Foi meu primeiro estágio pra valer. Já nos estertores do curso de engenharia química, passei por um processo seletivo light e caí de paraquedas numa firma de projetos de engenharia. Passada a excitação da novidade, veio o estranhamento. Profundo, decepcionante. A rotina lembrava cenas chaplinianas em Tempos modernos, o homem como apêndice indefeso do processo de produção. Vigiado, destituído de vontade própria, neurotizado.
O lugar todo parecia um grande aquário. Divisórias transparentes, impossibilitando qualquer privacidade. A sensação, angustiante. Um pesadelo orwelliano. Vou dar um exemplo do comportamento capataz. O intervalo para almoço começava pouco antes do meio-dia. Eu corria para um restaurante modesto, onde se comia sentado em tamboretes. O prato de resistência era o Chicken pie de frango(!). Assim mesmo no cardápio. Engolido às pressas, hora de voltar para o aquário, a tempo, achava eu, de folhear um jornal até as 13 horas. Não demorou muito e o chefe do setor me chamou. O olho do Big Brother não falhava. Faça o favor de largar o jornal às 12:45 horas, disse, é o início do expediente da tarde. Involuntariamente, eu me apropriava de um tempo que pertencia aos patrões. La vida es eterna/En cinco minutos/Suena la sirena/De vuelta al trabajo, poetou Victor Jara. Quinze minutos, três vidas. Aonde a mais-valia foi parar, seu Valdemar?
As atividades eram controladas diariamente. Cada robô, digo, trabalhador, era obrigado a fazer um relatório diário, especificando, com minúcia, o que havia feito. Em nome de uma engorda no currículo, aguentei a situação por meio ano. Ao sair do aquário pela última vez, nem olhei para trás. Sardinha não tem saudade dos tubarões. Mal sabia eu que o próximo passo seria na direção de um empresário picareta, arrogante, montado em esquemas para se apropriar de recursos públicos. Mas isso já é outra história.
Essas lembranças quase apagadas, gravadas em preto e branco, vieram à tona depois da divulgação de matéria do New York Times, sobre monitoramento de trabalhadores (colaboradores é o cacete!) em escritórios. Logo na introdução, o jornalista observa que “desde o surgimento dos escritórios modernos, os trabalhadores orquestram suas ações observando o relógio. Agora, cada vez mais, o relógio os observa”. Bem, não se trata exatamente do relógio. Em número crescente, funcionários, em trabalho remoto ou ao vivo, estão sujeitos a rastreadores. Quem o dispositivo flagrar desconectado do computador está sujeito a corte de salário ou, no limite, a perda do emprego.
Trabalhadora de uma grande multinacional contou que “enquanto o rastreador estava ligado, não podíamos escolher o momento de ir ao banheiro ou tomar um café”. Se o funcionário estiver apenas pensando (apenas?) no momento em que é monitorado, isso é interpretado como tempo ocioso e descontado do salário.
Na transição histórica entre trabalho artesanal e produção industrial, o trabalhador perdeu o controle não apenas dos meios de produção, mas do tempo dedicado ao processo produtivo. Sua habilidade manual foi transferida para as tarefas repetitivas das máquinas, seu tempo passava a pertencer ao capitalista. Com o aperfeiçoamento das máquinas e a sofisticação do mundo digital, os controles estão cada vez mais severos. O grau de liberdade de quem trabalha desidrata. O sonho de consumo do capital é tornar o homem-trabalhador obsoleto, substituído por geringonças que controlam cada detalhe da vida e não reclamam de sobrecargas variadas.
Sem surpresa, começam a aparecer os primeiros sinais de que máquinas podem aprender, isto é, ganhar “personalidade”, expressar desejos, criar com autonomia. Já existe um programa de computador que aprendeu a jogar Go, um jogo chinês de aparência simples, mas de desenvolvimento complexo. Não só ficou imbatível, como transitou para o xadrez e outros jogos, nos quais vence qualquer humano. Existem algoritmos que compõem músicas adaptadas a estilos diferentes. Não sei a qualidade destas composições, mas a perspectiva é de que elas ganhem sonoridades e soluções técnicas cada vez mais indistinguíveis das elaboradas pelo Homo sapiens. O horizonte de tudo isso, inclusive com a fusão de biologia e máquinas, corpo e mecanismos, é improjetável.
O aquário onde nadei aflito na alvorada profissional é um pequeno Éden comparado ao que vem por aí.
Era um dia de céu escuro anunciando chuva. Eram mais ou menos dez horas, hora do recreio na Escola Educação e Cultura, o colégio judaico do bairro Bom Fim. Em vez de os alunos irem brincar, chamaram todos para um amplo pátio. Veio então a diretora do colégio, toda vestida de preto (sapatos pretos, meias de nylon pretas, traje preto), e com voz chorosa disse que o grande presidente Getúlio Vargas morrera naquela manhã e o Brasil estava de luto. Disse, no final, que não haveria mais escola naquele dia. Começou assim o inesquecível dia 24 de agosto de 1954. Ao meio-dia, escutei som de tiros próximo à minha casa, som de caminhões e tanques. À tarde, fui a uma festa de aniversário do primo Bruno, e ao chegar ele chorava, dizendo que ninguém iria vir na sua festa. Depois de alguns anos, vivi, já adolescente em 1961, o ano da Legalidade, e logo veio 1964, o ano do golpe e do começo da longa ditadura militar do nosso país.
Muitos anos se passaram, e uma vez viajei ao Rio de Janeiro, e numa manhã saí a caminhar a esmo. Fui indo pelo aterro do Flamengo, quando vi um portão de ferro semiaberto num longo muro. Curioso, dei uma olhada e vi um belíssimo jardim com palmeiras de pescoços finos a perder de vista em filas paralelas, entre jardins impactantes. Entrei devagar e perguntei ao primeiro trabalhador que vi sobre o que era aquilo tudo e escutei que era o Palácio do Catete. Fiquei pasmo, pois sabia que num quarto dessa imensa construção tinha se suicidado o presidente Getúlio. Caminhei devagar pelos jardins muito bem cuidados, enquanto olhava à direita e à esquerda do caminho central entre as palmeiras, e lembro até hoje as emoções de estar diante do famoso palácio, onde viveram tantos presidentes. Cheguei, finalmente, a uma primeira sala que percebi ser o salão das reuniões ministeriais pela longa mesa e as cadeiras. Seis cadeiras de cada lado da mesa e na ponta a cadeira do presidente do Brasil. As cadeiras onde se sentaram ministros como Tancredo Neves e Osvaldo Aranha, e as paredes com quadros em tons escuros. Havia uma porta entreaberta pela qual passei e logo vi uma escada e veio o segundo andar. Olhei aqui e ali, buscando o quarto famoso dos presidentes. Subi mais um andar e, finalmente, percebi que só podia ser o quarto do suicídio. Olhei a cama sem colchão, o guarda-roupa, uma mesinha, até que avistei um móvel com um vidro e atrás dele um casaco de pijama com uma mancha escura na altura do coração. Foi por meio desse casaco que senti me encontrando com o mais famoso dos presidentes do Brasil. Estava no quarto em que no dia 24 de agosto, às 8h35, Getúlio segurou um revólver 38 com as duas mãos-para não errar- deu um tiro no seu coração.
Ao longo dos anos fui entendendo por que ele teve que se suicidar, pois se sentia já velho, e o suicídio foi o caminho para defender sua dignidade, sua honra, com a famosa frase final da carta-testamento: “Saio da vida para entrar na História”. A grande acusação contra Getúlio era da corrupção – já naquela época – que ocorria entre os que estavam próximos a ele. A verdade também era que foi um nacionalista na criação da Petrobrás, e sua disposição de lutar pelos mais humildes, pelos trabalhadores, contrariava muitos interesses civis e militares. Em janeiro de 1954 o salário teve um aumento de cem por cento, e em fevereiro apareceu o manifesto dos coronéis em tom sedicioso. Tudo isso se uniu a uma poderosa oposição e ao descontentamento popular com a inflação.
A Era Vargas durou de 1930 até 1964, quando ocorreu o golpe militar tentado dez anos antes. Anos depois, sonhei com o número 1964, que associei tanto ao golpe militar como ao traumático 1954, o ano em que era um menino atônito com a morte do famoso presidente Getúlio. Revivo hoje o clima de violências e ameaças do passado com a ex
Grande parte das dificuldades pelas quais passa o mundo tem uma explicação: os ignorantes são taxativos e os inteligentes, cheios de dúvidas (Bertrand Russell)
Parece que os liberais andam perturbando meu sono. Semana passada, num esforço de reportagem, dialoguei nesse espaço com um ilustre membro brasileiro da tribo dos que falam em liberdades abstratas e mercados livres, leves, soltos e agenciadores do que seria o melhor em organização social. Hoje, confesso que levemente entediado, volto ao tema.
Mario Vargas Llosa não é qualquer um. Ganhador de um prêmio Nobel de literatura, o peruano tem vasto cartel de livros publicados. Não tenho como avaliar-lhe a obra, da qual conheço pouquíssimo. Outro Mario, o Benedetti, uruguaio que admiro e respeito, considerava Llosa um bom escritor e merece ser lido. Acompanho o relator. O caldo engrossa, no entanto, quando o peruano sai da ficção e cacareja sobre política e seus personagens.
Ao longo dos anos, Llosa, atracado no credo liberal, derramou elogios a Reagan, Thatcher e, recentemente, José Antonio Kast, candidato pinochetista à presidência do Chile. A ele jamais importou o caráter autoritário/ditatorial de um dirigente, desde que não mexesse na liberdade de movimento do capital e nas leis sagradas da propriedade privada dos meios de produção. Até aí, acompanhávamos, nauseados mas à distância, os maus rumos de um intelectual. Não mexia no nosso quintal. Até que…
Em meados deste mês, a Folha de S. Paulo publicou extensa entrevista com Llosa. Provocado pelo entrevistador, ele falou sobre conjuntura política brasileira. Concedendo apenas que não tem simpatia por Bolsonaro e criticando a postura negacionista do presidente sobre vacinas, não deixa dúvidas de que votaria na Peste se o adversário fosse Lula. “Tem uma certa vocação para palhaçada”, “É um palhaço no fundo”, “Não é muito sério”, comentou sobre o Salnorabo, como se as “palhaçadas” não tivessem consequências, como se elas fossem meras irreverências juvenis, inofensivas e, no limite, perdoáveis e dignas de simpatia. Quase um maluco beleza, garoto levado mas adorável.
Na primeira leitura, associei “palhaçadas” com doces personagens do Menino. Carequinha, Arrelia e, numa expansão do conceito, Oscarito. Imagens que rapidamente se dissiparam, substituídas por Pennywise, sinistro palhaço de It, e o Coringa psicopata, interpretado pelo Heath Ledger. Destes, só se pode esperar violência extrema, desprezo absoluto por regras elementares de convivência, pesadelos mórbidos.
Sabemos muito bem, e não pela boca de um intelectual fundamentalista, o que significa o Palhaço Vociferante de Brasília. Numa América Latina manchada pelo sangue dos povos originários, herdeira de colonos genocidas, o governo brasileiro favorece a ação ilegal de garimpeiros em terras indígenas. Uma antropóloga relata o clima de tensão nas áreas onde vivem os indígenas: “A violência relembra os períodos em que os índios eram caçados por bugreiros, bandeirantes e escravagistas”. Na cultura e na educação, no respeito às opções sexuais, no direito a não morrer de fome e de desalento, no armamento descontrolado de setores da população, tudo é de uma devastação estarrecedora. A República afunda num mar de vulgaridades, mentira e cinismo, o prêmio Nobel só consegue enxergar gargalhadas.
As sandices de Llosa vêm de longe. Já na década de 1980, ele acusou os intelectuais de Terceiro Mundo (expressão hoje em desuso, mas comum na época) e sobretudo da América Latina de serem “elementos fundamentais do subdesenvolvimento (…) Propagadores de estereótipos, obstruem qualquer possibilidade de criação de novas formas de libertação”. Mereceu uma resposta irônica do seu xará Benedetti: “Sabemos agora que o subdesenvolvimento não é uma consequência do imperialismo, nem das intocáveis multinacionais, nem do analfabetismo generalizado, mas dos alfabetizados e malignos intelectuais (…) Neruda e Carpentier são mais culpados pelas nossas desgraças do que a United Fruit ou a Anaconda Copper Mining”.
Tudo isso reivindica um velho debate. É possível separar o homem, com suas opiniões e circunstâncias, do artista, do criador? Um exemplo clássico é Richard Wagner. Foi um antissemita abjeto, mas sua obra musical e suas concepções cenográficas para a ópera representaram uma revolução, que não pode, nem deve, ser ignorada. O mesmo vale para Vargas Llosa. No campo literário, parece que é como Paris: vale uma missa. Nas concepções políticas, representa o que há de mais atrasado, retrógrado. Contra elas, não sugiro golpe abaixo da cintura ou botinada na canela. Melhor apresentar nossas ideias e argumentos. É assim que se educa e se avança.
O mundo é dominado por caçadores. São os apaixonados pelo poder das armas, do dinheiro e desprezam as questões ecológicas ou humanas. Buscam dominar o mercado, o espaço, são vaidosos, arrogantes, desprezam as artes, as ciências, os pobres, os negros e os índios. Para os caçadores o que importa é o hoje, o tempo presente, nunca o amanhã de um país ou da humanidade. Os caçadores armas sabem de destruição, de guerra contra a natureza, e contra os desarmados. Desprezam as florestas e por isso desmatam, são fanáticos pela privatização de tudo só para si, se sentem os donos de um país, do mundo.
A outra metáfora que existe já na modernidade, são os jardineiros, que buscam melhorar o mundo. Defendem não só os jardins particulares, como propôs Voltaire; os jardineiros modernos pensam no público, se preocupam em melhorar o mundo, defendem a saúde pública, a educação pública, um estado público. Os jardins nasceram há milênios, como os jardins suspensos da Babilônia, para encantar o mundo. Como escreveu Guimarães Rosa: “São muitos e milhões os jardins, e todos os jardins se falam”. Jardins e jardineiros são da paz, reformadores que buscam a beleza da natureza, das plantas, flores, árvores, água, pedras e madeiras. O jardineiro cuida a terra, amam a Mãe Terra, cuida a vida e o mundo. Se o caçador é um apaixonado pelo poder, o jardineiro ama intensamente a beleza do espaço e o cuidado com os seres vivos. Toda metáfora tem seus limites, ajuda a imaginar, a simbolizar a condição humana.
Os caçadores podem levar o mundo à destruição, pois são os que têm mais os poderes econômico e militar. Lidam sem problemas com a distopia; já os jardineiros pensam no amanhã, na utopia. Os jardineiros buscam reformar, são a mudança, a metamorfose. Talvez alguns armados sejam jardineiros em suas casas, mas falta hoje, por exemplo, um Marechal Rondon, que se preocupou com os índios, com as florestas. Talvez haja jardineiro caçador, mas ou predomina um ou outro na gente, ou seja: qual o caminho que mais desperta o entusiasmo pelo que mesmo cada um luta, pelo que a gente sonha. Há riscos no mundo da paixão pelo poder a qualquer custo, como ocorre na guerra da Ucrânia, e aqui, quando o autoritarismo dos caçadores vem impondo todas suas vontades. Se sabe o quanto o mundo e o País estão ameaçados pelos armados.
A vida precisa ser sonhada. Se os caçadores sonham com a caça, o inimigo, a guerra, os jardineiros estão voltados à vida. Para as pessoas existirem é preciso saúde, comida, educação, moradia, trabalho, a dança e o canto. A vida é atravessar desertos e labirintos difíceis, e para isso é preciso, é urgente, reaprender a andar juntos, próximos. Os novos ventos aqui poderão secar as lágrimas dos tristonhos e embalar o amor à liberdade, à democracia. Imaginar que está ocorrendo uma virada na pátria amada, uma virada dos jardineiros em busca de jardins públicos, de uma vida pública e não só privada. É hora, é mais que hora de a gente caminhar junto, de fortalecer as redes, de compartilhar desejos, de ocupar as praças. O inverno de anos e anos pode ser superado por uma bela primavera, mesmo que temporária. No inverno os jardins adormecem e hibernam como os ursos, mas agora o inverno está mais próximo do seu fim. Imagino as árvores florindo e os passarinhos cantando em árvores que cessem de ser cortadas. Se o amor a si é essencial, não se pode esquecer do amor ao mundo. Talvez seja tempo de recordar o conceito africano de ubuntu no provérbio zulu: “Umuntu ngumuntu ngabantu”- Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas.
Costumo ler esporadicamente seus artigos semanais na Folha de S. Paulo. Faço questão de conhecer as opiniões de quem divirjo e seus textos são um banquete para isso. Você é presidente do Instituto Mises Brasil, incubadora do pensamento dito liberal, que defende “o livre mercado e uma sociedade livre”. Não faço a menor ideia do que seja “livre mercado” na era do capitalismo globalizado e tenho dificuldade em visualizar quem é livre nas sociedades que admitem como naturais desigualdades socioeconômicas obscenas.
Li seu artigo Uma carta eleitoreira, publicada no dia 3 de agosto. Nele, você acusa de oportunista/eleitoreiro o documento gerado na Faculdade de Direito da USP, que defende o Estado Democrático de Direito em reação às agressões continuadas do presidente Bolsonaro às urnas eletrônicas. O documento já conta com mais de 1 milhão de adesões, vindas de todos os cantos do país, representando múltiplos segmentos da sociedade. Uma rara unidade em ambiente notoriamente polarizado.
Sua argumentação é, para dizer o mínimo, inusitada. Diria mesmo que sugere um bolsonarismo que não se assume como tal. Para quem não te leu, divido os argumentos em duas partes.
Na primeira, você duvida das más intenções da Besta em relação às urnas eletrônicas. Textualmente: “Discursos supostamente subversivos do presidente Jair Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas, bem como especulações de que incitará a turba e aplicará um golpe de Estado caso perca as eleições”. Supostamente? Especulações sobre golpe? Não passa dia sem que o Desprezível deixe de afirmar, sem nunca ter apresentado prova ou sequer evidência, que as urnas eletrônicas são vulneráveis à fraude. Para ficar em dois exemplos. Ele disse que é na sala-cofre do Tribunal Superior Eleitoral, maliciosamente chamada de “secreta”, que se decide quem vai ganhar as eleições. Prova disso? Pelo menos um indício sugestivo? Neca de pitibiribas. No 7 de setembro do ano passado, num palanque histérico, ele berrou que só sairia da presidência por vontade de Deus, morto ou preso. Ou seja: reconhecia publicamente que voto não seria meio legítimo para tirá-lo do Planalto.
Na segunda, Trump aparece como vítima de uma acusação da esquerda americana (!) de que teria tentado um golpe. Inacreditável que ainda haja alguém que, apesar da profusão de sons e imagens da invasão do Capitólio e da fartura de evidências coletadas pela comissão que investiga a invasão, duvide do que pretendia Trump. É bom lembrar que o ex-presidente americano também começou a atacar o processo eleitoral muito antes dele acontecer. Bolsonaro já deu a senha faz tempo: o Topete Laranja é seu modelo. Para a quebra da institucionalidade tenta arrastar as Forças Armadas, parte das quais ouviu o canto da sereia.
Você não dedica uma única linha para criticar a ruína do país na gestão bolsonarista, liderada por um mentiroso compulsivo, defensor de tortura, homofóbico assumido, machista juramentado, promíscuo violador da separação religião-Estado e medíocre “analista” do país. Em contrapartida, dedica-se a atacar o que considera ameaças à democracia durante os governos do PT. Tenho muitos reparos a fazer à companheirada. Todos, no entanto, por um olhar de esquerda, sem o moralismo udenista tão caro ao “mercado” e seus barões. Em nenhum momento, e até os liberais honestos reconhecem, houve o clima de terrorismo cultural, ataques sistemáticos a jornalistas, divulgação patológica de informações falsas, desrespeito à independência dos poderes, que viraram, desde 2019, nosso feijão-com-arroz cotidiano.
Finalmente, tenho curiosidade em saber o que pensa um legítimo misesiano sobre que tipo de liberdade concreta há num país que tem 20% da população consumindo sobras de carne, quase 20 milhões de pobres nas metrópoles, 33 milhões de famintos, mais de 150 milhões de pessoas em situação de fragilidade alimentar. Será que o “livre mercado”, o que quer que seja isso, resolve estas aberrações? Será que os “libertários do mercado” concordam com o livre trânsito do vandalismo ambiental, que destruiu, em 2021, 18 árvores por segundo na Amazônia? De que forma justificam seu silêncio frente ao armamento acelerado da população, aos cortes megatônicos dos orçamentos do ensino público e das instituições de pesquisa, às tentativas de asfixiar o pluralismo das manifestações culturais e religiosas?
Talvez, quem sabe, você tenha razão e a carta que veio da USP e se espalhou pelo país seja mesmo eleitoreira. Ela foi eleita por todos os que não ficaram cegos, surdos e mudos frente ao esquadrão celerado que tenta, a olho nu, continuar, através de um golpe, a obra nefasta de destruir o país. Sua falsa neutralidade, senhor Beltrão, tem pernas curtas. Ao dar crédito ao Sete Peles, você avaliza um projeto que dilata, sim, os mercados, mas da miséria, da censura, das arbitrariedades, dos privilégios de classe, da violência. Será este, afinal, o “livre mercado” defendido pelo instituto que você preside?
A liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente (Rosa Luxemburgo)
Tenho pensado no Max Yasgur. Por que será? O que tinha de especial este filho de imigrantes judeus russos, proprietário de uma fazenda nas proximidades de Bethel, estado de New York, produtor de leite e derivados? Republicano, defendia a guerra do Vietnã. Apesar disso, recebeu com simpatia os organizadores do que viria a ser um dos marcos da minha geração.
Max alugou parte de seu terreno para a realização do Festival de Woodstock, em agosto de 1969, que exibiu artistas claramente antiguerra, como Jimi Hendrix (a execução do hino norte-americano, com efeitos de guitarra que simulavam bombas, metralhadoras e gritos de desespero, virou um clássico), Joan Baez, Country Joe McDonald e Arlo Guthrie. Vizinhos, preocupados com a presença de “milhares de hippies”, reagiram exortando a um boicote aos produtos de Max, que não se intimidou.
Até aqui, apenas uma história. Continua a dúvida: por que o fantasma de Max Yosgur desembarcou nos meus pensamentos? Acho que não se trata apenas de evocar o dono de terras que viraram solo sagrado na história do rock. Ele teve, essa a chave explicativa, uma atitude que, vista hoje, nos solavancos da intolerância no debate de ideias, parece inverossímil. Como pode um sujeito acolher tanta gente que defende posturas, estilos de vida e visões de sociedade tão diferentes das dele? Com Max, podia. Ele não apenas recebeu a multidão de jovens que ia viver “três dias de paz e música”, mas, ao perceber que a comida tinha acabado logo no segundo dia do festival, doou todo o seu estoque de leite e iogurte para os famintos. Nunca tinha sequer visto um baseado, se pudesse pegaria em armas para combater os comunas de olhinhos puxados, mas lá estava, convivendo com os diferentes, falando com eles (o pequeno discurso que fez no palco do festival é uma pérola). Isso deve significar alguma coisa.
Consigo pensar em, pelo menos, dois casos brasileiros em que o conservadorismo de uns não impediu o contato com o progressismo de outros. O primeiro vem do advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto. O doutor Sobral. O Senhor Justiça. Durante a ditadura do Estado Novo, ele, católico, conservador e abertamente anticomunista (em 1964, apoiou o golpe contra Jango), defendeu com empenho os comunistas Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, presos em isolamento total. Berger foi barbaramente torturado na prisão pelos esbirros de Filinto Müller. A peça de defesa, inusitada, apelou para a Lei de Proteção aos Animais. “Esta lei diz que nenhum animal pode ser posto numa situação que não esteja de acordo com sua natureza. Um cavalo não pode ficar dentro de uma baia a vida inteira, tem que sair, galopar, isto é da sua natureza. O Homem também não pode ficar numa situação dessas, contrária a tudo que há na sua natureza e na sua psicologia”.
O outro caso vem também da década de 1930 e se refere à BIBSA – Biblioteca Scholem Aleichem, entidade judaica progressista localizada na antiga Praça Onze. Os ativistas da biblioteca, que funcionava como centro social e cultural, eram constantemente vigiados pela polícia política do ditador Vargas. Naquelas circunstâncias, pertencer à diretoria da entidade era um risco nada desprezível. Eis que surgiu Saádio Lozinsky. Religioso fervoroso, sem nenhum verniz progressista, mas consciente do papel agregador da BIBSA, aceitou presidi-la. Cansou de ser convocado pela repressão para “prestar esclarecimentos”. Usava de paciência para driblar o peso da censura e manter as atividades da biblioteca.
Houve um episódio pitoresco envolvendo Lozinsky e Prestes. Ele foi narrado por Abraham Josef Schneider (Boletim ASA número 48, setembro/outubro de 1997). “Certo dia, Lozinsky manifestou desejo de, pessoalmente, homenagear Luiz Carlos Prestes, a quem eu já conhecia por ter confeccionado dois ternos que seriam usados pelo Cavaleiro da Esperança, eleito senador da República após o Estado Novo. Na condição de secretário da BIBSA, marquei um encontro na casa de uma pessoa amiga, onde Prestes teria uma grande surpresa. Lozinsky havia traduzido trechos dos Salmos, que leu após colocar a quipá na cabeça do líder comunista. Em seguida, visivelmente emocionado, ergueu as duas mãos, abençoando-o. Prestes, ateu convicto, e Lozinsky, homem extremamente religioso. Naquele momento inesquecível, prevaleceu o respeito entre duas pessoas de valor inquestionável que, de formas diferentes, sonhavam com uma sociedade justa e fraterna”.
Recupero estes fatos como instrumento para lembrar que o diálogo entre diferentes é não só possível, mas enriquecedor. Nem todos os conservadores são brucutus insensíveis, nem todos os progressistas são impecáveis democratas, infalíveis portadores do futuro. Os caminhos para o diálogo foram corrompidos por uma concepção equivocada: a de que adversários políticos devem ser cancelados, deletados, incinerados. Na melhor das hipóteses, ignorados. Claro que não me refiro aos fascistas, por natureza inconversáveis, mas aos conservadores esclarecidos. Lembro do saudoso Leandro Konder. Ainda no tempo áspero da ditadura, ele sugeriu publicamente, nas páginas do JB, um debate sobre O Capital, de Marx, com os economistas do regime (Simonsen, Delfim, Campos). Claro que o desafio não foi aceito, mas lá estava o caminho correto. Debate entre iguais costuma adernar para o monólogo. Um bocejo.