por Mauro Nadvorny | 3 jul, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Durante uma semana ficamos sabendo quem seria o novo ocupante do MEC e a seguir de sua demissão do cargo. Carlos Alberto Decotelli da Silva teve uma passagem “celeríssima” pelo governo Bolsonaro.
Eu não me importo com a cor da pessoa, mas com o seu caráter, sua honradez, sua capacidade de trabalho, sua honestidade etc. Ele não foi o único ministro do atual governo a mentir em seu currículo, mas foi o mais destacado deles até pedir para sair.
Tenho certeza de que seus amigos e alunos, ao menos os que se dispuseram a dar entrevistas, foram sinceros ao dizerem que se tratava de uma ótima pessoa, muito querida e excelente professor. Com certeza, sua família, além dele próprio sofreram muito com todo o episódio.
O fato é que nada justifica uma fraude. O que ele fez em seu currículo se chama Crime de Falsidade Ideológica e, se quisesse, o MP poderia abrir um processo contra ele. Não se pode atribuir diplomas de cursos não completados, de trabalhos não realizados e de universidades não frequentadas.
Decotelli foi muito ingênuo ao achar que poderia assumir o cargo do até então pior ministro da educação da história do Brasil, que acabava de fugir para os EUA usando um passaporte diplomático que não tinha mais direito, sem ter sua vida escrutinada. Parece ter ficado ébrio com o convite.
Não tenho dúvida que servir como ministro ao país é uma grande honra para qualquer um. Mas vamos falar sério. Uma coisa é servir de ministro em uma ditadura, outra coisa numa democracia. E mesmo em uma democracia, uma coisa é servir a um governo popular, outra a um governo fascista. Muita gente não tem o menor discernimento.
Existem outros ministros que mentiram descaradamente em seus currículos que haviam estudado em Harvard. Foram motivo de piada, corrigiram o erro e se mantiveram no cargo. Decotelli foi um pouco exagerado. Cometeu plágio e também escreveu possuir títulos inexistentes. Começou mal e terminou pior ainda.
Em um governo cheio de estrelas nazistas, de crentes na Terra Plana, adoradores de Trump, adeptos das teorias da conspiração, como a do Covid-19 ser um vírus criado para os comunistas dominarem o mundo, tudo agora é visto com uma lupa. Se mais alguém acha que pode entrar para este governo com qualquer manchinha no passado ser esquecida, perca as esperanças. Sua vida será revirada ao avesso.
O exemplo Decotelli acabou se tronando didático. Imagino que o Lattes nunca teve tanto acesso de pessoas “corrigindo” erros cometidos. É bom que o façam, de farsas e mentiras neste governo, já chegamos ao limite do tolerável.
A classe dos professores foi maculada por um dos seus. Nenhuma classe está a salvo de pessoas assim. Creditar-se ter alcançado na vida aquilo que era desejo, sem ter cumprido as atividades formais, ou ter sido reprovado nos trabalhos, não é algo que a gente esperava de um professor. Muito menos de um economista. É como se ele tivesse trapaceado nas contas.
Bolsonaro consegue errar em absolutamente tudo o que faz. Até na nomeação de um ministro o cara não acerta. Era de se supor que lhe são trazidos nomes que passaram por todo tipo de exame e seriam todos ilibados. Nada disso. Em um governo sem presidente a altura do cargo, são estas baixarias que vamos seguir assistindo.
por Richard Klein | 27 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Quando garotos chegavam à puberdade, depois de passarem pela introdução visual e manual trancados no quarto ou no banheiro, seguiam a tradição de serem iniciados no sexo ou por uma doméstica ou por uma profissional. De uma hora para outra, parecia que todos já haviam transado menos eu e os amigos mais chegados. Como nenhum de nós tinha empregadas gostosas e disponíveis, o jeito seria recorrer às profissionais. Dada a nossa limitação orçamentária, todos os dedos apontavam para a mesma direção: a famosa Casa Rosa.
Em famílias locais tradicionais, os pais levavam os filhos para o evento ou pelo menos patrocinavam a excursão. Esse certamente não seria o meu caso. Com Rafael já na casa dos 75 anos, sexo não era provavelmente praticado muito menos discutido em casa, nem mesmo em piadas. Para ele, a libertinagem era uma coisa para domésticas e favelados promíscuos. Nunca aceitei isso, mas não pude deixar de assimilar parte da ideia de que o sexo era algo intrinsecamente sujo e que deveria ser ocultado da sociedade educada. Mesmo assim, já enjoado da minha mão, não via a hora de ser iniciado. Com isso em mente, eu e meus amigos ficamos meses juntando dinheiro para uma ida à Casa Rosa.
Finalmente o grande dia chegou. Numa tarde de sábado, marcamos de nos encontrar após o almoço para ir a nossa expedição erótica. Só que na última hora, quando estava preparando para sair recebi um telefonema do Maurício, meu melhor amigo e comparsa mor nessa aventura. “O Roberto me ligou dizendo que vai ao cinema hoje à tarde.”
“Para o cinema?! Como?! Já não tava tudo marcado!?”
“Pois é, ele disse que tinha esquecido. Que babaca né?”
“Esqueceu o caralho!! O veadinho amarelou!”, respondi com raiva. “E agora? Estou com a grana aqui. Como é que a gente faz? Vamo lá de qualquer maneira!”
“Olha, falei com meu pai e ele disse que só me deixa ir se for com o Roberto.” Maurício era medroso.
“Foda-se teu pai, Maurício! A gente pega um táxi e vai lá. Como é que ele vai saber? Se perguntar sobre a grana, fala que a gente foi no cinema e depois você me emprestou também. Sei lá, inventa!”
“Não dá, Rique. Já falei com o Jaime, com o Mário e com o Leo e ninguém vai. Se você está com tanta vontade, vai sozinho.”
A resposta mesquinha matou o papo. Não tinha coragem para ir pela primeira vez a uma zona sozinho. Mais tarde fiquei sabendo que até o pai do Roberto tinha ficado zangado com ele.
Algumas semanas mais tarde, consegui convencer os outros a ir sem um “guia”. Os pais deles liberaram e partimos para a Casa Rosa. Pegamos um táxi da casa do Léo em Copacabana sem saber ao certo como chegar lá, mas quando o motorista escutou “Rua Alice”, sabia exatamente onde era e o propósito daquela corrida.
Na ida, ficamos discutindo se deveríamos mentir sobre a nossa idade. Jaime, um cara mais ajuizado, porém cagão, falou: “Não sei se vão deixar menores de idade entrar lá, é melhor a gente dizer que tem dezoito anos.”
“Está maluco?! Você acha que a gente tem cara de dezoito anos? Olha só para a cara do Léo? Dezoito anos nem fodendo!”
“Tá bom, a gente diz que tem dezessete.”
Maurício, que gostava de ser o conciliador da turma, concordou. “Dezessete é um bom número, é quase dezoito e vai trazer mais respeito com as putas.”
Eu, que já estava me perguntando o que é que estava fazendo no táxi com aqueles panacas, intercedi. “Cara, se a gente falar que tem dezessete anos, a vamos parecer mais retardados do que a gente já parece. Vamos fazer o seguinte, cada um fala a idade que quiser.”
“Mas e se não deixarem a gente entrar?”
“Você já viu puteiro recusar cliente?”
A gente já estava em Laranjeiras. O motorista, que tinha ficado quieto durante a discussão mas que devia estar rindo por dentro, subiu uma ladeira e parou em frente a um casarão.
“É aqui.”
Depois de fazer a “vaquinha” para pagar o taxista, a gente saiu. A Rua Alice era bonita, arborizada e tranquila. O casarão chamava atenção com seu glamour desbotado de épocas gloriosas de um prostibulo de luxo e ficava atrás de um muro. Os dois eram de fato pintados de rosa. Assim que o táxi partiu, percebemos um carro de polícia estacionado logo depois da curva, o que fez com que o Jaime quisesse desistir.
“Quer ficar calmo, Jaime? Puta não morde!”
Quando estávamos para tocar a campainha, a porta se abriu e um grupo de policiais, uns ainda ajeitando o uniforme, saiu e nos cumprimentou com sorrisos cúmplices. Uma velhinha com cara de mafiosa apareceu logo atrás, deu boas vindas, nos levou até a recepção e desapareceu para dentro do casarão. Fomos sentar ao redor de uma mesa de madeira perto de uma pista de dança vazia e ficamos esperando. O silêncio nervoso era quebrado pelo show de samba que estava passando numa TV preto e branco. Ao lado havia luzes piscantes que subiam uma escadaria em cima de um balcão. Nele havia duas tabelas de preços penduradas: uma para bebidas e outra para programas.
Uma a uma, as garotas vieram descendo para a matinê. Nem de longe elas lembravam as beldades inacessíveis que enchiam nossa boca de água nas praias e nas revistas, mas pelo menos eram mais jovens e mais bonitas que nossas empregadas. A madame veio logo atrás, apontou para nós e disse:
“Está na hora do leite das crianças.”
Estavamos tão apavorados que elas nos escolheram, não o inverso. Quase sem dizer nada, nos levaram de volta para seus quartos. Quando a ação estava para começar, ouvi alguém bater o joelho contra a cama. A julgar pela reação, dava para sentir que tinha doído. Deu para ouvir a voz do Maurício gemendo através da parede fina de madeira e ele pulando de dor. Deu vontade de rir, mas, como todos, estava tenso demais para saber o que fazer.
Minha garota era mais bonita, branca, magra e nova que as outras e tentou me acalmar. “É a tua primeira vez aqui?”
Pensei em mentir, mas respondi que sim com o coração disparado.
Ela continuou. “Você me lembra um menino que esteve aqui na semana passada.”
Enquanto falava ela foi tirando a blusa e depois o sutiã e exibindo seus seios. Talvez pela minha cara hipnotizada ela deu uma risada. “Fica calmo, pode tirar a roupa também.”
Meio desconfortável, fui me despindo enquanto admirava seu corpo já nu. A situação me fez lembrar as cenas de abertura desengonçadas dos filmes pornôs. Quando estava pronto, me recostei no travesseiro e ela veio se deitar do meu lado. O colchão era duro e áspero.
“Meu nome é Lu e o teu”
“Rique.”
“Que nome bonito. É Rique de Henrique?”
“Não, de Richard.”
“Nossa, nome de lorde!” Ela deu outra risada e, vendo que ainda estava sem jeito, olhou para os seios depois para mim e me convidou: “Pode tocar se quiser.”
Nunca tinha visto peitos nus ao vivo antes, muito menos tocado. Coloquei as mãos e gostei. Depois, tomei coragem e comecei a explorar seu corpo, sem fazer a festa que tinha planejado, mas curtindo mais do que tinha imaginado. Sua pele nua era macia, morna e muito gostosa. Me sentindo ousado, coloquei minha boca nos bicos, ela pareceu gostar e depois de uma sessão mais intensa de bolinagem, já estava pronto. Ela se posicionou, me olhou nos olhos e disse.
“Vem, menino!”
O ato foi rápido e decepcionante, mas pelo menos contou como minha iniciação de “amante latino”. Não fui o primeiro a aparecer no andar de baixo, o que me fez sentir melhor. Depois de todos pagarem, descemos a ladeira tirando sarro do joelho e do orgulho dolorido do Maurício.
“E aí Mauricio? Qual era o tamanho do pau com que ela te bateu? “
…
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por Mauro Nadvorny | 26 jun, 2020 | Comportamento, Opinião
Olavo de Carvalho, o guru da chamada “ala ideológica” do bolsonarismo é antissemita?
A pergunta não tem razão de ser, tão evidente é a resposta: SIM. Poucas pessoas foram a tal ponto explícitas no ódio aos judeus.
Num livro de 2012, intitulado “Os EUA e a nova ordem mundial”, uma compilação de um debate entre ele e o escritor neofascista russo Aleksander Dugin, Olavo de Carvalho denuncia uma organização judaico-globalista ( que ele denonima Consórcio) composta por “grandes capitalistas e banqueiros internacionais, empenhados em instaurar uma ditadura mundial socialista”.
A discriminação aos judeus vem no meio de um pacote de teorias da conspiração, num emaranhado paranoico que vai do terraplanismo ao marxismo cultural, passando pela Pepsi Cola, que usaria células de fetos para fabricar adoçantes.
Ao responder a uma provocação de Dugin sobre a presença de judeus no fantasioso Consórcio, Olavo afirma:
1) A presença de banqueiros judeus nos altos círculos do Consórcio;
2) A de militantes judeus na elite revolucionária que instaurou o bolchevismo na Rússia.
Para Olavo, é óbvio e patente que esses dois grupos de judeus – banqueiros e militantes comunistas – colaboraram entre si para a “desgraça do mundo”. Eles continuaram colaborando até na época em que Stálin desencadeou a perseguição geral aos judeus e a KGB começou a devolver a Hitler os refugiados judeus que vinham da Alemanha. A colaboração duraria até hoje.
3) O barão Rothschild é dono do Le Monde, o jornal mais esquerdista e anti-israelense da grande mídia européia, assim como a família judia Sulzberger é dona do diário americano que mais mente contra Israel. Enquanto George Soros, judeu que ajudou os nazistas a tomar as propriedades de outros judeus, financia tudo quanto é movimento anti-americano e anti-israelense do mundo.
Nessas quinze linhas, o guru da Virginia acumula fake news. Ele confunde o jornal Le Monde com Libération, que em 2005 teve capital da família Rotschild. Além do que Le Monde não é nem nunca foi um jornal esquerdista. Quanto a Soros, ele foi perseguido pelos nazistas durante a Segunda Guerra e ao final do conflito tinha apenas 15 anos de idade. Por pouco o pequeno George não foi enviado para os campos de extermínio.
Portanto, as acusações de Olavo de Carvalho aos judeus não passam de mentiras antissemitas tiradas dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, dentre as quais a mais antiga e disseminada – a de que fazem parte de uma conspiração para dominar o mundo, controlando a economia e a mídia.
Quanto à relação entre os judeus e o bolchevismo revolucionário russo, só mesmo o antissemitismo explica. Afirmar que “militantes judeus” estavam por trás da revolução que instaurou o comunismo na Rússia em 1917 remonta a uma mentira utilizada pela propaganda do partido nazista para instigar o ódio contra seus dois principais inimigos: judeus e comunistas.
Se é verdade que alguns revolucionários russos, como Leon Trotsky e Grigorii Zinoviev, eram de fato judeus, a imensa maioria tinha origem cristã.
No mesmo texto, Olavo deixa ainda mais claro o seu preconceito: “Alguns judeus merecem proteção; enquanto outros, falsos e impuros, devem ser demonizados. Quando se trata desses, eu abraço o antissemitismo.
Dos textos antisemitas de Olavo, talvez o mais surpreendente tenha sido sua comparação entre judeus e nazistas.
Num artigo de 1995, publicado no livro “O imbecil coletivo”, ele critica Jeff Lesser, brasilianista que acabara de publicar uma pesquisa sobre o antissemitismo durante o Estado Novo:
“Ou aderem ao modernismo ateu, ou, quando se apegam à religião, é para rebaixá-la a um fundamentalismo rancoroso, fanático e assassino. Quanto a esta última alternativa, cabe lembrar: ninguém neste mundo está imunizado por garantia divina contra a contaminação de uma mentalidade nazifascista, muito menos aqueles que ontem foram vítimas dela. O homem perseguido, seviciado e traumatizado tende, por uma compulsão inconsciente quase irresistível, a incorporar os traços do seu perseguidor, disfarçando-os sob um discurso contrário.
Olavo de Carvalho foi ainda mais explícito numa crônica publicada em O Globo, em 1997:
“Entre o fim da 1° Guerra e a ascensão de Hitler, ninguém foi mais excluído e discriminado que os alemães — e vejam só a porcaria que depois eles fizeram a pretexto de enderechar entuertos. Os judeus copiam na Palestina a meleca germânica, e os pretos já começam a bater no peito com demonstrações ostensivas de orgulho racial, nostálgicos talvez do tempo em que, faraós no Egito, desciam o chicote no lombo semita.”
E dizer que ainda há judeus bolsonaristas …
por Mauro Nadvorny | 25 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Respeito quem acha que somos 70%, os que se opõe a Bolsonaro. Aí incluídos os que resistem desde antes da sua eleição e os que se arrependeram de ter votado nele. Entendo a posição de vocês de que devemos nos unir com aqueles que foram responsáveis por esta tragédia em nome do bem maior. Mas, me desculpem, eu estou fora.
Nestes dias, mais uma expoente da intelectualidade brasileira, a escritora Lya Luft, deu uma entrevista contando seu arrependimento em ter votado em Bolsonaro. Mais uma do grupo de arrependidos que deveria ser cumprimentada por se somar aos 70%. Eu postei na hora: “Não sei o que me causa mais asco, se a Lya Luft dizendo que votou no Bozo, ou explicando que se arrependeu.”
Eu posso compreender as razões que levaram a massa de manobra a votar em Bolsonaro. Entendo todas a tiazinhas do WhatsApp que tiveram certeza da existência do Kit Gay e da Mamadeira de Piroca. A falta de conhecimento, de bom senso, de estudo, de cultura, de condições financeiras, enfim, todos os componentes que levam algumas pessoas a acreditarem no que os amigos acreditam.
O que eu nunca vou aceitar é o grupo que ela representa ter votado nele. Os esclarecidos, os que estudaram, os que leram, os cultos, os de boas condições financeiras, os capazes de discernir entre o bem e o mal. Estes não merecem o meu perdão.
Se engana quem pensa que os Nazistas chegaram ao poder apoiados somente pela classe baixa alemã. Quem levou Hitler ao poder foram os intelectuais, os cultos, os letrados alemães que votaram nele e aproveitaram para lucrar com os despojos dos judeus.
Lya Luft representa a classe alta, branca, cristã, escritora, intelectual e boa mãe de família. Uma racista, homofóbica, misógena que apoiou um Fascista que enaltece torturadores. Como perdoar uma criatura destas? Existe algum perdão que faça com que ela se transforme em uma pessoa normal, humanista que respeite o próximo? Que mágica seria esta? Isso é pura fantasia. Ela é o que é, e a esta altura da vida, nunca vai mudar.
Ela é da mesma classe de alemães que sabiam o que estavam fazendo. Bolsonaro nunca escondeu o que era. Seu apoio aos torturadores e assassinos da ditadura eram repetidos a cada entrevista sua. Seu desprezo pelas minorias era sua marca registrada. Ela sabia disso e ainda assim escolheu votar nele a um professor. Que fosse em Amoedo, mas não no fascista. Que fosse em branco, mas nunca em um genocida.
Não tem perdão! Eu não perdoo, como não perdoo os nazistas. Ela tem o meu total desprezo por sua contribuição para levar uma família miliciana ao poder. Uma família que assiste as mortes diárias de brasileiros, vítimas do Covid-19, sem nenhuma comoção. Mais de mil mortes ao dia e o eleito por ela é incapaz de uma demostração de empatia e de ações de combate a pandemia.
Ela e os Lobões arrependidos, que aceitem o que são, será melhor assim. Vocês podem dizer agora que se arrependeram, mas o resultado é o mesmo. O mal que vocês causaram ainda está aí e nada do que vocês disserem vai mudar isso. O Brasil não precisa de vocês.
Eu consigo me imaginar perdoando as massas de manobra. Aqueles que não tiveram capacidade de compreender o que estava acontecendo e, principalmente, as consequências de eleger Bolsonaro. Estes, na minha opinião, são os que vão ajudar a derrotar o fascismo, não a elite brasileira do Zé Carioca da Havan.
Desde já deixo claro que nada contra os companheiros da resistência que pensam diferente. Apenas o meu pedido de que aceitem a minha maneira de pensar e sigamos na luta.
por Mauro Nadvorny | 24 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
O arrependimento público e publicado da escritora Lya Luft na “cuestão” de seu voto em 2018, que foi um dos votos que entre outros votos e outras omissões nos trouxe a esta quadra. “Não havia outras opções, e deu no que deu”, é a síntese de seus argumentos.
A publicação reacendeu com gasolina o debate sobre a outra questão, a dos arrependidos e a dos movimentos pró-democracia que se aglutinam no momento em torno de diversas figuras do mundo político às quais o ex-presidente Lula recusa-se (corretamente, ao meu ver) a aderir.
Importantes pensadores aos quais dedico a devida vênia classificam como prioritário o foco no combate ao fascismo e a este governo como forma de derrubá-lo e abrir o caminho para um mínimo retorno à ordem institucional democrática.
Outros, chegam a fazer uma crítica à visão moralista que setores da esquerda aplicam ao grupo dos arrependidos.
Mas, ao meu olhar clínico, temos um problema de diagnóstico diferencial. Por que o problema não é o governo atual. Insisto que a situação atual é uma resultante de múltiplos vetores que não obstante suas diferenças de orientação e intensidade tem algumas origens e destinos comuns: o antipetismo radical, o antiesquerdismo, o anticomunismo, o lavajatismo, a “venezualização” do debate político, a fobia propagada e contagiosa do tal “Foro de São Paulo”, o terraplanismo, o olavismo, e enfim, todo o extenso cardápio da direita fascista e ignorante que sufocou a sociedade com desinformação, mentiras, delírios e alucinações.
Assim, um arrependimento que não passe pelo reconhecimento de uma ignorância vultosa sobre a realidade brasileira (e global) e que não passe por um processo de extensa revisão dos mecanismos de avaliação da realidade não conduzirá o arrependido a um novo ponto de vista do qual consiga vislumbrar com mínima clareza que as melhores verdades para o nosso país passam por um amplo espectro de abordagens, objetivos e meios. Por que a primeira coisa que esta pretensa coalizão democrática que pretende aglutinar FHC, Huck, Sérgio Moro, Dória, entre outros fará, é jogar a parte “esquerda” do pacto ao mar, na primeira oportunidade, e trabalhará arduamente para reagrupar o pacto da direita em torno do projeto neoliberal que não saiu da pauta.
Como sempre digo (e é o que deu título ao meu primeiro livro publicado), o meu diagnóstico segue as doutrinas clínicas, e o diagnóstico etiológico é fundamental para o tratamento e eventual cura para qualquer doença. A etiologia do processo que levou Bolsonaro ao poder continua bem viva como a bola na marca do pênalti. A parte que não deu certo no grande golpe e sua continuidade foi apenas o surfista da onda, que como tudo no nosso capitalismo, é descartável.
Até prova em contrário, robusta e incontestável, os arrependidos não são confiáveis. Eles apenas admitem que Bolsonaro foi um erro. E nada mais. E Bolsonaro é apenas um acidente de trajeto. É mais do que certo, a não se mobilizarem em um grande esforço intelectual, que também, na primeira oportunidade, arrumarão outro diabo que os carregue.
por Richard Klein | 20 jun, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Literatura, Livro
Capítulo 10
“... naturalmente minha mãe dizia,
Ele é uma criança não entende nada,
Por dentro eu ria satisfeito e mudo
Eu era um homem que entendia tudo.”
Erasmo Carlos – Não Entendo Nada
Segunda geração de Brasil, bem mais novo que Rafael, Daniel, o pai do meu amigo Avi, não teve a mesma sorte com a queda da bolsa de valores. Junto com a manada, perdeu muito dinheiro e talvez por isso morassem em um apartamento abafado em Copacabana.
Gostava dele. Por trás das feições duras, bigode espesso e olhar frio, havia uma personalidade simpática e generosa. Ele estimulava a amizade com seu filho gorducho por me considerar uma influência saudável. Mesmo sendo magro que nem um bicho-pau, em vez de passar o dia todo assistindo televisão e me entupindo de doces, jogava bola direto e ia para a praia fazer bodyboard.
Por isso, nossa amizade girava em torno de esportes. Nos fins de semana ou ele vinha comigo ao clube, ou íamos praticar alguma atividade ao ar livre com Daniel. As opções eram caminhadas na Floresta da Tijuca ou piqueniques em praias distantes. A tarde, como compensação pelos esforços matutinos, acabávamos em um dos muitos parques de diversões que viviam abrindo e logo depois fechando em terrenos baldios nos arredores e pela Zona Sul afora.
Depois que descobrimos o skate, nosso lugar favorito passou a ser o Aterro do Flamengo. Esse era um parque enorme ao longo da Baía de Guanabara, construído durante o governo Juscelino Kubitschek como uma forma de compensar o Rio de Janeiro por ter perdido seu status de capital nacional. A despeito do custo gigantesco de aterrar a baía e da decoração do melhor paisagista do país, Burle Marx, o que a cidade acabou recebendo foi um tremendo monumento à chatice.
Apesar de seus vários campos de futebol viverem cheios, as “atrações” do parque enorme incluíam o Museu de Arte Moderna que raramente tinha trabalhos empolgantes para um adolescente, uma área para se voar aeromodelos de brinquedo, um lago para barcos em miniatura, um memorial para os soldados brasileiros mortos na 2ª Guerra Mundial, playgrounds de concreto para crianças e um avião antigo para pessoas que nunca tinha entrado em um entrarem para ver como é que era. Mesmo assim, o cimento liso do seu passeio público e com várias rampas suaves eram ideais para skatistas iniciantes.
Nós dois tínhamos o mesmo skate: o horroroso Torlay, fabricado no Brasil. Era uma tábua dura de madeira com dois pares de rodas de borracha vagabunda presos embaixo. Eles quebravam toda hora e faziam a gente passar vergonha quando apareciam outros meninos andando em skates importados com rodas de poliuretano semitransparentes e com shapes de fibra de vidro. Além disso, para falar a verdade, a gente era ruim demais, típicos nerds tentando tirar onda. Os caras da gangue da minha rua – que de alguma forma também arrumavam skates importados – davam de mil na gente, isso sem falar dos californianos que apareciam na revista Skateboarder realizando manobras impressionantes em piscinas vazias.
Um dia, talvez para levantar nosso moral, o pai do Avi levou sua câmera Super 8 para filmar nossas performances. Eu nunca tinha visto um aparelho daqueles antes na vida e, percebendo minha curiosidade, Daniel me perguntou se queria dar uma olhada.
“Quer ver como funciona? É fácil. Você olha por este visor aqui, aponta a câmera e foca com esta rodela aqui.” Por estar sempre mexendo com a câmera dos meus pais, entendi na hora. “Para filmar é só apertar este botão aqui. Quer experimentar?”
Ele colocou a caixinha futurística na minha mão e, depois de explicar tudo de novo e de se certificar que tinha entendido, me liberou o aparelho. “Só filma quando você tiver certeza de que está tudo em foco e de que você sabe o que vai filmar, senão vai gastar filme à toa.”
Falei que estava tudo bem, esperei o Avi começar, mirei a câmera e consegui gravá-lo descendo e passando pela nossa frente. Quando parei, o Daniel pegou o aparelho de volta para examinar um mostrador na lateral do aparelho
“Filmou! Parabens! Ainda faltam mais trinta segundos.Ele me olhou meio confuso. “Vou guardar porque a gente ainda tem que gravar a visita na casa da tia do Avi na semana que vem.”
Depois, guardou o aparelho sem me perguntar se também queria ser filmado. “Quando revelar a gente te convida para dar uma olhada, tá bem?”
Ninguém notou o quanto tinha ficado embasbacado com aquilo. Aquele aparelho de capturar tempo, cheio de botões de controle e com luzinhas futurísticas piscando no visor era a coisa mais incrível que já tinha tocado. Fantástico demais para se traduzir em palavras. Depois daquela manhã o interesse pelo skate evaporou. Quando me convidarem para ver o resultado, o entusiasmo aumentou e não conseguia pensar em outra coisa. Aquilo era magia em estado puro, tecnologia de ponta, quase igual ao aparelho utilizado para fazer o 007 e os faroestes de John Wayne.
Minha obsessão fez com que pedisse uma câmera Super 8 e um projetor como presente de Bar Mitzvá. Esse pedido era quase um mandamento divino para um pais judeu. Tive a sorte dele poder ter me atendido. Com um equipamento meu, a obsessão só aumentou. Minha mesada ia toda para comprar filmes com os quais registrava férias, idas à praia, passeios na Floresta da Tijuca, surfistas pegando onda, gente jogando futebol, festas e qualquer outra coisa que desse na cabeça. Quando os cartuchos de três minutos e meio acabavam, mandava para revelar. Quando voltavam, reunia amigos e a família no escuro do quarto e projetava o filme na parede branca.
As estréias eram grandes eventos. Antes da apresentação, passava dias editando cuidadosamente as cenas com um cortador de película, colando os pedaços com cola especial e revisando os cortes em um precário retroprojetor. Meu quarto cheirava à cola química e havia tiras de filme penduradas por todo lado. Mas como dizem, me sentia feliz como um pinto no lixo.
*
Esse interesse ganhou uma nova dimensão durante uma viagem de férias da família a Bariloche, uma pequena cidade turística nos Andes argentinos com uma atmosfera europeia que dava a visitantes brasileiros – e aos nazistas escondidos ali – a impressão de estar no Velho Continente.
Um dia, saímos de barco numa excursão para uma ilha no enorme lago Nahuel Huapi. O lugar era tão bonito que artistas de Walt Disney tinham viajado até ali em busca de inspiração para criar os cenários do filme Bambi. No entanto, não demorou para a viagem se tornar chata. Não conseguindo aguentar as piadas forçadas e as conversas sobre meu futuro, saí da cabine e fui me juntar a um grupo que estava jogando pão às gaivotas lá fora.
Cerca de meia hora depois, meu pai também saiu, aparentemente para acabar com a festa. O vento estava forte. “Richard, o que você está fazendo sozinho aí? Não está com frio?”
“Não. Pai, olha só que legal essas gaivotas mergulhando para pegar o pão.” Joguei um pedaço e uma das aves planando sobre o barco mergulhou a toda velocidade e conseguiu pegar a comida antes que caísse na água.
Rafael me deu um sorriso. “Vamos entrar para um chocolate quente?” Vendo que não tinha me convencido, emendou. “A gente conheceu um senhor inglês lá dentro que tenho certeza de que você vai gostar.”
“Por quê?”
“Porque ele é diretor de cinema.”
Bill era um cara grande nos seus cinquenta anos, largado, barba mal feita, olhos verdes e vivos e com um papo de bon-vivant. Se deleitando num copo de whisky, me contou que estava na América Latina fazendo um documentário para a BBC sobre um explorador que no século 19 havia viajado a cavalo desde a Argentina até os Estados Unidos. Quando explicou aquilo, achei que era a coisa mais incrível que alguém jamais poderia fazer – não ficar meses a fio andando a cavalo – mas viajar para rodar um filme. Decidi naquele momento que essa era a profissão que queria seguir quando crescesse.
*
De volta ao Rio, fiz um curso de Super 8 onde acabei escrevendo um roteiro e dirigindo um curta-metragem. O filme, “Cheque Mate”, combinava duas histórias paralelas: a de um homem jogando xadrez com uma pessoa que ninguém via, e o romance do mesmo personagem com um manequim feminino que tinha roubado de uma loja. Ao final do filme, ficava-se sabendo que o protagonista estava jogando contra a manequim de plástico. Ele joga o tabuleiro para o ar dizendo numa voz lenta e melancólica “Minha vida foi um jogo de xadrez.”
Como qualquer diretor moderno da época, nunca vou saber o significado de meu filme. Anos depois, fiquei lisonjeado ao ver um filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo, e perceber estarrecido que tinha um enredo parecido ao meu. A diferença sendo que era um longa-metragem aclamado no mundo inteiro e o herói jogava xadrez com a morte.
Os organizadores do curso gostaram do resultado e acabaram levando o filme para vários festivais latino-americanos de cinema feitos por jovens, o que me encheu de esperança e de orgulho.
*
Quando entrei na fase mais hormonal da adolescência, meus amigos e eu começamos a usar o projetor para um tipo muito menos pretensioso de filme. Qualquer um que conheça do assunto vai concordar que os anos 1970 foram a era de ouro dos filmes pornôs: a depravação era autêntica e deixava garotos como a gente enlouquecidos. Havia centenas de filmes Super 8 suecos saindo clandestinamente das bancas de revista e indo para o fundo de nossos guarda-roupas. Por causa disto, meu projetor se tornou um equipamento raro e cobiçado na turma. Acabei tendo a ideia de emprestar o aparelho em troca de poder ficar com os filmes por alguns dias. Essa atividade secreta acabou sendo o começo do fim do meu sonho nunca concretizado de me tornar cineasta. Sem ninguém para compartilhar minha paixão, a carência de cursos decentes e a falta de encorajamento por parte de meus pais, meu interesse, embora sempre presente, acabaria se dissipando na psicose tropical.
*
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