“Sérgio Moro de Lacerda” – 1964 é hoje!
Já não há mais disfarce. Todo o processo que começou em junho de 2013, e foi conduzido com inegável e invejável maestria pelo que há de mais sórdido na elite brasileira, chega ao desfecho por ela desejado.
Digam o que disserem, vivemos sob nova ditadura militar, a serviço – como de costume – dos interesses imperialistas dos Estados Unidos da América do Norte e da consolidação dos privilégios dos ricos (seus eternos lacaios), e sacrifício dos pobres.
É exatamente a mesma roupagem de 1964, adaptada apenas aos novos ditames da moda. Não foi preciso deslocar uma frota ao nosso litoral, ou movimentar tropas, ou depor um presidente pela força.
Bastou utilizar com habilidade os novos instrumentos tecnológicos da guerra híbrida. Quem tem porventura ainda alguma dúvida, dê uma olhada aqui: http://www.brasilwire.com/how-the-united-states-killed-brazils-democracy-again/ – é longo e está em inglês, mas é importante para quem quer entender o que está acontecendo.
Seja como for, o fato é que sem dúvida voltamos a 1964. Ainda não começou a repressão violenta, até mesmo porque desnecessária, já que até aqui não houve nenhuma resistência. Mas ontem (22/05) já ficou bem claro o que virá se alguém ousar desafiar o onipresente e incontrastável poder militar.
O milico mais próximo do presidente ameaçou a nação, com todas as letras, de retirar a fina e transparente capa que nada esconde, e escancarar o arbítrio que já vigora. Alguém disse que se trata de um arroubo isolado de quem não tem apoio pra soltar a besta.
Bobagem. O cara só parece um asno. Não faria algo dessa natureza sem aprovação do chefe e respaldo dos colegas.
Subestimar esses canalhas é – sempre foi! – o melhor caminho para o inferno. Miremo-nos, por favor, em 1964 – que, insisto, voltou!
As forças armadas brasileiras foram incapazes de produzir um único democrata depois daquele golpe. E já lá se vai mais de meio século! A culpa é também nossa, os que lutaram e lutam pela liberdade, que jamais tivemos condições de nos mobilizar para arrancar um acerto de contas com a História da ditadura.
A culpa é também nossa porque, ao longo de quase catorze anos no poder, não fomos capazes de tocar nas estruturas injustas que regem nossa sociedade essencialmente escravocrata. Que compusemos com a elite mais nojenta da face da terra. E que cedemos a tentações não republicanas, violando normas das quais éramos os mais notórios guardiões, e com isso entregando, de bandeja, o pretexto ao inimigo.
O paradoxo irônico por excelência é que o golpe mais contundente até aqui assestado contra a corja milico-miliciana que assaltou o poder através de artimanhas extremamente abjetas, veio de dentro, desfechado justamente pelo mais pérfido, sórdido e perigoso de seus integrantes, autor das piores delas.
Fazendo jus à sua natureza artrópode aracnídea, o ex-juiz e agora ex-ministro Sérgio Moro aproveitou a posição privilegiada que alcançou à custa de sua falta de escrúpulos elementares, para se armar e, chegado o momento, fez o que de melhor (e único!) sabe fazer: adotou a postura que mais favorece seus interesses e projeto pessoal, doa a quem doer.
Como não é capaz de ter amigos, salvo a si próprio, traiu serenamente seus novos “aliados”.
Assim, com a pior das intenções, terminou por entregar à sociedade brasileira, juntamente com as vísceras do regime podre que criou e ao qual serviu enquanto dele se podia servir, informações preciosas com as quais as instituições, se funcionassem, poderiam esboçar uma defesa para o país.
Não nos iludamos porém. Repito: as intenções do verme são as piores possíveis. Ao instalar a cizânia no interior das hostes fascistas, longe do bem do país, só o que pretendeu foi desequilibrar a respectiva correlação de forças para seu próprio lado.
Pode, entretanto, ter subestimado a fera. Acuadas, elas só sabem reagir com redobrada ferocidade.
Os primeiros sinais disso já estão claríssimos a quem tem olhos de ver.
A julgar pela história se repetindo como farsa, tudo indica que o tiro de Moro pode estar se dirigindo inexoravelmente à culatra. Seu destino poderá ser o mesmo reservado a Carlos Lacerda nos idos de 1964. Os corvos que criou lhe devoraram os olhos.
ro de Moro pode estar se dirigindo inexoravelmente à culatra. Seu destino poderá ser o mesmo reservado a Carlos Lacerda nos idos de 1964. Os corvos que criou lhe devoraram os olhos.
Democracia Miliciana
Não há razão para surpresa pela “vulgaridade” das falas na reunião ministerial finalmente divulgada. Também não me surpreende que o que já havia sido vazado fosse apenas uma tentativa de minimizar o dano. Nada supera a verdade ao vivo e a cores.
Repetindo o que já li, em qualquer país democrático deste planeta, o governo já teria caído depois desta divulgação. Qualquer presidente com a mínima compreensão do que seja o cargo que ocupa, teria pedido para sair. Mas aí está o problema. O que temos no Brasil é um inepto que senta numa cadeira sem a menor ideia do que significa vestir a faixa de Presidente da República.
Não vale a pena aqui ficar repetindo o “eu avisei”, isto não muda nada. A situação em que o país se encontra é obra de brasileiros que votaram nisto que está aí. Provavelmente se tivesse uma nova eleição amanhã, isto daí ganharia novamente. A esquerda ainda não aprendeu a jogar como eles.
No mesmo nível desta coisa, estão os seus ministros. Não se salva um sequer. O que pudemos ver e escutar foram as falas de uma única reunião ministerial. Imaginem as outras, ou as que são realizadas em seus gabinetes a portas fechadas. Diante da amostra que recebemos, o STF deveria impor a divulgação de todas elas e distribuir Plasil.
Eu, que não sou nenhum jurista, imagino que Moro conseguiu comprovar sua acusação. O bobo da corte interferiu na PF para salvaguardar sua família e amigos. Entre impropérios ele revela o que realmente o incomodava, o que deveria ser feito imediatamente, qual seria a consequência da desobediência, e o mais importante, diz isso olhando na cara do Ministro da Justiça. Nem precisa desenhar.
Entre tudo o que está sendo revelado, o que me chamou muita atenção foi a questão da liberação das armas para o povo e a democracia. Tomando as (corretas) decisões dos governadores e prefeitos de fechar o comércio e manter o isolamento social como mote, ele diz que se o povo estivesse armado, poderia se revoltar contra isso e sair para a rua. Faz da única maneira, internacionalmente comprovada de conter a pandemia, uma ameaça à democracia.
Segundo o pensamento de Bolsonaro e família, os governadores e prefeitos estariam usando de atribuições ditatoriais para impedir que as pessoas pudessem se movimentar livremente, trabalhar, ir a Shoppings, cinemas, restaurantes, enfim levar uma vida normal como sempre, e morrerem como nunca.
No caso de uma população armada, todos que não concordam hoje com o isolamento, amanhã com o aumento do IPTU, depois contra as multas por alta velocidade nas estradas, poderiam sair de armas em punho e impor sua vontade. Esta é a visão de uma Democracia Miliciana.
Nesta democracia, as vontades populares são respeitadas da mesma maneira como as milícias impõem as suas. Lojistas precisam pagar por sua segurança, o gás precisa pagar uma taxa para venda, TV a cabo, só a da TV Milícia. Isto porque eles andam armados, bem armados.
Nesta democracia, um governante deve respeitar a vontade popular dos que estiverem armados. Quem não concordar com uma multa de trânsito deve sair na rua e por direito, mediante a posse da arma, fazer com que o funcionário de trânsito reconsidere.
Na Democracia Miliciana, o presidente possui seu próprio serviço de informações composto de policiais milicianos que o suprem com as informações relevantes ao cargo, tais como operações policiais contra seus familiares e amigos. É uma via de mão dupla. Em troca das informações, ele libera as armas para as milícias. Alguém acha que o cidadão comum tem dinheiro para comprar uma arma?
Este é o Brasil atual. Milicos dando palpites no que o STF pode, e não pode fazer. Generais de pijama insinuando golpe militar. Ministro do Meio Ambiente propondo medidas antiambientais enquanto a imprensa se preocupa com o Covid, Ministro da Educação propondo por na cadeia os vagabundos do STF, Ministro da Fazenda propondo acabar com o Banco do Brasil etc. Enquanto isso, temos o Fabrício Queiroz lindo, leve e solto.
Temos um final de semana para digerir tudo isto. Mas logo virá a segunda-feira e o Brasil não pode ficar como antes. Se nada for feito agora para acabar com este governo, não sei o que vai restar para o próximo fazer.
Resumo do Vídeo da República de Bolsonaro
A – Geral
1. O vídeo demonstra que, passados 16 meses, o governo bolsonarista está sem rumo e sem plano;
2. O governo está sem qualquer plano de combate à COVID-19, e, além disso, trata os milhares de mortos com desprezo;
3. O Min. da Educação, Weintraub, não tem condição de continuar no Ministério. Ele atacou o STF e revelou desprezo por populações indígenas;
4. A fala de Ernesto Araújo (não revelada porque é grave) não tem condição de continuar no Ministério;
5. A Ministra Damares está sem projeto ou condição objetiva para Direitos Humanos;
6. Excesso de palavrões que corresponde ao português chulo dos Bolsonaros e dos bolsonaristas (sem surpresa);
7. Os Ministros oriundos do Exército estão perdidos.
8. O Ministro do Meio Ambiente, Salles, deixou claro que deveriam aproveitar o momento de COVID-19 (e nas sombras) para implementar políticas contra as reservas amazônicas e a favor dos ruralistas.
B – Específico: que interessa ao Processo
1. Bolsonaro explicitamente afirma a intervenção política na PF – Polícia Federal do RJ (concretizada no dia seguinte) para proteger familiares e amigos. Isso prova a versão de Moro;
2. Bolsonaro diz ter informações de fonte direta. Isso amarra o caso ao Delegado Ramagem e à denúncia nesta semana do empresário Paulo Marinho – carioca.
C – Denúncia da PGR
1. O PGR, sr. Aras, tem elementos e provas para apresentar a Denúncia contra Bolsonaro;
2. Se Aras não apresentar a Denúncia contra Bolsonaro, terá que processar Moro por denunciação caluniosa.
Jair Bolsonaro, o nazismo e a banalidade do mal
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em manifestações contra medidas de isolamento e distanciamento social, feitas para combater o novo coronavírus
Ao cobrir para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1961/62, a filósofa judia de origem alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt, criou um conceito que entraria para a história: a banalidade do mal.
Enquanto o processo corria em Jerusalém em torno dos muitos ismos – nazismo, antissemitismo, racismo, eugenismo – Arendt se consagrava a tentar compreender a relação entre o homem Eichmann e os seus atos. Chegou assim à conclusão que o oficial SS, apesar de ter sido um dos altos responsáveis da “solução final”, que visava exterminar os judeus da face da Terra, não era uma “bête furieuse” como ela própria imaginava e sim um funcionário medíocre do 3° Reich. E de forma mais ampla, que o “mal não reside no extraordinário e sim nas pequenos atos cotidianos que levam a cometer crimes abomináveis.”
Nessa série de artigos, depois transformada no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém Uma reportagem sobre a banalidade do mal -, Hannah Arendt defende a tese de que o nazista abandonou o poder de pensar para obedecer ordens cegamente. Em outras palavras, que ele perdeu a capacidade humana de distinguir entre o bem do mal, sem nenhum motivo, convicção pessoal nem intenção. Resumindo, Eichmann perdeu a capacidade de elaborar julgamentos morais.
Do ponto de vista filosófico, isso equivale a dizer que os crimes terríveis cometidos pelo responsável da logística da Shoá não foram cometidos porque ele era mau, e sim porque era medíocre.
Para Arendt, continuar a pensar e se questionar sobre si mesmo e seus atos, é uma condição sine qua non para não cair na banalidade do mal.
As reflexões da filósofa-jornalista me parecem importantes para tentar entender o fenômeno Bolsonaro.
Um simples exemplo: na sexta-feira, dia 8 de maio, mais um dia de recorde de mortes pelo coronavirus, o presidente ignorava voluntariamente 10 mil mortes para ironizar e anunciar um churrasco no Palácio da Alvorada no final-de-semana para 30 ou 3.000 convidados. No fundo, o número pouco importa, pois ao organizar o churrasco desobedeceria as recomendações das autoridades de saúde, do Brasil como do resto do mundo.
Questionado pelos jornalistas se promover um churrasco com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo, o Jim Jones brasileiro convidou os apoiadores que estavam na frente do Alvorada a participarem da festa.
O presidente foi questionado seis vezes pelos veículos de imprensa se o gesto não era um exemplo negativo para a população. Ele, no entanto, não respondeu e continuou a brincar, ameaçando, com um largo sorriso, retirar a classificação do trabalho jornalístico como atividade essencial durante a pandemia, em mais uma ameaça à liberdade de imprensa.
O churrasco não se realizou; Bolsonaro trocou a carne assada por um passeio de moto aquática, sempre desrespeitando o distanciamento social. Naquele exato momento, o Congresso hasteava a bandeira a meio-pau em sinal de luto pelos mortos da pandemia.
Os apoiadores do capitão, sempre prontos a gritar “Mito! Mito!”, poderiam me perguntar o que um churrasco fake e um passeio de jet ski têm a ver com Eichmann e a banalidade do mal. Explico:
Hannah Arendt talvez tenha se enganado ao ver em Adolf Eichmann “apenas” um funcionário medíocre e não o monstro que ele era realmente, além de um artista hors pair, capaz de mentir descaradamente durante todo o processo sem um piscar de olhos nem um pingo de arrependimento.
Jair Bolsonaro, outro mentiroso contumaz, talvez não tenha entendido o recado dos jornalistas, que o fato de organizar uma aglomeração em meio à pandemia era um mau exemplo. Ou talvez se comporte assim por incapacidade de diferenciar o bem do mal, que nos guia desde Adão, Eva, deus e a serpente.
Um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concluiu que ao menos 10% dos casos de covid-19 no Brasil se devem aos atos e palavras do presidente. Municípios bolsonaristas têm quase 30% mais casos de infecção que os demais.
Talvez Jair Bolsonaro sofra de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional. Ou de esquizofrenia, por ter tido uma aprendizagem deficiente da expressão dos sentimentos na infância e adolescência, no seio familiar. Ou seja, um psicopata perverso. Pouco importa o diagnóstico, para o Brasil e os brasileiros só interessa o resultado … catastrófico.
Do ponto de vista filosófico, a banalidade do mal, tal como descreveu Arendt, deve-se assim a uma “ausência de pensamento crítico”. O que parece ser o caso do presidente e de seus seguidores. No período nazista, poucos foram aqueles que pensaram por si mesmos e souberam distinguir o bem do mal, agindo de acordo com estes conceitos.
Mas a maioria preferiu ignorar o imperativo categórico kantiano dos princípios morais que devem ser observados incondicionalmente.
Para a filósofa-jornalista, o fato de “não pensar” não constitui uma fatalidade imposta por uma força externa insuperável. É antes o resultado de uma escolha pessoal.
“Pensar”, escreveu, “é uma faculdade humana, seu exercício é responsabilidade de cada um” – tanto no caso de Adolf Eichmann, como no de Jair Messias Bolsonaro.
Ambos parecem incapazes de formular julgamentos morais.
Assim também, os apoiadores e próximos de Hitler optaram por desistir do pensamento crítico para seguir irrefletidamente seu líder, da mesma maneira que os fanáticos de Bolsonaro.
Na “Banalidade do Mal”, Hannah Arendt conclui que o fato de abandonar voluntariamente a capacidade de pensar não faz de alguém um inocente, ao contrário, é um fator agravante: os crimes de Eichmann são portanto imperdoáveis. Ao que eu acrescento: os de Bolsonaro também.
O Preço da Democracia – Ouvir Osmar Terra
A democracia tem seu custo. Não é um sistema capaz de causar no indivíduo a sensação de plenitude ou perfeição. Até por que, não se destina a agradar indivíduos. Ela existe para que o grupo por ela regido sinta-se seguro e em paz, ou em condições de mantê-la. Assim, pobre daquele que depositar suas esperanças de plena realização pessoal dentro desse sistema. As chances são mínimas. Pode sim, ser feliz. Mas não na plenitude. Sempre algo estará incompleto. A parcela da diferença, da dissidência, a parcela do desejo conflitante com o diferente ou divergente que foi sacrificada em nome do pacto coletivo, da negociação.
A democracia é construída sobre vários pilares que são os sistemas de valores e de conhecimento. Entre eles, os sistemas autorizativos de ensino que delimitam as profissões. Você tem o diploma de engenheiro que te habilita a construir um edifício por que esta autorização foi regulada por lei e vinculada a um sistema de ensino no qual você deverá continuamente provar sua capacidade de entendimento, aprendizado e expertise nas múltiplas facetas do conhecimento que permitem que um edifício seja construído, que atenda as necessidades para as quais se destina e que, acima de tudo, fique em pé.
Um edifício – físico ou simbólico – só fica em pé quando seus sustentáculos e alicerces existam e funcionem exatamente como os termos os definem: sustentáculos e alicerces. No simbólico, essas estruturas representam todo o conhecimento adquirido, testado e universalizado de forma que jamais tenham falhado, seja fisicamente ou no plano teórico.
A democracia moderna parte de um pressuposto não explícito de que a ciência é a fonte do conhecimento aceitável para a maioria dos que vivem sob suas luzes. Assim, embora seja saudável e construtivo que o conhecimento seja desafiado permanentemente como forma até de torná-lo mais sólido, mas os desafios ao conhecimento científico só são válidos se conseguirem apresentar resultados experimentais e práticos diferentes a partir dos mesmos pressupostos e métodos ou a partir de matrizes teóricas de raiz comum. Não é possível, por exemplo, contestar a Relatividade de Einstein sem contestar junto o Eletromagnetismo de Maxwell. E como até hoje tudo funcionou exatamente como previram as duas teorias, para demolir este edifício haverá de voltar ainda mais atrás, destruindo os sistemas de Galileu, Newton e Copérnico.
Neste cenário, aparece Osmar Terra, que publicamente e sem qualquer pudor apresenta seu sistema próprio de “conhecimento” sobre epidemias e pandemias, exatamente como aquele insatisfeito que descrevi parágrafos acima, para o qual o conhecimento que não satisfaz as necessidades e desejos pessoais pode e deve ser contestado tendo como base apenas a concepção do indivíduo, que da forma mais deselegantemente sofismática constrói sua teoria sobre fragmentos do estabelecido, e com esses fragmentos tenta montar uma imagem como um quebra-cabeças impressionista, que visto à distância pode parecer um Van Gogh, mas na proximidade não passa de rabiscos desconexos e sem significado próprio.
As argumentações de Osmar Terra sobre o “fracasso” do isolamento social não resistem à primeira camada de análise lógica, física e matemática. Não obstante, ele as apresenta com toda a empáfia e fleugma própria de uma grande academia de ciência britânica. Chega a ser chocante e revoltante o fato de uma rede como a Globo dar voz a este senhor, ainda que em contraponto com o ex-ministro Mandetta e o ex-ministro Humberto Costa, claramente harmonizados com o sistema democrático de conhecimento.
O perigo é a percepção, por parte da audiência, de que o debate posto é um debate legítimo, e que “temos que ouvir todas as opiniões” em uma democracia. Aí, o grande sofisma. A ciência só admite opiniões sobre o que ainda não foi testado ou conhecido. Não se opina sobre a virologia, sobre fisiologia, sobre farmacologia ou anatomia. O que pode-se fazer é apresentar resultados obtidos sob rigor metodológico e técnico.
O brasileiro comum costuma valorizar pessoas “de opinião”, parece ser um valor em si mesmo para certos segmentos de nossa sociedade. E aí jaz o perigo. O diferente, o minoritário, ainda mais aquele se se acusa vítima do “marxismo cultural” e de uma abstrata “ameaça comunista” que seja lá o que for só é percebida como ameaça real, motivando então uma credibilidade quase imediata.
Da mesma forma que Osmar Terra quer “enterrar” o sistema de conhecimento da democracia sob o pretexto da liberdade de pensamento e expressão, Olavo de Carvalho e toda a turba de seguidores embarca na aventura de demolição da nossa sociedade, onde cada um de seus agentes cuida de destruir algum setor do conhecimento, seja na história, na sociologia, na filosofia, e mesmo na física, matemática, medicina, direito, entre outros.
E aqui, entramos no nebuloso terreno dos limites a serem estabelecidos ao que chamamos de liberdade de pensamento e expressão. Certamente, a experimentação vem mostrando que nossa democracia não resistiu ao terraplanismo. Até a presente quadra, o preço da democracia está se tornando demasiado elevado.
Ou a democracia se reforma no sentido de fortalecer suas bases, ou será destruída quando a maioria das pessoas se convencer de que não quer pagar este preço. Fica para os historiadores e os cientistas políticos a fundação de uma nova ciência para a democracia: a imunologia democrática. Como criar anticorpos e vacinas para criaturas como Osmar Terra e Olavo de Carvalho.
NN
