por Mauro Nadvorny | 29 ago, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Democracia é um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal.
Eis acima, uma boa definição de democracia, segundo a Wikipédia. Cada cidadão representa um voto e participa de eleições livres regimentares para eleger aqueles que segundo suas convicções, o melhor representa para criar as leis.
Como explicar, por exemplo, que nos últimos 30 anos, todos os governadores do Rio de Janeiro, a exceção de Benedita da Silva (mulher, negra e Petista), se envolveram em corrupção? O mais recente, o Sr. Witzel, um juiz fanfarrão eleito justamente para combater a corrupção. Um cidadão pode se equivocar uma vez, duas, mas eleger continuamente corruptos é uma façanha digna do Guinnes World Records.
Muitos destes corruptos se elegeram quando nem havia Internet com sua fábrica de Fake News. A grande maioria, políticos conhecidos cujos partidos combateram a ditadura. Figuras marcantes do cenário nacional.
E por falar em cenário nacional, a presidência do Brasil também mostra que a nossa democracia ainda é uma utopia. Desde que voltamos a eleger um presidente por voto direto, Fernando Collor foi o primeiro deles. Seu mandato acabou com dois anos em Impeachment. Depois dele, Itamar Franco, seu vice, completou o mandato. Então veio Fernando Henrique Cardoso que numa manobra regimental permaneceu 6 anos deixando um rastro de destruição econômica e miséria. Lula governou por 4 anos e foi reeleito por mais 4. O melhor presidente do Brasil passou o bastão para Dilma Rousseff que depois de um mandato de 4 anos, foi reeleita e deposta por um golpe branco através do Impeachment. Seu vice, Michel Temer concluiu o mandato e tivemos a eleição de Jair Bolsonaro e sua família miliciana.
Fernando Henrique e Lula foram os únicos que governaram pelos anos para os quais foram eleitos. Antes e depois, somente problemas cujas causas estão justamente na incapacidade da democracia brasileira como uma solução para o desenvolvimento do país.
Nossas instituições acabaram contaminadas pela corrupção política. Um juiz de ocasião, manipulou o julgamento de um ex-presidente para condená-lo por crimes que não cometeu baseado em convicções ideológicas. Envolveu o Ministério Público e em trabalho conjunto construíram uma narrativa ficcional que levou Lula a prisão depois de confirmado em segunda instância Tudo com o objetivo de retirá-lo das eleições onde era apontado como favorito. E claro, este juiz se tornou Ministro da Justiça do vencedor.
Nem mesmo nossa mais alta corte escapa do que se poderia chamar de democracia tupiniquim. Funcionam como um quarto poder. Seus integrantes determinam investigações que eles próprios julgam e promulgam a pena.
E assim, vamos vendo que praticamente todas as instâncias da república estão contaminadas ideologicamente, de uma forma, ou de outra. O Ministério da Justiça cria um dossiê sobre funcionários públicos antifascistas. O ministério do Meio Ambiente protege os destruidores da Floresta Amazônica. O Ministério da Saúde não tem ministro para combater o Covid-19. Na presidência um inepto.
Com as eleições para vereadores e prefeitos se aproximando, o que esperar delas. Quais partidos trazem soluções reais para as cidades que desejam governar? Teremos o voto ideológico, emocional, a cabresto, ou responsável?
O Brasil pode ter se reencontrado com a democracia, mas a democracia não encontrou ainda o Brasil. O fato de não corrermos perigo de uma volta dos milicos ao poder, não significa que não tenhamos a frente outros inimigos tão ruins como, ou ainda piores. Um governo federal tomado pela milícia é um bom exemplo.
Por enquanto o Covid-19 encobre a realidade como uma capa sobre o que de fato está acontecendo. Em breve a capa será removida, a realidade do estrago causado pelos Bolsonaros saltará a vista e a conta será cobrada.
Nas eleições de novembro teremos um termômetro do que está de fato acontecendo. Bolsonaro é maioria, ou a resistência vai superá-lo. Enquanto isso a democracia dorme no colo da esperança, ambas prisioneiras da escuridão. Tomara acordem em breve e saiam a luz de mãos dadas.
por Richard Klein | 29 ago, 2020 | Brasil, Comportamento
O hotel Sol de Ipanema era o único de frente para o mar na Avenida Vieira Souto. Ele ficava quase na esquina com a Rua Montenegro – mais tarde renomeada de Rua Vinicius de Moraes. Era em frente dele que minha turma de amigos mais caretas; Mauricio, Jaime, Hélcio, Davi, Leo e companhia pegavam sua praia. Apesar de todas as minhas transformações, ainda era colado com eles. Aquele ponto era para lá cômodo; quase na saída da rua que caminhava de casa para ir a praia.
Numa manhã ensolarada de sábado, ali com a praia ainda vazia, Davi e eu estávamos sentados na beira d’água descansando do bodyboard. De repente um cara magro mas com um corpo bem definido, por volta dos 40 apareceu na nossa frente e começou a jogar frescobol numa tanga fio-dental de crochê escandalosamente minúscula. O cara até que jogava bem, mas depois de um tempo de ficar olhando para aquilo ligeiramente incomodado, virei para o Davi e perguntei.
“E aí, Davi? Quer de natal uma tanguinha como a do teu amigo?”
Davi nem se dignou a responder, mas passado alguns minutos a cara dele acendeu. Ele me cutucou e cochichou no meu ouvido, “Rique, aquele não é o Gabeira?”
Davi estava se referindo ao jornalista Fernando Gabeira, um dos exilados mais famosos que, em 1969, tinha se envolvido no sequestro do embaixador americano no Rio, Charles Elbrick. A sua autobiografia O que é Isto, Companheiro? era leitura obrigatória. Todos tinham lido, inclusive eu. Era um relato na primeira pessoa de como tinha sido o mundo das organizações de luta armada. Nele, descrevia como tinha se envolvido naquela situação, como tinha participado do sequestro do embaixador americano, como tinha sido o cativeiro do diplomata e como finalmente tinha sido preso. Depois, relatava sua estadia na prisão, sua troca junto com alguns companheiros por um outro figurão estrangeiro e na sequência, sua vida no exílio.
O livro virou polêmico na esquerda brasileira porque, além das críticas tanto à metodologia quanto aos objetivos da luta armada, o ex-militante confessou que durante aqueles tempos heroicos tinha sido ativamente bissexual. Lançando esse escândalo na veia jugular da militância, agora exposta como retrógrada ao invés de vanguardista, surfando na onda da fama, Gabeira abriu um caminho alternativo de resistência ao regime e à burguesia, que denominou “política do corpo”. O que ele realmente quiz dizer com aquilo é ainda hoje motivo de debate. Só sei que um receituário para revolução prescrevendo honestidade consigo mesmo, rejeição à imposições de qualquer lado e pregando o sexo livre caiu bem em Ipanema.
“Sei não, Davi, só vi a recepção dele no aeroporto na televisão. Não dá para dizer, mas pela tanguinha é capaz.”
“Tenho quase certeza que é. Vou dar uma olhada na contracapa do meu livro quando chegar em casa, tem uma foto dele lá.”
De noite, Davi me ligou confirmando a identidade do cara da tanguinha, era o Gabeira mesmo. O mais estranho é que devia ter um fotógrafo na área seguindo o ex-guerrilheiro, porque no dia seguinte, jornais de um lado a outro do país estamparam suas capas com uma foto do ex-guerrilheiro em seus trajes mínimos bebendo mate gelado, em frente ao Sol de Ipanema.
*
As praias do Rio tinham – e ainda têm – uma programação e uma demarcação territorial rígida. Isso permitia a qualquer um dizer: “Diga-me quando e onde você toma sol que eu te direi quem és.” Agora, de madrugada os pescadores de Copacabana – que também pescavam em Ipanema – dividiam o mar com surfistas. Na areia, praticantes de Yoga e Tai Chi solitários meditavam sob os primeiros raios de sol enquanto corredores e ciclistas se exercitavam no calçadão. Mais tarde, da mesma forma de quando era criança, a posse da praia passava às famílias, incluindo crianças, mães, avós, babás, cães e todos os outros componentes da vida doméstica brasileira. Depois das nove da manhã o surfe era interditado. Quando tinha onda, o mar era dos pegadores de jacaré e a tarde o domínio voltava aos surfistas. Nos fins de semana, por volta do meio-dia as famílias voltavam para casa e daí para frente, tanto as pessoas que chegavam como as que ficavam faziam as subdivisões da praia mais interessantes.
Havia o local para os fisiculturistas e para os lutadores de Jiu-jitsu. Claro que havia um local para os yuppies. Outro segmento era uma extensão da cena gay. Havia um point para os surfistas, uma área para os favelados, uma para a as “patricinhas” e os “mauricinhos” endinheirados, outra para as profissionais do sexo – não coincidentemente a mesma para os turistas – e uma área reservada para os jogadores de futebol e suas comitivas de fãs e puxa-sacos.
O local da praia onde tínhamos visto o Gabeira, inicialmente conhecido como o Sol de Ipanema, era o Posto Nove, ou simplesmente o Nove – o nome derivado da estação de salva-vidas número nove que ficava em frente ao Hotel Sol de Ipanema.
Fazia pouco tempo que traineiras e guindastes tinham cortado a onda da galera das Dunas do Barato demolindo a estrutura do Pier de Ipanema. Depois que a foto do Gabeira de tanga percorreu o Brasil inteiro, o Nove herdou o status de Woodstock carioca. Por décadas a área seria o reduto dos seguidores das ideologias e dos estilos de vida dos anos 1960 e 1970. Aquela era a praia dos artistas, dos músicos, dos atores e dos intelectuais – tanto os já estabelecidos quanto os que viriam a se firmar e os que nunca iam dar em nada. Alguns diziam que os Beatles haviam profetizando sobre aquele trecho das areias de Ipanema na sua música mais estranha: Revolution Number Nine.
Com a chegada da abertura política, bandeiras dos partidos de esquerda recém-legalizados passaram a balançar sobre as cabeças dos frequentadores em meio à bagunça sob o céu azul. Enquanto a festa-praia tomava corpo, os garotos da barraca do Batista corriam de um lado para o outro levando garrafas de cerveja em isopores e as caipirinhas mais saborosas das praias do Rio.
O cheiro constante de cannabis no ar era abençoado por um acordo tácito entre a polícia e a galera do Nove: uns não davam trabalho para os outros; os frequentadores se restringiam àquela área e em contrapartida os policiais não vinham encher o saco ali. Contudo, durante campanhas eleitorais, o acordo às vezes era quebrado sob a pressão de candidatos conservadores. Só que quando as batidas aconteciam, a galera afugentava os polícias com vaias e na confusão todos enterravam os flagrantes o que fazia com que prisões fossem raras.
Mas não era só a fumaça que caracterizava o local. Sempre havia rostos famosos curtindo sua praia de fim de semana, os gays que iam lá eram mais desinibidos e volta e meia haviam casais se beijando abertamente, um ultraje na época.
Foi lá também que aconteceram as primeiras tentativas de topless urbano no país. Contudo, não demorou muito para que o Nove se visse avançado demais para a caretice do país. Quando as meninas tiravam a parte de cima do biquíni, atraiam a curiosidade indesejada de um pessoal que não pertencia à área. Homens com uma atitude medieval; muitos deles jovens, alguns até aspirantes a surfista, favelados, marombeiros, pais de família branquelos e barrigudos, se aglomeravam empurrando uns aos outros para espiar aqueles peitos corajosos no céu aberto com uma mistura de fascínio e de repúdio. Muitas dessas confusões acabavam com uma chuva de areia em cima das beldades ou com intervenção policial. Uma vez, um sujeito que estava com elas resolveu tomar suas dores. Ele se levantou, baixou o calção e fez com que seu pinto encolhido pela água dissipasse a urubuzada na hora. Talvez essa fosse a política do corpo que nunca cheguei a entender.
*
Conforme os novos frequentadores foram tomando conta do pedaço, meus amigos passaram a se encontrar em outro ponto da praia, mas eu fiquei. Embora rejeitassem a “erva maldita”, o Davi e o Hélcio acabaram entrando na minha onda. Os dois também não tinham muito saco para seus papos caretas e, como eu, estavam cientes de que rolava mais possibilidades de sexo com as malucas do Nove do que com as meninas caretíssimas que tinham se juntado à nossa turma.
Eu conhecia outras pessoas que frequentavam a praia ali: os malucos do Colégio Andrews, gente que tinha conhecido na balada e nos shows e membros da esquadrilha da fumaça da Escola Americana. Não era preciso marcar de se encontrar com ninguém, só era necessário comparecer.
O Nove era um clube. Conhecidos ou não, passávamos o dia conversando sobre mulheres, música, cinema, futebol e política. Quando o sol ficava muito forte ou se o papo ficava chato, havia o oceano em frente nos convidando para dar uma renovada. Tomávamos longos banhos de mar, “pegávamos jacaré” quando as ondas estavam boas ou jogávamos frescobol quando não. As meninas que interessavam também iam lá. A paquera e os olhares fatais não cessavam entre as toalhas estendidas na areia.
Na hora que o sol começava a se pôr, a areia esvasiava e o clima se tornava intimista e sereno. O Nove se tornava mágico, não só por causa da beleza da praia com a luz do sol mais branda, mas também por causa da quantidade de gente bonita, jovem e situada. Havia uma paz derivada de um dia bem aproveitado ao ar livre, os corpos curtidos pelo sol, amaciados pela água salgada e agora envoltos pela brisa do fim de tarde.
Nos melhores dias, a praia terminava com todo mundo aplaudindo o sol de pé enquanto ele desaparecia no horizonte ao lado do morro Dois Irmãos. Depois disso, todos seguiam seus próprios caminhos, normalmente indo para casa para tirar um cochilo antes de sair para alguma festa ou um show sobre os quais todos tinham conversado mais cedo na praia. Neles, aquela tribo de almas livres e bronzeadas se re-congregava.
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por Mauro Nadvorny | 22 ago, 2020 | Comportamento, Opinião
Todos os dias aprendemos novas lições. Quem pensa que já viu de tudo, está muito enganado. Muito ainda vai se surpreender.
Uma das muitas surpresas recentes, claro, foi o Covid-19. Um vírus que paralisou a humanidade. Mostrou que não importa onde estejamos, fomos reduzidos a nossa insignificância neste mundo. Ricos ou pobres, sadios ou doentes, jovens ou idosos, ele atacou a todos.
A esperança de que tudo se resolvesse em pouco tempo foi pura ilusão. Os meses foram passando e cada vez ficando mais claro que a solução não chegaria tão cedo, e ao que tudo indica, se a gente quiser estar seguro mesmo, só no ano que vem.
Claro que é possível conviver com o Covid-19 num mundo ideal, onde todos usassem máscara, saíssem a rua somente quando extremamente necessário respeitando o distanciamento social. Este mundo não existe.
Muita gente insiste em sair sem máscara, ou com ela caída sobre o queixo. Não respeitam o distanciamento, seja por opção, ou pura impossibilidade no local onde se encontram.
Festas são organizadas como se nada estivesse acontecendo. Praias e piscinas abertas. Restaurantes e bares abertos. Casas de espetáculos querendo abrir. E muita gente saindo para viajar.
É compreensível que as pessoas estejam no limite da paciência, que não aguentem mais ficar em casa, ou que necessitem voltar a trabalhar para sobreviver. O desejo de rever os amigos, os pais, os filhos, os netos, ou simplesmente tomar um café no bar, se tornam um desejo incontrolável.
Uma pena que sejam eles a engrossarem as estatísticas de infectados, doentes graves e casos fatais. Por conta deles, as medidas mais drásticas de lockdown se tornam imperativas.
Lamentavelmente, nenhum país pode dizer até o momento que é “Livre do Vírus”. Todos que acharam que haviam controlado a situação, estão sentindo a segunda ou terceira onda. Basta uma pequena abertura, e o Covid-19 retorna com força. Sua capacidade de contágio é impressionante.
Em meio a tudo isso, diversos países enfrentam um novo problema chamado eleições. A Nova Zelândia optou por adiar um mês. Os Estados Unidos confirmaram para novembro com o uso do voto pelos correios. Outros países estão com o mesmo problema e ainda não tem uma solução.
O Covid-19 ataca a nossa saúde, a economia e agora a democracia. Como realizar eleições em meio a pandemia é a próxima lição que vamos aprender. Se teremos mais, ou menos fraude, ninguém pode prever. Mas certamente teremos menos gente se dispondo a ir votar.
Muitas soluções foram encontradas para manter a economia. Grande parte através do uso da Internet. Trabalho em regime de Home Office deixou de ser algo para poucos. Compras pelos sites se tornaram comuns. Nunca se leu tanto e se assistiu a filmes e séries como nestes últimos tempos.
Aplicativos como o Zoom e similares passaram a ser utilizados por escolas e universidades. Não só para as aulas, como também para as cerimônias de formaturas. Até as festas comemorativas receberam os convidados virtualmente.
Assim, aprendemos que é possível se poupar muitos gastos com a pandemia. Nossa felicidade não depende unicamente da presença física de quem apreciamos. Estar na tela do computador com os amigos, ou como parte de uma plateia, nos faz sentir parte de algo novo.
Claro que nada substitui um beijo e um abraço físico com o calor humano. Logo vamos poder voltar a isto também. Mas por enquanto, fiquemos próximos assim, lendo este texto e dando graças a vida.
por Mauro Nadvorny | 15 ago, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
“Houston, temos um problema”, Essa frase célebre foi dita pelo astronauta Jack Swigert durante a viagem da Apollo 13 à Lua, em 11 de abril de 1970, com três tripulantes. Um tanque de oxigênio havia explodido e ele tentava alertar a base.
O resultado da última pesquisa Data Folha mostrando que Bolsonaro melhorou em dois quesitos, melhorou sua popularidade e diminuiu sua rejeição, mostram que o país está com um sério problema político e ético.
Depois da incredulidade do resultado, vem a tentativa de digerir os dados, a aceitação deles e a profunda decepção com o que se viu. Como é possível que o país passando de 110 mil mortos com o Covid-19 sem um ministro da saúde, um recorde de desempregos e negócios fechando as portas, sem que o líder da nação tome qualquer providência, o brasileiro sinalize apoio a sua falta de qualquer política de intervenção na crise?
É preciso estudar atentamente os resultados, mas acima de qualquer dúvida, eles mostram o quanto a oposição e a resistência não estão sabendo passar a sua mensagem, de que um presidente inepto é o timoneiro de uma nau a deriva chamada Brasil.
Antes de apontar o dedo para a direita, temos de fazer nossa lição de casa começando por admitir que somos incapazes ainda de vencê-los nas redes, a principal fonte de informação do seu eleitorado. Quando a maioria dos desempregados apoiam seu governo, sejamos honestos, os caras sabem fazer muito bem o seu trabalho.
Bolsonaro atendeu em parte os pedidos de seus marqueteiros e tem mantido a boca fechada, evitado críticas aos costumeiros adversários e se afastando de seus apoiadores mais radicais. Isto me faz lembrar sua não participação em debates durante as eleições. Bolsonaro calado é muito melhor compreendido.
Nós estamos fazendo tudo errado. Nossa voz circula nas redes erradas, pelas pessoas erradas, nos momentos errados. Não estamos sendo capazes de mostrar o óbvio que o mundo inteiro vê, escuta e se assombra. Aquele brasileiro gentil, pacífico, malandro, mas simpático que o mundo enxergava entre um samba e uma partida de futebol, se mostrou uma imagem deturpada da realidade.
Quem apoia Bolsonaro é o estereótipo do que de mais retrógrado existe na nossa sociedade, eles são a imagem do brasileiro real, aquele que a gente achava fossem uma minoria presa no passado. Ledo engano, eles ão a maioria neste momento.
Ainda assim, preciso lembrar que uma maioria de brasileiros elegeu Lula duas vezes, e depois Dilma, mais duas vezes. O que aconteceu foi que ao lado de lá se somaram parte dos que votaram antes no PT. Perdemos votos para a extrema direita e isso permitiu o surgimento deste enorme problema chamado Bolsonaro e família.
Não temos de discutir os números, temos de assimilar a lição e planificar o que fazer. Esta agenda do cada um por si no seu grupo de resistência não está ajudando no principal, derrubar este governo. Nosso marketing é de jardim de infância, o deles é de Mestrado.
Não temos nenhuma agenda. Somos críticos do dia seguinte. Aguardamos pelo que ele disse para jogar nossa pedra. Não somos capazes de nos antecipar a nada. Nenhum pedido de Impeachment, por mais embasado que esteja na Lei e na Constituição avança no Congresso. Este caminho está fechado para nós. Precisamos encontrar outras alternativas, e precisamos já!
Lamento ser o mensageiro de más notícias, mas o mal está vencendo de goleada. Se não começarmos a pensar de outra maneira, encontrar alternativas consonantes com a realidade, mudarmos nosso marketing, Bolsonaro se reelege em 2022.
por Richard Klein | 15 ago, 2020 | Comportamento, Crônica
Foto de Magno Lima.
A melhor casa noturna do Rio, o Noites Cariocas, ficava no primeiro dos dois morros do Pão de Açúcar, o Morro da Urca. As hordas de turistas vindos do mundo e do país inteiro que passavam por ali de dia não podiam imaginar que nas noites de sexta e sábado aquilo ficava abarrotado de gente querendo festa. O lugar era fantástico. Artistas variados, de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Egberto Gismonti, se apresentavam no seu anfiteatro a céu aberto coberto por árvores com o público sentado, ou soltando a franga, no chão e nas plataformas ao redor do semicírculo à sua frente. Nos intervalos e depois dos shows, ligavam o som mecânico e o lugar virava uma pista de dança.
As noites estreladas e a brisa do oceano pontuavam a magia. Saindo do palco central, vários caminhos levavam até a beira do morro por entre a vegetação rala. As filas de postes de luz iluminando a orla e delineando os contornos das ruas, os edifícios cercados por morros escuros e, do outro lado do morro, o mar aberto refletindo a lua faziam do Rio de Janeiro uma obra de arte tridimensional.
A alquimia daquele banquete visual fazia o ponto ideal para atrair o sexo oposto. As garotas se tornavam irresistíveis. Nem todas eram da Zona Sul e a maioria jogava no time das cautelosas. Mesmo assim, quando chegava a hora de ganhar elas no papo, a aura romântica à meia-luz, um flertezinho aqui e uma cervejinha ali operavam milagres.
*
O lado frustrante desta e das outras descobertas que fiz nos tempos o Colégio Andrews era minha magra mesada que não arcava com as despesas com ingressos para shows, “bagulho”, boates, cervejas e idas ao cinema. Isso sem contar as coisas normais do dia a dia: passagens, lanches na escola, entre outras coisas. O item mais caro da lista era exatamente o Noites Cariocas. A solução da malandragem era pular a portaria subindo o morro a pé ao invés de pagar o ingresso ao pegar o bondinho, a unica forma legal de se chegar lá. Apesar de não ser iluminada, a trilha era fácil.
O porém era que havia surpresas indesejadas no caminho. Feito caçadores à espera da presa, policiais e seguranças ficavam de tocaia esperando que caras como eu aparecessem para extorquir um suborno. No caso dos seguranças, os desembolsos eram para que pudessemos seguir na trilha. No caso dos policiais, eram para que não nos levassem para uma delegacia onde nos indiciariam por posse de maconha real ou fabricada. Caso lhe pegassem e você não tivesse dinheiro algum, eram brutais. Uns camaradas da escola caíram na cilada, e por não terem dinheiro suficiente, em vez de prender todo mundo, os guardas os forçaram a tirar a roupa e voltar para casa pelados.
Apesar desse perigo, escalar a entrada do Noites Cariocas daquela maneira sempre tinha sido tranquilo, até uma noite especial.
Era fim de mês e minha mesada tinha secado. Porém, uma de minhas bandas favoritas, A Cor do Som, ia se apresentar. O único jeito de ver o show era a trilha. Daí fui subir com um amigo, o Márcio, sob a luz da lua cheia. Na metade do caminho, cruzamos com um grupo descendo que nos falou que o caminho estava “sujeira”, querendo dizer que havia policiais escondidos em algum lugar mais adiante.
Determinados, decidimos pegar uma rota alternativa, normalmente utilizada somente de dia por escaladores experientes. Apesar da nova trilha ser “limpeza”, a decisão se revelou insensata. Só percebemos o perigo quando já era tarde demais: do nada, de repente nos vimos tendo que atravessar um trecho com uma queda livre de 200 metros na pedra bem embaixo dos nossos pés.
Quando estávamos quase lá, meus sapatos de festa perderam aderência e escorreguei. Por um milagre inacreditável uma raiz saindo daquele paredão imenso parou minha queda depois de alguns segundos de desespero. Era o único, ainda que pequeno, pedaço de vegetação saindo daquela rocha num raio de 50 metros; se tivesse escorregado um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá daquele ponto, teria sido meu fim.
Isolado naquele paredão maciço, dava para ouvir a música saindo a poucos metros acima e um pessoal gritando que alguém tinha caído. Para o alto havia uma rocha vertical e para baixo havia um precipício. Com meus pés mal tocando a raiz daquele abençoado, ainda que mínimo, tronco, me forcei a olhar para cima e a me concentrar em como sair dali vivo, um reflexo adquirido em situações perigosas no bodyboard em ondas grandes. Coloquei meus sapatos nos bolsos e consegui, não sei como, escalar a pedra descalço.
Quando ressurgi uma galera veio perguntar se estava tudo bem. Enquanto respondia que sim e calçava os sapatos, um segurança abriu caminho, me agarrou pelo braço dizendo que ia me entregar para a polícia. Levantei, me livrei e o desafiei.
“Meu irmão, não vou para delegacia nem pelo caralho, não está vendo que eu quase morri?!”
Um sujeito que tinha acompanhado o drama emendou: “Isso mesmo, larga o cara, eu vi! Ele quase caiu lá embaixo, não tem nada a ver levar o rapaz!”
Uma menina se juntou e foi mais contundente. “Vai ganhar a vida honestamente, seu otário! Vai pedir propina para ele agora?”
Tinha umas quinze pessoas protestando e um monte de curiosos chegando junto. Um outro segurança se aproximou, mas com tanta pressão tiveram que ceder.
“Tá bom! Tá bom! Não vai ter delegacia, mas ele vai descer no bondinho agora.” Eu queria continuar o protesto, mas a oferta era justa e a galera pareceu aceitar.
Na ida para o bondinho pensei no Márcio que devia ter sumido com medo de ser pego também.
“Tu tem sorte garotão, o último que a gente pegou aqui a gente encheu de porrada.”
A gente chegou na estação e ficou esperando em silêncio até o próximo bondinho estar pronto para descer. O cara da portaria veio perguntar o que estava acontecendo.
“A gente ia levar esse para a delegacia, mas ele teve sorte.”
“Como assim? Por quê?”
“Depois a gente explica.”
Antes da porta fechar, o que tinha me liberado falou: “Tu teve muita sorte, playboy, agradece a Deus e dorme bem.”
Fiquei pensando naquilo, nem zangado, nem arrependido. Dadas as circunstâncias, só podia agradecer ao meu Criador por estar vivo e vendo o terminal ficando para trás no céu escuro enquanto a Praia Vermelha, lá embaixo, se aproximava. Para além do que está escrito nos textos sagrados e nos livros de filosofia, para além do que dizem padres, rabinos e mulás, para além da própria razão, acreditava – como ainda acredito – na existência de um Deus onipotente que tinha decidido que aquela não tinha sido a minha hora. O porquê, nunca vou saber, mas uma boa conduta é o mínimo com o que posso retribuir.
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por Mauro Nadvorny | 13 ago, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
O impacto do discurso de Putin feito ao mundo anunciando o registro da vacina produzida em seu país contra o COVID-19 em grupos intelectuais da esquerda foi impressionante. Sempre tive em relação a Putin uma relação de respeito e temor. Respeito pois considero-o há pelo menos duas décadas o maior estrategista vivo neste recanto do Sistema Solar. Temor pois seu poder, inteligência e capacidade política têm efeitos hipnóticos sobre muitos de seus observadores, seguidores e admiradores.
Putin é um sujeito ambicioso que surfa na onda pós-soviética com uma prancha cheia dos charmes e da carga cultural do exército vermelho, da derrubada dos nazistas, da contraposição ao ocidente. Mas a Rússia de hoje é capitalista, tem um sistema de poder que cultiva um amor platônico com o fascismo, tem na sua estrutura política máfias que reduziriam Sérgio Moro ao nível molecular antes que conquistasse um mero rodapé de um jornaleco de bairro, e acima de tudo isso, a alma russa, apreciável em grande estilo na antológica cena de “Chernobyl” onde os operários da mina de carvão dão simpáticos tapinhas nos ombros do então ministro das minas soviético transformando seu vistoso terno de linho claro em uma bandeira de carbono. E para completar, no campo dos costumes, o governo Putin é uma vergonha.
Dito isto, quero deixar claro que tenho profunda admiração pela ciência russa, soviética e pós-soviética. Certamente há uma subvalorização das conquistas científicas daquele povo. Por exemplo, a tecnologia de invisibilidade de aviões americanos aos radares deriva de um físico russo. O foguete Próton-Soyuz que lançou Gagárin ao espaço está em operação até hoje e por décadas foi o método mais barato de se levar homens e equipamentos à órbita da Terra. Muito da cosmologia moderna deriva de contribuições russas à Relatividade Geral de Einstein. Na biotecnologia não é diferente. Dominam todas as tecnologias. São uma potência científica e cultural de primeira grandeza.
Assim, fica difícil acreditar que a atitude de Putin em anunciar algo que ainda não existe possa causar tanta comoção e comemoração por parte de pessoas que cultivam sentimentos anti-imperialistas, anticapitalistas, antiamericanas, quando o que ele faz e exatamente reproduzir o comportamento de alguém que está em uma mera competição por poder político e hegemonia científica. Por quê “não existe”? Porque uma vacina só existe quando foi minimamente testada em algumas milhares de pessoas, e para isso não basta dizer que “produziu imunidade persistente” porque anticorpos medidos 60 dias após o teste não permite dizer que a imunidade é persistente. E mais que isso, seu desempenho deve ser aprovado por autoridades de abrangência internacional. “Registrar” sua vacina na autoridade sanitária russa, que certamente sofre pressões políticas neste cenário, e anunciar isto ao mundo como conquista científica não passa de bazófia. Alguns argumentam que isto é preconceito contra “qualquer coisa que saia do establishment ocidental”. Não é. Pois nenhuma nação ou laboratório até o momento, mesmo os que estão em fases mais avançadas de testagem de vacinas de diferentes tipos, anunciaram ter o produto “vacina”. Não vemos Xi JinPing posando de herói da vacina, mas sim declarando que a vacina produzida lá será um bem público.
Uma das maiores críticas que a esquerda faz ao bolsonarismo é sobre a aversão à ciência desta corrente de “pensamento”. Da mesma forma, a esquerda demoniza a indústria farmacêutica acusando-a de desvios éticos de todas as naturezas, de projetos hegemônicos, de ocultação de dados, e outras indecências. Então, por quê estas mesmas pessoas rendem-se à idolatria em relação à Rússia e seu líder que anuncia a “primeira” vacina para a COVID-19, sendo que absolutamente nada de científico (em termos de números de testes, metodologias, etc) acompanhou este anúncio? Por quê esta súbita renúncia à argumentação racional que vem mostrando-se homogênea em relação a todos os potenciais produtores de uma vacina? Por quê esta confiança cega? Será só pelo fato de Putin catalisar em si mesmo a grande oposição ao ocidente e “equilíbrio de forças”, trazendo para si a carga moral das “forças do bem”, na avaliação de seus idólatras?
Torço pelo sucesso da vacina russa, da inglesa, da chinesa, da norteamericana, torço por todas. Mas não me sinto motivado a qualquer admiração especial por Putin ou a qualquer esperança adicional à sua vacina. Se ele quer o lugar de “pioneiro”, que apresente ao mundo um produto falando a linguagem do mundo, ou seja, com dados científicos. Alguém poderia questionar (e com certeza irá!) se os dados de outros fabricantes produzem dados confiáveis. Eu até poderia dizer que não há santos habitando a Terra. Mas a linguagem científica é um método sistemático de dificultação de fraudes e personalismos. E é para isso que a ciência existe, para impedir o monopólio do conhecimento e o dogma. Anunciar um feito sem dados é fraude, ainda que o anunciado venha a se confirmar à frente. Uma coisa é o fato, outra coisa é querer transformar em fato aquilo que ainda não é fato. Por isso, quando tomo algumas condutas com certos pacientes, explico: “o que estou fazendo resulta da minha experiência positiva nesta situação e não há estudo científico sobre esta situação, mas não estou fazendo nada que, diante do conhecimento prévio, represente risco.”
Seria mais honesto por parte de Putin dizer: “temos uma vacina muito promissora diante dos testes fase 1 já realizados em 76 pessoas, e vamos registrá-la em nossa autoridade sanitária e diante da emergência, vamos assumir riscos”. Se assim o fizesse, certamente seria também alvo de desconfianças. Mas seu ato foi meramente político, e parte de nossa esquerda abraçou o anúncio como uma vitória do anti-imperialismo ou como derrota de Trump, Bolsonaro e outros atores, políticos ou não.
Em outros termos, gente da esquerda não está percebendo o quanto estão sendo “bolsonarescos” ao comprar Putin do jeito que estão fazendo. Daí o meu temor em relação a Putin. Este grande jogador conseguiu bolsonarizar antibolsonaristas.
E como conclusão, e de modo reverencial, digo: a ciência russa não merecia isto.