O pesadelo

O pesadelo

Os sonhos são o gênero. O pesadelo é a espécie. Foi com essas duas frases que o escritor Jorge Luis Borges começou sua conferência sobre o pesadelo no inverno de 1977 em Buenos Aires. O pesadelo é uma espécie de sonho assustador, que desde a Antiguidade gera a sensação de algo monstruoso. O pesadelo expressa emoções negativas intensas, que terminam com um sentimento de angústia, que provoca o despertar, e aí é recordado, depois do acordar, devido à excitação intensa. Uma das emoções frequentes nos pesadelos é o sentimento de impotência, sentimento de não ter saída, risco de morte própria ou a morte de pessoas queridas. A sensação de horror é a que predomina nos pesadelos, é um castigo, uma humilhação, um gozo do poderoso masoquismo que faz parte de todas as pessoas. Incrível como somos sofredores, é um espanto esse amor aos sofrimentos, que decorre em parte da pulsão de morte e em parte de um supereu ao qual a gente se submete para se sentir amparado. Durante os dias que antecederam o lançamento do livro “Imaginar o amanhã” tive pesadelos, diante da felicidade encontrei uma forma de sofrer um pouco, mas ainda bem que me aliviei ao acordar.
Por que ocorre o pesadelo que gera tanto horror? Há um fracasso da censura, pois entre o inconsciente e o pré-consciente há uma censura que é uma barreira de proteção do sono. No pesadelo a censura fracassa, pois um poderoso desejo rompe a barreira e a gente desperta assustada. O pesadelo satisfaz o desejo de sofrer, e essa tendência é o que uns definem como culpa e outros como necessidade de castigo. Imaginar um castigo é uma forma de se sentir amparado, pois a ameaça maior é o desamparo, pois no castigo não se está só. O pesadelo noturno tem a vantagem de interromper o sono, mas, em geral, a gente volta a dormir. A interrupção decorre do extravasamento afetivo, quando não há capacidade para simbolizar e integrar os afetos, pois se tornam muito intensos. No pesadelo a pessoa está perdida, sentindo-se sem saída, ou sendo perseguida sem saber por onde sair, sensação às vezes de asfixia, encerrado num espaço. Ainda assim é melhor se castigar na realidade psíquica do que na real.
Já está na hora de voltar à poesia da conferência de Borges de 1977, que relata serem seus pesadelos principiais o espelho e o labirinto. E dois espelhos um diante do outro multiplicam as imagens de quem se põe no meio dos espelhos, e parece um labirinto. . O labirinto é uma das principais alegorias da condição humana, transmitida pelos nômades para os sedentários, em que o azar e a surpresa são constantes. Borges, através do gênero do sonho e sua espécie o pesadelo, fez um passeio pelos poetas e filósofos e aqui acrescentei algo de Freud. O pesadelo expressa um mal-estar físico, perseguição, horror, como se fosse o coração do inferno.
O pesadelo noturno, como um inferno, se associa ao pesadelo existencial, social, no qual a vida é uma pesada nuvem negra, um peso insuportável. O autoritarismo é um pesadelo, com os genocídios, a devastação da natureza, a fome, os horrores de um país ocupado pelos armados. Quando a vida se parece a um inferno, aumenta a busca uns dos outros à procura de um alívio, e um ânimo na luta.
Aliás, assistam a conversa do Edson Luiz André de Sousa ao jornalista Bob Fernandes no seu canal do Youtube. Uma hora de reflexões sobre o ser humano e o Brasil que está queimando, e como é preciso ler as cinzas, um dos objetivos do livro “Imaginar o amanhã”. Gente, faltariam palavras para agradecer a presença maciça de amigas e amigos no sábado e na terça nos autógrafos. Recebam em cada letra a gratidão.
Minha Vida, Meus Mortos, Meus Caminhos Tortos

Minha Vida, Meus Mortos, Meus Caminhos Tortos

Para isso fomos feitos
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra

Assim será a nossa vida
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve
Ver a noite dormir em silêncio

Não há muito o que dizer
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações se deixem
Graves e simples

Pois para isso fomos feitos
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
De repente nunca mais esperaremos
Hoje a noite é jovem
Da morte, apenas nascemos
Imensamente

(Vinícius de Moraes)

Ela tinha o poder de convencer, como poucos. Não insistia, não enchia o saco, sabia que sagitariano só faz o que realmente quer fazer, Então usava a tática de falar que estava tudo pronto me esperando, a cerveja gelada, a picanha sangrenta, de forma que a ideia do encontro parecesse ser minha. Sua voz doce disfarçava seu gênio forte, E era , por natureza, delicada. Pôs-se a falar que teríamos distanciamento, que o que não faltava era álcool gel e álcool pra lavar a alma. Na sua forma líquida, numa cerveja gelada e na sua invenção que eu chamava ideia do capeta: geladinhos de caipirinha. A data era importante, não apenas por ser seu aniversário, mas pela formatura do filho e seu aniversário também, faziam anos com uma semana de diferença. Ainda não tínhamos vacina, sabia que esses ajuntamentos de fim de ano não seriam uma boa ideia, como se provou mais tarde, O que eu sei é que ela era extremamente cuidadosa, me convidar para esse pequeno grande evento, onde eu seria a quinta pessoa, era valorizar muito minha companhia. Eu disse que não podia, mas ainda assim ela me mandou a foto da carne sangrando sendo cortada e escreveu: ”Pega um Uber, ainda dá tempo”. Minha resposta foi :PQP mulher, não me tenta. Assim você me esgana de vontade .Aniversário tem todo ano, no próximo, quando essa merda passar, vou aí e beberemos até cair, Só não me enche a geladeira de Itaipava, tomemos um porre decente, cerveja com cheiro de xixi de gato só se for no ultimo engradado.” Errei feio. Não vai ter nem cerveja ruim, muito mesmo aniversário. Amanhã seria seu dia . E ela não estará aqui, rindo dos meus embaraços pela vida, rindo dos seus próprios, com aquele humor ácido judaico que era nossa salvação nesses tempos nefastos.

Nesse catálogo de desgraças que foi 2021, ou está sendo porque o miserável ainda não acabou, me sinto no quadro do Bruegel, O Triunfo da Morte . Tenho sobrevivido a mortes de pessoas, que mesmo não conhecendo várias delas, devo-as minha formação. Das próximas, três delas norteavam minhas caminhadas, porque minha miopia progressiva não se resume a parte física .E me davam, generosamente as mãos e emprestavam seus olhos pra eu não escorregar feio no caminho. Acho que o que tenho sentido pode ser explicado por uma história que meu tio Mingo, irmão mais novo do meu pai, que já se foi, me narrou anos atrás. Numa das festas animadas que fazia em casa, quando os convidados já tinham partido, o dia amanhecendo e tomávamos a saideira que nunca era a saideira, ele me contou como se deu sua consciência da morte. Dentista de formação e ofício, sua paixão era a natureza. Conhecia cada planta, cada pássaro, e eu soube então que esse interesse veio de seu bisavô, um homem que só conheci pelos retratos .Nessa conversa soube que seu avô foi quem lhe ensinou a fazer enxertos e criar flores de cores diferentes. Numa ocasião, estavam na missão de cruzar pássaros para ver novas plumagens, no meio de uma experiência para saber se vingariam ou não. Até que ao chegar da escola, encontrou um clima horrível dentro de casa e teve ciência que o avô, de quem se despediu ao sair, havia morrido de um ataque cardíaco fulminante. Uns dez dias depois da morte do avô ele foi olhar os pássaros e num lance de sorte, viu os ovinhos eclodindo. Ele disse que correu esbaforido, subiu uma escadaria, ansioso para chamar o avô para ver junto. Abriu a porta num rompante, E quando viu a cama vazia, a mesa sem livros, foi que compreendeu que nunca mais o veria. Foi assim que ele entendeu que morte é ausência. Foi a primeira e última vez que o vi chorar.

Philippe Aries, em seu livro O Homem Diante da Morte, demonstra as significativas mudanças ocorridas na sociedade ocidental da Idade Média ao Século XX e suas relações com a morte. Não a toa, aponta o século XIV, repleto de fomes, guerras e pestes, essa morte em massa, como um dos momentos mais abaladores da relação do homem com a finitude. Ela se mostra como uma ameaça para qualquer um, visto que é inflexível e democrática, chegando de surpresa e sem tempo de preparação. Comparar fenômenos históricos de diferentes épocas , sem levar em conta todas as mudanças sociais, tecnológicas e científicas, pode ser uma armadilha para incorrer em um erro grave. Mas temos que concordar que vivenciamos esses temores. Talvez o lado mais duro desse tempo da covid seja o isolamento do doente, necessário, obviamente. Mas essa morte solitária, longe dos seus, na solidão de uma UTI, foi uma das nuances que mais me marcou.

Aqui encerro o assunto pandemia. Hoje não quero falar do genocida e de suas crias. Mas gostaria de desenvolver um tema, um tanto quanto polêmico, da ligação do brasileiro com a morte alheia. O precoce falecimento da jovem cantora Marília Mendonça, me fez pensar na forma com que o brasileiro , onde até a morte foi alçada a categoria de espetáculo, lida com seus mortos. Até então, tinha evitado ler qualquer coisa sobre o acidente, porque morte de jovem para mim é algo inaceitável.. Mas dois fatos não me passaram despercebidos: O primeiro é que supostas fotos da moça morta tentaram ser vendidas no IML, a 20000 reais. Li também que policiais tiveram que ficar em volta do avião, porque saqueadores queriam entrar para roubar objetos das vítimas.

Esses saques não são novidade, Basta lembrar do Voo da Gol, 1907 , em 2006, que voava de Manaus para Brasília até bater num jatinho Legacy. O avião caiu e morreram 157 pessoas. A queda foi numa fazenda do Mato Grosso, em local de difícil acesso. Apenas tropas das Forças Armadas trabalharam no local. Dias depois até documentos das vítimas foram usados no contrato de um empréstimo, para comprar um carro .Os parentes começaram a receber faturas de cartões de crédito dos mortos, joias e celulares, tudo isso desapareceu. A Aeronáutica nunca deu uma explicação plausível para as famílias, ficou por isso mesmo.

Eu fui testemunha em 2015 do atropelamento de um jovem, que estava na calçada com dois amigos, na Avenida das Américas, em frente ao BRT. Eu atravessava a rua, voltando do trabalho , só vi um caminhão branco passar rente a calçada e um barulho que parecia uma explosão. O garoto, de sunga, que estava na calçada (não no meio fio) na frente dos outros dois teve a cabeça arrebentada pela carroceria do caminhão, que lógico, partiu sem prestar socorro. Há três minutos atrás ele estava contando uma piada para os colegas e quando cheguei a ele seu maxilar tava arrancado, sua boca esguichava sangue e sua cabeça aberta. Enquanto o rapaz que viu tudo, que atravessava comigo, pedia socorro, eu não sei de onde me vem forças nessas situações trágicas, sentei os dois amigos que estavam em choque e falei firme (soube depois que um era primo do acidentado ) num gramado próximo :”Liguem agora para a família de vocês, avisem que estão bem mas que o rapaz se acidentou feio. Peçam para vir ate aqui, vocês não tem condições de voltar pra casa desse jeito”. Eles me obedeceram, comprei água para os dois e uma médica moradora da área apareceu. Corri para comprar luvas para ela na farmácia, logo depois um oficial do corpo de bombeiro de sunga, que estava voltando da praia, tentava contato para levarem o garoto. Eram seis e tal da tarde, transito intenso, problemas da Samu chegar. Eu, a médica, o bombeiro e o rapaz não saímos do lado do jovem, numa agonia sem fim. Eis que aparecem os curiosos. Quando vi tinham uns 5 filhos da puta filmando a agonia do garoto na calçada. Delicadeza não é uma das minhas virtudes, baixou uma pomba gira de frente, botei as mãos na cadeira e gritei:” Que porra é essa?Vocês não tem respeito não? Esse menino tem família caralho! Vão fazer o que, jogar na internet?”. Uma mulher, de idade próxima a minha, mandou eu calar a boca. Não preciso dizer que tomei o celular da mãe dela aos gritos de “podia ser seu filho, sua vaca”. Sorte a minha chegou Policia, Corpo de Bombeiros e fui apoiada por todos. Um dia depois o jovem morreu, 23 anos e deixou um filho pequeno .E até hoje não vejo sentido em filmar um menino agonizando. A morbidez não tem fim. Basta lembrar que depois do assassinato da Eliza Samudio, pelo goleiro Bruno, se soube que ela havia trabalhado num pornô e o filme esgotou em todos os camelôs do Rio de Janeiro. Assistir um filme pornográfico com uma mulher que teve um fim tão horroroso, me remeteu a necrofilia. Sem tirar nem por.

Em 1991, aos 20 anos de idade, marquei de sair com uma amiga. Íamos dançar. Só que antes ela precisava passar em um aniversário de uma amiga de infância para fazer uma social. Chegando lá., vendo meu nome numa lista de convidados, perguntei quem era. ”È a Cacau, atriz, a Claudia Abreu, sabe quem é?” Lógico que sabia, até porque semanas antes tinha ido assistir Um Certo Hamlet, em que ela era a personagem principal. Fomos as primeiras a chegar, a amiga atriz foi um doce comigo e de repente parecia que o Projac inteiro tinha se mudado para lá. Vera Holtz, Vera Fisher, Susana Faini, Victor Fasano e eu ali, tentando não destoar do ambiente. Eis que um casal lindo, ela de blusa de couro acinturada, ele com toda aquela aura de galã, quando iniciou a música e começaram a dançar, roubaram a cena. Ela sílfide, vaporosa, elegante , rodando pela sala executando uma dança de salão. Era a Daniella Perez e o Raul Gazola. Enquanto eu admirava o par, não podia imaginar o que o futuro reservava. No ano seguinte ela seria assassinada por seu par romântico na novela., Guilherme de Pádua e sua mulher Paula Tomaz. Com 19 estocadas. No mesmo dia que o Collor levou o impeachment. Mas foi um acontecimento tão surreal, tão absurdo, tão tenebroso, que o Collor ter caído passou a ser assunto menor. O que se seguiu daí em diante foi uma sucessão de histórias e de fatos. O pior deles a audácia do assassino de ir ao enterro, quando ainda não se sabia o culpado, abraçar a mãe da moça e o viúvo. No fim das contas, pegaram 7 anos de cadeia, Paula se casou e tem três filhos e Pádua virou pastor e apoiador do Bozo, porque como sabemos, nunca falha. Esse acontecimento, da moça bailando num dia e no ano seguinte nas manchetes de todo país, morta daquela maneira torpe, talvez tenha sido o evento brutal que mais me impressionou.

Quanto a festa, acabei indo para a varanda da casa e me juntando aos bons. Luis Gustavo, Tato Gabus Mendes e Aracy Balabanian. Ouvi histórias fabulosas sobre a TV brasileira e seus primórdios, de chorar de rir. Fecho essa crônica com a história contada pelo Luis Gustavo, dos tempos que não existia video tape e tudo era gravado ao vivo. Ou seja, não podia ter um erro. Era um Teleteatro, Joana D”arc. Um personagem importante ,um dos atores principais, segurou Joana D’arc e gritou para os soldados : ”Enforquem-na!” E eis que do nada aparece um figurante, que tava lá fantasiado no meio dos outros, mas que teve a sagacidade de puxar um isqueiro Bic do bolso e dizer: ”Não seria melhor queimá-la”? E assim salvou-se a peça. Tudo pelo script. Sem mais.

Farra-do-fraque

Farra-do-fraque

Na tela, uma cena famosa do filme The gold rush, de 1925. Charlie Chaplin, isolado numa cabana e desesperado de fome, cozinha a velha botina. Tira o calçado fumegante da panela e vai, lentamente, comendo a sola, enrolando o cadarço no garfo qual espaguete, chupando os pregos como restos de fino galeto. A plateia do cinema está dividida em três níveis. No superior, dos endinheirados, ri-se à tripa forra. No do meio, ocupado pelos remediados, há um sorriso titubeante, quase preocupado, constrangido. No inferior, da gente pobre, roupa puída, rostos magros, olhos cansados, a atmosfera é fúnebre. Carlitos, para eles, rodara não uma ficção, mas um documentário de suas rotinas tristes.

Não inventei esse quadro. É do Quino, pai da Mafalda e artista gráfico de gênio. Em poucos traços, escancara a obscena desigualdade de tantas sociedades. Julho último, uma imensa fila na porta de um açougue em Cuiabá chamou a atenção. Pessoas que enfrentavam calor de derreter viaduto para conseguir ossos com resíduos de carne. As imagens abriram a porteira. Outras, de várias partes do país, mostraram gente disputando ossos em caçambas. Sem qualquer surpresa, a “mão invisível do mercado” descobriu uma oportunidade. Açougues passaram a vender ossos, o preço chegou a R$ 4/kg. É possível ornamentar esse inferno com números. No Brasil, cerca de 112 milhões de pessoas vivem em estado de insegurança alimentar (leve, moderada ou grave). Entre elas o rendimento real per capita proveniente do trabalho caiu perto de 30% nos últimos 7 anos. Isso quer dizer que todo o país vai mal, em crise profunda? Não.

Uma rede paulista de lojas para animais domésticos acaba de abrir duas filiais no Rio. Oferecem produtos de luxo para bichinhos privilegiados. Sorvetes (um deles, sabor bacon), bolos de caneca, muffins, molhos gourmet para ração, patês, café, cervejas (!) e petiscos personalizados. O mercado brasileiro de produtos de luxo foi o que menos sofreu na pandemia. A Cartier, por exemplo, quase quintuplicou suas vendas em 2020 em relação a 2019. Se madame quiser consumir peças de luxo usadas, pode comprar uma bolsa Birkin, da Hermès, por uma pechincha: R$ 35 mil. Se optar por uma Chanel clássica, pagará módicos R$ 20 mil. É para essa turma que o tchutchuca, freguês de paraísos ficais, flexiona a espinha. É essa a elite que constrói muros e arrota privilégios, aglomerou em bares da moda desde o início da pandemia, ofendeu fiscais que tentavam evitar aglomerações (lembram-se da mulher que, num bar na Barra da Tijuca, enfiou o dedo no nariz de um fiscal e disse sobre o marido que a acompanhava: “Ele não é cidadão não, é engenheiro civil, formado, melhor do que você”?), tem o verdadeiro poder neste país. Não foi isso que uma conversa do banqueiro André Esteves com clientes desnudou? O boquirroto pintou-se como oráculo dos poderes da República. Adornou a bravata rotulando o golpe de 1964 como “acontecimento pacífico”. Torce claramente pela reeleição do tresloucado ignorante.  Burguesia ilimitada. Sem máscara, sem fantasia.

Enquanto prossegue a farra-do-fraque, a grande federação dos explorados pisa em brasas. O total de favelas dobrou no Brasil em dez anos. A taxa de desocupação da metade mais pobre do país mais do que dobrou desde 2014. 27,4 milhões de brasileiros vivem hoje com menos de R$ 261 ao mês, maior taxa de miseráveis em uma década. Os trabalhos por conta própria já representam quase um terço de toda a população ocupada. Em dois terços dos acordos coletivos de trabalho, o reajuste salarial perdeu da inflação.

Em 1965, um concerto aconteceu no Royal Variety, em Londres. Lá estavam os Beatles, jovenzinhos, cantando musiquinhas com letras inocentes. Presente na plateia, a família real britânica. Antes do último número, John Lennon se dirigiu ao público. “Vamos precisar da participação de vocês. Os que estão sentados nos lugares mais baratos, batam palmas. Os dos lugares mais caros, chacoalhem suas joias”. Risos amarelos nas primeiras filas. Lennon já tinha a semente do Working class hero que comporia cinco anos depois. Até quando a exploração maciça da maioria da população continuará? Até quando os ricos e seus serviçais continuarão chacoalhando as joias sobre um mar de cadáveres, miséria e terra arrasada? Até quando o working class hero continuará sendo apenas something to be, um projeto em construção? O que a esquerda tem a apresentar como alternativa à catástrofe que torna 1% da população mundial proprietária de 82% da riqueza produzida pela humanidade? São possíveis soluções cosméticas, protelatórias, dentro de um modo de produção material e simbólica que se assenta, obrigatoriamente, na desigualdade?

Que os explorados, humilhados e ofendidos tomem posse do seu processo de emancipação. Em 1968, Paul McCartney leu nos jornais sobre a luta dos negros norte-americanos contra a discriminação racial. Escreveu, então, Blackbird. Diz no trecho final: Blackbird singing in the dead of night/Take these broken wings and learn to fly/All your life/You were only waiting for this moment to arise. No século XIX, um certo barbudo alemão disse a mesma coisa com outras palavras. Não perdeu a atualidade.

Abraço. E coragem.

Ao Enfant Terrible dos meus afetos

Ao Enfant Terrible dos meus afetos

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe, é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam um país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina ‘tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não, não para

(CAZUZA)

Para Sergio Goldbaum

 

 

AO ENFANT TERRIBLE DOS MEUS AFETOS

 

1983 Foi o ano que descobri que aos 12 anos sua opinião é a última coisa a ser levada em consta. Meus pais se separaram, mudei de cidade, de casa, de escola. Quando dei por mim, estava em outra realidade. Numa sala de aula com pessoas que nunca tinha visto na vida, segurava com força em uma das mãos o livro de Garcia Márquez Cem Anos de Solidão, numa tentativa inútil de me proteger. Era meu primeiro contato com o autor, e estava por ele tão deslumbrada, que usava-o quase como um amuleto. Esta obra se arrasta comigo pela vida. A cada nova situação de mudança e transformação, procuro lê-la de novo. “Muitos anos depois, diante de fuzilamento,O Coronel Antonio Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer gelo”. Basta ler isso para o coração desacelerar.

Não me sentia bem aceita na turma nova e sondava os porques. Fisicamente eu era a estranha no ninho. Enquanto a maioria vivia as dores e delícias da puberdade, eu destoava do resto com minha perna compridas, meu corpo infantil, lisa como uma tábua , magrela , só para fechar o pacote que me incluía na categoria “esquisita”,usava óculos pesados por conta de uma alta miopia. E ainda tinha o sotaque como cereja do bolo. .

Uma loira, com peitos de Scarlett Johansson , passou a me perseguir.Bem maior que eu, aparentando uns três anos a mais para seus treze anos, despertava a atenção dos meninos e era a personificação da beleza padrão que as garotas almejavam. Cansada dos apelidos idiotas que me colocava, do seu ar de permanente deboche, sentia que eu que devia dar o basta. Contar para a minha mãe e ela ir reclamar na escola só pioraria minha situação. A oportunidade veio numa aula de redação , cujo assunto era introdução aos gêneros literários, o barroco. Uma poesia de escárnio do Gregorio de Matos foi lida e a professora lançou uma pergunta para a turma, mas olhando para mim, na tentativa inocente de me incluir. Foi então que levantei a mão e disse:”Com todo respeito, a senhora está perguntando para a pessoa errada.Se tem alguém que se diverte escarnecendo dos outros é ela (apontei a colega.) Falta-lhe porém o talento para fazer de suas ofensas um verso desse valor”. Primeiro o silêncio. Depois gargalhadas eclodiram, a menina ficou vermelha feito um pimentão ,deixando a a professora irresoluta, se me levava ou não para a coordenação. Decidiu nos colocar frente a frente para conversar pedindo que ela parasse com aquilo com os outros e que eu usasse mais gentileza nas respostas .Esse foi precisamente o dia da minha transformação definitiva de poço de doçura a tanque de ácido. Sobrevivência que chama, né?

No âmbito político o Brasil mudava. Nascida sob o domínio daqueles generais amedrontadores, poucos anos antes assinou-se a lei da Anistia, os exilados voltaram, Diretas Já, finalmente um presidente civil , não o Tancredo, mas um civil. Vivia tudo isso, essa alegria fomentada pela esperança de dias melhores, sendo adolescente. A realidade do país se transformava e eu também. Consegui convencer a minha mãe a me dar um par de lentes de contato, meus seios surgiram, usava orgulhosamente um sutiã,.Nas férias era biquini asa delta amarelo, óculos espelhados coloridos e fora dela relógio techno com pulseira combinando com o cardaço do tênis, uma inaceitável pantalona verde cana como xodó , ornada por um blazer lilás com ombreiras que me engoliam, batom rosa choque e, nos cabelos, um indefectível corte mullet. Se todo adolescente é vítima da moda de seu tempo, só posso dizer que por termos crescido na década esteticamente mais cafona da humanidade nós merecíamos indenização por isso. Lembro que Chitãozinho e Xororó fizeram um show num estádio, naqueles tempos e, ao olharem para a plateia, milhões de pessoas, um disse ao outro: “Caramba, todo mundo com o cabelo igual da gente”.Sim, era impossível disfarçar as evidências. .

Na TVs e nas rádios o rock nacional surgia com toda a força, como todos os colegas e amigos, eu amava. Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Lobão, Gang 90, Barão Vermelho, Legião Urbana e muito mais.As idas ao Rio nas férias me proporcionavam momentos ímpares debaixo daquela luz estreboscópica das famosas danceterias, em que pulávamos sem parar, num estilo chamado New Wave, celebrando, mesmo que inconscientemente, esses novos tempos que se abriam.

Uma geração atrás da nossa, anos atrás, desafiando o Estado Autoritário, experimentava as novas tendências comportamentais vindas do exterior, viviam a contracultura, o amor livre, lutando contra tudo que ate então era estabelecido. Valores, instituições e tabus. Esse parecia ser o nosso caminho natural para o futuro. Minha meta era ser como a Sheila, uma moça de longos cabelos lisos, que aparecia vez por outra na vila da minha avó.Mais velha que eu, pilotava uma moto, namorara sem compromisso, fazia da praia a sua casa e estudava engenharia florestal na faculdade. Isso para mim era o significado de liberdade.

Mas não foi isso que aconteceu. Em 1983, uma epidemia misteriosa, que a princípio recebeu o infame nome de peste gay, visto que a maior parte das sua vítimas era homossexual, chegou ao Brasil . Altamente letal, sem nenhuma perspectiva naquele momento de um remédio que a curasse, era uma sentença de morte. A imprensa em nada ajudava .Lembro de uma matéria feita na rua, onde um cidadão comum , ao ser perguntado se sabia sobre a nova enfermidade, disse:”Pega os invertidos promíscuos né?E eles morrem. Só posso dizer que é um presente de D’us.” Um infectologista de renome, já falecido, vomitava na imprensa e em palestras seus preconceitos. Ele tinha espaço para isso. Numa palestra nos Hospitais da Clínica, ele falou com todas as letras, Homossexuais são pessoas sem condições psíquicas para viver, ou, como escreveu em um relatório: O homossexual, a bicha, o travesti, o invertido,fatalmente contrairão a doença.Jornais estampavam manchetes com “A Praga Gay”,

Tudo parecia longe de mim, até o meu professor amado de geografia ser o primeiro a se contaminar. Depois dele muitos outros. Amigos de meus pais a quem tinha como tios, profissionais da medicina, das artes, mortes em sequê ncia.É aqui que quero chegar. As primeiras vítimas da AIDS foram homossexuais, usuários de drogas injetáveis. Mais a frente, presidíários. Esses eram a escória. Nos hemofílicos, pegaram mais leve.Henfil, Betinho e Chico, creditavam ao azar.O estigma, principalmente da homossexualidade, era perpetuado. A palavra promiscuidade estava sempre associada a doença. E a nossa classe média, que nunca nos decepciona, era uma espécie de ponta de lança na disseminação do preconceito e ignorância. Enquanto eu estudava num colégio liberal, tivemos uma palestra e recebemos camisinhas de brinde, minha irmã estava num colégio católico cuja orientação era não usar preservativo, as soluções oferecidas eram casar e ser fiel aos votos de casamento ou optar pela abstinência sexual.

Uma crônica não dá para falar sobre essa questão da moral e do bom costume, muito ligada a classe média e como ela é perpetuada. Mas como recordar é viver… Acho que não custa lembrar que quando do golpe de 64 a Tradição Família e Propriedade, apoiadora de primeira hora, era formada por quem? Quem integrava as Marchas Pela Família e Pela Liberdade? Empresários, donas de casa, o clero. Exemplo importante da força desses movimentos e da sua penetração nas classes sociais mais baixas nos idos de 73, está aí a música do Odair José, voltada para as massas. Ela foi feita antes da chegada da AIDS, mas por ela vemos como em certas situações a classe média dita a moral. Pare de Tomar a Pílula, foi proibida não apenas no Brasill como em toda a a América Latina. Motivo? Ela ia contra aos esforços da TFP, financiada pelos Estados Unidos, que distribuia píluulas para mulheres pobres e , até onde se sabe, promovia laqueaduras de trompa não consentidas em mulheres pobres que já tinham filhos e idade para procriar. Vamos acabar com a pobreza obrigando os pobres a não terem filhos. Essa era a ordem

Essa questão da moralidade .e dos bons costumes é cria da classe média.

Aqui conto uma historinha que mudou para sempre minha visão sobre as classes sociais no Brasil . Sou nascida numa família de classe média média,filha de funcionários publicos.. A moral que me circunda sempre foi a pequeno burguesa. Casamentos como uma resposta para a sociedade, não ter filho sem casar para não carregar a pecha de mãe solteira, o gay da família relegado ao silêncio (já ouvi pessoas falarem sem pudor: na minha família não existe esse tipo de gente) , a exigência por um comportamento de vida “adequado”.Apesar de ter estudado numa universidade de elite, com colegas abastados, nunca tinha conhecido alguém rico de verdade. Aquele que ostenta nome, um nome que todo mundo conhece, como um Gerdau por exemplo, o que tá no topo, esse outro Brasil. Foi assim que fiquei amiga de uma pessoa que chamarei de Ana. Não sei porque ficamos amigas, até porque eles são muito fechados entre eles, mas nos gostávamos e lá foi Céu atravessar essa fronteira. Era início da década de noventa e nos frequentávamos, chegando a viajar juntas (um carro com o motorista e atrás de nós os seguranças).Sua casa era cinematográfica, quadra de tênis, piscina que era uma jóia do design, obras de arte originais e um imóvel tão grande que a família se quisesse não se encontrava pela residência .Havia um sistema de interfone para se comunicarem entre si e com os funcionários da casa, todos vestidos com rigor, não havia uma gola fora do lugar.Um irmão, visivelmente gay, apareceu de surpresa no quarto dela. Conversaram bastante e, quando ele saiu, ela me falou naturalmente ;”Minha mãe tá muito feliz, meu irmão está namorando o astrólogo dela, que é uma pessoa bacana, que conhecemos direito”.E o assunto morreu. Hoje não seria estranho, mas naquela época, me soou muito esquisito. Meus amigos gays lutavam para sair do armário e a aceitação da família era o grande empecilho. Enquanto para ela era um assunto corriqueiro, discutido em família. Dei esse exemplo, só para dizer que a “aristocracia” não é pautada por nossa moral burguesa. Eles estão acima, afinal, não devem satisfações a ninguém

Mas voltando aos anos 80, desses novos talentos do rock nacional, um tem lugar cativo na galeria dos meus afetos. Ariano, solar, considerado difícil por muitos, Cazuza foi mais que um riquinho mimado. Vi dia desses uma entrevista dele com a Marília Gabriela , já magro em virtude da doença , aos 31 anos. Quando ele fala da injustiça social do Brasil, de acharmos um meio termo entre o comunismo e o capitalismo, vi a Céu garota ali. Sua fala é carregada de ingenuidade, mas a esperança pulsa, latente. Escola pra todos, comida, com isso o Brasil caminha.

Seu lado gozador e debochado me pegou de surpresa pouco tempo atrás em relação a dubiedade de suas letras. Em Exagerado, no verso “Por você eu largo tudo, carreira , dinheiro, canudo”. Eu imaginei, por quase cinco décadas que o eu lírico se referia a carreira (trabalho) , dinheiro (salário), canudo (diploma).Mas o Leoni, mais um dos gigantes do rock nacional, autor da música, que foi letrada pelo enfant terrible, me chamou para a real : Carreira, de cocaína, dinheiro, para usar para aspirar o pó e canudo, nome que se dá a qualquer objeto que tenha como finalidade aspirar a droga. Até hoje, como um erê, esse menino me prega peças.

Já na carreira solo, fora do Barão Vermelho, dedicou-se a fazer músicas em que muitas são a radiografia do Brasil. A Abertura de Vale Tudo, novela do recém falecido Gilberto Braga, a música “Brasil” é o retrato do país. E sim, um dia escreverei sobre ela, novela que considero a maior da teledramaturgia braseira.

Cazuza era autêntico e imprevisível.. Carrega o posto de ser a primeira pessoa pública a se abrir sobre a doença. Ele estava ciente do que era ser portador de HIV, uma doença associada diretamente a sexualidade, nesse país:”Eu acho que a AIDS cai como uma luva, um modelinho perfeito da direita e da Igreja Católica , assim como uma talleurzinho, entendeu?Nunca estiveram tão elegantes.E deselegantes principalmente” Falou e pagou caro por isso, Disposto a expôr a sua condição , na tentativa de aliviar o peso do estigma da AIDS, tempo que ninguém ousava assumir ser soropositivo,e diante de uma imprensa que demonizava a doença, Cazuza recebeu a Revista Veja. De coração aberto. Resultado? Aquela capa de triste memória em que ele, muito magro por conta da enfermidade, tem sua foto circundada por letras garrafais: UMA TIMA DA AIDS AGONIZA EM PRAÇA PUBLICA. Segundo sua mãe, Lucinha Araújo, ao ver a revista comprada na banca de jornal, eles estavam em Petrópolis, Cazuza passou mal e foi internado na clínica São Vicente. Mais uma vez falo sobre a nossa amada classe média: Tudo que se relaciona a relações de pessoas, no campo das morais e costumes,está lá..

Em quatro décadas muito se avançou em relação a AIDS. Graças aos esforços de profissionais de saúde, de cientistas, de determinados políticos fazendo com que o coquetel antiviral chegue a todos (e aqui destaco Serrra e Temporão), da pressão da sociedade civil, nenhum portador do vírus HIV morre de AIDS caso se cuide.Hoje é considerada uma doença crônica. O Brasil é referência no tratamento da AIDS.

Não sejamos ingênuos porém, que esse processo de desumanização observado junto aos portadores de HIV de décadas atrás, nos dias de hoje não ganhará força novamente por conta dessa tsunami conservadora que nos atinge. Enquanto escrevo, acabei de visualizar uma matéria sobre o Bolsonaro, dele revogando uma medalha que seria dada hoje a pesquisadora Adele Benzaken.Em janeiro de 2019, ela foi demitida do seu cargo no Ministério da Saúde.Seu pecado:escrever uma cartilha cujo título é:”Homens Trans:vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis”.Enquanto ele mesmo ontem se automedalhou com uma comenda de mérito científico. Faz sentido. Seu negacionismo ceifou mais de 600000 vidas, ao passo que a AIDS, em 40 anos np Brasil, levou 349784 indivíduos.

Desde o início o presidente deixou claro que o custo de um soropositivo para o Estado é muito grande Pegando carona nessa frase infeliz, digo que custo alto é ter que aturar esse senhor e seus príncipes regentes todo santo dia. Sendo Cazuza pessoa melhor do que eu, só deixo um fragmento de sua canção para esse nefasto:”Vamos pedir piedade, Senhor piedade, para essa gente careta e covarde”.

Parcerias

Parcerias

As parcerias são preciosas para percorrer os labirintos, mesmo que haja trechos e tempos solitários. A construção das parcerias começa na infância e segue pela vida, nas mais variadas relações afetivas, como são os vínculos de amizade. Talvez, a primeira parceria, seja com a gente mesmo, algo nada fácil de construir, pois ser seu próprio amigo nunca é fácil. Essas experiências são o que há de melhor na existência, mas como se escolhe ou se é escolhido são determinações vinculadas ao narcisismo. Há parcerias que geram intensos sofrimentos, mais desgraças que graças, logo a experiência da escolha é essencial na vida.
As parcerias são essenciais no desapego familiar, libertar-se desses primeiros laços que às vezes apertam, e alguns até sufocam. As amizades, os irmãos da vida, diminuem a dependência e são essenciais para conquistar o entusiasmo na emocionante arte de viver. As primeiras parcerias fora da família já começam na infância, na escola e segue na adolescência, vida adulta. Nas relações também ocorrem as separações, tensões, rivalidades, difíceis vaidades. Há ainda parcerias enlouquecidas, grupos de ódio, cruéis, de um fanatismo assustador.
Unamuno escreveu: “Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida nos aperfeiçoa e enriquece não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos”. Eis uma frase que vale a pena parar a leitura, respirar, reler para ver se é certo mesmo o que o sábio espanhol de Salamanca escreveu. E, então, buscamos na memória se alguma pessoa já disse algo a respeito da gente que valeu como descoberta, como um aplauso, onde antes havia vaia alheia ou a própria decorrente de algum conflito ou sintoma. Nesse tempo de lembranças, eis uma gerada numa conversa com um amigo, ocorrida há muitos anos. Eu começo a conversa:
– Fico impressionado com tua capacidade de adaptação à vida institucional, trabalhas na faculdade, tens uma associação psicanalítica; já eu tenho uma marca gauche, um outsider.
– A rebeldia segue sendo indispensável. Lembro um artista que trabalhou com várias técnicas e participou de uma procissão caminhando em sentido contrário para estudar a reação das pessoas. Como era alto, chamava mais atenção também pelo saiote que vestia. Se todos andarem na corrente, não se conhecerá a contracorrente, e isso é importante.
Escutei a história, e o amigo Edson, parceiro agora do livro da imaginação, mostrou uma foto de Flávio de Carvalho na histórica procissão. Talvez, nessa breve história, haja um exemplo do que escreveu Unamuno sobre o que o outro descobre na gente desde uma outra perspectiva. Alguma vez fora criticado, com razão, por colegas psi por não ser um fã da vida institucional, mas naquele distante dia o amigo contou uma história reconfortante. Conviver com sintomas difíceis de serem tratados é da vida, é uma espécie de rocha dura difícil de romper.
Cada parceria é única, e muitas são desfeitas ao longo da vida, algumas seguem outras não, assim como os casamentos, as amizades também se dissolvem. Há uns três anos comecei a publicar no Face em busca de gente para conversar. Quem escreve desenvolve também a arte da conversação, aliás, as redes sociais são verdadeiras pontes. As parcerias também se constroem com os escritores, pois abrir um livro é escutar o que cada autor tem para contar. Por melhor que sejam essas redes, creio que estamos com saudades da convivência presencial com as parcerias.
Scarpe da donna ou, porque é preciso dançar

Scarpe da donna ou, porque é preciso dançar

O Poeta estava ali, forasteiro, olhando o pó de florestas moídas e, então, ela veio e entrou pelos corredores apressadamente e foi deixando os sapatos, altos e pretos, pelo portão.

Aqueles sapatos lançados ao chão resmungaram uma voz concentrada, como se fosse possível ouvir por intermédio deles a voz musical distante, intensa. Porque há mulheres que usam os pés para dançarem, mas, outras, usam-nos para primeiro gemerem e depois para se libertarem, para o salto que as tire da cola asfáltica e o impulso que arrebente paredes – e muros.

Quem tira os sapatos busca a leveza e o conforto de um ato libertário – busca o mar, e busca a brisa, e busca o estado de comunhão, e busca a poesia, e busca aqueles olhos que enxerguem, e busca o espaço, e busca o vento, e busca a tempestade, e busca o toque das mãos feito escultura renascentista.

Em algum ponto dos pés femininos começa o caminho ao paraíso!

Ela, então, agora descoberta mulher e gente, tirou os sapatos e os manteve ali, jogados, feito símbolo de resistência e escárnio, marco de libertação, desenho melódico, expressão de inteligência, convite ao encontro dialógico pleno. Aquela mulher tirou os sapatos em busca da pele, dos poros e do corpo, em busca da alma que transita pelas veias, e da vida que organiza os músculos e arrebata os seios, em busca da luz que cintila nos lábios e faz dilatar as pupilas.

Aquela mulher tirou os sapatos porque as asas não estavam em suas costas, mas, nos pés, e ela buscou asas em seus pés, asas que a levassem para as cabanas alpinas, de onde chegara o Poeta, e para beber na mão da Poesia ou, quem sabe mais próximo, ao alcance de um dedo, nas vias e pousadas andinas ou, simplesmente, para o risco de um verso possível no encontro de gente e seres apenas.

E, agora, Aquela mulher, Esta mulher, tão próxima assim, com os pés soltos, sapatos jogados, pisaria uvas com intensidade, cantando e dançando por toda a noite. Ela ergueria os vestidos para pisar uvas mais profundamente ainda e, ao amanhecer, lançaria mais uvas ao lagar e continuaria cantando alegremente com os vestidos levantados, mergulhada em vinho e poesia, poesia achada na rua, no corredor, no portão e naqueles pés, agora, libertos.

© Pietro Nardella-Dellova, 2010