por Mauro Nadvorny | 21 mar, 2020 | Comportamento, Mundo
Hoje me perguntei se era possível em meio a tantas tragédias com o Corona Vírus, tentar encontrar um meio de falar de coisas boas. Não é fácil, sou sincero em dizer. Os meios de comunicação nos atualizam a cada hora sobre o que está acontecendo no mundo inteiro.
A última grande pandemia foi há dez anos com a Gripe Suína. Antes dela, em 1968 tivemos a Gripe de Hong Kong. No ano em que nasci, 1957 ocorreu a Gripe Asiática. Em 1918 a Gripe Espanhola. Em comum, vírus da gripe em animais que sofreram mutações e infectaram humanos.
De alguma forma, aprendemos com cada uma delas. As vacinas para gripe são um bom exemplo. Eu mesmo tomo há muito anos. No entanto, a cada novo vírus ela precisa ser complementada. O Covid-19 é o recém chegado. Ainda não temos defesa contra ele. Uma vacina é esperada para dentro de um ano.
Do que estamos vendo hoje, a maior lição talvez seja a de que sem um sistema da saúde governamental e universal, nenhum país vai conseguir combater o Corona com eficiência. Não existe maneira de um sistema de saúde privado dar conta de um surto desta natureza. Estou de olho nos EUA para ver como vão lidar com os 22 milhões de americanos sem seguro de saúde.
Neste momento estamos sendo testemunhas da capacidade humana em superar grandes adversidades. Médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, profissionais da saúde estão na linha de frente enfrentando o vírus com baixas em seu pessoal. Na Itália já são 13 médicos que perderam a vida.
Em todas as cidades, atendentes nos mercados e supermercados abertos, mantém a população abastecida correndo risco de se infectarem. Alguém precisa fazer este trabalho para que a maioria da população possa permanecer em casa.
Existem voluntários entregando gêneros de primeira necessidade para pessoas infectadas que não podem sair. Também entregam para idosos a fim de que permaneçam seguros dentro de casa.
Diante do enorme esforço necessário a contenção do vírus, somente o isolamento social resolve. Sim, ele tem um custo econômico enorme, principalmente para os mais pobres. No entanto, um problema de cada vez e o primeiro deles é preservar a vida. Se as pessoas continuarem saindo de casa, a propagação da doença será exponencial e o sistema de saúde não será capaz de atender a todos infectados. Este é o maior aprendizado com outros países.
O Brasil está começando a sentir o impacto, mas pode fazer a lição de casa com o que já foi feito em cada país onde o vírus chegou com força. Existe a vantagem de poder separar o que foi exitoso do que fracassou nestes lugares. Se não forem tomadas medidas imediatas, o resultado é conhecido.
O maior problema no caso do Brasil é a falta de governo. Temos um executivo inepto em todos os escalões. Quem está na presidência é incapaz de compreender o tamanho do desafio e o que está por vir. Não há como lidar com a magnitude deste verdadeiro Tsunami sem uma liderança dando o exemplo do que se deve fazer, informando a nação dos problemas e apontando os caminhos que devem ser seguidos.
É realmente incrível que praticamente toda a comitiva brasileira que viajou para os EUA esteja infectada, menos o presidente que compartilhou horas e horas com eles. Como é possível que ele ainda não tenha mostrado os resultados de seus exames? Como acreditar nele afirmando que os resultados foram negativos sem a prova?
Se mesmo nos países mais ricos do mundo, onde existem governos fortes e atuantes, o Corona está deixando um rastro de mortos e um enorme impacto econômico o que esperar do Brasil onde o presidente afirma diariamente de que se trata de histeria sobre uma gripezinha?
Minha recomendação, desde Israel, onde já estamos em meio ao crescimento de infectados, é só sair de casa nas próximas duas semanas, se for extremamente necessário. Mesmo assim, use máscara e luvas descartáveis. Não há como saber quem está infectado ainda assintomático.
Trabalhe de casa, se for possível. Mantenha seus filhos em casa também. Leia, joguem cartas, assistam TV, conversem bastante. O Corona vai passar e vocês precisam estar vivos para ajudar na recuperação do planeta.
por Richard Klein | 20 mar, 2020 | Brasil, Comportamento, Literatura, Trending
Assim como inúmeros imigrantes que através dos séculos partiram da Europa em busca de ares melhores, na hora de partir meus pais estavam mais interessados na promessa de felicidade do que na realidade que iriam encontrar. Foi como se tivessem acreditado num comercial enganoso: se encantaram com as cenas lindíssimas de praias mas não prestaram atenção no contrato mencionando o pântano traiçoeiro logo atrás. A verdade é que o Brasil, mesmo naqueles anos dourados, era muito mais complexo do que a Zona Sul carioca. Atolar a vida num terreno lamacento era uma possibilidade muito real.
Os filhos vieram num momento de trânsito em torno da criação de um personagem especial, de sucesso financeiro e de um processo de adaptação ainda não resolvido. Primeiro veio minha irmã, Sarah, e cinco anos mais tarde foi a minha vez. Nasci em 1962 no há muito demolido Hospital dos Estrangeiros, no morro da Babilônia, entre os bairros de Botafogo e de Copacabana. Como veremos, estes dois nomes não poderiam ter sido mais emblemáticos. Quanto ao futuro, havia um sinal de aviso na passagem mais bonita do Hino Nacional: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil”.
*
Rafael se reconectava com seu universo em caminhadas de madrugada pela praia deserta. Na paz e na simplicidade daquelas horas, ele se sentia bem dividindo o bairro com empregadas em busca do primeiro pão quentinho – seu cheiro maravilhoso saindo das padarias dos imigrantes portugueses e se dissipando na maresia fria das ruas desertas –, com raros porteiros zelosos limpando as entradas dos edifícios e com os bandos de cachorros vira-lata que corriam atrás de caminhões de leite e de jornais.
Adorava quando ele me levava junto. Depois de atravessar a avenida deserta, tiravamos os chinelos e cruzavamos a areia húmida até chegar na beira da água. Lá, com a praia só para a gente, começávamos nossas caminhadas. Na falta de outro assunto, e talvez precocemente, eu puxava conversas existenciais. Enquanto o sol dissipava a bruma e o mar desmanchava nossas pegadas na areia molhada, lhe perguntanava sobre o significado da vida, sobre a existência de Deus, do porquê das coincidências, de como era possível explicar a sorte e outras coisas que não conseguia entender. O que sabia, Rafael respondia da maneira mais fácil que conseguia e quando não tinha resposta, mudava de assunto.
As andadas eram sempre até a colônia de pescadores na ponta da praia de Copacabana, o Posto Seis. Sua sede era uma das primeiras construções do bairro: um velho barracão de madeira onde vendiam sua pesca a donos dos restaurantes, ao comércio e a moradores dos arredores. De dia, ao lado do depósito, dúzias de pequenos e coloridos barcos pesqueiros de madeira descansavam sobre a areia em meio a redes. Gaivotas disputavam os restos da pescaria com cachorros magros, observados por jumentos sonolentos e bodes amarrados. Ao seu redor, enxames de moscas zuniam no cheiro forte de sal e de peixe podre que permeava o ar.
Antes do amanhecer, os pescadores morenos de ar não urbano, partiam em grupos de cinco ou seis. Os mais experientes ficavam na praia coordenando a atividade através de gritos, assobios e sinais. Na hora que chegávamos à colônia, o sol já iluminava os barcos que voltavam. Para tirá-los da água, os homens deitavam troncos de árvores na areia à frente das embarcações e as empurravam com toda força até que chegassem na área seca próxima da avenida.
Os peixes vinham logo depois, presos em redes gigantescas. O momento de puxá-las para a areia era um mini festival. Os pescadores sempre precisavam de reforços e nunca faltavam voluntários. Um grande círculo humano se formava trazendo as centenas de criaturas, pulando em todas as direções ao tentar se libertar. Ja espalhados na areia, enquanto se contorciam em busca de ar, os patrões separavam os melhores pescados e deixavam o resto para quem havia ajudado.
Às vezes, meu pai me deixava participar. Como todo mundo, depois de suar e de maltratar as mãos nas cordas, fazia questão de aceitar os peixes que ofereciam. De volta em casa, invariavelmente meus troféus acabavam no lixo, ou por serem pequenos demais ou por não serem bons o suficiente para nossos jantares pretensiosos.
*
Poucas horas mais tarde, as famílias iam para a praia. Elas saiam dos prédios tal como cardumes surgindo das barras dos rios e nadando em direção ao mar. A manhã começava com babás ou mães girando o pé do guarda-sol para dentro da areia até que o cabo se firmasse. Quando não conseguiam, sempre havia por perto vendedores ambulantes ou salva-vidas para dar uma mão. Findo o processo, abriam os guarda-sóis que passavam a fazer parte do tapete de pontos coloridos que cobria os kilômetros areia dourada. Depois era hora de estender as toalhas, desdobrar as cadeiras e, por fim, liberar as pranchas, bolas e baldinhos para a gente brincar com os amigos.
Aquilo era um parque de diversões sob o sol escaldante. Corriamos atrás de cardumes de peixinhos na água transparente, nos enterrávamos na areia, levantávamos barragens para conter as ondas, caçávamos tatuís – bichinhos que viviam debaixo da areia molhada – cavávamos túneis, construíamos castelos e fazíamos guerras de areia.
Para descansar, a gente se sentava na beira da água e ficava espiando o fluxo constante de pessoas que iam e vinham. De tempos em tempos, os adultos acenavam para a gente voltar ao guarda-sol. De volta às bases, mandavam a gente se limpar e paravam um dos vendedores ambulantes que cruzavam a praia carregando caixas de isopor com picolés da Kibon ou mini tanques de lata com Matte Leão. O gelado doce dos seus refrescos era perfeito para amenizar o sol forte.
Apesar de imprescindível, o sol não era o rei da praia, quem comandava o espetáculo era o mar amplo e aberto na nossa frente. Ele era a liberdade completa que só a natureza pode oferecer. Depois da arrebentação, gaivotas mergulhavam para pescar criaturas que saiam do mar se debatendo nos seus bicos. Às vezes, golfinhos pulavam para fora d´água e, mais raramente, cações inofensivos mas com barbatanas parecidas com as de tubarões, passavam causando comoção na praia.
A água salgada do oceano era muito mais gostosa e refrescante do que qualquer chuveiro ou do que qualquer piscina. Conforme íamos adquirindo mais intimidade com a agua, íamos descobrindo as ondas e aprendendo a mergulhar por baixo ou pelo meio da sua espuma.
Em tardes com vento, meninos desciam das favelas. Não se aventuravam na água; a diversão deles era travar batalhas aéreas com suas pipas artesanais. Alguns passavam cola com vidro moído nas suas linhas para que ficassem mais eficazes na hora de cortar as dos outros. Uma pipa girando descontrolada no ar era o sinal de que um grupo havia tomado o escudo voador de outro. Quando finalmente caía na areia, a meninada saia correndo às dezenas para apanhar o troféu.
No fim do dia, quando o sol ia descendo, a praia parecia relaxar. O calor ficava menos intenso, uma brisa aparecia e a sombra dos prédios começava a cobrir a areia. As áreas ainda recebendo sol ficavam com um dourado que pintava a tudo e a todos na praia com um colorido especial. De vez em quando, grupos de amigos vindos do morro aproveitavam o frescor da hora para fazer uma roda de samba, oferecendo uma trilha sonora especial àquela hora do dia.
Enquanto me esbaldava na areia, dona Renée, já desinteressada da praia, preferia ir ao clube jogar tênis, Sarah já frequentava a escola e seu Rafael garantia o conforto da família no escritório no centro.
Minha companheira de praia era Pilar, uma babá portuguesa bonita de vinte e tantos anos. A única coisa de que me lembro bem dela é de ficar espiando o seu corpo nu com marcas de maiô enquanto tomávamos banho juntos depois da praia. Na banheira, podia examinar todas aquelas coisas sobre as quais tinha conversado com meus amigos e que não sabia como funcionavam. Pilar acabou se casando com meu barbeiro, o gentil Sr. Ribeiro, também português porém baixo, barrigudo, de bigode e com os cabelos louros e encaracolados. Certamente para atrair sua simpatia, sempre me guardava balas Soft, chicletes Ping-Pong e as mais recentes revistas Manchete, Cruzeiro e Placar, proibidas em casa mas que eu adorava.
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por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2020 | Comportamento, Crônica
Há muitos anos um estudante perguntou à antropóloga cultural Margaret Mead: “O que consideras o primeiro sinal de civilização em uma cultura?”. Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga era um fêmur quebrado e cicatrizado. Ela explicou que no reino animal quebrar um osso da perna era morte certa. Porque não poderás mais correr para fugir do perigo, ir ao rio para beber água, ou caçar comida. Animal com perna quebrada era carne fresca para os predadores. Um fêmur quebrado cicatrizado é prova de que alguém teve tempo de ficar com o homem caído, tratou sua ferida, o levou a um lugar seguro, cuidou até completar sua recuperação. Ajudar alguém durante a dificuldade é onde começa a civilização. Incrível como em revistas, jornais, na Filosofia ou na Psicanálise, a palavra solidariedade é quase ausente. Entretanto, uma calamidade mundial, como está sendo essa pandemia, vem desencadeando a responsabilidade mútua.
Solidariedade é uma palavra derivada do francês “solidaire”, cunhada no século XVIII – inteiro, sólido, firme. Expressa a qualidade de solidário, um sentimento de identificação com o sofrimento dos outros. É também uma responsabilidade recíproca, e ajuda as pessoas desamparadas. Creio que vivemos tempos nos quais se evidencia o quanto o excesso de individualização que se vive é perigoso. Recordo das três perguntas do sábio Hilel no Talmud: “Se eu não for por mim, quem será por mim?”. Óbvio que cada pessoa ao crescer precisa aprender a se cuidar, algo como ser seu próprio pai e sua própria mãe. E aí vem a segunda pergunta: “Se for apenas por mim, o que será de mim?”. Essa é a pergunta essencial da solidariedade, porque, cada vez mais, uns precisam dos outros hoje e amanhã. Solidariedade é o caminho, não há outro tratamento para nossa humanidade doente no seu individualismo. A terceira pergunta de Hilel é: “Se não for agora, quando?”. É agora, nesses tempos de solidão real, não virtual, que cresce a importância da solidariedade.
Um dos caminhos da Psicanálise para se pensar a solidariedade é a dívida simbólica. Dívida da criança, que antes mesmo de nascer está sendo inscrita como sujeito no mundo simbólico da linguagem e da cultura. Toda pessoa é assim um antigo futuro sujeito: antigo pelo passado dos pais e e gerações passadas e futuro porque há uma vida pela frente. Essa dívida simbólica só se paga, em parte, pelo que damos aos filhos ou aos demais. Dívida no sentido de ajudar ao outro, de contribuir com a comunidade, com a natureza, fazer o bem. Ser solidário é expressar a gratidão de viver, retribuir o que recebemos do intercurso com o mundo. Um mundo com graves desigualdades sociais, com alguns líderes egoístas, mesquinhos, narcisistas. São faces da humanidade que atacam a dívida simbólica, atacam vida, atacam a saúde da população.
O coronavírus, para ser combatido, requer isolamento de mãos dadas. Nessa verdadeira pausa da vida, há chances de olhar as flores, aumentar os amores, aliviar as dores cotidianas do isolamento. Tempo para nos humanizar. Angustiante está sendo a vida dos pobres, sempre os que mais sofrem. Vamos ter que aprender a solidariedade esquecida, praticada pelos imigrantes, quando o capitalismo era mais humano. O terror do neoliberalismo pode ser visto na série “Na Rota do Dinheiro Sujo”, série norte-americana sobre as milícias dos lucros a qualquer custo. O primeiro da série é a história do famoso banco norte-americano Wells Fargo, que mentiu em suas corrupções em busca de lucros bilionários. A direção do Banco mentia de forma deslavada, tanto como se faz hoje no Brasil.
Quanto a nós, vamos manter o norte, seguir à risca as orientações da medicina, pois chegarão dias melhores. Lembro o poeta Tiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”. Precisamos viver o hoje e imaginar outro amanhã para o nosso país e para o mundo.
por Mauro Nadvorny | 18 mar, 2020 | Comportamento, Crônica
Meu avô David, de abençoada memória, aquele que leu o Mein Kampf aos 17 anos e resolveu fugir da Polônia para a vida em 1928, não conseguiu fazer faculdade. Mas entre outras coisas, fez uma família e deu às três filhas tudo o que pode e mais um pouco.
Era um sujeito amoroso e bem humorado. E entre as tiradas de humor que ele tinha, a que mais ainda me diverte é quando após ouvir pacientemente alguém que se arrogava a saber tudo sobre tudo, ele dava um sorriso ironicamente discreto e falava:
– Ele é um sabichão! (“sabichon”, com o sotaque polonês).
Lá do céu, na sagrada companhia do Eterno, ele observa a minha impaciência nada bem humorada, com o fato de estarmos no ano de 2020, quase um século após a sua fuga da Polônia pré-nazista, que ainda existe gente que pensa que sabe tudo sobre tudo. E que de forma cândida e canina fica cagando regra em qualquer “calçada” do mundo real e virtual.
Tranquilo, vovô David, pode rir de mim também. Obrigado por ter me ensinado com humor melhor que o meu sobre onde devo procurar respostas.
por Mauro Nadvorny | 17 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
Semiconfinado por conta da guerra viral, olho em volta e vejo outras tropas se movimentarem. Estas, com efeitos mais permanentes, embora não menos danosos, do que os do microorganismo coroado. Suas armas são a indisposição ao diálogo, o sectarismo de base identitária e a miséria da política. Uma frente de batalha se abriu com a produção de uma série televisiva e um documentário sobre Marielle Franco.
Antonia Pellegrino, mulher do deputado Marcelo Freixo, resolveu fazer uma série que retratasse a vida e o assassinato da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. Convidou o diretor José Padilha para o projeto. Choveu bomba. Para começo de conversa, alegaram segmentos do movimento negro, eram dois brancos, incapazes, pela cor, de entender o universo de uma mulher negra. Depois, como ousavam incluir José Padilha, um “fascista” (as aspas explico mais adiante), para dirigir os episódios ? Ato contínuo, pelo menos 60 pensadores e profissionais negros divulgaram carta de repúdio à escolha de Padilha, acusado de “produzir ferramentas simbólicas para a construção do fascismo e genocídio da juventude negra no país”.
Padilha, privado de uma interlocução franca e pública, respondeu aos ataques num artigo publicado na Folha de São Paulo.
Rebateu a acusação de fascismo (centrada na direção dos dois Tropa de elite) e denunciou o linchamento a que foi submetido. Acho uma tolice interpretar a saga do capitão Nascimento como apologia da violência. Não me estenderei, mas basta lembrar a evolução do personagem interpretado pelo Wagner Moura, que vai do policial do BOPE que comanda ações violentas ao cidadão que denuncia as mazelas do sistema policial e seus tentáculos políticos. É uma obra de ficção, baseada em extensa pesquisa realizada com ajuda do deputado Freixo. Uma história bem contada sobre a ascensão das milícias no Rio de Janeiro. A meu ver, é clara denúncia daquilo que descreve. O fascismo não está no filme, mas nos que aplaudiram as execuções sumárias, as torturas e a filosofia do “primeiro” capitão Nascimento. Fosse diferente, um filme como A batalha de Argel, do cineasta Gillo Pontecorvo, poderia ser interpretado como exaltação da tortura colonialista (porque mostra, com realismo incômodo, as barbaridades que os franceses cometeram na Argélia). Exibir não é coonestar.
Ah, mas ele também produziu O mecanismo, série exibida na Netflix, que elogia a operação Lava Jato e seu protagonista Sérgio Moro. Não assisti, não tenho como avaliar. No entanto, mesmo que sua abordagem tenha sido equivocada, Padilha fez uma autocrítica pública através de outro artigo na Folha. “Quero reconhecer o erro que cometi”, admitiu. Quantos companheiros progressistas tiveram coragem igual, o reconhecimento, sem tergiversações, de um erro ? Por outro lado, admitamos que a acusação de fascista se dê pelo fato de Moro participar do governo Bolsonaro. Ora, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector foram fascistas por terem participado do governo Vargas, no Estado Novo ? Vinícius de Moraes e d. Helder Câmara na mesma moeda, por terem flertado com o integralismo ? Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, que tem se comportado corretamente nesta crise do coronavírus, é fascista? Me parece que a vulgarização do termo corrompe seu significado.
Sobre o “crime” de brancos contarem a história de uma mulher negra, a gente cai na histeria de setores do movimento negro. Quando quiseram homenagear dona Ivone Lara com um musical, convidaram a cantora Fabiana Cozza para interpretá-la. Pra que, zabelê ? Foi criticada por não ser “suficientemente negra” para o papel e renunciou. Como se uma obra de arte dependesse de melanina. Em outro momento, um professor de história chegou a dizer, citando Malcolm X, que não existe possibilidade de um branco aderir “até as últimas consequências” à luta contra o racismo. Além de ser uma estupidez política, agride a verdade. Joe Slovo, branco de origem lituana, foi um dos mais aguerridos militantes contra o regime obsceno do apartheid. Amigo de Nelson Mandela, foi preso por suas convicções antirracistas. A luta contra o racismo não será exclusiva dos negros, da mesma forma como não se deve combater o antissemitismo apenas com os judeus.
José Padilha não é de esquerda. Isso, no entanto, não é um crime de lesa-pátria. Está a anos-luz do arraial bolsoneiro, tem uma obra respeitável e não foge da controvérsia. Empurrá-lo, levianamente, para a extrema-direita, linchando-o ao invés de dialogar com ele, é um erro grave. Erro de uma esquerda um tanto catatônica, andando em círculos, incapaz de se articular para o enfrentamento do fascismo real. O fascismo que se escondia por trás dos ataques a um paraninfo do curso de jornalismo da Unisinos. Por criticar os recentes ataques de Jair Messias à imprensa e jornalistas, teve que sair escoltado para não ser agredido pelo público. Alergia à divergência, esse o verdadeiro inimigo.
Cometeu erros ? Evidente que sim. Mas, se você sobe nas tamancas quando o erro é flagrado, sugiro a leitura do Poema em linha reta, do Fernando Pessoa. Primor de ironia, Pessoa se dirige aos perfeitos, “ó príncipes, meus irmãos”, “toda gente que eu conheço e que fala comigo, nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho; nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida …”. E pontua: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana”. A leitura completa é antídoto para as tentações definitivas, tão confortáveis, mas tão nefastas.
Abraço
Jacques
por Mauro Nadvorny | 15 mar, 2020 | Comportamento, Economia
Não está fácil a vida com o Corona. Ninguém passará incólume por este período, com a vírus, ou sem o vírus. A vida de todos está sendo afetada em maior ou menor grau.
Aqui em Israel estamos em meio ao furacão. A propagação, apesar de lenta, é inexorável e a cada hora aumentam os casos de contaminação. No momento em que escrevo estas linhas já são 200 pessoas infectadas, 4 doentes recuperados, nenhuma morte e 38.560 pessoas oficialmente em quarentena.
O governo acredita que durante a semana o número de infectados chegue a 500 e por isso anunciou medidas de contenção ontem a noite. Entre elas, o fechamento por 5 semanas dos Shoppings, bares, restaurantes, teatros, cinemas e locais de lazer. As empresas devem manter seus funcionários trabalhando em casa e o uso do transporte público, só em último caso. Carros particulares devem transitar com até duas pessoas no máximo. Todo o sistema de educação ficará fechado assim como os órgãos de governo.
Abertos permanecem os Supermercados e os Minimercados de rua. Farmácias e Bancos também. O problema é que ninguém sabe até quando e com medo de que fechem, ou que falte mercadoria, estão comprando como nunca e as filas nos caixas duram horas.
Tudo parece sob controle, mas os problemas são muitos. Com as crianças em casa, os pais precisam cuidar delas e como vão poder trabalhar? Os contratos de trabalho em Israel, graças ao neoliberalismo são feitos por horas trabalhadas. Como contabilizar quem está em casa? Pior ainda para quem trabalhava em Shoppings ou locais de lazer. Com tudo fechado eles não vão receber salário por 5 semanas, mas as contas municipais e governamentais vão continuar chegando no final do mês. O mesmo com as contas do dia a dia. O Corona está causando mal aos vivos também.
Está claro que o mundo não esperava por algo assim. Nenhum país estava preparado para isso e cada um está tentando lidar com o problema com a experiência do que aconteceu antes em outro país. Enquanto a China começa a se livrar do problema, outros países começas a enfrentá-lo. Um dia de cada vez.
Os prejuízos econômicos serão bilionários, ou quem sabe trilionários. Não sei quantas companhias de aviação vão sobreviver com todas as restrições a viajantes que estão sendo impostas. Todo o maravilhoso mundo do Turismo está literalmente parado e ele movimenta a economia de muitos países. Um turista, além dos lugares turísticos, frequenta restaurantes, usa táxi, faz compras etc. Milhares de pessoas ligadas ao ramo estão sendo despedidas. O Corona vai fazendo suas vítimas entre os não infectados.
A maioria da população não será contaminada, mas todos nós estamos sofrendo as consequências. A situação é séria, muito séria e ainda não temos ideia de como será o mundo depois do Corona, mas com certeza, não será o mesmo de antes dele. Os prejuízos materiais e em vidas que este vírus vai deixar, já fazem com que ele seja um marco na história da humanidade.
O que eu posso aconselhar, desde Israel, é que não entrem em pânico. Comecem a planejar suas vidas desde agora com o que já está acontecendo aqui, e já aconteceu em outros países. Certamente muitas das medidas tomadas em Israel, e que foram tomadas em outros lugares antes, serão implementadas no Brasil em algum momento.
Faça um estoque de comida e itens de primeira necessidade para um mês. Tenha em casa álcool gel 70%. Toda vez que entrar em casa, use! Evite dinheiro e prefira comprar tudo no cartão. O dinheiro circula e não se sabe quem tocou nele. Melhor andar em locais arejados. Evite aglomerações. Use as escadas, mas evite os corrimões. Transporte público, somente em último caso. Procure ficar em casa. Leia, assista TV, conviva com seus entes queridos. Lavar as mãos sempre.
Luvas podem ajudar, mas lembre-se que a questão é não levar as mãos ao rosto, com, ou sem luvas e ter muito cuidado ao retirá-las. O mesmo acontece com a máscara. Ela deve ser usada preferencialmente por quem está contaminado e trabalhadores da saúde.
Pegar o vírus não é uma sentença de morte. Cerca de 80% das pessoas que se contaminam, ficam apenas gripadas. O problema maior é com pessoas que já possuem problemas respiratórios, especialmente fumantes e ex-fumantes que ficaram com sequelas pulmonares. Quanto mais velhos, mais intensa é a gripe e maior a dificuldade de respirar.
A mortalidade do Corona é de 2% entre os contaminados, a exceção da Itália que chega a 6%. Lá o Corona está sendo implacável e o país inteiro está sendo colocado em quarentena.
Por fim, saibam que o Corona atinge a todos, não importa se de esquerda ou de direita, se inteligente ou minion, religião ou gênero.
Não sou médico, muito menos especialista no Corona. Tudo o que escrevi acima são minhas impressões pessoais e a maneira como estou vendo o desenrolar dos acontecimentos. Cada um deve fazer a sua leitura dos fatos e tomar as suas decisões.