Cosme de Farias, Cangaço, Galeno e Make Up

Se entrega, Corisco!
– Eu não me entrego, não!
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
– Se entrega, Corisco!
– Eu não me entrego, não!
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão

Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
– Se entrega, Corisco!
– Eu não me entrego, não!
(Mais forte são os poderes do povo!)

Chegamos ao tempo do descaro (descaso?) total. Um horizonte de cretinos ganhou vez, proclamam livremente suas ignomínias. Escrevo isso depois de ler “Somos uma democracia racial”. E a criatura ainda se deu ao trabalho de dissertar nos moldes de Aquarela do Brasil. Minha vontade? Mandar essa aberração para o gramado da Alvorada, para pastar junto ao seu líder, acabando com o verde de Brasília e receber uma puta multa do comunista Companheiro Ibaneis.

Enquanto nos Estados Unidos a estúpida e covarde morte de George Floyd revela que stranger fruit perdura, não é passado, causando comoção mundial, por outro lado o extremismo sai dos esgotos.Vimos cidadãos estadunidenses protestarem contra, mas tivemos a oportunidade de ver também o outro lado da moeda. Em proporções mundiais.

Não me sinto a vontade de falar com propriedade do racismo. Para isso existem pessoas que estudam profundamente a questão e que vivem esse horror na própria pele todos os dias. O que faço é ensinar à minha filha que ela é privilegiada por ser branca, por estudar em bom colégio, já saiu na frente de várias pessoas que são tão ou mais inteligentes que ela. Apesar de ser judia, o que é um diferencial, o espírito de minoria é sempre bom ser lembrado, aqui no Brasil ela não vai ser seguida nas Lojas Americanas, não vai ser parada numa blitz com uma arma na cabeça, e que se coloque no lugar do outro. E não se cale ao ver injustiças. Se em alguma coisa meus pais acertaram foi me criar assim, passemos pra frente.

Como se fosse pouco,  estamos em meio a uma pandemia, uma crise governamental insana e o resto nós sabemos.

Nesse ambiente pesado, fui em socorro da Alice, a menina da lógica, do xadrez e dos números, ajudá-la em História. Duas horas e meia falando sobre Revolução de 1917, bolcheviques,  Romanovs, para no fim eu perguntar:

“O que Stalin fez com Trostky para ele ser expulso do partido e da Rússia?”

Resposta: “Ah mãe, umas manobras aí nada a ver”

Lembrou-me o livro de Moacyr Scliar, Dicionário do Viajante Insólito. Ele narra o esforço de reportagem que fez para ver no Cemitério Highgate , na Inglaterra, o túmulo de Marx. Acabou chegando tarde, a idosa guardiã da sepultura fez valer a pontualidade britânica e fechou a porta na cara dele. No dia seguinte, seguiu para o túmulo de Karl. Moacyr emocionou-se. Conseguiu captar a teoria e a paixão naquele corpo que jazia. Diante desse momento ímpar, seu filho lhe pergunta duas coisas: “Que horas a gente vai comer? E quem era mesmo aquele cara que eles tinham acabado de ver?”

Tirei a mesmíssima conclusão.”Se a história não chegou ao seu fim, está perto”

Isso bastou para que eu, professora de literatura histórica, nunca revele o exemplo doméstico que tenho em casa sob pena de não conseguir emprego em lugar nenhum.

Para distrair, fui para um grupo que recém-entrei sobre a Bahia. Antigas paisagens, fotos de pessoas interessantes da história do estado. Descobri que Maria Theresa de Medeiros Pacheco foi a primeira mulher legista do Brasil, única diplomada em Sexologia no exterior, e a única do mundo a dirigir um Instituto Médico Legal. Baiana, claro. Vi Maria Odila Teixeira, primeira médica negra no Brasil, primeira professora na Faculdade de Medicina, em 1909.

Eis que me deparo com a foto de um mulato, magro, olhar firme, Cosme de Farias. Não havia legenda, apenas muitas curtidas. Claro, a única ignorante era eu. Ele deu o nome a um dos bairros mais violentos de Salvador, isso era o que significava para mim.

Fui pesquisar. Pobre, nascido no subúrbio soteropolitano, em 1875. Apenas concluiu seu primário, mas lembrando que nasceu numa sociedade antes da abolição da escravatura, seu papel foi fantástico. Durante 70 anos, trabalhou no Jornalismo e na Literatura, lutando por melhores condições de trabalho aos desfavorecidos.

Atuou como parlamentar, ficou conhecido como Major, título recebido pelo 224 Batalhão de Infantaria, em 1909. Começou sua carreira política em 1910 e permaneceu parlamentar até 1972.

Autodidata, habilmente dedicava-se ao jornalismo e à poesia popular. Defendia as causas sociais como reinserção dos presidiários na sociedade através da alfabetização. Ingressou na imprensa graças a Amaro Lelis Piedade, diretor do Jornal de Notícias, abolicionista e estarrecido com a história de Canudos. O Estatuto da Criança e do Adolescente só surgiu em 1990, mas Cosme debatia calorosamente sobre a reeducação e a inserção social dos menores infratores. Foi membro fundador da Associação Baiana de Imprensa.

Ele era um rábula. Um Advogado que não possuía formação acadêmica de Direito, obtinha autorização do Poder Judiciário ou entidade de classe (1930-OAB) para a primeira instância, a postulação em juízo.

Conhecido como advogado dos pobres e dos desvalidos, lutava pelas pessoas em maior vulnerabilidade econômica e social  e depois por grupos específicos, como mulheres, negros, homossexuais e presidiários.

Humanista no sentido mais lato da palavra. Não podemos, porém, fechar os olhos ao fato dele ser um homem de seu tempo. E, como parlamentar, tinha ciência da estrutura vigente, o poder estava nas mãos de quem tinha o poder financeiro. Errou e acertou.

Julgar o passado com os olhos de hoje, constitui tentação fácil. Lembremos que ele era um homem nascido no século XIX. Não transformou o Estado, mas deu rumo à vida de muita gente.

É importante ressaltar, ainda sobre Cosme, que há 102 anos, no surto de gripe espanhola na Bahia, que a história não se repete como farsa e sim que a farsa se repete como história. Em 1918, os médicos que honravam seu juramento entraram em contenda com os políticos para que os verdadeiros dados fossem divulgados, subnotificações corriam soltas, a classe dominante pregava a volta às fábricas para “rodar” a economia. O quinino não era remédio mágico (cloroquina) e podia piorar o estado do doente. Cosme de Faria, ao lado dos médicos e da imprensa decente (opa! consórcio!) era uma voz que ia contra os poderosos.

Das histórias de Cosme, uma que me surpreendeu, foi a da defesa feita por ele de Sérgia Ribeira da Silva, a cangaceira Dadá. Conseguiu seu habeas corpus.

Cangaço é assunto para lá de polêmico. Há quem chame os cangaceiros de bandidos cruéis, há quem os endeuse. Em seu início, que antecedeu Lampião, surgiu como um ato de rebeldia contra os coronéis e os latifundiários. Com a ascensão de Lampião, a organização vai adquirindo outra feição.

Dadá e seu marido Corisco possuem um significado especial para mim. Garotinha de 8 anos, assisti com meu pai a “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Sim, infância década de setenta, hoje ia para o Conselho Tutelar. Minha opinião de criança? Chato e amedrontador. Antes que me apedrejem com comprimidos de ivermectina, reconheço a grandeza do Cinema Novo e quem sou eu para duvidar da genialidade de Glauber? Talvez agora, 4 décadas depois, eu consiga enxergar o barroco hiperbólico glauberiano.

Bem, um filme lançado em 1964, em pleno golpe militar, falando desse Brasil profundo? Tem seu valor. Só não peçam para eu gostar de Godard, fui numa sessão especial já adulta de “A Chinesa” que meu pai, ao me ver roncando,   desistiu de me aplicar a Nouvelle vague.

Sobre o filme de Glauber, uma cena ficou marcada na minha cabeça e nos meus pesadelos. Para sempre. Antonio das Mortes matando Corisco. De tal forma que anos atrás, aos 22 anos, fui com um amigo no show do Sérgio Ricardo no auditório da ABI. Éramos os únicos jovens na platéia. E cantávamos com tanto entusiasmo que emocionamos o cantor. Olhar de ternura a gente não esquece.

Muito se fala sobre a presença das mulheres no cangaço. As únicas que participavam efetivamente da pistolagem eram Maria Déia e Dadá. Ser cangaceira não era sinônimo de liberdade feminina. Inclusive mulheres adúlteras eram assassinadas ou marcadas com ferro na face. A vida delas era mais tranquila porque poderiam escolher cozinhar, bordar, costurar se quisessem. O aumento de mulheres no bando, calcula-se de 50 a 60, reduziam os episódios de violência nas invasões.

Com Getúlio no poder, a vida do cangaço estava nos estertores. Houve uma imensa atuação de forças especiais da polícia e apareceu um novo elemento na mão dos volantes: a metralhadora. Como se sabe, em 1938, parte do bando de Lampião, 11 pessoas, foi morta e degolada. Maria Déia (que recebeu de seus algozes o nome de Maria Bonita) foi decapitada viva. Aos 27 anos. Como esquecer aquele espetáculo pavoroso das cabeças em exposição?

Corisco fica no lugar de Lampião, mas acaba sendo assassinado. Só Dadá escapou.

Bem, para que toda essa volta? Fui fazer uma pesquisa  e acreditem: dei de cara com uma página de estética do cangaço. Pra começar, eles gostavam de um brilho. Lampião era exímio artesão e não é porque você está no Raso da Catarina que vai deixar de usar sua gravata de seda inglesa, tá? Uma das condições para entrar no bando era saber costurar. Banhavam-se de perfume francês na falta de água e até os cavalos eram agraciados. Quanto amàs mulheres, era obrigação dos homens ornarem-nas. Assim, todo mundo ficava alegre. Tava em Serra Talhada, mas divando. Recebiam vestidos importados, estilão década de 30, jóias (opa!) e, o mais importante: MAQUIAGEM. Lendo sobre a estética do cangaço, vi que o must era batom vermelho sangue. Para quem não sabe, Galeno, o fodástico médico e filósofo (129 DC), romano de origem grega, cujas teorias dominaram e influenciaram as ciências médicas durante mil anos, distinguiu veia de artéria, sacou que era do rim que rolava a urina, só foi desbancado por Harvey, que provou que era o coração que bombeava o sangue (em 1628), e que  também filosofava nas horas vagas… Mulheres, saibam disso toda vez que forem pavimentar uma creca na cara: o médico e filósofo romano Galeno inventou um creme à base de água, cera de abelha e azeite de oliva. A BASE!!! Queria ter sido amiga dele. E um outro ponto do make que achei interessantíssimo no site: Cílios dramáticos. Seja lá o que for isso, me lembrou bem novela mexicana, devia ser interessante. Adoro maquiagem forte, não saio sem um batom escuro. Wilde disse que “A Vida é Um Palco, o Elenco que é Lamentável”. Mas vamos combinar, mesmo no sertão do Cariri, a coisa melhora com uma maqui.

Para fechar esse texto, eu queria dizer uma coisa. Vi pessoas reclamando que o Nosso General da Saúde convidou 12 colegas para participar do grupo dele e nenhum deles é médico. Mores, lembram que o Ministro da Saúde do Temeroso era engenheiro? A gente só foi lembrar que ele existia quando a galera foi pra porta da igreja que a filha dele casou jogar ovo na noiva. O Teich era médico? Gente, não sabemos nem se ele tava vivo. Médico pra quê? Vocês tão pedindo demais. Agora, o que realmente me deixa puta ao olhar o currículo de cada um, era o básico para o cargo que eles estão locados exigia: NÃO TEM UM FORMADO EM MAQUIAGEM. Sei que não podemos exigir muito, nem  precisa ter certificado carimbado de curso especializado do SENAC. Até aquele cursinho vagabundo de um dia no Boticário ou na Coty tá valendo. Acho que precisamos pedir uma petição para Avaaz. Se é pra maquiar, que seja profissa. FIM.

Maracanã, 70

Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra (Eliane Brum)

Dava para ir a pé, a excitação do jogo começava na caminhada. Passava pelo quartel da Polícia do Exército, de triste memória, margeava o muro do Colégio Militar, desembocava numa avenida sangrada por um rio anêmico. Metros adiante e a agitação de torcedores mergulhava em bilheterias precárias. Em dia de clássico, contorcionismo para comprar o ingresso. Subida rápida pela rampa, primeiras gozações dos adversários, entrada num pequeno túnel, geralmente impregnado de odores suspeitos, e, por fim, o manto verde que abraçava o Menino e abria as portas da arquibancada. Chega pra cá, empurra pra lá, desvia do Mate Leão, da Kibon e da Geneal, e o balé de chuteiras começava no Maracanã.

O velho estádio completa 70 anos. Nasceu como abre-alas de um projeto ufanista, a provar que estávamos prontos para entrar na primeira divisão das nações. Sediar uma Copa do Mundo, e sobretudo ganhá-la, seria a senha para dar-nos o status que supostamente merecíamos. Sabemos no que deu. Pois é, no dia 16 de julho de 1950, uma tarde ensolarada, quase dez por cento da população do Rio testemunharam ao vivo o Maracanazo. Fruto de uma combinação azeda de soberba, intoxicação política e de uma atuação técnica impecável da seleção uruguaia, comandada por “El Jefe” Obdulio Varela, o onze brasileiro caiu por dois a um. Parecia confirmar-se a maldição de que este país jamais poderia dar certo. José Lins do Rego, que, à diferença de seus contemporâneos escritores, adorava futebol, disse: “Vai um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais do que derrotado, sem esperança”. O Maraca nasceu violentado por uma tragédia, batizado de silêncio. A história seguiria outros caminhos.

Minhas memórias do estádio são em preto e branco. Sempre frequentei a arquibancada, espaço simbolicamente reservado ao pessoal remediado, que não precisava se espremer nas gerais e não tinha como pagar o preço das cadeiras numeradas. Quase nunca o Menino foi acompanhado aos jogos. O Pai jamais falava de futebol. A única vez em que senti sua presença na arquibancada foi num memorável Fla x Flu, talvez ainda nos anos 50. É dele a lembrança de uma jogada genial do Dida, atacante do Flamengo e titular da seleção de 1958 até a erupção de Pelé. O jogador estava na intermediária rubro-negra, levantou a bola, dominou-a na cabeça e, esperança equilibrista, foi quicando com ela até quase a área adversária, sem ser abalroado por um carniceiro, como seria nos dias de hoje. Pequena obra de arte, que gostaria de comemorar com um abraço no Velho. Que não aconteceu.

Afonsinho, pioneiro da luta pelo passe livre, dizia gostar de jogar na chuva. Era quando podia sentir o cheiro de terra molhada. No dia 15 de novembro de 1963, ano em que o Flamengo saiu da fila de 8 anos sem ganhar o campeonato carioca, choveu muito. Os planos do Menino ir ao Maracanã assistir o Clássico dos Milhões pareciam naufragar nas poças. Resolveu encarar o aguaceiro. Na arquibancada, desfalcada pelo mau tempo, viu um dos melhores jogos de sua vida. O Flamengo virou um jogo quase perdido e venceu o Vasco por quatro a três. Placar de pelada, grama amigável, alma e pés lavados. O cimento da arquibancada, quem diria, nunca foi tão confortável.

Impossível dissociar as imagens do jogo das vozes que o transmitiam. O torcedor com radinho de pilha grudado no ouvido tem destaque na galeria de tipos que frequentavam o Maraca. Não bastava olhar a partida, era necessário confirmá-la pelas ondas do rádio. Nas cabines, os caras que inventavam o que estava acontecendo. Inventar no espírito poético do Manoel de Barros. Ary Barroso, Flamengo roxo, com sua gaitinha, narrava as jogadas sem esconder a paixão clubística. “Ih, não quero nem olhar !”, exclamava quando o ataque adversário dava sinal de vida. “Graças a deus foi pra fora !”, suspirava aliviado quando o chute saía pela linha de fundo. Waldir Amaral e Oduvaldo Cozzi, dois lordes, discretos, não enfeitavam a locução, mas lhe conferiam um ar respeitoso sem esquecer o terreno boleiro que pisavam. Waldir foi craque na criação de bordões. O meu preferido: “Está deserto e adormecido o gigante do Maracanã”, que dizia ao final de cada partida e após os comentários do João Saldanha ou do Luiz Mendes.

O estádio acessível a qualquer um, embora com níveis muito diferentes de comodidade, desapareceu. Os geraldinos foram banidos, soterrados por ingressos com preços inacessíveis. Com visão limitada do campo, faziam da partida uma festa que transcendia a competição. Tipos folclóricos, fantasiados, gaiatos, sentiam-se parte da celebração geral, sentimento interditado na sociedade excludente fora do estádio. Minha sensação é de que o Maracanã envelheceu mal. Fez algumas plásticas, engrenou um jeito boutique de ser, tornou-se distante das grandes massas que justificaram sua construção. Torcedores vindo de subúrbios distantes, saindo do trem e correndo eufóricos para o estádio, talvez a única alegria da semana, é agora imagem de museu. A arte e a beleza da comunhão entre torcidas e times deram lugar a um padrão elitizado, utilitário, monetizado, gourmetizado.

Geração 20

Talvez esteja nascendo a “Geração 20”, uma geração de jovens antifascistas e antirracistas. Dia 7 de junho houve manifestações em pelo menos vinte capitais brasileiras, é a sétima manifestação seguida, e a cada semana se ampliam. Creio que a divulgação é ainda pequena, afinal, pode estar nascendo o mais importante movimento contra o conservadorismo do século XXI. Interessante como os jovens começaram a se organizar em plena pandemia com capacidade de ir à luta por eles e por nós. Vão à luta nas ruas com máscaras, cuidando-se, porque entenderam que as ruas não podem ser dominadas pelos automóveis que apoiam o desgoverno. Esses são os indiferentes a morte de mais de quarenta e um mil brasileiros pelo covid 19, porque falta um Ministério de Saúde competente. É chocante ver Trumpete e seu pai Trump dizerem que os jovens defensores da democracia são terroristas. Eles odeiam as lutas desta geração, que fortalece o frágil humanismo em tempos mortíferos.

Lembro a geração de 68 que em 2018 foi motivo de recordações pela passagem dos seus cinquenta anos. Aqui em Porto Alegre, essa geração não tinha mais do que centenas de jovens, sem apoio das mídias, pelo contrário. Portanto, a vanguarda de uma geração faz história, são os que sonham, não se adaptam à vida como ela é. Nas passeatas daqueles tempos não era fácil reunir gente. A reunião era na frente da velha faculdade de Filosofia, liderada pelo “DCE Livre”, e a caminhada era para o centro da cidade com cânticos como: “Povo unido jamais será vencido”. Numa das passeatas gritamos: “É pacífica, “É pacífica”, mas a Brigada não escutou, estava condicionada a bater e terminar com as manifestações de qualquer forma. Foram tempos de luta, poesia e amor; valeu a pena viver a vibração daqueles dias, mais sonhadora que hoje, mas mais distante da realidade.

Já são sete semanas seguidas de manifestações, cresce o entusiasmo dos jovens que caminham com bandeiras e máscaras na defesa de uma sociedade mais justa. Ao mesmo tempo nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd desencadeou um intenso movimento antirracista. Lá também nasce a Geração 20, que aos poucos se acorda e vai à luta. Talvez ainda sejam escritos livros dessa geração cuja energia de frente ampla com grupos democráticos está marcando a História. Os jovens lutam por uma sociedade mais justa e mais humana porque senão o amanhã será mais sombrio. São grupos das torcidas de futebol, de universitários, jovens de esquerda, de centro. Alguns dos cartazes estampam: “Todos pela Democracia”, “Bolsonaro terrorista é você”, “Preto unido Preto vivo” vão às ruas todos domingos.

Aplaudo a rebeldia da “Geração 20”. Essa juventude segue uma velha tradição histórica da rebeldia dos profetas bíblicos que lutaram pela justiça e pelo amor do “Cântico dos Cânticos”. São os que não atacam a natureza, defendem a educação, a saúde para todos, e são contra o racismo e o autoritarismo crescente. Têm lado, não estão do lado das milícias, nem dos que dão condecorações a elas. São contra o terror, por isso são atacados pelas Forças Desalmadas, mas sonham em recuperar o Brasil que vem sendo destruído. São sonhadores sim, pois sem imaginar o amanhã, sem sonhar que outro país é possível, não haverá chances de um futuro melhor. Tinha concluído a Geração 20, mas faltava um relato fidedigno do que vem ocorrendo exatamente nas ruas. Felizmente encontrei no site e no face do “Psicanalistas pela Democracia”, um artigo sobre o dia sete de junho de 2020 em São Paulo. Foi escrito pelo amigo Psicanalista Paulo Endo professor da USP:
“Estive em muitos cenários que levaram ao ato do último domingo e, para mim, em nenhum momento tal ato pareceu suicida, intempestivo e inventor de mártires. Foi um ato espontâneo que começou com trinta pessoas e, semanas depois, tomou o Brasil”.

O racismo de cada dia

Não é novidade que o futebol, no Brasil, teve raiz elitista. Dela, ramificou-se a tentativa de afastar os negros dos clubes. Nas primeiras décadas do século passado, dirigentes não aceitavam jogadores que desempenhavam funções braçais (bombeiros hidráulicos, pedreiros, carroceiros, etc.). A maioria destes trabalhadores eram negros, o que mostra a conotação racista, disfarçada de discriminação social. Em 1920, durante a visita do rei da Bélgica ao Brasil, o presidente Epitácio Pessoa sugeriu à CBD que não se convocassem atletas negros entre os que desfilariam em homenagem ao monarca. Estendeu a “sugestão” para o Campeonato Sul-Americano de Futebol, em 1922.

Dando um salto de seis décadas. Era setembro de 1982. A Polícia Militar fazia uma blitz na estrada Grajaú-Jacarepaguá. Passava por ali Luiz Morier, repórter-fotográfico do Jornal do Brasil. Teve a intuição de que algo estranho estava acontecendo. Aproximou-se e tirou a foto que lhe garantiria o Prêmio Esso no ano seguinte. A PM tinha prendido vários homens, todos negros, e os conduzia amarrados pelo pescoço. “A sensação que tive quando os avistei era de que a Lei Áurea não valeu de nada. Estavam sendo carregados pelo pescoço como escravos”, disse Morier. Mais tarde, constatou-se que os presos eram moradores de uma comunidade próxima, todos trabalhadores com carteira assinada. Foram liberados.

Novo salto, tempo presente. Manifestantes negros protestam contra o racismo em frente ao Palácio Guanabara, sede oficial do governo do Rio de Janeiro. Chega a polícia e age com a truculência habitual. Em meio à confusão, um policial aborda um manifestante, apontando-lhe um fuzil para o rosto. Para muita gente, tratava-se de cena trivial, quase natural, repetição do comportamento rotineiro da PM quando invade bairros periféricos. No entanto, é importante perguntar-se: o policial agiria da mesma forma se o manifestante estivesse, por exemplo, na orla do Leblon, bairro dos ricos e da classe média alta ? Que sociedade está por trás da farda ? Por que a indignação contra este tipo de violência se dilui em notas nas redes sociais ?

Desde sempre, ouço falar que no Brasil não há racismo, que somos uma “democracia racial”. A “sociedade cordial” não admite suas digitais discriminatórias, violentas. A herança perversa da escravidão, que se reproduz num sistema educacional que não reconhece as peculiaridades da população de origem africana, alimenta o olhar racista. O resultado está aí, tentando arrombar a porta. Três em cada quatro pessoas mortas pela polícia no Brasil são negras. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes maior do que a de um jovem branco. Casos como o do menino João Pedro, morto aos 14 anos com um tiro nas costas durante uma operação policial, viraram uma triste rotina carioca.

Tudo isso me veio enquanto assistia as manifestações antirracistas nos Estados Unidos, desencadeadas após o assassinato de George Floyd. Duas coisas me chamam particularmente a atenção: a presença maciça de jovens e brancos e a capacidade de mobilização sem uma liderança aparente. Parecem sinais de que um limite foi ultrapassado.  Sobra uma pergunta para nós: por que, apesar de termos em comum um racismo estrutural, somos tão negligentes quando os negros assassinados são os “nossos” ?

Por fim, um convite à reflexão. É preciso avaliar o tanto de racismo e discriminações várias que temos dentro de nós. Claro que nos julgamos pessoas bacanas, defendidas contra essas perversidades. No entanto, cercados por um ambiente que pratica esses ódios todo santo dia, é difícil imaginar que, ao longo da vida, não nos tenhamos contaminado. Mesmo que de forma inconsciente. Pois conto meu caso. Durante alguns anos, fui professor no curso de Engenharia Química da Universidade Federal Fluminense. Numa turma muito grande, não sabia identificar os alunos pelos nomes. Certa vez, resolvi dar os resultados de uma prova fazendo uma chamada nominal. Entre as melhores notas tinha alguém que se distinguia claramente. Sem perceber, fiz uma espécie de retrato falado mental, imaginando quem seria aquele aluno. Quando chamei o campeão, quase desmoronei. Era justamente o único negro da turma, que meu inconsciente havia descartado pelo racista que me habita as profundezas. Fiquei tomado de vergonha, mas a vergonha é insuficiente. Minha diferença com os racistas explícitos é que eu luto contra esse módulo abjeto das minhas entranhas, tenho que derrotá-lo sempre e tenho sido bem sucedido. E você, o que tem feito com o seu lado sombrio ?

Samba Perdido – Capítulo 8

Capítulo 08

“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento…”

Caetano Veloso – Alegria, Alegria

Célia era a amiga bonita e magricela do andar de baixo. Foi ela que tinha chamado a Sarah para ver a copa do mundo na sua casa. As duas eram coladas. Um dia entrou como um foguete no apartamento.

“Sarah! Sarah!” Quando minha irmã apareceu, ela precisou retomar o fôlego. “Sarah! Minha mãe acabou de dar de presente de aniversário dois ingressos para o Festival Internacional da Canção, você quer vir comigo?!!”

As duas comemoraram animadíssimas, mas logo Sarah se lembrou.

“Vou ter que perguntar para minha mãe.”

Acompanhando a conversa do quarto, pensei a mesma coisa na mesma hora; a dona Renée não ia liberar essa nem a pau. Sem motivo para inveja, me fingindo de morto, fiquei ouvindo as duas fazerem planos para convencê-la.

Quando minha mãe chegou, não deu outra.

“Você no Maracanãzinho à noite?! Nem pensar, é muito perigoso!”

Os festivais aconteciam no Maracanãzinho, o irmão menor do Maracanã, uma arena ao lado do estádio para eventos não futebolísticos.

“Mas mãe, o Maracanãzinho fica do lado de uma universidade e de um hospital! A gente vai de carro com os dois irmãos dela, qual o problema?”

“Todo mundo sabe que aquela área é cheia bêbados e de assaltantes! Aqueles dois franguinhos não vão conseguir defender vocês de nada! E imagina se você se perder no meio daquela gentalha?! Nem pensar! Você não vai e acabou!”

Sarah não se deu por vencida. “Mãe, pode ser que seja assim quando tem jogos de futebol no Maracanã, mas no dia do festival só vai ter gente de nível da Zona Sul. Não vai ter perigo nenhum! Por favor mãe, me deixa ir!”

“Para que? Para assistir músicos de segunda categoria fazendo um barulho ensurdecedor e tocando canções horríveis para um monte de comunistas emaconhados?” Dona Renée fez um gesto dramático e decretou “Você não vai e pronto!” Daí ela foi para a cozinha dar ordens à empregada.

Mais tarde, precisou a mãe da Célia subir para implorar que a dona Renée mudasse de ideia. Dona Dindinha garantiu que seus filhos – um estudando para ser médico e outro estudando para ser padre – conheciam bem o lugar e que a Sarah estaria segura com eles. Afinal ela estava deixando sua filha na mão deles. Além disso, o presente era muito especial para a Célia, que ia ficar de coração partido se fosse sem a melhor amiga no dia do seu aniversário. Os argumentos adultos e o fato de que sua família era dona do nosso apartamento fizeram Renée conceder. Ela disse que ia falar com o marido quando voltasse do trabalho. Ao ouvir essas palavras eu já sabia qual seria o resultado.

Durante o jantar, as duas explicaram o que tinha acontecido e, apesar dos argumentos contrários da minha mãe, meu pai liberou na hora.

“Qual o problema da Sarah ir para o Festival com a Célia e os irmãos dela? Ela adora este tipo de música e os dois são ótimos rapazes.”

*

Em uma época sem Internet, – e mesmo sem gravadores de fitas-cassete – a única opção para ouvir nossas músicas preferidas era ou comprar discos caros ou torcer para que tocassem no rádio. A oportunidade do convite da Célia era imperdível. Os melhores artistas do país e outras atrações internacionais estariam se apresentando naquela noite e o evento seria transmitido em horário nobre para o país inteiro.

Para piorar as coisas para mim, mais ligado em música que minha irmã, não tínhamos televisão em casa. Havia a possibilidade remota de assistir o festival na casa do Paulo mas, como meus pais, ele não se interessava em música brasileira. Não ia acontecer. Tive que aceitar que não assistiria o evento do qual todo mundo estaria falando. Meu único consolo era que aquela elas estavam indo para a semifinal; a final seria no próximo fim de semana.

Aquelas competições faziam as manchetes dos jornais no país inteiro e as canções concorrentes tocavam direto no rádio. Conforme a final ia se aproximando todo mundo já tinha escolhido sua preferida. Apesar de serem organizadas por gravadoras promovendo seus artistas e por estações de TV vendendo o espaço publicitário, eram vistas como eventos culturais da maior importância. Tinham até significância política já que, embora não os patrocinasse, o regime as encorajava como uma maneira de unir a nação em torno de uma celebração da música brasileira. Além disso, por tolerar a presença de artistas com mensagens de oposição, eram uma maneira dos generais provarem à população que, embora não permitissem que escolhesse seu próprio governo, não tinham nada contra a liberdade de expressão.

Os artistas subiam ao palco representando todos os segmentos da sociedade. A esquerda intelectual tinha Chico Buarque; os puristas da bossa nova, Tom Jobim e Nara Leão; os roqueiros e os psicodélicos, Os Mutantes; os afrodescendentes, Toni Tornado; a militância estudantil, Geraldo Vandré; a juventude despolitizada, Wanderléa e outros representantes da Jovem Guarda; os tropicalistas tinham Gilberto Gil e Caetano Veloso; os amantes da música tradicional e o povão, Jair Rodrigues e Paulinho da Viola; e ainda tinha Jorge Ben, que agradava a todos.
As revelações daqueles eventos não só encheriam os cofres das gravadoras mas também dariam origem – ou pelo menos influenciariam – a tudo o que viria depois em termos de música popular brasileira.

Acima de tudo, devido ao momento político, esses festivais se tornaram o único canal com alguma possibilidade de se debater a realidade no país, mesmo que de forma indireta.

“Para Dizer Que Não Falei de Flores” do Geraldo Vandré, por exemplo, se tornaria o hino da resistência à ditadura.

Havia ecos de Cuba quando o estádio se juntava para cantar.

“Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão”

Por outro lado, havia a turma hippie, interessada em liberdade individual. Seu carro chefe eram Os Mutantes como com a canção 2001.

“Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”

Essas duas correntes antagônicas competiam lado a lado com canções de amor melosas e sambas engraçados.

*

A polêmica acirrada entre os defensores da liberdade individual radical e a militância política que esquentava os festivais, ia muito além dos palcos. Esse embate também acontecia – não só no Brasil – nas artes, no cinema, no teatro e na literatura. O movimento da Tropicália emergiu desse emaranhado tentando englobar os dois lados e tudo mais que pudesse. Seus expoentes seguiam a máxima do artista plástico Andy Warhol e de outras estrelas da vanguarda internacional de que “tudo é pop”.

Misturando rock com música brasileira e psicodelia com revolução, a música/manifesto Tropicália de Caetano Veloso deixava a plateia atônita, sem saber se vaiava ou se aplaudia.

“Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central”

Sob as asas acolhedoras dos tropicalistas havia a simpatia pela revolução cubana, o amor pelos Beatles, uma procura por raízes brasileiras, sem esquecer, é claro, de uma boa dose de sagacidade comercial. Embora comumente associada à música de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, a Tropicália foi bem mais ampla. Antes de se dissipar, o movimento envolveu artistas plásticos, como Hélio Oiticica, músicos vanguardistas como Tom Zé, escritores, cineastas, filósofos e uma pletora de malucos e gênios que marcaram a cultura brasileira.

*

No começo, os militares permitiram que os artistas cantassem o que quisessem. Contudo, a dinâmica dos festivais acabou sendo diferente do planejado. Conforme as canções de liberdade e de revolução foram ganhando destaque, ficou claro que a sua presença nas salas de estar da nação em horário nobre era um contrassenso. Querendo evitar uma imagem negativa ao acabar com a festa ou excluindo as estrelas, a saída que os generais encontraram foi a censura.

As coisas foram de mal a pior com o draconiano AI-5 que tirou as liberdades civis dos brasileiros. Sem ter que responder a um poder judiciário os militares acabaram indo muito além da censura. Ignorando a possível reação da sociedade civil, puseram em marcha um processo de exílio e de aprisionamento dos artistas contrários ao regime, independentemente do seu prestígio e da sua popularidade. A consequência foi que os festivais se esvaziaram de significado e acabaram morrendo.

Alguns anos mais tarde, num gesto de reconciliação, os militares aceitaram os artistas de volta. Porém, nada seria como antes. No seu retorno, apesar de serem recebidos como heróis, haviam amadurecido no exterior. Agora, expostos diretamente ao que estava acontecendo na cenário jovem internacional, tinham preocupações mais profissionais.

Apesar da queixa de alguns críticos puristas, quem acabou ganhando com essa mudança foi o público. Suas apresentações passaram a ser individuais em teatros ou em casas de shows. Mais refinados, propiciavam uma mistura única de resquícios de resistência autêntica, status de celebridade e talento. Essa alquimia contava com o suporte de músicos e produtores de qualidade internacional. Quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque subiam no palco, era como se o mundo tivesse voltado à normalidade só que com elementos de uma realidade fantástica.

*

Quando me tornei adolescente – anos depois da minha frustração com a não ida ao festival – comecei a frequentar shows. Eram ocasiões intensas, mais parecidas com partidas de futebol ou com comícios do que com apresentações musicais. Quando os teatros abriam as portas, o público entrava às pressas como gado. Com todos acomodados, começava um clima de Maracanã; diferentes sessões da plateia vaiavam umas às outras ou se aplaudiam como se estivessem torcendo para times diferentes. O público ficava cantando bordões políticos, musiquinhas relacionadas às drogas ou ficavam sacaneando uns aos outros.

“Que beleza…
A maconha que vem lá do Ceará!
O lêlê! O lálá!
Enrola na seda,
acende pra fumar! ”

“A turma lá da frente é bicha!” Os da frente se levantavam e respondiam com vaias.
Quando as luzes se apagavam, a sala caía em silêncio e a magia começava. Nos melhores shows, era como estivessemos na sala de estar dos artistas. As músicas mais calmas proporcionavam uma comunhão tão forte que nunca senti nada parecido, nem antes e nem depois. Artistas mais carismáticos como Gilberto Gil faziam momentos de “pergunta e resposta” em que a plateia respondia entusiasmada às suas orientações musicais. As canções mais animadas – muitas vezes sucessos que tocavam no rádio e apareciam na televisão – eram sempre deixadas para o final e acabavam num Carnaval fora de época com o teatro inteiro indo à loucura, pulando nos corredores e no palco.

Paralelamente a essas festas em forma de show havia algo novo chegando de mansinho. As bandas de rock eram a expressão da geração mais nova. No contexto da época, eram o submundo do submundo. O clima dos seus shows não era de carnaval fora de época. A celebração era macabra, guiada por guitarras distorcidas e ritmos frenéticos na bateria. O público era medonho: agressivo, meio sujo, tinham cabelos mais longos do que o normal e usavam drogas que a maioria de nós nem sabia que existiam. Uma de suas principais expressões era Raul Seixas e seu letrista, o agora mundialmente famoso, Paulo Coelho.

“Quem não tem colírio usa óculos escuros!” Aconselhava uma de suas músicas.

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.” Dizia outra.

Tal como Led Zeppelin, David Bowie e os Rolling Stones, seus temas; o sexo – tanto hétero como homo -, as drogas e o misticismo, eram perturbadores e anti sociais. Com essa leva vieram os Secos e Molhados. Muito a frente do seu tempo, adotavam um estilo andrógino e usavam uma maquiagem exagerada que mais tarde a banda americana Kiss copiaria. A voz lindamente feminina do seu vocalista Ney Matogrosso e seus trejeitos homoeróticos escancaravam a questão da identidade sexual nas rádios, nos palcos e nos televisores do país; isso nos idos de 1972. Esses artistas, ainda que populares com uma grande parcela dos jovens, chocavam a todos os não envolvidos. Ninguém com um posicionamento “sério” se atrevia a se identificar com eles, nem mesmo intelectuais esquerdistas “avançados”.

Esses pioneiros iniciaram tudo o que a maioria das pessoas de classe média consideraria banal nas décadas seguintes: drogas leves, vegetarianismo, interesse em filosofias orientais e a busca por um jeito zen-individualista de levar a vida. Ignorando tanto a ditadura política da direita quanto a ditadura intelectual da esquerda a galera do rock só queria saber de viver intensamente.

Quando chegou a onda da discoteca, descobriram que dar uma melhorada no visual e soltar a franga nas pistas de dança atraía sexo. Isso e a grande quantidade de fatalidades relacionadas às drogas entre os que mergulharam de cabeça naquele estilo de vida, fizeram com que a primeira geração do rock brasileiro desaparecesse com a mesma velocidade que tinha aparecido.

A passagem de bastão entre as gerações dos festivais e a do rock, marcou o fim da aura de resistência política nos shows. Eles passaram a ser simplesmente um sopro de ar fresco na claustrofobia tanto do regime quanto dos lares tradicionalistas. Com essa mudança ficou claro que esse era um clube para privilegiados. Para fazer parte da turma e participar das atividades afins – sair com a galera descolada, comprar os discos certos e viajar para destinos alternativos – você tinha que ter dinheiro e não era todo mundo que tinha acesso a esse recurso.

Desde os primeiros festivais, nunca havia representantes da classe trabalhadora nos auditórios. As massas ainda eram as domésticas que preparavam o jantar do publico antes de saírem de casa, os cobradores e motoristas dos ônibus que levavam alguns lá, os “flanelinhas” que pediam para vigiar os carros de outros e os policiais lá fora, ávidos para extorquir o seu dinheiro. Nos anos 1970, os rebeldes das classes menos privilegiadas ouviam funk e iam á suas próprias festas, como bem retratado no filme “Cidade de Deus”, um relato verdadeiro desse período da história do Rio de Janeiro.

Voltar

Início

Sutilezas do Nazismo

Ingmar Bergman, conhecido diretor de cinema, demorou a declarar que foi nazista. Ao saber dos milhões de mortos nos fornos crematórios, ficou chocado. Foi seduzido pelo nazismo, o fascismo somado ao “antissemitismo redentor”, como definiu o premiado historiador Saul Friedländer em seu livro “A Alemanha nazista e os judeus”. Todas as ditaduras fascistas da Europa receberam e deram apoio ao nazismo, lutando lado a lado. Por exemplo, foi o ataque alemão à cidade de Guernica em 1937 que arrasou a pequena cidade espanhola, com centenas de feridos e mortos. Picasso pintou esse ataque num mural que tem no lado esquerdo uma mãe chorando a morte de seu filho. A interferência de Hitler, foi fator decisivo na vitória do fascismo espanhol.

Hoje é fácil saber o que foi o Terceiro Reich, mas a crueldade da Alemanha buscou se disfarçar, com frases sutis, mentiras apresentadas como verdades, aceitas por dezenas de paízes. Escutei de um ex-morador de Berlim a essa época sobre o que foi a noite de nove de novembro de 1938, a “Noite dos Cristais”. Disse que os alemães tinham essas expressões sofisticadas para disfarçar. Nessa noite foram mortos 91 judeus, centenas de sinagogas foram incendiadas, assim como casas comerciais. Trinta mil judeus foram presos em campos de concentração. Portanto, essa noite não foi a noite dos cristais, mas sim a noite de vidros quebrados e vidas destruídas. Outra sutileza macabra é a expressão “solução final”, que definiu o envio de milhões de judeus, ciganos, homossexuais e rebeldes contra a ditadura aos fornos crematórios. De simples chuveiros de onde deveriam sair água saíam gases mortíferos. É uma ferida aberta na imagem da condição humana.

O racismo irrompeu de surpresa aqui, neste ano, quando um ex-secretário da Cultura do atual governo usou símbolos nazistas. O racismo já foi objeto de diferentes estudos, como foi a entrevista de J. B. Pontalis, psicanalista francês, que explica as diferenças entre os preconceitos e o racismo. Esse é um fenômeno de grupos, países, que conclamam a violência maciça. Os racistas projetam todo o mal nos outros, um ódio que chega à crueldade, à mediocridade que despreza as artes e a cultura em geral.

Já o racismo brasileiro é estrutural, herança de três séculos e meio de escravidão. Uma líder negra, Marielle Franco, foi assassinada há mais e dois anos, e toda vez que as pistas se aproximam de um condomínio familiar cessam as investigações. Já os índios estão a perigo, e já foram mortos líderes indígenas nos ataques à Amazônia. Por dever de memória, é preciso lembrar a escravidão negra, no sofrimento de milhões de escravos, maltratados pela elite branca. Os negros foram libertos sem apoio algum dos governos, e até hoje o país vive um racismo com sutilezas. Um exemplo foi a dura oposição à exitosa política de cotas no ingresso às universidades.

Espanta como o governo ataca a saúde dos brasileiros nesta atual pandemia, em especial a dos mais pobres. Também aqui são usadas sutilezas para serem escondidas as verdadeiras intenções. São frases criadas pela propaganda política do governo, como essa usada há poucos dias: “Lamento os mortos, mas é o destino de todo mundo”. Diante mais de trinta mil mortos pela COVID-19, essa é uma frase fria, vazia, parecida com as frases do Trump diante do assassinato do negro George Floyd.

No mundo se amplia o movimento humanista, e do outro a crueldade racista. Nas linhas finais do livro “O mal-estar na cultura”, de Freud, há uma questão atual: o choque entre o desenvolvimento cultural x a pulsão de agressão e o autoaniquilamento. Cada um vai se posicionando, cada um vai escolhendo o seu lado conforme sua capacidade psíquica. Hoje, quase trinta por cento do País está com as forças desalmadas. Já setenta por cento da população busca se unir, em diferentes manifestações, pela vida e a frágil democracia. Ou seja: poderá a cultura resistir à crueldade? Eis a questão de todos e de cada um.