Almas Penadas, Grupo Molejo, Bauman

“Inocente, apaixonados

Eu tava crente, crente

Que iria viver uma história de amor

Que cilada

Ela me machucou

Ela abusou do meu coração

Não era

Não era amor, era

Cilada”

 

(Grupo Molejo)

Iniciamos a história da minha jovem amiga com fragmento de música do Cazuza. Terminamos falando sobre Sophie Calle. Porém, depois de tudo que li e pesquisei nesses últimos dias, só o pagode do Molejão consegue dar conta do que vou escrever.

Duas conclusões iniciais: Ao contrário do que eu imaginava, o numerozinho circense do desaparecimento online é extremamente corriqueiro. Não ter consciência desse fato é só a prova de que o tempo está passando sobre mim como um trator. Quanto à minha amiga, ponho a culpa nos anos de namoro, quando se viu solteira não tinha ideia de que seria atirada na selva.

Minha primeira atitude para entender alguma coisa foi jogar no Google: “Bloqueios de pessoas amadas no Whatsapp”, ou algo assim. Li mais de cem depoimentos. Percebi que a maioria das bloqueadas era do sexo feminino, mas havia homens também. Quase totalidade de jovens. Só depois confirmei em uma pesquisa que essa prática é muito comum entre os millennials, pessoas que nasceram entre 1979 e 1995. Algumas histórias me chamaram mais atenção do que outras. Exemplifico: Uma moça, cujo relacionamento já tinha migrado do mundo virtual para o real, com saídas que deixaram de ser simples ficação e caminhavam para o namoro. Às seis da tarde, ele mandou uma mensagem via Whatsapp: “Estou saindo do trampo, louco prá chegar na tua casa e sairmos”. Ela se produziu, à espera da chegada do moço. Quando deu 20:00, tinha sido bloqueada. A outra, uma jovem que estava namorando uma moça há meses, relacionamento tranquilo, estável, até que a namorada fez a proposta de noivarem. Ela encomendou as alianças, levou o jantar preferido do casal e ia fazer a surpresa, já que tinha a chave do apartamento da futura nubente. Lá chegando, foi comunicada pelo porteiro que o apartamento estava vazio, a futura noiva havia se mudado no dia anterior. Como a moça era do norte do país, portanto dividiam os amigos dela em São Paulo, não havia ninguém que pudesse dizer o que aconteceu. O pior se deu quando olhou para o celular e viu que tinha sido bloqueada em todas as redes. Desesperada, ligou para a ex-futura sogra no Pará e essa comunicou fria e laconicamente que a filha havia mudado para a Irlanda e ordenado à família que não falasse nem a cidade que estava, nem que desse um meio de contato. Essa moça precisou de mais de dois anos de terapia. O terceiro caso foi de uma carioca, que mantinha um relacionamento com um americano há dois anos. Sempre se encontravam, faziam planos de se casar, a moça era bióloga pesquisadora e estava com tudo certo para fazer um doutorado numa universidade dos EUA. Ela falou com ele no domingo, por videochamada, ele alegou cansaço, disse que falariam no dia seguinte. Na segunda, ao acordar, viu que estava bloqueada em todas as redes sociais e a única notícia concreta que teve dele foi que ele mudou não apenas de casa, como também de estado.

O fato é que essa situação gera sofrimento imenso, pois não há um ponto final, não há explicações, não há um adeus, o que por si só já seria extremamente doloroso. Essa atitude tem um nome: ghosting. Derivado do inglês ghost, o termo tem sido usado como uma forma de terminar relacionamentos em que a pessoa desaparece como um fantasma, deixando de responder às mensagens dos aplicativos, às redes sociais, eximindo-se de qualquer situação. É o velho “saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou” na versão digital.

Ora, traições, juras mentirosas de amor, ilusões perdidas, nenhuma novidade, existe desde que o mundo é mundo. Nada de novo no front. Quem sou eu para dizer que na minha época enganações não existiam? A melhor história que conheço é a de um senhor que só tenho uma coisa a dizer: “Ainda bem que ele vivia no mundo analógico”. Vale a pena narrar o fato.

Tenho uma grande amiga cuja família migrou do interior de Sergipe para o Rio, foram morar na Baixada Fluminense. A matriarca com suas 5 filhas. A mais velha, noiva há dez anos, preparava-se para se casar. Quem não conhece os percalços de casamento de pobre, não sabe nada da vida. Partindo-se do princípio de quem casa quer casa, é uma verdadeira epopeia. Enxoval comprado aos poucos, carnês de geladeira, armário, cama, sofá, fogão, pagos com sacrifício e se contando sempre com o espírito comunitário que só se vê nas periferias: Com a falta de espaço na casa da família dos noivos, sempre tem uma boa alma que cede um quartinho para colocar o sofá novo ainda coberto de plástico, outro empresta a garagem para ir juntando o mobiliário, enfim… Finalmente o casal conseguiu alugar a tão sonhada casinha. Tudo pintadinho, móveis montados, no maior capricho. Faltando uma semana para o casal consumar o esperado enlace e ir, finalmente, usufruir de seu ninho de amor, o noivo, com a sutileza de uma mula, virou para a tia da minha amiga e comunicou: “Não vamos nos casar. Estou apaixonado por outra mulher, ela está grávida e eu vou assumir ela e a criança”. Se Angela Ro Ro disse que a vida de Rimbaud comparada à dela era a vida do Pato Donald, a vida de um desses Gasparzinhos bloqueadores comparada a isso é mais pueril que história da Luluzinha.

Festa suspensa, muito choro, a tia da minha amiga ficou tão desgostosa com a vida, que como apossada de uma Scarlett O´hara segurando um nabo, disse alto para quem quisesse ouvir: “Nunca mais homem na minha vida”.

Acontece que, como disse Platão, a vida é um Kinder ovo, né, mores? Agradáveis ou não, surpresas acontecem. Eis que um rapaz cego de nascença apaixonou-se por ela e começou insistentemente a fazer-lhe a corte. Ela bem que se esquivava, mas ele não dava trela. Mandava flores, fazia serestas em sua janela com um grupo de amigos músicos, um gentleman. Encantada com tanta delicadeza, achou por bem unir o amor à razão. Tivesse lido “Sonhos de Uma Noite de Verão” do bardo inglês, intuiria que a razão e o amor quase não andam juntos. Amava-o, é bem verdade, mas depois de escaldada, colocou o cérebro na frente do coração. E no que imaginava ser racionalidade, o que a levou a esse casamento foi: “Como é cego, nunca vai me sacanear”.

Casaram-se, tiveram três filhos, ele dividia a semana entre a Urca, trabalhava no Instinto Benjamin Constant e Belford Roxo, com mulher e filhos. Final da história? Ele tinha duas famílias. E durante vinte anos conseguiu administrar tão bem a situação que uma família não sabia da outra. Lembro como hoje da narração dessa história pela avó da minha amiga. Uma senhora sertaneja, prima de Maria Bonita, cuja nossa maior afinidade era saber rir daquilo que os demais acham a beira da desgraça. Com uma gargalhada gostosa e aquele sotaque delicioso, ela assim finalizou a história da própria filha (para os mais sensíveis, saibam que foi de forma nada politicamente correta, lembrando que se viva ela fosse hoje teria mais de cem anos): “Por isso que eu digo minha filha, D’us marca para não perder de vista. Imagina se esse homem não fosse cego? Ia ter um harém”. Podemos, nessa hora, em homenagem ao deficiente visual seresteiro, entonarmos em uníssono a linda música do Mestre Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei”. Com um talento desses, smartphone para quê, não é mesmo? Amadores.

Voltando ao assunto dos bloqueios, o que me deixou intrigada foi o porquê dessa prática estar ocorrendo com tanta frequência? Não estou falando de encontros esporádicos, ou relações que não saem do terreno virtual. E, sim, de pessoas que tiveram convivência no mundo real, dividiram a vida, por que lançam mal desse expediente?

Como disse anteriormente, não sou nenhuma estudiosa dos teóricos da contemporaneidade. Escrevo entre o susto e as impressões, com alguma leitura para não correr o risco de virar um Caio Coppola num debate da CNN e vocês me acusarem, como fazia com ele a Gabriela Prioli, de dar opinião de “orelhada”. Sinto que esse é um tema sério, que deveria ser estudado por uma equipe multidisciplinar, formada por psiquiatras, estudiosos da tecnologia, psicólogos, antropólogos e tal. Aqui é apenas uma crônica, bem despretensiosa.

O que posso falar é que há uma série de fatores que se entrecruzam e, no que toca às relações amorosas, com toda essa nova configuração de mundo, está havendo uma ressignificação visível. Poderia passar horas aqui dissertando sobre as características da sociedade contemporânea, mas não é o caso. Vamos à objetividade. Se temos tantas almas penadas vagando por aí, é apenas mais um brinde da maior tecnologia do século passado: A internet. Da mesma forma que se conecta, deleta-se. É a forma com que o sujeito moderno vive os dias atuais. Onde tudo, como diz Bauman, é fluido, é líquido. O que importa é ser visto, desejado, a busca incessante pela satisfação momentânea, intensa. Sendo assim, o outro passa a ser objeto de consumo interessante, até que apareça algo mais atrativo. São relações unilaterais, egoístas. No entanto, se formos olhar atentamente, toda essa máscara social está a serviço de cobrir a pobreza existencial. Existe o medo pavoroso da solidão, quando o sujeito se vê desconectado, sem ninguém para consumir, mergulha no pântano de sua própria miséria.

Li que nessas relações que começam na rede há um padrão de comportamento antes do ghosting propriamente dito. Há um termo específico para cada fase, sei que a do encontro está ligada ao amor exagerado. O indivíduo fica muito mais apaixonado pela ideia de se apaixonar, que a paixão propriamente dita. Como amar quem você não conhece? Minha amiga viveu intensamente essa fase. Mas, os filósofos do Molejão estão aí para lembrar: “Não era amor, era cilada”.

Acredito também na incapacidade que vemos todo o tempo das pessoas se colocarem no lugar do outro, reflexo desse mundo individualista. Deletar uma conta é simbolicamente deletar uma pessoa. Eu, antes de adentrar esse tema, brincava que pelos meus três planetas Martes, Vênus e Júpiter em Escorpião, sou uma espécie de serial killer que mantem suas vítimas vivas. Pessoas que me fazem muito mal são subtraídas do meu convívio sem dó nem piedade. Sou aquela que mata em vida, inclusive deixo um beijo para as pessoas que, mesmo vivas, estão mortas para mim. Só que isso é apenas uma metáfora. O ghosting é um processo traumático, violento, em que quem sofre fica suspenso no limbo emocional.

Para finalizar, dei uma olhada no Youtube sobre o assunto e fiquei horrorizada com o que vi. Existe uma infinidade de canais, onde pessoas que se dizem coachs, espiritualistas, usam a temática: “Como fazer seu crush ou seu amor te desbloquear rapidamente”. Aviso: É para os fortes. Uma dessas proclamadas espiritualistas me deixou boquiaberta pela diversidade de técnicas usadas. Numerologia, baralho cigano, equilíbrio energético, runas, cartomancia e, como não poderia faltar, física quântica. Cem mil seguidores, tá? Tem desde simpatias com velas para almas de desassossego até homens explicando que o bloqueio foi punição para a mulher, certamente ela mereceu. Uma apresentadora de um canal chamado TV Diamond, com milhares de seguidores, diz que “ser bloqueada é bom. Não pela visão do livramento do encosto (o que até faria sentido), mas sim porque, ao ser bloqueada, o homem está dizendo que se importa com a mulher”. Para mim funciona como aquela historinha do meu tempo de jardim de infância. Se um coleguinha do sexo masculino agredisse a dentadas uma determinada menina com frequência, era sinal de que “gostava dela”. E assim se perpetua o machismo nosso de cada dia.

O que tirei daí é que o ghosting é uma agressão séria, consistindo, a meu ver, numa das formas mais graves de violência psicológica moderna. Uma amiga terapeuta de jovens disse que a cada dia crescem demandas desse tipo entre seus pacientes. Jovens com autoestima partida, perdidos emocionalmente, a procura de uma resposta que dificilmente terão. Portanto amigos da área, se liguem nesses canais caça-níqueis do Youtube. É um desserviço.

Quanto a mim, enquanto termino o texto, dei um rolê no FB do Pluft, o fantasminha que rendeu essa crônica. Minha amiga está se recuperando, já conformada, se jogando no trabalho, entendendo que estava entrando numa furada. O que vejo agora, senhoras e senhores, nesse preciso momento, em outro post público é: O rapaz causador de tanto sofrimento ao lado de uma outra vítima, numa foto com corações pulantes, foto dos dois e o face dizendo: “Fulano e Fulana estão num relacionamento sério”. Depois vocês acharam ruim quando aquela inglesa quis se casar com um fantasma. Pelo menos ela sabia quem tava levando para casa. Tava errada?

Igrejas evangélicas financiam a extrema-direita lusa

Insatisfeitos com o tamanho dos estragos feitos nos Estados Unidos e  Brasil, os movimentos evangélicos pentecostais querem mais, exportar seu projeto de poder para o outro lado do Atlântico. Atacam-se à política portuguesa, apoiam e até financiam o partido de extrema-direita Chega, liderado pelo ex-comentarista esportivo André Ventura, que embora não se chame Messias como Bolsonaro considera-se o salvador da pátria lusa. Seu ego é desmedido. Já confessou que não ficaria descontente em ser chamado de mito.

Ficou claro, desde a fundação do partido, em 9 de abril de 2019, que várias igrejas militavam a favor de Ventura, tendo inclusive participado ativamente da campanha eleitoral que o levou ao Parlamento. O que se desconhecia até agora era a imbricação entre o seu projeto político e o financiamento do Chega pelas seitas evangélicas pentecostais, revelado pelo jornalista Miguel Carvalho, na revista Visão.

O artigo mostrou que o pastor reformado de Loures, Constantino Ferreira, encaminhou para o Chega os dados de mais de 4 mil contatos recebidos no seu site religioso, para engrossar as fileiras do partido neofascista. Constantino confessou, sem pudor, que se calcou no trabalho feito pelas igrejas do outro lado do Atlântico, onde os apoios de evangélicos a Bolsonaro foram fundamentais para conquistar a presidência do Brasil.

A reportagem cita Damares Silva, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro e pastora evangélica: “É o momento da igreja ocupar a nação”.

As igrejas, algumas das quais consideradas seitas em Portugal, seguem também o exemplo  dos EUA, onde foi lançado, no início de janeiro, o movimento “Evangélicos por Trump”, uma reafirmação do apoio de grupos evangélicos radicais ao atual presidente. A agenda extremista de Trump, similar à de Bolsonaro na resposta à pandemia, é aplaudida entusiasticamente por André Ventura. Vários analistas reconhecem que esse projeto de poder seria impossível sem o apoio dos grupos evangélicos extremados.

O sonho de conquista de poder em Portugal pelos evangélicos neopentecostais existe há muito. A primeira tentativa data de 1995,  com o defunto Partido da Gente, criação da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Seu símbolo, além da letra “G” em fundo azul, tinha uma sugestiva vassoura vermelha. Essa experiência fracassou com um resultado eleitoral minguado, apenas 0,14% dos votos, mas as intenções não desapareceram, apenas esperaram melhor oportunidade. Esse momento parece ter surgido com a entrada em cena de André Ventura.

Os evangélicos eram 0,3% da população portuguesa (10 milhões de habitantes) em 2012, 4% em 2017, ano da publicação do último estudo do gênero pelo Pew Researsh Center. Fala-se que em 2020 pode estar beirando os 10%.

Dentre os pastores, muitos vêm do Brasil. No início deste ano, as autoridades migratórias de Portugal prenderam três pastores evangélicos brasileiros por tráfico humano e auxílio à imigração ilegal.

O trio, dois homens e uma mulher, usava a estrutura da igreja para convencer brasileiros a se mudarem para Portugal com promessas de trabalho e de auxílio à regularização, que acabava não acontecendo.

Uma vez em território português, os imigrantes passavam a morar —mediante pagamento de aluguel de 300 euros (cerca de R$ 1.800) –  em um alojamento anexo ao templo, localizado na região de Amadora, na Grande Lisboa, em condições precaríssimas. Além de pagarem para viver no espaço exíguo, caindo aos pedaços, amontoados uns sobre os outros, os brasileiros (incluindo crianças) também eram obrigados a contribuir com o dízimo.

De acordo com o Observatório de Tráfico de Seres Humanos, Portugal teve sinalizadas 168 vítimas deste crime em 2018, incluindo 29 menores de idade.

O professor de Sociologia da Religião da Universidade da Beira Interior, Donizete Rodrigues, relatou a Miguel Carvalho o resultado das suas pesquisas e as conclusões só surpreenderam quem não conhece o modus operandi dos evangélicos no Brasil e Estados Unidos: “É público que líderes e membros das igrejas [neopentecostais] financiam atividades partidárias” e, “como era de se esperar, o Chega faz parte desse esquema”. O mesmo pesquisador concluiu ainda que “muitos líderes e pastores evangélicos dirigem, nos cultos, grandes elogios ao partido fascista e ao seu líder. Na verdade, fazem campanha política aberta, o que ficou evidente na última eleição.”

 

Comenta-se que uma parte do dinheiro arrecadado nas missas das igrejas pentecostais engorda o caixa 2 do Chega.

 

Às vésperas da eleição presidencial do início de 2021, com André Ventura em 3° lugar nas pesquisas, próximo dos 10% das intenções de voto, os jornais questionam se é realmente possível que o Chega seja financiado pelo movimento evangélico neopentecostal. Se isso acontece, lê-se no indignado Público, de Lisboa, o fato é gravíssimo, além de ilegal, pois a Constituição portuguesa impõe a separação entre a Igreja e o Estado e estabelece que Portugal é um país laico. André Ventura lava as mãos como Pilatos quando confrontado com essa possibilidade. “Pelas minhas mãos ou que eu conheça, não entrou dinheiro nas contas bancárias do Chega de forma abusiva”, diz o deputado, mas a palavra de Ventura vale tanto quanto a de Jair Bolsonaro ou Donald Trump. Ele havia prometido cumprir o mandato legislativo em exclusividade e acumula vários cargos no setor privado, garantia ser contra as subvenções vitalícias e depois trouxe Sousa Lara para o seu lado, o mesmo político que nunca abdicou do direito à subvenção vitalícia estatal.

 

A extrema-direita no mundo tem mostrado que não distingue a política dos negócios, não seria de estranhar portanto que seria diferente com André Ventura e o Chega. Os financiamentos de partidos “amigos” ou de movimentos internacionais da alt-right são recorrentes. Há meses eclodiu o escândalo dos pagamentos da Rússia e dos seus oligarcas para a extrema-direita francesa, austríaca e italiana.

 

Aliás, para André Ventura, a própria política é um negócio, como explica um dos dirigentes do Chega, ao reconhecer que muitas assinaturas para a legalização do partido foram colhidas por estudantes, que receberam um euro por cada uma, em dinheiro vivo.

A Desilusão e O Coro de 107 Mulheres

O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver

Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu

(Cazuza)

Sou pessoa extremamente resistente ao novo, por mais estranho que isso possa parecer. Passei dez anos da minha vida estudando a oratória barroca, fechada no meu mundo das etimologias, imersa no pensamento de base analógica medieval, escondida no século XVII. O distanciamento temporal é minha zona de conforto, até porque é através do passado que consigo entender muito do presente. Principalmente no que toca a formação do Brasil. Não tenho certeza se essa frase é do Nelson Rodrigues, mas ela traduz bem o meu sentimento de mundo: “Não existe nada tão remoto quanto o passado recente”. O contemporâneo, o fragmentário, a pós-modernidade, a nova configuração do mundo, mais me confunde do que explica. Sim, “a mente apavora o que ainda não é mesmo velho”, pelo menos a minha. Eis aí uma das minhas limitações.

Acontece que não dá para se manter alheia a esse Admirável Mundo Novo. As mudanças se encontram em tudo que permeia nosso cotidiano. Um exemplo: Lidando com alunos do primeiro período de um curso universitário, idades que variavam entre os 17 e 21 anos, com uma filha adolescente, além de sobrinhos mais jovens, passei a ter uma enorme dificuldade de ouvi-los. Muito do que eles me falavam me escapava e, preocupada,  marquei um teste auditivo. Nesse mesmo espaço de tempo, amiga querida que mora há muitos anos na Europa e tem pleno domínio do idioma, tanto do francês quanto do alemão, esteve numa reunião na escola dos filhos, da mesma faixa etária da minha, para encontrar-se com a professora de francês dos meninos. Uma moça jovem, de vinte e poucos anos, conversaram em francês. Minha amiga ficou apavorada, porque mesmo tento total intimidade com a língua francesa, muito do que a moça falava ela não entendia. Coincidentemente me disse a mesma coisa: “Preciso correr para fazer um teste de audiometria, acho que estou ficando surda, tive uma puta dificuldade de entender o que a jovem professora dos meninos falava”. Acabou que a história cresceu e outras pessoas próximas, da nossa faixa etária, se queixaram do mesmo problema. Aquilo nos alertou. Não parecia provável que todos nós, que lidamos com jovens, estávamos sendo acometidos ao mesmo tempo por um surto de surdez, uma espécie de “Ensaio Sobre a Cegueira” para quarentões, apesar de que, nessa distopia de todo dia, nada seja impossível. Foi então que caiu a ficha. O problema é que com a internet, a linguagem em tempo real, o timing é outro. O discurso dessa geração tecnológica ganhou outra velocidade, cabe a nós correr atrás para entender. Eles estão falando mais rápido, e sim, estamos defasados.

Se isso ocorre no nosso cotidiano mais comezinho, imagina no macro. É o enorme fluxo de notícias que lidamos todos os dias, é a velocidade vertiginosa da mudança. Desde a queda do Muro de Berlim, da nova configuração do mundo, da globalização que antes era uma ideia tornando-se rapidamente uma realidade e a tecnologia de informação ali, propulsora de toda uma revolução. Sou de uma das últimas gerações analógicas, o que por si só não explica minha irredimível incompetência para operar as novas tecnologias. O internauta aqui, a par de todas as novidades, é o meu pai e ele tem 81 anos. Se um computador pode ter mais de 50 programas, eu só uso a máquina mortífera para escrever no Word, entrar nas redes sociais e enviar e-mails. Grosso modo, sou como um chimpanzé com uma metralhadora na mão. Nunca correrei o risco ser incriminada por baixar filmes, por exemplo, muito mais pela falta de talento e habilidade do que por convicções ideológicas. Smartphone, então, é uma piada. E, em minha defesa, digo que não estou sozinha nessa! Volta e meia gafes são cometidas por mim e por amigos próximos. Enquanto os jovens conseguem navegar nas redes sociais, ouvir música, olhar o notebook ao mesmo tempo e dar uma olhadela de relance na TV, eu mal consigo coordenar uma única tarefa. Dia desses alguém mandou uma mensagem para lá de escalafobética, quis dividir com amiga pessoal seguindo a máxima de: “não verei isso sozinha”. O problema é que printei a tela e… enviei para a própria pessoa. Apavorada, vi o risquinho azul, ela já tinha visualizado, e parti para o improviso. Dei uma de João-sem-braço e escrevi abaixo do print: “Reveja o seu discurso”. A pessoa ficou intrigada, perguntou o porquê de tal revisão e escrevi coisas tão absurdas que tenho certeza de que ela achou que eu estava drogada ou num surto esquizofrênico. Antes passar por doida que fofoqueira, pensei. Tem também a impagável história de amiga que conversava ao mesmo tempo com o grupo de família e com o crush. Esse pediu pra ela uma foto “bem safada”. Sim, foram essas as palavras. Ela entrou na personagem, incorporou atriz pornô da Boca do Lixo e enviou para o boy. Foi tomar banho. Na volta, várias notificações. Frases com exclamações que começavam com “O que é isso?” a “Que loucura é essa?”. Pois é. Mandou a foto do que seria para o boy para o grupo de família. E, para o galã, enviou uma foto da primeira comunhão com as primas que a tia-avó havia pedido. Passou meses evitando almoços e festas de família. Outra amiga estava na Riviera Francesa, o marido trabalhando no escritório no Brasil e ela realizou o sonho de fazer topless. Quis registrar o momento para tirar o esposo do tédio, mas quem recebeu a foto foi um grupo que fazia parte de compra e venda de peças de carro, do qual saiu imediatamente. Claro que o assunto do dia no tal grupo foi: “Por que aquela maluca mandou foto de peito de fora?”. Esses são três exemplos de pessoas da época do telefone de discar, que faziam parte do penfriends e usavam ficha para ligar do orelhão.

Tudo isso é para explicar que não sou a pessoa mais certa para falar de tecnologia. Não tenho estofo acadêmico para tal, faço algumas leituras pontuais. Mas fui pega de surpresa por algo tão inusitado, que tomei a ousadia de dar meus pitacos sobre esse estranho mundo. Tudo começou quando recebi uma mensagem de uma amiga mais jovem, me contando sobre um momento que passava. Coisas do amor, nem sou a pessoa mais indicada para tal, mas talvez pela confiança e por ser eu mais velha, ela tenha me achado a pessoa certa. Escrevo aqui com autorização da mesma. É uma moça bonita, perto dos trinta anos, independente, bem formada, inteligente, terminou um namoro de longo tempo. Quarentena, home office, conheceu através de um FB da vida um amigo de amigo, igualmente solteiro, um pouco mais velho, inteligente, charmoso e a conversa foi evoluindo. Foram encontrando muitas coincidências, gosto musical (essas músicas experimentais, de bandas gringas, que nunca ouvi falar), trabalhavam em áreas afins, seus cachorros tinham nomes mitológicos, curtiam games e tudo que não entendo, signos complementares, histórias de vida parecidas, passaram por perdas familiares difíceis. Até eu, que como Oscar Wilde acredito que “o cinismo consiste em ver as coisas como realmente são, e não como deveriam ser”, a pessimista de carteirinha, que nunca caiu no conto da alma gêmea, botei fé na história. Moravam em cidades diferentes, mas isso era o mínimo. Já se organizavam de se encontrar, uma harmonia que vi poucas vezes na minha vida. Eu sou testemunha que não era apenas uma relação virtual. Com o tempo a admiração dos dois só crescia, se falavam todos os dias, lindo de se ver. Se preparavam para o encontro, ele viria para cá, passagem marcada, foram quase quatro meses de conhecimento e espera.

Para minha surpresa, recebi um áudio nervoso dela pedindo para falar com urgência comigo. Preocupada, entrei em contato e eis a história: No fim de semana tudo ótimo, horas em chamadas de vídeo, ansiosos com a viagem. Acordou com audiozinho perguntando se ela tinha dormido bem, chamando de amorzinho, conto as horas prá te ver e todas as cafonices que jovens apaixonados têm licença para cometer. Na segunda, ela viu ele online no Whatsapp, desejou bom dia, ele não visualizou. Ok, deve estar ocupado. Ficou na dela, trabalhando num projeto, nada dele se manifestar. Achando a ausência estranha, ligou para o fixo, ninguém atendeu. Estamos falando de uma pessoa comedida, não de uma stalker louca que manda mensagens compulsivamente. Dia seguinte, ele online, ela perguntou educadamente: “Está tudo bem com você? Mande notícias”. Ele visualizou para, em seguida, bloqueá-la. Não apenas do Whatsapp, mas de todas as redes sociais. Sem explicações, sem palavras, se nada.

Eu sou da época em que o pior que poderia passar era dar o telefone para um garoto que fazia questão de pedir, revelando encantamento e não pegar o dele porque, obedecendo ao código machista, “não vou pedir pra não achar que sou fácil”. E passava ódio, porque o desgraçado não ligava. A gente até tentava se enganar: “Ah, ele perdeu o papel, era tão pequenininho”. Mas, na boa, esse era o cúmulo do perdido. Nada além disso.

Isso, porém, de estabelecer uma relação, encontro marcado e sumiço instantâneo, eu nunca tinha presenciado. Se a comunicação é intrínseca ao ser humano, acho que diante disso até os homens da caverna, através de símbolos, gestos e grunhidos, não deixavam no vácuo desse jeito. O fato é que vi uma jovem assustada, sem acreditar no que tinha acontecido, e fazendo aquilo que nós mulheres somos condicionadas, nessas horas de rejeição: “Onde foi que eu errei?”. Não, querida, você não errou. Prá começar, você acabou de ser vítima do machismo mais escroto existente: ele te calou. Você foi silenciada. Bloquear é uma ação violenta, feita por homem então… O poder do discurso te foi tirado. De uma arquiteta estilosa, doce, mas com opiniões próprias, ele te transformou numa amish da Pensilvânia, de vestido comprido, toca na cabeça e obrigada a andar uns passos atrás do marido, sem nada poder dizer.

Apesar da tristeza, o que a impediu de surtar foi sua autoestima inabalável. Não passou pela cabeça dela procurá-lo. Já pela minha… Claro. Fui fuçar o FB da criatura. Logo de cara, foto pública, cercado por amigos idiotas, tomando vinho. Data: exatamente no dia do boqueio. Para piorar, uma postagem aleatória de fundo preto com a seguinte frase: “Esta sociedade patriarcal precisa mudar. E que seja rápido. Ela está repleta de erros”. Cínico. Bancando o feministo, olha que meigo. Não disse nada a ela. Mas desejei, no mínimo, um COVID básico para esse galã de rodoviária.

Ela está se recuperando. Eu, porém, fiquei muito encucada com isso. Eu até hoje só bloqueei e fui bloqueada por motivos bem específicos. Políticos, na maioria das vezes. Tudo bem às claras. Fui consultar o oráculo e ver o que ele poderia me dizer sobre esse numerozinho patético do desaparecimento. E aqui digo para vocês, experiência assustadora.

Lembrei de Sophie Calle, a artista plástica francesa que, em 2004, depois de uma longa relação com o escritor Grégoire Boullier, recebeu um singelo e-mail dele terminando tudo. Fiquei revoltada. Um e-mail!? Aliás, um e-mail bem do mequetrefe. Ali vi que a frase “O problema não é você, sou eu” faz parte da confraria universal dos machos. Achava que era made in Brazil. Não é. E, no final, afetuosamente, ele escreve: “Cuide de Você”.

Contrariando o que Grégoire imaginava, a espera de um escândalo de indignação na porta dele, Sophie ficou quietinha. Sumiu do mapa. Na real, convidou 107 mulheres, das mais diversas idades e ocupações, para fazerem uma análise, um comentário, uma manifestação, até esgotarem o e-mail do infeliz de acordo com suas profissões. De dançarina hindu a atiradora de elite pipocando bala no papel. Foram centenas de interpretações possíveis. Numa instalação genial, em que fotografia, imagens em movimento, escritos, desenhos dialogavam, ela apresentou essa performance na Bienal de Veneza e causou. Quando esteve no Brasil, fui ver a exposição três vezes. E penso que, até hoje, esse homem deve ter pesadelos com o coro de 107 mulheres. “Cuide de Você”, melhor nome para a exposição não havia. Só que nem todo mundo é Sophie Calle e consegue transformar um término doloroso de relacionamento em fina arte.

PS: Segunda Parte: ALMAS PENADAS, GRUPO MOLEJO E BAUMAN

Samba Perdido – Capítulo 19 – Parte 01

Capítulo 19

 

“E aqueles que foram vistos dançando

Foram considerados loucos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.”

 Friedrich Nietzsche

 

O último ano no Colégio Andrews era dedicado cem por cento a nos preparar para o vestibular. As aulas foram transferidas para um prédio separado com os alunos agrupados em quatro turmas – duas para ciências exatas, uma para área biomédica e uma para humanas. Agora, transformada em cursinho pré-vestibular, a escola era puro stress. Os métodos eram intensos, com professores nos bombardeando com segredos infalíveis para saltar a barreira colossal posta a nossa frente.

O programa da escola tinha uma boa reputação. Estudantes vindos de outras instituições no Rio bem como de mais longe se transferiam para. Um dos novos alunos que conheci tinha vindo do Chile. Ele tinha ido viver lá com a mãe quando os pais se separaram. Agora, na casa do pai, queria voltar a morar na sua terra natal e fazer faculdade lá.

Alguns dias depois do início das aulas, pegamos o mesmo ônibus e começamos a conversar. Por algum motivo, o papo acabou em Teresópolis e descobrimos, para nossa completa surpresa, que ambos tínhamos casas de campo vizinhas no fim de mundo do Jardim Salaco. Isso foi coincidência demais para a cabeça de qualquer um e ajudou a nos tornar melhores amigos instantaneamente.

Kristoff era de descendência alemã, parecia com o ator Jack Palance, só que de cabelo comprido e loiro. Além da origem europeia, tínhamos em comum o gosto pela música, ele tocava flauta transversal e se tornaria saxofonista profissional. Além  disso, de alguma forma inexplicável, apesar de pertencermos à infame “esquadrilha da fumaça”, conseguíamos nos manter nos top quinze por cento quando havia testes preparatórios. Não demorou muito para que ele se juntasse à irmandade musical da escola, e em pouco tempo seu apartamento no final do Leblon se tornou o quartel general dos músicos marginalizados e afins. 

Como aspirantes a instrumentistas, para nós, os gigantes do rock dos anos 1970, Pink Floyd, Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes reinavam supremos nos nossos gostos, assim como os Beatles, os Rolling Stones e o Jimi Hendrix. Só que além deles curtíamos o jazz-rock mais recente, representado por uma geração de músicos brilhantes como a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, Focus, Jean-Luc Ponty, Jeff Beck, Stanley Clarke e Weather Report entre tantos outros. 

Tal como era o caso com outros aspectos da cultura jovem no Brasil, estávamos cerca de cinco anos atrás do que estava acontecendo na Inglaterra e na América do Norte, desconhecendo tanto o punk como o reggae. Não fazíamos ideia do que representavam em termos de resistência ao sistema, ao racismo e à caretice que tinham tomado conta do mundo anglo-saxão a partir de meados dos anos 70. De qualquer forma, suspeito que mesmo que tivéssemos tido conhecimento, ainda assim teríamos continuado ligados naqueles grandes mestres nos nossos instrumentos.

Havia vários talentos musicais locais de alto calibre surgindo. Nossos ouvidos estavam abertos para gênios como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti que pareciam ser um fio condutor para o tipo de energia que tinha experimentado no sul da Bahia. 

Se a bossa nova tinha sido o reflexo do otimismo do pós-guerra brasileiro, essa nova geração musical refletia um momento de autodescoberta e de renascimento vindo com o ressurgimento da liberdade política. Ainda que fossem exclusivamente instrumentistas, eram populares; seus shows lotavam e, por um curto tempo, eram os mais vendidos entre os consumidores mais antenados.

Dos três, Egberto era meu favorito. Seu talento começou a se manifestar na loja de instrumentos musicais de seu pai onde, ainda criança, demonstrava pianos aos clientes. Mais tarde, Egberto foi para a França estudar música clássica. Quando regressou, aplicou o conhecimento adquirido e seu talento à música brasileira, indo muito além da bossa nova. Entre outras coisas, Egberto mergulhou a fundo na música indígena, a ponto de ir aprender música sagrada com um pajé na região do Xingu onde usava música como forma para curar. A história conta que para Sapaim, o xamã-músico, aceitá-lo, Egberto teve que acampar do lado de fora de sua maloca isolada na selva por cerca de um mês até ser convidado a entrar. Talvez por causa do que aprendeu lá, os sons nos seus shows eram como uma entidade palpável que hipnotizava o público.

Hermeto Pascoal foi um menino albino nascido no sertão nordestino. Devido à sua condição, não podia trabalhar sob o sol escaldante, daí seus irmãos o trancavam em um estábulo onde canalizava sua frustração furiosa para a música. Os seus cabelos e barba brancos, longos e encaracolados e seus traços marcantes cobertos por óculos fundo de garrafa, conferiram a ele o merecido apelido de “Bruxo”. Sua banda, que mais parecia uma seita de instrumentistas fanáticos, morava na sua casa no bairro afastado de Bangú, no Rio de Janeiro. Quando tocavam, faziam sons insanos, não só com instrumentos, mas também com objetos do dia a dia como garrafas quebradas, serrotes e panelas. Em meio a essa loucura, entretanto, havia o gênio que criava sons celestiais lindíssimos nascidos dos mistérios de índios, africanos e europeus.

Desses três instrumentistas, o que alcançou maior sucesso internacional foi Naná Vasconcelos. A revista Down Beat, a mais importante do mundo do jazz, iria elegê-lo oito vezes como o melhor percussionista do mundo; ele também receberia oito Grammies. Vindo de Pernambuco, era o único afrodescendente dos três. Exalando ritmo por todos os poros, mestre no berimbau, tinha uma ligação íntima com a espiritualidade do Maracatu. Depois de uma contato rápido com os mineiros ligados a Milton Nascimento, o clube da esquina, conheceu o rock e a mistura acabaria levando sua percussão a níveis psicodélicos nunca antes imagináveis.

Egberto, Naná e Hermeto não eram, de forma alguma, as únicas expressões da música instrumental e experimental brasileira nos anos 1970. Havia também bandas como a Uakti, conhecida por usar instrumentos feitos à mão, pelos próprios membros do grupo. O nome Uakti vindo de um mito dos índios Tucano sobre um homem-instrumento. Haviam os jazzistas como Victor Assis Brasil, Hélio Belmiro e Wagner Tiso, além de bandas mais elétricas como A Cor do Som e o guitarrista Pepeu Gomes, ambos com origem nos Novos Baianos. Para qualquer um minimamente interessado em música essa foi uma época abençoada.

Após sua curta popularidade no Brasil, os três principais expoentes daquela geração sairiam de moda mas surgiriam como estrelas na cena do jazz internacional.

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O interesse pela música instrumental era tão grande, que promotores de eventos enxergaram a oportunidade. O Rio Jazz Festival, irmão carioca do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, começou em 1978, apresentando nomes consagrados internacionalmente como o guitarrista Joe Pass, o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Dexter Gordon, o guitarrista da Mahavishnu Orchestra, John MacLaughlin bem como músicos brasileiros que estávamos ouvindo. 

O problema era o local: o Maracanãzinho, o mesmo lugar que tinha acolhido os festivais da canção no fim dos anos 1960 e início dos 1970. A acústica era péssima. Grandes nomes do rock, como Alice Cooper, Rick Wakeman e Genesis haviam tocado lá, mas o eco tinha transformado a música deles em ruído.

Apesar dos problemas de qualidade, a “esquadrilha da fumaça” tinha que estar presente. Como os ingressos eram caros, só tínhamos dinheiro para um show. Escolhemos a noite de encerramento, com o Weather Report, a banda do melhor baixista de todos os tempos, Jaco Pastorius, seguidos por outra estrela do baixo, Stanley Clarke. O grandfinale ficaria a cargo de Jorge Ben junto com a bateria da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, a melhor do Rio de Janeiro, e convidados especiais.

Os assentos eram divididos entre os mais em conta, na desconfortável arquibancada na parte de cima, e os mais caros perto do palco. Lá, o público mais endinheirado podia ouvir o show com mais clareza sentado em cadeiras numeradas. Claro que tínhamos os ingressos mais baratos. Só que assim que entramos no ginásio, percebemos que era fácil pular para a parte de baixo. Todos fizeram isso, só que quando chegou a minha vez, um policial bateu nas minhas costas e me mandou voltar para meu lugar. Ainda que tenha ficado só, estava com nosso precioso baseado reservado especialmente para o show, sobrevivente das dificuldades financeiras do mês anterior. Quando sentiram sua falta, me chamaram lá de baixo e ficaram implorando para que jogasse o bagulho. 

Falei que não ia rolar: “Os caras agora estão de olho em mim, não vou pular e o beck fica comigo.”

“Rique, deixa de ser veado e joga essa merda!”

“Cara, essa é a minha compensação por ficar sozinho aqui na roubada.”

“Porra! Todo mundo comprou junto e você vai ficar com ele sozinho!?”

“Grita mais alto que é pros “homi” ouvirem melhor.” 

Voltei para o meu lugar nas arquibancadas e deixei os caras reclamando, provavelmente se segurando para não me chamar de judeu ruim de transa.

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Finalmente Trump

Então a gente acorda com a notícia de que Trump e Melania estão com Corona. Logo vem o pensamento de bem feito babaca, te f*d*. Aquela satisfação de que o universo finalmente está fazendo justiça.

Uma grande ironia é que o nome da assessora que passou o vírus para eles é Hope Hicks. Hope em Inglês significa esperança. Neste caso, a nossa.

Explico que pouco antes assisti aos melhores momentos do debate entre ele e Biden. Acho que deveriam usar nas escolar para ensinar sobre bullyng, bons modos, respeito, ética etc. Ali estava o cara que faz do nosso mundo um lugar pior de se viver, que ocupa o cargo de presidente dos Estados Unidos, no que se poderia afirmar, sem errar e concordando com o Biden, de que é o pior presidente da história deles.

Sim, os americanos pensam sempre em si mesmos e como explorar o mundo em seu benefício próprio, esta é a regra geral. Acho que nenhum presidente americano foi perfeito, e não importa se democrata ou republicano. No entanto, alguns deles fizeram coisas das quais podem se orgulhar. Algumas em benefício dos americanos, outras em benefício da humanidade. Todos se comportaram como exige a dignidade do cargo, e os que desafiaram esta premissa foram removidos dele.

Este imbecil e seu filhotinho Bolsonaro (copiei o Biden que chamou o Trump de filhotinho do Putin), estiveram sempre sendo condescendentes com o Covid-19. Descumprem as regras básicas de proteção de si mesmos e dos que estão a sua volta de maneira corriqueira. Pior, desdenham o uso da máscara como sendo algo de gente fraca, de pessoas medrosas. Trump, em especial, está fazendo campanha para presidente chamando seus apoiadores para participarem de seus comícios sem exigir o uso de máscaras e distanciamento.

Num país que já passou dos 210 mil mortos pelo Covid-19, era uma questão de tempo e sorte ele ainda não ter se infectado. Mas o dia chegou e agora, por via das dúvidas, já está hospitalizado e segundo notícias da CNN, estaria com dificuldades para respirar. Independentemente desta informação vir a ser confirmada, eu espero que ele passe pelo quadro completo da “gripezinha”. Boris Johnson bem que avisou.

O ano está chegando ao fim. Nos aproximamos da chegada das primeiras vacinas e todos esperamos por dias melhores em 2021. Queremos deixar este pesadelo para trás e torcer para que ele nunca mais se repita.

Vão ser muitas lições deste período quando a humanidade como um todo enfrentou uma pandemia nos tempos modernos. Quem foram os solidários, quem foram os egoístas? Quem foram os que se contaminaram, quem não se contaminou? Quem foram os mortos, quem foram os sobreviventes? O que fizemos corretamente e onde erramos para termos ultrapassado o um milhão de mortos, podendo dobrar este número em breve?

São muitas as perguntas e ainda poucas respostas. Ninguém tem a receita perfeita, mas todos concordam que por mais doloroso que seja para a economia, ficar preferencialmente em casa, quando precisar sair usar máscara, manter distanciamento social e higiene, são o melhor remédio preventivo. O resto é perfumaria.

Eu estou vivendo o que seria o segundo Lockdown em Israel. Seria, porque muita gente está desrespeitando as normas sem se importar com os demais e com as multas, que devem dobrar de valor na semana que vem. Com uma média de 8 mil novos infectados ao dia, e com uma taxa de positivos em torno dos 13% dos testados, somos hoje o país na pior situação no mundo.

A população perdeu a credibilidade nos políticos em geral e no atual governo em especial. Por conta disso, estamos assistindo incrédulos aquela situação do cada um por si. As ruas estão cheias de gente com, e sem máscaras, e as estradas com congestionamentos, tudo em pleno Lockdown. Pessoas com teste positivo, assintomáticas, estão transitando de automóvel. A polícia não dá conta e uma tentativa de usar tropas do exército para ajudar não foi bem recebida.

Se não forem tomadas medidas draconianas, vamos ter 10, 12 mil infectados ao dia em breve. Os hospitais já estão abrindo novas alas para tratamento de doentes nos seus estacionamentos. O governo garantiu mais 1500 UTIs, mas o preocupante é que não vamos ter equipes médicas suficientes para atender estes doentes e os pacientes tradicionais.

Para qualquer lado que se olhe, o mundo de hoje não está fácil. Tratemos de sobreviver, de máscara!

Quino Morreu, Viva Mafalda

Uma grande tristeza tomou conta de mim ao acordar nesta quarta-feira, último dia de setembro. Comigo, tendo a acreditar, boa parte da humanidade amanheceu cabisbaixa. Desapareceu um dos maiores gênios dos quadrinhos, um dos humores mais singelos e mordazes dos nossos tempos, ícone do politicamente incorreto: Quino, o criador de Mafalda, a menina que acompanhou minha geração pela vida.

A notícia me lembrou um episódio ocorrido há dois anos na Argentina. Em pleno debate sobre a descriminalização do aborto, sua imagem foi usada, sem a permissão de Quino, pelos fundamentalistas cristãos, atiçados pelas igrejas católica e pentecostais, em campanha contra a despenalização. Cartazes espalhados por Buenos Aires diziam: Mafalda é a favor da vida. Assinado, Quino.

Naquela altura se debatia a legalização da interrupção voluntária da gravidez, aprovada em primeira leitura da Câmara dos Deputados.

A declaração estampada nos outdoors do metrô portenho eram, evidentemente, falsas. Causaram estranheza. Apesar de seus 86 anos, tendo perdido a visão devido a um glaucoma, Quino reagiu illico presto: “Não autorizei o desenho, não reflete minha posição e peço que seja retirado”.

No Twiter e Facebook, Mafalda também se insurgiu: “Sempre e explicitamente defendi os direitos das mulheres”.

Procurado pelo El Pais, Diego Lavado, sobrinho e olhos de Quino, comentou que o desenhista sempre foi feminista, aliás o primeiro feminista que conheceu. Diego recebeu dele um comunicado, desejando sucesso às defensoras da descriminalização do aborto.

Na época, a Argentina só autorizava a interrupção da gravidez em casos excepcionais, como a violação e o risco de vida para a mulher – e, mesmo nestas circunstâncias, a interrupção da gravidez só podia ser feita depois da autorização de um juiz. Exatamente como em outros países da América Latina.

Mafalda, obviamente, não podia ser contra este direito fundamental das mulheres. Não era, não foi, nem nunca será. Por isso, junto com seu criador, festejou a legalização do aborto.

Ambos, certamente, teriam chorado de tristeza, dias atrás, ao olhar para cima do mapa da América Latina e constatar o que constatamos em terras fascistas: um governo pressionando uma criança estuprada a ir ao fim da gravidez, inclusive através de ameaças psicológicas e físicas.

Esta terra tem nome, que me envergonha pronunciar: Brasil.

Tirados os 40% que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo,  os brasileiros que conservam um pingo de humanidade ficaram – espero -estarrecidos com a confirmação de que a pastora-ministra Damares, da pasta ironicamente denominada da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandou a violenta campanha para impedir que uma criança de 10 anos abortasse após ter engravidado, vítima de estupros repetidos praticados pelo tio durante quatro anos. Não que  Damares Alves merecesse o benefício da dúvida já que, num primeiro momento, mentiu e afirmou sua inocência, mas pela enormidade da maldade e desfaçatez.

Fiel entre os fiéis de Bolsonaro, ela enviou seus conselheiros para tentar dissuadir a menina de praticar um aborto legal, ou melhor dizendo, tentou impedí-la, mesmo sabendo que ela corria risco de vida.

O aborto é permitido no Brasil em três casos: gravidez decorrente de estupro, casos de risco à vida da mulher e fetos anencefálicos.

A pressão, coordenada pela pseudo pastora, tinha como objetivo transferir a criança de São Mateus (ES), onde vivia, para um hospital em Jacareí (SP), onde aguardaria a evolução da gestação e o nascimento do bebê. Sob o argumento de que se tratava de uma instituição de referência no atendimento de gravidez de risco, o Hospital São Francisco de Assis, de Jacareí, assumiria os cuidados médicos da menina, fazendo seu pré-natal até que ela estivesse pronta para o parto. Não por coincidência nem acaso, o hospital é parceiro da Igreja Quadrangular, cristã evangélica pentecostal de origem americana, que teve como expoente no Brasil o pastor Henrique Alves Sobrinho, pai de Damares.

Os representantes da ministra – Alinne Duarte de Andrade Santana, coordenadora geral de proteção à criança e ao adolescente da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Wendel Benevides Matos, coordenador geral da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, mais dois assessores e o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) – foram encarregados da execução da transferência (a palavra mais correta seria sequestro). De quebra, vazaram o nome da criança para Sara Giromini, aliás Sara Winter, a quem Damares chamou no passado de “minha filha”. Winter foi treinada nos campos militares neonazistas do grupo Azov, na Ucrânia, com o objetivo de fomentar atos terroristas no Brasil.

Damares e seus asseclas atentaram contra o Estatuto da Criança e do Adolescente e transformaram a família em alvo de ameaças. Após inúmeras agressões, a menina e a avó  entraram para o programa de proteção à testemunha e foram obrigadas a deixar a casa em que moravam.

Mas nada disso parece importar nesta terra arrasada em que se transformaram os direitos humanos no Brasil, com os procuradores a mando do Planalto preferindo investigar o médico encarregado do aborto à ministra criminosa de Jesus na goiabeira.

Damares, Bolsonaros e seus adoradores de bezerros de ouro aproveitam a ocasião para mais uma investida destinada a intimidar as mulheres decididas a interromper a gravidez.

O Ministério da Saúde, ocupado por um general que nunca fez um curativo sequer, publicou no último dia dia 28 uma portaria com novas regras para atendimento ao aborto legal. O texto obriga os médicos a avisarem a polícia quando atenderem pacientes que peçam para interromper uma gestação em razão de estupro. Assim, aborto vira caso de polícia…

As equipes de saúde também deverão informar à mulher a possibilidade de ver o feto em ultrassonografia, numa clara manobra para demovê-la da decisão de abortar. Enfim, o texto determina que as pacientes devem assinar um termo de consentimento, onde consta uma lista de possíveis complicações na intervenção. Uma forma ignóbil de jogar em cima da mulher violentada a responsabilidade de um eventual erro médico que a levaria à morte.

Se não tivessem perdido seus pais, agora Mafalda estaria questionando a sociopatia bolsonarista, enquanto o Fradinho do Henfil daria boas e sarcásticas gargalhadas: Fodi o Brasil; rs, rs, rs, rs, rs