Feridas que sangram

Feridas que sangram

Existe uma ferida aberta no seio de minha alma
Que não para nunca de sangrar
Não me causa ira, sequer raiva pelo agressor
Só consigo sentir a dor
Que dilacera todo meu ser
Sinto esvair-se de mim toda a esperança que pode advir do amor
Já não enxergo a humanidade
Vejo-me cercada de zumbis
Seres sem sentimentos
Sem a menor capacidade de empatia
Se a cama é quente
A mesa é totalmente fria
Porque os zumbis não enxergam humanos
E são incapazes de sonhar e amar
Só sabem ferir e matar.
15/10/2020
9 de Chesvan, 5782


Promessas Rompidas

Promessas Rompidas

Sinto ciúmes de tuas ausências
Elas são misteriosas
Cheias de silêncios
Pré-determinados em acordos em comum
Mas ainda sinto as dores
Aceitar não garante isenção de sentimentos
Calar faz parte do contrato
Mas gritar esse amor
Pode ser o meu maior ato
Sem importar-me em ser patética
Afinal, como já dizia o poeta
‘‘Todas as cartas de amor são ridículas’’
Ridículas são todas as expressões de sentimentos
Expõem toda a frágil e piegas forma humana
Nos reduz ao que somos
Meros mortais
Seres sentimentais
Quem dera fossemos apenas animais
Vivendo cada cópula pelos simples instintos
Apenas sobrevivendo, e pouco sentindo
Mas tudo isso são apenas divagações
Pensamentos soltos
Ideias fragmentadas
E dentro de mim
Todas as juras quebradas
Jurei não sentir, e sinto…
Prometi não amar, e apenas amo!
20 De Tishirei, 5782

Atemporal

O que dizer desse amor tão persistente?

Que se esconde numa amizade

Mas que sempre reaparece e me faz contente

O que posso esperar desse sentimento que não respeita o tempo?

Que se encontra em tantas vidas

E sabe renascer como a fênix

Um amor que não carece de elos

Sem promessas ou certezas

Apenas persiste

Refloresce a cada estação

Ainda que não seja primavera

Sabe amadurecer com a elegância de um porto

Mas também traz a embriaguez de um Absinto

Como posso ser sóbria, com toda essa febre que sinto?

Confluências 

 Poderia ser um dia qualquer

Mas não era

E ela se vestiu de desejo

Perfumou o corpo e os cabelos

Inaugurou um sorriso único

E lançou-se no mar do amor

O amante era mistério

Tinha um discreto sorriso nos lábios

Mas ainda era sério

Veio o tesão e o cheiro de homem

Todo desejo do seu corpo

Seguido da resposta da fêmea

Que desabrocha em volúpia

Entre abraços e afagos

Lençóis perfumados

Corpos em luta

Numa busca insana pelo entendimento

No diálogo dos corpos

Tantas mensagens criptografadas

Toda uma história a ser decifrada

Um tanto de química, magia e poesia

Tatuagens marcadas em meu corpo…

E hoje sou esse poema

Que escreveste de forma irresponsável

Aleatoriamente…

Impunemente.

Mas que segue resistente

Sem cobrar por futuro

Apenas sendo presente.

Um soneto e um quarteto para a mulher de vermelho e preto

há uma certa beleza e há encanto

nessas Mulheres que se vestem,

assim, de vermelho e, no entanto,

sem pressa, em prazer, se despem

                                      

nos corredores, bibliotecas, Cafés…

e levantam os braços em vitória,

e lutam, e dançam sobre os pés

como quem levita e faz história;

 

e, quando em preto, há poesia plena

na delicadeza dos toques em vermelho:

porque há luta sem ódio – luta serena,

 

luta constante de quebrar o espelho:

é vida somente de beleza preto-rubra

e, pois, que eu viva e ela se descubra

 

sempre, em cada rua, avenida, praça, vila, barro, sol e chuva,

com uma canção de amor – nenhum hino, marcha, ódio e grito

caminhando pelos mesmos sonhos: pra todos, o pão e a uva,

sem qualquer opressão, morte, choro, dor e espírito aflito…

 

© Pietro Nardella Dellova, 2010

Imagem “Sappho”, 1877 by Charles Mengin

Luto

Vamos falar sobre nascer e morrer

É sobre querer abraçar

Sabendo que é mister deixar ir

É respeitar o livre arbítrio

Ainda que a alma sangre

Como a mãe que se vê impotente diante de um aborto

E ainda ter que sobreviver às lembranças

Resguardando alguma esperança

De um dia, voltar a sorrir

É vivenciar o luto

Sem se permitir uma única lágrima

Enterrar os vivos é como cortar a própria carne

É amputar um órgão

Para salvar a vida.