O destino da humanidade

O destino da humanidade

A última entrevista do conhecido sociólogo Zygmunt Bauman, em 2017, foi sobre a utopia. Partiu da metáfora da era pré-moderna, a do caçador que defende os terrenos de sua ação acima de tudo. A segunda metáfora, já na era moderna, é a do jardineiro que conhece as plantas, os inços que devem ser extirpados e tem em sua mente o projeto de um jardim. Os produtores de utopias são conhecidos como jardineiros, os humanistas, já os que só visam lucros e atacam a natureza são os caçadores. Não se faz poesia, não se pensa utopia, sem metáforas e metamorfoses, como se pode ler no livro “Furos no futuro: psicanálise e utopia”, do psicanalista amigo Edson Luiz André de Sousa. Um cético aqui poderia ler com descaso a palavra utopia, mas Edson alerta citando Cioran: “…uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e consagrar-se a ela está ameaçada de esclerose e de ruína”.
O problema da utopia está, em parte, nos dicionários que associam a palavra a uma sociedade do futuro, um caminho a chegar, um sonho realizável e não um caminho incerto a percorrer. Não por acaso, o escritor José Saramago escreveu que desejou eliminar a palavra utopia, pois associou ela a uma sociedade perfeita. Utopia é um significante com muitos significados e tem a ver não só com o futuro, mas também com o passado. Uma das primeiras lições que aprendi com o Edson foi sobre um novo sentido do vetor para pensar a utopia como indo do futuro para o passado. A utopia como crítica social, como contrafluxo, o passado em constante reconstrução através de novas narrativas.
Há uns vinte anos, Edson decidiu construir pontes entre a psicanálise a arte e a utopia. No primeiro capítulo do seu novo livro escreve que o inconsciente é uma espécie de fonte utópica e como a linguagem abre para os caminhos rebeldes, reinvenção da vida. Todo ato de criação traz em si uma dimensão utópica, e assim os três temas – arte, utopia e psicanálise – vão se interligando. Edson é um engenheiro de pontes imaginárias, para pensar a pessoa na sua singularidade, assim como reflete sobre a sociedade na qual vivemos. No livro “Múltiplo interesse da psicanálise”, de 1913, Freud estabeleceu diferentes relações entre a nova ciência e a linguagem, a filosofia, a biologia, a psicologia, a cultura, a arte, a sociologia, a pedagogia. Agora o livro do Edson acrescenta a utopia.
A metáfora do jardineiro teve sua origem não só na modernidade, como disse Bauman, mas no velho Tanach, também conhecido como Velho Testamento da Bíblia. O profeta Isaías escreveu em 2,4: “das suas espadas forjarão relhas dos arados, e das suas lanças, foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem daí por diante se adestrarão para a guerra”. Foi o primeiro sonhador pacifista da humanidade e, não por acaso, na tradição judaica, se define que: “a pátria do judeu é a utopia”. O ideal messiânico é um sonho milenar, um sonho dos profetas que chegou a Hilel, o sábio dos sábios, e daí a Jesus Cristo.
A existência da utopia requer uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de melhorar o mundo. Uma reforma ameaçada pela destruição por furos que podem ser de tiros, como os que mataram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips. Cada pessoa decide se está com os caçadores e a destruição ou com os jardineiros, e a utopia, ou ainda se é indiferente. Diante da crueldade das distopias, o livro “Furos no futuro” abre espaço para uma ética do desejo que possa responsabilizar cada um por suas escolhas, como se pode ler no instigante capítulo “O que o poder não pode? O inconsciente utópico”. Li e reli o livro da utopia e a psicanálise, e na releitura estive mais atento aos encontros do poder do inconsciente, o poder da poesia e o poder da utopia.
Na última entrevista de Jean-Paul Sartre, foi perguntado a ele se ainda tinha esperança; ele respondeu que sim, mas acrescentou que a esperança devia ser construída. Algo semelhante se pode dizer sobre o destino da humanidade, da utopia, que seguirá sendo construída, mesmo com dificuldades, pelos laços de amor.
P.S. Fiquei sabendo pelo Edson que seu livro “FUROS NO FUTURO” segue vendendo muito bem e assim também o nosso IMAGINAR O AMANHÃ. MUITO OBRIGADO GENTE QUERIDA. Nos veremos dia dois de outubro ou antes ou depois. Nossas reuniões para conversar sobre os livros irão ocorrer em presença entre a primavera e o verão nas instiuições, nas praças e no Jardim Botânico. Imaginemos, façamos furos no amanhã sim!
Proibindo

Proibindo

Quando li Maus, muitas luas atrás, deu uma sensação de desconforto. Art Spiegelman, filho de sobreviventes do Holocausto, desenhou em quadrinhos uma história baseada em conversas com o pai e ambientada, essencialmente, no universo sombrio dos campos de concentração nazistas. Todos os personagens, e aí o desconforto, tinham corpos humanos e rostos de animais. Judeus eram ratos, nazistas eram gatos, poloneses não-judeus eram porcos. A originalidade da abordagem rendeu a Spiegelman um inédito prêmio Pulitzer para quadrinhos, em 1992.

A ousadia do quadrinista não foi sem custos. Na Polônia, exemplares do livro foram queimados na frente da casa do editor. Na Rússia de Putin, foi banido sob a alegação de que trazia uma suástica na capa(!). No início deste ano, uma junta escolar no estado do Tennessee vetou-o nas escolas públicas, alegando que reproduzia cenas de nudez e usava palavrões.

Sei que o genocídio judaico na Segunda Guerra Mundial é terreno delicado. O sofrimento de milhões de pessoas criou uma espécie de autocensura, que costuma submeter quem deseja usá-lo como tema literário, cinematográfico ou de obra de arte, a um padrão estético conservador, retilíneo, inegociável. Filmes como A vida é bela e O trem da vida, apesar de não terem finais felizes, foram duramente criticados por establishments variados pois não seguiam os modelos de praxe. A imaginação é substituída pelo olhar monocromático.

Spiegelman menciona o caso do Tennessee como indício de que os Estados Unidos estão na fase terminal de uma guerra cultural. Os inimigos principais, ocupando o lugar dos judeus na era nazista, agora são imigrantes, negros e homossexuais. “São tempos muito assustadores nos Estados Unidos. Nunca vivi nada tão regressivo”, observou, numa entrevista dada à Folha de S. Paulo.

Lendo a entrevista, lembrei-me de uma história ocorrida 56 anos atrás no sul dos Estados Unidos. Um clássico casamento entre piromania, ignorância e fúria censória. John Lennon havia declarado, na Inglaterra, que “nós (os Beatles) somos mais populares do que Jesus neste momento”. Foi o suficiente para várias rádios norte-americanas convocarem os jovens a fazerem fogueiras com os discos dos Beatles. As brasas da intolerância arderam nos neurônios juvenis. George Harrison, com seu jeito discreto, não resistiu e ironizou: “Não tem problema. Para queimar os discos, eles antes precisam comprá-los”.

Somos pós-graduados em censura. As várias ditaduras fartaram-se de mutilar textos, calar vozes, rasgar obras de arte, impugnar imagens. Durante a última ditadura, aquela festejada pelo Salnorabo (obrigado, Sérgio Rodrigues), os registros renderam volumes de Febeapá. Foram censurados jornais, revistas, novelas, músicas, peças de teatro, filmes, livros. Em Niterói, a polícia apreendeu cópias da encíclica papal Mater et Magistra. “Material subversivo”. No Teatro Municipal de São Paulo, a peça Electra foi considerada “subversiva” e agentes do DOPS tentaram prender Sófocles. Falecido em 406 a.C. A Delegacia de Costumes de Porto Alegre mandou apreender o livro O amante de Lady Chatterley. E por aí vai.

Estou terminando de ler um pequeno livro do argentino Alberto Manguel, sobre bibliotecas em geral e livros em particular. Refletindo sobre a importância, ou falta dela, da literatura nas sociedades, ele faz uma ponderação importante: “É claro que a literatura pode não salvar ninguém da injustiça, das tentações da cobiça ou das desgraças do poder. Mas algo nela deve ser perigosamente eficaz, já que todo governo totalitário e todo alto funcionário ameaçado tentam eliminá-la queimando livros, proibindo livros, censurando livros, aplicando impostos sobre livros, limitando-se a fazer de conta que respeitam a causa da alfabetização, insinuando que a leitura é uma atividade elitista”. Soa familiar? Traz à tona personagens como a Delirante das Goiabeiras, o Pastiche de Goebbels, o Kafta Vagabundo, o Tchutchuca Neoliberal?

Na nossa guerra cultural, e não tenho dúvidas de que estamos metidos numa, enfrentamos um inimigo organizado, engajado, preparado para ficar entre nós por um longo tempo. Domina a fronteira digital, onde se jogam batalhas decisivas no confronto. Ataca o conhecimento, a ciência, o direito à dúvida, o saber trazido pela memória acumulada nos livros. O sociopata sintetizou muito bem o obscurantismo em 2020, quando disse, a respeito dos livros didáticos: “Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”. Pensar dá trabalho. Tarefa impossível para quem dá sinais evidentes de déficits cognitivo e civilizatório.

Marcos Nobre, professor da Unicamp, acaba de publicar livro sobre o governo atual. Concordo com algumas de suas conclusões. Reproduzo duas delas. “O campo democrático continua jogando amarelinha eleitoral enquanto Bolsonaro monta o octógono do MMA do golpe” e “Perdendo ou ganhando a eleição em 2022, o bolsonarismo já ganhou. Derrotá-lo será tarefa para muitos anos”. A encrenca não termina, positivamente, em outubro.

Abraço. E coragem.

Sonhos alegres

Sonhos alegres

Meu sonho nesta quarta de madrugada tinha uma cena em que eu via o Mico tocando piano. Mico era como os familiares e amigos se referiam ao médico escritor Moacyr Scliar, e ele gostava de ser assim chamado. Creio que nunca tocou piano, mas no sonho era ele o pianista, e o resto diurno poderia ser que na noite anterior eu tinha lido numa rede social uma postagem do professor José Vicente Tavares sobre o amigo escritor. Para famílias de imigrantes judeus, para todo o Bom Fim, ter um escritor era motivo de orgulho. O piano foi o primeiro instrumento que conheci, e lembro da primeira música que tocou meu coração, sobre a qual já escrevi, que foi “Ai Lili Ai Lili ai Lou”. Se Scliar não tocou piano, tocou a minha alma com suas palavras, como as de milhares de leitores aqui e no mundo. Tocar a alma lembra Shakespeare no seu “Hamlet”, no III ato, cena 2. Seus amigos estavam desconfiados de que Hamlet sabia algo mais sobre como seu pai fora assassinado. E ele percebe que seus velhos amigos desejam extrair dele seus segredos. Então se escuta som de flauta, e o príncipe propõe a um deles que a toque, e um diz não saber, mas Hamlet insiste, dizendo que é fácil. Frente a nova recusa, exclama: “Pensais que sou mais fácil de tocar que uma flauta?”. Tocar a alma, ser tocado em sua alma é o que ocorre nas relações humanas, na vida do analista e analisando. Tocar a alma com suavidade e delicadeza é uma arte para se aprender sempre.
Foi alegre vê-lo tocando piano no sonho, e eu já tinha ido dormir alegre com o sentimento de que o mundo estava se dando conta do perigo que corre a frágil democracia brasileira. Senti a falta do Scliar na luta pela vacina contra o negacionismo no país, foi uma vergonha e tristeza pelos doentes e mortos. O País está vendo sua Amazônia sendo destruída, gente sendo assassinada, a fome voltou e atinge mais de trinta milhões de brasileiros. Entretanto, começa haver um sentimento de alegria com o dia dois de outubro, a festa da democracia que está sendo ameaçada.
Segui pensando no sonho, em que o Mico tocava piano, foi um visitante noturno, que ressuscitou, e fui dormir imaginando que a esperança do país estava sendo ressuscitada. Há um esforço de recuperar a alegria do sonho, não só noturno, como o sonho de um país mais justo. Acordei às quatro da madrugada e anotei logo a frase: “Eu vi o Mico tocando piano”.
Sempre amei os sonhos, sejam os sonhos noturnos como os diurnos, e poucos livros são mais fascinantes que “A interpretação dos sonhos”, de Sigmund Freud, que tinha em José do Egito uma referência. O José dos sonhos do Faraó foi uma das inspirações de Freud, e nesse livro se estuda o primeiro modelo de aparelho psíquico, da realidade psíquica, em que psique é alma em grego. Admiro os sonhadores, e o Mico sonhou sempre com um amanhã melhor na saúde pública, numa saúde melhor para o povo. Integrou movimentos judaicos socialistas como várias pessoas do Bom Fim, defendeu a liberdade e a democracia, assim como foi adversário das ditaduras. Em muita coisa segui seu exemplo, bem como de minhas irmãs, e aprendi desde cedo a gostar de debates, a conviver com o contraditório.
Hoje a nação dilacerada está cansada de guerras, de ser dividida pelo ódio, de tantos mortos e pesadelos. É hora de cantar e dançar com a volta de sonhos alegres.
Que culpa eu tenho?

Que culpa eu tenho?

No dia 27 de novembro de 1095, durante o Concílio de Clermont-Ferrand, o Papa Urbano II convocou a cristandade para o que ficou conhecido como a Primeira Cruzada. Tratava-se de organizar expedições militares para expulsar os muçulmanos que ocupavam Jerusalém e liberar o túmulo de Cristo. “Deus o quer”, disse o Papa.

Multidões abandonaram pertences e famílias e se dirigiram a Jerusalém, ungidas como “vingadores de Deus” e encarregadas de varrer os infiéis. No caminho, e é bom lembrar que aquele era um tempo de comunicações precárias, religiosos de pés descalços interpretaram à sua maneira as palavras de Urbano II e começaram a pregar o ódio contra todos os infiéis, ou seja, os não-cristãos. Cronistas da época relatam massacres de judeus que se recusavam a converter-se ao cristianismo. Ricardo de Poitiers, por exemplo, escreveu: “Os cruzados exterminaram em numerosos massacres os judeus em quase toda a Gália, à exceção daqueles que aceitaram a conversão. Diziam, com efeito, que era injusto deixar viver em sua pátria os inimigos de Cristo, já que haviam pegado em armas para expulsar os infiéis”.

O abade francês Pedro de Cluny repercutiu assim o ódio contra os “infiéis”: “De que serve ir ao fim do mundo, com grande perda de homens e dinheiro, para combater os sarracenos, quando deixamos permanecer entre nós outros infiéis que são mil vezes mais culpados em relação a Cristo do que os maometanos?”.

No fim das contas, acabava sendo um discurso que atravessou os tempos: a luta do Bem contra o Mal, sendo o Mal tudo que não coincide com determinada e arbitrária concepção de vida, religião, modo de organizar a sociedade. O Mal se converte, num processo inexorável, em abominação absoluta que deve ser exterminada. Tudo começa com a desumanização do Outro, evolui para a exaltação das massas e termina com a entronização da Morte. Com o Mal, repetiram tiranos, espertos e oportunistas de coturno variado séculos afora, não há diálogo possível.

Para ficar em poucos exemplos sobre o Mal absoluto, cito três acontecimentos marcantes do século XX. Em todos, o comunismo foi transformado em caricatura e serviu como fachada fraudulenta para o fortalecimento dos poderosos de ocasião. Em fevereiro de 1933, o Reichstag foi queimado criminosamente. Hitler acusou os comunistas pelo incêndio, abrindo caminho para sedimentar entre os alemães a imagem dos “ardilosos e antigermânicos vermelhos”. O PC alemão, que tinha força eleitoral e penetração popular, foi abatido por perseguições ferozes e acabou proscrito. Os comunistas alemães, ombreados aos judeus, foram transformados no Mal absoluto que devia ser eliminado.

Pulando algumas décadas, vamos para a Indonésia. Em 1965 e 1966, sob o manto do anticomunismo, militares e bandos civis mataram cerca de 1 milhão de pessoas. Vários milhões foram presos, torturados e levados para campos de concentração. Os assassinos tiveram apoio ostensivo dos Estados Unidos, com olho gordo no petróleo indonésio. Os massacres foram facilitados pela propaganda oficial, que mostrava os comunistas como seres desprovidos de humanidade. Novamente a fantasia do Mal absoluto, aqui transformando o que deveria ser luta política em guerra de extermínio.

O que dizer do macartismo, nos anos 1950? O Comitê para Investigação de Atividades Antiamericanas no senado norte-americano denunciou milhares de cidadãos, acusando-os de comunismo ou simpatia por ele. Encarnação do Mal absoluto. Muitos foram demitidos e banidos de sua atividade profissional, especialmente na área artística. Assistidas hoje, as imagens do senador Joseph McCarthy, fanfarrão medíocre no papel de Torquemada, parecem ridículas, mas significaram a destruição de muitas vidas.

Criminoso não é somente quem aperta o gatilho, desembainha a peixeira ou desfere socos megatônicos. Os que estimulam a violência por palavras e/ou omissão premeditada são igualmente culpados. O discurso de ódio do atual presidente da República, que não se cansa de repetir que estamos em plena luta do Bem contra o Mal, amplia o espaço para que todo tipo de fanático e desequilibrado se sinta à vontade para descarregar seus instintos bestiais.

Quando, ao reagir ao assassinato de um militante do PT em Foz do Iguaçu por um bolsonarista, o presidente pergunta “O que eu tenho a ver com esse episódio?”, a resposta é simples: tudo. Reconheço que não deve ser fácil para alguém com claro déficit neuronal e civilizatório compreender esse tipo de situação. O Parasita Esquizoide não consegue entender como sua retórica violenta produz violência. Finge desconhecer que seus mais de 20 atos que facilitam a compra e posse de armas, seus elogios à ditadura e à tortura, sua absoluta incapacidade de reconhecer a legitimidade das diferenças, seu destempero recorrente contra instituições democráticas, acabam naturalizando ideias e palavras intolerantes. Daí para o ato violento a distância fica cada vez menor. Palavras, reconheça ou não o Obtuso Mor, produzem consequências.

Comecei falando de Cruzada e termino retornando ao tema. Na recente Marcha para Jesus, o beócio clamou, novamente, por uma “guerra do Bem contra o Mal”. O apóstolo Estevam Hernandes, idealizador do evento, declarou, sem ruborizar, que seu ilustre convidado é um “homem escolhido por Deus”. Lembrei de imediato de uma ejaculação verbal do beócio, em 2017, dizendo que o Brasil é um Estado cristão e que ou as minorias se adequam a isso ou desaparecem. A promiscuidade entre religião e Estado, “Deus o quer”, levou a razzias assassinas contra judeus e não-cristãos no século XI. Aonde levará neste assustador século XXI?

Abraço. E coragem.

Deu no poste

Deu no poste

O Jogo do Bicho é algo tão entranhado na cultura brasileira, que deveria ser considerado patrimônio nacional, assim como o samba, o acarajé e as rodas de Exu. Quem nunca sonhou com uma pessoa desagradável e não fez sua fezinha na cobra? É algo tão presente no cotidiano brazuca que tem até lendas familiares. Minha avó materna encontrava-se em situações de apuros financeiros e viu no seu quintal um cachorro correndo atrás de uma borboleta. Apostou o pouco que tinha, valendo-se da máxima brasileira, já que estou fufida, fudida e meia e tirou dinheiro grande, salvando-se naquele momento de um sufoco. Ou a avó de amiga que morreu, o marido da prima dela jogou o número da sepultura e acertou na cabeça. Hoje você pode carregar o seu pré-pago também nos pontos de jogos, todas as operadoras. São muitas facilidades. Tantas que minha filha outro dia ficou boquiaberta ao saber que era ilegal. Perguntou-me chocada: ”Vc tá me falando que aquela tiazinha maneira lá da banquinha da esquina é contraventora?”  É daquelas coisas que só no Brasil mesmo. Sua origem parece até pueril, criada pelo Barão de Drummond em 1892, para salvar o antigo Zoológico do Grajaú. O apostador escolhia ente 25 animais do zoológico numa loteria. Entre idas e vindas, acabou por cair na ilegalidade em 1941, por meio da Lei de Contravenções Penais que proibiu a realização de todos os jogos de azar no país.

Claro que a jogatina não parou. O que houve foi uma competição animalesca entre os banqueiros, para usar uma palavra que orne com a situação. O objetivo era concentrar os pontos de jogos em torno de alguns donos. Lei da Selva. Pistolagem rolando solta. Até que nos anos 60 coube a Castor de Andrade botar ordem na putaria. Aí entra Antonio Salamone. Esse senhor nada mais era que um dos chefes da temida Cosa Nostra, da Itália. Em 63, depois de sua organização matar 7 carabinieris, num atentado a bomba em sua terra natal, Salamone veio se refugiar no Brasil. No Rio conheceu Castor, ainda na flor de seus 36 anos e dessa aliança surgiria a máfia tupiniquim. Salamone ganhou um emprego nas Tecelagens Bangu, negócio de fachada da família (os pais de Castor estavam no jogo do bicho desde os anos 40) e de quebra recebeu a cobertura da ditadura brasileira. Por influência de Castor, apesar de condenado nos EUA e na Itália, foi-lhe concedida, pelo Ministro da Justiça Armando Falcão, a naturalização brasileira. Como uma mão lava a outra, com seu novo amigo Castor absorveu todos os códigos que regem a máfia italiana, sua forma organizacional e profissionalizou-se no metier. Sob sua liderança, estabeleceu a Cúpula do Jogo do Bicho, organizada legalmente pela LIESA.E foi assim que os desfiles de escola de samba se tornaram espetáculos luxuosos, grandiosos, caríssimos e, claro, uma boa forma de lavar dinheiro.

Não sofreram repressão da ditadura, pelo contrário, aliaram-se a ela. Três nomes sobressaem aí nessa história:  Castor, Abrãao Davi e Capitão Guimarães. Esse último, oficial da AMAN, participou ativamente das torturas e morte de presos políticos, tendo como comparsas os coronéis Paulo Manhães e Freddie Perdigão Pereira. Esses dois ostentam em seu currículo a articulação da terrível Casa da Morte, em Petrópolis. Durante a fase mais repressiva do regime, sua vida se baseava em caçar e matar os “subversivos”, recebendo até elogios de Costa e Silva, ministro de Guerra do apescoçado General Castello Branco, por seu valoroso trabalho. Concomitantemente, extorquia contrabandistas, era o líder da quadrilha, e por tal motivo foi afastado do exército em 1976.O fato é que com a abertura iniciada por Geisel e concluída pelo equino General Figueiredo, os militares da linha dura começaram a se sentir entediados, diria mesmo abandonados e sem função. Então o famoso tio Patinhas, bicheiro que recebeu esse nome por ser uma espécie de banco central da galera do bicho, abriu caminho para Guimarães. Em 1979 fechou-se a aliança e Guimarães teve uma carreira meteórica. Levou a sério o plano de “virar capo”. Ambicioso, sua primeira providência foi matar o próprio sócio. Importante falar que pelas suas mãos fortaleceu-se o elo entre o Jogo de Bicho e o Esquadrão da Morte. Sua ligação com o Esquadrão vem dos tempos da Scuderie Le Cocq, tanto que ainda militar ajudou o bandido galã (sim, temos isso) Mariel Mariscot, o Ringo de Copacabana, um dos líderes do grupo de extermínio, a fugir da cadeia. Ironicamente, anos depois, por suas mãos e com o aval da Cúpula, mandou executá-lo.  O fato é que de todos, o que tinha uma visão neoliberal, de aproveitar todas as oportunidades, era Guimarães. Por ser oficial de Intendência, conhecedor de administração, logística (que vergonha ele deve ter do Pazuello) e contabilidade, ele acabou com a desorganização e o improviso. Sua chegada inaugurou no jogo a adoção de procedimentos empresariais e se informatizou.

Aqui conseguimos traçar, ainda que de forma grosseira e superficial, um paralelo entre as milícias e o jogo de bicho. A milícia tem sua base nos grupos de extermínio, mas não podemos negar que possui aspectos estruturais e de organização sofisticados. Segundo o sociólogo e autor do livro Dos Barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense (2003), José Claudio Souza Alves,” a impunidade dos grupos milicianos é decorrente da sua própria penetração nas esferas do poder público. Ou seja, o Estado não foi corrompido, nem deturpado, nem sequestrado. Não é uma ausência de Estado. O Estado é o organizador, sendo uma estrutura atuando desde a década de 1970 de maneira intocada e com o surgimento das milícias amplia-se a sofisticação da dominação econômica na atuação de tais grupos. Os modos de operar o poder se sustentam em bases do controle territorial e econômico de certas atividades lucrativas. Entretanto, a forma de atuação não se dá de maneira homogênea entre estes grupos e a diversificação dos modos de operacionalizar e controlar as atividades em seus territórios adquirem uma discricionariedade contextual a partir dos objetivos e interesses dos agentes inseridos no poder “. A relação do jogo de bicho com a milícia é tão imbricada que basta falar das máquinas de caças níqueis. Esse mercado foi introduzido no Brasil pelos mafiosos da Itália, ideia comprada por Castor de Andrade, e hoje estão sendo alugados pelos milicianos. A questão territorial, além da crescente diversificação dos negócios, deixa bem explícito esse parentesco.

Foi pensando nessa correlação, que lembrei de uma triste coincidência. O bicheiro Miro, também da cúpula, deixou o controle de tudo nas mãos de seu dileto filho, Maninho. Aquele que em 1986 perseguiu o carro do filho do Tarcisio Meira, porque cismou que ele estava olhando acintosamente para sua mulher num restaurante, efetuando disparos que acabaram pegando no amigo de Tarcisinho, que estava no carona, deixando o rapaz paraplégico. Maninho era vizinho de porta do ex-marido, então namorado, da minha prima. E Grelha, o rapaz que levou o tiro, colega de sala e amigo da minha outra prima, irmã da primeira. O bicheiro conheci de boa noite ao cruzar no elevador, o Grelha conheci de churrascos na minha prima. Sim, coisas malucas que o destino me traz.  Em 2004 Maninho foi metralhado ao sair de uma academia. E aí a coisa toma rumos de novela que envolve disputa por caça-níqueis, duas gêmeas em guerra, uma enorme herança, um ex-cunhado, um pecuarista, e lá vem história…

Maninho teve três filhos. Um, assassinado em 2017 numa história mal contada de um sequestro. E duas gêmeas, Shanna (vamos combinar que ter um nome desses e não sofrer bullying na escola, só sendo filha de gangster) e Tamara. Em 2019 Shanna sofreu um atentado. Estava indo a um centro de beleza no Recreio, quando foi atingida por dois tiros, mas conseguiu se defender, abaixando-se no carro blindado. Acusou Bernardo Bello Barbosa, seu ex-cunhado, ex-marido de Tamara, controlador de mais de 14000 máquinas de caça níqueis entre outros negócios, de ser o mandante. O rolo entre a Ruth e a Raquel do Jogo de Bicho é longo, envolve o inventário do pai, em que Shanna foi nomeada inventariante, mas a irmã acusa- a de ter tentado passá-la para trás. O tal ex-cunhado também é acusado de matar o marido de Shanna ,Zé Personal, em 2011, no Centro Espírita Seara do Caboclo Cipó, na Praça Seca. Aos 39 anos ele foi alvejado por três homens encapuzados, enquanto se consultava com um Pai de Santo. Sério gente, eu não seria capaz de inventar essa história. Em 2020 morre Bid, irmão de Maninho, na Barra da Tijuca, voltando de um evento de uma escola de samba. Seu carro foi alvejado por mais de 40 tiros de fuzil. Em 2009 ele havia denunciado a própria sobrinha, a menina Shanna, de tê-lo ameaçado e de ter ordenado a morte do pecuarista Rogério Mesquita, morte essa orquestrada pelo chefe de segurança da moça:  Adriano da Nóbrega. E é aí que quero chegar…

Adriano quando criança passou um tempo na Zona Norte do Rio, com a mãe e em Cachoeiras de Macacu, para onde seu pai se mudou. Cresceu andando a cavalo no haras que seu pai era empregado, cujo dono era…Maninho. Quem cuidava do local era o pecuarista Rogério Mesquita, braço direito do bicheiro, a quem Adriano chamava de padrinho e que o chamava de afilhado. Sempre foi louco por armas, então ao invés de se dedicar a contravenção, já que vivia cercado por ela, preferiu ingressar na polícia. Em três anos entrou no BOPE. Gostava tanto do seu trabalho, que mesmo quando não havia uma ação programada, ele fazia por conta própria. Ele pegava uma Kombi, chamava alguns praças, enchia de armamento e invadia a favela na madrugada, sem alarde. Ações que invariavelmente terminavam em mortes. Ah sim, era tido na Corporação como um Herói.  Recebeu muitas honrarias, mas em 2003 se viu envolvido num esquema de suspeitas e acabou sendo saído do Grupo de Operações Especiais. Segundo o Jornal Globo, “Foi então transferido para o batalhão do bairro de Olaria, na Zona Norte, e lá seu currículo foi oficialmente manchado. O que antes eram apenas suspeitas de abusos e torturas contra moradores de comunidades se provaram reais. O Grupamento de Ações Táticas (GAT) da unidade que o capitão comandava ficou conhecido como “guarnição do mal” pelas favelas do bairro. Os policiais sequestravam, torturavam e extorquiam moradores em troca de dinheiro. Uma investigação da PM identificou pelo menos três vítimas do grupo chefiado por Adriano em 2003. Uma delas era Leandro dos Santos Silva, de 24 anos, que foi executado logo depois de denunciar que havia sido agredido.” Foi preso, condenado, deixou de receber a admiração dos colegas. O mesmo porém não se pode dizer dos políticos. Era endeusado pela família Bolsonaro. Recebeu naquela época do 01 a Medalha Tiradentes e Bozo, num discurso na Câmara, rasgou-se em elogios ao policial, chamando-o de “brilhante oficial injustiçado”, afinal seu único crime foi torturar moradores do morro.  Foi na prisão que ele se iniciou de fato na vida do crime. Com a morte de Maninho, passou a ser o chefe de segurança da família do bicheiro. Nessa época que pediu ao colega de Batalhão, o Queiros, que arrumasse um trabalho para a mãe e para a mulher no gabinete do Flavio Bolsonaro, no esquema de Rachadinha. Solto em 2006, levava uma vida dupla. Era policial, mas trabalhava para o então marido de Shanna, o Zé Personal, aquele que foi assassinado no centro espírita. Zé Personal pediu que ele matasse o gerente do Haras, aquele a quem ele chamava de Padrinho e ele topou. A emboscada não deu certo, Mesquita entregou-o, mas acabou sendo morto em 2009.  A partir daí Adriano resolveu se manter por contra própria, virou pistoleiro profissional e fundou o Escritório do Crime. Ganhava 250 mil por cada crime encomendado que desse certo.  Só foi desligado da polícia em 2014. E o resto a gente já sabe. Viveu um bom tempo na clandestinidade, acabou sendo assassinado pela polícia na Bahia e imortalizou-se no post de lamento de Flavio Bolsonaro falando do amigo “brutalmente assassinado”. Só me resta terminar essa explanação com uma frase do velho Castor (que perto do Bozo parece um lord): “A Contravenção tem um princípio. Ela é governo e não tem culpa que o governo mude toda hora”. E sim, o Jogo de Bicho e a Milícia dançam um samba bem juntinho e compassado.

E se não agora, quando?

E se não agora, quando?

As três perguntas talmúdicas de Hilel há dois mil anos seguem vigentes. O sábio dos sábios é visto por alguns teólogos cristãos como alguém que influenciou Jesus Cristo. Já escrevi sobre as duas primeiras perguntas: “Se eu não for por mim, quem será por mim?” e “Mas se eu for só por mim, o que será de mim?”, perguntas existenciais. Uma é o quanto cada um deve aprender a se amar, e a outra é o quanto devemos, como seres sociais, amar para não adoecer. Já a terceira pergunta, “E se não agora, quando?”, é uma pergunta inquietante. Muitas vezes não pode ser agora e não se sabe quando, como as perguntas que a gente faz de quem é ou de o quanto pode mudar. Ou se vão cessar comportamentos sofridos repetidos nos quais a gente se desvaloriza, se maltrata.
Já nessa encruzilhada que se vive aqui, talvez haja dois caminhos principais: um é apoiar o desprezo à Justiça, ao respeito, à dignidade, indiferença à fome, a saúde, a educação, a democracia. O outro é o da liberdade, do respeito aos Três Poderes, mesmo com críticas, a luta pela ecologia, a importância dos Direitos Humanos – como o antirracismo –, e conviver com o contraditório. Um dos maiores sintomas da doença crônica que assola a História do Brasil é a “genealogia da crueldade”, tanto individual como social. Genealogia deriva do grego: γενεαλογία, composto de γενεά- (genea-), origem, nascimento, e -λογία (-logia), estudo, conhecimento. Creio que a pergunta “E se não agora, quando?” envolve conhecer para agir, e aí está o X da questão.
“Que país é esse?” é uma pergunta que muitos têm escrito desde o século passado até hoje, como o recente: “O Soldado Antropofágico” – escravidão e não pensamento – no Brasil do psicanalista Tales Ab’Saber(lançamento em Porto Alegre dia 13/08). A História brasileira é uma história de crueldades assustadoras com os indígenas e negros em especial. Trezentos e cinquenta anos de escravidão fizeram do Brasil um país marcado por uma doença crônica de violências crescentes dos prepotentes do País. São muitos os episódios mortíferos: genocídio dos indígenas, a guerra dos Palmares, a de Canudos, a do Contestado, as ditaduras do país. Sem esquecer jamais o assassinato dos defensores das florestas até o cotidiano de assassinatos dos jovens negros. Aliás, José Bonifácio, o Patrono da Independência, defendeu em 1823 a extinção da escravidão, definindo-a como um “cancro social” e que o mal estava feito. É indispensável conhecer essa doença crônica que está há anos descompensada e pode piorar. Agora, uma festa em que o aniversariante é assassinado com gritos de guerra, e o estímulo do Poder Executivo à matança (quem mandou matar Marielle, Bruno, Dom e mais e mais?). O que preparam para antes das eleições é uma incógnita. Enfim, o País está sendo devastado, cortado, maltratado, vendido com mais de 30 milhões de brasileiros com fome.
Portanto, se não for agora a hora de ter uma prática democrata, quando será? Trabalhadores de todas as áreas profissionais começam a se manifestar, pois é hora de estar ao lado do povo. É fácil se declarar antirracista, antiautoritário, e dizer que no passado a gente seria contra o genocídio nazista, mas agora convém junto à vida privada incluir a vida pública. Todo voto anulado, todo voto em branco, todo desprezo pelas eleições serão votos que favorecerão os herdeiros da velha maldade da Casa Grande. Hoje, a terceira pergunta de Hilel, “E se não agora, quando?”, está dirigida a nós, pois é preciso expressar o amor ao querido Brasil no dia 2 de outubro. A hora é agora.