Um Fascista

Leonardo Attuch recorre ao velho truque para encerrar a discussão: basta qualificar seu oponente como fascista.
Me causou surpresa o texto de Attuch sobre minha resposta ao que ele publicou. O título já é uma inverdade. Eu nunca disse que ele era antissemita, como vou mostrar mais adiante.
Mauro Nadvorny recorre ao velho truque para encerrar a discussão: basta
qualificar seu oponente como antissemita.
 
O colunista Mauro Nadvorny acaba de constatar que, ao contrário do que ele pregou para seus seguidores no Facebook, o Brasil 247 é um veículo de comunicação democrático. Aqui, em nossas páginas, ele acaba de publicar um artigo em que diz ter sido censurado por mim. Se não fôssemos visceralmente democráticos, evidentemente, não teríamos aberto espaço a esse artigo em que ele, inclusive, me rotula como antissemita. Ou, no mínimo, afirma que usei um argumento antissemita para criticá-lo.
Um grande mal dos nossos dias é o de que as pessoas não leem o que está escrito, e quando o fazem, distorcem completamente os fatos. Nossa discussão teve inicio com um artigo para a minha coluna ter sido censurado. Attuch acha que a não publicação não foi uma censura. Cada um de nós tem uma opinião diferente, o que seria legítimo. Eu não acho que o fato de Brasil 247 ter publicado minha
resposta ao que ele escreveu, seja um atestado de democracia visceral. Mostra apenas que me foi dado o direito de resposta.
 
Quanto a eu o ter rotulado de antissemita, não foi o que eu disse: “Falas que eu escrevo com uma visão de mundo etnocêntrica e que eu considero os judeus mais importantes que os demais. Lamento, companheiro, mas esta é uma afirmção antissemita com todas as letras. Jamais me coloquei acima de quem quer que seja, assim como em mais de um ano de publicações semanais fui chamado de etnocêntrico.” Ou seja, eu estou afirmando que o argumento dele foi antissemita, não que ele o seja. No entanto, ele faz uso disso na chamada, o que é uma baixaria.
 
É evidente que a acusação não faz sentido algum. Afinal, nosso motivo para vetar o artigo que ele diz ter sido censurado foi a defesa da vida como um valor absoluto. E me parece óbvio e ululante, como diria Nelson Rodrigues, que a defesa da vida, princípio basilar do que se convencionou chamar de Humanismo, jamais poderá ser classificada como uma postura antissemita. Muito pelo contrário.
 
Como já expliquei no meu artigo anterior, o texto de Mauro Nadvorny, em que ele celebra o assassinato do general Qasem Soleimani por Donald Trump, foi despublicado porque, já na primeira frase, ele argumenta que o mundo se tornou um lugar melhor para se viver após este assassinato. Mauro também disse que Soleimami ameaçava a sua existência e, em razão disso, celebrou a sua execução. Na minha crítica ao seu artigo, disse que ele reproduziu a lógica do discurso fascista – “bandido bom é bandido morto” – que os progressistas tanto combatem.
 
Eu também defendo a vida, não é este o ponto. O texto se refere ao que já havia acontecido. Meu artigo original censurado começa assim: “Sei que vou atrair a ira de parte da esquerda, mas vou dizer de qualquer maneira que hoje acordamos em um mundo um pouco melhor para se viver. Por razões que não vou entrar no mérito, os EUA mataram o Gen. Qassem Soleimani, chefe máximo da Força Quds, mais conhecida como a tropa paramilitar do clero iraniano, os Guardiões da Revolução.”
 
Depois disso explico quem é o cara e o país que ele servia e concluo: “Então, se um cara como Soleimani, um servidor de um regime como este que trabalhava para o replicar em outros países foi se encontrar com o Diabo no Inferno, não quero saber quem o despachou, o mundo foi dormir com um ser abominável a menos.”
 
Foi nestes dois parágrafos que Attuch enxergou comemoração e um discurso fascista. Eu acho que ele está forçando muito a barra para ter esta interpretação. Acho que o motivo é outro.
 
Mauro me chama de antissemita porque classifiquei seu argumento como etnocêntrico, ou seja, como
de alguém cuja visão de mundo considera seu grupo étnico, nação ou nacionalidade socialmente mais importante do que os demais. Mas foi exatamente isso o que ele expressou ao dizer que Soleimani mereceu ser assassinado porque poderia “nos” assassinar. Por essa lógica, Trump, que assassina
iranianos e iraquianos, na prática seria um herói justamente porque seus salvos são “eles” – e não “nós”, da “tradição judaico-cristã”. Por essa lógica, Trump salvou o mundo de um potencial genocida, que ele compara a Hitler em seu artigo.
 
Em nenhum parágrafo do meu artigo original censurado está escrito que: “Soleimani mereceu ser
assassinado porque poderia “nos” assassinar.” Me mostre onde.
 
Da mesma forma, em nenhum parágrafo do meu artigo original está escrito que: “Por essa lógica, Trump salvou o mundo de um potencial genocida, que ele compara a Hitler em seu artigo.” Me mostre onde.
Experimentemos agora trocar os nossos óculos e nossas lentes. Coloquemo-nos no lugar de iraquianos,
palestinos e iranianos. Esses povos, naturalmente, também se sentem ameaçados  pelas ações de Donald Trump, de vários de seus antecessores, e de Benjamin Netanyahu. Basta dizer que mais de 200 mil civis iraquianos já foram assassinados desde que teve início a pretensa “guerra ao terror”, que visava evidentemente assegurar o controle geopolítico do Oriente Médio e de todas as suas riquezas naturais. Em razão desta ameaça,  é legítimo defender que Trump e Netanyahu sejam assassinados? Mauro Nadvorny escreveria isto num de seus artigos? Tenho certeza de que não. E se escrevesse, pode estar
certo de que não seria publicado em nossas páginas.
 
Verdade, eu não escreveria a mesma coisa.
 
Apenas lamento que, em vez de debater argumentos, ele recorra ao velho truque para encerrar uma
discussão: rotule seu opositor como antissemita e declare vitória. O que é isso, companheiro?
 
Attuch, tenha certeza de que eu não hesitaria em te rotular como antissemita, se fosse este o caso. Não foi o que eu disse, como tu mesmo reconhecestes: “Ou, no mínimo, afirma que usei um argumento antissemita para criticá-lo.”
 
O papel de vitimização não te cai bem.
 
Eu já te propus encerrar esta discussão com um artigo em comum onde concordamos em discordar. A
proposta continua valendo.
OBS: ele não concordou.

Censurado

Censurado
 
Lendo a justificativa do companheiro Atuch por haver censurado meu artigo, vejo que lamentavelmente ele leva para o campo pessoal o que deveria ter ficado na discussão acadêmica e intelectual.
 
Ao dizer que meu artigo se baseia no meu etnocentrismo, uma visão de mundo característica de quem considera o seu grupo étnico, nação ou nacionalidade socialmente mais importante do que os demais, e que em função disso o que escrevi poderia ser resumido numa frase: “bandido bom é bandido morto”,
me atribuístes a voz de um fascista. Dissestes que enquanto eu chamo o paramilitar de carniceiro, milhares de manifestantes no Irã pensam o contrário. O que é isso companheiro?
 
Estes milhares de manifestantes são os mesmos que saem às ruas para comemorar os enforcamentos de homossexuais e esquerdistas traidores do Islã. Como podes ser solidário a eles e dizer que sou eu quem falo como um fascista?
 
Falas que eu escrevo com uma visão de mundo etnocêntrica e que eu considero os judeus mais importantes que os demais. Lamento, companheiro, mas esta é uma afirmação antissemita com todas as letras. Jamais me coloquei acima de quem quer que seja, assim como em mais de um ano de publicações semanais fui chamado de etnocêntrico.
 
Meu artigo censurado explica parágrafo a parágrafo quem era este paramilitar e as milhares de vidas que ele tirou. Se Hitler tivesse morrido em um dos atentados contra a vida dele, quantas vidas teriam sido
salvas? Quem de nós, se vivos naqueles anos, não teria comemorado. Não sejamos hipócritas.
 
Trazes a baila um texto ofensivo aos judeus, que o próprio autor reconheceu sê-lo que foi retirado do ar e comparas com o que eu escrevi. O que tem uma coisa a ver com a outra?
 
No fundo nossa discussão se resume a censura e isto foi exatamente o que aconteceu. Tuas justificativas para censurar meu artigo vão de uma ofensa antissemita pessoal de um lado, e a linha editorial de outro.
 
Ora, tu fazes exatamente como este governo que ambos combatemos ombro a ombro na mesma trincheira. A justificativa da Ancine para censurar filmes LGTB, por exemplo, é de que eles não estão de acordo com a nova linha editorial deste governo. O mesmo argumento que tu usaste para me censurar.
 
No início do meu artigo quando digo que acordamos em um mundo melhor para se viver, também digo que não vou entrar no mérito da causa de sua morte. Me ative ao fato do que havia ocorrido, morto estava. Se eu acho que foi correto, ou não, se justificável, ou não, eu não tratei disso e tu conheces muito bem as minhas posições porque não mudaram desde sempre.
 
De uma certa forma me sinto na mesma posição do Porta dos Fundos. Provavelmente se fosse um texto escrito, não um especial pela TV, o Brasil247 o teria censurado por ofensa religiosa. Vide a multidão de ofendidos Brasil afora.
 
Minha posição não mudou, o que fizestes foi um ato de censura que lamentavelmente acontece em muitos meios de comunicação.
 
Vida que segue companheiro, tudo na vida é um aprendizado.
Semana que vem tem outro artigo. A luta continua.

 

Um ser do mal a menos no mundo

Sei que vou atrair a ira de parte da esquerda, mas vou dizer de qualquer maneira que hoje acordamos em um mundo um pouco melhor para se viver. Por razões que não vou entrar no mérito, os EUA mataram o Gen. Qassem Soleimani, chefe máximo da Força Quds, mais conhecida como a tropa paramilitar do clero iraniano, os Guardiões da Revolução.
 
Antes de qualquer coisa, vamos entender quem era este carniceiro que de um inofensivo operário da construção civil, se tornou um dos principais militares a dar sustentação ao regime clerical iraniano, e era ponta de lança das missões internacionais em outros países para dar sustentação a expansão Shiita do regime. Ele foi morto em Bagdá em uma missão de confrontar as forças americanas que ainda estão no Iraque.
 
Soleimani foi o responsável, entre outras coisas, pelo fim da Revolta Estudantil de Teerã 1999. Ela aconteceu antes dos protestos eleitorais iranianos de 2009, e foram um dos protestos públicos mais difundidos e violentos que ocorreram no Irã desde os primeiros anos da Revolução Iraniana.
 
A morte de cerca de 1500 civis nas recentes manifestações contra a alta dos preços, especialmente da gasolina, também tem a assinatura dele. O apoio ao regime de Assad na Síria e dos Insurgentes Shiitas no Iraque são políticas dele. Sua morte em território iraquiano não é por acaso.
 
Ele também ajudou a combater o ISIS no Iraque, o que o tornou um aliado momentâneo dos Estados
Unidos e das forças Kurdas. O ISIS, uma organização jihadista islamita de orientação salafita (sunita ortodoxa) e wahabita queria formar um Estado Muçulmano Sunita englobando territórios da Síria e do Iraque que seriam uma ameaça às pretensões hegemônicas Iranianas na região.
 
Soleimani apoiava militarmente o Hezbolah no Líbano e o Hamas em Gaza. Era um inimigo declarado
de Israel e fornecia armas para os dois grupos que pedem a sua destruição. Para ele Israel era um entrave aos planos Iranianos de influência nos regimes do Oriente Médio. 
 
Nesta sexta-feira, dia 02 de janeiro quando deixava seu jato vindo do Líbano, ou da Síria e entrava em um carro, um Drone Americano lançou um míssil que atingiu o alvo diretamente deixando os corpos dele e dos demais ocupantes praticamente irreconhecíveis, tal foi o impacto.
 
Uma pessoa ruim, é um mal para a humanidade e não importa o regime que sirva. O Irã não é um
regime democrático e os direitos humanos estão longe de serem respeitados. Manifestações contra o regime são duramente combatidas e normalmente com centenas de mortos e desaparecidos. As mulheres são obrigadas a cobrirem a cabeça e são impedidas até de coisas simples como assistir um jogo em um estádio de futebol. Homossexuais não são tolerados e podem ser presos e mortos a qualquer momento.
 
O Irã é uma República Teocrática Islâmica onde os poderes são supervisionados por um corpo de clérigos.  Líder Supremo ou Guia Supremo é o chefe de Estado eleito pela Assembleia dos Peritos (86 membros) para um mandato vitalício, em função dos seus conhecimentos de teologia islâmica. Ele também é o comandante chefe das forças armadas responsável pela nomeação dos comandantes do exército, marinha e aeronáutica, e é quem nomeia vários cargos importantes como, por exemplo, a principal autoridade do judiciário.
 
Para poder ser candidato a aprovação ao direito de concorrer a presidência do país, o candidato tem que ser iraniano Shiita. Ele é eleito por sufrágio universal. O parlamento de 290 membros também é eleito por sufrágio universal onde concorrem candidatos previamente aprovados pelo Conselho Supremo. Cinco cadeiras são reservadas aos representantes de minorarias como os judeus.
 
O Partido Comunista do Irã é proibido, a esquerda no país é totalmente clandestina e seus membros quando descobertos, são acusados de traição e condenados a morte. Não existe pluralidade ideológica de partidos políticos. A religião rege os costumes e as leis no país.
 
Então, se um cara como Soleimani, um servidor de um regime como este que trabalhava para o replicar em outros países foi se encontrar com o Diabo no Inferno, não quero saber quem o despachou, o mundo foi dormir com um ser abominável a menos.

 

Que revolução é esta?

Que revolução é esta?
 
Estamos vivendo hoje o que se poderia chamar de Revolução Virtual. Da mesma maneira como a Revolução Industrial, esta tem alguns elementos que nos fazem recordar este difícil período para a classe trabalhadora.
 
Até 1760, os produtos eram fabricados por um indivíduo. Assim, um sapato era produzido por um sapateiro, uma cadeira por um carpinteiro e assim por diante. O artesão cobrava pelo material utilizado e pelo seu trabalho na confecção daquele produto. Ele trabalhava as horas desejadas e tinha seu merecido descanso.
 
Então, alguém teve uma ideia. Vamos produzir em escala onde cada fase da produção será exercida por um trabalhador que fará de forma repetitiva a mesma ação por horas a fio todos os dias de sua vida. Estava criada a linha de produção e a volta da exploração do homem pelo homem. Uma nova forma legal de escravidão.
 
Neste processo, pagava-se os piores salários e a jornada de trabalho podia chegar até 16 horas por dia. Mulheres e crianças também eram aceitas por um salário menor. A exploração não tinha limites, nem tirava férias. Não haviam direitos e sobrava mão de obra. A expectativa de vida de um trabalhador era muito baixa.
 
As fábricas de então, como as de hoje, eram de propriedade de grandes capitalistas cujo objetivo era o lucro. Este lucro vinha da venda do produto final depois de pagos os salários e os impostos, assim como nos dias de hoje. Baixos salários e grandes margens de venda traziam grandes lucros para o dono da fábrica.
 
Os novos capitalistas da Revolução Virtual não são donos de uma fábrica, tampouco possuem funcionários, não precisam pagar salários e ainda assim possuem uma grande margem de lucro. Eles são donos apenas de um aplicativo.
 
Vamos tomar como exemplo um dos diversos aplicativos que colocam em contato um desejoso prestador de serviços com um desejoso necessitado deste serviço. Eu preciso ir de um lugar para outro. Uma pessoa está disposta a me levar. O aplicativo nos põe em contato, o serviço é prestado. Por esta facilitação, o dono do aplicativo cobra um valor.
 
Nesta revolução, este valor cobrado é abatido do valor do serviço prestado. Por este serviço o trabalhador não recebe um salário fixo, tampouco tem qualquer tipo de direitos elementares conquistados depois da Revolução Industrial. Não existe limite de horas trabalhadas, não existe descanso obrigatório. Não existe nenhum compromisso com qualquer forma de relação presente ou futura.
 
A Revolução Virtual também chega ao mundo capitalista tradicional. Até pouco tempo, se alguém precisasse de hospedagem temporária, buscava um hotel. Pelas noites ali passadas pagava-se um valor. Deste valor, os funcionários recebiam seu salário, o hotel pagava seus impostos, a manutenção do imóvel e ficava com sua margem de lucro.
 
Agora, um outro dono de outra modalidade de aplicativo, coloca em contato quem precisa de uma hospedagem com quem se dispõe a oferecer uma habitação particular. Por esta facilitação ele recebe um valor determinado. Quem oferece o serviço não possui nenhum vínculo empregatício, nenhum direito outro que não o custo pré-estabelecido para aquela transação.
 
O que muitos estão vendo como um progresso, um novo meio de vida é o prenúncio de um enorme retrocesso nas relações trabalhistas. Junto com estas novas facilitações, também chegaram as flexibilizações trabalhistas. Um trabalhador pode ser contratado por horas de trabalho. Empresas podem contratar trabalhadores terceirizados oferecidos por uma outra empresa de mão de obra.  
 
Toda esta nova classe proletária que trabalha sem qualquer vínculo, ou direitos básicos, mal consegue se manter. O mês muitas vezes termina antes do seu final e as contas vão se acumulando. Os que tem sorte conseguem pagar seu custo de vida, mas dependem dos serviços de saúde e educação fornecidos pelo estado que a cada dia reduz mais esta oferta.
 
A Revolução Virtual é a filha mais velha do Neoliberalismo. Justos eles vão criando nos países onde atuam em conjunto, uma ruptura social com o surgimento de uma classe de ricos e novos ricos, e outra classe de pobres e novos miseráveis. A distância entre estas classes vai aumentando em proporções
abissais.
 
O Brasil de hoje é um país pensado para 30 ou 40 milhões de pessoas, no máximo. Todas as demais vão existir somente para manterem o meio de vida destes afortunados da camada de cima. Todas as políticas estão sendo implementadas exclusivamente para o bem-estar desta gente. Boa parte será mantida a margem da sociedade, e estes serão os sortudos. Os demais vão conhecer a miséria e a fome.
 
Os trabalhadores de hoje começam a se parecerem muito com os trabalhadores do passado. A história parece se repetir. No passado foi o que levou a conquistas de direitos básicos que vieram com muita luta e sangue. O que esta história de hoje vai nos ensinar, ainda não sabemos, mas precisamos decidir rápido enquanto ainda temos o direito de nos expressar.
 
PS: Para todos meus leitores um Feliz Ano Novo!

 

Rachando a cara de vergonha

Rachando a cara de vergonha
 
Nunca esqueci de uma reportagem do Jornal Nacional de 1998 sobre a fome no Nordeste. O repórter entrevistava uma família de agricultores que não tinha mais o que comer. A mulher cozinhava no fogão a lenha uma sopa de papelão. O pai da família questionado sobre a situação respondeu resignado, “Deus quer assim”. Aquilo foi um soco no meu estômago. A melhor explicação de como escravizar um povo.
 
A democracia não é um regime perfeito, ainda assim, não existe nada melhor. Eleições livres elegem os representantes do povo aos níveis municipal, estadual e federal. São eles que por um período de 4 anos vão legislar em nosso nome. Vão criar leis que melhorem nosso nível de vida trazendo progresso e bem-estar para todos. Por este trabalho serão remunerados de acordo.
 
Variando de um país para outro, presidencialismo ou parlamentarismo, as democracias se assemelham com seus três poderes, Legislativo, Judiciário e o Executivo convivendo harmoniosamente. Todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido. É assim que começa a Constituição Cidadã de 1988.
 
O exercício político deveria ser uma tarefa de cidadãos e cidadãs dispostas a pensarem formas de melhorar a vida do povo. Gente eleita para trazer soluções aos anseios de sua comunidade, reivindicações populares necessárias desde o nível mais básico, como uma ponte, um calçamento até aquelas mais abrangentes como educação, saúde e segurança para todos.
 
No Brasil com o passar dos anos, a política se transformou em uma profissão e meio de vida. Famílias de políticos são conhecidas em diversos estados do país, é o famoso Coronelismo com o voto a cabresto. Tudo perfeitamente admitido com a maior naturalidade.
 
Natural também se imaginar que para exercer tão nobre profissão, os políticos necessitam se apresentar vestidos de maneira condizente. Criaram então a Ajuda Paletó. Seus filhos precisavam estudar em boas escolas. Criaram a Ajuda Escola. Eles tinham de viajar constantemente. Criaram a Ajuda Viagem.
Precisavam comer em restaurantes dignos. Criaram a Ajuda Alimentação. Tinham de aproveitar suas férias. Criaram a Ajuda Férias. Como todo trabalhador tinham direito ao 13º salário. Criaram o 13º e até o 14º salário. E por aí vai.
 
Claro que para exercerem tão nobre profissão para o bem geral de todos, eles precisam de assessores, muitos assessores. Estes honrados cidadãos limitados a um trabalho pelo período do mandato dos políticos precisavam ser bem remunerados, muito bem remunerados. Assim foram criados cargos, muitos cargos.
 
Não bastando tudo que recebem, mais as necessárias ajudas para quase todas suas naturais necessidades, era preciso um pouco mais. Os políticos ao disporem de uma enorme quantidade de cargos para serem preenchidos, pagos pelo povo, por que não serem remunerados por esta benevolência. Que tal uma rachadinha?
A proposta é bastante simples. O gabinete do político tem lugar para um número limitado de pessoas trabalharem. Digamos que umas 5 pessoas, mas ele tem direito a preencher até 15 cargos. Então ele convida mais 10 pessoas a “trabalharempara ele. O trabalho em questão é apenas o de ceder seu nome como funcionário do gabinete. Por este nobre favor, ele passa a receber mensalmente um salário sem
precisar trabalhar. Em troca deste arranjo benéfico as duas partes, ele devolve metade da renda ao político e ambos vivem felizes para sempre.
 
Isto acontece em todo o Brasil de norte a sul nas Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas e até mesmo no Congresso Nacional. É tão conhecido como é o Jogo do Bicho. A diferença que o jogo é considerado uma contravenção, e a rachadinha uma atividade normal.
 
Alguém já deve estar se perguntando, mas o que tem a ver aquela reportagem da Sopa de Papelão com a rachadinha? Tudo. Em um país com um povo que se dá o respeito, a atividade política recebe atenção e é devidamente escrutinada. Um político que não atender as expectativas durante seu mandato, dificilmente será reeleito. Muito diferente do que acontece no Brasil onde a maioria dos eleitores nem lembra em quem votaram nas últimas eleições para vereador ou deputado.
 
Quando um cidadão que não tem o que comer, afirma que a situação de sua família é um desígnio de Deus, os maus políticos venceram. Enquanto estes políticos continuarem a se locupletar em seus cargos, e o povo atribuindo suas mazelas a Deus, o país jamais deixará de ser uma republiqueta de terceiro mundo.
 
Dos anos 90 para cá o poder dos pentecostais vem aumentando. O número de Igrejas, das mais simples, a Templos de Luxo, se distribuem por todo território nacional em números que só crescem. Agora pode faltar o que comer, mas não pode faltar o dízimo dado por esta geração de acéfalos, o combustível que alimenta este círculo vicioso de subserviência. Um Exército de Brancaleone, não só de maltrapilhos, cujo objetivo é tão somente um lugar no Paraíso Celestial prometido por seus pastores. Para eles estes políticos representam Deus na Terra, quando não são o próprio Deus.
 
Flávio Bolsonaro não inventou a rachadinha, tampouco a sopa de papelão. No entanto ele é a bola da vez. Da mesma maneira que eventualmente um barão do Jogo do Bicho é jogado aos leões para acalmar a plebe, o 01 é o boi de piranha. É por culpa de políticos como ele que voltamos ao mapa da fome. Políticos que criticam uma sátira cristã da Porta dos Fundos, mas são na verdade aquele Deus que se refere o pai de família que só terá alimento enquanto trouxer papelão para casa, porque assim querem os “Flávios Bolsonaros”.
 
Ele é a ponta do Iceberg e junto com ele está a família que vive desta política suja. Com eles outros milhares de políticos país a fora. Basta!
 
Em tempo, para todos os meus leitores um Feliz Natal.

 

Israel num impasse democrático

Os partidos políticos de Israel não se entendem e o país se encaminha para sua terceira eleição em um ano. Nunca havia acontecido de que não se formasse um governo depois de uma eleição, nem falar de duas, mas três já parece inaceitável. Da forma como estão as coisas, talvez o impasse ainda assim não se resolva.

O país está claramente dividido em blocos que não conseguem formar uma maioria na Knesset, o Congresso israelense. Assim, somente um acontecimento radical que levasse eleitores de um bloco para outro, romperiam este círculo vicioso. De nada adianta eleitores da direita continuarem votando em partidos de direita, o mesmo com o centro esquerda.

O bloco religioso vai continuar igual com suas 16 cadeiras (uma mais, uma menos) e eles dizem que estão com a direita e somente com a direita liderada pelo Likud, mais especificamente por Bibi. São claramente partidos religiosos de direita, o que quer que isso signifique.

Os partidos árabes, unidos em uma Lista Unificada, deve manter suas 13 cadeiras conquistadas na segunda rodada, ou talvez até uma a mais. A direita nunca vai aceitar que eles façam parte de seu governo. Já o centro gostaria de contar apenas com seu apoio sem oferecer cargos. Em Israel todos são iguais, mas existem os mais iguais e os menos iguais.

O Azul e Branco já anunciou pelo menos uma mudança para esta terceira rodada, Benny Gantz, seu líder, em caso de vitória será o primeiro ministro por quatro anos. Antes havia um acordo para dividir dois anos para cada um com o número dois do partido, Yair Lapid. Esperam com isso, atrair votos de indecisos e até mesmo do partido rival, o Likud.

O Likud está em guerra. Bibi foi finalmente indiciado em três processos criminais que podem culminar, se condenado, em cumprimento de pena. Ele está sendo desafiado para liderar o partido por Guideon Saar. Em duas semanas o partido vai fazer suas primárias para definir quem vai liderar o partido agora. Ataques de parte a parte são diários.

No partido trabalhista e no Meretz (último bastião da esquerda sionista) nenhuma mudança a vista. Os dois partidos devem manter tudo como está e muito provavelmente receber as mesmas cadeiras cada um. O mesmo se passa com os partidos nanicos da extrema direita.

Por fim, o partido Casa Judaica de Avigdor Lieberman que não é mais bem-vindo na direita, e não compõe com a esquerda. Devem permanecer com 8 cadeiras e continuar sendo o fiel da balança para a formação de algum tipo de governo depois das eleições.

Segundo as primeiras pesquisas, nada de significativo muda com relação ao número de cadeiras de cada bloco. A direita com Bibi chegaria a 54 cadeiras, e para surpresa de todos, sob a liderança de Saar, o Likud faria menos cadeiras, mas os votos seriam transferidos para outros partidos do bloco fazendo com que ganhassem mais duas cadeiras. Já para o centro esquerda, eles ganhariam mais quatro cadeiras, deixando o bloco, contando com o apoio da Lista Unificada, com 58 cadeiras.

Neste caso é preciso compreender como é que Liberman se comportaria, já que ele com suas 8 cadeiras, seria quem poderia decidir que tipo de governo seria formado. Ele vem sendo intransigente em não sentar com os partidos religiosos, o que é recíproco. Se continuar assim, não existe chance para a formação de um governo de direita liderado pelo Likud.

Liberman também diz que não senta em um governo apoiado pela Lista Unificada, a quem chama de quinta-coluna. Com esta negativa, sem chance de um governo de centro-esquerda mais Liberman.

Tudo isto muda se Bibi deixar de concorrer. Ele precisa formar um governo para poder postergar seu julgamento. Aqui a imunidade é dada para um político por uma comissão da Knesset. Se ele tiver maioria nesta comissão, tem garantida sua imunidade. Sua obstinação em se manter na liderança do Likud e consequentemente ser o indicado pelo partido para Primeiro Ministro se deve exclusivamente a este problema pessoal.

Sem Bibi na equação, até mesmo um governo de unidade entre o Likud e Azul e Branco se torna possível. Poderiam até mesmo acrescentar outros partidos, dependendo da nova configuração de cadeiras depois da eleição. Lieberman é o primeiro a oferecer seu partido e seu apoio.

Vamos ter de aguardar o andar da carruagem nestes próximos 80 dias que antecedem a eleição marcada para o dia 2 de março de 2020. Dizem que o tempo é o senhor da razão. Se for assim, esperamos que os movimentos sejam em prol do país que se encontra semiparalisado sem orçamento para o ano que se inicia. Se três eleições consecutivas já deixaram os políticos descréditos, imaginem uma quarta, quinta…