Bacimillebaci, porque há mulheres que portam a lua…

Bacimillebaci, porque há mulheres que portam a lua…

Há mulheres que são amadas. Mas, há aquela mulher muito amada – amada assim, de fotografar, de voar, de transpirar noite adentro. Amada de cantar e dançar, amada de não compreender, amada de gemer à distância, amada de resmungar. Amada de sorrir – e rir, gargalhar. Amada de não descansar. Amada na varanda, amada na cobertura, amada no sofá, amada no banquinho, amada à direita da cama, amada à esquerda da cama, amada aos pés da cama, amada ao lado da cama, amada sob a mesa, ao lado da mesa, na cadeira.

Há mulheres que são amadas intensamente. Mas, há aquela em que a intensidade é apenas um detalhe, porque ela tem o fio da feminilidade com o qual poetas não se perdem em seus labirintos!

Há mulheres que são amadas, tão amadas, que não importa qual o vinho que se leve à boca, elas serão sempre melhores. Porém, há aquela que por ser assim, tão mais amada, o vinho e a água se misturam em alquimia, porque é mulher que faz água na boca e vinho sob seus pés!

Há mulheres, muitas mulheres, mulheres amadas que cabem no bolso ou entre as páginas de um livro. Mas, há aquela que cria a sensação de que não cabe na eternidade, porque seus beijos acontecem apenas em cada um dos universos de cada pupila, de cada poro e de cada toque – é mulher-sol!

Então, são mulheres que se despem como se fizessem música, mas, há aquela que se despe na entrada (ou na saída) do aeroporto e nunca mais usa quaisquer tecidos, porque a ela foi dado o poder de ser música e poesia – a um só tempo. O poder de ir e vir, e de segurar na mão de deuses! Ela abre suas asas, seus lábios, seus olhos e vai escrevendo nas nuvens com o sopro de sua boca que existe um amor sem fim e um modo de amar sem fim, de um “tiamosenzafine” que mistura alguma nota de Piaf com a graça de Giorgia e a energia de Pausini…

Há mulheres com as quais amar significa, antes de tudo, dar sentido às letras, às notas, aos sons, aos parágrafos, aos paraísos. Mas, há aquela, assim, tão amada, que as letras, as notas, os sons, os parágrafos, vão se perdendo no paraíso da sua pele. Porque as mulheres amadas, as muito amadas, têm sua pele como tecido a ser beijado, mas, esta, além da pele a ser beijada, tem pintinhas, milhões de pintinhas, pintinhas que formam desenhos, e formam letras, e palavras, e caminhos. Pintinhas que levam aos seios, ao fogo, ao abdômen, às costas e, por isso mesmo, os beijos se multiplicam e se tornam uma bênção única e indecifrável!

Por isso mesmo aquelas mulheres amam, mas, esta, ama e abençoa, porque o seu amor é uma unção, um nascer, um curar, um colorir, um florir. Com aquelas se buscam flores e com esta planta-se um jardim!

Há, enfim, mulheres cujos beijos marcam como fogo em um instante. Mas, há aquela, cujo beijo não termina, beijo multiplicativo, beijo que une todos os cantos do mundo e os cantos da boca, beijos mil beijos em um, “beijosmilbeijos” que partem a terra ao meio!

© Pietro Nardella-Dellova, 2010

O Lupanar da Solidão

O Lupanar da Solidão

Neste lupanar

O som de um espasmo no ar

É rua 18

Casa 1938

A porta aberta

Sugere mistério

A rua deserta

É um eterno sacrilégio

Não tem vida,

Não tem dramaticidade

nem dor

é um lupanar

sem amor

que a solidão

esta a gozar

gozar com despudor

Palavras

Palavras

Já é Outono, o tempo começa a esfriar

Mas nada é tão frio quanto algumas palavras

Emoções verbalizadas

Sentenças decretadas

Sonhos desfeitos

Pesadelos de solidão

É como se eu de repente

Despencasse do alto, em queda vertiginosa

Em direção ao nada

Mergulhando num vazio de emoções

Caminhando nesse escuro

Tropeçando nas tuas verdades

Debato-me e firo-me

Ou sou ferida

Isso já não importa

Nada me conforta

E o coração apenas sangra

Numa hemorragia perene

Até que em algum momento

Ele já não pulse

Yin Yang

Yin Yang

É preciso falar sobre o nosso despertar a cada amanhecer

Sobre a confluência de nossos corpos

Tal como Yin e Yang

A cada toque, é como se quiséssemos nos perpetuar um no outro

Como tatuagens sagradas

Com eternas marcas de amor

Esse desejo de ficar para sempre

Mesmo tendo que ir

Traz-me a certeza da urgência

De que é preciso voltar

E no momento tão esperado

Me lançar em teus braços

Como um rio que se une ao mar.

17/08/2021

A liberdade das letras

A liberdade das letras

Eu gostava de poder gritar o meu amor

Mas não me permites

De sorte que tenho a poesia

É através dela que liberto os meus sentimentos

Tu és o silêncio que me reprime

Escrever tira-me a mordaça

Tornas-te impotente diante do poder libertador das letras

Amo-te, e grito aqui

Onde tantos me ouvem

Uns choram

Outros encantam-se

Mas consigo tocá-los através do que sinto

O campo das letras é libertário

Aqui eu posso dizer que te amo

Consigo desenhar o teu corpo sob meu domínio

Em todas as noites em que és tão meu

Aqui eu posso gritar o tanto que eu sou tua.

28 de Elul, 5781

Um lamento de despedida

Um lamento de despedida

Como se fosse uma terapia
É preciso falar dessa dor que anestesia
Das palavras e atos que dilaceram a alma
Que destroem os sentimentos
Já não chegam lágrimas aos olhos
As lâminas de tuas palavras já não me fazem sangrar
Apenas sinto um frio que invade o meu ser
Como se eu me ausentasse de mim mesma
E observasse tudo como em uma tela
Uma pintura semelhante ao inferno de Dante
Ou A mulher sentada sobre os cotovelos de Picasso
Do sonho ao pesadelo
Do amor ao desencanto
Mas já não existe pranto
Ficaram essas palavras que expresso como se fosse um canto
Um lamento e uma despedida.
14/10/2021
08 de Chesvan, 5782