Samba Perdido – Capítulo 10 – Parte 02

Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.

Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.

Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”

“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”

“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”

“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”

“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.

“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”

“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”

A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.

Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.

Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”

“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”

“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”

Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”

Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”

“Mas e se não deixarem a gente entrar?”

“Você já viu puteiro recusar cliente?”

A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.

“É aqui.”

Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.

“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”

Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.

Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê.  Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:

“Está na hora do leite das crianças.”

Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.

Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”

Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.

Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”

Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”

Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.

“Meu nome é Lu e o teu”

“Rique.”

“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”

“Não, de Richard.”

“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”

Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.

“Vem, menino!”

O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.

“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “

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O novo ovo da serpente

Um homem caminha no amanhecer de uma segunda-feira, entre dois guardas, em direção à forca. Vive seus últimos minutos de vida, e ao atravessar o pátio para cumprir a sentença olha o céu estrelado e diz, calmamente: “A semana está começando bem”. Outro condenado a forca, ao ser perguntado se desejava um cigarro, respondeu: “Obrigado, não posso fumar, meu médico proibiu”. O SuperEu no humor é gracioso, amável, revelando sua outra face, pois em geral seu retrato é sério e crítico. Assustador mesmo é quando o SuperEu, essa função paterna, é exercida por um chefe sádico. E uma boa porcentagem das pessoas se submetem a esse pai/líder, é a chocante servidão voluntária. Aí, vem um humorista e goza a maldade do meio comandante, meio psicopata, e revela um novo ovo da serpente.

Foi o que fez o humorista Aroeira ao exibir a serpente que tinha nascido aqui. Aroeira, numa charge, transformou a cruz da saúde numa suástica e o “B” dizendo aos seus seguidores irem pixar em outro hospital. Recordo que “B” tinha dito para invadirem os hospitais para fiscalizar. Foi mais um ataque à vida de sua necropolítica, mas a charge provocou um ataque da INjustiça contra Aroeira. Ele foi ameaçado com a Lei de Segurança Nacional, e seria cômica essa decisão se não fosse trágica; quem deveria ser enquadrado é a serpente que despreza a pandemia. O mundo vê o escândalo, mas os poderes poderosos daqui são tolerantes. Somar os mortos um a um: 1+1+1+1+1+1+1 e seguir escrevendo até mais de 55.000 famílias sofredoras. Aroeira, perguntado sobre o fato de ser acusado de difamação, lembrou o pintor Picasso. Um oficial nazista perguntou-lhe apontando para o seu quadro “Guernica”: “O senhor fez isso?”, e Picasso respondeu: “Não, vocês fizeram”. A mesma coisa agora, pois, se ele me pergunta se o estou chamando de nazista, respondo: “Não, você próprio se chamou de nazista, eu só desenhei. É a minha defesa”. Aroeira teve muitos apoios de seus amigos, de instituições e do Quino. A serpente ficou magoada.

As armas do humorista não matam, mas o descaso com a saúde mata. O que choca o mundo, mas não tanto o País, é como um chefe de Estado põe em prática o que pregou com ódio: elogio à tortura e à morte. Pergunta que não quer calar: qual é a surpresa, se “B” só faz o que prometeu. O povo é torturado com as mil ou mais mortes diárias, porque elegeu um herdeiro do passado escravagista, um herdeiro dos que batiam e, matavam negros, índios, pobres. O idealizado país da cordialidade, da liberdade, da alegria, revelou ao mundo a sua face cruel. Hoje é uma longa quarta-feira de cruzes. Há uma guerra em que as “Forças Desalmadas” não combatem a pandemia, não cumprem assim com o dever de segurança do povo. Manchete de capa do jornal “La Republica” da Itália no dia 25 de junho: “Brasile girone infernale” (O Brasil ronda o inferno).

A morte tem muitas pontes com o humor. Não faltam histórias, pois o humor é uma forma de aliviar as perdas, e a morte é a perda derradeira. Woody Allen disse sobre a morte: “Não tenho nada contra a morte, só não quero estar presente quando ela chegar”. Um amigo humorista do Allen, o nosso L.F. Verissimo, disse que a morte era uma sacanagem, já o jovem Gregorio Duvivier definiu o humor como um drible da morte.

O humor é aliado da poesia, portanto, chamo mais uma vez, o poeta John Donne, para lembrar, a cada um, o que é a morte dos demais: “Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, a morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. Imaginem, se a cada morte, os sinos de todas as igrejas do país dobrassem. Seriam sons ensurdecedores para alertar a todos da urgência da luta pela vida!

Caleidoscópio

Meu corpo arrastava duas crianças, uma de um ano e outra de três. Estava em uma cidade nunca vista pelos olhos. Um lugar estranho de ruas ora estreitas ora que se alargavam conforme eu as olhava. Ali estava para visitar uma amiga inesperadamente. Ela tinha três filhos em sequência de anos. No momento deste relato, eles miúdos e o que me assustou foi exatamente tê-los conhecido na adolescência. A infância foi um traço distante. O tempo cronológico desse enredo fez uma retrospectiva e instalou-me nessa realidade. Ela ainda estava com o pai de seus rebentos, hoje divorciados.

Ele resolve nos levar ao teatro municipal para um musical. Entramos apertados uns nos outros por uma gigante porta, que só nos dava um pequeno espaço. Sentamos nas cadeiras enfileiradas. O teatro estava tomado por pessoas de várias nacionalidades. Pude perceber pelos semblantes e trajes típicos da cultura de cada país. Aquilo enchia-me os olhos, que inquietos buscavam entender o porquê de tantas cores e sensação do desconhecido.

O espetáculo começou. Silêncio total na plateia. Ouvia-se apenas a cadência da respiração ora com profundidade ora entrecortada.

No meio do espetáculo, o marido fala baixinho para nos apressar, que alguém havia sido assassinado e teríamos que sair pela porta lateral sem sermos notados. Ao sairmos, caímos em um brinquedo que se reproduzia em cores, formatos e velocidades. A sensação foi, talvez, a experiência de Alice no país das maravilhas. Houve um espanto por todos nós e uma voz de comando disse apenas: equilibrem-se!

Robélia e o esposo dividiram as crianças, dois com o pai e uma com ela. Eu, em cada braço segurava um, que logo adormeceram estranhamente. O menor com a cabeça por trás do ombro direito, o mais velho, com a cabeça pendurada no lado esquerdo e segurado por um barbante atado ao meu braço. Na velocidade dos brinquedos que mudavam de momento a momento equilibrava-me com os garotos com o cuidado de não cair.

Havia inúmeras pessoas fugindo de alguma coisa, os semblantes inquietantes, febris, assustados mostravam-me que algo estava acontecendo. Não podia pará-los para saber o motivo. Não podia perder o momento que teria que pular de brinquedo. Rígido, o meu corpo de espanto e o coração acelerado, com os filhos pendurados em meu corpo como asas, buscava não perder de vista os amigos. Havia vários sentidos, cores que indicavam a velocidade seguinte. Nada sabia sobre aquilo. Era tão nova a experiência que me sentia em um caleidoscópio. O medo segurava as minhas mãos que apertavam os dois meninos, filhos meus.

Em uma movimentação brusca perdi o equilíbrio e os amigos sumiram de minha visão. Fiquei totalmente sem bússola naquele estranho lugar em que as cores mudavam, se multiplicavam em fragmentos. Teria que reagir e buscar a perfeição do universo. Agarrá-lo sem constrangimento dos olhares daqueles rostos que me reprovavam por ter caído por um instante. Levantei-me e a sequência se tornou um vazio. Todos tinham desaparecida da nova cor que surgia. Via de longe em outra pista gente que surgia em minha direção. Fiquei apavorada e o sono das crianças era tão profundo que se quer ouvia o respirar de cada um. Catatônicos.

Alguém com um rosto desfigurado ajudou-me a pular para um outro brinquedo. As crias continuavam nas posições inversas e inertes. Não sentiram o meu desespero. De repente, ouvi uma voz de uma pessoa que conhecia e não a via há muito tempo. Reconheci pela voz esganiçada que doía os tímpanos à época de meu trabalho. Um susto alivioso. Queria ajuda, não suportava o peso das crianças e as direções dos brinquedos. Perguntei se tinha visto Robélia, ela falou que não a conhecia. Eu gritava para ela poder me ouvir. Descrevi minha amiga, mas nada era percebido no movimento do mundo. Ela apenas se ofereceu para me ajudar pular na próxima mudança, era um brinquedo roleta, perigoso e uma ajuda era necessária. Queria pular para uma rua, ela teria que continuar. A tarefa do partido exigia disciplina, ela gritou. Ao nos encontrar por décimos de segundos, ela me empurrou, só assim poderia me livrar da sinfonia frenética que conduzia os meus pés sem destino. Meu corpo foi lançado em voo livre. Caí em cima de muitas folhas do outono, a queda foi suavizada. Meus filhos acordaram. Coloquei o menor embaixo de uma grande árvore e desatei o nó do outro em meu braço, libertando-o totalmente. Segurei com firmeza suas mãos pequenas e sumi no nevoeiro. Acordei.

Rosa

Com tanta ferramenta exótica, o consultório parecia oficina mecânica. Só faltava a folhinha com mulher pelada. Semanalmente, o Menino ia ao ortodontista, no centro da cidade, ajustar o aparelho dentário metálico que, diziam, lhe daria uma fachada mais aceitável. Pensava que, de quebra, o conserto também aliviaria as dores d’alma, mas, ai !, não chegava a tanto. Certo dia, aconteceu.

Na volta para casa, o ônibus adernou para um caminho diferente. Sabia que, da Lapa de Madame Satã, passaria pelo Estácio de Bide e Marçal, para entrar na Tijuca, território sagrado. Por que, então, abandonou o roteiro de praxe e embicou para a praça Paris ? Pânico. Não cogitou sequer de um desvio provocado por obras, apenas imaginou perder-se fora das garras da rotina. O motorista até tentou explicar que logo retornaria à Lapa, não quis saber. Saltou e andou, não, correu para o restaurante do Calabouço, onde, ao lado, trabalhava a Mãe. Colo protetor, estava salva a pátria.

Essa timidez, essa desconfiança do mundo, só se atenuava com os livros. A relação com eles sempre foi de intimidade, de troca, que continua até hoje. Começava com o cheiro, avançava para o prazer estético das imagens (como esquecer as ilustrações de Belmonte e André Le Blanc ?), desaguava no toque macio, para, só então, desembrulhar as letrinhas. Eu descobria que poderia ser outros. Entrava na prosa de Robert Louis Stevenson, Monteiro Lobato e Maurice Leblanc, e me transformava em pirata, Hércules e ladrão de casaca. Melhor do que um dentuço que podia, no máximo, sonhar em ser escolhido no par ou ímpar para jogar no time de pelada dos cobras da vizinhança. Uma tia generosa abria as portas da sua biblioteca para estes voos solo, que me levavam a universos paralelos.

Um ditado talmúdico diz que uma palavra vale uma moeda, o silêncio vale duas. Vou profanar a sóbria sabedoria judaica. O silêncio pode ser uma prisão, e eu não daria dez réis de mel coado para isso. Acumular leituras, por mais prazerosas que fossem, não me tiravam do isolamento. Faltava criar uma ponte, descobrir uma chave libertadora, que transformasse as palavras aprisionadas no meu mundo interno, interditadas como no caso do ônibus que mudou a rota, em comunicação. Foi quando surgiu Rosa.

Rigorosa nas cobranças, amorosa nos gestos, disponível para dialogar. Assim era Rosa Erman, professora de português que não se limitava aos artigos, preposições e anacolutos. Entendia que estávamos lidando com a língua, um organismo vivo, que transbordava as páginas dos livros e possibilitava as relações. Criava espaços para a imaginação e o desembaraço. Um desses espaços era a exposição oral. De surpresa, convocava um aluno e pedia que contasse uma história. Qualquer uma. Na época, eu tinha ganhado de presente a coleção do Tesouro da Juventude, um clássico em 18 volumes. Tinha de tudo, desde tratamento para bicho-de-pé até sonetos de Camões. Devorava a seção de mitologia grega e sempre tinha preparada uma história dos mitos helênicos. Venci a resistência para falar com os Outros, exercício que continuo fazendo vida afora. Rosa libertou do cárcere minhas palavras e elas nunca mais pararam de sair.

Muitos anos depois, fui convidado para um encontro de ex-alunos do meu colégio. Um tanto desconfiado, resolvi comparecer. Acho que essas reuniões, que misturam as fantasias que construímos para o passado com a realidade presente, não costumam dar certo. Melhor ficar com a lembrança do gosto do Kalu da infância do que pedir o picolé de abacaxi de hoje. O gosto jamais será o mesmo. Bem, entre rostos irreconhecíveis tive a impressão de vê-la. Lá estava Rosa, a mesma expressão serena, os mesmos olhos expressivos. Agora, eu saberia exatamente o que lhe dizer. Me aproximei e agradeci pela chave libertadora que me deu asas. Ela esboçou um sorriso discreto, mas que, para mim, foi a senha da cumplicidade recuperada.

Em 21 de julho de 2001, a página de necrológios do jornal informava o falecimento de Rosa Erman. Imprensa mentirosa. Quem disse que semeadores de afetos, liberdade e acolhimento morrem ? Quem acredita que veredas poéticas, fecundadas em sala de aula, podem ser visitadas pela Indesejada das Gentes ?

Samba Perdido – Capítulo 10 – Parte 01

 Capítulo 10

 

“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”

Erasmo Carlos – Não Entendo Nada

 

Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.

Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.

Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.

Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.

Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.

Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.

Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.

“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”

Ele colocou a caixinha  futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”

Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho

“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”

Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”

Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.

Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.

As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.

*

Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.

Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.

Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”

“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.

Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”

“Por quê?”

“Porque ele é diretor de cinema.”

Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.

*

De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”

Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.

Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.

*

Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria  se dissipando na psicose tropical.

*

 

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Sonhadores

Sonhador foi o Homo erectus, que conquistou o domínio do fogo após vê-lo na natureza. Sonhadores foram os que pregavam a Tzedaká, palavra hebraica derivada de Tzedek, justiça. Numa tradução mais exata, é a justiça social, pois exige do homem uma ética de doação aos mais necessitados. O Profeta Isaías (2,4) sonhou com a paz, disse que as espadas serão transformadas em lâminas de arado, e as lanças em foices. Imaginar a transformação é viver a metamorfose, a capacidade de brincar, transcender a realidade traumática. O Sonhador não está fora da realidade, porque ele pensa outra realidade possível, e foi assim que dominou o fogo, criou a roda, e foram as pinturas rupestres que deram início as artes. Sonhar emociona, e tanto a incerteza como o invisível alimentam o entusiasmo de caminhar em busca de novos horizontes.

Entretanto, não se pode esquecer o quanto a condição humana também é cruel, ela existe e surpreende na sua máxima: “Odeio, logo, existo”. São os que apregoam matar trinta mil, defendem a tortura e não sofrem ao ver morrer os desprotegidos. Num país distante vive um gabinete dos terrores, sustentado por Forças Desalmadas; o mundo o define como um governo genocida ao desorientar o povo na pandemia. Já são quase 50.000 mortos, são mais de 50.000 famílias enlutadas, e não se sabe ainda quantos milhares irão morrer. É um espanto que o Ministério de Saúde tenha gestores militares despreparados, pois os ministros médicos foram demitidos. É o terror no poder, que ao serem questionados pelas mortes só dizem: “E daí?” com insensibilidade e lavando as mãos frente à maior tragédia do país.

Os sonhadores, por sua vez, não são perfeitos, longe disso, têm conflitos, ódios, são seres humanos. Felizmente não desenvolveram a crueldade dos racistas, dos extremistas que vivem em guerra e amam as armas. O homem não é só Homo sapiens, como em geral se diz, mas é também Homo demens, que expressa uma frieza canalha.
Por tudo isso há os que desanimam, afinal o confronto entre o sonho de amanhã e o pesadelo de hoje são forças desiguais: um tem a poesia, a música, o amor, e o outro tem a violência e tudo pelo dinheiro. Outro dia recebi a mensagem de um velho amigo se dizendo cansado, mesmo sendo idealista a vida toda. Seu cansaço expressa o desencanto, a desilusão nas mudanças, ao perceber que o mundo é mais excludente que inclusivo.

Hoje, mais que nunca, é preciso apostar na Geração 20, e esse desafio poético se pode ler em Wordsworth: “Dar o encanto da novidade a coisas do dia a dia e suscitar um sentimento análogo ao sobrenatural, despertando da letargia do hábito a atenção da mente e direcionando-a para as belezas do mundo que está diante de nós”. O encanto da novidade é a metamorfose, e uma das belezas do mundo é o humor que abre a janela da graça, que está junto a ampla janela das desgraças. O humor não nega a realidade, ele é um bálsamo, alivia a dor, é essencial para não se cair no fundo do poço. O humor é rebelde e todas as ditaduras odeiam os humoristas, até o poder de uma só charge.
Agora o cartunista Aroeira está sendo ameaçado, pois fez charges com a cruz vermelha da saúde transformada em suástica. A reação dos humoristas foi imediata e dezenas fizeram charges a partir da cruz da saúde, pois o presidente mandou invadir os hospitais. Os humoristas sonhadores permitem sorrisos entre lágrimas; lágrimas pelos mortos e suas famílias, o país já é um dos piores do mundo no combate à pandemia, o inferno de Dante é aqui. Os herdeiros da escravidão festejam o poder conquistado com fakenews, e desprezam a democracia. Importante são os artistas, os jovens, os negros, os índios na defesa da Mãe Terra.

Os sonhadores despertam,
encantam os desencantados,
aquecem a luta nesse inverno.
Lutam para não se adaptar ao inferno