Polenta com leite (na Favela)

Polenta com leite (na Favela)

Faz três meses, fui a uma Favela no ABC Paulista (foto), convidado especialmente para fazer uma “roda” de poesia e música. Ao chegar ali, além da música e da poesia, me foi servida polenta, polenta com leite quente e um pouco de café, em uma pequena cumbuca de ferro esmaltado. Senti-me um deus, um demônio, um ser humano, enfim, gente!

Mas, fui especialmente indelicado – e pedi que repetissem a polenta com leite quente… por duas vezes…

Fiquei ali por horas e concluí que o “país” Brasil, digo, o “Estado” brasil(eiro), é desgraçado, desgraçado e condenado ao insucesso, por excluir almas e cérebros tão criativos da economia formal. Tudo bem, há um Brasil à parte, ao qual respeito, uma nação à parte, que admiro, um Direito para além da forma.

Há gente muito boa, criativa, poética, há músicos e há polenta com leite quente servida em pequenas cumbucas de ferro esmaltado!

Ah, há também café delicioso passado em coador de pano, e poesia, e música, e humanidade, e abraços sem limites! Há um Brasil verdadeiro, culturalmente rico, de brasilianos e brasilienses, que os miseráveis brasil(eiros) não conhecem!

© Pietro Nardella Dellova, 2016

___________________________________
foto: “vista parcial da Favela no ABC Paulista”

A história de uma foto: um casamento libertador no meio da floresta amazônica

A história de uma foto: um casamento libertador no meio da floresta amazônica

Faz alguns anos, deixei uma atividade em Sankt Gallen (Suiça), e aceitei Coordenar um Projeto de Direito na Amazônia, que pressupunha (para mim), entre outros objetivos, conhecer e reconhecer direitos indígenas, identificar ocupação ilegal das terras, promover a preservação da Floresta e dos recursos naturais, emitir relatório de garimpo ilegal e de derrubada de árvores, defender o direito de trabalhadores rurais etc…

Neste contexto, conheci, quase que por acaso, um jovem casal: Renata e Thiago. Desenvolveu-se, então, uma boa amizade, com direito a vários cafés, alguns pastéis de banana e boas conversas acerca do Judaísmo, Literatura e Direito (Renata era formada em Letras; Thiago era um jovem policial militar, com grande interesse em Judaísmo, e eu estava ali).  

Ambos me contaram que viviam juntos havia alguns anos, mas sem um “casamento”, pois, isso lhes tinha sido negado pelas suas “autoridades” religiosas cristãs, por conta de uma gravidez durante o namoro. Para mim, estarem, ou não, casados, religiosa ou civilmente, dizia muito pouco (ou nada!), pois acredito em amor livre, mas eles sofriam muito com isso, especialmente ela, pois havia sido acusada pela mãe (cristã evangélica) de “fornicação” e, ainda, recebido a “maldição sobre a criança” gerada “em pecado”. Havia muito sofrimento ali…

Porém, passado algum tempo de encontros, cafés e boa amizade, manifestaram uma imensa vontade de realizarem o casamento. Perguntaram-me se eu o celebraria no modo judaico, já que os Cristãos haviam se recusado perversamente a lhes dar uma “bênção”. Respondi que sim, e se isso realmente fosse importante para eles, se isso pudesse lhes trazer alguma dignidade, realizaria a cerimônia com grande alegria e honra.

E, assim, o casamento foi realizado, em nome da dignidade da pessoa humana – não de qualquer religião, nem mesmo a Judaica.

Mas, os deuses da floresta amazônica estiveram presentes! A mãe da guria (noiva) também esteve presente e, ali mesmo, logo após a cerimônia com elementos judaicos, reataram a relação entre um perdão e outro, incluindo abraços, beijos, choro e o apreço pela netinha (que havia nascido, claro, sem qualquer maldição). Eis o milagre!

NOTA: Na cerimônia, usei para uma curtíssima prédica apenas o Livro SHIR HASHIRIM (Cântico dos Cânticos, de Salomão) e um texto acerca da FELICIDADE, de Epicuro. Era o tanto que bastava.

© Pietro Nardella-Dellova

Deus e o diabo  no centro do Rio

Deus e o diabo no centro do Rio

Com três doses de vacina, já posso ser mais atrevido. Sei que maior imunidade do que essa não será possível tão cedo. Vai daí, dou um tempo na bermuda, desovo calça e camisa que hibernavam, entediadas, há quase dois anos no armário e enfrento a cadeira da dentista. O consultório fica no centro da cidade. Engato uma segunda e caminho pela região que, dizem, foi devastada pela pandemia. Saudade de lugares que me construíram.

A expectativa não era boa. Esperava uma espécie de hecatombe, com trilha sonora do Jards Macalé: Cuidado! Há um morcego na porta principal. Verdade que fiquei apenas nas proximidades do quadrilátero que forma a Cinelândia. Por lá, mesmo que modestamente, a vida ainda pulsa, quem sabe numa homenagem muda aos tempos de belle époque. Algumas lojas fecharam, mas outras, bem tradicionais, resistem. Numa delas, que vende aparelhos, digamos, vintage, como rádios e reprodutores de CD, fiz a festa. Estranho? Ora, ora, eu mesmo não passo de um caminhante vintage, sempre muito desconfiado do excesso de estímulos tecnológicos e enfezado contra a cultura do efêmero.

Não podia faltar a reconexão com a cultura. Desço os caracóis dos seus cabelos, digo, a pequena ladeira em caracol que leva à Berinjela. Não, não se trata de fome antecipada por um babaganoush (há um excelente no Al Kuwait, ali pertinho), mas sim de um dos meus sebos prediletos. Quanto tempo sem ver Daniel e Silvia! Ainda não posso abraçá-los, mas é um alento sabê-los por ali. Quando, à la Lúcia Murat, saúdo Daniel, que bom te ver vivo!, ele, bem no espírito do tempo, estaria sorrindo debaixo da máscara?, me garante que já não há mais ninguém vivo. Somos todos hologramas! Às vésperas do Metaverso, quem pode garantir que ele não está certo? Garimpo cartuns da New Yorker, correspondências entre Ivan Lessa e Mario Sérgio Conti, a história de um ladrão bibliófilo. Centelhas fecundas na aridez pandêmica.

Livro é, como bem disse João Varella, fundador da editora Lote 42, “um raro espaço de absoluta privacidade, sem publicidade, sem algoritmo, sem duvidosos termos de acesso”. Infelizmente, a relação entre livro e leitor está cada vez mais realizada por meios virtuais. Relação muito parecida com a que se estabelece entre um comprador de chocolate e as máquinas automáticas que habitam estações de metrô. Há, no aeroporto de Curitiba, uma livraria totalmente automatizada. O interessado escolhe o livro (todos têm o mesmo preço), passa o cartão na máquina, embala o exemplar num saco plástico. A imagem é de linha de produção fordista versão 4.0. Na novilíngua malandra, as obras à venda são chamadas de “livros de oportunidade”. Não passam dos encalhes velhos de guerra. Tudo em temperatura ártica, pré-ajuste para os avatares que estão em vias de invadir o mercado com a permissão alienada dos viciados em tecnologia eletrônica.

Somos um país esquisito. Sempre se leu muito pouco no Brasil. A média atual é de dois livros por ano (e boa parte da leitura se restringe à Bíblia). 30% da população jamais comprou um livro. Sei que isso é, em parte, resultado da obscena distribuição de renda. No entanto, uma pesquisa recente informou que 84% dos não leitores acham livros desinteressantes. Não há a menor chance de competir, em custo e sedução visual, com a tralha eletrônica. Ao contrário dessa, livros demandam atenção continuada e elaboração dos conteúdos. Com a preguiça induzida por teclas e controles acelerados, como é que se desata o nó?

Em São Paulo, uma biblioteca dá um exemplo de criatividade, amor aos livros e resistência. A Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura está situada, curiosamente, na casa de um coveiro, atrás da capela do Cemitério Colônia. Com acervo de 5 mil livros, ela expandiu seu objetivos, ao longo de 12 anos, organizando atividades relacionadas com os significados de vida e morte trazidos pelos livros. Foram o Sarau do Terror, o Sarau das Mulheres, o projeto Sementes da Leitura. Em fevereiro deste ano, os donos do cemitério decidiram despejar o coveiro, reivindicando mais espaço para os túmulos. Os frequentadores se mobilizaram, conseguiram adiar o despejo e já estão buscando um novo local para os livros. Querem aproveitar o ocorrido para desenvolver outros projetos junto com a biblioteca. Uma horta comunitária, por exemplo. O que parecia ser a vitória da Morte, está se transformando num convite à Vida. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias, este caso está a confirmar o que disse o cangaceiro Corisco, no filme Deus e o Diabo na terra do Sol: “Mais fortes são os poderes do povo”.

Abraço. E coragem.

Busão: o pecador social

Busão: o pecador social

Mary atravessa a cidade do Recife para trabalhar de cuidadora em um dos bairros nobres de lá. Ao chegar, toma banho, coloca a roupa de trabalho e vai atender a patroa que está sendo banhada pela cuidadora da noite. As duas trocam um sorriso e percebem que o dia vai ser animado. Mary alegra a patroa contando causos do Busão.

Neli fala para Mary em tom de brincadeira: “o seu pacote está banhado e perfumado!” as três caem na gargalhada. A patroa aprendeu com a dor dos dias, rir e permitir as brincadeiras sem se magoar. Ela sabia que o pacote era útil e sustentava duas famílias, portanto “afagos” trocados a divertia.

A patroa rindo, pergunta para Mary: “O que se deu no Busão hoje?” Ela sempre fala que rir um pouco das mazelas humanas é um “pecado social,” mas assim o dia corre com realismo e boas risadas e é uma forma de diálogo com um mundo que não conhece.

Mary fala do vuco vuco, que quase deu briga em uma das paradas com a freada brusca do motorista, que de tantas agruras, também não se importa com a carniça humana que transporta todos os dias, era assim que dizia: Vamos carniça!

Foi assim, minha patroa… A Desidete que havia cumprido pena por roubo, começou a gritaria e as vaias faziam coro
“Já matei, já roubei, não quero mais voltar pra essa vida!” uns se benziam, outros mandavam a mulher se calar, e um homem mais “folgado” gritou: “Vamos sensibilizar! A mulher tá arrependida!” e caiu na gargalhada… No vuco vuco, curvas, freadas, todos gritavam com o motorista… na parada da Boa Vista entrou uma senhora gorda, farta, o motorista não esperou ela se sentar e meteu o pé no acelerador… Caí cá caí lá, ela consegue se equilibrar um pouco e gritar com voz esganiçada: “Se fosse para uma com shortinho e beiradas de fora, você esperaria eu me acomodar, seu desgraçado!”

Aquieta aqui, aquieta ali, o burburinho de conversas sobre patroas toma fôlego e a cidade fica pequena para aquele mundo da linha que passa rasgando a cidade.

A patroa olha com perspicácia para Mary e fala, como é que elas apelidam a gente? Acho que a senhora não vai gostar de saber… Excitada pela linguagem daquele mundo, a patroa pede para que tudo seja narrado sem corte e censura. Então, as duas cumplices nas gargalhadas, mas não nas vidas se sentem com liberdade de contar e ouvir os inúmeros sentimentos, que através do discurso, são linhas divisórias dos dois universos sociais: ricos e pobres.

Bem, as meninas costumam chamar as patroas de Bichas ou Tristes. Me lembro de ter ouvido a Bernadete, que mora um pouco mais adiante de minha casa se referido a patroa dela assim: “Eu já estava pronta pra sair, aquela Bicha me mandou fazer qualquer coisa sem precisar…quase esganei aquela Triste!” eu caí na gargalhada e ainda futuquei o cão com a vara curta: “Tu fez Bernadete? Ela olhou com ódio em minha direção e falou para eu me foder, pois ela sabia que a senhora é ouro dezoito. A patroa olhou com muito carinho para Mary e falou: “Sou não! Me sinto uma pecadora social!”

As duas caem na gargalhada e o dia se enche de suas múltiplas realidades e dores sociais. As bernadetes tem seus motivos…

Conceição Evaristo encontra Anne Frank

Conceição Evaristo encontra Anne Frank

Conceição Evaristo leu “O diário de Anne Frank”, aos treze anos, livro escrito quando Anne tinha treze anos. A leitora ficou marcada na sua vida de poeta e ficcionista, e agora escreveu “Relendo Anne Frank” na revista “Quatro Cinco Um”: “Ler o dia a dia de uma menina judia me convocava ao sofrimento junto com ela… eu, leitora de Anne Frank, me cumpliciava nas angústias dela e de seu povo”.
Conceição é uma construtora de pontes, e num poema refere que a voz de sua bisavó criança ecoou nos porões dos navios, e segue pelas gerações de mulheres negras sofridas até que na voz de sua filha se fará ouvir a ressonância – o eco da vida – liberdade. Constrói pontes entre o ontem, e o amanhã; construiu com Anne Frank uma ponte entre o sofrimento do povo judeu e dos povos africanos, entre a menina judia e ela, uma negra brasileira que trabalhou aos nove anos como empregada. Uma das dimensões que conectam ambas é a solidão humana, uma solidão aprofundada pelo estado de guerra em que viveu Anne Frank. Uma das passagens do diário que tocaram a menina e a escritora foi quando Anne escreveu: “Nunca poderemos ser apenas holandeses, ou ingleses, ou qualquer outra nacionalidade, seremos sempre judeus. E teremos de continuar sendo judeus, mas, afinal, vamos querer ser”.
Anne Frank e Conceição Evaristo viveram em tempos e espaços distantes, e foram se conhecer pelo livro( Anne morreu num campo de concentração em 1945 aos 14 anos) gerando uma relação comovente entre quem escreve e quem lê. Ambas usaram armas simbólicas para enfrentar a violência, e Evaristo lamenta o quanto o mundo adulto não deixou viver uma escritora menina pelo fato de ser judia. Sua identificação como negra maltratada, rejeitada, construiu a fraternidade com Anne Frank. Conceição Evaristo conclui seu ensaio fazendo sua última ponte com os tempos atuais: “Digo também que estamos em dias vazios de humanos sentimentos. A leitura de ‘O diário de Anne Frank’ se faz necessária mais e mais nesses tempos em que a brutalidade e a prepotência de pessoas e grupos imperam buscando se colocar como donos do mundo”.
Donos do mundo, donos do País, donos da natureza e donos do destino de centenas de milhares de famílias mortas, milhões de enlutados, milhões de desempregados. O dono do mundo nos tempos de Anne Frank era Hitler, que se achava acima de todos, lema copiado aqui com prepotência. Anne Frank e Conceição Evaristo são exemplos de luta criativa através da escrita e da leitura, e ambas dizem não aos que se pensam donos do mundo. Essas mulheres são exemplos, pois sempre é tempo de se rebelar contra a servidão voluntária, contra a submissão do silêncio, da indiferença, da neutralidade. Convém sustentar o desejo de dizer não à destruição, a crueldade e o desejo de dizer sim à construção de um possível amanhã. Ou seja: é fácil se dizer hoje contra o nazismo, mas pergunto o que eu teria feito naqueles tempos. E agora, é preciso perguntar, diante da devastação que sofre a sociedade, a natureza, o que cada um de nós está fazendo.
P.S. Está no Youtube a entrevista que Nora Prado fez sobre o livro “Imaginar o amanhã” e algo do meu percurso, é só escrever: Estação Prata da Casa.
Passarás, não passarás, quem me deixe eu passar

Passarás, não passarás, quem me deixe eu passar

Tudo passa, tudo passará/Nada fica, nada ficará (de uma canção composta e interpretada por Nelson Ned, grande sucesso em 1969)

Já aconteceu de vocês estarem lendo um texto sério e, de repente, caírem na gargalhada? Riso solto, não planejado, sem compromisso. Pois foi o que aconteceu comigo dia desses, ao ler a coluna semanal da Ana Paula Lisboa n’O Globo.

Verdade que suspeitei do título, uma referência a mercúrio. Achei que tinha a ver com o velho mercúrio cromo, líquido que curou as feridas da infância ao custo de ardências rubras. Conforme avancei na leitura, percebi que se tratava de um certo Mercúrio Retrógrado. Que diabos seria isso? Segundo os astrólogos, cáspite!, a posição deste planeta no cosmos é responsável por acontecimentos importantes na Terra. Como, por exemplo, o colapso recente e simultâneo do trio WhatsApp, Facebook e Instagram. Faz também, segundo Ana Paula, “caírem as máscaras”. Assim, não seria coincidência, ainda segundo sugere a colunista, que a revelação da existência da empresa offshore do Paulo Guedes em paraíso fiscal e os destemperos do Ciro Gomes acontecessem agora. A culpa, ora vejam só, é da órbita do planetinha laranja-amarelado, que sequer tem uma Lua para chamar de sua. Não resisti, a risada correu frouxa. Cada vez que leio essas patetices, lembro-me de uma frase memorável, atribuída a uma espécie de rei dos picaretas, Phineas Taylor Barnum: “Nasce um otário a cada minuto”.

Quando voltei a mim, reli para ter certeza. Era aquilo mesmo. Valeu, enfim, pela diversão. A mesma que experimentei quando li a parábola de Bertrand Russell sobre o bule de chá chinês que gira em torno do Sol e soube da existência do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador (e do racha que gerou a Igreja Reformada do Monstro do Espaguete Voador). Céus, quanta perda de tempo, quanta ilusão, quanto diversionismo. Talvez esteja tudo a esconder os verdadeiros, e às vezes insuportáveis, dilemas de existir. Parecidos com a jornada dos androides em Blade runner, em busca de respostas para uma questão singela: por que raios fomos criados com validade limitada? Tempo, tempo, tempo, diria o Caetano Veloso. Tempus edax rerum, o tempo esse devorador das coisas, diria o poeta romano Ovídio.

Um dia antes de esbarrar na comédia involuntária da Ana Paula, o Leo Aversa, leitura obrigatória de toda terça-feira, lascou um “tudo passa, demora, mas passa”. Tentava consolar uma mocinha desconhecida que ele supunha ter passado por desilusão amorosa. Compreendo que a circunstância pedia compaixão, e mesmo uma pitada de mentira caridosa, mas… Nem tudo passa, mesmo que demore. Gostemos ou não, somos uma combinação incontrolável, indimensionável, de passado e presente. Parte do que foi ainda é, varia o tamanho da herança e a forma como ela se incorpora à vida presente. Tempos que se cruzam.

Vou dar um exemplo dramático, que me impressionou bastante e chocou milhares de pessoas. Anthony Bourdain era um cara prestigiado no mundo gastronômico. Fugia dos clichês da cozinha pretensiosa. Roqueiro, puxado ao punk, sem problema para falar como gente comum, palavrões a rodo, procurava não apenas cozinhar mas entender o que estava por trás de comidas e tradições. Era o tipo de sujeito que qualquer um poderia convidar para um chope e tomar um porre sem a menor vergonha. Apareceu morto num quarto de hotel, na França. Cometeu suicídio, aos 61 anos. Viajava 200 dias por ano, se hospedava em hotéis de luxo, não tinha problemas financeiros. Parece que estava pensando em fazer uma terapia. Por que, então, desistir da vida? Que armadilha o tempo lhe havia aprontado? O que não foi possível transformar para seguir adiante? O que, enfim, não passou?

Comecei citando Nelson Ned, cantor anão que muita gente no meio artístico via como anomalia. Ou seria exotismo? À música citada, prefiro o Lulu Santos de Como uma ondaTudo que se vê não é/igual ao que a gente viu há um segundo/tudo muda o tempo todo no mundo. Essa, digamos, interpretação dialética está mais de acordo com o que sinto. Não há garantia de que tudo passa. Às vezes dá um trabalho danado transformar o tempo que passou em aliado. Nem sempre dá certo, mas vale a pena tentar. Para que a onda flua.

Para não dizer que não falei de flores, devo acrescentar que há um departamento que, para o bem ou para o mal, certamente não passa. Recorro ao auxílio luxuoso de Machado de Assis. No livro Esaú e Jacó, diz o narrador da história: “Tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana”. Sim, meus caros, trata-se da nossa mui conhecida fofoca. O Bruxo do Cosme Velho sabia das coisas.

E tome polca!

Abraço. E coragem.