por Mauro Nadvorny | 9 set, 2002 | Sem Categoria
A renúncia dos ministros do gabinete da AP sob a chefia de Arafat é, sem dúvida, o fato mais marcante da semana no Oriente Médio. Para não sofrer um voto de censura, os ministros entregaram seus cargos. Alguns eram acusados de incompetência, outros de corrupção, mas o gabinete como um todo sofria ataques por sua inoperância.
Pode-se tirar várias conclusões sobre este ocorrido. A primeira delas, e creio eu, a mais significativa, é a lição de democracia que surge no seio do povo palestino. Não podemos nos esquecer que Israel é a única nação democrática na região. Quando vemos que os palestinos almejam um estado democrático, sabemos de onde tiraram este conceito.
A segunda lição é sobre a divisão do poder. A sociedade palestina dá sinais de cansaço com a velha guarda. Esta liderança que os guiou até aqui não está sendo capaz de trazer estabilidade, paz e segurança para seu povo. A intifada apoiada por estes líderes não produziu nada além da perda da pequena autonomia que dispunham. Trouxe pobreza, desemprego e a repulsa das nações pelos métodos empregados como os homens bomba.
A terceira lição é sobre o futuro. O povo palestino deseja ter seu próprio estado. Uma nação democrática e liderada por uma nova geração de homens não contaminados com relações junto a grupos terroristas e o antigo poder, que se apropriou de verbas públicas destinadas a melhoria das condições em que se encontram a maioria do povo, abaixo da linha de pobreza. Ao marcar a data das eleições para Janeiro de 2003, Arafat mostrou um gesto de grandeza.
A quarta lição é o reconhecimento explícito de que não podem vencer Israel pela força. Ao renunciar a violência contra civis, a Fatah, que possui a maior milícia armada, mandou um recado a suas congêneres. Resistir à ocupação sim, terror não. Este passo dado no momento em que já se tornou difícil conseguir novos voluntários para se suicidarem, é muito bem vindo.
Neste momento em que assistimos a mudanças significativas no campo palestino, cabe a nós refletirmos sobre o que Israel pode fazer em contra partida. Algumas medidas são óbvias, tais como aliviar o cerco às cidades, aldeias, vilas e campos de refugiados; permitir a entrada de trabalhadores e retirar-se gradualmente das áreas “A”. Outra apesar de óbvia implica em conflitos políticos. Temos de desmantelar alguma colônias. Esta retirada traria um imenso reconhecimento por parte da comunidade internacional, da disposição de Israel em fazer a sua parte.
Talvez seja o momento de aprendermos uma das lições do povo palestino. Talvez fosse a hora de dizermos não a velha geração de Sharon e conclamarmos por eleições gerais em Israel. Uma nova liderança não contaminada com crimes de guerra e com o ódio aos árabes poderia implementar as tarefas que nos cabem realizar. Esta liderança que está hoje no governo não soube solucionar o conflito, e levou o país quase a um estado de bancarrota econômica.
Uma nova liderança palestina e israelense seria capaz de superar os obstáculos pessoais que envolvem o conflito nos dias de hoje. Teriam como dar um basta à guerra de Sharon e Arafat que já vitimou mais de 2000 vidas. Receberiam de seus povos um voto de confiança para buscar a paz e a reconciliação.
A paz que possa permitir a convivência de dois povos lado a lado em seus respectivos estados. E a reconciliação que permita que os dois povos possam estar trabalhando na mesma terra e tendo como sua capital Jerusalém.
Existe um longo caminho a ser percorrido. Ninguém se iluda que o poder possa ser entregue por aqueles que o usaram para propósitos escusos ou pessoais, sem luta. Eles não desistem tão fácil. Cabe aos dois povos não se deixar abater, não permitir sua volta ou permanência no poder.
Que novas vozes se façam escutar. É chegada a sua vez.
por Mauro Nadvorny | 9 set, 2002 | Sem Categoria
Dois anos e cerca de dois mil mortos depois, parece que o derramamento de sangue em Israel e nos territórios arrefeceu-se. Se ainda não podemos comemorar seu final, ao menos podemos dar graças ao fato de que nos últimos 30 dias tivemos raros incidentes.
A vida na região ainda está longe de voltar a ser o que era. Os sofrimentos causados pela ocupação e pelo resultado dos ataques suicidas ainda estão vivos e não serão apagados tão facilmente. Mas se a vida deve continuar, então os pequenos sinais de que algo está acontecendo já podem ser sentidos.
Do lado palestino mais e mais vozes se fazem escutar contra a política de violência como forma de alcançar a independência. Arafat não é mais um líder inconteste. Suas atitudes e decisões são questionadas. Algo impensável até pouco tempo. Várias lideranças exigem reformas administrativas e pedem pela nomeação de um primeiro ministro.
Já do lado israelense, até mesmo Sharon fala em obter um acordo de paz. Reconhece que os palestinos teriam compreendido que nada alcançariam com o terror. Depois de muito tempo, diz que novamente existe um certo clima para negociações.
Nem tudo é um mar de rosas. Em ambos os lados ainda existem muita desconfiança e o desejo de Bush em atacar o Iraque está servindo para desviar as atenções do mundo para o que pode ser a mais nova empreitada belicista americana. Neste sentido vale recordar que na guerra do Golfo Arafat apoiou abertamente a Sadam Hussein. Os Scuds lançados contra Israel tiveram comemorações nos Campos de Refugiados Palestinos.
Uma nova guerra na região servirá para desestabilizar o frágil equilíbrio de forças hoje existente. Os Estados Unidos, tolerados pela maioria dos regimes árabes, é odiado pelas populações da maioria destes países. Uma guerra irá insuflar este ódio contra estes regimes e não se podem prever quais serão as conseqüências. O que farão a Arábia Saudita, a Jordânia e o Egito? Qual o lado que irão apoiar?
Esta guerra neste momento não serve a nenhum propósito. Praticamente todos os aliados americanos são contra. A ONU é contra e mesmo assim seguem os preparativos para um ataque. Bush é o único que terá algum benefício se puder comprovar a existência de indústrias de armas biológicas que poderiam atingir outros países. O risco é grande. Caso não tenha esta comprovação, no momento em que os caixões com soldados começarem a chegar às cidades americanas, sua popularidade vai despencar interna e externamente.
Para Israel e para a AP, esta guerra chegaria no pior momento. Para Sharon, seria um ganho de tempo para impedir o inicio de negociações de paz com os palestinos. Mas conhecida sua vocação para se jogar em guerras, vai querer responder a uma possível represália iraquiana. Para Arafat, seria um dilema. Se apoiar Sadam estará perdendo qualquer chance de ser recebido por Bush. Não o apoiando terá que enfrentar a ira de uma parcela significativa de seu povo. Arafat perde de qualquer forma. Para ele é uma questão de avaliar o que seria pior.
Acredito que israelenses e palestinos devem fazer o possível para não aceitar este devaneio. A única forma de fazerem isso é retornarem imediatamente a mesa de negociações. Trazer de volta a atenção dos povos do mundo para a discussão da paz e não da guerra.
Este é o momento para que o Campo Pacifista se empenhe ao máximo para demonstrar que a paz está a nosso alcance. O caminho da guerra não trará nenhuma solução para o problema do conflito israelense–palestino. Ela irá apenas acentuar as diferenças e acabar com as pequenas conquistas no sentido da reconciliação alcançadas até agora.
por Mauro Nadvorny | 5 set, 2002 | Sem Categoria
Quando mais um ano do calendário judaico tem inicio, nós judeus nos sentimos orgulhosos de pertencer a um povo que já conta com 5762 anos de história. Hoje, véspera de 5763, num dia primaveril de Porto Alegre, apesar do inverno ainda se fazer presente, tento rever o significado deste momento.
O primeiro dia do ano sempre foi comemorado em família. Este primeiro legado da nossa tradição mostra que ela é o centro de tudo. Recordo que quando era pequeno e meus pais me levavam pela mão até a casa de minha avó, eu ia ansioso por rever meus primos, tios e familiares. Era um momento mágico num tempo em que poucos tinham telefone ou carro. Poder ver a todos de uma vez, era uma grande alegria.
Esta alegria se mantém até o dia de hoje. Muitos que faziam parte daquela mesa não se encontram mais entre nós. Por outro lado, existem muitas caras novas. Nós os pequenos, nos casamos, tivemos filhos e hoje somos nós a trazer nossos filhos para a janta.
Sei que um dia a muito tempo, algum parente meu por alguma razão teve de deixar a terra de Israel. Não sei o seu nome e tampouco que foi. Apenas uma certeza, era semita. Tampouco sei para onde foi ou em que condição ocorreu sua saída. Muitas gerações depois,
meu avô por parte de pai na Rússia, viu-se obrigado a tomar um navio para a América Latina. Seus irmãos mais velhos eram Bolsheviques que ajudaram a fazer a revolução. Entretanto sua condição judia fez com que seus próprios companheiros perseguissem a eles e a toda a família. No Brasil veio para o sul e aqui constituiu família.
Meus avós por parte de mãe vieram separadamente no final dos anos 20 e inicio dos anos 30 deixando Varsóvia na Polônia. Resolveram acreditar no alemão que dizia que não deixaria nenhum judeu vivo na Europa. Desta forma minha mãe aqui chegou com apenas 4 anos.
Eu nasci em Porto Alegre 44 anos atrás. Aqui cresci, estudei, casei com a Sandra e emigrei para Israel em 1980. Minha primeira filha nasceu no Hospital Hadássa em Jerusalém. Para mim foi um momento sublime. Primeiro pelo nascimento dela, e em segundo porque senti que encerava uma longa jornada que teve inicio com aquele meu parente que um dia deixou aquela terra. Era como se estivesse vendo um círculo se fechar. Um ciclo histórico de milhares de anos que naquele momento com o nascimento daquela criança, era encerrado.
Quis o destino que eu voltasse ao Brasil em 1986. Minha segunda filha, Hadas (nome de uma flor de Israel), nasceu aqui. Demos este nome como uma forma de nos lembrarmos todos os dias da terra que tanto amamos e para onde um dia esperamos voltar. Todos nós somos israelenses. Temos dupla cidadania.
Esta dupla cidadania nos faz sentir especiais. Adoramos o Brasil que recebeu a nossos pais e tudo nos deu. Adoramos a terra de nossos antepassados com a qual nos identificamos sem que isso nos divida. Ter dois passaportes é um orgulho muito grande.
Tendo contado esta pequena história de minha vida, gostaria de que todos vocês que lêem meus artigos, pudessem estar de alguma forma presentes amanhã, em minha mesa durante a comemoração do ano novo. Eu, com certeza, vou tê-los a todos comigo ao desejar que este novo ano traga somente alegrias e saúde para que possamos construir um mundo melhor.
Que a tolerância e o amor à vida estejam presentes todos os dias neste ano que se inicia. É o que eu e minha família desejamos a todos as pessoas de boa vontade.
Shaná Tová.
por Mauro Nadvorny | 2 set, 2002 | Sem Categoria
Quando escrevo sobre atentados terroristas ou assassinatos de supostos colaboradores com Israel, acabo desagradando a muitos membros da comunidade palestina. Mas quando escrevo sobre o terrorismo de estado com a morte de civis inocentes por parte de Israel, recebo mensagens iradas de muitos membros da comunidade judaica. Em comum, todos eles encontram justificativas para a barbárie.
O ser humano é capaz de qualquer atitude. Por força de minha atividade profissional sou testemunha disso. Pais que estupram seus filhos, homens que matam e esquartejam o corpo da vítima, roubos e assaltos que deixam as pessoas sem nada mais para poder sobreviver etc. Sim o ser humano é capaz de atos que nem os animais seriam capazes.
Por isso quando vejo que desagrado a ambos os lados, percebo que estou no caminho certo. A paz e a reconciliação entre nós e os palestinos será um processo lento, difícil mas inexorável. Provavelmente tão dolorosos quanto os crimes cometidos em nome das justificativas encontradas para os assassinatos de crianças. Relevar este passado não será uma tarefa fácil. Somente a compreensão de que em comum temos a mesma dor pelos que partiram, irá servir como um acalento para os novos tempos.
Sei que não é uma tarefa agradável se falar de paz quando em um único final de semana forças do exército de Israel tiraram a vida de 13 palestinos. A maioria atingida pelo efeito colateral dos erros militares. Por isso expresso minhas condolências as famílias em nome de todos os que, junto comigo, repudiam a morte de inocentes, sejam eles israelenses ou judeus.
Tudo isto acontece depois de cerca de 30 dias sem atentados suicidas e depois da implementação do plano Gaza + Belém. Será esta a resposta de nosso governo aos pequenos passos de esperança que surgem? Yitzhak Rabin, que foi assassinado por um radical israelense disse certa vez: “Eu vou continuar negociando pela paz como se não houvesse terrorismo e vou combater o terrorismo como se não houvesse nenhuma negociação de paz”. Já sabemos o que Sharon está fazendo para combater o terrorismo, mas o que é que ele está fazendo para negociar a paz? Nada que possa indicar um desejo em concluir o que teve inicio com os acordos de Oslo.
Já sei que muitos vão me perguntar sobre o que os palestinos estão fazendo para negociar a paz. Neste momento o Conselho Palestino sequer pode reunir-se uma vez que seus membros não podem se movimentar entre Gaza e os territórios. A AP está sendo jogada aos braços dos radicais islâmicos e Arafat é tratado de forma humilhante. Ainda assim obtivemos 30 dias sem atentados suicidas. Para quem acha que isto é pouco vale lembrar que há pouco tempo Sharon pedia apenas 7 dias para iniciar negociações.
Estamos entrando no período das festividades judaicas de Ano Novo e Yom Kipur. Datas importantes do calendário judaicas. Foi no Yom Kipur de 1973 que o Egito iniciou uma guerra com Israel. Com o país paralisado no Dia do Perdão, Anuar Sadat lançou seu exército sobre o Sinai e foi seguido pela Síria no Golan. Não existe ofensa maior para os judeus do que serem perturbados no dia mais importante de seu calendário. Mesmo assim, anos depois, Sadat discursava em Jerusalém e dava inicio ao processo de paz com Israel.
Fomos capazes de relevar uma agressão covarde no dia em que perdoamos nossos desafetos e inimigos para solucionar um conflito. Tivemos a capacidade de enxergar uma oportunidade para alcançar a paz com o mais importante país da nação árabe, e não remoemos o passado de guerras e desavenças para impedir o processo de seguir adiante. Retiramos milhares de colonos do Sinai. Desmantelamos Iamit, uma cidade inteira para honrar o acordo. Fizemos o que tinha de ser feito, e até hoje não tivemos mais de lançar nossos filhos a uma nova guerra com o Egito que já havia custado milhares de vidas no passado.
Neste Dia do Perdão está na hora de relembrar o exemplo do caminho seguido depois de 1973. Buscar a paz a qualquer custo. Nada é mais importante, nada é mais significativo do que ela quando perdoamos os que nos feriram. Está na hora de darmos o exemplo.
Quando iniciamos o ano de 5763 de nosso calendário, quero perdoar a todos que nos agrediram de morte e nos causaram tanta dor. Espero que vocês também possam de alguma forma nos perdoar pela dor que meu povo causou a vocês.
Que neste ano possamos olhar para o futuro, e alcançar o momento em que possamos conviver em paz lado a lado. Que as armas sejam substituídas pelas enxadas e o esforço da guerra pelo da reconstrução. Que 5763 seja um ano pela vida.
por Mauro Nadvorny | 30 ago, 2002 | Sem Categoria
O que é que temos feito efetivamente em prol da paz? Escuto a direita israelense dizendo que é a favor da paz, alguns até mesmo a favor de um Estado Palestino. Mas o que é que estão fazendo pela paz?
A verdade é que nada tem sido feito. Todas as ações de Israel estão no caminho inverso. Não vale a desculpa de que eles também não estão fazendo nada. Eles estão se explodindo ao nosso redor, assassinando pessoas inocentes etc. Nós sabemos disso, mas e daí? Por causa disto não temos nada para mostrar. Será que somos todos iguais neste conflito?
Pode-se dizer que sim. Até este momento utilizamos o Código de Hamurabi. Assim sendo, para cada israelense morto, existem 3 palestinos. Nós aplicamos o código com maior fervor.
Mesmo com toda nossa superioridade em armas e tecnologia, não conseguimos solucionar o problema. Nosso primeiro ministro prometeu paz e segurança e só recebemos guerra e insegurança maior do que havia antes.
Exigimos que eles se comportem como cidadãos de uma nação européia mas os tratamos com a arrogância dos ocupadores. Até este momento não retiramos uma única colônia de seu futuro território, mas exigimos que se contentem com o que tem. Não queremos que se desesperem com a falta de perspectiva mas em troca não oferecemos ajuda ou trabalho. Sequer apresentamos uma proposta qualquer que possamos cumprir e implementar.
Estamos dando uma lição de intolerância ao mundo inteiro. Não somos capazes de produzir e implementar uma política séria que traga de volta as negociações. Tudo o que fazemos é despejar pedras no caminho. Tudo serve como desculpa para não se cumprir com qualquer acordo, por mínimo que seja.
Somente a direita e os grupos terroristas parecem estar tirando algum proveito de tudo isso. Talvez até estejam se encontrando secretamente para trocar experiências. Em breve já vão poder realizar um congresso. Posso imaginar vários temas de discussão: O ódio é maior do que a razão; Vocês não existem; Esta terra é nossa. Talvez existam delegados de Belfast ou da Bósnia, afinal sempre existe algo novo para incentivar a separação.
A cada dia matamos mais crianças em nossas incursões cirúrgicas. Estendemos um dedo em prol de um entendimento mínimo e ao mesmo tempo batemos com toda a força de nossa mão. O resultado desta política vai acabar trazendo a renovação de ataques terroristas. É só uma questão de tempo. Violência gera mais violência.
A situação hoje está a mercê de duas forças. A primeira dos grupos radicais islâmicos que se alimentam do ódio gerado pela ocupação que tornou a vida insuportável nos territórios. A segunda das forças armadas israelenses que se alimentam do ódio gerado pelos ataques terroristas praticados pelos grupos radicais. Um círculo vicioso de vingança que se retro-alimenta.
Todos os fatores desta disputa são conhecidos. Todas as peças deste jogo carnificina são conhecidas. Todos os agentes intervenientes são conhecidos. Porem nada é capaz de quebrar o círculo vicioso. Os que de alguma forma precisam manter esta batalha continuam sendo os únicos vencedores.
O Campo Pacifista vem apontando a única solução reconhecida desde muito tempo: dois estados convivendo em paz lado a lado. Não existe outro caminho. Não há solução militar. Ela é política e precisa ser implementada por políticos comprometidos com a reconciliação.
Enquanto os dois povos continuarem sendo liderados por dois políticos-militares que travam sua guerra particular a custa de centenas de vidas de seus próprios cidadãos, a paz continuará sendo um sonho cada vez mais distante.
O povo israelense e o povo palestino precisam refletir sobre a continuidade do conflito sob a atual liderança, ou a necessidade da realização de eleições em ambos os territórios. Elegendo novos líderes, a regra deste jogo será alterada. De outra forma, vamos continuar assistindo ao enterro dos mortos e nos tornando seres cada vez mais amargurados. Ninguém sobrevive deste sentimento. Ele corrói nosso discernimento e nosso bom senso. Ele nos torna cegos a dor de nossos semelhantes. Ficamos incapazes de compreender a desgraça que vai alem de nossas fronteiras. Passamos a nos preocupar somente conosco. Este é o maior perigo. Isso precisa ter um fim.
Esta guerra tem de acabar porque está matando a todos nós.
por Mauro Nadvorny | 27 ago, 2002 | Sem Categoria
Iklas Kouli, uma mulher de 35 anos, deixou sete filhos órfãos neste domingo. Acusada de ser uma colaboradora, foi retirada de sua casa e fuzilada por homens da Al-Aqsa, um grupo da Fatah. Iklas foi denunciada por seu filho Bakir Kouli de 17 anos, depois de ter sido barbaramente torturado.
Sua história foi contada para um repórter da Associated Press e publicada no jornal Haaretz. Ela foi mais uma vítima da falta de lei e ordem que impera nos territórios. Seu filho ainda com as marcas da tortura, disse que contaria qualquer coisa que eles quisessem ouvir para acabar com seu suplício. Segundo um líder da milícia, a tortura é a única forma de fazer com que os traidores confessem seus crimes.
Os colaboradores são palestinos acusados de espionagem a favor de Israel. Estima-se que existam cerca de 200 pessoas detidas nestas condições hoje em dia. A maioria está em Gaza, onde as prisões ainda podem receber prisioneiros. Na maioria dos países, crimes de espionagem são punidos com a morte ou prisão perpétua.
Entre os crimes de espionagem dos quais são acusados os colaboradores, está o de ajudar Israel a incrementar sua política de assassinar palestinos apontados como promotores de atentados terroristas.
O que existe em comum entre o fuzilamento desta mulher e os assassinatos seletivos praticados por Israel, é a falta de um julgamento. Em ambos os casos, uma pessoa, ou um grupo delas, admite a si o direito de julgar, condenar e executar aqueles que segundo suas convicções cometeram um crime. Em nenhum dos casos estes condenados tem direito a serem julgados por um tribunal de justiça e a receberem assistência de um advogado.
Mas existe mais uma semelhança entre eles. Os condenados à morte são sempre palestinos. De um lado são mortos por uma força militar organizada e por outro pelas forças que deveriam protegê-los. Ironicamente elas são inimigas, mas acabam realizando o mesmo tipo de trabalho sujo: eliminar o inimigo ou o traidor.
Por mais doloroso que possa às vezes parecer, o direito a um julgamento justo é um direito de todo ser humano e um dever do estado. Quem irá julgar o acusado é a sociedade, nunca a vítima. Cabe a sociedade provar sua culpa e ditar a sentença. Esta é uma premissa de toda sociedade democrática e civilizada. O que estamos assistindo acontecer nos territórios, é à volta ao estado absolutista da Idade Média, onde os poderosos faziam o papel de juízes. Existe uma população totalmente a mercê dos desígnios dos novos poderosos: Israel e as milícias palestinas.
O campo pacifista, quando aponta estes crimes cometidos em nome de um estado, é também acusado de traição. Tanto as forças palestinas que executam seus próprios cidadãos, como o governo de Israel que executa terroristas, acusam os pacifistas de traidores por estarem querendo proteger a vida de criminosos. Tentam encobrir seus crimes através do manejo do conteúdo emocional que está por trás de cada um deles. Israel se justifica por estar tirando a vida de terroristas que contribuíram para a morte de cidadãos israelenses. As forças palestinas dizem estar depurando sua gente daqueles que contribuíram com o inimigo prestando informações que levaram a morte de líderes palestinos.
Em qualquer um dos casos, e por qualquer ótica que se queira olhar não existe justificativa para estas ações. Muito menos podem ser aceitas acusações contra aqueles que pregam justiça dentro de um estado de direito. De outra forma, logo estarão matando aqueles que discordam de sua política e aí será tarde de mais pois terão morto a democracia.
Numa situação como esta, qual deve ser a reação desta população? O que se pode esperar dela? Em quem, ou no que, podem acreditar? Qual a solução para esta situação que contribui para aumentar as cifras de baixas diárias?
São muitas as perguntas e tão poucas as respostas. Não resta dúvida que tudo passa pelo estabelecimento de um Estado Palestino. Um estado de direito com um regime e instituições democráticas. Um lugar onde as pessoas possam retomar suas vidas e acreditar novamente na justiça dos homens.
Um passo importante neste caminho é reivindicarmos o fim dos assassinatos de pessoas sob qualquer pretexto, por mais nobre que possa parecer. Precisamos acabar com toda forma de violência e recuperar a crença na justiça. Não basta a independência para se tornar um país. É preciso muito mais para se tornar uma nação.
Basta de violações aos direitos humanos. De passo em passo, vamos chegar a paz e a reconciliação.