Um soneto e um quarteto para a mulher de vermelho e preto

há uma certa beleza e há encanto

nessas Mulheres que se vestem,

assim, de vermelho e, no entanto,

sem pressa, em prazer, se despem

                                      

nos corredores, bibliotecas, Cafés…

e levantam os braços em vitória,

e lutam, e dançam sobre os pés

como quem levita e faz história;

 

e, quando em preto, há poesia plena

na delicadeza dos toques em vermelho:

porque há luta sem ódio – luta serena,

 

luta constante de quebrar o espelho:

é vida somente de beleza preto-rubra

e, pois, que eu viva e ela se descubra

 

sempre, em cada rua, avenida, praça, vila, barro, sol e chuva,

com uma canção de amor – nenhum hino, marcha, ódio e grito

caminhando pelos mesmos sonhos: pra todos, o pão e a uva,

sem qualquer opressão, morte, choro, dor e espírito aflito…

 

© Pietro Nardella Dellova, 2010

Imagem “Sappho”, 1877 by Charles Mengin

Luto

Vamos falar sobre nascer e morrer

É sobre querer abraçar

Sabendo que é mister deixar ir

É respeitar o livre arbítrio

Ainda que a alma sangre

Como a mãe que se vê impotente diante de um aborto

E ainda ter que sobreviver às lembranças

Resguardando alguma esperança

De um dia, voltar a sorrir

É vivenciar o luto

Sem se permitir uma única lágrima

Enterrar os vivos é como cortar a própria carne

É amputar um órgão

Para salvar a vida.

Sentimentos em ebulição

Existem entre nós tantas distâncias

Elas são cronológicas, geográficas, sociais e religiosas

Mas os sentimentos desconhecem as regras

Interpõem-se ante as leis e dogmas

Rebelam-se diante dos preceitos e dos preconceitos

E desafiam os valores mais tradicionais

Foi assim que eu te pertenci

Quando simplesmente de chamaste de ”minha”

Um substantivo feminino que indica posse

Talvez, uma simples expressão, sem qualquer outra intenção

Porem fez-me levitar

E o sentimento que eu já suprimia

Agora quer gritar

Insiste em extravasar

Já não sei como disfarçar

Olho para si

E deparo-me com as convenções

E diante do espelho, vejo transbordar as emoções

Se de mim dependesse o ato

Iria envolver-te em meus braços

E na cadência de cada abraço

Entre sôfregos beijos e afagos

Prender-te-ia no meu laço

Nas entranhas do desejo

No fervor dessa lascívia

Para em seguida acolher-te exausto

Em meu corpo pleno de viver.

Segredos aos Teus Ouvidos

Ah… se teus ouvidos pudessem saber desse sentimento

Ele é tao parecido com o amor

Porém, não consigo decifrar

É encantamento

Um sentimento ainda indefinido.

Disseram-me que o meu olhar se perde no teu

Temi, por ser tão transparente

Mas o teu sorriso faz-me tremer

A tua gentileza faz-me estremecer

Olhar-te pura ebulição

Turbilhão de emoções

Nada é pequeno

É tudo tão intenso

Ainda que não seja consciente

Tu pouco sabes

Mas, quisera eu contar-te

Sobre esse amor que anda brotando

Que se expande e me invade

E por ele, eu ficaria nessa cidade

Sem pré-conceito

Sem contar a idade

Eu só iria mergulhar na felicidade

E então, eu gostava de te falar desse amor

Que anda a florescer.

Entre poetas

E nesse breve silêncio de minhas mãos

Busquei qualquer folha em branco

Em que eu pudesse expressar-me

Mas o branco mostrou-se tão vazio

Era preciso mais…

Então, percebi que necessitava do teu corpo

De poeta para poeta

Transpondo continentes

Rompendo qualquer barreira

E nas linhas de tua anatomia

Em verso ou prosa

Falarei de uma cama

Que nunca será fria

E entre sonhos, delírios e desejos

Escreverei em ti, a minha poesia.

Sobre a vida

Ela é fugaz

Carente de resoluções

De momentos singelos

Um por de sol

A explosão das cores primaveris

Respirar fundo em frente ao mar

Adormecer e despertar

Sem algemas

Punhos livres

Cabelos ao vento

Tendo apenas sentimentos como documento

Sem hora marcada

Vivendo apenas o momento

Ficar ou ir embora

Seguindo o ciclo lunar

Navegando em acordo com as marés

Perseguindo o sonho

Com a certeza de um novo dia

E que o sol irá raiar trazendo poesia

Não aceito a mão que oprime

Porque sou tudo o que a liberdade define