por Mauro Nadvorny | 28 abr, 2020 | Crônica
É angustiante dormir sem saber que vai acordar (David Uip)
Desde que comecei a escrever crônicas semanais, em 2011, percebi como era delicado o balanço entre memórias pessoais, familiares, e a vivência social e política. Como interessar leitores por assuntos tão singulares como os desvãos de um Menino na Tijuca desaparecida ? Sei que isso não é nada fácil. Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de literatura, disse que tudo que escrevia tinha a marca da rua Krochmalna, em Varsóvia, onde passara a infância. As primeiras lembranças têm digitais pesadas. Como compartilhar, entretanto, sem cair na frágil idealização do passado e dando toques de universalidade a experiências íntimas ?
Peço licença aos meus golems, às lembranças primitivas, para olhar o que todos, coletivamente, estamos vivendo. Lente embaçada pela falta de uma troca ao vivo com meus interlocutores habituais, isolados como eu. É uma crise que, advertiu o doutor Drauzio Varella, “estamos enfrentando no escuro, uma tragédia de dimensões imprevisíveis”. E ela nos manda, de cara, um aviso, que lembra o filme O mensageiro, de 2009 (Woody Harrelson em grande forma). Soldados são escalados para comunicar, pessoalmente, a morte em combate de militares. Visitam as famílias, e começam dizendo “lamentamos informar” (regret to inform). Pois, meus caros, lamento informar que não há mais ilhas desertas para onde levaremos nossos discos e livros preferidos, nossas comidas prediletas, nossos amores reais ou devaneados. E os aeroportos viraram apenas uma estranha paisagem.
Nossa alma racional insistirá em perguntar onde tudo começou. As redes sociais, esse oráculo diversionista que lambuza monitores e retinas, adoram escalar culpados de ocasião. Coisas como “vírus chinês” acalmam espíritos xenófobos e alimentam o imaginário, tão antigo quanto Charlie Chan, do oriental dissimulado, arredio, pérfido. Prefiro deixar a pergunta no ar. Afinal de contas, os processos de transformação da natureza são lentos e complexos. Quando, por exemplo, começa a erupção de um vulcão ? Certamente que não é quando aparece a fumaça no topo da montanha. Uma estalactite, formação calcárea que resulta do gotejamento de água nas fendas de cavernas, cresce à razão de 0,5 a 2,5 centímetros por século. Assim sendo, se você visitar uma caverna dez anos depois de iniciado o gotejamento, não será capaz de perceber o que está em curso. Pode não parecer, mas nosso planeta funciona como se uma membrana delicada, invisível, conectasse águas, vegetais, rochas, animais, gentes. Rompê-la é uma aposta no desastre.
Afora a sensação de que seremos abalroados por um fenemê se sairmos de casa, o que será que mais angustia na presente turbulência ? Respondo por mim. Não saber a profundidade da borrasca, a duração da crise, é terrível. Como no samba da União da Ilha, em 1978: Como será o amanhã/responda quem puder. E ninguém pode. Todas as rotinas derreteram, as referências mais triviais entraram em colapso. Uma jornalista, isolada com três filhos, contou sua experiência. Sacudidas nas suas certezas mais elementares, as crianças reagem do seu jeito. Uma disse que as paredes pareciam falar com ela. A realidade dá lugar aos fantasmas que nos atormentam em qualquer crise. O discurso dos corpos embaralha os parágrafos. Que mundo resultará deste filtro infernal ? Com que roupa nós sairemos do samba que o coronavírus nos convidou ?
Há quem se iluda e acredite, como Raskolnikov, que a redenção virá depois da purgação dos pecados. Passada a peste, dizem, nascerá uma nova humanidade, mais solidária, mais preocupada com equilíbrios vários. Outros procurarão atalhos para sair da dor, buscando iluminação nos astros. Pode ser. Como diria P. T. Barnum, esperto empresário circense americano, nasce um otário a cada minuto. Estou alinhado com os céticos, mas comprometido com responder e atuar diferente. Neste momento de enorme instabilidade, evoco o belíssimo samba de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho: Que a vida não é só isso que se vê/É um pouco mais/Que os olhos não conseguem perceber/E as mãos não ousam tocar/E os pés recusam pisar/Sei lá não sei/Sei lá não sei. Pois é: sei lá não sei.
por Mauro Nadvorny | 24 abr, 2020 | Crônica
Se as palavras são prata, o silêncio é ouro. Essa frase integra a sabedoria mundial, pois o silêncio é essencial. Já numa análise é preciso também uma atenção que flutue mesmo em tempos de atendimento por watts. Escutar quem fala de forma descontraída, sem impor, nem interromper. Aprender a escutar é um desafio e tanto, mas só assim se pode irromper uma palavra-chave. Um exemplo ocorreu quando um amigo falava de suas dificuldades e de como, às vezes, ficava desesperado. Num momento da conversa, reagindo a algo relacionado à palavra “fundações” de uma casa, ele acrescentou a palavra alicerces. O alicerce é o maciço de alvenaria, sobre o qual se assentam as estruturas externas de uma construção. O alicerce foi como um “Abra-te, Sésamo”, porque começamos a falar dos alicerces da personalidade. Alicerces podem ser pensados como as identificações com os progenitores, por exemplo.
Tem pais que não acreditam muito em si mesmos e não passam confiança, segurança aos filhos. Então, eles podem desenvolver uma baixa autoestima, ter alicerces pouco seguros. Ao contrário, quando os filhos se sentem mais amparados, mais festejados, adquirem mais confiança. Quando os alicerces não são bem construídos nos primeiros anos, isso pode criar dificuldades, mas eles podem ser edificados ao longo da vida. Quando escutei a palavra “alicerce” percebi que ela me tocou, e disse ao amigo que aí estava uma palavra essencial. Ele conectou a palavra “alicerce” a como sua casa da infância, ao ser reformada, ficara pela metade. Não completaram os alicerces da obra, seus pais se desentenderam, e aí se abriram as portas de histórias meio esquecidas.
Às vezes, uma frase toca a alma, não como alívio, mas como um maltrato. O neurologista escritor Oliver Sacks, em seu livro autobiográfico “Sempre em movimento”, nunca esqueceu uma condenação de sua mãe. Ela, ao saber que ele tinha inclinações homossexuais, disse: “Quisera que você nunca tivesse nascido”. Essa frase o perseguiu por anos, e às vezes essas palavras sangravam no jovem Oliver. Tentou entender o conservadorismo de sua mãe, e no final da vida pôde se aliviar e ainda ser grato a ela pelo que fez de bem a ele, bem como ser grato a seu pai e à vida em geral. Precisou de quase meio século de tratamento psicanalítico, mas conseguiu escrever, trabalhar, amar.
Poucas passagens do Hamlet de Shakespeare me tocaram tanto como a conversa entre os amigos e o príncipe no III ato, cena 2 da peça. Os amigos foram enviados pelo rei para investigar o que sabia Hamlet sobre o assassinato de seu pai. Este percebe que eles desejavam extrair dele seus segredos. Então, ao escutar o som de uma flauta, o príncipe propõe a um deles que a toque, e este disse não saber. Hamlet insiste dizendo que é fácil, e, frente a nova recusa, exclama: “Pensais que sou mais fácil de tocar que uma flauta?”. Tocar a alma de alguém, deixar-se tocar em sua alma, é essencial nas relações humanas. Ser grato aos que somam na vida faz bem e assim aceitar que a gente é uma pessoa por meio de outras pessoas.
Criar um clima descontraído numa conversa facilita a difícil existência. Por exemplo, numa análise, a pessoa vai descobrindo alguns dos mistérios da história dos seus desejos. Na análise, como numa odisseia, vai-se em busca de aprender quem se é e como se amar e amar. A viagem é atravessada por desejos inconscientes, as identificações, o ontem, hoje e amanhã. Há muito para se conhecer, e as viagens para seu interior requerem tempo e paciência. Aos poucos se pode mudar um ponto de vista marcado pelo peso para uma visão com mais leveza. A palavra “alicerce” ajudou esse amigo a revisar sua história e assim ver mais claro a existência. Um dia estava limpando os vidros de meu carro e um analista ao ver disse: “Querendo ver mais claro”. Essa frase me tocou, na verdade foi uma boa interpretação. Enfim, o título no gerúndio “Aprendendo a escutar” é porque na vida se aprende sempre; a não ser os que pensam já saber tudo.
P.S. Dia 26 domingo, às 16 horas, farei a última live sobre o “Humor é coisa séria”.
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Crônica
Às vezes ficamos um tempão sem nos encontrar com um amigo próximo, um poeta camarada, um músico que sempre esteve na raiz da nossa sensibilidade. Como se bastasse saber que eles existem, estarão sempre por perto, para cá do arco-íris.
Nas últimas semanas, parece que a Indesejada das Gentes resolveu sabotar o jogo gentil das presenças distantes. Levou de vez muitos passageiros desse barco tão espaçoso e que nunca cansei de ampliar. Pois se foram, de Tantinho da Mangueira a Manu Dubongo, de Ellis Marsalis a Lee Konitz, de Moraes Moreira a Rubinho Barsotti. Do Rubinho, baterista do Zimbo Trio original, lembro do programa O fino da bossa. O Zimbo acompanhava Elis Regina e Jair Rodrigues no palco da TV Record, biscoito fino que não se encontra mais, nem nas boas casas do ramo. Em 1968, lá estava Rubinho, junto com Luis Chaves e Amilton Godoi, tocando no show que reuniu, no teatro João Caetano, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro.
Insaciável, a Indesejada anda rondando Aldir Blanc, internado em estado grave para tratar de encrencas várias. Meu coração tijucano geme com ele. Aldir é cria da Grande Tijuca, se me permitem a gula imperialista de incorporar Estácio, Usina e Muda ao bairro da zona norte. Mãe generosa e opulenta, a dona Tijuca.
O Menino teve seu momento Usina. Cortado dos treinos de futebol de salão do clube Monte Sinai, foi convidado a jogar no time da fábrica Souza Cruz, na Usina. A quadra ficava no alto de uma ladeira sinuosa, cercada de mato pelos dois lados. Os treinos eram à noite, o caminho mal iluminado. Sem problema, a gente vivia tempos amenos, medo mesmo só do céu sem estrelas e das provas de álgebra. As coisas corriam bem, o Menino se adaptou à lateral esquerda e se podia considerá-lo titular. Um acidente ofídico cortou a carreira promissora. Correu à boca pequena que cobras tinham sido vistas atravessando a ladeira. Boato ou não, nunca mais apareceu por lá. Cobra, só aceitava o Dida. Eu, hem, Rosa !
Aldir é mais conhecido pelas letras primorosas das músicas com vários parceiros. É, no entanto, um senhor cronista. Quando soube disso, devorei todos os seus livros, impregnados pelo bairrismo que alegremente compartilho. Morar na Tijuca ou adjacências sempre foi sua opção de vida. Mesmo o bairro que foi se degradando, como aliás boa parte da cidade. Os bares com serragem no chão, os bebuns folclóricos, as referências visuais e afetivas, a fábrica da Brahma, tudo engolido e transplantado para as memórias. Dormiram ruínas, acordaram literatura.
Mesmo à distância, torço para que ele se recupere logo. Não vejo melhor forma de agitar minha bandeira torcedora na arquibancada – rubro-negra, para horror do vascaíno Aldir – do que dividir com vocês uma crônica extraída do livro Direto do balcão. Trata-se de Cura no ventilador. Para quem não sabe, Aldir é formado em medicina, com especialização em psiquiatria. Mas doutor mesmo ele é com as palavras. Volte logo, ô cara.
CURA NO VENTILADOR
Há perguntas das quais você não consegue se libertar. Costumo dizer que ninguém faz medicina impunemente. Problema meu. Agora, responder, nos últimos 20 anos, como a medicina influenciou as letras de música, puxa, é doloroso. Uma variante dessa pergunta é o “conta um caso engraçado que te aconteceu no tempo de médico”. Vejam vocês: eu passei por maternidades miseráveis, hospitais de subúrbio, prontos-socorros sem recursos, enfermarias psiquiátricas de fazer Dostoiévski dar um chilique … O que poderia acontecer de engraçado nesses lugares ?
Para que não me acusem de má vontade, escarafunchei na memória um tropeço que é a cara do sujeito, qualquer um, partindo para uma atividade nova.
Tive, depois de formado, um pequeno consultório (entre outros), na Praça da Bandeira, que poderia fazer parte do programa Sai de baixo, por causa do meu vizinho de sala. Era um ginecologista escrupuloso, obcecado por seu trabalho. Sabia dos riscos da profissão e era um puro, desses ginecos nelson-rodrigueanos, “como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro”. Invadia meu consultório sem bater, sentava-se num sofazinho preto e suspirava:
– Acabei de ver um mioma do tamanho de um abacate …
Isso não teria nada de errado se eu estivesse sozinho na sala. Mas geralmente eu me encontrava no meio de uma consulta. Vocês podem imaginar o efeito que uma frase explícita sobre ginecologia provocava em algumas pessoas sensíveis. E foi assim até o último dia de minha atividade naquela maldita sala quando fechei tudo e dei o fora, graças a Deus, para sempre.
Mas vamos contar, de preferência pela primeira e última vez, o “fato engraçado”. O consultório era modestíssimo, para não dizer pobre. Mesa, duas cadeiras, uma pia do tempo do onça. O sofá já descrito. Num verão de induzir pinguim a cortar os pulsos, coloquei um ventilador verde no chão, perto da porta, onde ficava a tomada. A paciente seguinte, uma primeira vez, moça delicadíssima, não pôde deixar de sorrir com a precariedade daquele artefato zumbindo no chão, sem sequer uma pequena mesa ou banco. Mas o ventinho, mesmo artificial, compensava. Trocamos um sorriso cúmplice. Ela me explicou que se considerava a mais desajeitada das pessoas. Tudo lhe caía das mãos e quebrava. Uma simples troca de objetos poderia provocar catástrofes tremendas.
Naquela época a “formação psiquiátrica” era a seguinte: você ficava de manhã apartando briga em enfermarias superlotadas sem remédios, fazia um “curso” obrigatório de noite na Escola Militar de Medicina, no Moncorvo Filho (a CIA havia tachado psiquiatria, no Cone Sul, de “assunto de segurança nacional”) e tentava abrir um consultório para exercer a papoterapia e ganhar algum. Era isso.
Voltando: a moça contava suas dificuldades quando a porta se abriu com violência e o ginecologista, aos gritos de “nunca vi nada pareci …”, tropeçou no fio do ventilador, voou feito o homem bala por cima da minha mesa e me atirou no chão de pernas pro ar.
A moça nunca mais voltou. Segundo seus familiares, ficou completamente curada.
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Comportamento, Crônica
Madrugada. As nuvens pesadas prenunciam chuva. As ruas caladas por falta dos transeuntes davam a sensação de abandono. Apenas um uivo longe de um cachorro solitário espantando os medos. Marcos debruçado sob a máquina de escrever, que era de seu avô, tentava redigir a crônica do domingo para o Jornal do Povo. Uma inquietude o atormentava, pois seu texto, mesmo com humor e trocadilhos, iria mexer com a intimidade do homem mais importante daquelas paragens. Dono de um latifúndio e rede de farmácias e supermercados. O homem era excêntrico e sua vida era marcada por muitos mistérios. Vivia sozinho, apenas um serviçal e dois pequenos lagartos eram suas companhias. Usava sempre a mesma cor cinza. Até sua casa suntuosa tinha essa cor dando ao lugar um ar de solidão e tristeza. Só em alguns dias e noite especiais, como natal, páscoa e dia de todos os santos ele contratava as floriculturas da cidade para enfeitar todos os cantos e recantos do jardim e da casa. As boleiras e confeiteiras eram levadas para a grande cozinha que ficava ao fundo da mansão e passavam a manhã inteira a fazerem bolos, doces e iguarias deliciosas para serem servidas as crianças de toda a cidade e redondeza. A cidade ficava em festa. Os presentes para a criançada era escolhidos com esmero e parece que ele adivinhava cada desejo e sonho de cada uma. Era mágico aquilo. Ninguém sabia explicar o milagre das festas e o lúgubre tempo de silêncio da mansão. Quando as crianças entravam tudo era lindo: brinquedos, piscinas, as iguarias, tudo perfeito. O homem ficava de sua sacada olhando toda alegria e folia da meninada e seu olhar sempre sério e frio ficava doce e terno. Parecia que certa juventude tomava conta dele e por pequenas horas ele se tornava vivaz e fagueiro. Era algo lindo de se reparar. Os comentários perduravam por dias e dias e o homem voltava para o seu mundo desconhecido. Apenas falava com os homens de sua confiança de negócios e nada mais. Nenhuma palavra. Nenhuma revelação. Marcos queria escrever sobre um fato que ouvira em um dos bares da cidade sobre o misterioso dono do “mundo”. Era assim que o chamavam. Os homens entre um carteado e outro, comentavam sobre uma noite de chuva que o haviam visto se dirigindo para o bosque que cercava a cidade e ao voltar carregava algo como se fosse um corpo em seus braços. Com tantos carros ele andava a pé. Era isso que estranhava e fomentava os fuxicos daquele lugar. E os longos e profundos gritos de dor que se ouvia dos muros daquele lugar de estranheza. A crônica seria sobre o imaginário mundo dos ricos, e, por recorte, ele escreveria sobre as esdruxulas manias do homem em questão. Mas sabia que correria o risco de ser cruel e sarcástico com alguém que pouco sabia e aparentemente era inofensivo. Mas abana a cabeça e inicia a escrita como sempre. Um fato espantador… O homem guardava em um porão a alma de sua filhinha e precisava das crianças para senti-la viva e correndo pelo jardim, assim diziam os homens daquele bar e caiam na gargalhada já embriagados pela cachaça caseira. Marcos fumou mais um cigarro e sem reler o seu texto leva-o ao jornal para divertir e provocar a curiosidade das pessoas que o acompanhava domingueiramente as suas crônicas cheias de picardias e poucas verdades. Era a sua marca. Verdades absolutas só em seus escritos nunca publicados em que caminhos eram cruzados de dor e abandono.
Gigi Pedroza
por Mauro Nadvorny | 17 abr, 2020 | Crônica
Conversas que mudam a vida são inesquecíveis. Em geral são frases das conversas que permanecem na memória, quando esquecidas seguem sendo essenciais. São conversas desarmadas, em que se vive o tempo com prazer, os assuntos não se esgotam. Cada um pode recordar alguma história marcante, que gerou uma metamorfose de um antes e um depois. As vezes, frases comuns geram reações surpreendentes ao tocarem a alma de quem escuta e reverbera em quem falou.
O diálogo pode ser tanto com uma pessoa, como também com um livro. Quem abrir o livro autobiográfico “Viver para contar” do escritor Gabriel García Márquez.poderá conhecer essa história. Gabo relata que na juventude teve uma broncopneumonia dupla devido a ser um fumante de quase cem cigarros diários. Esteve internado, quase morreu, mas seguiu fumando escondido no banheiro do hospital. Decidiu então que preferia morrer a parar de fumar. Uns bons anos depois conversava com amigos numa janta em Barcelona, quando um psiquiatra comentou que o vício mais difícil de deixar é o do cigarro. O escritor colombiano perguntou por quê. E escutou: “Deixar o cigarro é como matar uma pessoa querida”. Na hora García Márquez decidiu esmagar o cigarro no cinzeiro e nunca mais fumou.
Essa encontro de amigos numa distante noite na capital da Catalunha, mudou sua vida. O escritor nunca desejou saber por que deixou o cigarro nessa noite.Talvez tenha se sentido desafiado a matar o cigarro como seu acompanhante. Ele, sem saber, rompeu a relação narcisista infantil que o amparava ao acender cada cigarro. O infantil, às vezes, pode ser uma força de morte, mantendo o sujeito atado ao passado familiar de uma forma ou de outra. Renunciar ao cigarro assim é vivido como uma morte, um desamparo diante a falta que faz o amigo/inimigo. Aliás, é comum que sejam mantidas raízes infantis que mortificam, o poderoso masoquismo, e das quais é difícil se desprender. A frase do psiquiatra em Barcelona tocou a alma do autor de Cem anos de solidão, de tal forma que ele matou sua dependência mortífera. O escritor, diante do desafio de matar, decidiu provar que era capaz de separar-se do cigarro sem morrer. Perdeu o cigarro como apoio, e assim enfrentou seu desamparo. A frase do psiquiatra teve tanto poder devido à transferência de García Márquez com o amigo. Importante foi que nunca mais fumou e pôde assim, seguir escrevendo por muito tempo.
Quando era criança, escutei a história de Ali Babá e os quarenta ladrões. Fiquei fascinado com a frase-chave: “Abre-te, sésamo”. O poder mágico dessa frase de abrir uma montanha povoou meu imaginário. Lembro até de ter dito essas palavras mágicas diante de alguma porta ou até diante da rocha de alguma montanha. Apesar de fracassar nas tentativas que fiz de abrir as portas com o “Abre-te, sésamo”, ficou na memória o essencial: as frases, as histórias, são poderosas e abrem portas na vida. Portanto, leituras e diálogos podem modificar o ponto de observação com o qual se vê o mundo. Uma conversa instigante alivia o peso com o qual a gente se vê condenado. São palavras que dão asas as imaginações, felizes os que aprendem a conversar, o que envolve a difícil arte de escutar. Montaigne em seus “Ensaios” escreveu que “conversar é uma arte, é o mais proveitoso e natural exercício de nosso espírito”. Gostava das conversas em que havia contradições, e conclui que só os autoritários e fanáticos não suportam o contraditório, logo não sabem dialogar. Ah, se o Brasil aprendesse com Montaigne!
O primeiro romance, Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes é construído por colóquios entre Dom Quixote e Sancho Pança. Falam sobre a justiça, o amor, a liberdade e a gratidão: “Entre os pecados maiores que os homens cometem, ainda que alguns digam que é a soberba, eu digo que é a falta de gratidão”. Bem-aventurados os que sabem ser gratos. Em tempos de isolamento e solidão, brindemos aos nossos encontros que ajudam a viver e sonhar.
P.S. “Humor é Coisa Séria – Ciclo de conversas com Abrão Slavutzky”. Esse evento seguirá nesse domingo às 16 horas também no meu facebook.
por Mauro Nadvorny | 17 abr, 2020 | Brasil, Crônica
No meio de todo o transtorno que vivemos por força da pandemia de COVID-19, uma estranha linha de pensamento se avoluma nos meios sociais. Tal linha advoga que o debate sobre o COVID-19 está “politizado”, “partidarizado” ou “polarizado”. A questão é que há claramente um vício de entendimento do cenário, que leva a esta percepção (falsa) de polarização. Mais precisamente, uma ilusão, própria dos que tem um repertório restrito do entendimento da realidade e suas complexidades.
Vivemos em um mundo pós-iluminismo, construído sobre alicerces racionalistas, cartesianos, reforçados pelas colunas do estado moderno que desde a sua concepção luta para crescer e viver afastando-se progressivamente do despotismo, do autoritarismo e para aproximar-se de um cenário onde haja equilíbrio e liberdade para um debate permanente e continuamente autoaprimorado.
Assim, quando a defesa da ciência e seu ferramental, que foram desenvolvidos neste espírito há pouco descrito e que justamente existe e prepondera sobre o atávico desejo imperialista de apropriação da verdade e conhecimento, é encarada como posição partidária ou ideológica, temos um problema. Um grande problema.
Quem é capaz de tal formulação, é simetricamente incapaz de se aperceber do mundo onde vive, de seus sustentáculos filosóficos, éticos, políticos e sociais. Vivemos (ainda) sob a égide dos grandes contratos sociais expressos em constituições, legislação ordinária e eventuais discricionarismos autorizados pela representação democrática, todos eles construídos sobre a lógica e o racionalismo, que são plenamente incorporados à nossa linguagem (ao arrepio de Nietzsche) mas que literalmente galvanizam nossas relações sociais e políticas em todos os níveis.
Certamente o universo dos conhecimentos não alcançáveis pela metodologia científica é muito maior do que aquele das coisas que podemos dividir por partes examinando-as individualmente ou em pequenos arranjos. O conhecimento sobre o cérebro talvez seja o exemplo mais marcante à mão, no imediato. Mas moramos em edifícios concretos e abstratos construídos com essas substâncias igualmente concretas e abstratas.
Pretender classificar, portanto, a defesa do universo da ciência como divergência política ou partidária é esta sim, escancaradamente uma posição política “per se”, que só pode ser fruto de um autoritarismo vulgar e rasteiro, ou de profunda ignorância (real ou dissimulada), de um transtorno mental delirante, ou da combinação de tudo isso em ordens e proporções as mais variadas, e certamente associada a propósitos não alcançáveis no campo da legalidade, da ética e da civilização tal qual a conhecemos.
Se prosseguirmos na aceitação do argumento “partidário” aplicado a quem defende a ciência e todos os valores sobre os quais nossa civilização (ou o pedaço dela) estaremos sob o risco de perder nossa bússola. E sem ela, seremos em tempo próximo incapazes de saber onde viveremos. Ou, se viveremos. A ameaça às instituições nunca foi tão grave.