por Mauro Nadvorny | 18 maio, 2020 | Crônica
É dolorosa essa experiência de viver a morte que deveria ser exceção virar uma pavorosa rotina (Roberto Da Matta)
Parecia um sábado como qualquer outro. Ela foi assistir a aula de teatro da neta, que adorava um palco. Quando terminou, me puxou de lado, com expressão tensa. Justo ela, que sempre vestiu máscara de durona, de engavetadora das notícias tristes. Fiquei preocupado, e não era para menos. Disse-me que estava fazendo uns exames, podia ser coisa séria, era bom estar preparado. Ora bolas, eu conhecia aquela mímica, aqueles movimentos faciais, e eles gritavam por socorro. Grito sufocado, que ela não estava acostumada a dar. Desde criança, num carnaval antigo, quando se perdeu no meio de um bloco e foi parar na delegacia, aprendeu a engolir o sofrimento. Seu pai a buscou com o delegado, já preparando a surra de cinto, que não tardou. Pedir socorro pra quê e pra quem ? Estar feliz era pecado. Viver era pecado.
Os exames confirmaram a suspeita inicial. Tumor, com possível metástase. A notícia era duplamente terrível. Trabalhara durante anos no Instituto Nacional do Câncer como assistente social. Encaminhava doentes para tratamento, vivência diária da angústia numa época em que o diagnóstico de câncer era uma sentença de morte. Contava que via médicos e enfermeiros circulando pelo hospital, levando órgãos dos mortos para pesquisa. Conhecia a Morte com intimidade. Agora percorreria aqueles corredores em busca de uma improvável cura. Não havia máscara que pudesse esconder o horror.
Ainda na fase inicial, acompanhei-a para receber o resultado de um exame. Quando o médico se aproximou, ela desabou. O monumento de segurança, que desafiou o machismo agudo de meu pai e de seu tempo, implorou ao doutor que lhe desse esperança. Não foi possível, as imagens eram implacáveis.
Vieram cirurgia, radioterapia, alguns medicamentos “alternativos”. Montamos uma estrutura para tratamento em casa, conforto que nos permitiu uma despedida gradual, pacífica. Nunca é fácil acompanhar uma vida que se extingue, embora, racionalmente, saibamos que ao nascer já começamos a desaparecer. A sanidade só é possível quando sublimamos a finitude e a arquivamos numa gaveta distante. Pendurada em cuidados paliativos, não restava muito tempo à minha mãe. Não conseguíamos conversar, seus olhos tinham se transformado em bolas de gude opacas. Junto com minha irmã, nos revezamos numa vigília dolorosa, mas resignada. Assistimos pela televisão a apresentação dos Rolling Stones, no Maracanã, esquecendo por breves momentos o espectro da Indesejada das Gentes.
A expectativa do inevitável nos colocou em contato com duas admiráveis profissionais da saúde. A médica, que vinha diariamente acompanhar a situação, mostrou enorme sensibilidade. Falou-nos, sem rodeios mas com delicadeza e compaixão, sobre o fim próximo, preparando-nos para isso. Sabíamos que dona Lilia, como a conhecemos, não existia mais. Não demorou muito. A enfermeira, afetuosa, incansável durante os plantões, foi companheira preciosa na jornada derradeira de uma mulher que, sem idealizações, prisioneira de infortúnios e felicidades como todos nós, aprendi a respeitar. Sem ressentimentos.
Foi nessas duas profissionais que pensei ao ver a foto de uma médica intensivista na capa d’O Globo. Rosto ferido pelo uso permanente da máscara, ela é um dos muitos trabalhadores da saúde que estão na linha de frente da luta contra o coronavírus. Submetidos a jornadas extenuantes de trabalho, muitas vezes sem condições adequadas, vivem uma rotina que combina medo e exaustão física e emocional. Em entrevista à Folha, o doutor Elias Knobel, criador da UTI do Hospital Israelita Albert Einstein, afirmou que “o Brasil nunca se preparou para uma assistência básica no mínimo decente”. Com sua longa experiência na área intensiva, Knobel observou que “quem trabalha na UTI nunca esquece. É muito difícil. Você vê tudo que pode imaginar (…) Isso causa microtraumas”.
Ao voltar de uma visita à avó doente, minha filha, aquela da aula de teatro, abaixou a cabeça e chorou baixinho. Tentei consolá-la. Enxugou as lágrimas e disse: “Vou escolher uma profissão para diminuir o sofrimento das pessoas”. Hoje, é fisioterapeuta e osteopata. Trata, como deve ser, corpo e alma. Com o pensamento e o sentimento voltados para ela, homenageio todos os profissionais da saúde que ajudam, na carne viva de uma pandemia, a socorrer quem precisa. Enfrentam a doença e os cretinos, genocidas, obscurantistas, que tentam transformar nosso país numa fantasia hedionda e caricata.
por Mauro Nadvorny | 16 maio, 2020 | Crônica
Santo Agostinho, em seu livro “Confissões”, escreve sobre uma criança dominada pela inveja. Inveja de um irmão menor que mamava no seio de sua mãe: “Ele ainda não falava e já contemplava, muito pálido e com um olhar envenenado, seu irmão de leite”. A criança, de um ano e sete meses, foi despojada do objeto de seu desejo escreveu Lacan. Ver o bebê mamando reativou a dor da frustração primordial do menino na separação da mãe. Essa inveja fraterna gera ódio, afeto anterior ao amor. A chocante frase “o ódio é anterior ao amor” foi escrita durante a Grande Guerra, que revelou o quanto à crueldade em busca do poder não tem limites. Na cena da inveja do menino pelo seio da mãe está em jogo o poder, diferente do poder em jogo entre as nações, mas em jogo está sempre o poder. Poder fálico baseado numa equação de equivalências simbólicas como o dinheiro, o ouro, entre outros. As relações entre o individual e o social constam na abertura do livro “Psicologia das Massas e Análise do Eu” de Freud. Escreve que a psicologia individual é simultaneamente social num sentido mais amplo. Entretanto, o “Eu” pode ser analisado, a massa é só objeto da Psicologia, onde são abolidas na massa as diferenças individuais. Do semelhante ao mesmo é o lema da massa, o incompatível é atirado para fora.
O primeiro crime narrado no Gênesis é efetuado por Caim, que mata seu irmão Abel por inveja. Sobram crueldades na Bíblia, bem como na “Ilíada” e “Odisseia”. A inveja, nesse sentido, advém como protótipo de um drama social: o outro constitui, ao mesmo tempo, o modelo e o obstáculo à satisfação do desejo pela substituição dos objetos desejados. O assustador nessa história é quando o ódio está a serviço da paixão fanática, do amor ao ódio, dos irmãos que se unem no ódio ao inimigo. O inimigo precisa ser torturado, preso, eliminado, como no racismo, nas guerras religiosas, a guerra civil.
Há ao menos dois destinos para o ódio: um é o ódio como potência de ação, gerando um renascimento, a criação do novo. É o ódio transformado através das sublimações: amor, trabalho, esportes, arte, humor. Um segundo destino ao afeto do ódio é o do amor à destruição dos adversários, que podem ser irmãos, guerras fraternas, ou o ódio da melancolia voltado contra si próprio. O ódio é central nas paranoias, nos fanatismos, em que o inimigo é o culpado por tudo de ruim que ocorre. E sempre é o poder que está em jogo através dos preconceitos, a segregação, como a que existe contra os negros, os estrangeiros, índios, pobres. São pesadelos sociais, capazes de maldades como ocorreu, por exemplo, na Alemanha Nazista. Impressiona como a pátria de Goethe, Kant e Beethoven, projetou nos judeus o grande inimigo a destruir. O livro “Os Alemães”, de Norbert Elias, narra como os alemães abandonaram os valores humanistas a partir do século XVII. No Iluminismo cresceu o antissemitismo chegando ao nazismo; muitos não acreditaram nas ameaças de Hitler. Foi a partir de uma vitória eleitoral, de uns trinta por cento do eleitorado, que se chegou a uma das mais cruéis ditaduras.
Porque o ódio no Brasil cresceu tanto? Após 25 anos da vitória da Constituinte de 1988, foi sendo organizada uma poderosa força conservadora. A sociedade brasileira, é bom lembrar, tem suas raízes na escravidão, em sistemas autoritários como a ditadura militar. O ódio represado contra a democracia irrompeu, pois já Maquiavel tinha alertado que preconceitos são mais poderosos que princípios. Hoje uma minoria pode tudo: corromper, destruir a natureza, matar. Seu lema: Tudo para nós, nossas famílias, as migalhas para a maioria. Um exemplo recente teria espantado Santo Agostinho com a violência do restaurante de Gramado, festejando a morte. Agora, lentamente, os artistas se levantam, assim como um grupo da torcida do Corinthians. O povo silencioso segue os corajosos governadores e prefeitos. O confronto é entre a crueldade dos que ambicionam tudo e a maioria que luta para sobreviver.
por Mauro Nadvorny | 12 maio, 2020 | Crônica
O problema mais sério do homem é a solidão (Érico Veríssimo, em entrevista a Paulo Autran)
Maktub. Andávamos pela feira da rua Tristán Narvaja, tradicional programa domingueiro em Montevidéu. Deixando-nos levar pelo acaso, em meio a aromas e quinquilharias. Numa das muitas transversais, um imenso sebo jogou seu canto de sereia. E lá estava a biografia de Ghiggia, o ponta-direita da Celeste que calou o Maracanã em 1950. O vendedor puxou conversa. Disse-lhe, meio demagógico, que levaria aquele pedacinho do Maracanazo em homenagem à dor pela maior tragédia do futebol brasileiro . Fez-me um bom desconto e saí com a perspectiva de reabrir um tema inesgotável. Aliás, muitos temas.
Quem me acompanha, sabe que passei um longo tempo obcecado pela Copa de 1950. Li, ouvi, assisti, tudo que pude sobre a ascensão e queda de um time espetacular, que naufragou engolido por uma mistura tóxica de soberba, patriotadas, histeria da imprensa, submissão a interesses políticos, e, sobretudo, por uma atuação impecável dos uruguaios. Às 16:39 horas do dia 16 de julho, 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia bateu Bigode na corrida, entrou na área brasileira e fez o ilógico. Chutou quase sem ângulo e surpreendeu Barbosa, que se preparava para cortar o provável centro para Schiaffino. Dois a um, mais de duzentas mil pessoas assombradas com o impossível, um país em silêncio. A partir daí, histórias e mitos se confundiram para sufocar uma dor que parecia murmurar: é, esse país nunca vai dar certo mesmo.
O grande personagem trágico daquela tarde sem glória foi um negro, 1,74 m, destaque no Expresso da Vitória vascaíno. O goleiro Barbosa foi acusado de ter tomado um frango e ser o culpado pela derrota. Em 1959, Nelson Rodrigues escreveu: “O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. (…) O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da (gripe) Espanhola, do assassinato de (senador) Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango de Barbosa”. Amargurado, o goleiro dizia que era o único brasileiro condenado à prisão perpétua. Cadeia sem barras, sem carcereiro, mas de solidão carnívora.“Eu já pensei um milhão de vezes naquela jogada”, lamentava-se, no centro nervoso de seu pesadelo recorrente. Certa vez, estava num bar, quando se aproximou uma mulher com seu filho pequeno. Reconhecendo Barbosa, virou-se para o filho e disse: “Está vendo esse aí ? Foi ele que fez o Brasil chorar”.
Em meio à pandemia do coronavírus, a solidão de Barbosa parece a metáfora perfeita para a sensação de abandono, de condenação sem culpa, de comprometimento do futuro, de impotência para enfrentar o invisível, em que todos estamos metidos. Não é aquela solidão gostosa, fértil, de relação preciosa com o mundo interno. É o estar solitário com medo. Perguntado sobre como lidava com a solidão, Valter Hugo Mãe ponderou que tem medo de ficar só. “Não acredito que alguém nos pode entender o suficiente para conhecer e ser solidário com nossas falhas. A maioria das vezes, nas nossas inevitáveis falhas, estaremos sem ninguém”. Sem querer, o escritor português parece fotografar, em agressivo preto de branco, a fração de segundo que levou Ghiggia a entortar a lógica e selar o destino de um homem.
A festa que estava armada para festejar o título que não veio, os hectolitros de cerveja, as escolas de samba, as promessas dos políticos e dos comerciantes, o desfile em carro de bombeiros, tudo virou jornal queimado nas arquibancadas da solidão. Barbosa morava em Ramos. Os vizinhos tinham preparado um banquete para celebrar a vitória. Uma mesa enorme no meio da rua, com todo tipo de tiragosto e carne, de pernis a chuletas, de sardinhas fritas a moelas, aguardava a chegada do herói consagrado. Quando finalmente conseguiu sair do Maracanã e atravessar as ruas desoladas, Barbosa chegou à sua casa. Um vento morno sacudia a toalha da mesa armada para o triunfo, a comida intocada, os vizinhos ausentes. Alguns cachorros cercavam a mesa, atraídos pelo cheiro da comida. No entanto, nenhum deles tentava alcançá-la. Pareciam hipnotizados. Como se uma maldição os espreitasse, interditando a alegria. Pois foi essa mesa farta, mas proibida, que perseguiu um condenado ao silêncio e à culpa até sua morte, há vinte anos.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 6 maio, 2020 | Crônica
Glórias a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o Almirante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais!
Era o longínquo ano de 1978.Eu tinha sete anos de idade e estava muito doente. Uma febre reumática aguda atropelou minha infância, me trazendo dores atrozes nos ossos, garganta inflamada com placas de pus, picos de febre. Minha mãe sobrecarregada, tendo cuidar dos meus outros irmãos, não podia focar numa só criança que precisava de cuidados 24 horas, meus avós tinham mudado para outra cidade, então chegaram a um consenso, me mandaram para casa do meu bisavô, onde duas das minhas tias-avós cuidariam de mim.
Desse período minhas lembranças mais fortes são: meu bisavô e sua cara larga de eslavo, sentado na sua cadeira cativa na varanda, ouvindo na rádio os rumos do mundo. As benzetacis dolorosas que me tomavam de terror, tomava-as dia sim, dia não e dava problema para os adultos, me escondendo debaixo da cama, dentro do armário, até dentro do tanque de lavar roupa. Não entendia o porque de me submeterem aquela sessão de tortura, por mais que explicassem que era para o meu bem. Graças a odiosa injeção e a diligência do bisa e das tias me livrei de uma cardiopatia. Obrigada família, obrigada Fleming.
As agruras que Tia Ermelinda, passou , viva até hoje e esquerda convicta, que tem a moral concedida pelos seus quase cem anos de botar o dedo na cara da manada da minha família e perguntar como puderam eleger aquele desclassificado para presidente., foram uma verdadeira provação. Ela tentava suavizar meus dias de criança doente , operando a alquimia nas panelas e fazendo o milagre da transmutação. Inapetente, ela fantasiava o que me dava. Era assim que um suco de beterraba com frutas cítricas era apresentado como o mais legítimo sumo de morangos colhido no orvalho da Suécia. A garganta inflamada me impedia de comer algo mais sólido e a minha chatice de quem come mal também, então eu só queria o puro caldinho de feijão. Lá ia ela bater o feijão e jogava carne no liquidificador, sem que eu de nada desconfiasse. Com cuidado, carinho e mão firme, ela driblava minha teimosia.
Uma única coisa porém me tirava do mundo escuro da dor: A abertura da novela O Astro, da saudosa Janete Clair. Ali na TV Philipps colorida, que junto ao telefone eram os bens da classe média, eu assistia extasiada aquele caleidoscópio que surgia na tela, apaixonada principalmente pela música de abertura. Lá era o meu refúgio, momento de desligar do medo, da dor e das picadas de agulha. Não assistia a novela, meu bisavô era rígido, eu não tinha idade para acompanhar. Mas a abertura de segunda a sábado me era concedida. E foi assim que eu, menina de sete anos, sabia de cor :”Minha pedra é ametista, minha cor o amarelo…”Esse foi meu primeiro contato com a poesia de Aldir. Fui crescendo e aprendendo outras. Ouvindo Elis meu pai falava: Essa é do Aldir. Agnus Sei, a sensualíssima Dois pra Lá, dois pra Cá, Mestre Sala dos Mares e fui entrando no universo do vascaíno da Muda.
Aldir, junto a outros nomes que formaram o meu mundo, morreu vítima do Covid-19 no dia 04. Com ele vai parte das minhas memórias afetivas. Triste saber que não seremos mais brindados com suas crônicas, por suas letras que misturam um finíssimo lirismo e um aguçado deboche. Pensando nisso, em Aldir e na novela O Astro, que me lembrei de algo importante e que por algum motivo me leva ao caos que estamos vivendo. O personagem principal da novela, o tal astro, Herculano Quintanilha, foi inspirado em López Rega. Cabe aqui contar um pouco da sua história.
Na década de setenta, Isabelita, moça de classe média alta, versada no francês e no piano, deu vazão a sua rebeldia indo para o Panamá ser dançarina de Cabaré. A nossa Miss Suéter lá conheceu Perón, na idade outonal de 78 anos.
Casaram-se e arrumaram um ideólogo, autoproclamado filósofo e vidente, ex-cabo de polícia, chamado José Lopes Regas, autodenominado El Brujo. Ele não era nada ate conhecer o casal. Em 1972 escreveu o livro Astrologia Esotérica, um calhamaço cheio de loucuras indecifráveis. .Exerceu imensa influência em Isabelita, um Rasputin sul americano. Misturava tudo isso, astrologia, filosofia de boteco, com uma pitada de umbanda e com inspirações da Escola de Thule, que foi um dos berços do nazismo.
Saindo do exílio da Espanha com o casal, tornou-se Ministro do Bem Estar Social e fundou a Tríplice A, uma milicia para combater os esquerdistas peronistas..Peron morreu e com Isabelita sob seu controle, El Brujo ampliou ainda mais seus poderes. Mas durou apenas mais um ano. Em 1975, uma manobra econômica desastrada resultou em inflação súbita e elevada. Celestino Rodrigo, o ministro da Economia, era uma aposta do astrólogo. Deu-se então, o “Rodrigazo”, como ficou conhecida a crise. Com a violenta reação popular, López Rega fugiu para a Espanha., mas como era um vidente de araque e não conseguiu prever seu fim, foi descoberto, detido e extraditado em 1986, morreu na prisão três anos depois. E foi assim que se abriu caminho para uma das mais violentas ditaduras da América Latina.
O que isso tem a ver com Aldir? Ora, o que vemos aí é que todo mundo tem o Rasputin que merece. Se os argentinos tiveram El Brujo, nós temos Olavo de Carvalho. O filósofo cartomante não passa de um genérico! Guru do nosso presidente, é um negacionista do Covid, terraplanista e outro dia propôs que Bolsonaro fizesse uma milícia (para chamar de sua, porque milícia grande ele já tem) para botar ordem e proibir quem tem opinião contrária de se manifestar. Sim, ele propôs algo nos moldes da SA nazista. Esse é o homem que escolhe os ministros, que influencia o governante, suas 4 crias execráveis e alguns ministros de pastas importantes. Muito do nosso inferno deve-se a ele, de sua influência direta.
Esse é o nosso panorama. Um Brasil desgovernado, flertando com o fascismo, tendo um assassino no poder, vivendo uma perigosa crise política em meio a uma pandemia do vírus que matou o poeta. Fosse qualquer outro mandatário emitiria uma nota de pesar pela morte de um artista fundamental na cultura brasileira. Sabemos porém como esse governo despreza qualquer manifestação artística e tratando-se do nosso presidente , nem deve saber quem é Aldir.
Emblemático que o autor do “Bêbado e a Equilibrista” tenha partido no dia seguinte a pantomina diabólica promovida pelo Chefe na Nação , em que ele insinuou a volta a ditadura. O que me dá um certo alento é saber que Aldir permanecerá por sua obra, enquanto esse Hitler Tupiniquim e seus asseclas ,todo o seu circo dos horrores, tem lugar cativo no lixo da história. Que Aldir encontre Henfil e Elis no outro andar e que Bolsonaro, com sua gripezinha , volte ao inferno. Lugar de onde nunca deveria ter saído.
por Mauro Nadvorny | 5 maio, 2020 | Crônica
Morreu Aldir Blanc. Por uma triste coincidência, eu planejava escrever hoje sobre solidões, dessas que dão filhotes que às vezes duram eternidade e meia. Vocês vão me desculpar, mas não dá pra manter o plano, a sensação de perda é corrosiva, como se parte da minha alma suburbana tivesse naufragado ao som de menestréis malditos.
Aldir era a mais pura tradução do espírito suburbano, do estar à vontade, do valorizar as raízes e viver nelas, das rodas de choro e samba ao redor de chopes infinitos e torresmos homicidas, das peladas com traves de alpargatas, do tem uma xícara de açúcar para me emprestar, vizinho ?, do sobrado mal-assombrado, do português da venda, do italiano da barbearia, do espanhol do armarinho.
Como é que faço para acalmar a dor ? Tempos atrás, homenagearam um regente de coral, precocemente falecido. Era uma figura querida, o pessoal estava muito emocionado. Foi quando, pela primeira vez, vi substituírem o minuto de silêncio pelo minuto de barulho. Durante sessenta segundos, o público bateu palmas, cantou o que lhe deu na telha, assobiou, estalou dedos, soluçou. Foi uma das mais belas homenagens que já presenciei. Os vivos, que carregaremos para sempre o esquife das perdas, precisamos mesmo é do barulho do mundo.
Pensando nisso, resolvi dividir com vocês uma das muitas crônicas geniais do Aldir. Uma das que evocam sua vivência suburbana, seus personagens antológicos pela simplicidade e pela mais absoluta falta de afetação. Foi difícil escolher, o repertório é supimpa e vasto. Decidi por uma que me fez rir muito, reduzindo o volume da “vida real” e me fazendo multiplicar os sentidos do dia-a-dia. Virtude rara, só encontrável nos grandes cronistas.
O texto foi publicado na edição 343 d’O Pasquim, em janeiro de 1976. É um alívio saber que ele existe e pode me consolar quando a saudade ficar insuportável. Quem sabe, nestes cinco minutos de leitura e barulho interno, consigo transmitir para vocês o efeito analgésico e vital ?
Aldir vive !
O COCÔ
– Desde sábado ?! Mas hoje é quinta !
A frase cortou a mesa de jantar como a barbatana desse tubarão otário que andou fazendo sucesso nas telas e na imaginação dos nossos mais representativos mentecaptos.
– Tu ficou muda, mulher ? Hoje é quinta !
– Eu sei, Aderbal, mas o Júnior só me falou hoje e pensei …
– Pensou ? E desde quando tu pensa ? Cadê o Júnior ?
Adentra o recinto Aderbal Júnior, sete anos, anêmico, magricela e chato. Obviamente, como todo garoto anêmico, magricela e chato, o Júnior tinha problemas intestinais. Pra sermos exatos, borrava-se frequentemente. Nada mais compreensível, portanto, que a aflição de Aderbal Pai ao saber que o Júnior há seis dias não fazia cocô.
– Telefona pro doutor Waladão !
Enquanto a família aguardava o esculápio, uma prestativa vizinha, tendo ouvido apenas um berro do Aderbal do tipo “tá entupido”, chamou Iná, a desvairada mãe, pelo muro e sugeriu:
– Põe soda cáustica, minha filha.
– Bota na tua velha !
E o Aderbal, normalmente tão educado, tido na Rua dos Artistas como um “doce de coco”, tava um bocado nervoso. Tanto que destratou também a Dona Otília, outra ótima vizinha, que após atravessar a rua para averiguar o motivo dos gritos, aconselhou com sua peculiar sabedoria:
– Ora, enfia a pontinha de um talo de couve molhado no azeite.
E o Aderbal, aparvalhado:
– Enfia aonde ?
– Ué, no cuzinho …
– Talo de couve a senhora enfia na sua horta. No meu garoto, não !
Choviam sugestões:
– Chama a Heronda pra benzer a barriguinha dele.
– Manda comprar limonada purgativa.
Os priminhos do Júnior, cândidas e adoráveis crianças, não compreendendo a gravidade da situação, entoavam em coro:
– Saco-de-bosta ! Saco-de-bosta !
Aderbal, pai extremoso, tomou a defesa do filho:
– Ou essas pestes param com a cantoria, ou eu arrebento um ! Eu arrebento um !
Tio Odorico, pai do menino que regia o coro, não gostou:
– Olha aqui, Aderbal ! Se tu encostar a mão no meu garoto, quem vai precisar de médico é você !
Aderbal, que já estava exasperado, deu prodigioso salto até a mesa onde jazia o jantar e arremessou uma travessa cheia de risoto de camarão em Tio Odorico.
Felizmente errou o alvo.
Infelizmente acertou em cheio a cara da esposa.
Houve um tumulto dos diabos, contornado graças à diplomacia do meu avô Aguiar:
– Noemia, traz o meu revólver.
Mas a paz durou pouco, porque o Penteado, tremendo gozador, fez uma piada infeliz:
– O menino com prisão de ventre e os adultos fazendo cagada!
Recomeçaram imediatamente as sugestões, os berros, o choro de Iná, o corinho de saco-de-bosta. Aderbal, momentaneamente ensandecido, gritava a esmo:
– Bota na velha ! Arrebento um !
Dizem até que meu avô disparou duas vezes para o alto. Toda a rua na janela. Frases chocavam-se nos oitis como pássaros malucos.
– Dá um chazinho de erva cidreira.
– Chama a Radiopatrulha !
– Eu boto a tropa na rua !
Até Isolda, que morava quase em frente, pediu a Rodolfo que interrompesse as pancadas, e vieram os dois abraçados, pro portão.
Nesse instante, saltou de um Citroën o Doutor Waladão, recebido com aplausos e gritos dos moradores:
– Graças ao bom Deus !
– Aí, mocinho !
– Fala, roto-rúter !
Doutor Waladão ouviu o caso com semblante de águia, aproximou-se do Júnior, e, com a frieza dos grandes discípulos de Hipócrates, sibilou:
– Não há mais nada a fazer.
Acocorado num cantinho do sofá, o Júnior, anêmico, magricela e chato como sempre, estava, como sempre, todo borrado.
por Mauro Nadvorny | 4 maio, 2020 | Crônica
As tragédias da vida, apenas e transvestem de tempos em tempos, mas as consequências são sempre difíceis. Hoje tantas pessoas vivem uma nova espécie de exílio, que é o não poder voltar para casa por causa do invisível. Perdemos o direito de ir e vir, o prazer de abraçar também se foi. Tantos sonhos desfeitos, ou adiados. Mas vamos falar um pouco de como é ser imigrante em tempos de pandemia. Ser imigrante nunca foi fácil, e as dificuldades se multiplicam nesses tempos inóspitos. Viver, trafegar, existir, tudo isso, que é básico, passa a ser quase inalcançável.
Em tempos normais, imigrar é abrir mão de sua origem, muitas vezes de seu idioma, de sua família, de sua profissão, sim, porque imigrante não tem profissão, ele faz qualquer trabalho, já que nossos diplomas e experiências nada valem.
Mas se ver na condição de imigrante sem planejamento, é bem mais complicado. Tenho tentado fazer desse exílio, uma vivencia relevante.
Estou em trânsito, vim aqui só para uma breve visita, mas o invisível me tirou a liberdade de seguir o meu caminho, então, tive que vestir a roupa de imigrante, na íntegra, com todas as flores e dores. A realidade é dolorida, existe a exploração do homem pelo homem de forma exacerbada, e o que é de pasmar, é que os maiores exploradores são outros imigrantes. A humanidade é egoísta, e parece querer se vingar do que já passou, se abstendo de qualquer empatia. Passei momentos difíceis, e vejo muitos outros imigrantes em situação bem pior. É de causar um desalento, uma verdadeira desesperança na humanidade.
Mas nem tudo são dores, também tem os momentos de construir amizades, ainda que seja tudo muito restrito, pois os maravilhosos cafés estão fechados, mas ainda conseguimos fazer um brinde, pela vizinhança mesmo, porque o sorrir é valioso para nossa saúde mental.
A primavera chegou, e a explosão de cores transforma a ida ao mercado num passeio turístico, fazemos sélfies, entre caras e bocas, sem mascara para as fotos. Assim passamos os dias, a espera do fim do assassino invisível que tem ceifado tantas vidas. Que em breve possamos seguir nossos caminhos, e que possamos aprender uma nova forma de viver, com menos apego material, e mais amor no toque das mãos.
Lisboa, 02 de maio de 2020
Malka Sarah