Narciso e o Auto-ódio

A lenda grega de Narciso conta que ele era um jovem de singular beleza, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. No dia de seu nascimento, o adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Indiferente aos sentimentos alheios, Narciso desprezou o amor da ninfa Eco e seu egoísmo provocou o castigo dos deuses. Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se. Na psiquiatria e particularmente na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.

O auto-ódio é uma explicação para atitudes de indivíduos que passam a negar sua própria existência odiando a tudo e a todos que se relacionem com a sua origem. Arthur Koestler, escreveu: “O auto-ódio é o patriotismo dos judeus”. Muitos chamam de auto-ódio os judeus que perseguem outros judeus, ou seja, judeus anti-semitas.

Ultimamente tenho lido diversos artigos sobre anti-semitismo. Eu mesmo já escrevi alguns sobre o tema. Neles existe uma diferença básica. Enquanto eu atribuo o anti-semitismo ao preconceito contra o povo judeu, muito diferente das atitudes contra a política do Estado de Israel, outros autores não fazem nenhuma distinção entre o anti-semitismo e o anti-israelismo *(1). Por esta razão, tendem a chamar os judeus que criticam a política de terrorismo de estado praticado por Sharon, como atitudes anti-semitas e vindas de judeus, como sendo auto-ódio.

Esta visão maniqueísta cujo propósito não é outro senão desqualificar opiniões divergentes poderia então estar associada à Síndrome de Narciso. Para estas pessoas o Estado de Israel é belo e único. Nada do que faça está equivocado. A morte de israelenses em atentados é terrorismo, mas a morte de civis palestinos são efeitos colaterais. Isto por que não admitem como Narciso, que possa haver algo errado com a perfeição que seria o Estado de Israel.

Existem fatos sobre os quais não existe muito como divergir. Israel é o lar nacional do povo judeu, o próprio Arafat em entrevista recente ao Jornal Israelense Ha’Aretz, reconhece isso quando diz que não se pode pensar em alterar o caráter judaico do país, numa referência a solução para os refugiados palestinos. Partindo-se deste pressuposto podemos diferenciar entre aqueles que criticam a postura do governo israelense frente ao conflito com os palestinos e aqueles que atacam a existência do Estado de Israel. Mesmo assim é preciso cuidado ao se taxar de anti-semitas todos aqueles que não aceitam a existência de Israel. O que seriam, por exemplo, os Naturei Karta *(2)?

O que está acontecendo nos últimos meses é uma tentativa equivocada e desesperadora do governo de Israel e seus simpatizantes, de colocar sob a mesma pecha de anti-semita toda ação ou atitude que não vá de encontro a sua política belicista. Tentam fazer com que os atos anti-semitas que nunca deixaram de ocorrer na Europa, por exemplo, sejam vinculados a declarações antiisraelenses. Desta forma os que criticam a construção do muro que ocupa terras palestinas são tão anti-semitas como aqueles que profanam um cemitério judaico na França, ou atacam uma sinagoga na Rússia.

Sempre é bom lembrar que os membros do atual partido no poder em Israel se negaram a assinar a Declaração de Independência que falava em “estendemos nossa mão a todos os estados vizinhos e seus povos numa oferta de paz e boa vizinhança, e apelamos a eles para o estabelecimento de laços de cooperação e ajuda mútua com o soberano povo judeu, estabelecido em sua própria terra. O Estado de Israel está preparado para fazer a sua parte em um esforço comum para o desenvolvimento de todo o Oriente Médio” *(3).

A política de detratar e desqualificar o oponente colocando-o como uma pessoa desprezível a qual não se deve dar ouvidos não é nova. A finalidade é sempre a mesma: não leiam o não dêem ouvidos ao que ele diz por que ele sendo alguém que nos odeia, não merece crédito. Sendo ele um de nós, muito pior, ele se auto-odeia e por isso é ainda mais execrável do que os outros.

Felizmente a maior parte dos críticos a política de Sharon, judeus e não judeus, não se deixam abalar por estas tratativas fascistas. A maioria de nós defende incondicionalmente o Estado de Israel ao mesmo tempo em que aponta a solução de dois estados para dois povos como uma forma de solucionar o conflito e acabar com a barbárie e a carnificina. Alguns como eu, são israelenses que sonham com um Lar Nacional Sionista Socialista onde a solidariedade vença as diferenças e a reconciliação apague da memória os anos de guerras e desavenças trazendo paz e prosperidade para toda a região.

Narciso morreu auto contemplando-se e vendo em si somente beleza e perfeição. Felizmente o Estado de Israel não é somente belo e perfeito. Temos muitos defeitos e muito que fazer para corrigir nossos erros. Para que isso ocorra precisamos solucionar o conflito com o povo palestino, que como nós também terá de aprender com os seus erros. A paz e a reconciliação é o único caminho. Dois estados para dois povos é o único meio.

*(1) Anti-israelismo: neste caso ataques à política do atual governo de Israel.
*(2) Naturei Karta: seita religiosa ultra-ortodoxa judaica que não aceita o Estado de Israel.
*(3) Declaração de Independência do Estado de Israel: http://taglit.online.com.br/independence.html

Uniforme

É extremamente interessante de que forma um uniforme muda o comportamento de um ser humano. Talvez a mudança seja algo natural que estava escondida sob a roupa de um civil. Talvez seja a influência que o uniforme cause na psique de alguns seres humanos, mas o fato é que esta mudança traz consigo conseqüências trágicas.

Recentemente três fatos me chamaram a atenção. O primeiro aqui mesmo no Brasil. Um policial militar bêbado acabou colidindo seu automóvel em uma árvore próximo do local de trabalho de um promotor público. Assustado com a colisão que acabara de escutar, ele se dirigiu ao local e ao constatar o estado de embriagues do motorista determinou aos policiais que faziam a ocorrência, que o mesmo fosse levado para realizar exame de teor alcoólico. O policial bêbado sacou de sua arma e desferiu 4 tiros no promotor matando-o.
Neste caso, o policial em questão havia sido rejeitado para o trabalho ao não passar num exame psicotécnico. Ele então entrou com uma liminar na justiça de posse de outro exame realizado com uma profissional de psicologia atestando estar capacitado para exercer a função de policial militar. A justiça determinou sua inclusão nos quadros da policia.

O segundo caso, que está em toda a mídia internacional, é o das torturas no Iraque. Os envolvidos são todos cidadãos convocados para o serviço militar na função de ensinarem aos iraquianos como dirigir um sistema prisional numa democracia (sic). As cenas que correm o mundo em fotos e vídeos não deixam dúvidas sobre as atrocidades cometidas contra prisioneiros indefesos. Novamente chama a atenção que a maioria dos envolvidos tinham envolvimentos em casos de agressões e maus tratos.

O terceiro caso foi o disparo por parte de um piloto de helicóptero israelense sob uma multidão de palestinos que faziam uma manifestação contra a demolição de casas em Gaza. Mesmo sabendo que a ordem que lhe foi dada poderia ter sido contestada e desobedecida, ele disparou contra as pessoas matando 8 delas.

Em todos os casos o que existe em comum é um uniforme e a covardia dos perpetuadores das atrocidades. Por alguma razão eles fazem parte de um grupo de seres humanos que assume uma nova identidade ao vestir uma roupa que dá a eles um certo poder para decidir entre a vida e a morte. Um estranho poder que permite torturar um semelhante dominado e indefeso, ou até mesmo atirar contra pessoas que não podem se defender.

Sempre que falei dos terroristas palestinos que se explodem junto a pessoas indefesas, os chamei de covardes, justamente por não darem as suas vitimas nenhuma forma de se defenderem. Nos três casos acima a covardia foi à mesma. Todos se aproveitaram de alguma forma da incapacidade ou impossibilidade de suas vítimas poderem esboçar alguma reação.

O policial assassino está preso aguardando julgamento. Os torturadores americanos já começaram a serem julgados. O piloto israelense continua na ativa. Como é possível justificar ao mundo que tamanha crueldade não mereça uma punição, quando a motivação para a destruição de casas em Gaza é de que elas escondem túneis que trazem armas do Egito para matarem civis israelenses. Como a ANP não pune os terroristas, Israel precisa fazer o possível para limitar sua ação.

Pode-se compreender (mas não justificar) a lógica militar doentia dos assassinatos seletivos, mas nem a mente mais aberta pode aceitar que o disparo de um míssil sobre manifestantes fique sem punição. Quando isto acontece, a mensagem é de que para combater a covardia terrorista é preciso se transformar num covarde também.

O exército israelense é formado de cidadãos. Este piloto pode ser o dono de um mercadinho de esquina, um professor, um médico, engenheiro, advogado ou quem sabe um pacífico agricultor. Qualquer um de nós poderá cruzar com ele na rua. Ninguém poderá imaginar que estivemos diante de um monstro, por que na rua ele estará despido de seu uniforme. No entanto ele jamais poderá esquecer o que fez, nem mesmo apagar da memória a dor que causou nas famílias que perderam seus filhos.

Por fim cabe a pergunta, o que tinham a ganhar os envolvidos nos três episódios? Nada, absolutamente nada. O policial tirou a vida de um promotor de justiça que fará com seja julgado por assassinato, já tendo sido expulso da corporação onde servia. Os torturadores americanos já começaram a serem julgados e condenados a prisão com a expulsão do exército com desonra. O único impune é o piloto israelense que sabe que logo Israel estará se retirando de Gaza deixando para trás os túmulos de palestinos e israelenses que lá morreram em vão.

O Mito do Neo-Anti-Semitismo

Todos nós judeus militantes de todas as tendências políticas temos sido bombardeados por artigos que tentam mostrar o surgimento de uma nova onda anti-semita no mundo. De um lado o governo de Israel em uma desesperada ação de marketing, busca justificar os ataques ao seu governo como ataques que visam a sua destruição. De outro as lideranças das comunidades judaicas que buscam justificar as ações do governo de Israel como autodefesa. Qualquer um que ouse denunciar estas ações, é imediatamente rotulado como anti-semita.

O anti-semitismo tem muitas faces e faz parte da cultura mundial desde que o povo judeu se formou. Assim sendo, podemos afirmar sem margem de erro, que a história do povo judeu sempre esteve vinculada ao anti-semitismo. Qualquer criança judia pode mencionar passagens de nossa história que lembram as piores perseguições que fomos vítimas. A maior delas, acabou com seis milhões de mortos. Foi uma tentativa de uma solução final para o problema judaico: exterminá-lo da face da terra.

Existem anti-semitas em todas as camadas sociais, em qualquer opção sexual, de diferentes etnias, cores, religiões, idades etc. As razões são as mais diversas e nem sempre obedecem a uma lógica, ou muito menos obedecem à razão. Em comum apenas o ódio aos judeus.

Podemos tentar separar este fenômeno em passado e presente. No presente, em antes e depois da criação do Estado de Israel. Isto não muda em nada com relação aos anti-semitas, mas é fundamental para nós judeus. Antes do ressurgimento de nosso lar nacional, fomos forçados a nos mover por todos os cantos da terra em busca de um lugar onde fôssemos aceitos. Depois da independência de Israel, todos os judeus do mundo sentiram-se mais seguros e com um salvo conduto a mão no caso de novas perseguições.

O apoio ao Estado de Israel por parte da população judaica mundial não é unânime. Existem judeus não sionistas que aceitam sua existência, e outros que não. Até mesmo uma seita ultra-conservadora de judeus religiosos, os Naturei Karta, que não apóiam um estado judeu que não tenha surgido pelas mãos do messias, que eles aguardam. Israel, no entanto, tem o apoio da quase totalidade dos judeus dá diáspora.

A concentração de judeus em um estado nacional judaico sempre foi motiva de atenção. A guerra de independência, a absorção dos refugiados, a luta para tornar fértil o deserto, o Kibutz etc. Raramente Israel esteve fora do noticiário mundial em todos estes anos. Os anti-semitas passaram a ter um alvo.

Nas nações européias conhecidas por seu anti-semitismo, como a França, Polônia e Áustria, e outras não tão conhecidas como Portugal e Espanha sempre ocorreram ondas anti-semitas. Ora com maior intensidade, ora com menos. Nos EUA, o anti-semitismo sempre esteve presente protegido por uma legislação que permite a livre expressão. Na Rússia, conhecida por seus pogroms, ao permitirem o direito de ir e vir, mais de um milhão de judeus partiram, a maioria para Israel. Lá o anti-semitismo sempre existiu e vai continuar existindo. Na América Latina o anti-semitismo nunca foi muito virulento devido principalmente à índole dos povos. Ele existe com maior intensidade na Argentina e no Chile.

Se o anti-semitismo sempre existiu, o que foi que mudou nos últimos dois anos? A resposta está estampada em todas as manchetes de jornais diários: a segunda Intifada palestina.

O conflito com os palestinos precede o surgimento do Estado de Israel. Já durante o Mandato Britânico a tensão era enorme diante da possibilidade de que fosse criado um lar nacional judaico no seio da comunidade árabe. Não cabe aqui a discussão inócua de quem teria chegado primeiro, ou quem tinha maior população na época. Nem mesmo a discussão sobre a existência, ou não de um povo palestino serve para diminuir a gravidade do problema. Apenas tenta mover o foco do problema para discussões acadêmicas que na melhor das hipóteses, satisfazem os egos de alguns eruditos.

A segunda Intifada trouxe com ela uma mudança na política israelense, um governante da direita que prometia paz e segurança. Não demorou muito para mostrar o que ele entendia por paz e segurança. Logo o clima de intransigência tomou o lugar da negociação e os radicais de ambos os lados passaram a ditar o rumo do desentendimento. Em pouco tempo as conquistas dos acordos de Oslo deram lugar a um conflito sangrento que vem vitimando inocentes quase que diariamente. Um Mapa da Paz apresentado pelos EUA, Rússia, ONU e UE, visto com esperança pelos dois povos, foi sendo descumprido por suas lideranças até ser totalmente esquecido e jogado de lado.

Pode-se buscar os diversos culpados pela situação presente, mas quero aqui demonstrar que em meio ao conflito, vimos surgir uma nova versão de anti-semitas, aqueles que discordam da política israelense nos territórios ocupados. Versão esta, que tentam impor as comunidades judaicas da diáspora e até mesmo difundir aos quatro cantos do mundo não judaico. Este novo anti-semita pode ser até mesmo um judeu. Qualquer um que acuse o governo de Israel de cometer atrocidades, passa a ser imediatamente rotulado. Este é o neo-anti-semita.

O povo judeu é conhecido de diversas maneiras. O Povo do Livro, os que receberam os Dez Mandamentos, pelo número de Prêmios Nobel, pela ética contida na Torá, pela solidariedade com outros povos e principalmente por sua capacidade em sobreviver a perseguições através de três mil anos de história. Nenhum outro povo foi capaz disso. Isto explica em parte por que somos foco de atenção. Um povo com esta bagagem deveria servir de exemplo para as nações.

Ariel Sharon veio para mostrar que mesmo irradiando luz, o estado judeu é capaz de mostrar o seu lado mais perverso. O governo de Israel dá ao mundo uma visão de nossa capacidade de matar e destruir nunca antes vista fora das guerras. Pela primeira vez presenteamos aos meios de comunicação como pilotos israelenses são capazes de matar crianças inocentes ao perseguirem militantes palestinos. De que forma tratores destroem as casas dos familiares de terroristas numa forma de punição coletiva. Ensinamos que a melhor forma de enfrentar o conflito é escondê-lo por de trás de um muro, mesmo que para isso seja necessário isolar populações das terras que lhes garantiam o sustento.

O Professor Mark Strauss, editor da Revista Foreign Policy em seu artigo A Globalização e o Anti-Semitismo, pergunta por que somente Israel. A China invadiu o Tibet, a Rússia massacrou a Chechênia, Índia e Paquistão lutam pela Cashemira etc. Por que aqueles que lutam por um mundo melhor não apóiam a luta destes povos por sua liberdade? Pode-se acrescentar a ditadura Cubana, ou da Coréia do Norte para indagar-se também a direita neoliberal.

Este tipo de questionamento também é totalmente inócuo. Pode-se fazer diversas dissertações, escrever teses para explicar este fenômeno que de nada irá adiantar. Isto não muda a postura dos anti-semitas e tão pouco ajuda a resolver o conflito israelense-palestino.

As razões para sermos condenados, mesmo que exclusivamente pelo que estamos promovendo nos territórios ocupados, são perfeitamente compreensíveis. Se os anti-semitas estão se aproveitando disso, somos nós que estamos dando a eles os motivos para isso. Se outras nações também deveriam ser condenadas, é uma questão secundária. Somos obrigados a olhar primeiro para dentro de nós mesmos e nos perguntar: estamos agindo de forma correta? O que estamos fazendo com um povo que clama por seu lugar de direito, é moralmente aceitável? Nossas atitudes na busca de uma solução são éticas?

Qualquer um diante de um quadro de horror representado pela explosão de um ser humano em meio a cidadãos comuns, diria que sim. Mas todos aqueles que sabem da importância de se agir de forma racional, dirão que não. O que estamos fazendo nos territórios ocupados está destruindo nossa integridade humana, semeia a discórdia entre nós e fornece combustível a fogueira dos anti-semitas que desejam nos queimar a todos. Torna o homem bomba aceitável como um herói que entrega sua vida pela causa da liberdade, numa total distorção da realidade.

A busca de uma solução negociável que leve a criação de um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel é a chave para o fim da maioria dos problemas que nos assolam neste momento, principalmente acabando com o círculo de violência que consome vidas inocentes e viciosamente se retro-alimenta.

Para se encontrar uma solução para o conflito não faltam iniciativas, sendo que a mais recente foi a que levou ao Acordo de Genebra. Inúmeras lideranças dos dois povos mantêm abertos os canais de diálogo, mas são sufocadas pela intransigência de Ariel Sharon e Yasser Arafat. Não faltam em Israel vozes que condenem o governo Sharon. Os jornais já mostram que além de cometer crimes de terrorismo de estado, o primeiro ministro deverá ser acusado de receber propinas para ajudar um empresário em um empreendimento, recebendo em troca polpudas verbas para suas campanhas políticas.

Hoje já existem quase mil soldados que se negam a fazer parte de um exército de ocupação. A cada dia mais e mais cidadãos israelenses se dizem cansados da política governista. Mais e mais vozes dentro e fora de Israel condenam este governo pela incapacidade de encontrar uma solução negociada. Todos eles são tachados como (neo) anti-semitas.

Entidades judaicas, que durante muitos anos combateram o anti-semitismo e lutaram pelos direitos humanos sucumbiram ao fantasma do mundo versus os judeus. Defendendo com todas as suas forças o governo israelense, abriram fogo contra todos os que delas discordam, rotulando-os como anti-semitas. A falta de argumentos sensatos não lhes deixa outra possibilidade. Como defender o assassinato de crianças? Como defender a colonização do território onde irá surgir o Estado Palestino? Como justificar a destruição de casas e destruição de plantações de oliveiras? Como explicar a segregação de uma população? Muito simples: nossos acusadores são todos anti-semitas, e por isso não é preciso explicar mais nada.

Israel e o povo judeu são muito maiores que a pessoa de Ariel Sharon. Fomos capazes de atravessar períodos terríveis em nossa história com nossa capacidade em sobrepujar as adversidades e buscar nos ensinamentos de nossos profetas, forças para encontrar uma saída. Desta vez não será diferente. Ariel Sharon está com seus dias contados como primeiro ministro. Nunca um ministro acusado de cometer algum crime permaneceu no posto. Chegou a hora de começar a pensar no próximo líder, e ao mesmo tempo repensar nossas atitudes com relação aos próximos e aos nossos.

Quanto mais cedo chegarmos a um entendimento com o povo palestino, mais cedo vamos poder tratar de nossas feridas e saldar nossa dívida. A paz não é apenas uma solução para o conflito com eles, é também uma solução para nossos próprios conflitos internos. Chega de tampar o céu com uma peneira. Temos muito mais amigos do que imaginamos, e muito mais pessoas dispostas a nos ajudar a superar estes tempos difíceis do que somos capazes de enxergar.

A eles meus agradecimentos por saberem apontar nossos erros. Por saberem diferenciar o certo do errado. Pelo fato de acreditarem em nós e apoiarem dois Estados, um judeu e outro palestino, vivendo em paz e segurança lado a lado. Amigos são para estas coisas.

Assim sendo vamos estar acabando com os neo-anti-semitas e vamos continuar combatendo os verdadeiros anti-semitas. Aqueles que não suportam nossa existência como seres humanos, e que desta forma vão ficar órfãos da companhia tentaram criar para eles.

Nunca é tarde para reconhecer quando erramos. Já fizemos isso em outros momentos de nossa história e tivemos um Rei, Salomão, que deixou um legado de sabedoria nesta área. Ainda é tempo de recuperarmos nosso papel na história e continuar fazendo amigos.

Ainda assim vão restar anti-semitas no mundo, mas como eu disse no inicio deste artigo, eles são tão velhos quanto nós e vão continuar por aí por que o povo judeu segue existindo e repetindo uma antiga prece: Am Israel Hi (o povo judeu vive).

Feliz 2003

O chefe da Igreja Católica na Terra Santa, Michel Sabbah, disse na quarta-feira (18/12/2002), que os líderes palestinos e israelenses deveriam ou selar a paz, ou abandonar seus cargos. Talvez esta tenha sido a melhor mensagem de fim de ano, em dois anos de conflito.

Tudo se encaminha para mais um Natal sem festas na Terra Santa. Enquanto o mundo inteiro comemora fatos que lá se originaram, no palco dos acontecimentos passados os enfrentamentos recentes vão, mais uma vez, impedir as comemorações.

Talvez isto tenha inspirado a posição de Sabbah, que é palestino. Questionado se ele se referia a ambos os lados, foi categórico em afirmar que apesar de que Sharon poderia fazê-lo mais facilmente, Arafat também deveria se afastar. O simbolismo desta declaração vem como uma benção a todos nós que ao longo do tempo temos afirmado isso.

A paz entre israelenses e palestinos tem que ser firmada e conduzida por suas lideranças. Se estas, não podem ou não tem capacidade para isso, então que dêem seu lugar para outros.

As eleições marcadas para o inicio do ano que vem, podem ser um marco para a mudança, ou mais um capítulo da intolerância e do revanchismo que vem trazendo dor e tristeza para centenas de famílias.

Todos os que almejam uma convivência pacífica entre os dois povos, convivendo lado a lado em dois estados, têm o compromisso de pedir votos para os partidos e representantes políticos comprometidos com o diálogo. Não existe solução militar. A permanência de Sharon e Arafat no poder, servirá apenas para aumentar o número de covas nos cemitérios.

Não haverá segurança para Israel enquanto não for criado um Estado Palestino nas fronteiras de 1967, compartilhando Jerusalém como capital. Tampouco haverá um Estado Palestino nestes territórios, se Israel não tiver segurança para sua sobrevivência num meio que ainda lhe é hostil e ameaçador. Neste jogo de cartas marcadas as jogadas têm que produzir efeito prático. Toda retórica é vista como blefe.

Os dois povos podem decidir pelo fim do conflito usando a maior de todas as armas: o voto. Cada cidadão tem uma arma em suas mãos. Pode utilizá-la para conduzir ao fim do conflito, ou para piorá-lo ainda mais. O que sairá das urnas pode representar a sobrevivência de milhares de pessoas, ou a continuidade das mortes sem sentido.

Não permitam que a sede de vingança seja saciada com mais violência. Tenham neste momento a esperança como companheira, o sonho de que é possível como amigo e vamos dar a paz uma chance. Porque um mundo melhor é possível.

Quando as luzes do Natal estiverem a iluminar as noites de fim de ano, anunciando que 2003 já vai chegar, quero desejar a todos os que me acompanham lendo meus artigos, muita saúde e felicidades.

Tomara que neste ano eu possa escrever mais sobre alegrias, do que sobre tristezas; mais sobre a vida do que sobre a morte; mais sobre a conciliação, do que sobre separação; mais sobre tolerância, do que sobre preconceito.

Que todos possamos nos encontrar em 2003 num mundo melhor.

Sanidade & Barbárie

Quando o exército de Israel causa a morte de uma criança palestina de apenas 3 anos, chamamos isso de barbárie. Quando um terrorista palestino invade um assentamento e mata um bebe de sete meses, também chamamos isso de barbárie. Tudo isso ocorreu em 24 horas na semana que passou.

O circulo vicioso da vingança não se interrompe e a morte de inocentes segue sendo a força motriz dos líderes de ambos os povos. Quando se imagina que já se viu o máximo tolerável, os fatos mostram que ainda estamos longe do que serão capazes os dois lados.

Em meio a tudo isso, ao menos poucos lampejos de sanidade. Há poucos dias, vinte e sete pilotos da Força Aérea de Israel assinaram um documento, onde declaram não estarem mais dispostos a bombardear populações civis palestinas. O grupo Yesh Gvul (Existe um Limite), entrou esta semana com uma petição na Corte Suprema de Israel, pedindo que o advogado geral, e o procurador geral do país, investiguem a existência de crime no assassinato em Julho de 2002, de Saleh Sheadeh – quando uma bomba de uma tonelada foi jogada sobre o prédio onde ele e sua família residia causando a morte deles e de outros quinze civis, incluindo onze crianças.

Atitudes como estas nos fazem pensar que o conflito tem solução. Enquanto existirem cidadãos israelenses dispostos a brigar pela manutenção da moral e da ética do povo judeu, podemos acreditar que a paz virá. Nem tudo está inexoravelmente perdido, ainda existe sanidade em meio à barbárie.

Do lado palestino alguma ações também caminham nesta direção. Um delas é a iniciativa de Sari Nusseibeh juntamente com Ami Ayalon, com sua proposta de paz simples e direta, de dois estados vivendo em paz lado a lado. Outras ficam no anonimato devido ao clima de terror imposto pelos fundamentalistas sobre a mídia palestina.

Vivendo em completa liberdade de expressão a mídia israelense se divide. O Jerusalém Post defendeu em editorial o assassinato de Iasser Arafat. Já o Haaretz, vem mostrando que ele ainda é a chave para a solução e pergunta como o governo aceita negociar com o Hezbolá a troca de prisioneiros, e se nega a conversar sobre paz com Arafat. Indaga ainda como é possível exigir da AP o que nem o exército, nem o Mossad e nem o Shabak conseguiram fazer: acabar com os grupos terroristas ou evitar suas ações.

Muitos em Israel falam que em escolas palestinas se ensina a odiar os judeus. O Jerusalém Post acaba de adotar a mesma tática dos radicais, disseminado o ódio e acirrando as desavenças ao invés de aproximar os dois povos. Agindo assim, eles lembram os panfletos da direita israelense que mostravam as fotos de Rabin e Arafat lado a lado. Rabin tinha um “X” sobre ela e abaixo das fotos podia se ler: Um já foi, falta apenas o outro.

Barbárie e Sanidade sempre estiveram presentes na história da humanidade. A primeira nos lembra os momentos de horror e vergonha quando o homem cometia atos de destruição contra os seus semelhantes. A segunda nos faz recordar os momentos em que se assinaram os tratados de paz que trouxe consigo o desenvolvimento e a prosperidade.

Alguns povos ficaram sendo conhecidos para sempre como Bárbaros, outros passaram a história como pacificadores. Como é que nós, israelenses e palestinos vamos ser conhecidos pelas próximas gerações?

Junte-se ao Campo da Paz, ajudando a manter a sanidade acima da barbárie.

Diga Não

Como é difícil dizer não. Quem tem filhos sabe bem disso. Quantas vezes nos arrependemos de não ter dito não? Por isso as campanhas contra as drogas que utilizam este jargão são mal aceitas. Somos quase sempre compelidos a dizer sim. Quando alguém diz não, é preciso respeitar.

Ontem 27 pilotos israelenses disseram não. Assinaram um manifesto onde afirmam que vão se negar a atirar contra a população civil palestina. Um ato de coragem com conseqüências imprevisíveis. Os pilotos israelenses dentro do “ranking militarista” de Israel, são tidos como uma elite idolatrada.

Eles não foram os primeiros soldados a se manifestarem contra o que chamam de ordens ilegais. Várias centenas já assinaram manifestos semelhantes se negando a servir nos territórios ocupados. O que causou espanto, foi que pela primeira vez, membros da elite se fizeram ouvir.

Todo exército está baseado numa rígida disciplina. É preciso que seja assim. Quem tem maior hierarquia dá as ordens. Quem tiver menor, obedece. No exército não se discute, por que numa situação de enfrentamento uma discussão pode significar a vida ou a morte de muitos.

No exército de Israel não é diferente, porém um soldado pode exigir que a ordem seja dada por escrito. Isto é uma garantia para ele, de que obedeceu exatamente o que seu comandante ordenou, mesmo que tenha sido uma ordem com a qual ele não concordava. É claro que em determinadas situações não há tempo para isso, mas a norma existe.

Quando os comandantes militares ordenam que um piloto atire contra determinado alvo fixo ou móvel, onde existem civis que possam vir a ser atingidos, esta é uma ordem que causa um dilema ético e moral. Nem sempre é possível saber com antecedência onde o alvo vai estar. Muitas vezes esta informação é confirmada quando o avião já está no ar e a caminho de executar a missão. O piloto tem de se defrontar então com sua obrigação de cumprir a ordem, ou se negar e sofrer as conseqüências (normalmente corte marcial e aprisionamento).

O manifesto dos 27 pilotos põe em cheque este dilema. De um lado uma estrutura que se baseia numa formação consagrada há séculos, através da qual o próprio Estado de Israel deve sua existência, seu exército, e do outro os preceitos de moralidade que através do mesmo tempo, foram os alicerces do judaísmo, contidos na Torá.

Todos os valores e preceitos que ditaram nossos profetas estão sendo colocados à prova. Cada dia a mais em que permanecemos como ocupantes de uma terra que pertence a outro povo, é mais um dia em que vamos continuar nos defrontando com nosso passado e tirando de nossos filhos o futuro de uma vida em paz em nossa terra.

O manifesto dos pilotos é mais um alerta para a sociedade israelense de que ela está muito doente. O militarismo que sempre se confundiu com a própria sociedade está dando mostras de que as coisas já chegaram ao seu limite. Não somos invencíveis, e estamos metidos numa guerra que não vamos vencer. A ocupação não vai durar para sempre e as vidas que se perdem são um tesouro que nunca mais poderá ser reposto.

Esta geração de líderes não é capaz de se reencontrar com seu povo. Permanecem fechados em seu mundo onde paira a iminência da destruição. Por isso atacar, matar e assassinar são os únicos meios de se manter alertas e principalmente de manter o poder. Esta lógica belicista dos políticos generais é uma das principais causas de todo o problema e nossa maior vergonha.

Um novo ano chega para o povo judeu, 5764. Mais um ano em que os desejos de paz se renovam. Mais uma vez continuamos aqui a dizer que neste ano possamos acabar com o sofrimento dos dois povos, aclamar o surgimento de um Estado Palestino e celebrar a conciliação entre nós.