Samba Perdido – Capítulo 15 – Parte 01

Capítulo 15

 

“Vida louca, vida
Vida breve,
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Vida Louca - Cazuza

 

De volta às aulas, descobri que a fama no violão tinha chamado a atenção da turma dos aspirantes a músico. Naqueles tempos de rock and roll, esta era uma casta importante na escola. Tinha ouvido falar que se encontravam regularmente para levar um som e e estava doido fazer parte. No início, impuseram uma distância por não saberem bem qual era a minha mas quando um deles finalmente me convidou, fiquei para lá de amarradão. Nas sessões fui percebendo que todos eram igualmente ávidos para aprender e absorviam tudo que podiam uns com os outros. Todos gostavam de rock, mas ninguém tinha nada contra experimentar com jazz progressivo e ritmos brasileiros. Paradoxalmente, apesar de ser visto como meio estrangeiro, meu interesse estava mais para o batuque do que para a levada da guitarra distorcida. Havia aqueles que eram melhores de solos, outros que, mais parecidos comigo, conheciam mais acordes e criavam levadas interessantes, alguns tocavam bateria, outros teclado, baixo e instrumentos de percussão como bongôs e atabaques.

Haviam varios subgrupos. O ponto de encontro da turma que me acolheu era a casa do Fernando, ou Fefo, que morava numa cobertura no Leme com uma vista fantástica da praia de Copacabana. Por algum motivo, ele e seu irmão mais velho viviam sem os pais, o que fazia daquele apartamento de dois andares uma zona livre. Nas terças e quintas, com a desculpa de ir estudar, a gente se reunia para tocar no quarto reservado para aquilo. Ele era ideal, espaçoso, cheio de almofadas confortáveis espalhadas pelo chão de madeira. Havia duas janelas grandes com grades de metal em estilo art déco lindíssimas que emolduravam a vista do Morro do Leme. Um dos membros da banda do Júlio, o irmão do Fefo, guardava seu amplificador lá. Sempre coberto de pontas de cigarro, copos sujos e garrafas de cerveja vazias, ele servia como o único móvel do quarto.

O som começava com a gente mostrando as últimas músicas e riffs que tínhamos aprendido ou criado. Quando os outros curtiam a novidade, todo mundo ia atrás, dando ideias e adicionando o que podiam. A atitude era parecida com a que tínhamos em relação ao futebol – aquilo era uma pelada musical. Queríamos aprender, curtir, sem nenhuma pretensão de formar uma banda.

Nos finais de semana, Júlio e seus amigos se juntavam à gente. Eles tocavam melhor e sempre traziam uma fartura de “bagulho” bom. Antes de qualquer coisa, enrolavam uns baseados que de tão gigantescos só davam para “pilar” com o dedo. Quando aqueles charutos chegavam ao fim, vinha uma chapação que parecia durar uma eternidade. Ficavamos feito zumbis olhando o cachorro, Pepe, balançar o rabo, latir e nos cutucar com suas patas tentando nos trazer de volta à vida. Volta e meia alguém o segurava e soprava a fumaça para dentro da sua fuça para ver se sossegava, mas, que me lembre, isso nunca funcionou.

Com um esforço sobre-humano, alguém finalmente conseguia se arrastar até o outro quarto onde a gente deixava os instrumentos. Um ou dois iam atrás e começavam a tocar alguma coisa. Aos poucos todos iam entrando e pegando os instrumentos. Com energias renovadas, atingíamos zonas de inspiração esotéricas de onde surgiam uns sons mucho locos. Algumas criações faziam a moçada ir ao delírio, outras faziam a gente cair na gargalhada. No dia seguinte ninguém conseguia se lembrar ou reproduzir nada que tinha acontecido, só sabíamos que tinha sido muito bom. Coisas da madame Cannabis Sativa.

*

Quase que sem perceber passamos à categoria dos doidões da escola; malditos, porém respeitados pelo espírito livre e contestatório. Para os menos simpáticos, éramos um bando de “porra-loucas”, todos fadados a se dar mal na vida, mas e daí? Quem estava falando eram eles ou o medo de levar porrada dos pais? Ainda que não nos víssemos como nem uma coisa, nem outra, os considerávamos caretas. Acreditávamos que, ao contrário deles, sabíamos das coisas e que havíamos descoberto a fórmula de gozar nossas existências sem as paranoias da burguesia. Independentemente de estarmos certos ou não, a divisão era clara e ninguém era de ficar em cima do muro.

Conforme as diferenças foram aumentando, fomos criando nossa própria subcultura. Nela, quem tinha a moral de comprar maconha na favela, atingia um status mais elevado. Resolvi ver qual era. A primeira boca de fumo que visitei foi no Cosme Velho, conhecida como “os trilhos”. Ela ficava logo no começo da linha do bonde que levava turistas ao Corcovado. Daquela vez, todo mundo tinha contribuído com alguma grana, mas fomos somente eu, o Juca e o Pitéo, um cara do ano acima que já tinha ido lá e sabia como lidar com o pessoal do “movimento”, ou pelo menos dizia que sabia.

Descemos no ponto final do ônibus perto da entrada para o Túnel Rebouças e fomos até um caminho na beira da Floresta da Tijuca. O Pitéo pediu para a gente dar o dinheiro e ficar esperando ali.

“Qual é Pitéo? Vai fugir com a nossa grana?”

“Não é isso, mané, os caras me conhecem e não gostam de muita gente chegando ao mesmo tempo.” Ele tinha se ofendido. “E tem mais, não precisa dar a grana agora. Fica com essa porra! Os caras vão descer para entregar o bagulho e aí a gente paga.”

Depois disso, subiu a ladeira cheio de si e sumiu na curva dos trilhos. Ficamos esperando por uns dez minutos que pareceram uma eternidade. Nosso colega voltou nervoso, dizendo que o “vapor” estava vindo logo atrás e que tínhamos que dar a grana agora. Logo depois, um mulato magro de short, chinelo e sem camisa apareceu na curva, olhou para a gente e fez um sinal. Pitéo subiu lá e passou o dinheiro discretamente. Em contrapartida, o cara olhou em volta para ver se não havia ninguém espiando e passou os papelotes de dentro da cueca para a mão do nosso camarada. Depois da entrega, o cara subiu apressado e o Pitéo desceu fingindo ser um morador tranquilo do bairro. Quando chegou, abriu a mão sem falar nada e mostrou as trouxinhas, cada uma pesando dez gramas. Cada um pegou a sua. Depois disso atravessamos a rua e subimos no primeiro ônibus nos sentindo como soldados voltando de uma operação bem-sucedida.

*

O risco me deu uma infusão de adrenalina e eu queria mais. A partir dali, frequentemente era eu quem ia lá para comprar para o pessoal. Um dia, o “vapor” de plantão disse que não tinha nada naquele dia.

“Tá a maior seca, meu irmão!”

Cocei a cabeça sabendo que a galera ia ficar desapontada se chegasse de mãos vazias. Queria fazer bonito com a Soninha, uma menina em quem estava de olho.

Havia dois outros “fregueses” na mesma situação. Um deles perguntou: “E lá no Morro dos Prazeres? Será que tem?”

“Lá é capaz de ter, eles estão esperando um carregamento do bom, mas não tenho certeza se chegou ainda.” O cara olhou para cima e apontou para o mato do outro lado do vale. “É lá em cima daquele morro, vocês sabem como chegar lá?”

Um dos outros dois respondeu: “Eu sei, bora lá?”

“Bora!”

A gente virou para o traficante. “Valeu pelo toque, meu irmão!”

“Valeu! Na semana que vem volta aqui que tem.”

Descemos os trilhos e fomos rumo ao morro do lado oposto do trânsito. Cruzamos a rua e depois que a calçada acabou, tomamos uma trilha que primeiro seguia ao longo do tráfego pesado em direção ao Túnel Rebouças, mas que depois adentrava mato acima. Subimos e no topo do morro chegamos num campo de futebol onde garotos estavam batendo bola. Cruzamos o campo. Por saberem o que a gente estava fazendo ali, continuaram com a sua pelada sem nos dar atenção. De lá, passamos por entre os barracos até chegarmos no final de uma viela. Do alto dos telhados à nossa volta, um pessoal da nossa idade mantinham guarda. No fim do beco, havia uma espécie de quintal e um barraco de frente para o mato. Um mulato alto e magricelo com um revólver na cintura saiu para falar com a gente.

“Aê, playboys, estão procurando alguém?”

Tentando disfarçar nossa apreensão, dissemos da maneira mais calma possível que queríamos comprar cinquenta gramas.

“Ah, é pra isso!” Já dava para ver que o cara estava chapado e estava adorando estar tirando uma onda com a nossa cara, uma péssima combinação para alguém com uma arma na cintura. “Espera aí.”

Ele voltou à porta do barraco e gritou para alguém que estava lá dentro: “Aê, Geraldo, tu já separou aquele tijolo?”

A voz gritou de volta. “Ainda não, o patrão falou que só precisava para hoje à noite.”

“Hoje à noite não dá, mané, já tem freguês aqui fora.”

Ele virou para nós fazendo um gesto para a gente esperar e entrou no barraco. Dois minutos depois, o cara voltou com um baseado enorme na boca e um tablete de dois quilos da coisa debaixo do braço. Aquilo era maior do que vários tijolos de alvenaria juntos – a maior quantidade do produto que já tinha visto na vida.

“Isso chegou hoje de manhã, é paraguaio, prensado, bom pra caralho. Já viu tanta maconha junto?” Ele levantou a mão calejada e ofereceu o cigarro improvisado. “Experimenta aí, playboy!”

Não dava para recusar. O que ele disse era verdade, era do bom e imediatamente sentimos o efeito, mas o medo era demais para relaxarmos a guarda. “Podes crer, é bom!”

Enquanto fomos passando o baseado em silêncio, ele foi separando nossa parte no olho. “Isso aqui é cinquenta gramas, é para dividir por três?”

A gente se olhou e concordamos que sim. Depois que os papelotes estavam prontos, nós entregamos o dinheiro.

Ele gritou para dentro: “Aê, patrão, os fregueses pagaram, quer conferir?” Ele se virou para nós e levantou as sobrancelhas como se dissesse que aquilo era chato, mas tinha que ser feito.

Um cara mais velho, negro e mal-encarado, saiu do barraco e sem falar uma palavra contou o dinheiro e verificou se os pedaços para a gente estavam certos.

“Tá tudo certo, pode liberar. ” Já com o dinheiro na mão, ele pegou o baseado, deu uma baforada e relaxou. “Vocês se deram bem! Essa porra aí chegou fresquinha hoje de manhã e é boa pra caralho.” Ele se voltou para mim e deu uma risada. “Olha só a cara desse maluco, já tá doidão!”

Depois daquela confraternização, colocamos os papelotes na cueca, nos despedimos e fomos embora. Passamos pelos becos enlameados separando as paredes de tijolos dos precários barracos. Apesar de ser minha primeira vez numa favela, não estava com medo. Talvez por causa do efeito e da descontração da despedida, o povo e o local pareciam familiares e passamos desapercebidos.

Quando saímos, percebi que estávamos em Santa Teresa, o bairro às margens da Floresta da Tijuca. Dali, subimos num dos seus bondes e partimos rumo ao Centro da Cidade. O sol estava se pondo e o odor doce das árvores flutuava por entre os bancos de madeira do carro velho e amarelo chacoalhando conforme passava pelas casas coloridas que caracterizavam o bairro histórico.

Longe da Gê, estava de novo em estado de graça, me sentindo de férias, mas com saudades dela. Depois que o bondinho chegou ao seu destino final, seguimos cada um por seu caminho através da selva de concreto do Centro da Cidade.

*

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O que é isso Facebook?

Quando o Movimento Popular Antirracismo começou no final dos anos 80, sua luta contra o neonazista Siegfrid Elwanger e sua editora antissemita, chamada Revisão (sic), tivemos de superar diversas barreiras éticas e morais.

Como é que nós, advindos da luta contra a ditadura, combatentes das liberdades democráticas, especialmente contra toda forma de censura, poderíamos pedir a apreensão de livros? Fazendo isso, a gente não estaria se igualando aos censores que determinavam o que se poderia ler, e o que não?

Não havia precedente para isso. Ao final de muitas discussões chegamos a conclusão de que quando livros são utilizados como arma para difundir um ideário que instiga a morte de alguém, no caso em questão, de todo um povo (o povo judeu), municiado de Fakenews (o termo nem existia), neste caso ocorria uma violação do maior bem de um ser humano, seu direito a vida, portanto se sobrepondo ao direito da livre expressão.

Agora, um ministro do STF decide que as redes sociais devem retirar do ar as contas de notórios fabricantes e divulgadores de Fakenews, investigados em processo do qual se podem se tornar réus. Esta decisão coloca a questão do direito da livre expressão novamente em questão. Teriam eles o direito de dizerem o que bem desejam, acredite quem quiser?

O Twitter obedeceu e tirou as contas do ar, mas o Fecebook fez isso somente para os Brasileiros. No resto do mundo, pode-se acessar suas contas. A desculpa é de que se qualquer juiz de qualquer país, por qualquer razão que seja, resolver tomar atitude similar, o Facebook se veria perdendo membros e em consequência, perderia também receita. Um pouco exagerado, mas esta é a razão pela qual estão sendo chamados a pagar uma multa milionária e seu presidente no Brasil, em tese, pode vir a ser preso por desobediência de uma ordem judicial.

Dito isto tudo, o que está em jogo é a nossa liberdade de escolha, nosso direito de acesso a informação, qualquer que seja ela. A livre expressão não pode ser limitada,  somos capazes de discernimento para separar o que é real e verdadeiro, daquilo que é inventado e mentiroso. Isto é o que a extrema direita quer que você acredite.

Claro que somos, ao menos a maioria de nós, defensores incondicionais das liberdade democráticas, do exercício da plena cidadania, contra toda forma de censura, afinal de contas, somos humanistas e progressistas. No entanto, para tudo existem limites. Como dizem, a minha liberdade vai até onde começa a liberdade do outro. Se utilizar de sofismas para na verdade atentar contra a vida, a democracia e a liberdade de escolha, é o que estes investigados  fazem. Seu propósito não é outro, senão a manter no poder o atual mandatário, eleito graças a estas  ações.

É uma grande falácia se acreditar que se deve  permitir que indivíduos, ou organizações que pregam o fim da democracia e o respeito aos direitos humanos, tenham o direito de fazê-lo dentro do regime democrático. Isto é crime contra a cidadania e deve ser combatido com leis e restrições. Quem desejar viver sob um regime autoritário que procure um lugar no mundo onde ele exista e para lá se mude.

Quando o Facebook, com centenas de milhões de usuários usa de subterfúgios para  contrariar uma determinação judicial da justiça brasileira, determinada contra brasileiros envolvidos em crimes contra a democracia, ele está prestando um desserviço a democracia como um todo e a justiça brasileira em especial.

Não há margens para engano aqui. Todos eles são notórios fascistas que pregam todo o rol de ações anti-humanas como o racismo, a homofobia, a misoginia e o ódio ideológico contra a esquerda.

Neste caso, está certa a justiça brasileira em impor pesadas multas diárias a desobediência de ordem judicial do Facebook que atua no Brasil, e portanto deve se obrigar a respeitar as leis e a legislação brasileira no que se refere a ações contra cidadãos brasileiros, ou aqueles que aqui vivem.

A democracia não é um regime perfeito, mas é o que nos permite conviver em sociedade  e nos dá a opção de troca de regimes e lideranças a cada número de anos em eleições livres. Com todos os problemas e contradições, nada supera a democracia.

Não é censura!

A decisão do Min.Alexandre de Moraes, do STF, que mandou o Twitter e o Facebook suspenderem as contas de 16 bolsonaristas gerou diversas reações na sociedade, vindas predominantemente de entendimentos de que a medida caracteriza censura prévia, o que ao meu ver, constitui equívoco raso pelo mau ou não entendimento do contexto.
Basilarmente, trata a nossa Carta Magna de vedar a censura prévia à expressão livre do pensamento e da opinião. Mas trata também a nossa carta de proteger outros bens dos indivíduos e da sociedade, que de forma ainda muito diferente e grave do que era em 1988, pode ser ofendidos pela difusão rápida e exponencial potencializada pelas mídias sociais e internet. Exemplo claro é a atividade dos “antivaccers”, grupos internacionais de difusão de fake news sobre vacinas, que são culpados pelo ressurgimento do sarampo, da coqueluche e talvez outros agravos que ameaçam a vida de pessoas e a economia de nações. Mas o pior aspecto desse tipo de fake news é que ele vem sem assinatura. Constróem-se narrativas complexas, recheadas de pseudodocumentos científicos caprichosamente elaborados com fotos, citações, ilustrações e outros adereços que inspiram confiança nos incautos ou mal instruídos que assim são arregimentados para a visão tosca e cruel de transtornados mentais e mal-intencionados.
Tipicamente, esse difusores de falsas notícias são covardes e dissimulados. Não assinam o que escrevem, colocando-se apenas como difusores daquilo em que acreditam ou daquilo que sirva aos seus torpes interesses. Fossem essas iniciativas acrescidas da assertiva “isto representa a minha opinião” ou “isto representa o meu desejo pessoal”, talvez o alcance da lei maior fosse mais restrito, pois estaria o leitor alertado da individualidade do pensamento e posição. Mas os difusores de fake news não agem assim, usando de todos os recursos para que seja não percebida a pessoalidade da posição ideológica e argumentativa.
No campo puramente das ideias e iniciativas, bem mostrou um certo filme da série “007” que uma informação falsa disponibilizada em massa tem o potencial de desencadear uma guerra mundial, e isto, nos dias de hoje, não está razoavelmente tão distante.
No caso em tela, tratou o Min. Alexandre, sabiamente, ao meu ver, e também legalmente, de proteger bens difusos de nossa sociedade. Não se tratou a medida de impedir a livre manifestação do pensamento, pois os investigados não têm apenas no Facebook e no Twitter as suas vias de expressão.
Novamente, como argumento, voltemos a 1988, sem internet e sem mídias sociais. Nossa fonte de informação e muitas vezes de expressão, eram os jornais e revistas. Pergunto ao leitor que já era socialmente emancipado à época: quantas cartas que vocês enviaram aos jornais foram publicadas? Pelas minhas, posso responder: pouquíssimas. Ora, que tipo de poder era esse que as mídias da época exerciam sobre a opinião ou expressão individual? Obviamente era uma forma “fisiológica” de censura! Absolutamente ninguém àquela época, excetuando-se os grandes proprietários dos grupos de mídia exerciam livremente a liberdade total de expressão, o que analisando-se à luz dos tempos atuais, soa como absurdo. Neste ponto, as mídias sociais cumprem um papel democratizante da expressão, ressalvando-se, claro, as atividades dos algoritmos que direcionam as postagens de forma calculada a certos públicos.
O território da internet muitas vezes dá a impressão de pretender ser uma verdadeira terra sem lei, demanda daqueles que tem um entendimento radical do princípio da liberdade de expressão. Mas, como já dissemos antes, as instituições democráticas devem cuidar de todos os bens fundamentais abrigados pela Constituição, entre eles, o direito do cidadão de receber informação qualificada e que não seja voltada a atacar os mecanismos de proteção da democracia e à própria democracia. Se as próprias mídias sociais tem suas regras internas, e com certa frequência bloqueiam ou censuram certas postagens, por quê não haveria o STF, que tutela os bens fundamentais da nação, de julgar certas atividades entendidas pelo magistrado como propagadoras do mal, do desentendimento, da ofensa, da calúnia, da difamação, sistematicamente praticados por um grupo de pessoas, que no contexto do inquérito em curso revelam evidências de articulação criminosa e ameaçadora aos bens democráticos, sob financiamento por verbas escusas e ocultas, e com evidências de uso de patrimônio público e verba pública?
Ao incauto e precipitado, junto aos quais observei alguns juristas, jornalistas e ativistas, parece mesmo uma iniciativa de mera censura. Mas não é. Não se trata de limitar a liberdade de expressão de pessoas, mas sim, o de prevenir a continuidade de uma prática já caracterizada no âmbito do inquérito judicial como criminosa contra a democracia e a sociedade. As pessoas envolvidas continuam livres para manifestarem-se individualmente em outros fóruns e eventualmente no palanque público, em entrevistas, textos e todo o tipo de matéria em outras mídias. Seus eventuais partidos, continuam livres para manifestarem-se pelas suas plataformas partidárias oficiais, com nome e assinatura.
Em um curtíssimo espaço de tempo a sociedade vem observando o risco e os danos causados pela má informação alavancada por ferramentas eletrônicas, perfis falsos, robôs e outras transgressões. A catástrofe da pandemia da COVID-19 é um verdadeiro genocídio que entre outras causas tem a atividade desses grupos, capitaneados pelo Presidente da República, que desde o início disseminou mentiras, falsos remédios e desinformação à sociedade sobre os riscos e dimensões da pandemia.
Não há mais tempo para o silêncio. Felizmente, o Min. Alexandre de Moraes falou nos autos. E disse, na minha interpretação: “não se trata de liberdade de opinião, e sim da liberdade para o cometimento de crimes contra a sociedade e a democracia, e esta liberdade não existe.”

Samba Perdido – Capítulo 13

Capítulo 13

 

“...foi quando meu pai me disse filho,
Você é a ovelha negra dá família.
Agora é hora de você assumir.”

Rita Lee – Ovelha Negra


Teresópolis era uma cidade de veraneio na lindíssima Serra dos Órgãos. Situada a uma hora e meia do Rio, era famosa por ser o balneário onde a seleção se concentrava antes das Copas do Mundo. Também era popular junto a colônia judaica e meus pais conheciam muita gente que tinha casas de campo lá. Quando criança, costumávamos passar verões ali hospedados em sítios de amigos ou em hotéis fazenda.

Durante uma dessas estadias, surgiu a oportunidade de comprar um terreno a um preço acessível num recanto remoto chamado Jardim Salaco. Sempre aberto a explorar oportunidades, Rafael foi dar uma olhada e levou a família junto para ver se a gente gostava. Adivinhando que acharíamos chato, teve a ideia de organizar a ida numa charrette.

Partimos cedo para o passeio ao som do trote de cavalos. Depois que passamos pela Granja Comary, o enorme hotel fazenda onde a Seleção treinava, a estrada se tornou de terra batida. Os arredores viraram mais rústicos e campestres. A paisagem se revelou maravilhosa e começei a gostar do passeio. Fomos seguindo por um vale até entramos por uma estradinha. Lá, cobertos por árvores, subimos um morro sentindo o ar puro da manhã ensolarada. Na sombra ficava fresco e nas clareiras ficava calor. Enquanto a natureza nos encantava, o dono da charrete açoitava sem parar os coitados dos dois cavalos. Com viseiras nos olhos, levando uma charrete com cinco pessoas, suavam pelo corpo inteiro deixando um cheiro forte.

Paramos no final da estrada num fim de mundo. O corretor tinha ido na frente de carro e estava a nossa espera. Seu Mendes era um senhor careca vestindo uma calça de tergal segura por suspensórios passando por cima da sua barriga avantajada. Ele estava cheio de sorrisos e de conversa fiada. Depois das introduções, ele abriu a porteira e nos convidou para entrar. O dono dos cavalos ficou do lado de fora e foi amarrar os bichos para que descansassem do passeio mais puxado que deviam ter feito na vida.

O terreno ficava na descida de um morro e tinha uma vista maravilhosa; um mar de montanhas se estendendo na nossa frente. Seu Mendes garantiu que num dia claro dava para ver até o Estado de Minas Gerais. Fora isso e a carona apertada que nos ofereceu para voltar, não me lembro de muito mais daquele dia. Só sei que Rafael acabou não resistindo à pechincha e comprando a terra em sociedade com um amigo, um ex-combatente da resistência francesa, Emile Weil, um sujeito magrelo com cara de invocado.

Depois da compra, meu velho não se entusiasmou pela ideia de construir uma casa de campo. Além de ser caro, o projeto o faria o casal perder o hábito de passar as férias esquiando na Europa enquanto nos mandavam para colônias de férias. Levou quase uma década para decidirem o que fazer com aquele elefante branco. Enquanto empurrava a decisão com a barriga, monsieur Weil construiu uma casa lá. O que Rafael não sabia é que, talvez esperando que o amigo acabasse vendendo sua parte, ele invadiu nosso lado do terreno sem consultar ninguém. Quando demos conta, o francês já estava usando a área toda como se fosse sua e isso chamou a atenção de meu pai.

Dez anos mais tarde, subimos a serra e fizemos aquele mesmo passeio, só que dessa vez de carro do Rio direto para o terreno. A ideia era avaliar por quanto poderíamos vender o terreno, mas o resultado acabou sendo bem diferente. Apesar da casa do agora ex-amigo ter o charme de um posto de gasolina e da presença do seu pastor alemão psicopata, Dayan, a beleza do lugar convenceu Rafael a construir uma casa ali para, quem sabe, viver a aposentadoria nela. Dona Renée, se animou com a ideia. Além de ter um sítio significar uma subida de degrau na escada social, o projeto a daria um passatempo novo e desafiador já que a idade estava começando a prejudicar sua performance no tênis.

Talvez por ver aquela empreitada como um investimento a longo prazo e que uma casa mais elaborada daria um retorno melhor na hora de vender, Rafael cedeu à insistência da esposa e deu carta branca para que tocasse o projeto. Com uma responsabilidade concreta pela primeira vez em sua vida de casada, Renée deu asas a sua imaginação e passou a devorar revistas de decoração do mundo inteiro. No fim das contas ela planejou, junto com um arquiteto e um mestre de obras local, uma casa de estilo campestre francês. Como era de se esperar, o custo da construção estouraria o orçamento várias vezes e colocaria em cheque a saúde financeira da família.

Sarah e eu não vimos com bons olhos aquela decisão. Para nós, Teresópolis era um lugar chato onde a judeuzada careta se isolava nos fins de semanas. As casas dos poucos amigos que iam lá, ficavam a quilômetros de distância daquele fim de mundo. Mais tarde fui descobrir que o único transporte público era o ponto final de uma linha de ônibus que saia de hora em hora, a uma caminhada de meia hora da casa.

Tendo isso em mente, para nos atrair, jogaram mais dinheiro no mato para construir uma piscina, se esquecendo que já havíamos passado há tempos da idade de ficar brincando na água rasa. Para Sarah e eu, a ideia foi um enorme elefante branco sugando a atenção, a energia e a grana dos nossos pais. Quando a inauguraram estava com 14 e Sarah com 19. A gente quase nunca ia, e o resultado foi que nos finais de semana, ficávamos com a casa liebrada sem qualquer supervisão. É claro que aproveitamos.

*

Estranhamente, aconteceu que o Fred, o líder da “esquadriha da fumaça” da Escola Americana, dono do apartamento onde fui iniciado, também tinha uma casa no Jardim Salaco. Ela ficava na outra extremidade da nossa rua. Quando meus pais travaram conhecimento com os dele, promeiro ficaram contentissimos pela coincidencia mas logo depois se horrorizaram quando o casal confidenciou que compravam eles mesmos a maconha para o filho a fim de evitar que se envolvesse com traficantes. Fred, sem sombra de dúvida, era um cara esquisito. Desengonçado, grande, meio gordinho e com um olhar transtornado, parecia estar eternamente chapado e vivia rindo de coisas bizarras e sem graça. Para Rafael e Renée, se fosse pobre jamais seria material para uma amizade com seu filho. No entanto, resolveram tolerar minhas visitas a sua casa já que poderiam me fazer ir mais para Teresópolis. Além disso, o pai era um arquiteto famoso, o garoto bem que poderia mudar e se tornar um contato valioso para o meu futuro.

O plano meio que funcionou e passei a ir quando ele e a galera subiam. Num fim de semana fatal, fui sabendo que estariam lá. No sábado a tarde, fui visitá-los. Além dos baseados de praxe havia muita bebida. Desacostumado, acabei tão bêbado que depois de atacar a cadela da casa e de uma crise copiosa de choro, tiveram que ligar para meus pais. Bebida era algo que não se via em casa, ao ponto que, em toda a minha vida, nunca vi meu pai sequer alegre por causa de álcool. Por isso, quando me viram, com 15 ou 16 anos de idade, caindo pelas tabelas, ficaram chocados. Colocaram a culpa no Fred, suspeitando que tinha colocado algo em minha bebida. Talvez fosse verdade, mas o mal já estava feito. Até então, era um artista sonhador, mas depois do ocorrido virei um adolescente problemático com tendência a ser vagabundo.

*

Minha vida doméstica refletia os versos de Panis Et Circenses dos Mutantes:

“Eu quis cantar

Minha canção iluminada de sol

Soltei os panos sobre os mastros no ar

Soltei os tigres e os leões nos quintais 

Mas as pessoas na sala de jantar, 

Estão ocupadas em nascer e morrer.”

Seguindo a canção, nos transformavamos naqueles personagens na hora do jantar. Sempre vestidos de maneira “apresentável”, nos reuníamos em torno de uma mesa clássica grande, escura e fortemente envernizada no meio da ampla sala de jantar. Em cima, havia um candelabro macabro. As cadeiras eram pomposas porém desconfortáveis. Os móveis em volta, também eram de madeira escura e as paredes tinham pinturas clássicas de naturezas mortas e de passagens bíblicas, emolduradas em um dourado pesado imitando antiguidades. Parecíamos estar numa mistura dos filmes caricaturais de Fellini com os filmes de vampiros do Bela Lugosi.

Antes das refeições havia sempre frutas frescas a nossa espera num vaso chinês. Isso porque, por recomendação de um médico amigo da família, começávamos com alimentos saudáveis, antes de passarmos às comidas mais pesadas. Quando todos haviam terminado, me pediam que pisasse numa campainha que ficava embaixo do meu pé. Seu barulho estridente fazia com que a dona Isabel interrompesse a sua novela na cozinha e entrasse com seu andar desajeitado para limpar a mesa e depois voltar com o prato principal. Enquanto comíamos, tínhamos que manter a pompa: nada de rádio ou televisão e não podíamos atender ao telefone. Quando terminávamos, me pediam para dar outra pisada na campainha para a sobremesa. Depois da sessão, Sarah e eu regressávamos ao planeta Terra enquanto Renée e Rafael iam para a sala de estar e passavam o resto da noite lendo em silêncio, lendo ao som de música clássica.

Foi durante um desses jantares que meu pai limpou a garganta para me dizer que uma faculdade de cinema nos Estados Unidos ou na Inglaterra estava fora de questão. Apesar da decepção, depois de tantas cagadas a notícia era previsível. Além do mais, o  conceito de publicidade e de cinema eram estranhos demais para eles e depois do ocorrido, a escolha mais parecia uma provocação do que qualquer outra coisa.

Ligeiramente chocado, reclamei. “E o que é que você quer que faça agora? Como que vou conseguir trabalhar com o que eu quero?”

“Trabalhar com o que você quer? O que você sabe sobre trabalho e sobre cinema?” Ele me olhou sério. “Isso não é profissão, é hobby! Profissão é médico, engenheiro, advogado.”

Me sentindo atacado, respondi a altura. “Fiz um filme que foi exibido na América Latina inteira, e sei o que quero! É tão difícil aceitar isso?” Ele não respondeu, mas desaprovou. Encorajado, continuei. “Quem não sabe do que está falando é você! O que você entende de cinema? Qual o último filme que você foi ver? Charlie Chaplin? Fred Astaire?”

“Essas ideias de saber o que você quer são coisas que esses vagabundos, filhinhos de papai estão colocando na sua cabeça.” Rafael não tinha o pavio curto como eu, mas pegava pesado nos argumentos. “Vê a tua irmã? Ela está indo bem na faculdade. Vai ser dentista. E sabe por quê? Ela não fica perdendo tempo. Você é mais inteligente que ela, tira nota boa sem precisar estudar. Toma jeito e vira homem?!”

Fiquei puto. “Será que estou falando com as paredes?!” E já fora de controle emendei. “Se virar homem significa baixar a cabeça e virar capacho em um escritório cheio de escrotos, quero ser um super-homem e ser dono do meu nariz.”

Ele também subiu o tom. “Você é um moleque mimado que não faz ideia do que está falando. Se você não me ouvir agora, a vida vai te ensinar.”

“Pois é, não tenho nada a aprender com você.”

Talvez se fosse de outra família ou se meu pai fosse mais jovem, teria levado uma surra, mas a resposta foi o silêncio passivo-agressivo de sempre que durou semanas.

*

Quem precisava daquela Escola Americana cara e cheia de maconheiros alcoólatras se eu não ia mesmo estudar cinema? Pouco depois daquela conversa, me colocaram de volta no sistema brasileiro. Tinham que fazer isso o rápido para que tivesse tempo de me preparar para o vestibular e entrar em uma universidade brasileira.

Da minha parte, conseguia entender que o dinheiro estava curto e que o esforço em apostar numa carreira acadêmica exorbitante no exterior seria puxado. Mas todo aquele papo furado para mascarar o fato de que o dinheiro tinha ido para construir uma casa que ninguém precisava, me deixou inconformado. De qualquer forma, a grana era deles e quem tinha que construir meu futuro era eu. Pensando bem, a situação não seria das piores; mais tarde poderia estudar cinema no Brasil. Tinha ouvido falar que havia um curso bom em São Paulo. Com algum talento e muito esforço, tudo poderia dar certo e um dia poderia alcançar meu sonho.

Depois do incidente, a atitude deles mudou radicalmente. Queriam me enquadrar. Os sermões sobre a importância do sucesso financeiro e de ter uma profissão “de verdade” passaram a ser quase diários e a pressão cada vez maior. As conversas terminavam em discussões acirradas e se resumiam a dois adultos com um plano contra um jovem tentando descobrir seu lugar na vida. Sem educação universitária ou experiência profissional, os dois estavam tentando me convencer sobre coisas que não entendiam, mas quanto mais tentava explicar meu ponto de vista, por mais racionais que meus argumentos fossem, pior as coisas ficavam. A Sarah entendia o meu lado, mas com seus problemas por causa dos namorados que ela arranjava, já tinha atritos suficientes para pensar em me defender.

Com tudo isso martelando na minha cabeça, ia para o quarto, pegava o violão e tocava uma dos Novos Baianos:

“Por que não viver? 

Não viver este mundo

Por que não viver?  

Se não há outro mundo??”

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Samba Perdido – Capitulo 12

Capítulo 12

“... aí eu vou misturar
Miami com Copacabana,
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim...”

Jackson do Pandeiro – Chiclete com Banana

 

Apesar do fiasco na Escola Britânica ter quase acabado com o projeto de estudar cinema no exterior, ele continuou. A única alternativa que sobrou no Rio de Janeiro foi a Escola Americana ou a EA (pronunciada i-ei por todos que a conheciam). Inegavelmente era um melhor e mais sólida para adolescentes e ainda tinha a vantagem de que os cursos iam até a idade pré-universitária. O currículo, porém, era inteiramente voltado ao sistema americano. Quando me formasse teria que fazer faculdade nos Estados Unidos. Por todas serem privadas, isso custaria uma fortuna. Ao contrário, se fosse estudar no Reino Unido, muitas das melhores universidades eram praticamente gratuitas e melhores do que a maioria das Americanas. Ciente como nunca de que estávamos, mas não éramos, ricos, Rafael aprovou a decisão salgada. Um detalhe preocupante era que se mudasse de ideia e resolvesse permanecer no Brasil a escola não preparava para o vestibular.

O início foi desconcertante. O colégio possuía tudo o que se poderia esperar de uma High School americana: garotas e garotos ruivos e loiros falando inglês anasalado, um campo de baseball, uma equipe de futebol americano e a competição social inerente àquele tipo de instituição. Cobrindo o morro logo em frente a favela da Rocinha, a maior do mundo, era um lembrete de que aquele terreno enorme abrigando prédios futurísticos era o foco de um vírus estrangeiro.

O lado pedagógico da EA era tão avançado quanto sua arquitetura apesar das aulas serem ridiculamente fáceis. Não havia uniforme, construíamos nosso próprio currículo e estudávamos com diferentes alunos em diferentes salas de aula. Havia uma área de fumantes para os estudantes e vários professores, todos americanos e muito profissionais, tinham cabelos compridos, algo que nenhuma outra escola no Rio tinha nos anos setenta.

Numa cidade influenciada pela cultura Estado Unidense, em matéria de curtição, a escola era o Olimpo para a juventude da Zona Sul carioca. Quem havia introduzido o surfe, os biquínis e a maconha à cidade tinha estudado ou estava estudando ali. Meus colegas de turma eram filhos dos estrangeiros poderosos enviados para assegurar que a filial seguisse de perto as diretrizes da matriz na construção do “Novo Brasil”. Essa mentalidade colonial era visível na maioria dos estudantes e eu tinha que tomar cuidado para não absorver o sentimento generalisado de superioridade em relação aos brasileiros.

A maior parte dos colegas não era santa e estava vivendo junto com suas familias os melhores momentos de suas vidas. Longe de sua terra, os pais ganhando mais do que estariam ganhando em casa e onde tudo era mais barato, a rapaziada fazia todas as coisas erradas que outros da mesma idade faziam, mas com a vantagem de poder contar com a IBM, a Merck ou a Esso para intervir quando as aventuras terminavam mal. Esse tipo de impunidade era normalmente reservada apenas às famílias locais do mais alto escalão.

A elite da escola se conhecia bem por meio das festas, dos clubes e das organizações que seus pais participavam. Era fácil excluir os que não faziam parte da roda. Com o status de brasileiro, não-surfista, não-sarado e filho de um judeu idoso dono de um pequeno negócio, me barraram na hora. Os que faziam parte daquela turma tinham imaculados pedigrees americanos ou europeus, irradiavam autoconfiança, eram atléticos e pareciam arrasar em qualquer atividade física na qual se envolviam, menos no futebol. É claro que as meninas só davam bola para eles.

Aquela galera levava um estilo de vida difícil de se imaginar. Para começar, a maioria tinha barcos a sua espera na marina do Iate Clube do Rio de Janeiro. Muitos moravam em casas espaçosas, uma raridade mesmo naquele tempo. Os que moravam em apartamentos, viviam nos melhores endereços da cidade como as avenidas beira-mar de Ipanema e do Leblon, a Vieira Souto e a Delfim Moreira. Sempre que era convidado para suas festas ou para passar um tempo com algum deles, pensava comigo mesmo: “Então são essas as pessoas que moram aqui!” Aquela turma tinha acesso a coisas que eram ficção científica: videogames (algo que quase ninguém tinha na época), pranchas de surf e skates importados, discos de todas as bandas imagináveis e os melhores equipamentos de som disponíveis nos Estados Unidos. Seus fins de semana, quando não passados velejando num iate, eram passados em casas de veraneio que pareciam saídas de revistas especializadas e isso nas melhores localidades. Lá utilizavam todos os seus brinquedos.

Como se isso não bastasse, suas mesadas em dólar eram muito maiores do que o que eu recebia em um ano inteiro, que, por sua vez, era mais do que um salário mínimo. Meu pai tinha ganho bastante dinheiro extra com sua jogada na bolsa, mas comparados a essas famílias éramos pobres.

Os poucos amigos que fiz estavam numa situação parecida. No entanto trouxeram uma novidade: fumavam maconha. Depois que ficaram sabendo que tocava violão e dos meus gostos musicais não demorou muito para que me convidassem a descobrir qual era o motivo de tanto barulho.

Minhas primeiras tentativas foram decepcionantes. “Cara, cadê? Esse bagulho não era bom pra caralho? Já é o segundo e nada!”

“Calma, Rique, não bateu porque você está nervoso. Vou colocar um Pink Floyd para relaxar, Dark Side of The Moon. ”

“Tenho em casa, sei até tocar Time no violão.” Paranóico de que minha tirada de onda tinha caído mal, mudei de assunto. “Será que não bateu porque tossi demais?”

Aquilo foi a chave de ouro para a minha pagação de mico e todos caíram na gargalhada.

Rod, um cara que não ia com a minha cara, conseguiu parar de rir e falou. “Não falei que esse cara é muito louco?! Não bateu porque ele tossiu demais!!” E as gargalhadas voltaram.

Na terceira ou quarta sessão, tomando mais cuidado para não falar bobagem, fiquei na minha e de repente a ficha caiu que estava muito chapado.

“Caralho, cara, esse som tá muito bom!!”. Os caras olharam para mim esperando que eu falasse mais besteira. Levantei, olhei em volta me sentindo diferente e emendei. “Porra!!! Eu tô doidaço!!”. Dessa vez todos riram comigo.

A experiência não foi como tinha esperado, não havia unicórnios galopando pelo ar e as coisas não tomaram cores psicodélicas. A única mudança foi que a gente continuou rindo sem parar sem motivo nenhum enquanto trocavamos discos de bandas obscuras na vitrola. Sem dúvida, a onda dava uma dimensão diferente às coisas. Talvez por estar aprendendo violão, o efeito da fumaça deixava nítida as diferentes camadas da música. Eu parecia compreender o que se passava na cabeça dos músicos quando as criaram e quando as gravaram.

Enquanto a turma ficou inventando mentiras sobre ácido, heroína e maconhas mais potentes, falei que tinha que ir ao banheiro e fui curtir a novidade dando uma volta pelo apartamento. Os pais do dono da casa, Fred, tinham viajado e a casa estava vazia. Fiquei vagando no escuro pela sala de estar enorme vendo pinturas na parede, esculturas e plantas decorativas. Tudo tinha adquirido uma beleza que nunca teria notado em meu estado normal.

Quando voltei, já estavam fumando outro.

“E aí, Rique? ”

“Cara, esse negócio é muito bom! Me passa essa porra aí!” e todo mundo caiu de novo na gargalhada.

Depois daquela noite entrei numa sintonia diferente tanto na escola quanto na praia, no clube e em casa: agora pertencia a um clube secreto. Coisas e pessoas que nunca tinha entendido passaram a fazer todo sentido. Participar dessa realidade paralela era como a conquista de uma nova identidade. Na minha cabeça, meus pares em outras rodas, o Maurício, o Jaime e o Léo estavam morrendo de vontade de fazer o mesmo mas não tinham coragem.

O lado negativo foi que passei a levar uma vida dupla. Não disse nada para os meus outros amigos, muito menos para os meus pais. Os dois Riques não se misturavam, para um grupo continuei sendo o mesmo de sempre só que com sumiços e momentos estranhos, para o outro era um iniciante estabanado. Logo descobriria que a maconha era um repelente contra as garotas, mas e daí? Nunca iria conseguir nada com as beldades da Escola Americana mesmo.

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Samba Perdido – Capítulo 11

Capítulo 11

 

“…Eu fico contente da vida

Em saber que a Bahia é Brasil.”

Francisco Alves – Bahia com H

 

Se para Rafael e Renée o sonho de levar uma vida idílica num paraíso exótico era difícil de encaixar com a responsabilidade de criar filhos, imagina lidar com um que tinha decidido ser diretor de cinema. Seu investimento pesado em educação era para gerar um herdeiro médico, engenheiro, advogado ou algo parecido, não um menino sonhador. Ansiosos pela escolha um tanto precoce e irrealista e sem saber nada sobre o assunto, os dois fizeram o melhor que podiam. 

Após consultar um monte de  “especialistas”, ou seja, amigos e familiares com as mesmas percepções e limitações, chegaram a uma conclusão. O mais aconselhável seria me mandar estudar na Inglaterra onde, na cabeça da dona Renée, seria treinado para ter meu nome em cartazes de filmes importantes. 

Para tanto, minha vida acadêmica teria que mudar. Entrar para o sistema britânico dependia do sucesso nos O-levels, um teste difícil que todos tinham que fazer por volta dos dezesseis anos. Quem passava se qualificada para a próxima etapa, os A-levels, um teste mais direcionado e ainda mais puxado, que teria quando fizesse dezoito. Esse sim, servia de passaporte para as universidades britânicas.

O único curso no Rio que preparava para os O-levels não era outro senão a mesma Escola Britânica que havia praticamente me expulsado. Para os A-levels, não teria jeito, a única opção seria me mudar para a Inglaterra e meus pais começaram a ver as possibilidades. 

A volta para a minha primeira escola era uma decisão arriscada e cara. Minha turma seria a primeira na escola a se preparar para aquela prova. Serviríamos de cobaias e seríamos os alunos mais velhos que já tinham tido. 

Houve muitas discussões a portas fechadas, com minha mãe fantasiando sobre meu futuro de cineasta e meu pai preocupado não só com o custo, mas também com meu comprometimento e com as possibilidades nessa carreira. Isso era coisa de menino rico. Talvez essa condição não duraria para sempre e essa era uma clareza que só ele possuía em casa. 

Contudo, resolveram correr o risco. O ano letivo começa fim de Agosto, espelhando o Britanico, e quando o momento  chegou, lá estava eu, cinco anos mais velho, de novo num uniforme azul e cinza, pegando o ônibus, dessa vez sozinho, rumo ao mesmo lugar onde tinha visto a rainha entrando de Rolls Royce. Na minha cabeça esse era o primeiro passo para me tornar um diretor de cinema. 

Em poucas semanas deu para sentir que a escolha talvez não tivesse sido a melhor. A escola não era mais a mesma. Além de estar ligeiramente dilapidada, o curso era desorganizado e, apesar de serem todos estrangeiros, os professores em sua maioria, pareciam aposentados ou donas de casa fazendo um bico.

O ex-oficial disciplinador da marinha que havia cismado comigo tinha há muito voltado para a Inglaterra. Agora, o diretor era o esquisitíssimo Mr. Lewis, um sujeito seboso, com óculos “fundo de garrafa”, baixinho e troncudo. Parecendo um ogro do Harry Potter sempre exalava um bafo poderoso das suas feições de buldogue bêbado. Além de ter vários tiques nervosos, era meio gago e falava com um sotaque exageradamente elegante do qual tirávamos sarro. Acima de tudo, o coitado não tinha a menor ideia de como impor respeito a adolescentes.

Por outro lado, apesar de em termos acadêmicos aquela ser a hora errada para se estudar alí, em questão de diversão a história era bem diferente. Com exceção de nosso professor de matemática, Mr. Bindley, um enorme ex-jogador de rúgbi do norte da Inglaterra, ninguém era capaz de controlar nossa turma. Isso nos permitiu criar um regime de terror e fazer tudo de errado que garotos entre 14 e 16 anos são capazes. A capetagem era horrível, enfiávamos nossas mãos não convidadas embaixo das saias das garotas, destruíamos os cadernos dos alunos certinhos no ventilador, dávamos descarga em peixinhos dourados e escapávamos da escola no horário do almoço para voltar embriagados para as aulas.

Ainda que o currículo fosse o mesmo que escolas similares no Reino Unido, nem eu nem os meus novos amigos, todos filhos de diplomatas e de executivos de alto escalão, jamais tiraríamos qualquer proveito daquelas aulas. No final do ano, tive que ser honesto e falar para o Rafael que ele estava jogando o seu dinheiro suado fora. Com toda aquela loucura, seria necessário um esforço sobre-humano para deixar a farra de lado e me focar no meu objetivo.

Mudar de atitude radicalmente para recuperar cinco anos passados no sistema brasileiro e passar naquela prova dificílima era uma tarefa pesada demais. É fácil criticar um menino privilegiado de 15 anos de idade, mas não tinha sido criado para aquilo. Também, apesar do sonho de ser cineasta continuar vivo, depois de conversar com os colegas e a entender a mentalidade Britânica melhor perdi motivação. A ideia de deixar a vida boa do Rio de Janeiro e me mudar para a dura realidade de ser um estrangeiro num colégio interno na Inglaterra passou a não ser convidativa. Lá, com certeza, os colegas e os professores ingleses fariam de tudo para colocar o estrangeiro novato “na linha”. 

*   

Depois de constatado o erro, Renée e Rafael ficaram sem saber o que fazer com o filho. Em meio ao caos, talvez visando me colocar de volta nos trilhos ou me fazer esquecer a carreira de ser cineasta, minha mãe sugeriu que aprendesse a tocar violão. Tinha levado jeito com a flauta quando criança, quem sabe se me tornasse bom com as cordas, minhas habilidades poderiam abrir as portas da popularidade com uma turma mais positiva. Em casa já havia um violão excelente, um Del Vecchio artesanal. Era da Sarah, mas ela nunca tinha conseguido aprender. Pelo menos daquela vez, o conselho materno acabou sendo um tiro na mosca e sem conseguir levar a escola a sério, popular ou não, mergulhei fundo no instrumento. Dali nasceu uma amizade que duraria para toda a vida. 

O professor particular veio através de uma amiga de tênis da Renée. Romualdo tinha uns vinte e tantos anos, magro, testudo, óculos “fundo de garrafa” a frente de um rosto coberto de espinhas que não combinavam com suas feições africanas. Ele parecia, e se vestia, como um nerd mas no violão era inacreditável. Ele tinha sido roqueiro, mas – nunca descobri o porquê – havia se convertido para o fundamentalismo da bossa nova e era isso ensinava. 

No início, não gostei. Queria tocar como Jimi Hendrix, enquanto ele só me ensinava o estilo conservador de João Gilberto. Os deveres de casa eram doloridos, tinha que me esforçar para fazer os acordes de jazz que forçavam os dedos a segurar as cordas em posições que pareciam com uma aranha. 

Foi difícil, mas quando peguei o jeito e a mão esquerda começou a cumprir o seu papel enquanto a direita fazia a batida do samba, a magia musical começou a sair. Daquele momento em diante, descobri não só um estado de espírito que trazia harmonia, mas também algo que amava.  É claro que a medida que o violão foi tomando um papel central no meu dia a dia, a escola e os deveres de casa foram ficando ainda mais distantes.

*

Presos no conservadorismo da minha mãe, em casa só tínhamos discos de música clássica. Para avançar, precisava ter acesso à música que o Romualdo estava me ensinando. Não era só bossa nova, era também o que a nova geração da música popular brasileira estava fazendo. A saída foi a biblioteca do Ibeu, o Instituto Brasil-Estados Unidos. Armado na altura em que planejavam o golpe militar, o instituto tinha sido uma tentativa de relações públicas positiva. Ficava perto de nosso antigo apartamento em Copacabana. Além de oferecer cursos de inglês e de outros serviços, tinha uma biblioteca respeitável. Era isso que era o que interessava, em particular a sua coleção de discos. 

Seu acervo era generoso. Além de LP’s dos óbvios: João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben, também havia discos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Cartola, Elis Regina, Clementina de Jesus, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Fagner, Walter Franco, Luiz Melodia, Os Mutantes, Raul Seixas entre muitos outros. Havia também uma respeitável coleção de títulos de rock internacional. Apesar de não ter nada das bandas principais; Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, havia bastante coisa interessante como The Band, Bob Dylan, Focus e Ten Years After.

Os sócios podiam levar três discos de cada vez. Com tanta coisa para escolher não sabia por onde começar. Fui com sede ao pote, queria conhecer tudo. Esses sons passaram a ser uma presença constante no velho toca-discos do meu quarto e aos poucos, fizeram com que o mundo se tornasse um lugar maior.

*

O Ibeu passou a ser mais do que um portal de acesso a novas paisagens musicais; sua coleção de livros também ajudou a expandir os horizontes literários. Comecei com as coleções inteiras do Asterix e do Tintin. Agora, mais velho, descobri livros. Entre eles achei os de Jorge Amado. Meu primeiro livro foi Capitães de Areia. Suas páginas descreviam a vida de moleques de rua de Salvador enfrentando a pobreza, a ignorância e o preconceito racial bem antes de o “Novo Brasil” entrar em cena. Fascinado, acabei devorando a obra inteira do escritor baiano. 

Como a maioria dos autores e intelectuais latino-americanos de sua geração, Jorge Amado era de esquerda, de fato comunista. Seus trabalhos mostravam como as chamadas massas eram sofisticadas e tinham vidas mais completas do que a dos novos ricos neuróticos, urbanos, moralistas e brancos. Suas estórias eram dramáticas e cheias de sensualidade e falavam do povão que via na rua todos os dias mas com quem não me relacionava. 

Seus livros voltaram minha atenção para a enorme celebração da mistura de raças e de culturas, que é o Brasil e me fizeram dar vários passos adiante na aventura que meus pais começaram quando resolverem mudar de continentes. Descobri a Bahia pulsando no coração do país. Talvez por Salvador ter sido a primeira capital, a brasilidade ali era mais enraizada. Além de fornecer seu melhor escritor, o estado era o Delta do Mississipi do mundo lusófono e tinha dado ao país seus músicos mais talentosos: Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e Caetano Veloso, todos agora devidamente presentes no meu toca-discos, e nas cordas do meu violão. 

O Samba tinha nascido lá, bem como as religiões afro-brasileiras e a capoeira, criada nas batalhas dos escravos contra seu destino. Com exceção do Haiti, a Bahia era o lugar mais africano no planeta fora do próprio continente. Ao contrário da maioria dos negros espalhados pelo mundo, os baianos eram orgulhosos de suas origens e viviam de acordo com suas tradições, não como uma expressão da resistência política, mas por amor.

Não era o único fascinado pela Bahia nos anos 1970; a abundância de praias inexploradas, os talentos da terra e a aura afro-brasileira, transformaram aquela parte do Brasil no destino preferido de hippies do país inteiro. Havia algo que emanava daquela terra que permitia com que a juventude rejeitasse o sistema de uma maneira mais verdadeira do que a estilo californiano e exclusivista acontecendo nas praias cariocas. Talvez não coincidentemente foi por volta dessa época, que o maior mestre de capoeira do seu tempo, Mestre Camisa, discípulo do lendário Mestre Bimba, chegou de Salvador e popularizou o esporte na classe média carioca. Ele começou treinando um pequeno grupo de capoeiristas, Gato, Peixinho e Garrincha, que mais tarde se tornariam eles mesmos mestres. Juntos com seu mentor, formariam o grupo Senzala. Agora separado em diferentes subgrupos, o Senzala viria a dominar tanto o cenário brasileiro como o internacional da capoeira.  

*

Um dia, fuçando a caixa de surpresas musicais do Ibeu me deparei com um disco novo. A capa era com um monte de hippies sorridentes posando para uma foto. Tirei ele da pilha para dar uma olhada. A contracapa era de uns pratos misturados com uns bules de café e panelas de alumínio amassado espalhados em círculo no chão de um barraco. O título do disco era Acabou Chorare e o nome da banda era Novos Baianos. Na fase que eu estava, tudo nele parecia dizer “por favor, me leve para ouvir em casa”. 

Quando coloquei para tocar, reconheci de imediato uma música que tinha ouvido na rádio e que eu gostava muito, Preta Pretinha. Conforme fui ouvindo o resto do disco, fiquei consumido pela mistura bem-feita de rock com música brasileira e dos instrumentos elétricos com o som caseiro de instrumentos acústicos. Tudo tocando com harmonias e ritmos complexos porém cheios de vida. Ouvi o disco repetidamente até a hora do jantar e continuei depois. Fui dormir absorvido pela ginga musical e pela malandragem lisérgica das letras e acordei querendo mais. Foi assim que descobri o que, para mim, foi a melhor banda de todos os tempos.

O também baiano Tom Zé, o gênio musical da Tropicália foi quem juntou a banda em Salvador e os trouxe para o Rio. Lá, como os poetas gregos, não só cantaram mas também viveram o sonho hippie. Morando em comunidade num apartamento em Botafogo, se tornaram as abelhas-rainhas do enorme contingente de alienados na juventude carioca.

Eles tiveram sorte: junto com Milton Nascimento e seu “clube da esquina”, sua presença preencheu o vazio deixado para trás pelo exílio dos grandes nomes da música brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Somado a isso, ainda no Brasil, João Gilberto, a expressão máxima da bossa nova, resolveu apadrinhar a banda. Trabalhando com eles, conseguiu lapidar seu talento bruto nos mais altos padrões de qualidade. 

Com tanta energia positiva, a banda acabou conseguindo um contrato com a Som Livre, a gravadora das organizações Globo. Cientes de que o astral do grupo era fundamental e preocupados com os problemas que os seus excessos no apartamento em Botafogo poderiam trazer, a produção os mudou para um sitio em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Lá, a banda dividia seu tempo jogando bola, ensaiando, criando, comendo comida vegetariana, se chapando e fazendo filhos. O rancho se tornaria um ícone da época.

O afã daquela geração em aproveitar a vida, se distanciando da toxicidade dos caretas e de suas caretices, podia ser resumida na pergunta que faziam em seu bem-humorado samba, Besta é Tu: “Por que não viver este mundo se não há outro mundo?” 

Os Novos Baianos personificaram o que os hippies brasileiros foram durante a ditadura: uma força da natureza. Com uma repressão assassina à solta, a resistência tinha virado existencial, quase espiritual, daí talvez mais saudável do que a política convencional. Seu caminho buscava resistir sendo não urbano, tentando achar uma nova maneira de se relacionar com o mundo, tendo a cabeça aberta, mas ao mesmo tempo preservando integridade consigo mesmo e com os outros. 

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