por Mauro Nadvorny | 20 set, 2003 | Sem Categoria
Ao contrário do que muitos pensam, e outros o desejam, o campo pacifista deplora e repudia todo q qualquer ato de terror perpetrado contra civis, assim como a guerra entre os povos como forma de solucionar conflitos. Diferentemente do que imaginam aqueles que de nós discordam, e para deleito de nossos detratores, nossa dor é muito maior do que a deles. Isto porque não somos capazes de extravasar nossa indignação na forma de ódio.
Não é fácil pertencer ao campo da paz, durante estas tragédias. É como condenar que se utilize a pena de morte quando um crime hediondo acaba de acontecer.
Ninguém em sã consciência pode admitir atos de tamanha covardia. O terrorista é o maior dos covardes. Imagina-se um herói, quando na verdade pouco heroísmo é necessário para se explodir a si mesmo em meio a pessoas indefesas.
O que mais existe de covarde por trás destes atos é justamente não permitir as vítimas que se defendam. Até mesmo na guerra buscou-se criar humanidade. A convenção de Varsóvia por exemplo, criou preceitos para serem obedecidos no campo de batalha. Entre eles, um chama a atenção: é proibido atirar contra um pára-quedista no ar. A razão é muito simples: preso ao pára-quedas ele não pode se defender.
Quando o terrorista detona sua carga explosiva, ele busca atingir ao maior número de pessoas possíveis. Tira não apenas a própria vida, como a vida de inocentes que pagaram por estarem no lugar errado, na hora errada.
No campo de batalha, soldados se enfrentam buscando cumprir ordens e objetivos. Muitas vezes, atirar no inimigo é uma questão de sobrevivência. Mas uma coisa é certa: todos que participam de uma batalha sabem que podem morrer.
No atentado terrorista isto não existe. As pessoas, normalmente civis, não estão num campo de batalha, muito menos cumprindo ordens. Estão levando suas vidas, e justamente suas vidas são ceifadas de modo abrupto sem dar a elas nenhuma chance.
Não existe justificativa ou explicação para tais atos. Eles apenas provam que o ser humano é capaz de qualquer ato, de qualquer atitude contra o seu semelhante. Nem os animais são capazes disso.
A história do povo judeu é muito maior. Não podemos deixar que estes tipos de monstros destruam nossa ética e nossa moral. Não podemos nos permitir tornarmo-nos monstros como eles. Se isso vier a acontecer, então eles terão vencido.
O quanto antes pudermos chegar ao entendimento, mais vidas serão poupadas. Infelizmente, a violência só traz violência: para ambos os lados.
Por isso, Paz Agora!
por Mauro Nadvorny | 18 set, 2003 | Sem Categoria
Uma vitória para a democracia e os direitos humanos, mas uma vergonha para a suprema corte do Brasil. O resultado do julgamento do Hábeas Corpus do revisionista Siegfried Ellwanger mostrou a todos o perigo que representa o anti-semitismo, presente em todas as camadas sociais do país.
Por oito votos a três, o STF não apenas negou o HC, mas nos deu uma lição de tolerância, e também de intolerância, expressada no voto e comentários de alguns ministros. O mais estarrecedor deles, o de Carlos Britto ao confirmar seu voto a favor do acusado. Para ele, sequer houve tipicidade, ou seja, Ellwanger um bom homem de 75 anos, trabalhador, inventor, pesquisador e historiador, não cometeu crime algum.
O mais preocupante foi Carlos Britto afirmar que Ellwanger está correto ao afirmar que é anti-sionista. Se a maioria dos países é contra esta doutrina racista, como se pode acusar o “bom homem” de ser racista? “Ele mesmo declara não ter nada contra os judeus”, afirmou Britto numa clara e inequívoca demonstração de simpatia pelo nazista, apressando-se em declarar que não concordava com o conteúdo do livro.
A fala deste ministro me faz lembrar a tese infalível de que todo anti-semita tem um amigo judeu. Se alguém disser que é anti-semita e afirmar que não tem ao menos um amigo judeu, pode estar certo de que se trata de um falso anti-semita.
Escutar da boca de um juiz do STF,entre outras coisas, que o “Holocausto Judeu ou Alemão?” é um livro opinativo, desconhecendo o movimento revisionista internacional, é simplesmente revoltante e repugnante para dizer o mínimo. Afirmar que se trata de uma mera pesquisa histórica é desconhecer a história. Comentar que se trata de uma visão diferente dos fatos é assassinar a memória de seis milhões de judeus e de todas as vítimas do nazismo. Enaltecer as qualidades de quem o escreveu é associar-se ao mesmo.
O Ministro Marco Aurélio de Melo ao proferir seu voto favorável a concessão do Hábeas Corpus a Siegfried Elwanger, disse textualmente que a Constituição Brasileira de 1988 foi escrita para os Brasileiros. Disse também que após extensiva pesquisa, concluiu que a Lei Caó (Lei Anti-Racismo) foi escrita para proteger apenas aos negros, e sendo assim, os judeus não podem ser contemplados por este artigo que protege tão somente uma minoria explícita na lei.
Para meu espanto, depois de 45 anos de cidadania brasileira, descobri que um ministro do STF me declarou apátrida. Como sou judeu, não possuo proteção constitucional alguma, uma vez que além de judeu sou branco e as manifestações anti-semitas não são proferidas contra os negros e tampouco contra os brasileiros. Minha cidadania deve conformar-se com os deveres e obrigações que a constituição me obriga por aqui ter nascido, mas devo me excluir de sua proteção e dos direitos que ela confere se quiser me manter fiel a minhas origens que datam mais de três mil anos de história.
Como não é meu desejo negar minhas origens, não me resta alternativa segundo o Ministro Marco Aurélio de Melo, senão me conformar em me reconhecer como um cidadão de segunda categoria, ou me considerar não mais um cidadão brasileiro. Tem razão o ministro ao afirmar que este foi o mais importante julgamento do STF nos últimos 13 anos (período em que lá está). Ele sem dúvida será lembrado por este julgamento, não pela notoriedade do resultado mas pelas afirmações demagógicas e sectárias que expôs durante a justificativa de seu voto a favor do réu.
Felizmente ele foi voto vencido e continuo com muito orgulho sendo um judeu-brasileiro com os mesmos direitos e deveres de todos os cidadãos. Protegido pela mesma lei que protege a todas as minorias, sou parte desta sociedade que procura fazer do Brasil um país melhor para todos os brasileiros.
A maior lição que fica deste julgamento, é a de que a sociedade não está livre do preconceito em nenhuma de suas instâncias. O desprezo do homem para com seus semelhantes existe em todos os poderes constituídos para zelar pela democracia, pela igualdade de direitos e deveres e pela observância dos direitos humanos.
O Brasil possui uma diversidade de povos e etnias que compõe uma sociedade pluralista como poucos países. Há muitos anos que buscamos manter nossa harmonia social respeitando e incentivando nossa maravilhosa composição cultural. Ano após ano, melhoramos o respeito às minorias procurando incentivar a integração delas na sociedade. O resultado deste julgamento vitorioso contra as forças do ódio racial, mostra que a luta deve continuar até o dia em que tenhamos na justiça a unanimidade de que todos somos iguais.
por Mauro Nadvorny | 13 set, 2003 | Sem Categoria
Em tempo, infelizmente a renuncia de Mazen e o atentado fracassado contra a vida do líder espiritual do Hamas, Sheik Ahmed Iassim, irão deflagrar um circulo de violência incomum nos próximos dias. Uma lástima pelo número de seres humanos que vão perder suas vidas devido à intransigência de seus líderes.(Basta de Processos de Paz).
Não, eu não sou vidente e tampouco adivinho. O que escrevi ao final de meu último artigo era um prenúncio lógico do que ocorreria devido à intransigência de Sharon. O que assistimos até agora foi uma sucessão de vinganças e contra ataques cometidos pelos dois lados que alimentam o circulo vicioso da violência.
Sempre que alguém supõe que Sharon fez o máximo que podia para prejudicar nosso país e nosso povo, ele se supera. Ao aceitar a proposta do fascista Shaul Mofaz, que sempre clamou pela expulsão da Arafat dos territórios (no que pode se compreender por sua “eliminação do cenário”), como uma forma de assegurar a permanência dos colonos nos territórios, e impedir o avanço de qualquer tentativa de entendimento, Sharon uniu os palestinos, o mundo árabe, os EUA e a União Européia contra nós. Um feito que mereceria ser inscrito do Livro Guinness dos recordes. Nunca tantos estiveram contra nós em tão pouco tempo.
A política de Sharon é uma política de ocupação. Todos os movimentos e articulações de seu governo visam assegurar a permanência israelense nos territórios e impedir que surja um Estado Palestino viável. Ele joga com a vida de inocentes para concretizar seu devaneio. Ao atentar contra a vida do Sheik Ahmed Iassim ele sabia que o Hamas retalharia com atentados suicidas, e foi o que ocorreu. Cada uma das mortes nos últimos atentados pode ser atribuída a Sharon. Ele é o responsável direto por elas.
Sua mais recente “tentativa” (sic) de acabar com o terrorismo, expulsando (ou eliminando) Iasser Arafat dos territórios fará com que o Inferno de Dante se pareça com uma História da Carochinha. O número de atentados contra as vidas de inocentes vai cruzar as fronteiras do conflito e se espalhar pelo mundo todo. O povo judeu vai passar a ser o alvo e não mais somente os civis israelenses. Sharon acaba de declarar guerra ao mundo.
Por qualquer angulo que se queira analisar, sob qualquer prisma que se queira olhar e sob qualquer aspecto que se queira discutir, esta decisão ultrapassa o que se possa achar que seja razoável, cruza o que se tem como compreensível e joga para o alto o que parecia impossível. Sharon e seus asseclas acreditam que o povo judeu vai viver na Grande Israel do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão (até anexar a Jordânia). A vida para os palestinos irá se tornar tão insuportável que nem será necessária uma política de estado para o “Transfer” (transferência dos habitantes para fora da região). A própria população irá partir. Esta terra nos foi dada por Deus e portanto temos direitos a ela, e assim deve ser.
Esta loucura precisa acabar. A população israelense precisa acordar. O navio está a ponto de afundar e temos um maluco como timoneiro. Vivemos o pior momento de nossa história e temos um primeiro ministro que deveria ser declarado incapaz. Precisamos unir o povo judeu pela imediata deposição deste governo e a convocação de eleições gerais antes que seja tarde.
A diáspora precisa dizer que não concorda com a política do governo israelense da mesma forma como defende intransigentemente o Estado de Israel. A maior atitude de amor por nosso Estado é dizer BASTA! Chega de tamanha sandice, vamos nos retirar dos territórios e deixar que o presidente democraticamente eleito da AP, assuma suas funções e possa declarar a independência do Estado Palestino. Somente assim será possível acabar com a violência e passar a reconstrução das relações entre os dois povos e dos dois países arrasados por tamanho banho de sangue.
Somos um povo milenar com uma história de contribuições a vida humana em todos os campos da ciência e da filosofia. Temos um passado de perseguições que não impediu que chegássemos hoje ao que somos. Um povo que reconstruiu sua nação e usa toda a sua força para impedir que outro povo tenha o seu estado. Como foi possível que nos transformássemos de oprimidos em opressores, de vítimas em algozes de uma população que busca hoje o mesmo pelo qual lutamos por cerca de dois mil anos: um lugar para viver entre as nações?
Já se passou o tempo em que se imaginou que haveria lugar apenas para um estado neste território. Todas as lideranças responsáveis de ambos os povos, sabem que vamos coexistir lado a lado em nossos respectivos países. Isto é tão certo como o nascer e o por do sol todos os dias. Israelenses e Palestinos vão se reconciliar e viver em paz com plena cooperação trazendo desenvolvimento e prosperidade para toda a região.
Façamos com que este dia chegue o mais rápido possível para salvar vidas. Povo de Israel, clame por eleições já. Diga NÃO a este governo que está nos iludindo com sua política de que quanto pior, melhor. Um governo que se apega ao poder para encobrir sua incapacidade de resolver a situação à custa de inocentes. Um governo que vai nos jogar em um abismo cada vez mais profundo.
A paz é possível com diplomacia e uma cultura de paz que pode ser construída já. Basta que se tenha a pessoa certa nos lugares certos. Que não seja necessário chegarmos ao fundo do poço para compreender esta lição elementar.
por Mauro Nadvorny | 7 set, 2003 | Sem Categoria
Eles venceram. Mais uma vez, o quarteto do mal formado por Arafat, Sharon, Fundamentalistas e Colonos podem se felicitar por mais um objetivo alcançado. O Primeiro Ministro Palestino Abu Mazen rendeu-se aos seus algozes e renunciou. O Campo da Paz perde um grande aliado.
Eu também gostaria de fazer um desabafo: a partir de hoje sou radicalmente contra todo e qualquer processo de paz. Isto mesmo, não apoio mais nenhum tipo de plano que determine longos prazos. Mas antes que meus companheiros da esquerda pensem que entrei em surto, e meus amigos da direita imaginem que me bandeei para o lado deles, vou explicar.
Indubitavelmente é preciso reconhecer que nenhum plano de paz que implique em deveres e obrigações para os dois lados funcionou até hoje neste conflito (o acordo com o Egito envolveu prazos mas foi assinado entre duas nações em guerra). Prazos para que determinadas ações sejam implementadas, a fim de permitir outras ações, são um convite ao fracasso por que permitem aos envolvidos negligenciarem suas aplicações e dão aos inimigos da paz todo o tempo necessário para solaparem os pequenos avanços alcançados.
A única forma de se acabar com o conflito é através de uma medida radical de paz. Um acordo que uma vez assinado possa ser implementado no menor espaço de tempo possível. Só assim, existe uma chance real de se acabar com as raízes do conflito e exorcizar todos aqueles que dele vivem.
Uma boa amostra disso é sem dúvida o plano apresentado por Ami Ayalon e o Dr. Sari Nusseibeh, que diz o seguinte:
1. Dois estados para dois povos: Ambos os lados irão declarar que a Palestina é o único estado do povo palestino e Israel é o único estado do povo judeu.
2. Fronteiras: Fronteiras permanentes entre os dois estados serão acordadas com base nas linhas de 4 de Junho de 1967, nas resoluções da ONU e na iniciativa de paz árabe (conhecida como Iniciativa Saudita).
1.2 Modificações de fronteiras serão baseadas em uma troca de igual valor territorial (1:1) de acordo com as necessidades vitais de ambos os lados, incluindo segurança, continuidade territorial e considerações demográficas.
2.2 O Estado Palestino terá uma conexão entre suas duas áreas geográficas, Cisjordânia e Faixa de Gaza.
2.3 Após o estabelecimento das fronteiras acordadas, nenhum colono irá permanecer no Estado Palestino.
3. Jerusalém: Jerusalém será uma cidade aberta, a capital de dois estados. Serão garantidos a todos, liberdade de religião e acesso total aos lugares santos.
3.1 Os bairros árabes em Jerusalém irão ficar sob a soberania palestina; Os bairros judaicos sob a soberania israelense.
3.2 Nenhum lado irá exercer soberania sobre os lugares sagrados. O Estado Palestino será designado guardião do Templo do Monte em beneficio dos muçulmanos. Israel será o guardião do Muro das Lamentações em benefício do povo judeu. O status quo nos locais sagrados cristãos será mantido. Nenhuma escavação irá acontecer nos, ou sob os locais sagrados.
4. Direito de Retorno: reconhecendo o sofrimento e o apuro dos refugiados palestinos, a comunidade internacional, Israel e o Estado Palestino darão inicio e contribuirão com um fundo internacional para compensá-los.
4.1 Refugiados palestinos irão retornar somente para o Estado Palestino; judeus irão retornar somente para o Estado de Israel.
5. O Estado Palestino será desmilitarizado e a comunidade internacional irá garantir sua segurança e independência.
6. Fim do conflito: Sob a implementação completa destes princípios, todas as reivindicações em ambos os lados e o conflito israelense-palestino terá fim.
Aqueles que concordam com estes princípios e desejarem apoiar, podem fazê-lo através do site http://www.mifkad.org.il/eng/.
Em tempo, infelizmente a renuncia de Mazen e o atentado fracassado contra a vida do líder espiritual do Hamas, Sheik Ahmed Iassim, irão deflagrar um circulo de violência incomum nos próximos dias. Uma lástima pelo número de seres humanos que vão perder suas vidas devido à intransigência de seus líderes.
por Mauro Nadvorny | 31 ago, 2003 | Sem Categoria
O voto do ministro Carlos Britto a favor do HC a Elwanger traz consigo a prova de que o anti-semitismo pode estar presente em seres humanos de todas as camadas sociais. Talvez por isso dizem que se não existissem judeus, o anti-semita criaria um.
Para proferir o seu voto, o ministro que havia pedido vistas do processo, fez antes a leitura do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão”. Encontrou nele pelo menos “86 análises objetivas” dos fatos, considerando-o uma obra de pesquisa histórica. Em outras palavras, Britto disse que o autor o convenceu de que o Holocausto foi uma invenção, exatamente o que o nazi-revisionista Elwanger tenta difundir como verdade.
Isto não é nenhuma novidade para mim. Quando no dia 3 de julho de 1990 junto com outros quatro companheiros do Movimento Popular Anti-Racismo (MOPAR) demos inicio através de uma notícia crime, a longa batalha contra este assassino da memória, escutei de muitos intelectuais e profissionais liberais a seguinte argumentação: “…é certo que o Holocausto existiu mas algumas coisas que Elwanger diz são verdadeiras”.
O ministro Carlos Britto teria feito jus a sua nomeação se ao invés da leitura da obra de Elwanger, tivesse ele procedido à leitura do processo. Lá ficaria sabendo que ao incitarmos a Chefia de Polícia do RS a tomar providências contra o ódio e o racismo explicito em suas publicações, fomos obrigados a utilizar a Lei Federal nº. 5.250, de 09/02/1967 (Lei de Imprensa da Ditadura Militar). Porem, quando do depoimento, em sede de inquérito policial, de nossos companheiros do MOPAR, a Lei nº 8.081, de 21/09/1990 (conhecida como Lei Ibsem), já estava em vigor, havendo referência direta a ela. Também tomaria conhecimento que ao contrário de sua afirmação, a denuncia, com pedido de apreensão de todos os exemplares das obras referidas (Art. 20, § 1º, I da Lei nº 8.081/90), firmada pela ilustríssima Promotora de Justiça, Drª Ângela T. de Oliveira Brito, esta datada de 12 de novembro de 1991. Exatamente, um ano e 52 dias da plena vigência da Lei nº 8.081, de 21 de setembro de 1990 e o recebimento da denuncia e deferimento do pedido de busca e apreensão, pela Drª Juíza Titular da 8ª Vara Criminal , esta datada de 14/11/91.
Inúmeras vezes fomos atacados por afrontarmos a liberdade de expressão, como se o direito a vida, a igualdade e a dignidade fossem menos importantes. Até mesmo dirigentes da comunidade judaica nos acusaram de estarmos criando um mártir e que o melhor a ser feito era baixar a cabeça e não dar importância. Nada disso deteve nossa determinação.
Foram mais de 10 anos de uma longa batalha jurídica passando por juízes e promotores descrentes, políticos que desconversavam e autoridades que nos desprezavam. Mas foram também anos em que fomos ajudados por pessoas de todas as áreas da sociedade. Dezenas de cumprimentos pela iniciativa chegaram de Sindicatos de Trabalhadores, Associações de Sobreviventes do Holocausto, Associação de Ex-Combatentes da FEB e principalmente do Movimento Negro. Estes se engajaram na luta pela convicção de que todos devem se unir no combate a todo tipo de discriminação.
Finalmente assistimos a condenação de Elwanger por Crime de Racismo. Foi à primeira condenação por este crime na América Latina, e mais um exemplo para o mundo. Mas como era de direito, ele recorreu. Esgotou todas as possibilidades de recurso até chegar finalmente, ao STF com um pedido de Hábeas Corpus. Sua alegação era bastante singela: se os judeus não são uma raça, mas um povo, então ele não poderia ser condenado por racismo, ou seja, não teria cometido crime imprescritível .
Qualquer estudante de direito sabe que a lei seve ser interpretada a luz de seu tempo e principalmente basear-se na intenção do legislador. No caso, a Lei Anti-Racismo veio para proteger as minorias humanas contra o preconceito. Mais do que isso, ela tipificou o delito e as suas formas de manifestação. Sabendo que existe uma única raça, a humana, a lei defende o ser humano de toda forma de discriminação.
Aos juízes do STF caberia portanto, julgar apenas se Elwanger cometeu ou não Crime de Racismo e não a existência do Holocausto, o número de judeus que nele pereceram ou o que são os judeus. Não esteve em julgamento se os nazistas assassinaram um ou seis milhões de judeus. O mérito era se ao negar a história e atacar as vítimas de forma discriminatória, haveria ou não a existência de preconceito, e apenas isso. Neste quesito Elwanger superou-se. Não contente em copilar um livro revisionista ele passou a publicar, através de sua editora, toda a famosa literatura anti-semita conhecida, como o apócrifo “Os Protocolos dos Sábios do Sião”, a obra completa do notório Gustavo Barroso, “O Judeu Internacional” de Henry Ford etc.
Elwanger já perdeu seu pedido de Hábeas Corpus no STF uma vez que sete dos onze juízes já se manifestaram contra, ao compreenderem a manobra do criminoso para escapar da condenação. Uma das lições destes dos dois votos a favor (o primeiro foi proferido pelo ministro Moreira Alves), nos ensina que o saber jurídico, cultura e inteligência não são sinônimo de decência. Ao considerarem que os judeus são um povo e não uma raça, eles cometem não apenas um erro científico, eles também negam as minorias o direito de fazerem parte da humanidade, e não pode haver maior indecência do que isto de homens que deveriam justamente defender a sociedade de todo tipo de preconceito.
Estas opiniões nos mostram também que é preciso continuar alerta para o combate permanente pelo fim de todo preconceito do homem contra o seu semelhante. Todos somos iguais e temos os mesmos direitos e deveres. Nossas diferenças não devem nos afastar uns dos outros. Pelo contrário, devem servir como uma forma de nos aproximar cada vez mais, respeitando a cada um e fazendo da sociedade humana uma única nação sobre o Planeta Terra.
A luta continua.
por Mauro Nadvorny | 27 ago, 2003 | Sem Categoria
final de contas a quem interessa a continuidade do conflito? Quem são os grupos, ou pessoas que tem algo a ganhar enquanto a carnificina terrorista for mantida?
O Hamas e a Jihad, os principais grupos fundamentalistas precisam manter o terrorismo por que acreditam que desta forma poderão obter o poder político num futuro Estado Palestino. Com uma população praticamente vivendo da ajuda que recebem (até para comer), estes grupos cumprem a função que seria do estado, de prover alimentação e saúde para o povo. Misturam religião e política e são muitas vezes, as únicas fontes de ajuda para muitas famílias. Em troca, exigem o sacrifício de alguns pela causa. O suicídio é saudado como um ato de “martirização” e a família é bem recompensada.
Iasser Arafat e os grupos ligados a Al Fatah também precisam manter o terror como forma de se contrapor aos fundamentalistas. Arafat precisa mostrar ao povo palestino que a luta continua, e que ele não os abandonou. O terrorismo que ele praticou por toda sua vida continua sendo uma forma de se manter no poder. Impossibilitado de combater os grupos radicais sem causar uma guerra civil, não lhe resta alternativa senão usar da mesma tática. Ainda assim, Arafat apesar do descrédito que possui junto aos EUA e ao atual governo de Israel, continua sendo a chave para o sucesso de qualquer acordo de paz.
Ariel Sharon também tem interesse em manter as coisas como estão. Mesmo tendo sido eleito prometendo paz e segurança, ele continua fazendo do combate ao terrorismo seu maior trunfo para se manter no poder. Com a economia do país fazendo água, não lhe resta alternativa já que ardilosamente colocou na pasta de economia seu maior rival político. Sharon sabe que enquanto o terror continuar não será pressionado a desmantelar as colônias ou entregar território, o que poderia ameaçar a coalizão que o mantém como primeiro-ministro. Desta forma ele alimenta o terror, e se alimenta dele.
Os colonos israelenses também têm interesse direto no terrorismo e não disfarçam isso. Sabem que enquanto ele continuar, têm garantido sua permanência nos territórios. Enquanto isso, um muro é construído para que ocupem mais terras e impossibilite a criação de um Estado Palestino viável. Os vilões tentam passar como heróis que fazem a linha de frente daqueles que ainda sonham com a Grande Israel.
Qualquer um sabe que não se combate violência com mais violência. Só o fazem assim os desprovidos de qualquer propósito lógico, ou os que desejam viver se alimentando dela. Empregar força bruta pode até abortar algumas ações de curto prazo mas são a fonte de inspiração para o planejamento de outras a médio e longo prazo. Toneladas de bombas foram jogadas no Afeganistão e nem assim o terrorismo foi contido. Os EUA já perderam mais soldados depois da guerra do que durante as batalhas para a conquista do Iraque.
A única forma de se combater o terrorismo é atacando as suas causas. No conflito israelense-palestino elas são bastante claras e conhecidas: a ocupação dos territórios que poderia ser resolvida com a retirada de Israel para a linha de 1967, com a criação de um Estado Palestino na Cisjordânia e Gaza, a entrega dos bairros árabes de Jerusalém para transformá-la na capital de dois estados, e uma solução justa para o problema dos refugiados. Isto faria com que tivesse inicio uma imediata recuperação das duas economias, e um processo de reconciliação que permitisse acordos bilaterais em todas as áreas do desenvolvimento. As pessoas empregadas e livres para prosperarem, deixariam de ser reféns dos grupos radicais. Ninguém nasce terrorista.
O terrorismo é raro e praticamente não existe mais em países desenvolvidos onde a democracia está bem assentada. A prosperidade e o conforto de um futuro sem guerras são a chave para acabar com as desavenças e permitir aos dois povos viverem em paz. Esta é a única fórmula viável para se acabar com o terrorismo e o sofrimento dos dois povos.
Uma vez conhecidas às causas e a solução, ainda cabe aqui uma última pergunta: a quem interessa a paz e a reconciliação?