Quando Prata é OURO

Quando Prata é OURO

Em quatro anos que escrevo aqui no face essa é a primeira vez que não escreverei para publicar um medalhista de ouro. É a crônica de Antônio Prata que talvez alguns tenham lido outros não, e o faço pelo momento do país, já que é uma visão do Brasil que vale a pena pensar, compartilhar, debater, aprender. Se alguém pensar que Prata não é bom, não convém a unanimidade, mas a crônica é um retrato do Brasil. Escrevi unanimidade e sonho que na hora H o povo entenda que o voto será entre os defeitos da civilização e o terror do autoritarismo armado. A medalha de ouro que Prata conquistou se deve a união do humor com o analítico, ora psicanalítico; mas paro de escrever, pois daqui a pouco embalo e sigo, sugiro lerem uma das melhores crônica que li esse ano. Primavera chegando e a esperança sorrindo.
Imbrochável
Eu, Antonio Prata, brasileiro, branco, heterossexual e cisgênero, venho por meio desta pedir desculpas pelo comportamento de certo colega brasileiro, branco, heterossexual e cisgênero que, por uma série de infelicíssimos acidentes históricos, veio a ser eleito presidente do Brasil. Não que através dos séculos a turma do recorte demográfico supracitado tenha construído um portfólio, digamos assim, respeitável. Da escravidão à pizza de sushi —passando pelo Borba Gato e, pior, pelo monumento do Borba Gato—, foi quase tudo culpa nossa. Mas em algum momento do século 20 parecia que ia melhorar. Pega aí um Caetano Veloso, um Carlos Drummond de Andrade, um padre Júlio Lancelotti: são confrades que trazem esperança à infame categoria.
Acontece que para ser Caetano, Drummond ou padre Júlio é preciso ter coragem e coragem nunca foi uma virtude na média do homem brasileiro, hétero, branco, cis. Pelo contrário. Apesar de termos dominado a brincadeira do Oiapoque ao Chuí (ou por isso mesmo), das capitanias hereditárias aos 51 imóveis comprados com dinheiro vivo, não fomos capazes de desenvolver nem sequer um grama de segurança ou autoestima. Somos crianças mimadas e medrosas. Canto de Ossanha feito carne.
O macho brasileiro é um impotente.
Só um impotente —existencialmente impotente, intelectualmente impotente, espiritualmente e fisicamente impotente— é capaz de subir num palanque, diante de uma multidão e gritar “imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!”.
Ostentações de virilidade dão vergonha alheia. É deprimente ver um fortão fazendo o muque diante dos outros. Mais deprimente ainda é ver um fracote tentando o muque. Bolsonaro é isso, sempre foi, um fracote mostrando o muque que não tem. Vira e mexe ele se deita e finge fazer flexões. Os braços ficam parados e a cabeça sobe e desce feito uma galinha ciscando. Suas ameaças golpistas são como a flexão de pescoço. Sem força para governar, ameaça o golpe. Sem força pra erguer o corpo, chacoalha a cabeça. Bota na conta a misoginia, mais os Rider, mais o cercadinho e o choro no banheiro: é toda uma liturgia da impotência.
Os estrangeiros talvez não entendam de onde vem tamanha insegurança. Explico. Por estes costados há um mito fundante: a base para uma vida digna é um pau grande. E a família Bolsonaro… Bem, basta dizer que o apelido do Zero Dois é Eduardo Bananinha.
Tivessem nascido num país menos maluco, tivessem lido meia dúzia de livros, visto filmes ou feito análise, teriam compreendido melhor as parcas relações entre o tamanho de seus órgãos sexuais e uma caminhada proveitosa na breve passagem pelo cosmos. Mas não. São uns ignorantes atormentados com suas bananinhas. Daí precisam de canos por todos os lados. Cano de pistola, cano de fuzil, cano de escapamento de moto, cano de tanque, cano da arminha de mão. Entre eles, um charuto jamais será somente um charuto.
Centenas de milhares de pessoas devem ter morrido na pandemia porque o infeliz é inseguro com o tamanho do pau. Para ele, submeter-se a qualquer restrição, respeitar qualquer lei é uma ameaça à sua fragilíssima virilidade. Não entende que o pacto social é um ato de grandeza, um acordo entre adultos para não cairmos na guerra de todos contra todos. Ele (incapaz de se garantir entre adultos) quer a guerra de todos contra todos, porque só quando segura o fuzil, o fuzil duro, o fuzilzão ereto, a ponto de bala, o pobre diabo se sente consolado na profunda insegurança com o pipizinho. É trágica e patética essa pororoca: a herança de 500 anos somada à ausência de uns cinco centímetros. A todos vocês, minhas mais sinceras desculpas.
Sobre Cartomantes

Sobre Cartomantes

“Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias
Ahhhhhhh
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai não fica nada
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai não fica nada”

(Ivan Lins)                                     

Era uma viagem um pouco longa. O taxista, para mim um senhor (deveria ter minha idade na época) começou a puxar conversa. Dei corda e lá pelas tantas estávamos falando de tarô, baralho cigano e outras artes divinatórias. E foi então que ele me contou uma história deliciosa. Ele queria se casar, juntou um dinheiro e foi até o Catete, local onde ficava o famoso cinema Azteca e virou uma galeria. Lá comprou um par de alianças. Porém, antes de pedir a moça em casamento, achou por bem consultar uma cartomante e vidente. Chegando na mulher, em bairro afastado do Rio, falou que queria pedir a mão da namorada, mas antes queria consultá-la. A mulher pediu as alianças, que ele levava numa caixinha de veludo sem nada escrito. Fechou os olhos, meio em transe, perguntou: ” Essa moça é estrangeira ?” Diante de sua negativa, falou:  ”Porque estou vendo algo relacionado com os astecas”. Sim, o nome da galeria que ele adquiriu as alianças. E completou: ”Vai sem medo menino, essa moça vai te fazer muito bem”. Ele boquiaberto, impressionado com a história do Azteka, seguiu o conselho da mulher. E me disse orgulhoso: Vinte cinco anos juntos e felizes!

Segundo os antigos gregos, nossas vidas estão nas mãos das Moiras, filhas de Nix, a deusa da noite. Elas são as tecelãs de nossos destinos. Cloto, engendra o fio da vida, Láquesis, puxa e fia a nossa história e cabe a   Átropos, cortar o final. É uma ideia de um destino preconcebido, em que nascemos com um caminho determinado. Cabia a um oráculo tentar mostrar as surpresas dessa estrada, talvez barganhar, para tentar um pouco mais de tempo na Terra. As Moiras estão acima dos deuses. Do jeito que encontramos cartazes por aí prometendo a volta de um amor em três dias (via de regra querem sempre um embuste de volta, afinal, segundo o grande filósofo Hegel: ”figurinha repetida não completa álbum”) , baralhos ciganos, tarot e outras artes divinatórias, o brasileiro muito acredita nisso. O esporte aqui é passar a perna nas Moiras. Até nelas, três simples costureiras, enfiadas num subterrâneo, idosas, vivendo insalubramente como escrava boliviana em fábrica de confecções em São Paulo. Todo mundo sonhando em dar um golpe nas véias.Em vão, porque chegou a hora não tem para onde fugir.

Ao contrário dos meus compatriotas, nunca estive numa cartomante. Mas vivo coisas estranhas que parecem trama do destino. Recém-chegada no mestrado, meninota de vinte e poucos anos, numa turma que a maioria já era bem mais velha e tinha experiência em sala de aula, fui acolhida por uma mulher com uns 20 anos a mais  que eu. Icleia, era seu nome. Ela, na década de setenta, havia estudado com todos os nossos professores, inclusive estava de volta ao mestrado pela segunda vez. No primeiro, já terminando os créditos e se preparando para escrever a dissertação, tomou-se de amores por um francês e largou tudo para viver em Paris. O que a fez gostar de mim foi que no dia da prova eu estava com uma saia indiana, cheia de colares e ela lembrou do tempo que era jovem. Achou interessante uma moça de outra geração estar vestida com roupas setentonas. E foi se aproximando. Com ela aprendi todos os códigos velados que regem a academia, soube também de todas as fofocas de bastidores que envolviam seus antigos colegas de classe, agora nossos professores. E nos tornamos muito amigas, apesar da diferença de idade. Um dia Icleia me ligou e perguntou: ”Céu, seu pai por um acaso foi aluno da Georgina Albuquerque ?” Eu realmente não sabia, aliás nem sabia quem era essa senhora, então aproveitar o ensejo e falar um pouco sobre ela. Nascida em 1885, Georgina foi a primeira brasileira a se matricular na Escoa Nacional Superior de Belas Artes em Paris. Foi a primeira mulher brasileira a se firmar como artista internacionalmente, antes de 22.  Suas pinturas são fortemente influenciadas pelas técnicas pictóricas do Impressionismo, foi também a primeira mulher a dirigir a Escola Nacional de Belas Artes. É considerada pioneira em vários ramos da arte. Abriu uma escola de desenhos para crianças talentosas e sim, meu pai foi seu aluno.

Ao responder que sim, a história tomou corpo.  A irmã da Icleia trabalhava no Arquivo Municipal e muitos anos atrás, ao receber trabalhos de ex-alunos da pintora, encantou-se com uma aquarela. Pensou em emoldurar, mas o tempo foi passando. Um dia que Icleia estava na casa dela, tiveram que procurar um documento do pai, a irmã achou a pintura, mostrando a beleza e falando que estava guardado há anos para emoldurar. Foi aí que Icleia viu a assinatura L.C.Bahiense, 8 anos de idade. Sobrenome igual, não custa perguntar. E sim, era uma aquarela pintada por ele. Peguei de volta, coloquei numa moldura e não sei nem falar da emoção que meu pai teve. Era o homem de mais de 60 anos frente ao menino de 8.É uma loucura imaginar os caminhos tortuosos que esse desenho fez para, finalmente, voltar ás suas mãos.

Eu sou aquela que não acredita em nada mas acredita em tudo. Tomo banho de pipoca de Omulu, mando meu nome para grupos de orações das mais variadas crenças, porque mal não faz. Sobre a cartomancia, o assunto inicial, existem várias teorias sobre seu surgimento. Segundo a antropóloga Gloria Prado, a arte foi levada para a Europa pelos Cruzados e assim chegou na Península Ibérica: “Esses povos já utilizavam, no século 12, as cartas para fazer previsões, parecidas com as de hoje”. Pouco se sabe realmente sobre a sua origem. Há quem diga que surgiu na China e foi trazida ao Ocidente pelos ciganos. Os historiadores concordam e reconhecem que não foi uma invenção casual. Para o professor de Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, Sávio Antunes “Existem diversas influências sobre essa arte mística, sua origem pode ser bem mais antiga do que se sabe até hoje”. 

Acredito que meu primeiro apreço por cartomantes foi pela que dá o título ao conto do Machado de Assis. Meu pai leu para mim em voz alta, quando eu ainda estava começando a ligar as letras e mesmo sem entender muito bem, fiquei muito impressionada. A figura altiva de uma italiana magra, alta, de olhos grandes, sonsos e agudos, que acalma Camilo com a frase: — Vá,vá, ragazzo innamorato, enquanto com seus dentes brancos comia uma tigela de passas,  ficou bem marcada na minha cabeça. Isso me faz lembrar que tem tantos estudos profundos sobre esse conto, enquanto minha filha assim resumiu o enredo: ”A história de um corno que não sabia escolher amigos”. Machadinho, perdoe essa infanta.

Outra obra da literatura brasileira e que ao ser transformada em filme ficou tão maravilhosa quanto, é A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Macabeia, nordestina, órfã, feia, que tomava aspirina para ver se curava a dor que tinha dentro dela, sem saber que era angústia. Ouvia rádio relógio, tomava café frio, uma pessoa tão tola, segundo a autora “que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham”. Invisível como tantas pessoas nesse Brasil, sozinha num Rio de Janeiro que tritura almas. Ficou trabalhando como datilógrafa, mesmo não sabendo direito o ofício, por pena do chefe. E quando pensava em si, era: ”sou datilógrafa, virgem e gosto de coca-cola”. Seu envolvimento com o operário do sertão da Paraíba, Olímpico, e a falta de jeito dela, quando ao faltar assunto se vê em frente a uma loja de ferragens e diz: ”Eu adoro prego e parafuso, e você”, é de uma candura ímpar. O tal pretendente acaba sendo roubado pela colega loira e bem fornida do trabalho. Resta a Macabeia procurar uma cartomante. Dessa vez uma ex-cafetina, D.Carlota, interpretada magistralmente por Fernanda Montenegro. Macabeia queria saber o que podia esperar do futuro, já que do presente não dava para aguardar nada e tem como resposta que vai ao seu encontro um homem rico, bonito, glamouroso.  Ao sair, é atropelada por uma Mercedez. Único momento em quem teve atenção de alguém na vida, pois como disse o narrador: “Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes

O elenco do filme inteiro é afiado, a direção da Suzana Amaral é primorosa, Marcelia Cartaxo foi a decisão certa para interpretar a Macabeia e o Olímpico de José Dumont é absurdo de bom. Na cena que ele carrega um grande urso de pelúcia, para dar para a mulher que apenas o usou, andando com aquele trambolho pelas ruas do Rio de Janeiro, é fabulosa. Estou tão triste com a história dele guardar material de pedofilia e ter pagado a uma criança de 12 anos para fazer sexo, que sério, se ele tivesse morrido minha dor seria menor. Mas, como diria Madame Zoraide: Nunca confunda a pessoa física com a pessoa jurídica. É isso.

Senhoras e senhores ouvintes

Senhoras e senhores ouvintes

Esse programa pertence a vocês! (da música que introduzia o programa César de Alencar, na rádio Nacional)

O bloco pesado de ferro fundido, cercado de botões, pinos e um mostrador esverdeado, jazia na cômoda. Originalmente destinado a radioamadores, não era o rei da voz mas imperava naquela casa de sentimentos muitos e recursos poucos. O rádio da família acordava com válvulas que incandesciam. Sintonizar as estações era uma competição contra chiados e invasões de ondas sonoras misteriosas, o treino nos fazia ganhar sensibilidade nos dedos. Senhoras e senhores ouvintes… A primeira transmissão de rádio no Brasil acaba de completar um século e meu Halicrafters, do alto de seus oitenta e tantos anos e restaurado, é uma testemunha ocular/afetiva dessa história. Com ele, imaginei personagens, descobri músicas, ri de manducas, tancredos e trancados, marquei golaços com pernas alheias, perguntei ao João.

Rádio sempre foi, sobretudo, território da imaginação. Não à toa, as bancas de jornais dos anos 50 vendiam um semanário, a Revista do Rádio, com reportagens e fotos de cantores, atores, locutores. As vozes, então, revelavam corpos. Aqui, nessa penteadeira chipandelle, me faço bonita, dizia sorridente a cantora Favorita dos Marinheiros, aproveitando para fazer merchandising do Leite de Rosas, o preparado que dá it. A falsa rival, Favorita da Aeronáutica, exibia o sumiê onde fazia as siestas, sem deixar de lado o talco Cashmere Bouquet, perfume de prazer. E a Candinha escancarava os bastidores, mexeriqueira, hein? O jingle, cantado pela Linda Batista, ou seria pela Dircinha?, reforçava: Revista do Rádio,/ que toda semana eu espero/Revista do Rádio/Ei, jornaleiro/é essa que eu quero.

O Menino não era chegado às novelas, mas elas reverberavam forte na atmosfera da vila. Audiência maciça. Caso famoso foi O direito de nascer, dramalhão que foi ao ar durante inacreditáveis três anos. Época em que bebês sem conta acabaram registrados como Albertinho Limonta, figura central da trama. A turma da fuzarca logo apelidou a coisa como O direito de encher. Tempos ingênuos.

E os reclames? Sem os recursos visuais que a TV trouxe mais tarde, a criatividade gerou pequenas obras-primas para vender de tudo. São jingles e slogans que atravessam gerações. Se a lâmpada queimar, não adianta reclamar nem bater o pé, o que resolve é ter sempre à mão lâmpadas GE. Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal. Fimatosan, melhor não tem, é o amigo que lhe convém. Colírio? Moura Brasil!! Ele era meu chefe… hoje é meu marido, eu passei a usar Cilion. A Casa Garson só vende o que é bom. Pílulas de vida do doutor Ross, fazem bem ao fígado de todos nós. Se a criança acordou, dorme, dorme, menina, tudo calmo ficou, mamãe tem Auris Cedina. Brylcreem, apenas um pouquinho, Brylcreem, você irá brilhar, Brylcreem, é o melhor caminho, para mil pequenas conquistar. Dura lex, sed Lex, no cabelo só Gumex.

As rádios faziam dobradinha com as chanchadas da Atlântida quando o assunto era carnaval. Lá por dezembro, as chanchadas começavam a caitituar marchinhas, para gravar na memória dos foliões, e as rádios encaixavam tudo nos programas de auditório. Fanzoca do rádio, gravada em 1958 pelo palhaço Carequinha, desenha bem o sincretismo (com minhas escusas pela letra “inadequada” para os dias de hoje): Ela é fã da Emilinha/Não sai do César de Alencar/Grita o nome do Cauby/E depois de desmaiar/Pega a Revista do Rádio/E começa a se abanar/É uma faixa aqui, outra faixa ali/O dia inteirinho ela não faz nada/Enquanto isso na minha casa/Ninguém arranja uma empregada.

Avançando um pouco no tempo, viajo até a rádio Jornal do Brasil, que, nos anos 1970, trazia Sessenta minutos de música contemporânea. Ali, fomos apresentados aos grandes grupos do rock progressivo. Blood, Sweat and Tears e Emerson, Lake and Palmer na veia.

Ao terceiro sinal… Os veteranos lembrarão que assim começava a locução da hora certa na Rádio Relógio. Entre duas delas, algumas pílulas, digamos, culturais dignas do Almanaque Capivarol. Essa programação inspirou a criação do personagem Sandoval Quaresma, vivido pelo Brandão Filho, na Escolinha do Professor Raimundo. Sandoval vivia grudado na Rádio Relógio, decorava as gotas de cultura inútil, mas era incapaz de ir além de nomes e datas. Decoreba profissional. Brandão, para quem não lembra, fazia o Primo Pobre noutro programa antológico do rádio, o Balança mas não cai. O Primo Rico, ora vejam só, ficava por conta do Paulo Gracindo.

Não sou filho ingrato. Permaneço fiel ao rádio, embora a poucas estações FM. O dial fica estático na programação clássica e de jazz da MEC, que anda com acervo bem pobrezinho, vítima provável da firma de demolição que administra o país. Por falar nessa malta, convoco o Samuel Correia, da estridente Patrulha da Cidade na velha rádio Tupi. Quantos de nós não gostariam de, à moda do Samuca, algemar o chefe da quadrilha, fichá-lo por vadiagem e trancá-lo na gaiola insalubre da Invernada de Olaria? E corta pros nossos comerciais.

Abraço. E coragem.

O voto do frentista

O voto do frentista

O primeiro sábado de setembro começou ensolarado, um anúncio de primavera com os pássaros cantando alegremente. Estava indo pela avenida Ipiranga para a Feira Ecológica da José Bonifácio no Bom Fim quando parei o carro num posto de gasolina. Chegou o frentista e foi feita a combinação que era para encher o tanque de gasolina aditivada. O frentista se ofereceu para lavar os vidros, e quando o trabalho foi encerrado eu disse a ele:
– Farei uma pergunta que não precisas responder.
– Manda aí, chefe, sem problema.
– Como anda o posto sobre as eleições?
Um leve sorriso do trabalhador antes de responder.
– Olha, eu posso dizer que no turno da manhã é quase todo Lula. Eu há tempos decidi meu voto nele, é claro. Olhe o preço da gasolina, ele apontou a placa, que estava sete reais e baixou para menos de cinco só pelas eleições. O senhor já verá como ficará logo após o dia dois de outubro.
– Tens alguma explicação dos porquês desse voto do turno da manhã?
– O custo de vida está altíssimo, para nós mais pobres está muito difícil à vida, esse governo apregoa armas em vez de comida.
– Tu lembras dos governos Lula, devias ser muito jovem?
– Hoje tenho 34 anos, logo, era jovem e comecei a trabalhar naquela época e se vivia melhor, sem dúvidas.
– Última pergunta: há chances de vitória no primeiro turno?
– Muita gente vai mudar o voto até o dia das eleições, mas acredito que Lula vencerá com certeza.
O frentista trouxe a maquininha, paguei feliz, dei uma gorjeta e expliquei a ele que era pela consciência política dele. Entre o frentista e quem tem carro há muita distância social, econômica, mas saber de seu voto me alegrou, e a conversa humaniza. Quantas vezes a relação com os trabalhadores criam barreiras intransponíveis. Saí em direção à feirinha onde vou todos os sábados, imaginando um país melhor. Foi o primeiro diálogo desse papel de jornalista que, às vezes, gosto de brincar. Creio que convém ir falando com desconhecidos, mas com cautela. As eleições que estão chegando serão um plebiscito entre a democracia e o autoritarismo, o poder civil, as artes, as ciências, a educação e a saúde versus as armas, os armados, certos empresários e a turma do agro antipop. De um lado, os que desejam a paz, de outro, os que apregoam a guerra; os que são a favor da Justiça e os que defendem a Injustiça; os amorosos e os cruéis. Finalmente, é bom recordar que os líderes fascistas como Mussolini e Hitler mobilizaram muitos milhões de italianos e alemães. Os apaixonados pela ditadura são os seduzidos pela servidão voluntária, a grande massa de brancos com posses que escolheram um líder como eles. Os armados adoram matar negros, índios, pobres e opositores, e diante dessa loucura social será preciso coragem e astúcia.
No ano de 2019 muito se escreveu nas redes sobre ninguém soltar a mão de ninguém, de união entre todos, de manter as mãos dadas, e lembrei-me de um poema famoso do Carlos Drummond de Andrade. Na semana da Independência, uma homenagem à poesia brasileira, pois a vida requer amor, que requer poesia, e a poesia é o par de dança da alegria. Logo, que possamos caminhar de mãos dadas nas ruas ensolaradas para festejar o fim do mais longo inverno do milênio.
Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
 A Cavalgada do Dragão

 A Cavalgada do Dragão

A sad fact widely known
The most impassionate song
To a lonely soul
Is so easily outgrown
But don’t forget the songs
That made you smile
And the songs that made you cry

(The Smiths)                                                   

               

       Das cismas e manias que carrego vida afora, uma é não reler livros que com a distância do tempo podem perder a magia. Nunca reli A Pequena Fadette de George Sand, que marcou minha infância. Nem Os Meninos da Rua Paulo, que me fez desaguar de emoção. Muito menos O Estrangeiro de Camus, que li concomitantemente com um amigo de sala, com quem ainda mantenho contato. Ele antes da pandemia me falou: ”Esse livro devia ter uma restrição, adolescentes não deviam lê-lo”. Aqui explico: Ficamos os dois tão mexidos com a obra que ela decretou, ali, o fim da nossa Idade do Ouro juvenil. Percebemos, eu carioca, ele paulista, em terras soteropolitanas, que ser estrangeiro independe de estar em outro país. Éramos esquisitos, é verdade. Hoje ele é um cineasta bem sucedido e respeitado, mas fui testemunha do garoto de longos cabelos, all star surrados, que mordia a caneta até quebrar. Eu não era muito diferente. Usava jeans rasgados antes de virar modinha, era a nerd louca que fazia historinhas em quadrinhos usando os colegas de sala como personagens, de uma acidez que nem Sonrisal resolvia e colava minhas obras na hora do recreio na parede da sala de aula. É certo que fazia sucesso, mas os atacados, movidos pelas paixões adolescentes, geralmente gente com quem eu tinha contas a acertar, me odiavam. Hoje olho para trás e até rio, porque essa foi a forma eficaz que encontrei de vencer o bullying, conseguia ser pior que os autores das chacotas destinadas a mim. O que pensando bem, é feio pra caramba. Esse Marte em escorpião sempre foi uma faca de dois gumes na minha vida. Melhor botar a culpa nos astros que no meu gênio ruim e vingativo. Outra coisa que não faço é ver filmes baseados em livros que tenho apreço. Vou adiando até que não dá mais. Foi assim com a Casa dos Espíritos, por exemplo. Acho sempre que o elenco escolhido não tem nada a ver com os personagens que tomaram corpo na minha imaginação. Via de regra fico irritada e quase sempre termino o filme com a impressão de que o diretor e o roteirista banalizaram e traíram a obra.

          Fernando Pessoa, com seu heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, bem traduziu o que me move a isso, quando fala do seu primeiro contato com os sermões do Padre Vieira: “Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me tem feito chorar. Lembro-me como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. “fabricou Salomão um palácio” … E fui lendo, até o fim, trêmulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade me fará imitar. Aquele movimento hierático, da nossa língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de página porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais. – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei hoje, relembrando, ainda choro. Não é- não a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfônica.”   Os únicos livros que releio, e acontece sempre a cada mudança de rumo de vida, são Cem Anos de Solidão, do Garcia Márquez e Terra dos Homens, do Exupéry. Ali não tem erro, as duas obras sempre apresentam novas nuances a cada fase que as reencontro. Mas não trazem o impacto da primeira vez. No filme As Invasões Bárbaras, quando o Remy, professor  marxista (é uma continuação do filme O Declínio do Império Americano, que assisti no início da faculdade, daí meu carinho)  vê o novo mundo neoliberal vencendo, na figura do filho que é tudo o que ele sempre lutou contra, um capitalista convicto e que, por ter dinheiro, vai lhe dar uma morte digna, porque a vida é filha da puta mesmo, tem um momento que a filha junkie de uma colega de trabalho e ex-amante, a pedido de seu filho , vai lhe aplicar heroína para aplacar as dores do câncer. O filme todo é maravilhoso, mas faço esse recorte: Ela, ao dar-lhe a picada, diz que os viciados vivem em função dessa primeira emoção. E que ela não volta. Todas as vezes que um heroinômano se droga é em busca dessa sensação proporcionada pela primeira dose, por isso ela é chamada por eles de “Cavalgada no Dragão”. Nunca usei heroína, mas tenho isso em relação aos livros. Esse sentimento primeiro, essa emoção que te tira do chão, quando vc desconhece a obra e o autor e fica maravilhado com ela, é a cavalgada no dragão no mundo literário. Soube que vão filmar Cem Anos de Solidão e combinei comigo mesma que não assistirei tão cedo. 

         Saindo da literatura e indo para o cinema de entretenimento, e vocês vão rir disso, fiquei meio cismada de assistir Eduardo e Mônica. Poxa, de Gabo pra Renato Russo mana…Sim, de Gabo pra Renato Russo. Voltemos a 1986.Eu era uma garota de 15 anos quando foi lançado o Disco Dois. Tempo Perdido, Índios e Eduardo e Mônica foram minha trilha sonora durante um ano inteiro. Legião Urbana falava coisas que eu gostaria de ter falado e musicado, no meu mundo adolescente. Um ano depois eu conheci o amigo citado acima, o do Estrangeiro e ele me apresentou Janis, Hendrix, o rock inglês da época, os Titãs, Garotos Podres e outras paradas. Comecei a achar Cazuza muito mais solar e interessante que Renato. Mas aquele 1986 não saiu de mim. Tanto que uns 5 anos depois, já terminando a universidade, o destino (na verdade um amigo DJ, que me chamou numa boate e estava com o vocalista do Legião) me colocou na mesma mesa que o Renato Russo.  Meu amigo precisou voltar para as pick-ups e disse:” Céu, faz companhia pra ele”. Carioca, safa, não sou de dar moral pra famoso. Então a cena que se desenhou foi: Eu de frente para o Renato, tomando uma vodka e ele sorvendo um copo de uísque. Ele agia como se eu não estivesse ali e eu na mesma toada. Eram dois desconhecidos, colocados forçosamente num mesmo espaço, que não tinham o que falar. Ele provavelmente não, mas eu me fazendo de blasé só lembrava da garota de anos atrás que se emocionava com sua música. Queria ter falado para ele que meu amigo de adolescência, vítima de um acidente de carro, foi enterrado ao som de Tempo Perdido. Queria ter dito que “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente, tentei chorar e não consegui” dizia respeito a ele, porque eu ao ouvir a música a primeira vez chorei baldes. Só que aquele homem meio esverdeado (sim, sim, era meio verde, na época já era soropositivo), blasé por demais, me tolheu. E só me restou dar um tchau com cara de “ainda bem que um gatinho tá me chamando pra me livrar de vc” e cair na pista dançando ao som do The Smiths.  Foi assim, enganando a mim mesma, me convencendo que assistir um filme comercial sobre uma música do Legião era uma enorme perda de tempo, que encarei a película. E ao final do filme, eu entendi minha resistência. E sim, desaguei.  Porque vi na tela a adolescente que eu fui. E aquele momento tão meu, que não compartilhei nem com o autor da música, se presentificou. 

            Nascida no fim de 1970, uma infância passada na ditadura militar, a minha geração não era a do Renato, que pegou a barra pesada na adolescência e brigou para o Brasil se redemocratizar, nem a dos meus pais, que perdeu amigos e parentes na luta contra o governo dos Anos de Chumbo. Éramos a princípio espectadores das mudanças. Para ser sincera, eu não estava tão ligada na política. Como eu, grande parte dos meus contemporâneos. Estava muito mais preocupada com a AIDS, sinceramente. Quando falo para minha filha de 16 anos do horror que foi a chegada daquele vírus, um professor de Geografia que eu amava foi uma de suas primeiras vítimas, amigos dos meus pais se foram e tudo isso no período da minha puberdade, uma doença mortal sexualmente transmissível que não tinha cura, ela não tem ideia do que representou. Aí só de sacanagem, na adolescência dela vem uma pandemia em que se pegava a doença tendo um simples contato com um contaminado e que até um ano atrás não tinha nem vacina, para me desmoralizar. Na escala de tragédias da humanidade, ela ficou dois anos presa comigo, o pesadelo de qualquer adolescente de 13-14 anos. O que pode ser pior que isso? Enfim, a maior parte de nós era atormentada pelo medo de pegar HIV, liberdade sexual passou longe da gente. Também não éramos politizados como a geração anterior, não pegamos em armas nem vivenciamos uma rebeldia que podia levar aos porões da ditadura. Nem hippies, nem revolucionários. Tínhamos, porém, uma ideia do privilégio que era votar em presidente pela primeira vez depois de anos de regime militar. Votei no Lula, em 1989, no primeiro e no segundo turno. Minha filha vai viver isso, seu primeiro voto vai ser no Sapo Barbudo, que até agora aponta como o favorito na corrida presidencial. Na minha vez o Collor ganhou e tive que entubar. Já era bem esperta para não cair nos Caras Pintadas em 1992, achava que era manipulação da mídia. Sabia que independente de qualquer movimento o homem “Daquilo Roxo” ia cair porque a República de Alagoas tentou dar um passo maior que as pernas. Já não interessava ao sistema aquela gente. Esse é um resumo, bem simplista, do que foi a minha geração.

           Ao ver o filme, recheado de músicas daquela época, acabei lembrando de uma pá de coisas. Tinha um mundo pela frente. Possibilidades se abriam, a vida era uma página em branco. Então fiquei mexida com isso, nem eu sabia que tinha saudades daqueles tempos. Era também um mundo que se transformava rapidamente. Queda do Muro de Berlim, a globalização saindo da teoria e se transmutando numa realidade na qual eu estava inserida, revolução tecnológica. O mundo deu uma virada nos últimos trinta anos em que longe de me sentir sujeito da História é como se eu tivesse sido arrastada por ela. Sou da época do Atari e ser campeã de River Raid só me torna velha diante do agora. Não tenho manhã para crescer financeiramente nesse admirável Mundo Novo, minha cabeça ainda teima em ser analógica. Bem que tentaram dar um nome para minha geração, a galera que assistia Speed Racer na infância, que consultava enciclopédias, que chacoalhava ao som de B 52 nas danceterias da vida, que usava cortes de cabelos e roupas de gosto duvidoso na adolescência, como uma saia balonê dourada e um scarpin branco, a bordo de um vistoso mullet, de Geração X.  Mas aí vieram os Y e os Millennials, que tem um povo que aos 30 anos já tá bilionário. Somos uma geração entre gerações. Chatos para os mais novos, alheios e um pouco alienados para os mais velhos. Sobreviventes da bala soft e de passeios aboletados na traseira de Caravan, sem cinto de segurança. 

       O mundo, porém, independente das sofisticações técnicas, caminha para trás. Andou rolando nas redes vídeos do Cazuza e do Renato Russo falando sobre autoritarismo, fascismo e tal. Eles não sobreviveram para ver os nossos anos 20 tão parecidos com os anos 20 do século passado. Depois do filme, fui olhar quem era o Eduardo e a Monica da música, sabia apenas que existiam e que era um casal amigo do compositor. Leonice, a Mônica da música, é artista plástica, Fernando Coimbra é o Eduardo. O casal está junto há 42 anos. Os dois conheceram Renato lá atrás, quando o músico fazia shows no Colina, um conjunto de prédios, na Asa Norte de Brasília, onde moravam professores da UNB e que no fim dos anos 70 uma turma de adolescentes se reunia para fumar maconha, encher a cara de vinho, falar de rock e ensaiar. Lá nasceu o rock nacional dos anos 80, inicialmente com uma banda chamada Aborto Elétrico. Paralamas, Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana começaram ali. Era o som underground de uma juventude que morava na cidade que era palco do governo militar. Foi nesse contexto que Renato ficou amigo do casal. Muito da música é criação, mas eles foram os inspiradores.

         Fernando Coimbra, o “Eduardo”, é filho do embaixador Marcos Coimbra e vem a ser enteado de Leda Collor, irmã vocês sabem de quem. Seu pai foi um dos articuladores da campanha do Collor, em 1989, o estrategista principal. Lembram daqueles escândalos relacionados à vida pessoal do Lula, como o da mãe de sua filha Lurian que foi a TV falar que Lula pediu que ela abortasse a criança??? Adivinhem de quem foi a ideia e orquestração??? Pois é. Envolveu-se em vários escândalos, ligados aos rolos do PC Farias. Irmão de Marcos Coimbra, sociólogo, presidente do Instituto Voz Populi, Fernando seguiu a carreira diplomática e serviu em vários países. Sobre o seu posicionamento político, o que posso falar é que quando era embaixador no Quênia, em 2019, foi duramente criticado na Cúpula de Nairobi, na qual foram comemorados os 25 anos da Conferência Internacional da População e Desenvolvimento do Cairo, por um documento apresentado por ele, que nada falou sobre direitos humanos, um dos pilares do programa de ação dessa conferência, muito menos de desigualdade social e da pobreza que grassa no mundo. Limitou-se a fazer uma pregação antiaborto, mandando para a puta que pariu os acordos intergovernamentais do qual o Brasil é signatário, que reconhecem o aborto como um problema de saúde pública e pedem a revisão de leis que punem a interrupção da gravidez. Em 2022 foi indicado pelo Bozo para o posto de embaixador no México, onde está no momento. Pois é, essa o Renato Russo não poderia prever, Eduardo se transformou num bozolóide. 

            Porém, nem tudo é tristeza. Renato usou licença poética para falar dos gêmeos, filhos do Eduardo e da Mônica, mas na vida real o casal só teve uma filha. O líder da Legião Urbana era louco pela garota, ia buscá-la na escola, onde rolava um ajuntamento de gente para ver o “tio famoso da Nina”. Fui dar um rolé no Instagram dela. É artista plástica, tem uns trabalhos bem bacanas e participou de duas cenas do filme, numa delas era uma das performers da “festa estranha com gente esquisita”. Corajosamente descasca o Bolsonaro, chama de fascista e o caramba. Seu sócio é um gay que anda com roupas femininas e numa das fotos carrega um cartaz com a inscrição:” pelo direito de andar amado!# ele não!” Se a música Tempo Perdido fala da angústia que acomete os jovens de estarem desperdiçando a vida, minha vontade é de falar para Nina:” nada melhor que estar do lado certo da história, certeza que seu tio ia ter orgulho de você nesse momento tão duro do nosso país. Você não está desperdiçando a vida…nem o voto”.  Era só isso mesmo.

Uma conversa inesquecível

Uma conversa inesquecível

A humanidade pode ser dividida em várias categorias, mas uma se destaca que é a dos que sabem escutar e os que não sabem. Aliás, dizem que o único que aprende um psicanalista, ao longo de sua vida, é escutar. A psicanálise foi definida, nos seus princípios, por uma famosa paciente, como uma talking cure- palavras que curam ou a cura pelas palavras. As palavras se não curam, tem o poder de aliviar como essa mostra da conversa entre os escritores Philip Roth- entrevistador- e Primo Levi, sobre a vida, a sobrevivência em Auschwitz, do livro “Entre Nós”.
Roth: “É isso um homem?” termina com um capítulo intitulado “História de dez dias”, em que você relata em forma de diário como sobreviveu de 18 a 27 de janeiro de 1945, com um pequeno grupo de pacientes doentes e moribundos na enfermaria improvisada do campo de concentração, depois que os nazistas fugiram para o oeste com cerca de vinte mil prisioneiros “sadios”. Esse relato me parece à história de Robinson Crusoé no inferno com você, Primo Levi, no papel de Crusoé, extraindo os elementos necessários à sobrevivência do resíduo caótico de uma ilha perversa. O que chamou minha atenção nesse capítulo, como em todo livro, foi o papel desempenhado pelo raciocínio na sua sobrevivência, o raciocínio de uma mente científica, prática e humana. A, meu ver, a sua sobrevivência não foi determinada nem pela força biológica bruta nem por uma sorte incrível, e sim pelo seu caráter profissional: a precisão de um homem que controla experimentos em busca do princípio da ordem, diante da inversão perversa de tudo aquilo a que ele dá valor. Sem dúvida, você era uma peça numerada de uma máquina infernal, porém essa peça era dotada de uma mente sistemática que tinha necessidade de compreender tudo. Em Auschwitz você diz a si próprio: “Eu penso demais” para resistir, sou civilizado demais”. Mas a meu ver o homem civilizado que pensa demais não pode ser separado do sobrevivente. O cientista e o sobrevivente são a mesma pessoa.
Levi: Exatamente, você acertou em cheio. Naqueles dez dias memoráveis, eu de fato me senti como Robinson Crusoé, mas com uma diferença importante. Crusoé trabalhava para sua sobrevivência individual, enquanto eu e meus dois companheiros franceses trabalhávamos conscientemente e de bom grado com um objetivo justo e humano: salvar a vida dos nossos companheiros doentes. Quanto à sobrevivência, essa é uma pergunta que já fiz a mim mesmo muitas vezes, e que muitas pessoas já me fizeram. Insisto num ponto: não havia nenhuma regra geral, além de entrar no campo de saúde e sabendo falar alemão. Fora isso, era uma questão de sorte. Vi sobreviverem pessoas espertas e pessoas tolas, corajosos e covardes, “pensadores” e loucos. No meu caso, a sorte desempenhou um papel essencial em pelo menos duas ocasiões quando conheci um pedreiro italiano e quando adoeci uma única vez, mas na hora certa. E, no entanto, é verdade o que você diz, que para mim pensar e observar foram fatores de sobrevivência, embora na minha opinião o mais importante tenha sido a sorte pura e simples. Lembro que passei meu ano em Auschwitz num estado de vigor excepcional. Não sei se por minha formação profissional ou de uma resistência insuspeita, ou de um instinto infalível. Nunca parei de registrar o mundo e as pessoas a minha volta, tanto que até hoje guardo uma imagem detalhada do que vi. Eu tinha uma vontade imensa de compreender, era dominado a todo instante por uma curiosidade do naturalista que se vê lançado num ambiente monstruoso, porém novo, monstruosamente novo. Concordo com a sua observação de que minha expressão: “Eu penso demais…sou civilizado demais” é incoerente com essa outra disposição mental minha. Por favor, me dê o direito de ser incoerente no campo de concentração nosso estado mental era instável, oscilando a cada hora entre a esperança e o desespero. A coerência que a meu ver pode ser encontrada em meus livros é um artefato, uma racionalização a posteriori.