por Mauro Nadvorny | 1 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião
Uma grande tristeza tomou conta de mim ao acordar nesta quarta-feira, último dia de setembro. Comigo, tendo a acreditar, boa parte da humanidade amanheceu cabisbaixa. Desapareceu um dos maiores gênios dos quadrinhos, um dos humores mais singelos e mordazes dos nossos tempos, ícone do politicamente incorreto: Quino, o criador de Mafalda, a menina que acompanhou minha geração pela vida.
A notícia me lembrou um episódio ocorrido há dois anos na Argentina. Em pleno debate sobre a descriminalização do aborto, sua imagem foi usada, sem a permissão de Quino, pelos fundamentalistas cristãos, atiçados pelas igrejas católica e pentecostais, em campanha contra a despenalização. Cartazes espalhados por Buenos Aires diziam: Mafalda é a favor da vida. Assinado, Quino.
Naquela altura se debatia a legalização da interrupção voluntária da gravidez, aprovada em primeira leitura da Câmara dos Deputados.
A declaração estampada nos outdoors do metrô portenho eram, evidentemente, falsas. Causaram estranheza. Apesar de seus 86 anos, tendo perdido a visão devido a um glaucoma, Quino reagiu illico presto: “Não autorizei o desenho, não reflete minha posição e peço que seja retirado”.
No Twiter e Facebook, Mafalda também se insurgiu: “Sempre e explicitamente defendi os direitos das mulheres”.
Procurado pelo El Pais, Diego Lavado, sobrinho e olhos de Quino, comentou que o desenhista sempre foi feminista, aliás o primeiro feminista que conheceu. Diego recebeu dele um comunicado, desejando sucesso às defensoras da descriminalização do aborto.
Na época, a Argentina só autorizava a interrupção da gravidez em casos excepcionais, como a violação e o risco de vida para a mulher – e, mesmo nestas circunstâncias, a interrupção da gravidez só podia ser feita depois da autorização de um juiz. Exatamente como em outros países da América Latina.
Mafalda, obviamente, não podia ser contra este direito fundamental das mulheres. Não era, não foi, nem nunca será. Por isso, junto com seu criador, festejou a legalização do aborto.
Ambos, certamente, teriam chorado de tristeza, dias atrás, ao olhar para cima do mapa da América Latina e constatar o que constatamos em terras fascistas: um governo pressionando uma criança estuprada a ir ao fim da gravidez, inclusive através de ameaças psicológicas e físicas.
Esta terra tem nome, que me envergonha pronunciar: Brasil.
Tirados os 40% que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo, os brasileiros que conservam um pingo de humanidade ficaram – espero -estarrecidos com a confirmação de que a pastora-ministra Damares, da pasta ironicamente denominada da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandou a violenta campanha para impedir que uma criança de 10 anos abortasse após ter engravidado, vítima de estupros repetidos praticados pelo tio durante quatro anos. Não que Damares Alves merecesse o benefício da dúvida já que, num primeiro momento, mentiu e afirmou sua inocência, mas pela enormidade da maldade e desfaçatez.
Fiel entre os fiéis de Bolsonaro, ela enviou seus conselheiros para tentar dissuadir a menina de praticar um aborto legal, ou melhor dizendo, tentou impedí-la, mesmo sabendo que ela corria risco de vida.
O aborto é permitido no Brasil em três casos: gravidez decorrente de estupro, casos de risco à vida da mulher e fetos anencefálicos.
A pressão, coordenada pela pseudo pastora, tinha como objetivo transferir a criança de São Mateus (ES), onde vivia, para um hospital em Jacareí (SP), onde aguardaria a evolução da gestação e o nascimento do bebê. Sob o argumento de que se tratava de uma instituição de referência no atendimento de gravidez de risco, o Hospital São Francisco de Assis, de Jacareí, assumiria os cuidados médicos da menina, fazendo seu pré-natal até que ela estivesse pronta para o parto. Não por coincidência nem acaso, o hospital é parceiro da Igreja Quadrangular, cristã evangélica pentecostal de origem americana, que teve como expoente no Brasil o pastor Henrique Alves Sobrinho, pai de Damares.
Os representantes da ministra – Alinne Duarte de Andrade Santana, coordenadora geral de proteção à criança e ao adolescente da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Wendel Benevides Matos, coordenador geral da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, mais dois assessores e o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) – foram encarregados da execução da transferência (a palavra mais correta seria sequestro). De quebra, vazaram o nome da criança para Sara Giromini, aliás Sara Winter, a quem Damares chamou no passado de “minha filha”. Winter foi treinada nos campos militares neonazistas do grupo Azov, na Ucrânia, com o objetivo de fomentar atos terroristas no Brasil.
Damares e seus asseclas atentaram contra o Estatuto da Criança e do Adolescente e transformaram a família em alvo de ameaças. Após inúmeras agressões, a menina e a avó entraram para o programa de proteção à testemunha e foram obrigadas a deixar a casa em que moravam.
Mas nada disso parece importar nesta terra arrasada em que se transformaram os direitos humanos no Brasil, com os procuradores a mando do Planalto preferindo investigar o médico encarregado do aborto à ministra criminosa de Jesus na goiabeira.
Damares, Bolsonaros e seus adoradores de bezerros de ouro aproveitam a ocasião para mais uma investida destinada a intimidar as mulheres decididas a interromper a gravidez.
O Ministério da Saúde, ocupado por um general que nunca fez um curativo sequer, publicou no último dia dia 28 uma portaria com novas regras para atendimento ao aborto legal. O texto obriga os médicos a avisarem a polícia quando atenderem pacientes que peçam para interromper uma gestação em razão de estupro. Assim, aborto vira caso de polícia…
As equipes de saúde também deverão informar à mulher a possibilidade de ver o feto em ultrassonografia, numa clara manobra para demovê-la da decisão de abortar. Enfim, o texto determina que as pacientes devem assinar um termo de consentimento, onde consta uma lista de possíveis complicações na intervenção. Uma forma ignóbil de jogar em cima da mulher violentada a responsabilidade de um eventual erro médico que a levaria à morte.
Se não tivessem perdido seus pais, agora Mafalda estaria questionando a sociopatia bolsonarista, enquanto o Fradinho do Henfil daria boas e sarcásticas gargalhadas: Fodi o Brasil; rs, rs, rs, rs, rs
por Mauro Nadvorny | 28 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Judaísmo
Na véspera de Yom Kippur recebi em uma rede social uma prece escrita por uma pessoa querida. A prece fala do momento especial que vivemos por causa do Coronavírus. Na súplica a pessoa confessa que desta vez não pede perdão pelos seus erros, pecados, omissões, e até mesmo para ser inscrita no Livro da Vida. Pede ao Eterno apenas compaixão com a humanidade e que nos livre deste mal que entre outras coisas nos impede de ver e ouvir os cantos nas sinagogas e de abraçar e beijar pessoas queridas.
Confesso que fiquei abalado com a proposição teológica modificada. Afinal, o Yom Kippur não é uma data para pedidos de qualquer espécie. Não pelo menos nas concepções que absorvi ao longo dos recém confirmados 60 anos de vida.
Se no início da vida religiosa ou espiritual judaica prevalece a imagem de D’us como um grande legislador e juiz ao mesmo tempo, e talvez até severo demais.
Não tenho mágoas desta fase, embora me seja absolutamente claro que esta imagem não corresponde às minhas atuais expectativas de um Ser Supremo, que habita e manifesta-se desde as partículas sub-atômicas até as incognoscíveis forças expansoras do Universo, convidando-nos a cada segundo da vida à meditação e ao encontro com todas essas forças organizadoras da vida, do pensamento, dos sonhos e significados da vida.
O fato é que encontrei sim, no judaísmo onde nasci, felizmente, fonte permanente de inspiração, motivação e construção do meu ser. E um dos sensos mais fortes que o judaísmo pode despertar em alguém é o de responsabilidade. É o de saber que pensamentos podem se transformar em palavras, palavras em atitudes, atitudes em costumes, e costumes em caráter.
Esta peste do século XXI, o novo Coronavírus esteve ao alcance de ser contido desde o início de sua expansão. Outros vírus piores já vieram, ainda neste século, e foram adequadamente contidos em seu potencial de disseminação e morbimortalidade. Tanto é verdade, que pelo menos uma grande nação, a China, utilizando-se de todas as lições de surtos anteriores, fez o que nunca havia sido feito e venceu espetacularmente a epidemia em suas fronteiras.
Outros países conduzidos por líderes ignorantes, insensíveis, brutais, sendo o melhor exemplo no momento o do Brasil, jogaram a ciência no lixo, e junto com ela, por enquanto, 140.000 vidas e imensos prejuízos ao sistema de saúde, à economia, e mesmo à cultura política local.
A questão é que esses líderes, como o nosso atual, não chegaram lá pelos seus méritos, apenas. Pensamentos, palavras, ações, costumes e caráter o puseram lá. Uma complexa maquinaria que intoxicou uma sociedade – que por sua vez, voluntariou-se ao envenenamento – e golpeou sucessivamente a democracia e suas instituições. No campo da saúde pública, o resultado dessas ações, mais do que anunciado, é o que temos.
Eu confesso que minha capacidade de perdoar pessoas que participaram de tudo o que contribuiu para a ascenção desta besta ao poder é muito pequena. Em especial, aquelas que jactam-se de um judaísmo “superior”, arraigado, pois não vejo, na cultura e história judaica, um único momento, período ou local que nos conte sobre o sucesso de tal empreitada, que encontra um forte comparador na década de 30 do século XX.
Eu confesso que me recuso a pedir a D’us, neste momento, que nos livre de algo que sempre esteve ao nosso alcance e responsabilidade. Sim, lutamos contra isso. Mas talvez não tenha sido o suficiente, é o que os fatos nos mostram.
Se posso (e devo) pedir a D’us alguma coisa neste Yom Kippur, é que desperte na consciência de cada pessoa que tenha movido uma única agulha neste imenso palheiro, que tenha disseminado uma única inverdade, uma única acusação falsa, um único ato de ódio puro e injustificável, uma única renúncia à busca da verdade, uma única indolência intelectual, que tenha contribuído ainda que com uma única “flutuação quântica”, um “efeito borboleta”, que culminou na ascenção do mal aqui e em outros lugares, o devido senso de responsabilidade. Que D’us não permita que fujam de suas consciências. Que D’us não permita que faltem ao seu dever de reparação. Que D’us não permita que a ignorância e o ódio prevaleçam. Que possamos ter saúde sempre, para lutar, lutar e lutar por todo o magnífico patrimônio ético que o judaísmo construiu ao longo destes milênios, pois este patrimônio, sozinho (ainda que não único, evidentemente), poderia sim ter evitado a catástrofe, se devidamente cultivado e reverenciado.
E que assim seja.
por Mauro Nadvorny | 28 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Protesto
No próximo sábado, 3/10/2020 acontecerá a primeira edição do Festival da Canção de Protesto, evento do qual tenho o prazer e a honra de fazer parte desde sua gênese. Mauro Nadvorny, também criador deste blog, é o idealizador e responsável principal pelo belíssimo projeto. A seguir divido com vocês sucintamente algumas histórias e reflexões sobre o evento.
Em abril de 2020 Mauro (lá de Israel) me procurou (aqui na Alemanha) dizendo que cultivava havia certo tempo a ideia de criar este Festival. Por eu ser músico e ele não, ele me perguntou se eu considerava que tal ideia seria realizável, ainda mais em tempos de pandemia. E me explicou a ideia central do evento: dar voz a pessoas anônimas do Brasil que tenham não somente criatividade e talento musical, mas também o ímpeto de protestar contra o governo fascista que tomou o país.
Bem, Mauro abordou a pessoa certa para tal atividade, e eu disse a ele que musicalmente a ideia era sem dúvida factível e em termos de protesto, era ideal e necessária. Prontamente aceitei seu convite para ser um dos organizadores. Confesso que se fosse somente um festival de música, sem o tema do Protesto, eu teria declinado. Quem conhece meu trabalho sabe que em minha carreira musical as questões políticas e sociais são inerentes à minha obra. Para mim não há real arte se não houver por parte do artista a intencionalidade de transformar o ser humano e as sociedades para melhor. Conscientização, reflexão, autoconhecimento são alguns dos atributos potenciais que a Arte carrega em si. Mas quem quiser saber mais sobre o assunto e sobre minha concepção enquanto artista, anuncio que em breve lançarei a 2ª edição de meu livro, que traz tudo isto detalhado. Voltemos ao Festival:
Pois bem, começamos o trabalho. Logo vimos que seria necessário agregar mais pessoas para que o projeto de fato engrenasse. Tivemos a alegria de conseguir envolver diversas pessoas que, de forma inteiramente voluntária (assim como nós), se dispuseram a trabalhar para que o evento se concretizasse. Aproveitamos para agradecer a todas e todos: Alexandre Lopes, Antônio Filho, Clarisse Goldberg, Isabella Lopes, Marco Paulo Ferreira e Raíssa Ruschel.
Assumi a presidência do Júri, formado por mais quatro pessoas além de mim: Andrea Cavalheiro, Lúcia Rodrigues, Luiz Felipe Carneiro e Thiago Suman. Obrigado, companheiras e companheiros!
E começamos a divulgar. Para nossa agradável surpresa, no fim de agosto, quando o prazo de inscrição se encerrou, tínhamos cerca de 200 canções enviadas. E assim os jurados tiveram dez dias para ouvir cada uma delas e escolher as dez finalistas, que participarão do Festival no próximo sábado. Foi uma tarefa trabalhosa, mas muito agradável. Havia muitas canções realmente boas.
Dentro deste trabalho de meses que se consagrará no dia 3 de outubro, aquilo que para mim é o mais importante é saber que há realmente muitos e muitas artistas no Brasil se expressando contra o Fascismo no país. A Arte precisa ser – como historicamente sempre foi – uma arma que dispara flores contra os monstros que estão a destruir a cultura e a sociedade brasileiras. E esperamos que estas flores tragam mais união e mais força à luta da Resistência. Como diz o ditado latino, “ars longa, vita brevis”, a arte é longa e a vida é breve. Nossos dias passarão. Mas todas as 200 canções que fazem parte deste acervo de resistência ficarão registradas como o retrato da luta política neste momento ímpar e triste no Brasil.
Assistam no dia 3/10, votem em sua canção preferida, continuem a apoiar os e as artistas que vocês forem conhecer e fiquem atentos, pois enquanto houver necessidade de protesto, estaremos protestando. E as próximas edições do Festival da Canção de Protesto serão ainda maiores e ainda mais resistentes. Abraços.
#ForaBolsonaro #ArteContraOFascismo #EleNunca
por Mauro Nadvorny | 19 set, 2020 | Comportamento, Economia, Israel
Afinal de contas, qual é o valor de uma vida? É com esta pergunta que Israel entrou ontem, quando comemoramos a entrada de 5781, no seu segundo Lockdown. Desta vez, por pelo menos 3 semanas consecutivas.
Ainda tentando digerir as novas regras de distanciamento social, o governo já anuncia, para a semana que vem, a possibilidade de aumentar as restrições e deixar mais pessoas em casa. Desta vez o alvo são os trabalhadores privados de empresas que não recebem público e foram autorizados a continuar trabalhando. Mercados públicos de rua que foram autorizados a permanecerem abertos, talvez tenham de fechar.
Na última semana o número de novos infectados chegou a bater em alarmante 6.000 casos em um único dia. Para um país com apenas 9 milhões de habitantes, este é um número inaceitável. Dentro de duas semanas teremos um aumento significativo de pessoas em estado grave necessitando internação. Os hospitais já estão chegando ao seu limite e novas alas para receber pacientes do Corona precisam ser abertas. Isto significa cerrar para outro tipo de pacientes como Câncer, Coração etc. A conta não vai fechar.
Tudo se encaminha para um colapso do sistema. Traduzindo, vão faltar camas em UTIs para receber novos pacientes graves do Corona. Como eles precisam de isolamento, os hospitais não podem usar corredores ou alas que são abertas. Eles terão de voltar para casa com prognóstico pessimista de sobrevivência.
Enquanto isso, o governo é atacado de todos os lados. Desde aqueles que culpam pelo mau gerenciamento da crise, passando pelos religiosos que não aceitam seus lugares de culto fechados, até obviamente, aqueles que tiveram fechados seus negócios e fonte de renda. Cada um, por suas razões, acredita que podemos manter uma vida quase normal, bastando que todos usem máscaras e mantenham distância uns dos outros.
O uso obrigatório de máscaras e o distanciamento estão em voga desde que o Corona chegou por aqui. Sair a rua sem máscara implica em multa. Se o cidadão estiver dentro de uma loja sem máscara, ele e o local são multados. Mesmo assim, o número de novos casos não parou de crescer. Parte da população, pelas razões mais absurdas, não obedece as normas, e aquela que obedece paga o mesmo preço.
O Lockdown é terrível para a economia como um todo. Negócios quebram e o desemprego aumenta vertiginosamente. Por mais que o governo coloque em prática planos de ajuda, eles nunca são suficientes. O país sofre, mas é a população mais fragilizada que recebe o maior impacto.
Israel não é o único país a enfrentar a segunda onda. Inglaterra, Espanha e Itália, por exemplo, estão se vendo com o mesmo problema e relutam em decretar o Lockdown. Não será por muito tempo. Cada pessoa infectada, infecta ao menos outras 3. A progressão é geométrica fazendo os números aumentarem rapidamente. Mais infectados, mais casos graves, maior ocupação de UTIs. Não existe alternativa responsável.
Até a chegada das vacinas, o remédio será amargo. Este é o ano que todo mundo vai desejar esquecer. Salvo os poucos bilionários que estão ficando trilionários com o Corona, e os laboratórios que vão vender as vacinas, todos nós estamos sendo atingidos de uma maneira, ou de outra.
Raro quem ainda não teve um parente, amigo ou conhecido que faleceu devido ao Corona. Eu mesmo, já perdi a conta. Vidas perdidas que nunca mais vão voltar. E afinal de contas, qual é o valor de uma vida?
por Mauro Nadvorny | 12 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Israel, Opinião, Política
O voto pelo perdão das dívidas das Igrejas no Brasil de parte do PT e pela totalidade da bancada do PCdoB, e o colapso na gerência da pandemia em Israel, tem muito mais a ver do que parece a primeira vista. É a política mostrando suas incoerências, ou coerências, dependendo da perspectiva de quem lê. É a religião se prosmicuindo com a política.
A nota o PCdoB, para explicar seu voto, entre outras coisas disse o seguinte: ”Para o PCdoB, a ação fiscal do Estado deve estar dirigida ao combate à fraude e ser direcionada prioritariamente aos grandes sonegadores, às pessoas físicas detentoras de grande patrimônio e não mirar ações sociais realizadas por instituições religiosas.”
Em outras palavras, o partido justifica o seu voto ao lado de todos os partidos de centro, direita e extrema direita, com a justificativa de que não se deve cobrar imposto das igrejas, deve-se sim, cobrar dos grandes fraudadores.
Do outro lado do mundo, o governo israelense que havia se saído com mérito no combate a pandemia na primeira onda, se viu obrigado agora a impor um novo lockdown de duas semanas no país depois de chegar a mais de 4500 infectados em um único dia desta semana.
Como é possível tal desastre? Aqui também existe o fator religioso. O Covid-19 impera principalmente nas localidades de judeus ultra-relogiosos e nas árabes. Em ambas, o uso de máscaras, luvas e evitar aglomerações é desrespeitado a luz do dia e a noite. Casamentos com milhares de convidados, desobedecendo as normas, vem sendo uma constante nestes lugares.
O governo tentou uma solução paliativa. Criou o sistema de cores por cidades e aldeias e tentou impor um lockdown nas localidades de cor vermelha. Os partidos religiosos se rebelaram e ameaçaram deixar o governo. Por fim, aceitaram um lockdown a noite, mesmo assim desrespeitado, e que todos sabiam, uma medida inócua.
Com o número de novos doentes diários subindo as alturas, não teve remédio, e a única opção, antes do colapso do sistema de saúde, foi o lockdown geral. Era o que ninguém queria, é o que todos vão ter. Infelizmente, a política da sobrevivência do governo foi imperativa. Se não é possível uma quarentena somente onde é mais necessário, vamos todos entrar nela.
Por trás destes dois eventos, está a relação religião e estado. O fato é que o PCdoB sabe perfeitamente que nem todo religioso é anticomunista e que boa parte do seu eleitorado é composto de crentes. Estas pessoas precisam dos seus templos abertos e, como explicam (sic), o governo não pode cobrar impostos de locais de culto. Nem vou falar da casa do Bispo Macedo.
Em Israel, os partidos religiosos há muito se tornaram partidos ideologicamente de direita. Seus 15 votos em média, são cruciais para a formação de um governo no sistema parlamentarista. Seu peso portanto extrapola em muito os cerca de 12,5% de representatividade que possuem. Mesmo assim, são cortejados e sabem do seu valor para literalmente chantagear o primeiro ministro com suas exigências. Por conta disso, o país inteiro vai parar durante 15 dias e terá enormes restrições nas duas semanas seguintes.
O fato é, que quando se trata de política, a separação dela do estado, vira uma obra de ficção. O estado em ambos os países, Brasil e Israel é laico no papel, na prática o que acontece é uma submissão as necessidades de cada um. Diante da necessidade de angariar votos, ou de formar um governo, é a religião quem dá a última palavra.
Não acredito que caiba uma discussão sobre as questões éticas e morais do que verdadeiramente acontece. Não existe uma solução democrática para isso. Onde ocorrem eleições democráticas, sempre vamos ter este problema. Uma discussão neste sentido não vai levar a lugar nenhum.
O que fica é aquela sensação de ironia no ar. No Brasil, comunistas votando junto com fascistas. Em Israel, uma coalizão formada para resolver o problema da pandemia, não podendo resolver coisa alguma, e portanto, podendo se dispersar e convocar novas eleições.
E assim caminha a humanidade.
por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Protesto
Quando o mundo entrava em plena pandemia com todos entrando em quarentena e as fronteiras sendo fechadas juntamente com todo o comércio e o entretenimento, uma ideia acalentada de muito tempo veio a tona: porque não um festival de canções de protesto?
Sem nenhum patrocínio e com a ajuda de amigos de todas as horas, a ideia se tornou realidade e com mais de 160 canções de todo o Brasil inscritas, o festival entrou na fase da escolha das 10 canções que vão para a final, marcada para 3 de outubro.
São cinco juízes dedicando seu tempo para a difícil escolha entre tanta produção de altíssima qualidade. O país tem uma produção artística e cultural que me surpreendeu. Não imaginava tantos artistas interessados, tampouco fazia ideia de que no Brasil também se produz canções de protesto da mais alta qualidade.
Dia 10 de setembro teremos os finalistas, no que eu sei de antemão, será uma escolha tremendamente difícil, e que vai fazer a audiência pensar muito antes de votar na melhor canção. Sim, o festival será transmitido pelas redes sociais em uma live. Os testes já começaram neste final de semana e está tudo saindo melhor do que a encomenda.
Foram muitas dificuldades que tiveram de ser superadas. Tentamos um autofinanciamento para premiação que não recebeu o apoio desejado. Encontramos outras formas de premiar. Tivemos muito pouco apoio da mídia tradicional e nenhum da mídia de esquerda. Mesmo assim conseguimos envolver uma quantidade expressiva de compositores e intérpretes que acreditaram no projeto. Procuramos parceiros para a transmissão, mas não se interessaram. Vamos transmitir diretamente com a mesma qualidade deles, ou até melhor do que muitos.
A luta na resistência, não é o que muitos acreditam, solidariedade e fraternidade na trincheira da esquerda. A total indiferença e falta de suporte de companheiros da esquerda a este projeto é uma prova de que na esquerda, como na direita, os egos, muitas vezes, falam mais alto do que a razão. Mas também mostra como nós, da esquerda, somos insuperáveis em nossa luta por um Brasil mais justo e um mundo melhor. Mesmo com todas adversidades, vamos mostrar ao mundo pela Internet, que existe resistência e que nosso canto de protesto está aí para todos escutarem.
Eu posso dizer que apesar de tudo sou um cara sortudo. Encontrei parceiros que acreditaram no projeto e dedicaram seu tempo e seu talento para fazer acontecer. Sem a contribuição deles, teria sido muito mais complicado, senão impossível. Cada um deles a sua maneira, com a sua disposição estão dando uma contribuição inestimável que ao mesmo tempo me regozija e me comove. Nem mesmo conheço a todos pessoalmente, e não tenho palavras de agradecimento suficientes para externar o que sinto por eles terem acreditado neste idealista incurável.
O Festival da Canção de Protesto, ou o primeiro Festival da Canção de Protesto, como nós o estamos pensando vai continuar acontecendo nos próximos anos, virá o segundo, terceiro e assim por diante enquanto existirem injustiças para serem denunciadas e clamores para serem cantados aos quatro ventos.
Do fundo do meu coração eu convido a todos, dia 03 de outubro a partir das 20:30 h, assistirem através das nossas páginas no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCbf8UHISaIecsnCfZ_RYiAg), no Facebook (https://www.facebook.com/FProtesto/) ou no Twiter (@Fprotest) ao Festival da Canção de Protesto (https://festivaldacancaodeprotesto.com.br/). Compartilhem muito no dia, escutem, curtam, vibrem e principalmente, votem na sua canção de protesto preferida e elejam as três melhores canções.
Até lá!