por Mauro Nadvorny | 1 jun, 2020 | Crônica
É preciso saber viver (Roberto Carlos)
Das questões que têm me inquietado nesta quarentena, e não são poucas, o silêncio está no pódio. É um silêncio diferente. Ele não foi escolhido, como nas ocasiões em que precisamos nos retirar do mundo e mergulhar nas esquinas mais penumbrosas de nós mesmos. Esses momentos, não raro dolorosos, podem ser muito ricos. O de agora desabou nas cabeças sem aviso prévio e tem aroma de abandono, de medo. Como nos momentos que antecediam a queda das bombas V-2, lançadas pelos nazistas sobre Londres no final da guerra. Primeiro míssil balístico da história, as V-2 caíam quando acabava o combustível que as impulsionava. Assim, entre o fim do ruído de jato e a explosão passavam-se alguns segundos de silêncio. O que vinha depois dele era incontrolável. E assustador.
Por que este silêncio forçado é diferente ? Em primeiro lugar, ele é artificial. Não nasceu de um projeto deliberado de melhoria da qualidade de vida. Certo, as ruas andam um pouco mais quietas, os bares estão fechados. É uma delícia descobrir sons da natureza, incrédula mas feliz com essa parada. Os pássaros parecem perceber que isso é passageiro, cantam com mais vigor e com vocabulário extenso. Têm urgência, o homem vem aí, como na canção do Chico. O mau uso do espaço público, onde cada um vira sargento e cria suas próprias regras, logo voltará. Os bares, que confundem informalidade com decibéis assassinos, invadem calçadas, varam madrugadas, não mudarão. O barulho descontrolado está em seu DNA. O silêncio de hoje, arcaico para os padrões incivilizados em que vivemos, está condenado a um poema do Augusto dos Anjos: O beijo, amigo, é o escarro de amanhã.
Há uma dimensão trágica no silêncio pandêmico. Ela aparece no luto pelos milhares de mortos, enterrados sem direito à presença das pessoas queridas e traumatizadas. Cada cultura oferece formas de se despedir dos mortos. Não apenas o adeus circunstancial, o afastamento físico, mas caminhos subjetivos para elaborar as perdas. A necessidade da despedida, de confirmar a morte, é muito forte. Dou um exemplo, gerado em outras circunstâncias. Dona Elzita Santa Cruz era mãe de Fernando, preso e assassinado pela ditadura militar. Jamais perdeu a esperança de encontrar o corpo do filho. Por isso, manteve o mesmo número do telefone fixo até o fim da vida, aos 105 anos de idade. Aguardou, em vão, uma ligação de alguém que desse pistas para localizar os restos de Fernando. Certamente intuía que a ligação jamais chegaria. O desejo de ver, de confirmar, foi superior à razão plana. Em tempo: Fernando era pai de Felipe, presidente da OAB. Em um de seus surtos de sadismo e deboche psicótico, Bolsonaro ironizou o destino de Fernando, ofendendo a difícil travessia dos Santa Cruz rumo ao silêncio dolorido, mas pacificado.
No Uruguai, acaba de acontecer a 25ª Marcha del silencio. A cada ano, milhares de parentes e amigos dos que desapareceram nas mãos do estado uruguaio durante a ditadura caminham, silenciosamente, na avenida 18 de Julio, centro de Montevidéu. É lida a lista dos assassinados, e, a cada nome, a multidão grita Presente ! Naqueles momentos, a dor e a saudade cedem espaço ao abraço coletivo. O silêncio dos que não puderam se despedir ganha carne e sangue da Memória. O ritual se renova.
Bernardo Sorj escreveu sobre certos efeitos subjetivos da pandemia sobre nós, os mais velhos, os que já estão aí pelos 30, 35 minutos do segundo tempo, pendurados em dois cartões amarelos. Para nós, a contagem do tempo é diferente daquela que os mais jovens fazem. Se a quarentena durar muitos meses, e isso é bem provável, uma parte importante da vida terá sido imobilizada, sem chance de revisão de prova, congelando ou mutilando planos na fase de declive. Para um jovem, observa Sorj, “o ano eventualmente perdido se dilui nos muitos anos que tem pela frente”. E conclui: “Para um idoso, o isolamento físico, de certa forma, é uma prévia da despedida final, de presenciar a saudade que os seres queridos já sentem, e que algum dia será definitiva”.
Não sinto prazer em escrever sobre essas faces da conjuntura. Acontece que costumo fugir dos exércitos de polianas que brotam nos momentos difíceis. Os que têm fé numa natureza humana “basicamente boa”, olham para os astros ao invés de enfrentar suas entranhas inflamadas, apostam no sofrimento como chave para mudar, garantem que sairemos mais “sábios” da encrenca. Com tanta e variada quilometragem, estou cada vez mais parecido com Mark Twain na fase final da vida. Uma de suas histórias enumera sugestões para o encontro com São Pedro no céu. A mais sábia: jamais leve seu cachorro para o encontro. Se o fizer, é provável que o guardião celeste abra passagem para o animal e te barre a entrada.
Abraço e se cuidem.
por Mauro Nadvorny | 30 maio, 2020 | Crônica
Um dia irá amanhecer nesse país estranho, onde certas noites duram anos. É uma travessia por desertos escuros, e os caminhantes andam com passos pesados. Escuto gente assustada com a fúria mortífera que assaltou esse país distante marcado por séculos de escravidão e longas ditaduras. Tempos armados com grupos excitados exalando ódios sem fim, dividindo a nação. Esse país hoje é dominado pelas Forças Desalmadas, forças de guerra que favorecem a morte dos brasileiros pelo covid 19. São contra a medicina, contra as artes, os livros, as ciências, a civilização. Apoiam a maior devastação da maior floresta do Planeta. Tudo para beneficiar poucos empresários, sem se importar que a mineração e o corte de arvores estão secando os rios e matando a vida dos seus habitantes naturais. Sobram motivos para chorar, com notícias intoxicantes do desastre político que destrói a vida e a democracia. São muitos que afundam num desânimo com lamentos e lágrimas. A eugenia- só o bem-nascido vive- ataca os velhos desprezados, assim como os índios, negros, pobres e rebeldes. Eugenia foi praticada no passado, como ocorreu no nazismo, onde mataram milhões de judeus, e também os ciganos, doentes e opositores. Esse país distante vive a necropolítica, a política da morte, pois a população foi abandonada na pandemia.
Por tudo isso e muito mais convém sonhar, pois os sonhos oxigenam a vida, animam, como já ocorreu no passado. Por exemplo: milhões de negros escravos desse país distante, após trabalharem de sol a sol sendo chicoteados, cantavam, dançavam e contavam histórias dos seus ancestrais.Hoje estar próximo às artes e aos artistas é indispensável, pois assim aumenta o ânimo e o humor. Entre todos é preciso potencializar o cotidiano para diminuirem as depressões que afundam. As redes sociais são redes de proteção, e aos poucos, vai sendo construída uma união invisível, com vozes dizendo NÃO à crueldade.
Uma história para animar ocorreu há pouco, para os que puderam escutar um canto vindo do Palácio do governo argentino. Um país que viveu uma das piores ditaduras militares superou sua longa noite de terror. Foi um canto a cappella, numa cerimônia em que os representantes dos trabalhadores argentinos que combatem a pandemia foram homenageados. País com baixíssimo número de mortos e infectados. Ah, importante foi a presença do presidente, que aplaudiu e também foi aplaudido. Parecia um sonho, foi um espanto ver como um povo que teve trinta mil mortos pôde se reerguer. Um povo que ainda viveu a Guerra das Malvinas, pode agora festejar a vitória contra o vírus, graças a um governo para todo o povo. O vídeo está no Watts, não sei se no YouTube, recomendo que busquem, é um poderoso antidepressivo! As conquistas do país de los hermanos não veio de graça, foi fruto do trabalho de um povo unido. Eles merecem um brinde, na divulgação da letra de “Cuando Llegue el Alba”, cantada por Soledad Pastorutti na Casa Rosada em Buenos Aires.
Cuando Llegue el Alba
Vieja soledad, hoy me iré de ti
Buscando la luz, de un amanecer
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré
Noche adentro irá, vencida de amor
La tristeza gris, de mi corazón
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré
A un costado del olvido, mis sueños maduraran
Reventando en luz, florecidos
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré
Encontrarte fue, intuición de Dios
Todo nace en ti, como nací yo
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré
Tus palabras son, fresco manantial
Sintiendo tu voz, aprendí a cantar
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré
A un costado del olvido, mis sueños maduraran
Reventando en luz, florecidos
Cuando llegue el alba
Viviré, viviré.
Quando Chegar o Amanhecer
Velha solidão, hoje me afastarei de ti
Buscando a luz de um amanhecer
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
Adentrará a noite vencida de amor
A tristeza cinzenta do meu coração
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
Em um lado do esquecimento, meus sonhos amadurecem
Explodindo em luz, florescidos
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
Te encontrar foi intuição de Deus
Tudo nasce em ti, como nasci eu
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
Tuas palavras são refrescante primavera
Sentindo tua voz aprendi a cantar
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
Em um lado do esquecimento, meus sonhos amadurecem
Explodindo em luz, florescidos
Quando chegar ao fim da madrugada
Viverei, viverei
por Richard Klein | 30 maio, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
O presidente recém eleito, Jânio Quadros, lembrava o primeiro-ministro britânico do pré-guerra, Neville Chamberlain na aparência e na bizarrice, mas compartilhava com Churchill a fama de amante da garrafa. As massas o adoravam mas, apesar de servir seus interesses, a elite o ridicularizava pelos seus trejeitos exagerados e por sua inteligência medíocre.
Quando assumiu, o ciclo de crescimento econômico iniciado pelo seu antecessor, o carismático Juscelino Kubistchek, estava dando sinais de cansaço. Depois da euforia veio a ressaca econômica e com ela o descontentamento das classes que mais tinham se beneficiado dos anos de vacas gordas: os trabalhadores e a classe média emergente.
A freada no ritmo da melhoria da qualidade de vida dos brasileiros causou uma guinada à esquerda na preferência ideológica do país. Havia uma influência cada vez maior de sindicatos e de organizações trabalhistas na vida pública. Esses novos elementos fizeram com que as elites ficassem nervosas.
Talvez Jânio não fosse o melhor presidente para lidar com a situação. Ele tentou, à sua maneira, conciliar a crescente divisão política proibindo biquínis nas praias para agradar os conservadores de direita e reconhecendo a Cuba Castrista para agradar a esquerda. Essa decisão ousada foi fatal; além de fazê-lo perder o apoio da bancada direitista, em especial da UDN, a União Democrática Nacional, responsável pela sua chegada na presidência, o gesto chamou a atenção dos Estados Unidos.
Pressionado para fazer reformas populistas de um lado e para freá-las do outro, sem apoio no congresso, em 1961, Jânio renunciou na esperança de que o país se unisse para exigir o seu retorno. Isso nunca aconteceu e seu vice-presidente João Goulart tomou posse. Jango, como era conhecido, tinha fortes ligações com movimentos sindicais e com governadores de esquerda, como Miguel Arraes em Pernambuco e Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. Contrariando interesses poderosos tanto fora quanto dentro do Brasil, assim que assumiu, deu início a um projeto de nacionalização de setores importantes da economia, apostou na educação das camadas menos privilegiadas e contemplou políticas abrangentes para melhorar a distribuição de renda.
No pano de fundo estava a ainda muito recente Revolução Cubana. Confrontando a hegemonia dos Estados Unidos na a América Latina, o levante trouxe a Guerra Fria para o continente. Na opinião da esquerda, Cuba havia demonstrado que a região tinha a capacidade de gerir o seu próprio destino. Em contrapartida, para as potências dominantes, países governados por revolucionários rejeitando a sua tutelagem e focados em cooperação ao invés dos lucros de uma minoria eram inaceitáveis. Washington fez tudo para esmagar o exemplo, impondo um embargo comercial, ajudando exilados numa invasão fracassada e tentando assassinar seu líder. O único resultado dessa tática foi o de empurrar os cubanos cada vez mais para perto da União Soviética e essa aliança tornou uma América Latina socialista – ou mesmo comunista – uma possibilidade assustadora, porém bastante real.
Situações parecidas com a qual o governo de Jango ameaçava não eram novidade e haviam sido revertidas por golpes de estado. Os primeiros apareceram no Irã no início dos anos 1950 e no Iraque quando estes resolveram nacionalizar suas reservas de petróleo. Pouco depois, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Síria e Nigéria entre outros países, sofreram o mesmo quando resolveram enfrentar a ordem econômica estabelecida. O que todos tinham em comum eram pactos entre elites locais e potências mundiais interessadas nas riquesas naturais dos países em questão.
No caso brasileiro, os Estados Unidos estavam determinados a manter o maior país da América do Sul “livre”. Com apoio americano, os poderosos iniciaram uma conspiração para garantir sua permanência no comando do país. Para tanto, seguiram a mesma receita que Rafael tinha presenciado na Alemanha nos anos 1930. O primeiro passo foi conquistar a opinião pública. Distorcendo a verdade e apostando nos preconceitos dos leitores, a imprensa envolvida passou a retratar uma crise profunda na economia e uma ruptura nos valores tradicionais da sociedade. Em paralelo, começaram a “denunciar” a desonestidade dos dirigentes e sua inabilidade em restaurar a ordem. Pessoas comuns passaram a acreditar na imagem contraditória de uma liderança ao mesmo tempo corrupta e disposta a impor uma ideologia totalitária, destruidora da propriedade privada e nociva à herança cultural e religiosa do país. Os “cidadãos de bem”; sensatos, trabalhadores e honestos passaram a ver o governo de Jango como um inimigo. Agora, precisavam de um salvador da pátria acima do sistema político viciado e corrupto demais para resolver os gravíssimos problemas. Em 1964, esse “salvador” seria o exército.
No início de Abril, tropas e tanques foram para as ruas das principais cidades do país, onde os militares “revolucionários” não encontraram qualquer resistência organizada que os desafiasse. Ainda que os líderes do “movimento” declarassem que seu objetivo fosse restaurar a democracia livrando o Brasil do comunismo, o país precisaria de mais de duas décadas para voltar à normalidade política.
Assim que tomou posse, o novo regime exilou o presidente Goulart e seus aliados, além de perseguir e prender personalidades públicas e ativistas de esquerda. Como é comum em golpes de estado, enquanto a atenção se voltava ao drama político, passaram uma legislação revertendo os direitos dos assalariados e privilegiando os interesses dos grandes grupos econômicos que patrocinaram a mudança de regime.
Apesar da indignação de intelectuais e de pessoas mais esclarecidas houve, no início, uma indiferença geral dentro da classe trabalhadora. Por outro lado, os militares encantaram a comunidade dos negócios, inclusive Rafael. Para eles, o Brasil precisava se modernizar, imitar os americanos e alcançar o seu potencial econômico: o gigante tinha que acordar. Com os militares, amigos do “mercado”, no poder e com a orientação e a simpatia do Tio Sam – que na época financiava prosperidade como uma arma para enfrentar os avanços da esquerda – haveria um final feliz onde todos iriam enriquecer.
*
Por suas mudanças terem beneficiado apenas os muito abastados, por não terem cumprido com a palavra de restaurar a democracia e pela corrupção ter aumentado em vez de ter diminuído depois do golpe, quatro anos mais tarde, em 1968, a sociedade civil brasileira se levantou em oposição ao regime.
Os protestos partiram de movimentos universitários inspirados na explosão do espírito revolucionário pelo mundo afora. Na mesma época, em pontos tão diversos como Paris, Chicago e Praga, a juventude estava tomando as ruas para reivindicar um mundo mais justo e mais livre. Embora a maioria silenciosa os considerasse sonhadores inconsequentes, as autoridades os levavam a sério. Tendo em conta o sucesso de vários movimentos revolucionários acontecendo na época, obcecados com a ameaça comunista e ouvindo ecos da Guerra Civil Espanhola, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa e mesmo da Francesa, o complexo financeiro, industrial e militar acionou suas defesas.
No Rio de Janeiro a tensão estava borbulhando. Depois que a polícia baleou e matou um estudante, uma passeata 100 mil pessoas, incluindo artistas e intelectuais de peso, tomou conta da avenida Rio Branco no centro da cidade. Esta foi a maior manifestação contra um governo já vista no Brasil. A oposição se alastrou tão rapidamente que mesmo alguns deputados no congresso, agora tutelado pelos militares, passaram a criticar abertamente o governo.
A resposta do regime foi brutal; ignorando a constituição, publicaram o infame AI-5 – Ato Institucional Número Cinco – dissolvendo o congresso e o senado e dando total autoridade executiva e judicial ao presidente. Logo em seguida prenderam membros da oposição, líderes estudantis e jornalistas. A tortura tornou-se prática comum e quem pôde fugiu para o exílio.
Acuados, alguns estudantes passaram à clandestinidade e se juntaram às guerrilhas urbanas. Nelas, treinados em Cuba e em outros satélites soviéticos, organizaram bem-sucedidos assaltos a bancos e sequestros. Em 1969, depois do sequestro do embaixador americano no Rio e de ataques a bomba em quartéis militares, as autoridades intensificaram a repressão. Pessoas começaram a desaparecer, incluindo o filho do nosso médico de família. Por outro lado, núcleos embrionários de milícias revolucionárias partiram para o campo tentando emular a Revolução Cubana. Em uma ocasião, no começo dos anos 1970, o exército brasileiro enviou uma divisão de cerca de 10.000 soldados para capturar uns vinte jovens maoístas na remota região do rio Araguaia. As forças armadas acabariam por executar a maioria dos militantes capturados.
Esses eram tempos obscuros em que tudo era censurado: livros, peças de teatro, filmes e músicas. Os regime também controlava com rédea curta o conteúdo dos jornais e das estações de rádio e de televisão. Intuindo a tensão mas sem ter informações, as pessoas fantasiavam. Havia todo tipo de teorias circulando sobre o alcance do poder dos guerrilheiros, possíveis alianças militares com Cuba, China e União Soviética, ligas de camponeses prestes a invadir as cidades trazendo desapropriações e pelotões de fuzilamento para os ricos.
Como tudo na vida, quando a imaginação substitui a realidade nada de bom vem à tona. Nesse caso, tanto os militantes quanto seus repressores superestimaram o que minúsculos grupos de extremistas poderiam alcançar num país tão grande e tão complexo como o Brasil. Juntos, jogaram o país num período de trevas. A polícia e o exército montaram departamentos com amplos poderes para espionar a população e para coibir qualquer tipo de oposição. Entre eles estavam o SNI, o Serviço Nacional de Informações e o Destacamento de Operações Internas, DOI-Codi, em cujas dependências presos eram torturados, alguns até à morte. Também reativaram o DOPS, Departamento de Ordem Pública e Social, criado por Getúlio Vargas para esmagar seus adversários e agora utilizado para aterrorizar qualquer atividade contrária à ditadura.
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O final dos anos 1960 foi um tempo politicamente intenso não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Havia uma forte consciência social, revoluções, guerras e guerrilhas pela liberdade e pela igualdade e um aprofundamento da guerra fria no planeta inteiro. Paradoxalmente, este foi o período de maior prosperidade econômica que o ocidente conheceu. Essa bonanza veio acompanhada de uma redistribuição de renda inédita e uma consequente ampliação gigantesca do mercado consumidor. Foi nesse contexto que o mercado jovem nasceu. Esta leva de novos consumidores abastados, filhos da vitória contra o nazi-fascismo, sem vínculos com o passado e ávidos por novidades, sacudiriam as bases dos valores tradicionais e inaugurariam o uso de inúmeras novas tecnologias.
A efervescência daqueles tempos afetaria a todos de uma maneira ou de outra. As novas gerações se veriam obrigadas a escolher entre serem agentes das mudanças ou serem defensores da situação. Muitos se esbaldariam na explosão de drogas ilícitas e no sexo livre facilitado pelo aparecimento da pílula anticoncepcional.
No Brasil, com a impossibilidade de se resolver as coisas pela via política, a contracultura surgiria como talvez a única alternativa de se manter vivo o germe da resistência fosse através da arte ou de atitudes. O slogan que sintetizaria aquele tempo foi “Seja marginal, seja herói!” do artista plástico Hélio Oiticica.
Considerada inofensiva pela repressão por não representar nenhuma organização política, a contracultura, além de conseguir manter uma certa distância da censura, tinha atrativos comerciais. Apesar do tempero subversivo, gravadoras e outros empreendedores da área cultural não hesitaram em explorar as oportunidades oferecidas por seu forte apelo, tanto artístico quanto ideológico, junto ao lucrativo mercado jovem. Essa aliança forçada entre revolução e lucro proporcionaria uma explosão de talento que daria luz a um dos períodos culturais mais criativos e pungentes da história, tanto nacional quanto internacional.
Apesar da repressão brasileira ter sido vitoriosa em abafar uma possível reviravolta política com censura, exílio, tortura e prisão, ela não contava com um porém; as ideologias de revolução tinham se tornaram dominantes na cultura jovem do mundo “desenvolvido”. Vindas dos mesmos países que patrocinaram o golpe, elas eram parte do pacote cultural apresentado à juventude privilegiada pela ditadura. Não dava para tapar o sol com a peneira. No país inteiro, qualquer pessoa munida com um dicionário tinha acesso às vozes dos contemporâneos estrangeiros, fosse em discos, livros, em revistas ou mesmo em filmes que conseguiam driblar a censura.
Embora a América fosse a maior responsável pela derrubada da democracia brasileira, sua juventude estava na vanguarda dessa rebelião. Eles tinham sofrido o seu próprio golpe com os assassinatos mal explicados do presidente John Kennedy, do seu irmão Bob Kennedy e do reverendo Martin Luther King, todos defensores de uma América mais próxima dos ideais libertários e progressistas dos seus fundadores. Isso, junto com a possibilidade de serem mandados para a Guerra do Vietnã – um conflito que visava tão somente manter os interesses americanos na região – criou um enorme contingente de jovens inconformados.
A manifestação maior dessa onda contestatória aconteceu na música, mais especificamente o rock, que na época tinha um forte caráter revolucionário. O paradoxo de protestos nas ruas gerando uma demanda comercial por vozes subversivas, abriu espaço para ícones tais como Bob Dylan, Arlo Guthrie e Joan Baez. No Reino Unido, as superestrelas dos Beatles e dos Rolling Stones interessadas em atingir esse novo público e a dizer alguma coisa mais profunda do que canções românticas, juntaram forças com a rebelião. Ajudados por estratégias de marketing modernas e orçamentos milionários, expuseram a contestação no coração do sistema, num palco muito maior do que qualquer revolucionário de outrora jamais teria sonhado.
Talvez seja difícil de entender no cínico mundo de hoje que no auge das suas carreiras aqueles roqueiros genuinamente acreditavam que suas criações faziam parte de um movimento mais amplo para derrubar o status quo. A presença de novas tecnologias em sua música reforçou sua imagem de catalisadores de grandes mudanças. As possibilidades sonoras inéditas permitiram que o espírito revolucionário fosse espalhado nas guitarras distorcidas de gênios musicais como Jimi Hendrix, Jimi Page e David Gilmour, cujos solos forneceram uma trilha sonora – e mesmo um lado espiritual – a esse momento excepcional.
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Essa foi a educação musical da minha geração. Eu tinha oito anos quando os Beatles se separaram; Led Zeppelin lançou Stairway to Heaven quando tinha nove; os Rolling Stones lançaram Exile on Main Street quando tinha dez e o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, foi lançado quando tinha onze. Para alguém de origem judaica tradicional crescendo numa uma ditadura militar, esses foram mísseis aterrissando no meu toca-discos. No entanto, igual aos programas matutinos do Haroldo de Andrade que ouvia quando criança, ninguém da família, nem a maioria dos meus amigos, conseguia entender como alguém poderia gostar daquele “barulho”. Dessa vez, nem a empregada estava do meu lado.
Apesar da incompreensão, era como se um circo mágico musical tivesse parado na esquina de casa. Queria fugir com ele. Não estava sozinho nessa busca, milhões de outros jovens pelo mundo afora também estavam sintonizados nessas mudanças. Muitos acabariam mais próximos uns dos outros do que das suas próprias famílias.
Trancados no quarto, ouvindo rock, se sentindo oprimidos por nossos pais e professores, meus irmãos de geração digeriam as palavras de ordem nos seus postos avançados. A mensagem era clara: resistir aos caretas, lutar para sermos nós mesmos e subverter os planos que o sistema tinha reservado tanto para nosso futuro quanto para o futuro do planeta.
No Brasil, a repressão acabaria percebendo que havia algo no ar mas não conseguia dizer ao certo o que era, muito menos sabia como lidar com aquilo. Podiam prender um hippie por fumar maconha, um militante por suas ações ou pelos seus livros, mas não dava para acabar com a insatisfação com a pequenez do mundo. Como nossos pais, torciam para que fosse fase de adolescente e que depois nos juntassemos docilmente ao rebanho.
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por Mauro Nadvorny | 26 maio, 2020 | Crônica
Futebol não é questão de vida ou morte, é mais que isso (Bill Shankly, escocês, ex-treinador do Liverpool)
Ainda era o dia 8 de maio e o coronavírus já nadava de braçada, chegando a mais de 750 mortes no país em 24 horas. A UFRJ recomendava isolamento total no estado. O que fez a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) ? Publicou uma carta, pressionando autoridades para permitir que os clubes pudessem reiniciar as atividades “em poucos dias”. Este alinhamento letal com negacionistas irresponsáveis foi vergonhosamente seguido pelos presidentes dos clubes mais populares do Rio. No dia 19 de maio, Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, e Alexandre Campello, presidente do Vasco, se reuniram com Bolsonaro, defendendo o retorno do futebol. A média de mil mortos diários, o iminente colapso das redes hospitalares, a total falta de coordenação operacional na área da saúde, nada sensibiliza o trio.
O Flamengo, espetacular no campo de jogo em 2019, se torna instrumento político para as aventuras da extrema-direita. Não bastava a nós, torcedores de um time de fortes raízes populares, vermos o capitão celerado e seu ex-ministro da Justiça vestirem a camisa rubro-negra há cerca de um ano. Agora, a diretoria do clube adere à plataforma criminosa que defende o retorno imediato à “normalidade”, ameaçando a vida de milhares de brasileiros. Que ninguém se iluda: a manobra em curso é um passo na direção da suspensão do isolamento social. Bem disse o ex-jogador Alex, sobre a defesa de Bolsonaro para o retorno dos jogos sem torcida: “Não vejo possibilidade nenhuma de se voltar ao futebol. Sigo acreditando que devemos seguir as diretrizes da ciência”.
Esporte e política nunca andaram separados. Desde sempre, presidentes da República tiram sua casquinha da seleção brasileira. E não são exclusividade da direita. Os jogadores, imensa maioria com baixo nível de educação e interessados apenas no alpinismo profissional, são joguetes nessa trama. Vale uma análise do Sócrates, raro exemplo de jogador bem articulado e com sólida informação política. Durante a Mundialito de 1980, torneio que a ditadura uruguaia promoveu para celebrar a vitória num plebiscito (que não veio; mas isso é outra história), ele comentou a indiferença dos jogadores ao fato de estarem jogando num país sob ditadura. Sócrates, então, contou que, certa vez numa concentração, pegou os jornais do dia e separou em duas partes. Numa, colocou as páginas esportivas. Na outra, as seções de cultura, economia, política. Pois bem, nesta última ninguém tocou. Concluiu dizendo que gostaria de abrir um debate: que os jogadores de futebol fossem obrigados a ter uma formação em temas fora do esporte. Num país em que o futebol é fator de identidade nacional e os jogadores exercem grande influência sobre a população, isso poderia ter repercussões importantes. Claro que ficou apenas no desejo dele, liderança histórica da Democracia Corintiana e cidadão militante.
Pelo lado falsamente folclórico da ligação esporte-política, é inevitável lembrar do ex-juiz Mario Vianna. Membro da Polícia Especial no Estado Novo, era conhecido pela truculência. Em 1954, na Copa da Suíça, o Brasil perdeu da Hungria por quatro a dois. Nada de mais. Era o scratch húngaro celebrado pelo Nélson Rodrigues. Ao final da partida, os jogadores brasileiros, descontrolados, provocaram uma tremenda briga. Enquanto isso, Mário Vianna insultava o juiz, o inglês Arthur Ellis, pelo microfone de uma rádio, dizendo que ele fazia parte de um complô comunista. Investigado, descobriu-se que o senhor Ellis era mesmo filiado ao partido. Só que ao Partido … Conservador. Mário ainda deu vazão à sua fúria pacheca em duas outras ocasiões. Em 1962, na Copa do Chile, depois que o juiz peruano expulsou Garrincha na partida contra os anfitriões, xingou-o de “índio safado”. Em outra, creio que na Copa de 70, berrou que o árbitro israelense Abraham Klein “além de judeu, era ladrão”. Por trás dos maus bofes caricatos, reinou o ufanismo que se orgulha da ignorância.
Por fim, cabe perguntar o que significaria ter jogos de futebol sem público ? Quem já esteve num estádio, sabe que nada do que acontece dentro das quatro linhas terá muito sentido sem a participação da torcida, dos radinhos de pilha (ainda existirão ?), das bandeiras e faixas, das gozações ao vivo, dos afagos no juiz. Inesquecível o improviso da torcida do Flamengo num jogo contra o Botafogo, 1965. A peleja não valia nada, com qualquer resultado o Flamengo seria campeão. O Botafogo botou água no chope, um a zero, gol de Gerson. Na mesma hora, a torcida rubro-negra tascou: É ou não é/piada de salão/o Gerson faz o gol/e o Flamengo é campeão ! Eu estava lá ! Futebol sem esses confeitos, essas surpresas, é tão emocionante quanto um discurso do Ruy Barbosa.
por Richard Klein | 23 maio, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura
Capítulo 07
“... choram
A nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarices,
No solo do Brasil.”
Aldir Blanc – O Bêbado e a Equilibrista
Numa época em que Brasília ainda era um lugar onde ninguém queria morar e que São Paulo ainda estava se firmando como o pólo econômico do país, o Rio de Janeiro era de longe a cidade predileta dos expatriados no Brasil. Lá eles viviam muito bem nas margens da elite social carioca. Embora os dois grupos morassem e trabalhassem lado a lado, se vissem como equivalentes sociais, tivessem ambições parecidas e até os mesmos preconceitos, não se frequentavam, não eram sócios dos mesmos clubes, tinham interesses distintos e encaravam a vida de modos bem diferentes.
Talvez corretamente, a maioria se sentia num contexto colonialista. Porém, apesar das origens diversas, tinham em comum um olhar crítico vindo de realidades sociais e econômicas mais avançadas. Unanimamente achavam que, apesar dos esforços de modernização, a gritante desigualdade social caracterizava mais do que tudo o atraso do seu país de adoção.
O que mais os chocava era a atitude dos privilegiados perante o fosso medieval que os separava do povão e sua suposição de que isso fosse meritocrático e um fato imutável e natural. A contra gosto, ou em alguns casos com deleite, aprendiam logo que a única maneira de se conviver com essa disparidade era encarar os menos favorecidos como seres inferiores e facilmente exploráveis; tão ignorantes que nem conseguiam perceber, quanto menos entender, o óbvio.
A herança escravista, entranhada na formação do país e normalizada no seu cotidiano, criava uma ilusão de resignação cordial por parte da população humilde. Porém, observadores mais aguçados percebiam logo a resposta sutil porém onipresente. Ela vinha dissimulada na forma da malandragem; na falsa reverência, na palavra certa para se sair bem de uma situação difícil, no jeitinho, na desonestidade pequena o suficiente para não ser pego e no oportunismo. Apesar de não ser ódio de classe, apenas instinto de sobrevivência, essa atitude era um terreno fértil para a consciência de classe.
Confortáveis com esse teatro, Renée e Rafael mantiveram uma distância segura desse aspecto da vida brasileira. Caberia a minha irmã e a mim se adaptar sem orientação a esses códigos – ou à falta deles.
Meu despertar foi brusco.
*
O conhecidíssimo Clube de Regatas do Flamengo fazia parte de um enclave de vários clubes de classe média alta localizados no coração da Zona Sul carioca. Como os demais, ficava às margens da imunda, porém belíssima, lagoa Rodrigo de Freitas e próximo ao nosso próprio Paissandu, ao Clube dos Caiçaras, ao Clube Monte Líbano, à Associação Atlética Banco do Brasil, ao Clube Piraquê, ao Clube Militar, ao Jockey Club e à Sociedade Hípica Brasileira.
O Flamengo era o maior deles. Era popular não só por causa da imensa torcida do seu time de futebol mas também por ser o mais acessível financeira e socialmente na vizinhança. Apesar de não oferecer quadras de tênis nem áreas exclusivas, numa época sem academias de ginástica, ele era o único a possuir instalações esportivas de qualidade. Essas instalações incluíam um pequeno estádio de futebol – onde craques como Júnior e Zico treinavam – uma área dedicada ao remo, salas de musculação, saunas e duas piscinas olímpicas onde alguns dos melhores nadadores brasileiros haviam se formado. Era lá que tinha aulas de natação três vezes por semana.
Após as aulas, voltava a pé para o Paissandu que ficava no quarteirão de baixo. Apesar do tráfego constante e da caminhada ser curta, era considerada perigosa, propícia a assaltos. As calçadas eram desertas; não haviam lojas, escritórios ou qualquer tipo de vida pública ao redor, somente muros altos de concreto protegendo os clubes. Dito e feito, um dia no caminho vi três garotos que pareciam favelados se aproximando com a cara fechada. Pressenti o perigo, mas como não tinha para onde correr, olhei para baixo e fui em frente.
Quando a gente se cruzou, o mais alto e mais velho deles parou na minha frente, me olhou de cima e perguntou, “O que é que tu tem dentro dessa bolsa aí, playboy?”
“Nada, tô voltando da minha natação.” respondi preparado para o inevitável.
Sem se dar ao trabalho de me ouvir ele foi logo dizendo: “Me dá essa porra aqui!”
Ainda tentei segurar a bolsa, mas um dos outros dois me deu uma rasteira. Já no chão, vi os três desaparecendo na esquina com meus pertences.
Havia somente uma toalha molhada e uma sunga dentro, mas o sentimento de impotência por não ter sido forte ou corajoso o bastante para reagir foi traumático. Cheguei no clube em prantos. Quando minha mãe me viu, baixou o seu instinto de indignação britânica e fomos direto prestar queixa na delegacia de polícia que ficava do outro lado da rua.
Entramos lá, eu envergonhado de ter chorado e a Dona Renée exalando o seu ar de superioridade. Assim que entrou, exigiu que o recepcionista desinteressado nos levasse para falar com o delegado. Fomos com ele ao andar de cima e depois de uns minutos na sala do chefe, o auxiliar saiu e nos mandou entrar. Talvez em resposta à insistência arrogante da minha mãe, o delegado nem se deu ao trabalho de se levantar e pediu que a gente se sentasse para explicar o que estavamos fazendo ali. Sem esperar que terminássemos, quase nos ignorando através dos seus óculos escuros, o homem barrigudo, moreno e de bigode espesso deu um suspiro impaciente, abriu uma gaveta e atirou na nossa frente um álbum com fotos de bandidos perigosos para ver seu eu reconhecia algum.
Ele olhou debochado para a minha mãe e depois para mim. “Aqui tem fotos de assaltantes à mão armada. Reconhece algum?” Ele foi virando as páginas. “Este aqui a gente pegou num assalto no ano passado, mas soltaram ele há pouco tempo. Foi ele?”
Fiz que não com a cabeça.
“E este aqui? Assaltante de banco, reconhece?”
Depois da sessão de humilhação, com a desculpa de que tinha coisas importantes para fazer, o policial pediu para que a gente se retirasse sem sequer prometer que iria tentar fazer alguma coisa.
*
A delegacia era uma construção amarela desbotada que mais parecia uma casamata. Em cima da entrada, tinha uma insígnia com a inscrição “14ª Delegacia de Polícia” explicando a todos o que era aquele prédio destoante. Na sua calçada de terra batida sempre havia várias viaturas estacionadas. Do outro lado da rua, ficava uma igreja mal cuidada na esquina de um beco, a Cruzada São Sebastião. Nele se encontrava o único conjunto habitacional da vizinhança. Esse era, sem sombra de dúvida, o lugar mais perigoso do Leblon; para nós uma zona proibida.
Seus moradores eram remanescentes da favela da Praia do Pinto, que até meados dos anos 1960 ficava no meio de todos aqueles clubes requintados. Pouco depois do Golpe Militar de 1964, após tentativas “pacíficas” de remover os habitantes, as autoridades militares autorizaram que ateassem fogo aos barracos. Após a destruição, o terreno foi convenientemente repassado a empreiteiras camaradas limparem e aterrarem a área para depois construírem edifícios elegantes. As famílias que se mudariam para lá seriam na sua maioria de militares de médio escalão.
Os ex-favelados que se recusaram a mudar para subúrbios longínquos foram transferidos para o outro lado da rua onde, além da igreja, construíram aquele projeto social de prédios de oito andares. Suas novas acomodações rapidamente adquiriram um ar dilapidado que junto com a sua arquitetura minimalista, fizeram o lugar parecer um complexo penitenciário. A barra ali era pesada. Além dos locais, só camburões e outros veículos policiais se aventuravam beco a dentro.
Na calçada oposta às construções, havia um muro alto coroado por uma grade coberta por arame farpado. Ele separava aquele território de raiva engasgada de nosso campo de futebol de salão no Clube Paissandu.
Era lá que jogávamos nossas peladas na mesma hora em que os meninos da Cruzada jogavam as deles. Dava para ouvi-los claramente. Volta e meia alguém exagerava numa bola dividida ou num chute forte sem pontaria e a nossa bola ia parar do outro lado do muro. Quando isso acontecia, a gente dava a partida por encerrada já que a bola quase nunca voltava. Como revanche, o mesmo valia para as deles que a gente só devolvia se tivessem devolvido a nossa recentemente. Aconteciam ocasionais trocas de pedras e de palavrões e, às vezes, meninos mais atrevidos subiam no muro para nos ameaçar, porém quando faziam isso, se tornavam alvos fáceis para boladas.
*
Garotos como aqueles da Cruzada e como meus assaltantes trabalhavam no Paissandu como boleiros de tênis. Muitas vezes seus pais trabalhavam no clube também. Sem exceção, eram mais bem preparados fisicamente do que o mais forte e o mais bem preparado de todos nós. Às vezes combinávamos de jogar contra eles, mas era o mesmo que ficarmos sentados aprendendo com a sua magia futebolística legitimamente brasileira.
Apesar de, entre a gente, fazermos piadas do seu português errado, dos seus tênis furados e da sua ignorância, os respeitávamos em segredo. A verdade era que todo homem da classe média carioca tinha inveja do arquétipo do homem negro da favela, admirado por ser bom de bola, de briga e de samba, idealizado como viril, com um monte de gostosas de todas as cores e classes sociais correndo atrás deles. A única característica “positiva” que lhes faltava era, é claro, a nossa educação cara e a nossa pele branca.
Em nossa bolha, era fácil esquecer que aqueles que víamos como favelados eram a maioria absoluta da população carioca. Apesar disso, não tinham o mesmo grau de cidadania e somente adquiriam respeitabilidade como estrelas do futebol, artistas e mais tarde, para alguns, como traficantes. Senão, eram elementos secundários nos nossos lares, nos nossos clubes, nas nossas escolas, nos escritórios, nas repartições públicas e mesmo na praia, como vendedores ambulantes. Nas horas de lazer eram passistas de escolas de samba, frequentadores de praias longínquas, pedintes e assaltantes. Para alguns, quase todos eram marginais esperando para serem presos, fazendo por merecer o seu destino por serem preguiçosos, desonestos e depravados. A atitude parecia com a dos brancos para com a população negra na África do Sul durante o apartheid.
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As empregadas domésticas – resquícios da época da escravidão, terminada apenas 74 anos antes de eu nascer – encarnavam a ligação entre os dois mundos. Todo mundo que conhecia tinha pelo menos uma. Todo apartamento, por mais modesto que fosse, vinha com uma área de serviço para elas. Uniformizadas, essas mulheres limpavam a nossa casa, lavavam a nossa roupa, cozinhavam a nossa comida e comiam nossas sobras. Quando chegava a noite, se isolavam nas áreas de serviço e iam dormir em quartos abafados e sem janelas tendo como confortos ventiladores pequenos, crucifixos na parede e rádios baratos. Do lado de fora, tábuas de passar, vassouras e roupas sujas as aguardavam para o dia seguinte.
Quando era pequeno, uma das várias domésticas que passaram por nossas vidas colocava seu emprego em risco trazendo seu filho em segredo para morar escondido em nosso apartamento nos dias de semana. De acordo com o rígido código de conduta, isso estava totalmente fora dos limites. Eu era novo demais para conhecer tais regras e me tornei o único da família a saber da presença do meu amigo secreto que me seguia por todo lado, mas que se escondia atrás das cortinas quando o resto da família estava em casa. Um dia Renée descobriu o garoto e não teve dúvidas nem tolerância: despediu a mulher no ato. Essa atitude severa estava de acordo com a ética da época e do lugar. Todos os vizinhos e amigos apoiaram a decisão.
Por outro lado, nossa última empregada, Dona Isabel, ficou conosco por mais de vinte anos. Ela era a versão brasileira da Mamãe Dois Sapatos, a doméstica do desenho animado Tom e Jerry – negra retinta, baixa e troncuda, com um traseiro gigantesco que balançava pesado em cima de suas pernas grossas e tortas. Por conta da convivência diária, era comum que surgissem laços afetivos entre as domésticas e gente da família e, certamente, esse foi o caso de Dona Isabel com a Sarah e eu. A considerávamos como uma segunda e mais compreensiva mãe. Mesmo assim, o reconhecimento tácito de sua condição estava sempre presente. Enquanto trabalhou com a gente nunca se sentou conosco na sala de estar como também nunca saímos juntos. Tudo o que sabíamos a respeito da sua vida particular é que vivia num subúrbio afastado com um “sobrinho”, que tinha crescido em uma fazenda em Minas Gerais, que encontrava consolo no Candomblé e que tinha trabalhado para o líder integralista Plínio Salgado. O engraçado é que apesar de não saber nem ler nem escrever, esperta, ela aprendeu a entender inglês e volta e meia nos surpreendia com frases na nossa língua.
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por Mauro Nadvorny | 23 maio, 2020 | Crônica
O poeta pediu para não perguntar por quem os sinos dobram. Os sinos deveriam tocar pelos mortos, mortes que foram antecipadas pelas ciências da medicina, Hoje toda verdade é castigada, e os noticiários, diariamente, silenciam as dores com a frieza dos números. Anunciam as mortes com gráficos que nada sentem. O governo ri, alguns dançam, muitos não acreditam, e depois lamentam. As milhares de mortes foram desprezadas por forças desalmadas. Aliás, um dia será escrita a história dessas Forças, pois elas existem para defender a sociedade, mas estão unidas às agressões do poderes poderosos. Hoje impera a velha eugenia na qual morrem os desprezíveis, os fracos, os velhos. Num passado, nem tão distante, o nazismo matou milhões de judeus, doentes mentais, ciganos, e rebeldes. Todos foram considerados nocivos à raça ariana. Hoje atacam os índios, os pobres, os negros.
É impossível expressar em letras, pois elas não expressam os sentimentos dos familiares, amigos e vizinhos dos mortos. As palavras não exprimem as lágrimas dos pais de filhos mortos, como os pais de João Pedro de 14 anos assassinado. Choram avós, netos, tios e tias. Só se sabe o nome e sobrenome de um ou outro morto, como a do poeta Aldir Blanc. Dizem que já morreram vinte mil e irão morrer muitos mais. Escrevem estudiosos que são três mortos para cada um anunciado pois muitos não são diagnosticados. Deveriam morrer muitos pela infecção viral, mas nunca morrer tantas e tantos por descaso dos Cinco Poderes.
Tudo que se escreve não alivia o peso das sombras fúnebres e os sons emudecidos dos sinos. Um sentimento de mundo começa a crescer, contrário a cumplicidade com a crueldade. Os sinos íntimos tocam alguns corações e perguntam por quem eles tocam. Os sinos estão guardados em caixas empoeiradas.
E as televisões diluem as razões de tantas mortes, ocultam sobre os motivos de morrerem mais de mil por dia. Trocam de ministros da saúde sem pudor , gerando o caos na defesa da vida. O mundo divulga quem é o pior líder mundial da pandemia mas a notícia se perde na infodemia atual. O poeta Ferreira Gullar escreveu que morrem quatro por minutos nessa América Latina, mas hoje poderia escrever que a cada noventa segundos morre um ser humano neste país. Há indiferença nos corações congelados, muitos só pensam no dinheiro perdido. São sempre os outros que morrem. E a maioria dos mortos são pobres, sem água encanada, ou máscaras de proteção. Os mandatários fazem política, cuidam dos familiares, e seus apoiadores.
Saudades das batidas dos sinos marcando o horário de uma missa a que nunca fui. Os sinos têm sons para avisar um incêndio, avisar uma procissão, um nascimento ou uma morte. Quando os sinos tocavam uma canção fúnebre, era possível saber se quem morreu era homem ou mulher e até a hora que seria o velório. Gostaria de escutar os sinos dobrando de dia e de noite, a cada noventa segundos, uma para cada morte. Quem sabe assim os corações voltassem a se descongelar, em respeito aos sofrimentos dos que não podem enterrar seus mortos.
Em tempos distantes os sinos das igrejas tocavam cânticos fúnebres e perguntavam por quem os sinos dobram. Ou, em outras palavras, quem morreu? O poeta que pediu para não se perguntar por quem os sinos dobram foi John Donne(1572-1631). Ele revelou em seu poema “Meditação XVII” a conexão entre tudo que existe:“Nenhum homem é uma ilha inteiramente isolado,…a morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.