por Mauro Nadvorny | 14 abr, 2020 | Brasil, Crônica
A uma certa Menina, que, aos 8 anos, descobriu os Beatles e acabou se descobrindo.
O olhar estava longe. Cheguei perto e perguntei ao meu sogro, à época já virando os oitenta, o tradicional vi gueistu (como vai, em ídish). Sem se desviar do ponto distante, falou baixinho: foi tudo tão rápido … Não entendi. Olhou para mim e disse, com uma pontinha de melancolia: a vida, Jacquinho, a vida … Surpresa. Entre a vivência judaica na Polônia, a fuga com a chegada dos nazistas, a passagem pelo gueto de Xangai durante a guerra, a direção do último jornal em língua ídish no Brasil, sua trajetória intensa evocava tudo, menos imagens velozes. Tudo muito trabalhado, muito conquistado, sublimando memórias trágicas, construindo um espaço e uma identidade. Como rápido ? Mais tarde entendi o que ele quis me dizer.
Quando os jornais lembraram, dias atrás, que fazia meio século que os Beatles acabaram, espantei-me. Como assim, meio século ? Tão rápido ! Este pequeno mistério do tempo, o cronológico meio divorciado do emocional, faz sentido. Quem não viveu a década de 60 tem dificuldade em compreender a beatlemania. Sem redes sociais, o telex como a última palavra em tecnologia de comunicação, um quarteto vestindo terninhos apertados e usando cabeleiras que escandalizaram os habituados ao Príncipe Danilo, virou enorme fenômeno de massa. Do jeito que dava. Vendendo discos, tocando no rádio, se apresentando em todos os cantos, às vezes em condições precárias, filmando com Richard Lester. Letras edulcoradas enlouqueciam adolescentes, havia concertos em que eles sequer ouviam as próprias vozes, abafadas por gritos histéricos de devoção. Parece que uma geração inteira aguardava aquilo para se soltar.
Pode parecer exótico, mas, desde o surgimento dos requebros sensuais de Elvis Presley, o rock foi atentamente acompanhado por uma espécie de polícia de costumes. Quando o filme Rock around the clock, estrelado por Bill Haley e seus cometas, foi lançado em 1956, telegramas das agências noticiosas comentavam que os jovens “endoideciam” e se atiravam “às mais grotescas extravagâncias”. Não raro, as sessões eram seguidas, na rua, por “dança bamboleante e frenética”. No Rio, o delegado de Costumes e Diversões (sim, isso existia !), preocupado com a chegada do filme na cidade, determinou vigilância especial nas salas de projeção. Não satisfeito, sentenciou: “Eu aconselharia aos pais dos jovens que se têm deixado transtornar pela música em questão levá-los ao médico psiquiatra, pois alguma coisa estará errada em suas mentes”.
No caso dos Beatles, que jamais saíram do figurino bem comportado no palco, foi fascinante acompanhar a rápida carreira. De besteiras como She loves you, Love me do e I wanna hold your hand ao repertório sofisticado que inclui A day in the life, Here comes the sun e She’s leaving home, foi um salto enorme. Depois dos últimos concertos nos Estados Unidos, em 1966, decidiram terminar com as apresentações ao vivo. De Sgt. Pepper’s (considerado por muitos o melhor disco de música pop de todos os tempos) em diante, só se reuniam em estúdio. Em 1966, aliás, Lennon, numa de suas famosas provocações, disse que “somos mais populares do que Jesus Cristo”. Foi o suficiente para desencadear reações enfurecidas nos Estados Unidos, especialmente no sul. Promoveram-se fogueiras com LPs da banda e pequenas manifestações de “desagravo” a Jesus. A Ku Klux Klan participou alegremente dos fogaréus.
No Brasil, era comum fazer versões em português para os sucessos internacionais. Bolerões, então muito em voga, surfavam na onda. Blue gardenia, originalmente cantada por Nat King Cole, ganhou versão gravada por Cauby Peixoto. A tempestade beatlemaníaca gerou filhotes na mame loshn brasileira. Os que estão há muitos anos na estrada lembrarão Renato e seus blue caps: Feche os olhos (All my loving), Menina linda (I should have known better) e Até o fim (You won’t see me). Também Ronnie Von, o Pequeno Príncipe da Jovem Guarda, cantando Meu bem (Girl), com ensaiado ar blasé. A turma da Geração Paissandu tinha outras preferências, mas os bailes domésticos e em clubes eram vitaminados pelo abrasileiramento do Fab four.
A separação do quarteto de Liverpool foi especialmente lamentada por ter acontecido num momento em que a banda demonstrava amadurecimento artístico e elevadas doses de criatividade. Prova disso é a carreira solo de John. Ele declarou várias vezes, não sem certo rancor, que estava farto de repetir cançõezinhas românticas. Desabrochou feminista (Woman is the nigger of the world), ativista politico (lutou pela libertação do militante antirracista John Sinclair), pacifista, cronista da própria dor (Mother, um ajuste de contas público com seus pais), poeta do desencanto (God, em cuja letra aparece, pela primeira vez, “o sonho acabou”). Harrison, o beatle caladão, lançou um álbum triplo no mesmo ano da separação do grupo. Não consigo dimensionar o que aconteceria se tivessem permanecido juntos, mas a vida real está fora dos manuais de autoajuda e dos conselheiros de receita pronta. Relações são mesmo complicadas, tempestuosas, tensas, nem sempre negociáveis.
John, Paul, George e Ringo estão na galeria existencial da minha geração. Muitos de nós ouvíamos suas músicas sem entender uma palavra, analfabetos que éramos em inglês. Fazíamos, então, um scat singing e, voilà !, tudo em casa. Uma música composta por Paul McCartney (embora atribuída também a Lennon) sintetiza o que sentimos pelo privilégio de ter acompanhado os Beatles desde o início. É Black bird. Diz: Black bird singing in the dead of night/take these broken wings and learn to fly/all your life, you were only waiting for this moment to arise. Acho que nosso sentimento, o das multidões que ouviam a banda era esse mesmo: uma revelação. Como se tivéssemos passado a vida aprendendo a voar, e o momento do primeiro voo tivesse chegado.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 7 abr, 2020 | Crônica
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos (Fernando Pessoa)
Antevéspera de Pessach. No jantar inaugural, costuma-se ler a história oficial, de veracidade no mínimo duvidosa, sobre o êxodo, a saída dos hebreus da escravidão egípcia. Há um momento em que se fazem quatro perguntas, muito apreciado pela meninada. É o Ma Nishtaná, ou Di fir cashes, como diziam, em ídish, nossos avós. Uma delas transcende, hoje, o sentido original: em que essa noite é diferente das outras ? Essa que se aproxima, assombrada por um vírus, se diferencia, sobretudo, por nos fazer distantes de quem amamos. As imagens virtuais são apenas um gato mambembe para o contato pessoal, insubstituível. Resta um punhado de memórias e o redesenho dos significados que associamos a essa história. Uma atualização permanente, aprovada pelos sábios que, ao longo dos séculos, perceberam a importância de incorporar vivências e percepções à narrativa.
O Menino navegava, maravilhado, por aromas e sabores da mesa, solene apenas no início. Em pouco tempo, farelos de matzá, restos de hrein, gotas de vinho sacramental e respingos de yuach, o caldo de galinha dourado e fumegante, enfeitavam a toalha, misturados com as canções da Agadá e os causos dos adultos. Para ele, o ovo cozido mergulhado em água salgada, simbolizando as lágrimas vertidas pelos escravos, era iguaria digna de uma estrela no guia Michelin. O clima acolhedor d’antanho era meio quebrado pela separação, afetiva e social, da família. Os da zona norte não celebravam junto com os da zona sul, o que nos fazia, os de calças curtas, exercer preferências. Cruel para as crianças, que sonham com unidade em terra de separação.
Disse que a história oficial não pode ser confirmada. É verdade, mas o Pessach é uma das argamassas que criaram uma certa unidade no povo judeu. Como explicou o historiador Jaime Pinsky: “Um povo é um grupo com a consciência de um passado comum. Não é fundamental que o passado comum tenha realmente existido, basta a consciência da existência dele: ao escolher a herança judaica, cada indivíduo passa a ser depositário de um universo de valores”. Que valores o Êxodo convoca ?
Começo com um antivalor. Para convencer o faraó a libertar os hebreus, deus providenciou dez pragas. Nenhuma delas foi exclusiva da família real egípcia e sua corte civil e militar. Todas atingiram indistintamente todo o povo egípcio, condenando-o à fome e à doença. Ao transformar as águas do Nilo em sangue, por exemplo, uma hecatombe ecológica que exterminou a vida do rio, liquidou pescadores e suas famílias, retirando uma das principais fontes da alimentação dos pobres. O assassinato dos primogênitos, última das pragas, foi de uma perversidade inominável. Atingiu do faraó ao mais miserável dos escravos não-hebreus. Punição coletiva, hoje condenada pelas leis internacionais, como demonstração de poder. A se crer na onipotência divina, tudo poderia se resolver sem sangue, sem violência. O pai amoroso do “Povo Eleito” demonstrou vaidade agressiva e sede de vingança. Mau exemplo, o lado negro do Pessach.
Pensando bem, essa nuvem aterrorizante ainda flutua por aí. Pois não é que uma praga invisível resolveu separar pessoas, desenterrar velhos desesperos, exilar projetos de vida ? Junto com ela, tentações totalitárias emergem como gafanhotos egípcios.
A travessia do deserto por 40 anos, clímax do processo de libertação, levou a uma terra diferente. Terra do leite, para saciar a fome, e do mel, para adoçar as vidas. No entanto, levou a novos valores, como era, supostamente, a vontade de Moisés ? Ninguém pode saber, mas a gente pode especular sobre o que gostaríamos que fosse o novo, o renovador, que enriquece a liberdade. O que, por exemplo, acontecerá quando terminarmos de atravessar a epidemia que enfrentamos ? De Paraisópolis à Rocinha, do Complexo do Alemão à Vila Nova da Cachoeirinha, da Maré às palafitas do bairro do Pina, do Vidigal às famílias de Magé que moram em residências condenadas, uma multidão de novos escravos, sem direitos, vivem empilhados em casas minúsculas, sem ventilação, esgoto, água. Dez por cento da população brasileira vive hoje em “aglomerados subnormais”. Quase 14 milhões estão na miséria extrema. Todos invisíveis nas nossas rotinas. Continuarão assim ? Continuaremos a vê-los apenas na televisão, como realidade distante, intergaláctica ? Quando, onde, como, começará seu processo de libertação ?
Em 1943, na primeira noite do Pessach, a Organização Combatente Judaica iniciou o levante do gueto de Varsóvia. Armados precariamente, os últimos sobreviventes do gueto enfrentaram o exército nazista, dispostos a deixar um exemplo de dignidade e respeito à vida. Sabiam que não poderiam sobreviver, mas deram o grito de liberdade nas condições mais extremas. A escolha da primeira noite do Pessach não foi acidental. Coincidiu com a herança libertária que uma passagem da Agadá, a narrativa oficial, bem sintetiza: Sentirás o Êxodo como se você mesmo tivesse saído da escravidão do Egito. O grito dos perseguidos, dos humilhados e ofendidos, não pode ficar confinado nas muralhas do gueto. Sua dor deve ser a nossa. Um valor que, em grande parte, ainda é apenas um desejo distante.
David Bogomoletz, de saudosa memória, criou um pequeno roteiro de Pessach há quase vinte anos. Termina do mesmo jeito como quero terminar: Maldita seja a escravidão/seja de quem for,/exista onde existir,/em todos os tempos e todos os lugares,/para todo o sempre,/amém !
Assim, apesar dos pesares e com esperança viva, embora em quarentena, Chag Pessach Sameach para todos.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 4 abr, 2020 | Crônica
Em um país distante vivia um homem cuja ambição era ser rei. Tinha esse sonho de ter muito poder, de mandar e não ser contrariado. Contam que tinha um espelho mágico diferente da história infantil Branca de Neve e os sete anões. O espelho clássico dizia a verdade para a rainha, já esse outro espelho sempre dizia que ele era o mais forte e, mesmo ele sabendo pouco, o espelho dizia que ele sabia tudo. Um dia esse homem se candidatou a rei, e ninguém acreditava nele, mas sua campanha feita com ódio, mentiras, e um ataque mal explicado foi vitoriosa.
Todos os dias o novo rei vociferava contra os que discordavam dele. Sabia mais medicina que os médicos, mais jornalismo que os jornalistas, mais educação que os educadores. Quase todos lhe tinham medo, pois era festejado por policiais, milicianos, profissionais liberais, ricos e até pobres. Instalou-se nesse país a mentira, mas o rei afirmava que só ele dizia a verdade e os demais mentiam, e ficava o dito pelo não dito. Um dia chegou aqui, vindo de outros países, um vírus, um vírus coroado e desafiou os conhecimentos do rei. Este desprezou o vírus, disse que homem não tem medo de um ser invisível, só os moleques tem medo. Os pequenos reinos que obedeciam ao grande rei começaram uma revolta, seguindo os médicos. Eles desobedeceram, pois temiam mais a coroa do vírus que a coroa do rei. Um dia este chegou ao espelho, como fazia todos os dias, e perguntou:
“Espelho, espelho meu, tem alguém mais poderoso que eu?”
E então o espelho mudou, ninguém sabe como, e disse:
“Tem, meu rei, é o coroa vírus”.
O rei ficou revoltado e disse:
“O coroa vírus é fraquinho, não pode com minhas forças, proponho um combate”.
E o espelho disse: “A coroa do vírus é invisível e a luta para matá-lo não pode ser com metralhadora, é uma guerra que não conheces”.
O rei arrogante, prepotente e narcisista ficou meio louco, seus olhos brilhavam de certezas.
“Ou eu mando ou o coroa vírus, todos estão contra mim, ainda bem que tenho uma manada obediente. Tu, espelho, mentes e vou te jogar fora, traidor. Odeio os medrosos, odeio os mentirosos, pois eu sou o rei e eu mando.”
O espelho: “Cuidado tempera teu ódio, ele está fazendo mal a muita gente e tua brabeza cria mais insegurança”.
O rei: “Cartucho, Cartucho, meu filho, quero outro espelho, cortem a cabeça desse espelho, ele é cruel, malvado, é um traíra no meu reino”.
Cartucho pediu a seus amigos armados e amados que comprassem o melhor espelho do mundo. No outro dia o rei acordou e viu o novo espelho e logo perguntou:
“Espelho, espelho meu, tem alguém mais poderoso que eu?”. E o espelho silenciou.
“Cartucho, Cartucho, não traga mais os espelhos, eles agora foram comprados por eles. Ah, meu Deus, por que me abandonaste, onde estão os pastores Malvado e Malvadeza?”
O rei reage às críticas, fica abatido, mas logo recupera sua fúria. Fez uma lei em que determina ser verdade só o que ele diz e mentem todos os demais. Cita a Organização Mundial da Saúde como se ela estivesse a seu favor e seguindo suas invenções mortíferas. É desmentido a nível mundial não se importando com a imagem do reino.
Para o rei todos os dias são primeiro de abril, dia dos mentirosos, dia dos bobos.
Felizmente, sopram ventos que trazem certa esperança, uma esperança silenciosa. São tempos de reclusão, de tensão, mas de luta para manter o norte. São tempos de exercitar a imaginação, na lenta vida cotidiana. Muito está por acontecer na valorização da República (Res pública- coisa pública). Viver bem não é acumular dinheiro e poder, os que pensam assim, com respeito, são os pobres de espírito. Uns dependem dos outros, cada vez mais, logo é hora de aprender, aliás, viver é aprender.
por Mauro Nadvorny | 31 mar, 2020 | Crônica
De repente me deparei com aqueles olhos. Já havia dias que todos passavam com suas máscaras deixando apenas os olhos a vista. Eram de todas a s cores, marrons, azuis, verdes e cores difíceis de se ver. Os olhos, mas também as máscaras eram coloridas.
Aquela visão, apesar de que representava a triste situação do vírus, que tantas vidas levara, ainda assim trazia consigo nas mulheres um senão de erotismo. O que haveria por detrás daquela máscara que deixava somente os olhos a vista?
Observando fui percebendo o quanto se podia ler através deles. Haviam olhos de paixão, de tristeza, de aflição, de súplica, de alegria, de indignação, de regozijo, de frieza e de entrega. Olhos e mais olhos que passavam por mim e que agora tinham um significado.
Eram de todas as idades, de todos os gêneros e de todas as etnias. Cada par trazendo sua mensagem para quem soubesse interpretar. No início, confesso a dificuldade. Mas com o passar dos dias fui me tornando mais experiente. Se antes era preciso alguns minutos de observação, agora bastavam alguns segundos. Os olhos falavam comigo.
Quem diria que um vírus me tornaria um intérprete do significado dos olhos humanos. Seria um fetiche? Creio que não. Nunca tinha acontecido antes. Mais provável que a consequência da inesperada situação onde a preservação da vida falava mais alto. Já não se viam mais rostos, somente olhos sobre máscaras.
E claro, os números. Agora me refiro ao que estamos reduzidos. Todo dia nos atualizam dos números do Corona. Primeiro vejo os números do meu país, depois os do mundo. Merda, continuam aumentando. Mais doentes, mais mortos. E logo, a história de alguns deles. Nenhuma história feliz, apenas tragédias.
Hoje foi a de uma mulher de apenas 49 anos, viúva e mãe de gêmeos de 4 anos de idade. O Corona os deixou órfãos. Ela também, segundo os jornais, é a pessoas mais jovem a morrer aqui por conta do vírus.
Todo dia é assim, mais mortos, mais histórias tristes.
Quando olho para os números de outros países, percebo o tamanho da tragédia. Olha eu falando de olhos outra vez. Olhos e números.
Cada perda são um par de olhos que se fecham e não vão mais falar comigo. Não vão passar por mim trazendo seus pensamentos. Compartilhar sua luz.
Já são quase 40.000 mortos no mundo e logo vamos chegar a um milhão de doentes. Todos são importantes, cada vida importa. Cada um tem uma história, uma família, uma paixão. Cada um deles vai deixar uma saudade, uma história de vida. Eram importantes para alguém, tinham significado no mundo.
O vírus parece a passagem do dia no planeta. Assim como em alguns lugares anoitece, quando em outros está amanhecendo, o vírus está deixando alguns países e recém chegando em outros. Por onde passou, deixou um rastro de vidas perdidas e economias em recessão. Números.
O planeta não será o mesmo quando esta crise passar, isto é certo. Que lições vamos ter aprendido e como vamos lidar com situações parecidas no futuro, eis a questão. Infelizmente a humanidade parece ter memória curta. Não fosse assim e as guerras já teriam terminado há muito tempo.
A contagem de doentes e mortos não vai parar tão cedo. Pares de olhos vão continuar vindo e dando olhos a minha imaginação. Olhos.
Como será o amanhã? A quem vai pertencer? Vou continuar buscando estas respostas nos olhos e números que passam por mim.
Fiquem em casa e deem asas a sua imaginação.
por Mauro Nadvorny | 31 mar, 2020 | Crônica
Um homem é feito de medos e da sua capacidade de enfrentá-los (Joaquim Ferreira dos Santos)
Não sei vocês, mas sempre que esbarro em pepinos e abacaxis sou tentado a abrir a cortina do passado e tirar de lá um conforto e, com sorte, um caminho. Sei bem que é um ledo e ivo engano. Aquela história de “naquele tempo não tinha disso não” só serve como manual do almanaque Capivarol. Nos anos dourados, o que serão eles ?, não tinha coronavírus, mas … Meio ambiente era coisa de esotéricos, arquitetura rimava com frescura (e foram destruídos prédios cuja beleza só conhecemos de fotos), direitos de negros, mulheres, homossexuais, eram fábula de utópicos incuráveis, crianças não tinham vacinas para doenças que deformam ou matam, anticoncepção era privilégio de machos. É sempre assim quando se conversa com os mortos. Filtram-se as impurezas e sobra o manto diáfano da ilusão.
O Menino viveu uma fase de racionamento de energia, blecaute diário, lá pelo início dos anos 60. Justificava a paródia musical “Rio, cidade que me seduz/De dia, falta água/De noite, falta luz”. Eram cerca de trinta minutos, que começavam na hora da Ave Maria, voz assustadora do Júlio Louzada. A molecada parava os deveres escolares e, ao ar livre, aproveitava a luminosidade precária das estrelas para respirar a fuga da rotina. Para os adultos, um transtorno que se traduzia em velas e lampiões acesos. Quando a luz voltava, a realidade cobrava o preço. Hora da sopa de abóbora antes do prato quente. Trauma que até hoje não superei. A luminosidade pode ser penumbra.
O apagão de agora, na lente das nossas certezas, atinge em cheio um padrão neurológico que nos traz conforto. Foi a bióloga e neurocientista Suzana Herculano-Houzel quem disse: “(…) A importância de se sentir no controle da própria vida para manter as respostas de estresse do cérebro em xeque. Para o cérebro, tudo vai bem enquanto estamos no controle dos acontecimentos, a começar por nossas próprias ações. Controle é poder, e perder o controle só traz consequências nefastas: sensação de impotência, ansiedade, angústia, agitação, ou inação aprendida, prima da depressão”. O que estamos passando aniquila o território de qualquer “empoderado”, nos aproximando, na visão do filósofo Slavoj Zizek, de uma crise de saúde mental, cujas sequelas estamos muito longe de imaginar. Só em New York, cerca de 6.000 voluntários se apresentaram para ajudar a amenizar o sofrimento mental de gente que perdeu todas as referências estruturantes da rotina. Quando Guga Chacra chorou ao vivo na televisão, criou a imagem perfeita do desamparo que nos assombra. Está faltando o ombro paterno/materno para enxugar as lágrimas.
Dia desses – coincidência ? – revi o clássico Moby Dick, filmado em 1956 e estrelado pelo Gregory Peck (que faz um Ahab exageradamente teatral). Os efeitos especiais chegam a ser cômicos (a baleia branca de borracha só podia assustar quem tinha calça curta nos anos 50; quando o Pequod afunda, o faz num redemoinho, que sugere uma banheira cheia d’água da qual se tirou a rolha), mas a mensagem está lá, intocada. Quando a gente corre atrás dos nossos monstros, obsessivamente e com faca nos dentes (no caso, arpão), pode ser engolido por eles. E, no entanto, essa caçada é muitas vezes vital para estabelecer um equilíbrio com o mundo real. É preciso encarar o fantasma para aprender a lidar com ele. Matá-lo ? Nem o capitão Ahab conseguiu.
A solidão forçada a que estamos submetidos joga uma armadilha. Como poetizou Paulo Sérgio Pinheiro, quem da solidão fez um bem, vai terminar seu refém. Abrir os olhos a cada dia é trabalhar para combater o isolamento. E isso pode ser feito no pequeno mundo, que vira universo. Manoel de Barros, sempre ele, achava que o “quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade; a gente só descobre isso depois de grande”. O tamanho das coisas, e Manoel sacou, “há de ser medido pela intimidade que temos com elas”. Na árvore que quase invade minha janela, o que serão aqueles que voam ? Juritis, inhambus, pintassilgos ? Não sei, não sou Tom Jobim. Só sei que uma família de tucanos faz um barulho danado, arredios, não vaiam minha tentativa sofrível de lhes imitar o canto. Nunca dei bola para essas vidas, que agora me parecem tão livres, tão universais …
Veríssimo comentou saber “de casais que estão se conhecendo com o convívio forçado, começando pelo básico: como é mesmo o seu nome ?”. Gozações e idiossincrasias à parte, muita gente está ouvindo a voz habitual como se fosse a primeira vez. Tudo é compartilhado, o que não é pouco numa divisão de trabalho fincada em cultura ancestral. Quando o vírus se recolher à rotina endêmica de seus parentes, voltaremos ao mundo que se despedaça ou daremos os primeiros passos em terreno inédito ? Sou cético, mas estou aberto a contestações.
Vida que segue.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 28 mar, 2020 | Crônica
Isolamento de mãos dadas é um paradoxo, pois, estando isolado, como dar as mãos? A resposta passa pelo invisível, porque é dar as mãos na imaginação. A perda da convivência, ou a morte de uma pessoa querida, pode ser insuportável a perder de vista. Cedo aprendi a história de um Deus invisível, e mesmo assim o invisível é difícil. Hoje ocorrem separações temporárias, mas separações, elas não são fáceis, mas ao suportar a perda ocorre um alívio.
A imagem de um Todo-poderoso que não podia ser visto incendiou a imaginação. Escutei histórias de como Abraão questionou seu pai, que fazia deuses de barro. E por rebeldia ele saiu da cidade de Ur numa longa caminhada até a terra de Canaã. Simpatizo com o invisível mesmo depois de percorrer os caminhos das artes e das ciências na adolescência e me afastar das origens. Além do que, nada mais invisível que a ficção e o mundo criado por artistas, essenciais para enriquecer a vida. E o invisível é uma constante no cotidiano da Psicanálise: sonhos, formação dos sintomas, identificações. Dentro de cada um vivem marcas dos pais, avós, irmãos, entre outros. Essas marcas inconscientes na alma- psiquê- se integram na constituição da personalidade. Tudo transcorre de forma invisível, assim como as transferências. O invisível tem efeitos concretos no cotidiano de cada ser humano, a nível da psique, alma.
O amor, por exemplo, requer provas de amor devido a sua invisibilidade. Dizer que ama nem sempre é suficiente, é preciso provar que se ama. O amor é vivo, ele nasce, se desenvolve e pode diminuir e morrer, por isso precisa ser renovado. Faz pouco, vi uma criança se aproximar da mãe para beijá-la, e esta o afastou, pois estava gripada. A mãe magoou o menino, e ela precisou pedir desculpas, se explicar para acalmar o filho. Somos sensíveis ao sentimento de desprezo, daí as provas de amor que geram alegria.
Lutar contra o isolamento, diminuir a solidão, e até reaproximar-se de velhas amizades, vem ocorrendo. Vivo e escuto histórias emocionantes da reconstrução de pontes passadas, bem como frustrações em algumas tentativas. Estamos conectados, pois as palavras entram nas redes e circulam, pois se buscam, e podem dançar.
Às vezes, imagino escrever sobre algumas palavras especiais como: labirinto, leveza, separação, ponte, entre outras. Ponte é a passagem de um lugar a outro; pontes que passam por cima de rios, pontes naturais, e há pontes invisíveis. Tenho a fantasia de um dia ser um engenheiro de pontes invisíveis. Pontes fabricadas por palavras baseadas em boas fundações. Admiro as palavras que tocam a alma, mas nunca se sabe quais são as que tocarão.
A expressão “isolados de mãos dadas” da “Solidariedade” tocou alguns leitores e me tocou. É uma forma que temos hoje para expressar o amor pelas palavras que se unem em pontes imaginárias. São pontes de ida e volta, e assim ocorrem os movimentos na lentidão do isolamento.
As mãos dadas são também para expressar nosso amor ao Brasil. Um país comandado pelo gabinete do ódio, pelo amor ao ódio, que divide quando deveria unir. O país foi atacado pelo fanatismo a medicina, as ciências, a saúde, a vida. Enfim, se os conhecimentos de como combater o coronavirus avançaram, já a resistência contra a crueldade é mais difícil.
Aos poucos aprendemos, é como uma nova viagem, chegará um dia que a separação física cessará. Há leituras, filmes, diversões, risos para aliviar o peso do confinamento. O caminho é longo, mas estamos caminhando de mãos dadas. A poesia da luta continua.
A cidade está no “pause”.
Parar para pensar,
parar para…
parar…
par…
ar.