeado por ele, e por ele demissível ad nutum (sumariamente, sem necessidade de qualquer justificativa).
Nunca fiquei sabendo se o cara era culpado ou inocente. Nem eu nem ninguém. O Corregedor, que não era bobo, obviamente engavetou o caso.
Volto ao início. Concordo que a democracia é o que há de melhor. Só tem um problema, meio esquecido. O que é, exatamente, essa tal de democracia?
Comecemos pelo próprio Churchill, seu arauto, um defensor empedernido da mais cruel e abjeta opressão imperial exercida por seu país sobre inúmeros povos ao redor do mundo. Democracia? Pra quem, cara-pálida?
Mas não para por aí. Debrucemo-nos sobre aquela que é chamada de a maior e mais sólida democracia do mundo, a dos Estados Unidos da América do Norte. Sério? Ela é governada no dia de hoje – nada menos do que no dia de hoje!! – por um cidadão que recebeu, nas urnas, menos votos do que sua concorrente! Irrelevante? Não acho. Chamar de democrático um regime em que a maioria não governa, pra mim, é uma contradição absoluta. Mas ok, vá lá.
Podemos concordar que um dos elementos que faz parte da essência da democracia é a diversidade? E que, do ponto de vista do exercício político dela, cada ramo tem uma visão de mundo e de País? E que a melhor maneira de implementar tal visão é chegando ao poder, e que o melhor caminho para isso é um partido político?
Bem. Nos Estados Unidos da América do Norte só existem dois partidos políticos reais. Todos os demais, somados, são de tal forma insignificantes, que ninguém deles sequer ouve falar. Ora, é possível acreditar que a esmagadora maioria dos zilhões de pessoas que habitam um país daquelas dimensões e complexidade tenha apenas dois pontos de vista sobre o mundo e o seu país? Tem quem ache que sim. Eu, não. Pra mim, o que determina isso responde pelo nome de dinheiro. Poder econômico. Em uma palavra, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A antítese da democracia.
Tem mais. É democrático ser o país mais rico de todos os tempos, e tolerar a existência, em seu território, de milhões de miseráveis destituídos dos mais elementares direitos de cidadania? Ou privar uma pessoa de assistência médica porque não tem meios de pagar (e são também milhões, mesmo além dos miseráveis)? Tem quem ache. Eu, não.
Não chega? Tá bom. É democrático um país que, por séculos afora, intervém militarmente em qualquer lugar do mundo onde um povo ou um governo não seja de seu agrado, matando, no processo, outros tantos milhões de pessoas, sem distinção de sexo ou idade? Respeito quem acha que sim. Mas eu, não.
Pra mim, o nome disso é hipocrisia. Simplesmente hipocrisia. Olhar, ver e fingir que não viu. Ou, pior, admitir que viu mas não achar importante.
E o Brasil? Nem vou me estender muito pra falar de um país que em 520 anos de história conta, somados, com menos de 50 nos quais conviveu com alguns (poucos) elementos democráticos. Quero apenas, e para ficar em um fato atual e marcante, chamar a atenção para o que disse Reinaldo Azevedo. Como chamar democrático um sistema no qual a única pessoa que pode levar o chefe de estado às barras da justiça é nomeada por ele? Considere-se a quantidade de arranjos e conchavos necessários para se alcançar tal nomeação.
Alguém já disse – e com razão! – que, enquanto projeto, o ser humano é o maior e mais espetacular fracasso da história.
Como espécie, somos monstruosos em uma escala espantosa. Não é possível ignorar isso minimamente, se se olha qualquer aspecto de nossa aventura terrena, mesmo que com um mísero fiapo de boa-fé.
Como seríamos, então, capazes de criar um sistema político cujos pressupostos são escancaradamente o oposto absoluto daquilo que nos constitui biológica, mental e culturalmente?
Democracia implicaria, entre tantas outras coisas impossíveis para o homem, em respeito à diversidade, liberdade para todos, honestidade, solidariedade, espírito público e generosidade. Alguém pode citar uma única sociedade e/ou um único momento na história humana em que – digamos – ao menos três entre esses elementos conviveram por um tempo razoável?
Cartas para a redação.
Eu não posso. E olha que – embora amador – sou um estudioso insaciável de história.
Então, deixemos de hipocrisia. Democracia não há, e nem nunca houve, em lugar algum. Ela é uma contradição intransponível com a própria natureza humana.
Essa é uma verdade, para mim, clara e insofismável.
Resolvi escrever sobre isso hoje porque a leitura da frase do Winston Churchill, mais cedo, foi a gota que transbordou o copo da minha paciência.
Vivemos sob a ditadura das “narrativas”. Ao mundo global hiperconectado pouco importam os fatos ou sua análise. O que vale é a imagem que se consegue instalar deles na mente do maior número possível de pessoas.
Há miríades de exemplos contundentes. Mas o propósito deste texto é focar em um deles, a meu ver dos mais graves.
O que pretendem aqueles poucos que exercem o verdadeiro poder global, e que não por acaso são os grandes capitalistas é, utilizando-se dos infinitos meios de comunicação de massa hoje disponíveis, fazer com que a humanidade aceite a mentira de que democracia é sinônimo de capitalismo. Ou seja, que sob qualquer outro tipo de organização econômica, nenhuma sociedade será verdadeiramente livre.
Trata-se de um embuste de proporções gigantescas. A existência ou não de democracia independe do sistema econômico sob o qual funciona a respectiva sociedade.
Nenhuma delas, capitalista, socialista, ou qualquer outra, é genuinamente democrática. Nem mesmo a anarquista, pretensamente a mais libertária de todas.
Essa constatação, a meu juízo, desloca o eixo do debate para outra direção, mais realista em relação às limitações humanas.
Considerando que absolutamente todos os regimes do mundo são, em alguma medida, e inevitavelmente, autoritários, qual o critério comparativo que se deve adotar entre eles para um melhor julgamento de suas virtudes ou defeitos?
Simples: a justiça.
Sob qual sistema econômico são melhor e mais igualitariamente garantidos os direitos humanos elementares dos cidadãos em geral?
A resposta não é nada fácil. Eu tenho cá uma opinião e muitas dúvidas. Acho que para a grande maioria é difícil definir qual é tal sistema. Mas, de minha parte, tenho certeza absoluta de qual não é. Justamente o capitalismo. Basta olhar.