Notas breves sobre o Anarquismo

Para inaugurar minha colaboração neste Blog, que tem como objetivo ser uma Voz da Esquerda Judaica, apresento meu primeiro Texto, na verdade, Notas introdutórias.

Começo por afirmar que o Anarquismo não se implanta!

Trata-se de um movimento crítico, emancipatório, libertário, constante, irresistível, que tem suas raízas no Judaísmo mais antigo. Tudo o que for unidimensional, autoritário ou perversamente dogmático fica, e ficará, para trás, seja de caráter religioso, econômico, jurídico ou político. O Anarquismo anda primordialmente de mãos dadas com Educação e Liberdade. Cito alguns bons autores anarquistas: Godwin, Proudhon, Bakunin, Tolstoi, Oscar Wilde, Emma Goldman, Martin Buber, Gustav Landauer, Paulo Freire, Noam Chomsky, entre outros…

O Anarquismo é pluridimensional, horizontal, solidário e, sobretudo, destaca o indivíduo em seu aspecto integral sem permitir, de modo algum, que se perca em um coletivismo destrutivo (usei aqui um pleonasmo expressivo!)

O Anarquismo é, portanto, movimento – não sistema. Jamais haverá fim para o Movimento Anarquista, mas fases cada vez mais emancipatórias! Na filosofia de Gustav Landauer, judeu anarquista, e amigo próximo de Martin Buber, é o próprio espírito da “revolução”, não no modelo de uma dialética comunista (ou marxiana, se quisermos), mas na dialética proudhoniana (Landauer era um leitor e estudioso profundo de Proudhon), ou seja, a relação constante entre utopia e topia nas pluralidades que coexistem.

Muitas das conquistas contemporâneas devem-se realmente ao Movimento Anarquista. Por exemplo, conquistas trabalhistas, sindicais, emancipação da mulher, divórcio, superação do gênero, liberdade sexual, reconhecimento dos vários núcleos familiares, inclusão, movimentos sociais emancipatórios, movimento de luta por terra e tantas outras experiências.

Uma questão que vem sendo debatida refere-se ao anarquismo capitalista ou, em outras palavras, “anarquismo de direita”. Não há de modo algum anarquismo de direita ou capitalista, exatamente porque o anarquismo é movimento emancipatório das prisões e alienações produzidas pela direita e pelo capitalismo. Por outro lado, não se pode confundir anarquismo com caos, bagunça, quebradeira, violência e assassinatos, pois estas são características capitalistas. Se houve na história alguém que praticou assassinatos em nome do anarquismo, fê-lo por conta própria, em seu próprio nome, não do movimento.

Em outras palavras, o anarquismo é libertário e, por isso mesmo, não pode ser de Direita. Libertário é muito diferente do conceito de liberal e, de modo abissal, diferente do neoliberal. Aliás, o anarquismo combate o neoliberalismo, mas pode dialogar com o Liberalismo, mas mantém-se irmão do Socialismo. Dialogar não é a mesma coisa de pertencer! O liberal pretende o Estado mínimo para seu proveito, sem se importar com o restante da sociedade, enquanto o libertário pretende uma sociedade emancipada, plural, não dirigida, não condicionada, em que o indivíduo se encontre com outro indivíduo em caráter solidário.

O anarquismo é, sim, individualista, e isso é um tópico inegociável. Entretanto, ele não é egoístico. É individualista no sentido de respeito ao indivíduo em sua integridade e singularidade. Por isso mesmo, o anarquismo combate o fascismo, o militarismo, a massificação, a coletivização e as ditaduras, sejam comunistas ou capitalistas.

O anarquismo defende e promove o amor livre – não a promiscuidade, embora não tenha regras morais. É importante que se diga: o anarquismo não é moralista, mas é, em tudo, ético. Ética e Moral são dois conceitos distintos no anarquismo! Porque a promiscuidade é capitalista, machista, dominadora e sexista. O anarquismo defende o amor e o amar em todas as suas formas (adultas e conscientes), menos o domínio patriarcal e fálico (coisas da Direita).

Enfim, não esperemos que um anarquista carregue uma bandeira nacional, ou a foto de um político e sequer um emblemático “A” tatuado em seu corpo. Anarquistas não pregam e não doutrinam, mas provocam, e muito, o debate crítico. O anarquismo é, em tudo, a raiz do pensamento crítico! Ademais, o anarquista não cultua, mas apenas tolera o Estado, desde que “essa coisa” esteja a serviço de todos e todas, não a serviço de alguns, sejam eles comunistas ou capitalistas. Por isso mesmo, o anarquista tende a dialogar com sociais democratas.

 

(Pietro Nardella-Dellova)

Uberização: novos grilhões

Cerca de 13 a 14 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. O cenário tem cada vez mais se tornado pessimista para empregos formalizados, levando as famílias buscarem uma saída para o sustento ou renda complementar, esse novo modelo espoliativo é visto por uns como solução após as sequentes Revoluções Industriais, hoje com a automação e inteligência artificial.

A Uberização sendo alternativa para os desempregados, como pode ser aplicado um dos prós, que é “A liberdade de escolher horário e tarefas…” Bem, é algo que soa aos meus ouvidos e entendimento como paradoxal. A exemplo de um ou uma supridor ou supridora das despesas familiares básicas: aluguel, condomínio, energia, água, alimentação etc.

Pensemos, se a pessoa que está nesse formato de trabalho para atender as necessidades com as ofertas do mercado uberizado, pode se dá ao luxo dessa escolha, se no final do mês tem suas entradas e saídas que não são compatíveis e o que se deve fazer é trabalhar até a exaustão, então, como vai ter mais tempo para vida pessoal e o lazer que se faz necessário a saúde?

Sendo esse um dos argumentos favoráveis que normalmente é postulado pelos “empregadores” enaltecendo essa flexibilidade de serviço como algo bom e positivo… Aí, o meu pensamento voa para antes e pós 13 de maio, aqui na terra brasis, ou seja, é ou não um formato de escravidão moderna? Os grilhões são os aplicativos, que oferecem tudo ao consumidor para o tempo, vilão da liberdade moderna, ser CAPITAL.

Não sou cientista do mercado e direito do trabalho. Sou proletária aposentada com vivência de dois regimes trabalhistas: CLT e Estatutário, o que rege hoje meu contra cheque. Me lembro as terríveis perdas na transição de um modelo para o outro, as adequações e depois fui me acostumando e reorganizando as despesas. Então, imaginemos agora esse novo “estandarte” trabalhista… O trabalhador ou trabalhadora sem legislação, sem salário fixo, sem nada, apenas o seu esforço ativo de trabalhador ou trabalhadora… Se adoece a criatura, como vai trabalhar e se a escolha é não faltar, por não  pode agora “escolher” o seu tempo flexibilizado, pois as contas chegam a cada fim de mês. É vida? É liberdade? É moderno?  Ou lembra os tempos de fábrica e minas de carvão, antes da primeira greve por direitos trabalhistas, que Émile Zola bem retratou em sua obra prima O Germinal… Estamos retroagindo em tempos tão modernos? Vejo com olhos de um passado/presente, o capitalismo enfurecido engolindo o homem e demais criaturas. Me faz refletir a dor do trabalho incerto…

Conheci um jovem que tem por primazia cuidar da mãe e das irmãs, que trabalham em contratações pontuais em eventos de formatura. Ele é o arrimo da casa, a mãe faz pão e bolos para vender. No dia que conversamos vi a exaustão em seu olhos, um número de entregas absurdo, mal tinha tempo de mastigar um sanduiche. Ele estava estudando para um concurso quando a empresa que trabalhava enxugou os “cooperadores,” ele e mais três, sem muitos critérios, perderam o trabalho fixo com a legislação trabalhista. O tempo passou, seguro desemprego, bicos, um contato aqui e outro ali, mas chegou a hora necessária para uma atitude produtiva: se uberizar para o sustento maior familiar. 16, 17, 18 horas dia trabalhadas, horários flexíveis para os patrões, ele que se vire e se adeque ao novo modelo como gestor e empregador de si mesmo, de suas horas, de seus dias e de sua morte, talvez, de exaustão ou no trânsito infernal e assassino.

 

Gigi Pedroza

A força de Olavo

O fenômeno Olavo (Olavo de Carvalho e seus seguidores) me intriga já a alguns anos. Recentemente, um artigo da escritora Elaine Brum publicado no El País, tendo como tema a ascensão de Bolsonaro como representante do homem mediano brasileiro ao poder inspirou-me a um paralelo que deixei delineado em um prefácio que escrevi para o livro “Mistérios da Lua”, de Antonio Farjani.
A história começa cedo, na minha adolescência e termina em um passado relativamente recente, quando eu tive acesso a um conjunto de informações científicas e históricas que preencheram gigantescas lacunas nos meus campos de conhecimento em uma ciência que muito prezo, a saber, a Física. Em um curtíssimo espaço de tempo, tive a percepção do quanto fui (e somos) maltratados na nossa formação escolar geral, que por muitos anos nos despeja quantidades irracionais de conhecimento tido como científico (e de fato, na maioria das vezes o é) mas desacompanhadas de qualquer ferramental que nos permita avaliar o peso e o valor desses conhecimentos. Uma determinada fórmula, uma ferramenta de cálculo, uma tabela periódica de elementos químicos, a imagem teórica de um átomo ou de um cromossomo, tudo isso, nos é apresentado como um simples fato, quando na realidade resultam muitas vezes de décadas de pesquisa ou da vida inteira de um(a) certo(a) cientista. O conhecimento é apresentado desprovido de humanidade, de conexão histórica, de contexto e quase sempre de significado e aplicabilidade prática.
A consequência de todo esse destrato com a ciência e com o conhecimento é que ele passa a ser tratado como banalidade, como peça de consumo, descartável, reciclável, inútil muitas vezes. Quantas vezes, como médico, observei esta confusão entre conhecimentos sólidos e baseados em fortíssimas evidências, e conhecimentos derivados até do folclore mais picaresco, trazidos às vezes à mesa em estado de equivalência.
Por outro lado, para aqueles que não frequentam a academia mas de alguma forma tem alguma sede de conhecimento, o confronto com o volume de informação que se produz a cada segundo no mundo pode produzir experiências frustrantes, trazendo ainda a sensação de distância, de exclusão dessas fontes de geração de conhecimento e uma total falta de controle e compreensão. Junte-se a isso alguns exageros e distorções do cientificismo, que chegam mesmo a desprezar qualquer conhecimento que não tenha sido obtido pelos métodos cartesianos, levando muitas pessoas a sentirem-se massacradas pela não militância acadêmica, esta, acessível a uma fração muito pequena da população.
Esses “excluídos” do mundo científico existem em todas os extratos sociais, inclusive entre aqueles com diploma superior sem pós-graduação sensu strictu (formação de pesquisador/docente). O que não faltam são médicos, engenheiros, advogados, historiadores, farmacêuticos, clérigos, etc., sem qualquer noção de filosofia da ciência e metodologia científica, e que habitam essas zonas de desconforto nos campos da intelectualidade.
Para esses excluídos, surge um “igual”, um homem sem formação acadêmica, mas inteligente, articulado, e certamente com muita cultura, mas com grande grau de oportunismo e capacidade de formar esse forte vínculo com seus “semelhantes”, entitulando-se autodidata, apresentando-se como bem sucedido. Com ideias bizarras e que se contrapõem a quase tudo e a quase todos, transforma-se em verdadeiro herói e mito, dando vazão a todas as fantasias que os aterrorizados exilados da ciência cultivam para suprir suas carências e necessidade de afirmação. Para estas pessoas, um homem com a capacidade de explorar habilmente as contradições de um mundo complexo e eventuais fragilidades da ciência é um verdadeiro sacerdote, que sabe explorar muito bem as questões de fé.
Assim, Olavo de Carvalho é sintoma de um mundo (ou país) onde o conhecimento mal transmitido e o ferramental insuficiente para compreendê-lo gera legiões de apavorados em busca de um porto seguro “intelectual”, que funcione ainda, nesta fúria contestatória, como uma espécie de “vingança” contra toda essa complexidade, aliando-se a isso a incapacidade que temos hoje de construir uma necessária crítica ao cartesianismo e ao racionalismo quase desumano que em certos territórios faz hoje da ciência algo próximo de religião e da academia, quase um “Vaticano”.
O tamanho do sintoma e suas nefastas consequências políticas só nos dá a dimensão da doença que habita nossa sociedade. Ela é sistêmica, adquiriu caráter contagioso e pode ainda tornar-se genética, transmitindo-se à próxima geração. Paradoxalmente, apenas a abordagem histórica e científica pode nos permitir observar que tudo isso é apenas repetição. Já ocorreu e tem um ciclo a percorrer. Paciência, é o que precisaremos para atravessar esta onda.

Bordando a Realidade

Tenho lido muitos artigos de opinião. Todos bons e com um tom de denúncia, convocação para o pensamento crítico e qualquer coisa de metáforas. Todos opinando e mostrando possibilidades para mudarmos o discurso com o que está a se espalhar pelo Brasil: o bosonarismo e suas moléculas, que em sua estupidez tem tentado varrer a Constituição Federal do cotidiano brasileiro.

Hoje, conceituados ou não, jornalistas, blogueiros, faceboockeanos e demais entidades ligadas à escrita se posicionam em suas bolhas, arquétipos de segurança e respostas ao que foi dito com inteligência, sarcasmo, aforismo etc. e tal. Eu sou um desses partícipes no faceboock.

Mauro convidou-me por duas vezes para colaborar no seu Blog tão necessário nesse tempo que de bicudo já não é mais, pois extrapolou o mínimo de civilidade. Estamos em tempos perversos: antissemitismo, xenofobia como regra, preconceitos em todas as sequências, institucionalização dos horrores: a morte tem cor e etnia. A cor é do negro, do índio, de quem está à deriva, à margem do lema presidencial: DEUS, PÁTRIA, FAMILIA. Um Estado teocratizado. Sabemos que hoje a Democracia é a boneca sem braços e pernas da criança abandonada.

O que de novo há no front desse DESgoverno? Absolutamente nada! Nenhuma via é observada a favor do coletivo, do povo. Somos atropelados diuturnamente por atitudes distópicas do presidente ao soldado raso. O que fazer?

Dia 8 de março, um dia emblemático e historicamente cheio de significados, aqui, no Brasil, relacionamos ao incêndio ocorrido em Nova York no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shiirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens [na maioria, judeus], que trouxe à tona as más condições enfrentadas por mulheres na Revolução Industrial, iremos às ruas pelejar. Não sei o que nos espera, mesmo com a proposta dialógica de nossas manifestações. Só sei que queremos um país vestido de dignidade para os seus cidadãos e cidadãs sem medo dos becos escuros e livremente andando de mãos dadas sem a abordagem inescrupulosa e arrogante de quem se veste de servidor público, ornado de uma farda com a truculência como diálogo.

Não estou pedindo o Brasil de volta, pois descobri que havia nessa linda colcha de retalhos muitos armários do fascismo e neonazismo. Quero sim, um país civilizado respeitando a carta da Constituição. Quero sim, um país que sabe votar com letramento e não em currais de opressão seja por quem for, não importa de onde emana esses podres poderes de anular a liberdade de quem quer que seja. O voto é a maior carta de alforria de um povo.

Bordo de realismo esse inapto governo, pois sua biografia era aberta aos 57, 5 milhões de eleitores, nos 28 anos como parlamentar. Todos conheciam o seu discurso acéfalo e cruel. Todos!  Erraram por ódio, por se sentirem no direito, através do voto, jogaram no obscurantismo toda a Nação. O que reverbera é o estúpido mantra: “TIRAMOS O PT!” Isso falando em eleitores… E os representantes políticos, que egoicamente foram abandonando o round, e, cá deixaram o “destino” da Nação em nossas fragmentadas mãos. Lutamos não exatamente pelo PT, mas pelas asas da liberdade, que sabíamos estar por um fio e a barbárie seria instalada sem piedade.

O dialogismo tem que haver em mares revoltos, essa é a grande lição de 2018. Espero que reflitam com o rigor da maturidade política este ano e para 2022. Caso contrário, a amada Pátria será um jazigo sem epitáfio legada aos vermes. O NÓ do bordado está dado. Obrigada!

 

Gigi Pedroza

 

Montevideanas

al sur al sur/está quieta esperando/Montevideo (Mario Benedetti)

Lá tantas vezes que não me sinto turista. A Montevidéu que encontrei desta vez se chama memória.

Numa rua típica, baldosa persistente, argamassa quieta, estava a Fundação Mario Benedetti. Do lado de fora, como em tantas outras casas montevideanas, não se suspeita os tesouros que esconde. O grande intelectual, que não teve filhos, nem deixou herdeiros, deixou ordens claras do que fazer com seu imenso legado. Um conselho de curadores, todos voluntários, respeitam a vontade do Mario, preservando sua imensa biblioteca, as obras de arte que ganhou, seus móveis mais significativos. No fundo, um pátio cálido, que convida ao silêncio. Este é o ano de seu centenário de nascimento. As comemorações já começaram e têm a cara do uruguaio universal, identificado com a cidade e suas gentes. Muitas atividades ao ar livre, em forma de diálogo e acolhimento. Polindo, em suma, a memória de um tempo fora do tempo.

No centro da cidade, uma taberna vasca. Preferia uma flamenga, mas resolvemos arriscar. Mais uma vez, uma casa-surpresa. Do lado de fora, apenas a fachada meio ferida pelo tempo. Sobe-se a escada, e … voilà ! Corrimões de madeira centenários, uma porta com vitral colorido que dava acesso ao ginásio de pelota vasca. E tinha gente praticando. Na taberna, boa comida e pessoas conversando sem celular (gente estranha aquela, sem pescoço torto e de olho atento). A construção celebra a imigração do País Basco. Memória viajante.

Afastado do centro, está o Museu da Memória. Criado para lembrar o período ditatorial (1973-1985), que, como no Brasil e em outros países da América Latina, institucionalizou o terrorismo de Estado, fica num casarão que pertenceu a um general. No século XIX, era sua casa de veraneio e, conta-se, lá os adversários eram servidos aos leões que mantinha enjaulados. É um lugar impressionante (embora um tanto maltratado por falta de manutenção e de informações mais detalhadas sobre o acervo impactante). Quem assistiu o filme Uma noite de 12 anos, que reconstitui a situação dos chamados reféns da ditadura uruguaia (entre eles, Pepe Mujica), não tem como ficar indiferente. Lá estão os uniformes reais dos presos políticos (dá calafrios a semelhança com os de campos de concentração), portas das celas, objetos produzidos pelos prisioneiros, fotos dos que foram assassinados e os corpos desapareceram. O objetivo do museu não é clamar por vingança, mas, tal como fazem os judeus com o Holocausto e os japoneses com a barbárie nuclear em Hiroshima e Nagasaki, lembrar para que não volte a acontecer. Memória de dor e de luta.

Não pude evitar um certo desconforto com dois aspectos. O museu fica muito afastado da região central. Talvez por isso, tenha poucos visitantes. Éramos os únicos quando lá fomos. Seria essa uma evidência de desapreço pela história recente do país ? Foi quando lembrei das Marchas del Silencio, que acontecem todos os anos no mês de maio. São grandes manifestações de massa, que reivindicam a localização dos que, sob a custódia do Estado, desapareceram durante a ditadura. Esquecimento ou permanência ? Em qual ponta estaria a verdade ?

Foi quando me deparei com a fotografia de um desaparecido, em exposição numa estrutura em forma de viveiro. Próxima do chão, ela estava quase encoberta por um galho de árvore. Percebi que havia duas formas de apreciá-la. A primeira, projetando o crescimento das folhas do galho. Fatalmente cobrirão a foto, fazendo desaparecer pela segunda vez, simbolicamente, o fotografado. A segunda seria enxergar as folhas como uma proteção da imagem, perpetuando-a.

Qual das visões prevalecerá ? A resposta está no povo uruguaio. Memória em construção.

O Tempo Joga Contra Nós

Lamento intensamente a apatia do campo progressista/constitucionalis X1ta do povo brasileiro. Deixar as ruas para o fascismo pedir publicamente o fim das instituições democráticas é crime de lesa pátria.

E eu, que assisti o mesmo nonsense no fim de 63 e início de 64, sinto hoje o mesmo vazio no estômago de então.

A classe média mais uma vez erra, só que agora não se trata de apoiar um golpe organizado pelos militares, mas de apoiar a loucura de um grupo de psicopatas de extrema-direita que não respeitam limites.

Eles são sociopatas no comando de uma máquina infernal de fabricar mentiras e divulgá-las com intensidade supersônica, deixando a teoria de Goebbels usando fraldas de bebê.

O perigo é real pois tem o efeito de uma bola de neve com todas as consequências já vividas e conhecidas desde os anos da ditadura.

Sim, ou reagimos contundente e massivamente, mostrando sem deixar lugar para dúvida de que somos muitos mais os que defendemos a Democracia, ou Inês é morta.

Bruno Kampel