Faz alguns anos, deixei uma atividade em Sankt Gallen (Suiça), e aceitei Coordenar um Projeto de Direito na Amazônia, que pressupunha (para mim), entre outros objetivos, conhecer e reconhecer direitos indígenas, identificar ocupação ilegal das terras, promover a preservação da Floresta e dos recursos naturais, emitir relatório de garimpo ilegal e de derrubada de árvores, defender o direito de trabalhadores rurais etc…

Neste contexto, conheci, quase que por acaso, um jovem casal: Renata e Thiago. Desenvolveu-se, então, uma boa amizade, com direito a vários cafés, alguns pastéis de banana e boas conversas acerca do Judaísmo, Literatura e Direito (Renata era formada em Letras; Thiago era um jovem policial militar, com grande interesse em Judaísmo, e eu estava ali).  

Ambos me contaram que viviam juntos havia alguns anos, mas sem um “casamento”, pois, isso lhes tinha sido negado pelas suas “autoridades” religiosas cristãs, por conta de uma gravidez durante o namoro. Para mim, estarem, ou não, casados, religiosa ou civilmente, dizia muito pouco (ou nada!), pois acredito em amor livre, mas eles sofriam muito com isso, especialmente ela, pois havia sido acusada pela mãe (cristã evangélica) de “fornicação” e, ainda, recebido a “maldição sobre a criança” gerada “em pecado”. Havia muito sofrimento ali…

Porém, passado algum tempo de encontros, cafés e boa amizade, manifestaram uma imensa vontade de realizarem o casamento. Perguntaram-me se eu o celebraria no modo judaico, já que os Cristãos haviam se recusado perversamente a lhes dar uma “bênção”. Respondi que sim, e se isso realmente fosse importante para eles, se isso pudesse lhes trazer alguma dignidade, realizaria a cerimônia com grande alegria e honra.

E, assim, o casamento foi realizado, em nome da dignidade da pessoa humana – não de qualquer religião, nem mesmo a Judaica.

Mas, os deuses da floresta amazônica estiveram presentes! A mãe da guria (noiva) também esteve presente e, ali mesmo, logo após a cerimônia com elementos judaicos, reataram a relação entre um perdão e outro, incluindo abraços, beijos, choro e o apreço pela netinha (que havia nascido, claro, sem qualquer maldição). Eis o milagre!

NOTA: Na cerimônia, usei para uma curtíssima prédica apenas o Livro SHIR HASHIRIM (Cântico dos Cânticos, de Salomão) e um texto acerca da FELICIDADE, de Epicuro. Era o tanto que bastava.

© Pietro Nardella-Dellova