Então, vocês realmente acharam, como anencéfalos e pessoas desprovidas de senso crítico e democrático (inclusive, salivando nas ruas como cães doentes, e lambendo grandes bonecos infláveis como neuróticos), que o sr. Sérgio Moro, um cara reconhecidamente “sombrio” (não sóbrio), sem qualquer escrúpulo, sem qualquer princípio ético, sem qualquer respeito pela Magistratura e pelo Sistema Jurídico, sem qualquer respeito pelo devido Processo Legal, sem qualquer obediência à Constituição e, ainda, sem qualquer domínio da “própria” Língua Portuguesa ou do necessário raciocínio lógico para, ao menos, escrever e falar como jurista, com a ideia “a priori”, única e fixa (pleonasmo necessário, desculpem-me!) de perserguir e destruir um único político e um único Partido (1), em nada pior que os outros Partidos, era o grande e imbatível herói nacional?
Então, vocês pensaram que o sr. Sérgio Moro fosse o cara super digno, o verdadeiro “limpador” da corrupção, embora sabidamente responsável direto pela derrocada de várias empresas nacionais, pelo aumento do desemprego e pelo fortalecimento dos milicianos?
Finalmente, vocês assumiram desavergonhadamente que ele, Moro, é o “the best”, o cidadão mais elevado e comprometido com o “bom” futuro do país, ainda que sabendo (vocês sabendo!) que ele é o responsável direto por viabilizar e empossar, por vias democraticamente ilegítimas, posto que mentirosas,(2) na República, incluindo os vários Estados, os grupos mais abjetos, mais vis, mais canalhas, mais antissociais, mais antidemocráticos, mais anti-Constituição?
É isso? Vocês assumiram que ele desse poder para os tipos mais indignos, mais vagabundos, mais violentos, mais perigosos, mais assassinos, mais mentirosos, mais destrutivos, mais incivilizados, mais antiéticos, enfim, os piores dos piores, qualquer que seja a medida ou referência que usemos, ou seja, os piores e mais perigosos religiosos, os piores e mais atrasados economistas, os piores e mais incompetentes militares, os piores e mais rasos “adevogados”, os piores e assumidos violentadores da Língua Portuguesa, os piores “artistas”, os piores Cristãos, os piores Judeus, os piores Negros (piores, sim, porque desdenham e envergonham a tradição humanista do Cristianismo, libertária do Judaísmo e de resistência de toda Cultura e História Africanas!)?
Certo, vocês acharam, pensaram e assumiram, como cães salivantes, zumbis e gente sem cérebro nem criticidade, tudo isso, com sintomas de insanidade (e mais…). Realmente, o sr. Sérgio Moro, o boneco inflável (projeção do “id” de vocês), representa vocês e o caráter de vocês em todos os aspectos. Ele é, e faz, o que vocês são, e fazem, diuturnamente!
(Pietro Nardella-Dellova)
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NOTAS IMPORTANTES
1. Em que pese as duras críticas ao Lula e ao PT, que faço e escrevo desde 1991 (Folha de São Paulo, Blog Café & Direito, Z Mag., YouTube, Palestras, Aulas etc) ainda assim é o melhor Partido em comparação com o resto que aí está (minhas críticas continuam, assim como continua o resto, inferior so PT).
2. Fake news, falsa facada, demonização do PT etc.
As crianças falam do vírus sobre o qual aprendem na escolinha e passam gel com álcool nas mãos. No meio de um whats o amigo me pergunta: “E o vírus?”, e alguns até já sonham com o vírus. Em mais de cem países o coronavirus se faz presente e aumentam os infectados, os doentes e até mortos.Campeonatos esportivos são suspensos, escolas e universidades são fechadas, a crise sócio-econômica cresce. Há muitos anos o mundo não vivia um trauma dessas proporções, já falam até do “maldito ano de 2020”.
Trauma é um choque violento, um acontecimento tão intenso que as pessoas traumatizadas não conseguem responder de forma adequada. Trauma é um afluxo de excitações que supera a capacidade de absorção psíquica, gerando efeitos de intenso sofrimento. O aparelho psíquico – alma na poesia – sofre traumas de fenômenos da natureza, das separações, das doenças de amor e do ódio, entre outros. Do nascimento à morte, há marcas mnêmicas dos traumas. Agora, quando o mundo é atacado por um vírus, há um trauma mundial que também se conecta à vida de cada um.
Cada pessoa reage com maior ou menor medo ao bombardeio de notícias pelas mídias. Temporariamente a humanidade está enlouquecida, pois ao dormir e acordar só pensa em doença, lê, vê, escuta, avidamente sobre a nova gripe. O vírus invadiu a realidade psíquica, a paranoia está à solta, pois já não se pode nem dar as mãos, não se pode beijar, não se pode nem conversar em grupos nas ruas (orientação na Itália).
A angústia automática tem origem num desamparo acentuado. É uma sensação de perigo eminente, um sentimento de estar ameaçado, desorientado, perdido. Aliás, a palavra desamparo é uma palavra-chave para se entender o ser humano. Toda pessoa está submetida à situação de desamparo e a história humana é a história de como foram sendo enfrentados os diferentes desamparos. Desamparos gerados desde o nascimento, a dependência absoluta do bebe. E tem os fenômenos da natureza, as doenças e mortes além das tensas relações humanas. Esse desamparo psicológico, uma ausência de apoio, expressa a falta de garantias diante das incertezas. Somos vulneráveis. Esse clima de desorientação e de ameaças mortifica a vida, aumenta o sofrimento masoquista. E assim as pessoas podem chegar ao pânico como o vivido hoje.
O mundo está submetido às notícias do famoso vírus, o mundo gira em torno da nova ameaça. Médicos infectologistas alertam para o trabalho da mídia e dos governos no excesso de alarme.
Ainda bem que muitos conseguem atravessar a ponte do desamparo, aceitando as dificuldades sem terror, sem exaltar a dor. São os que melhor suportam as frustrações. Uma amiga me disse que agora a gente deve se cumprimentar com o piscar de olhos e me piscou sorridente. Um brasileiro já afirmou: “quem suporta o ódio do B4(pai do B1,B2,B3) tira de letra o C19”.
Outros vírus passaram e esse vai passar. Vencer o vírus é um desafio, seja o A, B, ou C, todos eles têm um tempo de crescimento, e depois irão decrescer. A luta da humanidade, os conhecimentos adquiridos diante de bactérias, vírus, ódios e doenças vão sendo enfrentados pela nossa humanidade. Um dia, apesar do cansaço, voltaremos a nos abraçar e beijar. Sim, um dia o amor ao próximo voltará para diminuir a crueldade. Um dia ainda vamos recuperar o sorriso do entusiasmo. Talvez já se possa treinar aqui no virtual, pois a arte, a cultura parecem frágeis, mas elas são balsâmicas.
O escritor e médico Fernando Neubarth se referiu aqui no face às palavras balsâmicas. Bálsamo são resinas extraídas das plantas que geram efeitos antinflamatórios, combatem as gastrites e outros males. Fiquei sonhando com as palavras que ajudam no combate ao pânico. Indispensável a união de compartir aqui nas redes fortalecidas que amparam. Não faltam leitores balsâmicos para os que precisam escrever. É preciso pensar no conceito africano “ubuntu”, algo como fraternidade. O provérbio zulu é: “Umuntu ngumuntu ngabantu”- “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”
Uma das noções que desenvolvi durante o meu processo de percepção de fenômenos das mais variadas naturezas, mas em especial, nos fenômenos sociais e políticos, é que certas coisas não dão errado – ou voltam-se a uma natureza destrutiva – por acaso. Alguns fenômenos catastróficos só assim o são não pelo fortuito, pelo acaso, ou pela falha de projeto. Ao contrário, são frutos de meticuloso e vultoso planejamento.
Se examinarmos o conjunto de ataques que o sistema político brasileiro vem sofrendo desde o início do século XXI, e mais agudamente a partir das jornadas de 2013, passando pelo golpe de 2016 e culminando na eleição de Bolsonaro, não haverá que ser feito grande esforço intelectual ou analítico para se perceber que existe uma harmonia subjacente a todos esses processos. Uma gradual, crescente e contínua desconstrução do sentido das palavras, da lógica do raciocínio, dos fundamentos da informação, do conhecimento e da ciência em si mesmos.
O estado de coisas em que nos encontramos, onde um presidente do Brasil mente diária compulsivamente, atenta continuamente contra as instituições, tensiona os campos políticos a limites jamais testados desde a redemocratização do país, diante de instituições paralíticas e de um sistema jornalístico que tenta dialogar pelo meio da única linguagem que conhecem, sem entretanto obter qualquer efeito no outro lado, que claramente fala outra língua, desorganiza o pensamento, tira qualquer questão fundamental do foco, e zomba grotescamente de qualquer conquista da civilização, retrata sim uma enorme construção com fundamentos e alicerces que escapam à percepção da imensa maioria.
Há certamente poderosos jogadores por trás desse tabuleiro. Uma união que engloba Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, MBL, Vem-prá-Rua, Kim Kataguiri, Fernando Holliday, Partido Novo, Janaína Paschoal, o próprio presidente e sua família, Sérgio Moro, Abraham Weintraub, entre outros, definitivamente não vem do acaso. A sustentação de uma parcela da sociedade, ainda que minoritária, mas significativa, que sustenta o bolsonarismo apartando-se da sociedade em uma espécie de apartheid voluntário e obsessivo, não se sustenta por mero acaso.
Receio que ainda não estamos instrumentalizados para examinar todo esse complexo e identificar todos os processos que foram empregados para esta construção. Obviamente tudo aponta para Steve Bannon, o grande ideólogo da extrema direita mundial. Mas simplesmente apontar o dedo para o óbvio nada resolverá se não pudermos traçar todos os caminhos desta enorme conspiração sobre a qual eu tenho poucas dúvidas da existência. E logo eu, tradicionalmente avesso a teorias conspiratórias. Mas os fatos que presenciamos no momento, especialmente caracterizados pela paralisia das instituições do estado e dos órgãos de imprensa e instituições da sociedade, incluindo partidos políticos, revelam com clareza que estamos diante de um enorme desconhecido, uma espécie de matéria escura, que no momento predomina em força e preserva-se invisível.
Enquanto não desvendarmos esta estrutura, dificilmente sairemos desse buraco.
NELSON NISENBAUM.
A FIERJ – Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro homenageou o prefeito carioca, bispo Marcelo Crivella, concedendo-lhe a medalha Amigo da FIERJ. Impopular, considerado por muitos cariocas o pior prefeito da história da cidade, Crivella foi o primeiro triunfo denso do projeto político da Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo. Sua trajetória é medíocre e, no governo do Rio, agride princípios republicanos elementares. Mas, afinal de contas, quem é o bispo Crivella ?
Ainda nos anos 90, escreveu o livro Evangelizando a África, que condensa sua experiência de proselitismo no continente africano. Não esconde a desinformação e os preconceitos sobre diversas religiões. Para ele, a Igreja Católica e outros segmentos cristãos “pregam doutrinas demoníacas”. Espiritismo, hinduísmo e religiões africanas ? “Abrigam espíritos imundos”. Aliás, sobre estas últimas, ele afirma que “permitem toda sorte de comportamento imoral, até mesmo com crianças de colo”. As religiões orientais não escapam da verborragia ofensiva: “No mundo amarelo (sic), os espíritos imundos vêm disfarçados de forças e energias da natureza”. Para ele, os indianos, provavelmente por uma natureza masoquista, são proibidos de comer carne de vaca apenas para que o alimento seja farto na mesa dos ricos. Os “gurus”, continua o prefeito incensado pela Fierj, pregam o sacrifício de crianças como forma de obtenção de riqueza.
Sua gestão é marcada pelo privilégio aos frequentadores de seus templos. Entrou para o folclore a Márcia, secretária para quem os fiéis deveriam pedir favores, notadamente em atendimento médico. “Fala com a Márcia” virou sinônimo do velho pistolão, agora abençoado pelo prefeito.
Na Bienal do Livro do ano passado, tentou, de forma patética, censurar um gibi, no qual dois rapazes se beijavam na boca. A patuscada foi à breca. O obscurantismo homofóbico, de raiz religiosa, apenas atraiu a atenção para a publicação, que bateu recordes de vendagem.
Sobre as tragédias das chuvas torrenciais de verão, rotina na paisagem carioca, Crivella tem pouco a dizer. Fora cometer piadas de gosto duvidoso (como a criação do programa Balsa Família para os atingidos pelas tragédias hídricas), demonstra ser um péssimo administrador. Nos dois primeiros anos de mandato, reduziu em 71% os gastos com prevenção de enchentes. Na inundação mais recente, fugiu de suas responsabilidades pelo caminho rasteiro da leviandade. Sugeriu que os cariocas moram em áreas de risco por opção: “As pessoas gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi para ficar livre daquilo”. O troco veio rápido. Ao visitar Realengo, bairro devastado, jogaram-lhe uma bola de lama. Pena que não tinham material mais orgânico e malcheiroso à mão.
Politicamente, é um oportunista de velha cepa. Depois de servir ao governo Dilma, agora trata de curvar a espinha para as tropas bolsoneiras, tentando reeleger-se em outubro. Dançou com Jair Messias num ato evangélico, a quem elogiou pela “personalidade irradiante”. Venderá a alma ao Demo para seguir maltratando minha cidade.
Foi esta a sumidade premiada pela Fierj. Para os não iniciados, é importante saber que a federação tem baixa representatividade eleitoral. Suas eleições, em geral com chapa única, têm participação pífia da comunidade judaica. As atividades são essencialmente assistencialistas e burocráticas. Deve ter se escudado em artigos do estatuto, que falam em “defender interesses da comunidade judaica”, para polir a imagem de um político que só merece desprezo e ostracismo. Quem define os interesses comunitários ? São de conhecimento público ?
Por tudo isso, considero inaceitável a homenagem prestada ao bispo Crivella por uma entidade que se declara representante dos judeus do Estado do Rio de Janeiro.
Acuso a Fierj de comprometer a imagem dos judeus, ao celebrar “amizade” com um político desprezado pela maioria dos cariocas.
Acuso a Fierj de insensibilidade, por destacar “conquistas para a comunidade judaica” e ignorar a tragédia administrativa, política e social que é a gestão do bispo Crivella. A imagem que passa é a de que um gueto de privilégios vale mais do que o sofrimento da maior parte do povo do Rio. Pior: passa a impressão, de resto completamente falsa, de que a totalidade dos judeus apoia suas atitudes. A comunidade judaica é heterogênea, e parte dela já se manifestou publicamente contra a entrega da medalha.
Acuso a Fierj de exaltar uma personalidade que ofende a República, ao tornar indiferenciados os campos de atuação do Estado e da religião.
A vida tem graça e desgraça, riso e lágrimas, ilusões e desilusões. A cada desilusão um coração partido, sofrido pela perda do entusiasmo. Ilusões amorosas, ilusões narcisistas, ilusões nos ideais. Essas vivências fazem parte das experiências essenciais da vida privada. A palavra ilusão deriva de i+ludere, o jogo dentro de si, brincar na imaginação. O que caracteriza a Ilusão é derivar-se do desejo, desejo inconsciente, ligado às primeiras vivências de satisfação. Ilusão, portanto não é o mesmo que um erro, pois há ilusões na obra de arte, mas também efetividade. Sonharam os nômades, e os sedentários, há fantasias ilusórias expressões de verdades nos clássicos de Homero, na “Bíblia” ou “As Mil e uma noites”. Obras marcantes tanto na vida privada como na vida pública.
Na vida pública hoje há desilusões com o crescimento das desigualdades sociais e os ataques à natureza, como os incêndios planejados da Floresta Amazônica. O ódio dos tempos persecutórios geram conflitos no seio de famílias e amizades. O coração está partido também por perceber tantos poderes apoiando à violência e o ódio. Os meios de comunicação são tratados como amigos, ou inimigos e o clima de ameaça aos jornalistas só cresce. Uma parte do País parece petrificada, com o coração frio. São indiferentes aos ataques diários a tudo que é público, seja educação, saúde, cultura, direitos adquiridos.
O governo pode mentir abertamente, pode ser cúmplice de greves policiais com um autoritarismo crescente e ameaçador. Portanto, há motivos para depressões, desânimos nesses tempos de desorientação. A Justiça está encolhida, a democracia com sua bandeira a meio pau, e povo quase apático diante da loucura crescente. O autoritarismo caminha em direção ao totalitarismo, pois aumentam as pressões contra a liberdade sob comando do Ministério da Justiça. O País flerta com o passado, está pervertido e dividido como numa guerra; uma guerra interna, como foi definida pelos estrategistas, nos tempos da ditadura militar.
A imagem do coração partido me fez lembrar a frase do Rabi Menachem Mendel, de Kotzk, Polônia. Ele disse: “Não há nada mais inteiro que um coração partido”. O coração que chora é inteiro, pois se humaniza, cresce ao suportar o sofrimento. Entretanto, às vezes, o coração não só é partido, como fica estilhaçado. Nem sempre o coração é reconstituído, às vezes ocorrem ataques do coração e desânimos. As desilusões doem, são dores psíquicas que levam tempo para serem superadas. Superar uma dor da alma, como ver o país ser invadido pela crueldade, é uma ferida narcisista que sangra. São anunciadas reações nesse mês de março, após um fevereiro de carnaval onde as escolas de samba ocuparam as avenidas.
Não foram poucas as ilusões e as desilusões que vivi. Primeiro sonhei com a segurança do Todo-Poderoso, depois o ideal do kibutz em Israel. Integrei a geração 68 e não perdia as manifestações de ruas e os debates universitários. Fui para Buenos Aires, onde fiz Psiquiatria e Psicanálise com colegas canhotos e outros não tanto, mas igualmente essenciais. Antes de voltar da vida portenha, entendi que a democracia com justiça é uma revolução. Conclusão a que cheguei sobre os limites humanos, decorrentes da realidade, em parte, e também graças à Psicanálise. A revolução possível aqui seria uma democracia social. O sonho de uma sociedade ideal não leva em consideração a sede de poder insaciável dos poderosos. Hoje o Brasil retrocedeu, está numa fase em que a força bruta manda mais que a civilização, bem mais.
Os sonhos, as ilusões e as dolorosas desilusões fazem parte da vida do mundo público e privado. Tempos de frustrações requerem uma capacidade negativa para transformar, mesmo que lentamente, derrotas em vitórias, perdas em ganhos. Importante nesses tempos é manter a capacidade de espanto para aprender sobre o ontem, o hoje e o amanhã. E assim manter, de alguma forma, o entusiasmo da rebeldia amorosa na resistência a crueldade. Aplaudo e busco aprender dos que conseguem manter o humor e alegria em tempos de tanto ódio.
Eram 5:30 da manhã em meados de Novembro de 1955, trinta e cinco horas depois de decolar de Londres, parar por três horas em Lisboa, fazer o mesmo por quatro horas em Dakar, Senegal, atravessar o oceano Atlântico e ficar mais três horas no Recife, o voo da BOAC, BA0249, estava finalmente se aproximando do Rio de Janeiro.
O sol ameaçava se insinuar no céu estrelado quando um sinal aveludado nos alto-falantes acordou os passageiros. Em seguida, uma voz feminina, primeiro em inglês e depois em português, desejou a todos um bom dia e anunciou que estavam a uma hora da destinação.
As aeromoças acenderam as luzes e passaram a servir um generoso café da manhã. Para os ingleses, ovos estrelados com bacon, torrada, marmelada e chá, para os brasileiros, ovos mexidos, pão francês, queijo fresco, goiabada e café forte. Junto com a comida distribuiram formulários de imigração e da alfândega para quem precisasse.
Terminada a última refeição a bordo, loucos para descansar numa cama de verdade, os passageiros passaram a organizar a sua chegada. Do lado de fora, a claridade já revelava o mar no horizonte. Embaixo, as primeiras luzes estavam se acendendo na descida da serra para a Baixada Fluminense. Enquanto os primeiros carros e caminhões se aventuranvam na madrugada vazia a tripulação percorria o corredor recolhendo as bandejas.
Rafael e Renée estavam preenchendo os formulários. O casal chamava atenção por sua discreta bizarrice. Ele era baixo, olhos azuis espertos e frios, cinquenta e poucos anos, um tanto antipático e com um pesado sotaque do leste europeu. Em contraste, ela era uma londrina com sotaque chique, alta e exuberante, de cabelos curtos e castanhos e muito mais jovem que o marido.
Não demorou muito para a voz feminina retornar aos alto-falantes pedindo a todos que apagassem seus cigarros e apertassem os cintos de segurança. Do lado de fora a vista se tornou magnífica. O dia estava raiando sobre o Rio de Janeiro. O sol dourava o Cristo Redentor junto com a vegetação e as pedras gigantescas da Floresta da Tijuca em torno dele. As águas da Baia de Guanabara e as ilhas no mar aberto ja se misturavam da maresia. Aquele espetáculo foi bem-vindo após praticamente dois dias chacoalhando numa aeronave apertada ouvindo o ronco incessante das hélices. Rafael deu uma olhada no relógio, 6:15 da manhã, 45 minutos mais cedo do que o esperado.
O avião deu sua sacudida final quando tocou o solo em alta velocidade. Assim que se tornou controlável, os passageiros aplaudiram o piloto que passou a guiar a aeronave lentamente rumo ao terminal. Quando parou, a tripulação apagou os sinais de apertar os cintos e de parar de fumar e abriu a porta deixando ar fresco da madrugada entrar para ventilar a cabine claustrofóbica.
Com seus pertences prontos, Renée e Rafael se puseram na fila de saída. Na porta, depois de trocarem sorrisos cansados com a aeromoças, uma brisa tropical acariciou suas peles lhes dando boas-vindas. Com sua nova cidade à frente, desceram a precária escada e se dirigiram ao terminal com os outros passageiros.
A bruma espessa e seu calor húmido tiveram o efeito de evaporar o torpor da viagem na Renée. Eufórica com o início de sua aventura carioca, estava parecendo uma criança numa loja de doces tentando puxar conversas com o marido exausto e monosilabico.
“Deveríamos achar um apartamento perto da praia, não acha? A revista disse que perto da floresta há risco de malária.”
Entraram na fila fila da imigração e ela não parava. “Eu quero ir para praia ainda hoje. Copacabana deve estar explendida!”
Quando chegou sua vez, o policial acenou. Depois de mostrarem seus passaportes e de entregarem os formulários, receberam os carimbos requeridos. Dali em diante, estavam liberados para viver no Brasil.
Ao sair para o saguão de desembarque, talvez por estarem vindo para ficar desta vez, sentiram o desconforto de serem completos estrangeiros. Com exceção dos outros passageiros europeus, ninguém ali falava inglês ou qualquer outra língua que lhes fosse familiar. Além de have mais “não-brancos” do que estavam acostumados, a emoção e os abraços com que os locais recebiam seus familiares e amigos, realçava sensação de alienação. No fundo de suas mentes uma pergunta gritava em silênico: “Será que tomamos a decisão certa?”
*
No saguão do aeroporto carregadores uniformizados e educados apareceram se oferecendo para levar suas malas até a fila de táxis do lado de fora. Depois de se certificar que as bagagens estavam devidamente organizadas no porta-malas e de dispensar o seu primeiro dinheiro local na gorjeta, entraram no carro.
“Por favor”, disse Rafael antes de ler o papel com o endereço do hotel e ponunciá-lo em um português quebrado que duvidou que o motorista fosse entender. Ele finalizou o desconforto com um desajeitado “Obrigado”.
O motorista disse OK, mas pediu através de sinais para ver o pedaço de papel. Depois de dar uma lida, abriu um sorriso amigo e disse, “Hotel Miramar, Copacabana, yes mishterr!”
Assim que partiram, a estranheza que sentiram no aeroporto sumiu. O sol já estava a pino e fazia calor. Animados, colocaram seus óculos escuros e passaram a apreciar o cenário. Logo pegaram a Avenida Brasil, que estava apinhada de carros de fabricação americana, caminhões e ônibus de qualidade duvidosa, todos indo rumo ao centro da cidade. De repente, sentiram o mau cheiro vindo da favela beirando a estrada. O fedor forte passou quando chegaram na zona portuária. Apesar de mais primitiva que a de Londres, era charmosa com sua série interminável de armazéns coloridos com chaminés e mastros de navios aparecendo logo atrás.
Do porto, o motorista, agora concentrado num programa no rádio, seguiu para o Centro. Lá atravessaram sua mistura contrastante de igrejas coloniais, prédios públicos de estilo modernista e construções vistosas da Belle Époque. Ao fim da avenida elegante e arborizada, chegaram na Baía de Guanabara onde deram de cara com o Pão de Açúcar. Dali o motorista, ousado demais para seus gostos, continuou a viagem apressada beirando a baía. Lá passaram pelos bairros do Flamengo e de Botafogo antes de finalmente atravessar dois túneis e chegar em Copacabana. Fizeram aquela curta viajem com as janelas abertas, sentindo o vento no rosto, absortos pela beleza da cidade e relevando o programa de rádio incompreensivel e as barbeiragens do motorista.
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A primeira coisa que fizeram depois que a bagagem chegou no quarto e que fecharam a porta, foi ligar para o Paulo. Ele havia dado a desculpa de que naquele dia tinha assuntos importantes a resolver e por isso não tinha dao para ir de madrugada recebê-los no aeroporto. Após uma conversa animada e piadas sobre o voo interminável marcaram de se encontrar no dia seguinte.
Paulo era um sujeito curioso. Além da sua personalidade fácil e de seu endereço exótico, possuía outra peculiaridade: era comunista. Esse tinha motivo original do seu exílio da Alemanha já nos meados dos trinta. Havia perigo de morte. Nunca soube dos detalhes dessa ameaça nem se continuou sua militância no Brasil, mas se tivesse, isso não teria sido pouca coisa no auge da ditadura de Vargas quando chegou.
Nos trópicos, a amizade entre os dois veteranos da loucura europeia floresceu. Apesar de antifascista, Rafael estava longe de ser de esquerda. De qualquer forma, os longos papos em iídiche trouxeram de volta as discussões políticas, tema central na vida judaica no leste europeu.
Durante uma dessas conversas, Paulo gabou-se de seu relógio produzido na comunista Alemanha Oriental ou RDA. “Está vendo este relógio aqui? Ele foi produzido livre da exploração capitalista. Pode ver! Ele funciona tão bem quanto qualquer relógio feito na América!”
Embora o relógio não fosse lá essas coisas, ao analisá-lo meu pai teve um “momento eureca”. Ele percebeu que tinha em mãos uma excelente oportunidade de negócios. Na cabeça dos brasileiros, alemão era sinônimo de confiável e, fabricados em um país comunista, seus preços seriam muito competitivos. A recém-criada classe média baixa brasileira iria, certamente, consumi-los como água.
Anos antes do golpe de 1964, com a ajuda dos contatos partidários do Paulo, Rafael atravessou o muro de Berlim, e foi se encontrar com o comissariado encarregado da fábrica de relógios. Com eles conseguiu um contrato para ser o representante exclusivo para o Brasil.
À primeira vista poderia parecer estranho que alguém com o seu passado fosse ganhar a vida vendendo produtos alemães e, pior ainda, comunistas. Seja como for, o rigor e a praticidade teutônica lhes eram reconfortantes. Adotando essa mesma objetividade fria, foi em frente sem deixar que sentimentalismos e ideologias interferissem nas suas decisões. Nisso, ele era igual à maioria de seus amigos judeus. Apesar de tudo o que eles e seus entes próximos haviam enfrentado durante a guerra, ainda guardavam respeito pelo pragmatismo e pela eficiência germânica. A subserviência ainda estava viva e, como a maioria dos sobreviventes europeus orientais, continuavam a ver a Alemanha como a liderança nata e incorruptível do seu mundo.