Saudades de Sampa

Sua face, que tenho de lembrança, o tempo vingou na memoria

Do leite em pote de vidro deixado às portas das casas na infância

Ao som dos canhões emudecidos pelas flores que restaram pelo caminho

Na bola que sela o jogo da vida, mas cala o cárcere subterrâneo que mata

Onde crescem homens e mulheres ecoando distantes navegantes

Por sobre a impotência incandescente, que perpassa a desigualdade social

Em tentáculos que se expandem, como tumores, nódoas sujas de concreto

Respeitemos a morte de quem lhe tiramos a vida, nós, os algozes

A ilusão de um suposto progresso, que encubra um farsesco engôdo

Megalópole, por excelência, me curvo aos seus excêntricos desígnios

Onde faço prumo meus consolos, de muitas recordações registradas

Soubera eu, tampouco não quisera, parte de mim sempre serão.

A liberdade de um rio

Nasci rio

Trago em mim toda essa liberdade

Não conheço fronteiras

Me recuso a ser contida!

Não me traga barreiras

Que castrem os meus sonhos

Que delimitem o que sou

As águas desse rio

Não foram feitas  para cisternas

Se não sabes nadar

Ou sequer, navegar

Que digas um simples adeus

Porque o rio precisa seguir

Mergulhar em mares e oceanos

Espalhando cores diversas

Aromas marcantes

Despertando paixões, ao fazer dueto coma lua

Encantando os amantes

Molhando rostos em forma de chuva

Seguindo o ciclo, ou fazendo curvas

Como orvalho, umedecendo beijos

Molhando os desejos…

E depois de um dia

Corro desfazendo as margens

Desemboco feroz numa cascata

E finalmente me rendo

Ao tanto de amor contigo nessa poesia.

Quarentena e Exílio

São madrugadas tão longas

Que precedem esses dias intermináveis

São emoções sufocadas

Que eu gostaria de expressar

Mas nada descrevo como desejo

Não passam de suspiros

Quiçá um esboço,

De tudo que eu preciso falar

É tanta quarentena para amargar

São tantos sonhos para retardar

E o tempo se faz lento no exilio

E não há sol de primavera

Que dissipe essa solidão

Há uma profusão de cores em tantas flores

Que podia ser sonho, mas parece desamor

São portas fechadas

Asas quebradas

Silencio que ecoa

Enquanto eu preciso voar…

Há emoções em turbilhão

E um amor para encontrar

Tudo se faz em urgência de chegar

Mas a realidade me diz

Que ainda estou cá

Presa nessa madrugada sem fim

Que tenta suprimir os meus anseios

Mas eu insisto

Pulo, danço, e rodopio

Escrevo outras palavras

Construo outra rima

Que mesmo sendo pobre

Ainda consegue traduzir um tanto de liberdade

Quando contemplo o por de sol, nas margens do Tejo.

Flutuo nas asas da imaginação

Sinto-me numa tela de Rembrandt

Mas tenho traços da mulher descartada por Picasso

Se lá existe uma cama tão quente

Por aqui, as noites costumam ser frias

Já não sei se quero ser essa gaivota que sobrevoa o rio

Ou apenas a musa de tua poesia.

Conversando com Erich Fried sobre a Israel de hoje

Erich Fried (1921-1988) é um dos mais importantes e interessantes poetas de língua alemã de todos os tempos, e é também um artista que com frequência revisito, pois sua obra é extremamente rica e sempre me traz novas indagações e reflexões. Judeu austríaco de Viena, é um dos grandes representantes da ‘poesia política’ e foi um convicto esquerdista, sempre consciente sobre o mundo e as sociedades ao seu redor. Seu trabalho é repleto de questões identitárias e existencialistas e sua condição judaica é muito presente, seja de forma explícita ou implícita.

Eu poderia falar por horas sobre Fried – me identifico bastante com ele enquanto “judeu de língua alemã” – mas o intuito deste artigo é específico: quero trazer um de seus mais vigorosos e claros poemas (e que o coloca também em um rol de polêmica). Trata-se de ‘Höre, Israel’ (‘Ouça, Israel’), de 1967, que consiste em forte crítica às políticas israelenses frente os árabes. Este faz parte de um ciclo de poemas, todos com temática política, e foi publicado no ano em que foi escrito no tradicional jornal esquerdista alemão ‘Konkret’, que existe até hoje. Em 1974 o ciclo foi transformado em um livro, também intitulado ‘Ouça, Israel’.

Eu não era vivo em 1967, e não posso avaliar exatamente o quão realista era este poema naquela época. Mas sei que hoje, na Era Netanyahu, ele é infelizmente mais real e atual do que nunca. O verdadeiro artista muitas vezes antevê o futuro da sociedade, e acredito que Fried – caso tenha “exagerado” na época (como clamam alguns que o criticam) –, certamente (e de maneira quase profética) não criou nenhum exagero no que diz respeito aos dias de hoje.

Vamos ao poema. (Eu mesmo o traduzi e não sei se há outra tradução para o português, mas aproveito para dizer que não acredito em tradução de poesia. Como amante desta arte, penso que só se pode assimilar e compreender um poema plenamente em seu idioma original. Mas acredito que esta tradução funciona suficientemente bem para veicular ao leitor o conteúdo, que é o que mais nos interessa aqui.)

Ouça, Israel

Quando fomos perseguidos
Eu fui um de vocês.
Como posso continuar a ser
quando vocês se tornam perseguidores?

O anseio de vocês era
serem como os outros povos
quem os assassinaram.
Então agora vocês são como eles.

Vocês sobreviveram
àqueles que lhes foram cruéis.
A crueldade deles
permanece viva agora em vocês?

Vocês ordenaram aos vencidos:
“Tirem os seus sapatos”
Assim como o bode expiatório vocês
os lançaram no deserto

na grande mesquita da morte
onde sandálias são areia
mas eles não assumiram o pecado
que vocês quiseram lhes impor

A impressão dos pés descalços
na areia do deserto
sobrevive às marcas
de suas bombas e tanques.

O poema foi escrito em ocasião à Guerra dos Seis Dias. Em sua publicação Fried adicionou uma nota de rodapé que explica que na quarta estrofe ele se refere a um desagradável episódio ocorrido no fim do conflito: os egípcios capturados na guerra, ao serem libertados, teriam sido obrigados pelos israelenses a tirarem suas sandálias, tendo então de caminhar de volta às suas casas descalços sobre a quente areia do deserto.

Pois bem, com exceção desta quarta estrofe, que é muita específica sobre a guerra de 1967, todas as outras caberiam perfeitamente hoje no contexto do conflito israelense-palestino. Como escrevi acima, não vivi aquela época e não sei dizer se o poema era adequado (talvez alguém que viveu, possa dizê-lo). Mas vivo a época de agora, e infelizmente Fried descreve perfeitamente grande parte dos judeus de hoje (sejam de Israel ou da diáspora), quando afirma que “agora vocês são como eles (os agressores)” e quando lhes pergunta se “a crueldade deles (agressores) permanece viva agora em vocês (judeus)”.

Termino esta breve reflexão lembrando o(a) leitor(a) – seja ele(a) judeu/judia ou não –, que somente parte do povo judeu apoia a opressão israelense aos palestinos. Outra parte luta dia e noite contra ela e espera que ‘Shema Israel’ (‘Ouça, Israel’) possa um dia ser somente um clamor por Deus e não um grito angustiado de um poeta diante do terror causado por parte do seu povo.

Grande Fried, onde quer que sua alma esteja agora, minha resposta à sua pergunta “Como posso continuar a ser (parte do povo) quando vocês se tornam perseguidores?” é: Você pode sempre pôde e pode continuar sendo um de nós. É um dos que nos orgulham e não um dos que nos envergonham. Sua poesia permanece viva e sendo arma de resistência para ser recitada por nós nas batalhas de hoje. Obrigado, poeta companheiro. Es lebe der Widerstand! (Viva a Resistência!)

 

Alguidar

Um dia Cabral ensinou fazer poesia

Dizendo em um verso:

“Catar feijão se limita com escrever”

Foi uma aula para vida inteira.

Mamãe fazia com o feijão

O que Cabral fazia com as palavras

Os dois em lugares tão distantes…

Ensinaram-me exatamente, que poesia e feijão alimentam

Nunca tive apetite para comida, mas amava os livros

Mamãe fazia “capitão” algo como um bolinho de feijão

E goela adentro. Não fiquei desnutrida.

Esperneava, trancava os dentes. Nada adiantava, engolia.

O cuidado e a voz “já comeu?”

Acompanharam-me até o último dia em que ela respirou. Nunca descuidou.

Eu respondia que havia comido uma fruta.

Até hoje é assim, tenho dificuldade com alimentos

Mas as frutas são minha alegria e me salvam de inanição.

Hoje pensei nos poetas que estão partindo.

Com seus alguidares

Deveria ser proibido morrer

Mas todos falam: “É a grande certeza da vida!”

O estranhamento continua. A única incerteza é o dia.

O convite não vem pelos correios e nem por e-mails

Simplesmente chega de supetão com a cara deslavada

E na sua indiferença de sinto muito,

Você é o convidado do dia.

A dor se espalha, lembramos por muitos dias, depois quando ouvimos ou lemos uma música, um poema, um artigo, voltamos as lembranças.

E o velho tempo vai se encarregando de suas ocupações e quando menos esperamos já é sexta-feira.

O tempo e as lembranças

São cabeças envoltas em nuvens de algodão

Tantos sonhos esquecidos

Lembranças que se perdem

Outras tantas que insistem em ficar

Fragmentos de experiências vividas

De dores sufocadas

Cicatrizes profundas

O retorno ao ventre materno

A mão daquele pai

O aconchego do esposo

E a mãe que espera pelos filhos

Com a certeza de que eles virão

E elas serão salvas por essas mãos

Mãos de um amor guardado

Esperança que não desvanece

Uma espera que nunca termina

A cama que mesmo quente, não e a sua

É como se elas caminhassem pelas ruas

No vento gelado

No orvalho que umedece

E em lágrimas viscerais

Recolhem-se à posição fetal

Buscam nas memórias uterinas

O calor para esse frio final.