De Remendo em Remendo…

Já não tenho mais nenhuma dúvida de que o segundo maior erro da Constituição de 1988 (o primeiro foi instituir um regime presidencialista, mas regulamentá-lo como parlamentarista) foi o empoderamento do Ministério Público.

Trata-se, em princípio, de medida correta e democrática. Os constituintes, então, adotaram-na imbuídos das melhores intenções.

Só não previram o quanto a sociedade brasileira, em seu atual estágio de desenvolvimento, e com suas características centenárias, estava totalmente despreparada para isso.

Como todas as instituições importantes do país nesta quadra histórica, o MP é totalmente inacessível às camadas populares, que são as que dele mais necessitam.

E, na mão de nossa classe média ressentida, recalcada e atrasada, terminou por se tornar mais uma corporação a serviço da estrutura opressiva reacionária que sempre deu as cartas no Brasil.

Hoje, não surpreende a ninguém com um mínimo de discernimento o fato de ser ele um dos principais pilares de criação e sustentação do esquema que nos conduziu a um golpe, o qual pariu um regime miliciano de extrema direita.

De guardião da legalidade, o Ministério Público passou a promotor e avalista das mais escandalosas ilegalidades.

A imaturidade da sociedade brasileira diante de um avanço civilizatório tão significativo gerou uma instituição perversamente distorcida pela explosiva mistura de vaidades despropositadas e exacerbadas, arrogância petulante, punitivismo primário e sobretudo inócuo, corporativismo patológico, e arraigadíssimos preconceitos de classe.

Ao contrário de consolidar nossa democracia, o MP a freia naquilo que lhe confere o sentido mais amplo e profundo.

O andar da carruagem revelou que as pessoas – com inúmeras e fantásticas exceções, que nem por isso deixam de ser exceções – não estavam emocionalmente preparadas para tanto poder.

Ele não lhes bastou. Subiu-lhes à cabeça.

Passaram a buscar protagonismo em todas as searas que pudessem alcançar. Criaram a máxima de que ninguém está acima da lei. Exceto eles próprios.

Defensores constitucionais da legislação, não hesitam em flexibilizá-la escandalosamente, quando para dela se beneficiarem. O rigor é só para os outros.

Não vou ficar aqui apontando a fogueira de vaidades, já de todos bem conhecida.

Tampouco vou esmiuçar o papel vergonhoso do Ministério Público na construção do cenário desolador que hoje coloca o Brasil entre os párias do mundo. Há inúmeros analistas sérios que já o fizeram.

Vou me ater ao título, e abordar outras situações, que compõem e complementam o quadro à perfeição mas, a meu ver, têm recebido menos atenção.

O MP é responsável, hoje, por pelo menos dois remendos institucionais escabrosos, capazes, por si sós, de atrasar nosso processo civilizatório em anos, talvez décadas. Isto porque institucionalizam o combate aos efeitos, em detrimento das causas, de seríssimos problemas que afligem nosso País. E, pior, o fazem em afronta direta à própria Constituição, cuja defesa deveria ser seu dever primário.

Os remendos são filhos diletos dos já referidos punitivismo, corporativismo, preconceito e viés ideológico protofascista.

O primeiro deles é terem liderado uma luta, afinal vitoriosa, contra a PEC 37, que explicitava sua incompetência para investigar crimes.

A PEC, a rigor, era desnecessária, porque a Constituição é bem clara a respeito da exclusividade investigatória da Polícia Civil.

A posição do MP, contrária à Carta Magna, mas ainda assim hoje consagrada no Brasil graças à luta dele, em causa própria, é aberração visível a olho nu para qualquer observador minimamente inteligente e imparcial.

Importante lembrar que à época da discussão da PEC o principal argumento de nossos “bravos” procuradores era o de que a Polícia Civil não dispunha de condições para dar conta da missão satisfatoriamente.

Então, ao invés de reconhecerem esta situação como causadora da deficiência crônica das investigações criminais, liderarem um esforço para revertê-la, e criar uma discussão séria a respeito da questão policial no País – e os céus sabem o quanto precisamos disso! –, o que fazem Suas Excelências? Remendam-na, em benefício próprio. Utilizam todo o poder que a Constituição ingenuamente lhes outorgou para enganar a população, e mobilizá-la no sentido de levar sua instituição ao proscênio. Isso também ao argumento – implícito, mas nem por isso menos cafajeste – de que ela sabe melhor. Só eles são bons. O resto é o resto.

O resultado? Quem investiga é o mesmo que acusa, o responsável pelo controle externo da polícia faz o trabalho da própria polícia, y otras cositas más. Uma barafunda.

O segundo remendo também foi vitorioso em certo momento. Hoje, felizmente, o Supremo Tribunal Federal restaurou a sanidade. Resta saber até quando.

É inadmissível a atitude do MP de pressionar – outra vez – para que se institucionalize a inconstitucional – outra vez – prisão do réu antes do trânsito em julgado de sentença condenatória.

O argumento de que a obediência ao texto constitucional vai causar impunidade, e que centenas de criminosos serão libertados outra coisa não é – outra vez – do que um remendo. Dos mais tristes e perigosos.

Afinal, por que, diabos, há tantos presos cujos recursos não são julgados?

Ao invés – outra vez – de trabalharem para diagnosticar e reverter as causas da morosidade da justiça, da linha de produção de criminosos em que se transformou a sociedade dos despossuídos, e da consequente superpopulação carcerária (entre as quais a brutal injustiça social que nos assola), o que fazem Suas Excelências? Buscam – outra vez – alçar-se ao protagonismo descabido, desta vez para satisfazer sua sanha vingativa. A qual, por isso mesmo, perde o sentido mais amplo que deveria ser inerente à função acusatória, de saneamento do tecido social.

Não é por acaso, absolutamente, que a quase totalidade dos promotores e procuradores provenha de famílias brancas e abastadas. Tampouco é por acaso que a esmagadora maioria das pessoas que eles não querem ver na rua seja composta de pretos e pobres.

Eles sabem disso, mas fingem, apenas fingem, que não. Sabem que do contrário não poderiam explicar sua inércia, que é fundamental para manter o bem-bom, garantir que os excluídos não o ameacem e, de quebra, ainda conseguir uma boa e farta exposição na mídia. Porque, afinal, ninguém é de ferro!

O problema do remendo é que termina por sempre desrespeitar o contexto original.

E quando – outra vez – o galo cantar, sequer haverá brioches.

 

  • Agradeço a leitura crítica e contributiva de Tânia Maria Baibich.

Um dia de tristeza e mais uma vez a prova de quem é o veneno do mundo

por Jean Goldenbaum

Amigxs, hoje venho dividir com vocês a tristeza que na semana passada pairou sobre a Alemanha, onde resido e residi praticamente toda a minha vida adulta. Na última quarta-feira (19/2/2020) ocorreu aqui o pior atentado terrorista dos últimos 24 anos realizado por um cidadão ou morador do país. Na cidade de Hanau, próxima a Frankfurt, um neonazista invadiu dois bares de narguilé e a tiros assassinou nove pessoas. Na verdade dez, pois a única mulher entre as vítimas, estava grávida. Todos os falecidos eram estrangeiros (nascidos no exterior ou de origem migratória): dois curdos, dois turcos, um afegão, um bósnio, um búlgaro, um romeno e uma sinti (cigana).

Após a chacina, o ofensor retornou à sua casa, assassinou sua mãe de 72 anos, e se suicidou. Antes disso, publicou na internet um bizarro “manifesto” de 24 páginas através do qual escancara toda a sua alucinação mesclada com ódio. Neste documento ele expressa seu desejo de aniquilação de estrangeiros, ideias sobre eugenia, frustrações sobre sua incapacidade de ter uma vida amorosa com uma mulher, e outras teorias da conspiração envolvendo até mesmo o sociopata presidente norte-americano Donald Trump.

Este ataque confirma mais uma vez a estatística já bem conhecida nas últimas três décadas na Alemanha: a maioria absoluta dos ataques de ódio no país é realizada pela extrema-direita. Não por estrangeiros, não por islâmicos, não por esquerdistas. O último ataque tão “bem-sucedido” como este havia ocorrido em 1996 em Lübeck, quando neonazistas incendiaram um lar de asilados, matando dez pessoas e ferindo mais de 50.

Cabe também lembrar de outros dois episódios, este mais recentes: o de 2016, em que um neonazista de Munique com uma pistola assassinou nove estrangeiros e feriu diversas outras pessoas; e o de 2019, em que o criminoso atirou na porta da Sinagoga de Halle e tentou invadi-la, e depois assassinou duas pessoas em um restaurante turco.

É importante também registrar aqui que, desde a queda do muro de Berlim, o único grande ataque terrorista (12 mortes) que ocorreu por responsabilidade de um muçulmano, foi realizado em 2016 por um membro do Estado Islâmico, que se infiltrou ilegalmente no país, e não possuía status de asilado ou visto algum. Ou seja, era um criminoso internacional, procurado por variadas polícias e possuidor de diversas cidadanias falsas, e não um cidadão que fazia parte do – em minha opinião maravilhoso – programa de aceitação de refugiados da Alemanha.

O partido de extrema-direita na Alemanha, o AfD, fundado em 2013, teve sua ascensão em 2015 justamente através da propagação da teoria de que os milhões de refugiados que Angela Merkel permitiu que entrassem na Alemnha transformariam rapidamente o país em uma espécie de califado europeu. Incitando ódio, racismo e violência todos os dias, o partido reúne e organiza o que há de pior na sociedade alemã. Este, que nada mais é do que o partido nazista alemão com uma roupagem contemporânea e adaptada ao século XXI, hoje ocupa o segundo escalão político do país, com um eleitorado que varia entre cerca de 10 e 15% dos votantes. Assim, desde 2015 – pasmem, amigxs leitorxs, – mais de 100 ataques da extrema-direita a alvos estrangeiros variados (islâmicos, judaicos, entre outros) já foram documentados. E o AfD, assim como os republicanos trumpistas, e assim como toda a corja ultradireitista brasileira faz, continua a estimular e legitimar todo o ódio. (Ah sim, uma “curiosidade”: este que foi o único partido alemão a parabenizar o monstruoso presidente brasileiro por sua eleição. Que surpresa, não?…)

Pois bem, culpar o AfD não é somente a minha opinião, mas a da maioria dos alemães. Uma recente pesquisa (veja a referência abaixo) evidenciou que 60% dos alemães atribuem ao AfD responsabilidade pela violência da extrema-direita (26% não atribuem e 14% não sabem). A pesquisa também aponta que a maioria, 49%, considera os neonazistas a maior ameaça de terrorismo na Alemanha (27% considera os muçulmanos e 6% considera a Esquerda, enquanto 18% não sabem.)

Dentro do mundo político, tivemos a importante declaração do político Norbert Röttgen do CDU (maior partido alemão e de Angela Merkel). Röttgen, que é cotado para assumir a liderança do partido após a aposentadoria de Merkel, externou com todas as letras: “Você não pode ver a ação isoladamente. Temos que combater o veneno que o AfD e outros carregam em nossa sociedade”.

Enfim, acho importante trazer ao público brasileiro fatos de um país que é chave no mundo em termos políticos, econômicos e sociais. E a história do nazismo na Alemanha traz um peso maior a qualquer acontecimento que ocorra relacionado a este tema.

Por fim, é justo dizer que tirando o câncer nazista, racista, xenófobo, da sociedade alemã, o país vêm, ao meu modo de ver, combatendo muito bem a ascensão do Neonazifascismo. O AfD está controlado, e prevejo que de agora em diante a tendência é que comece a perder pontos percentuais, estabilizando-se como um partido secundário que não terá chances de assumir nenhum nível governamental. O partido que mais cresce é o Verde – inclusive aqui em Hannover elegemos recentemente o primeiro prefeito deste partido, que além do mais é muçulmano e de ascendência turca, ou seja, uma grande vitória para a diversidade. Dadas as atuais tenebrosas conjunturas do mundo (Trump, Brexit, Brasil, etc), a Alemanha é um muito bom lugar para se viver, e espero que se consolide mais e mais como uma capital de combate ao extremismo no mundo.

Quanto às vítimas de Hanau, que já se foram, nos cabe somente rezar um Kaddish por suas almas – e sei que os judeus bons e humanistas o fizeram. Aos que ficaram, segue a luta de alemães e estrangeiros, judeus, muçulmanos e cristãos, por um mundo que – ao menos minimamente – mereça receber as crianças de amanhã.

Fonte da pesquisa:
https://www.rga.de/politik/hanau-anschlag-video-opfer-taeter-schiesserei-attentat-hessen-arena-bar-news-zr-13549464.html

Falando Francamente

 

Durante um par de milênios o povo judeu levou a pátria pendurada nas retinas da memória; implícita em qualquer projeto de futuro; locatária vitalícia dos sonhos de todos e de cada um. Ano que vem em Jerusalém era a consigna unânime, o desejo explícito, a esperança sempiterna.

Com a fundação do Estado de Israel num tempo em que as feridas do Holocausto ainda sangravam em todas as manchetes dos jornais e no peito aberto do povo de Israel, essa pátria virtual transformou-se em algo tangível, no chão nosso tão cantado e esperado, e pouco a pouco as preces foram transformando-se em campos semeados, e em ruas asfaltadas, e em largas avenidas, e em modernos hospitais, e em excelentes escolas, e em magníficas universidades, e em casas de oração para todos os gostos e para todos os povos, e o hebraico redivivo transformou-se no idioma comum a todos, servindo de ponte entre todas as ilhas culturais chegadas da longa e sangrenta diáspora.

Os sonhos milenares então, cansados de serem apenas sonhados, saíram a caminhar pelos campos e cidades, pelos vales e desertos, criando História a cada passo, gerando trabalho e riqueza em cada canto, reconstruindo o futuro a cada dia.

Sim, era nem mais nem menos do que a tão desejada normalização do povo judeu na sua terra de origem.

Hoje, entretanto, neste primórdio do terceiro milênio cheio de mortos inocentes e de culpas mútuas e de sonhos fuzilados e de promessas não cumpridas e de ódio recíproco e de sangue derramado em vão e de desejos de vingança sem sentido, alguns fundamentalistas religiosos judeus, e outros poucos fanáticos laicos da extrema-direita judia, esquecidos da partilha da Palestina e da fundação do Estado de Israel e da renúncia a qualquer reivindicação territorial com a única exceção de Jerusalém, tentam descaracterizar e apossar-se dessa pátria de todos, transformando-a num gueto próprio, num simples degrau da grande “pátria” bíblica dos contos de fadas, pondo em perigo mortal – com tal atitude – a esse pequeno, único e insubstituível referente do povo judeu, que é o Estado de Israel.

A todos aqueles que ainda cultivam nos seus sonhos e orações a grande Israel que jamais existiu, fica-lhes apenas a alternativa de aceitar a realidade e trocá-la na prática pelo único e possível Israel (o Estado das fronteiras de 1967 retocadas de comum acordo com os palestinos, e a transformação de Jerusalém na capital indivisível de dois povos e dois Estados), ao mesmo tempo em que poderão mantê-la dentro do universo memória, da prece e da fé, tão grande quanto o desejarem, porque caso contrário, se insistirem em insurgir-se contra o desejo da maioria do povo judeu, chegando até a apontar armas contra o exército e/ou incitando ao assassinato das lideranças democraticamente eleitas, transformar-se-ão – ainda que não seja esse o seu desejo – nos verdugos do Estado de Israel.

Tomara a sensatez seja a dona e senhora da última palavra.

Bruno Kampel, Suécia, 2005 e em plena vigência em 2020.

Samba Perdido – Capítulo 1

Capítulo 01 

 

“No início Deus criou os céus e a terra.”     Torá – Bereishit

Como tudo que envolve o destino, o caminho de Rafael para o Brasil foi conturbado. Tudo começou nos anos 1930 quando ele mal sabia onde o país ficava. Uma explosão de irracionalidade estava varrendo a Europa e criaria, entre outros horrores, a “solução final” proposta por Adolph Hitler para a sua gente. Essa ideia devastaria sua família no sonolento interior da Polônia. Dois terços dela – seu pai e sua mãe inclusive – acabariam, sem culpa nem compreensão, vítimas do delírio supremacista.

Antes disso, pouco depois do fim da Primeira Grande Guerra, Rafael saiu do seu vilarejo, Krosno na Galícia Polonesa, para tentar a vida em Berlim, na Alemanha. Enquanto os vitoriosos impunham sanções humilhantes aos vencidos e os bolcheviques se instalavam no comando da Rússia prometendo revolução pelo mundo afora, ele testemunhou o nazismo se rastejar para dentro da alma do povo a sua volta. Nos meados da década a situação piorou. Os comícios do racista histérico de bigode retilineo passaram a atrair milhões. Com o apoio da população, os mais radicais passaram a atacar judeus nas ruas e a pintar estrelas de Davi nas vitrines das suas lojas. Em Berlim, o olho do furacão, o ódio se institucionalizou e as autoridades passaram a criar leis excluindo “inimigos do Reich” da vida pública. No seu caso, o absurdo era mais óbvio porque sendo louro de olhos azuis e um sujeito altivo que gostava de andar alinhado, era confundido toda hora com um ariano legítimo.

Quando a situação se tornou irreversível, ele e seus dois irmãos se mudaram para a Holanda. Em Amsterdã, como na história dos três porquinhos, nosso já não tão jovem herói assumiu o papel do irmão trabalhador enquanto o mais velho, Ziesch, arrumou um bom casamento e o mais novo, Heimish, caiu na esbórnia. Porém, em maio de 1940, com a neutra Holanda prestes a ser invadida pelos exércitos nazistas, o turbilhão voltou ao seu encalço.

Rafael sabia bem que a SS não estava para brincadeira. Um ano antes, os alemães haviam conquistado sua terra natal. Temendo o pior, ele passou pela experiência dolorosa de ter que cruzar a Europa livre para ver seus pais, agora impedidos de sair do país pela administração nazista, talvez pela última vez. No posto de fronteira, dos dois lados, soldados nervosos patrulhavam o arame farpado em meio à neve num clima de pré-guerra, Sem a possibilidade de atravessar, Rafael teve que se contentar talvez se despedir de Toni e de Wolf de longe e acenar.

Sua premonição se provaria correta. Algumas semanas mais tarde seus pais foram isolados do mundo. Primeiro, foram deportados e trancados num gueto e mais tarde transportados como gado para um campo de concentração, Auschwitz, de onde só sairiam como cinzas flutuando no ar.

*

De volta à Holanda, na véspera da invasão, Rafael conseguiu comprar passagens para um navio com destino à segurança da Inglaterra. Na hora H, com aviões dando rasantes por cima das casas, sons de sirenes rasgando o ar e o rugido do assalto à cidade se aproximando, os dois irmãos se deram conta de que Heimish, o terciero, tinha sumido. Em vez de correr para o porto, saíram feito loucos atrás dele. Quando perceberam que não havia como encontrá-lo, o navio já tinha partido.

Desesperados, foram para o cais, agora a única possibilidade de fuga. Lá, em meio ao caos, Rafael deu um jeito de comprar um bote de pesca. Naquela frágil embarcação de madeira, ele e a família do irmão sairam remando para o alto-mar. Já distantes, pararam​ para assistir, incrédulos, a vida que sempre conheceram desaparecer em explosões no horizonte. Sem saber se tinham dado azar ou sorte de terem conseguido fugir, partiram em silêncio sabendo que dali em diante estariam entregues ao destino. O cálculo era que na debandada, um barco maior os recolhesse. No entanto, dez longos dias e noites se passaram sem comida ou bebida a bordo e nada de outra embarcação nem de algum sinal de vida no vazio do mar do Norte.

A noção de onde estavam e para onde iam dependia de Eli, o filho de quatorze anos de Ziesch. Tido como o malandro da família, principalmente depois que um vizinho veio reclamar que o menino tinha deflorado sua filha adolescente, ele havia aprendido nos escoteiros a se orientar pelas estrelas. Apesar daquele conforto inútil, o clima era de ansiedade, fome, sede e desorientação. Resignado com o inevitável, Rafael gravou seu nome na madeira para que soubessem de quem seria o corpo quando o encontrassem. Na décima manhã, a esperança apareceu na forma de um avião militar. Esperto, o garoto teve a ideia de usar um espelho para refletir a luz do sol nos olhos do piloto. Funcionou. A aeronave fez um círculo em torno do barco. Por sorte, era britânica.

O piloto apontou para a direção que tinham que seguir e deve ter avisado seu comando porque a marinha real enviou um navio para o resgate. Usando o que restava das suas forças, os naufragos voltaram a remar rumo à sobrevivência. Não tardou para que vissem um pequeno ponto no horizonte. A bordo do navio de guerra, a tripulação teve que agir rápido pois estavam próximo de um campo minado. Um atraso de algumas horas teria impossibilitado o resgate e teria significado a morte em alto-mar, quer por explosão, quer por inanição. Durante a operação, aviões alemães atacaram o navio matando alguns marinheiros. Devemos agradecer e admirar esses heróis anônimos. Sem o seu sacrifício e sem a humanidade da tripulação essa história nunca teria acontecido.

seguir

prefácio

Um indecoro carnavalesco

Um ano atrás, segundo turno chegando e eu fazia um vídeo onde contava a fábula do escorpião e o sapo. Em resumo, o sapo não acreditou que a natureza do escorpião pudesse falar mais alto.

Eis que a Folha de São Paulo nesta semana, publica um editorial onde em resumo, nos dá a entender que não acreditou na natureza do Bolsonaro. Achavam que ele como presidente honraria o cargo, deixaria de ser misógino, racista, homofóbico, extremista de direita, e passaria a respeitar a imprensa.

Ora, sejamos francos, vocês da FSP não podem ter sido ingênuos a este ponto. Vocês sabiam exatamente o que estavam fazendo quando apoiaram o golpe contra a Presidenta Dilma, elevaram o Temer a presidência e apoiaram este que agora lhes dá uma banana por dia em praça pública e xinga sua repórter no nível de uma roda de bêbados nos confins do Brasil.

Por uma suposta ilegalidade que se mostrou uma completa farsa, vocês pediram o Impeachment da Dilma. O que está faltando para vocês começarem a mesma campanha contra Bolsonaro. A total falta de decoro para o cargo que ocupa, envergonhando a todos os brasileiros parece que não é suficiente. O país sendo governado aos trancos não importa. A falta de apoio político no Congresso não lhes diz respeito. A humilhação a que ele submete a imprensa e seus repórteres vocês respondem com editoriais de lamentação e o nomeiam “chefe de um bando”. Façam o favor, tenham vergonha na cara!

É lamentável que não tenham aprendido com a história. Tudo o que a ditadura fez com a imprensa não lhes ensinou nada sobre o que significa uma imprensa livre em uma democracia. Ninguém deveria estar acima da lei, mas este Bolsonaro como presidente, assim se sente e vocês contribuem muito para isso. Quanto mais ele os defenestra, mais vocês se submetem.

Para sorte de vocês chegou o Carnaval. Ao menos por uma semana vão poder se lavar das bananas que receberam. Tomara pudessem aproveitas estes dias para fazerem também um exame de consciência e terem a decência de se posicionar ao lado do povo brasileiro, saindo de uma vez, desta fantasia corporativista que tão bem os protege.

O Brasil vai parar para a folia do Carnaval, mas a falta de decoro deste presidente promete não silenciar. Não deve nos dar sossego nem mesmo neste feriado e a qualquer momento virá mais uma barbaridade.

Por enquanto deixo com vocês aquela marchinha antiga que não me sai da cabeça nestes dias, “Doutor, eu não me engano, o Bozonaro é Miliciano”.

Bom carnaval a todos.

Sobre a incapacidade europeia de compreender a alucinação brasileira

Quando eu soube que o Mauro Nadvorny havia criado este novo e muito importante espaço na internet destinado à voz da Esquerda Judaica, e estava convidando outros ativistas a produzir para este juntamente com ele, me perguntei sobre como eu poderia colaborar. Refletindo sobre isto, e levando em consideração que já escrevo artigos e gravo vídeos para outros jornais e canais da Resistência Brasileira, surgiu-me a ideia de produzir aqui textos mais espontâneos, que relatem passagens interessantes ocorridas aqui na Europa (vivo em Hannover, Alemanha), ou opiniões menos analíticas e minuciosas, e mais despretensiosas e instintivas.

Vamos ver no que dá?

Pois bem, hoje eu gostaria de contar a vocês sobre o “desafio” que enfrento todas as vezes que procuro descrever a um alemão (ou a algum europeu de modo geral) a respeito da absurdez dos fatos que ocorrem no campo político do Brasil hoje em dia.

Quando estou em vias de começar a explicar a colegas sobre algum evento brasileiro, já suspiro, pois sei o que me espera. Além dos choques culturais que nunca permitirão que um europeu compreenda que movimentos políticos inventariam e promoveriam mentiras tão baixas como “kit gay” e “mamadeira de p…”, há também no cidadão do velho mundo uma completa incapacidade de assimilar alucinações em um nível que – aparentemente – só ocorrem no Brasil. “Jesus na goiabeira”, “menina de rosa, menino de azul”… É demais para os gringos. “Empregada doméstica ia à Disney”… Eles nem ao menos sabem o que é empregada doméstica (e nem o que é a neo-escravidão ou escravidão moderna).

Desta forma, após algumas tentativas desesperadas de relatar a colegas sobre os inacreditáveis eventos que começaram a se intensificar no Brasil em 2018, desisti de tentar “impressioná-los”. Escrevi entretanto uma formal carta aberta, lida em público na Universidade de Música de Hannover (onde sou professor e pesquisador), carta esta que continha as declarações mais palpáveis do atual presidente (“negros pesados por arroba”, “não te estupro porque você não merece”, “filho gay é melhor morto” e por aí adiante). Esta carta pareceu surtir algum efeito nos ouvintes. Ainda assim, meu trabalho de conscientização do povo daqui sobre o terror que o Brasil vive, é realizado a passo de formiguinha. Mas sigo em frente, pois sei que não haveria de ser diferente.

Enfim, no mês passado, decidi contar aos colegas o mais recente “causo” brasileiro, afinal este teve tudo a ver não somente com a história dos judeus, mas com a dos alemães também. Dispus-me então a explicar que o então Secretário de Cultura, escolhido pessoalmente pelo presidente, havia se filmado proferindo um discurso copiado de Goebbels de forma praticamente literal.

O rosto de meus colegas sugeria que por suas cabeças passava algo do tipo:

-“Acho que o Jean está gozando de nossa cara… Ele acha que somos bobos de acreditar em algo assim?”

Acrescentei então que no cenário do vídeo, cuidadosamente preparado, havia também a foto do Führer brasileiro e a bandeira nacional, exatamente como mandava o figurino hitlerista.

-“Talvez o Jean esteja confuso… Deve ter sido um vídeo de sátira, um esquete… E o Jean provavelmente não saca nada de comédia…”

Prossegui e relatei a cereja do bolo, mencionando que a trilha sonora era a música de Wagner.

-“Ah, o Jean está querendo impressionar a gente, pintando o terceiro mundo como um lugar selvagem, onde políticos podem emular Hitler em plena luz do dia…”

-“Nem o Trump (este nós conhecemos!), que é completamente lunático, fez coisas assim… Todas estas histórias que o Jean nos conta são meio mal contadas…”

-“Além do mais, o Jean é judeu, sul-americano e artista! Com esta combinação, dá para esperar histórias doidas mesmo!…”

Bem, ninguém me disse nada disso, mas é a impressão que tive, rs. Só ficaram me olhando com uma expressão de ponto de interrogação misturada a um ceticismo do estilo “essas histórias não pertencem ao nosso mundo”.

Diante da reação deles, acabei sorrindo/rindo de maneira genuína, mas ainda assim um pouco irônica e desesperançosa. Posso culpá-los por não entender o que ocorre no mundo paralelo e distópico que é hoje o Brasil? Talvez um pouco, pela conhecida alienação “primeiro mundista”. Mas não muito, afinal, a realidade do país de fato não é crível. Parece um pesadelo maluco todos os dias.

Enfim, eu já devo ter escrito isto em algum outro texto, mas cabe escrever aqui novamente, já que estamos falando de europeus, judeus, nazistas, distopias, incompreensões, etc. Sempre penso muito em Stefan Zweig, tanto por ser um de meus pensadores preferidos, quanto por questões pessoais que fazem com que eu me identifique muito com ele. Pois bem, em 1941 ele escreveu o livro ‘Brasil: Um país do futuro’. É um livro que julgo “problemático”, com traços da ingenuidade e da incompreensão europeia sobre o Novo Mundo. Ainda assim, há nele pontos reais, foi escrito por uma grande mente, e fez com que por muito tempo perguntássemos a nós mesmos se a premissa seria verdadeira em algum momento.

Pois é, hoje o Brasil caminha em direção à sua consolidação como a capital mundial do Neonazifascismo. Parece que a intuição de Zweig estava mesmo muito errada. E espero de coração que os europeus – e todos os estrangeiros do mundo – comecem realmente a compreender o que está ocorrendo no Brasil e ajudem a Resistência Brasileira nesta luta que está sendo perdida. Afinal, em breve será tarde demais. E os “causos” que hoje conto por aqui serão compreendidos no futuro apenas como antigas passagens de uma irreversível história de destruição.