Samba Perdido – Capítulo 1

Capítulo 01 

 

“No início Deus criou os céus e a terra.”     Torá – Bereishit

Como tudo que envolve o destino, o caminho de Rafael para o Brasil foi conturbado. Tudo começou nos anos 1930 quando ele mal sabia onde o país ficava. Uma explosão de irracionalidade estava varrendo a Europa e criaria, entre outros horrores, a “solução final” proposta por Adolph Hitler para a sua gente. Essa ideia devastaria sua família no sonolento interior da Polônia. Dois terços dela – seu pai e sua mãe inclusive – acabariam, sem culpa nem compreensão, vítimas do delírio supremacista.

Antes disso, pouco depois do fim da Primeira Grande Guerra, Rafael saiu do seu vilarejo, Krosno na Galícia Polonesa, para tentar a vida em Berlim, na Alemanha. Enquanto os vitoriosos impunham sanções humilhantes aos vencidos e os bolcheviques se instalavam no comando da Rússia prometendo revolução pelo mundo afora, ele testemunhou o nazismo se rastejar para dentro da alma do povo a sua volta. Nos meados da década a situação piorou. Os comícios do racista histérico de bigode retilineo passaram a atrair milhões. Com o apoio da população, os mais radicais passaram a atacar judeus nas ruas e a pintar estrelas de Davi nas vitrines das suas lojas. Em Berlim, o olho do furacão, o ódio se institucionalizou e as autoridades passaram a criar leis excluindo “inimigos do Reich” da vida pública. No seu caso, o absurdo era mais óbvio porque sendo louro de olhos azuis e um sujeito altivo que gostava de andar alinhado, era confundido toda hora com um ariano legítimo.

Quando a situação se tornou irreversível, ele e seus dois irmãos se mudaram para a Holanda. Em Amsterdã, como na história dos três porquinhos, nosso já não tão jovem herói assumiu o papel do irmão trabalhador enquanto o mais velho, Ziesch, arrumou um bom casamento e o mais novo, Heimish, caiu na esbórnia. Porém, em maio de 1940, com a neutra Holanda prestes a ser invadida pelos exércitos nazistas, o turbilhão voltou ao seu encalço.

Rafael sabia bem que a SS não estava para brincadeira. Um ano antes, os alemães haviam conquistado sua terra natal. Temendo o pior, ele passou pela experiência dolorosa de ter que cruzar a Europa livre para ver seus pais, agora impedidos de sair do país pela administração nazista, talvez pela última vez. No posto de fronteira, dos dois lados, soldados nervosos patrulhavam o arame farpado em meio à neve num clima de pré-guerra, Sem a possibilidade de atravessar, Rafael teve que se contentar talvez se despedir de Toni e de Wolf de longe e acenar.

Sua premonição se provaria correta. Algumas semanas mais tarde seus pais foram isolados do mundo. Primeiro, foram deportados e trancados num gueto e mais tarde transportados como gado para um campo de concentração, Auschwitz, de onde só sairiam como cinzas flutuando no ar.

*

De volta à Holanda, na véspera da invasão, Rafael conseguiu comprar passagens para um navio com destino à segurança da Inglaterra. Na hora H, com aviões dando rasantes por cima das casas, sons de sirenes rasgando o ar e o rugido do assalto à cidade se aproximando, os dois irmãos se deram conta de que Heimish, o terciero, tinha sumido. Em vez de correr para o porto, saíram feito loucos atrás dele. Quando perceberam que não havia como encontrá-lo, o navio já tinha partido.

Desesperados, foram para o cais, agora a única possibilidade de fuga. Lá, em meio ao caos, Rafael deu um jeito de comprar um bote de pesca. Naquela frágil embarcação de madeira, ele e a família do irmão sairam remando para o alto-mar. Já distantes, pararam​ para assistir, incrédulos, a vida que sempre conheceram desaparecer em explosões no horizonte. Sem saber se tinham dado azar ou sorte de terem conseguido fugir, partiram em silêncio sabendo que dali em diante estariam entregues ao destino. O cálculo era que na debandada, um barco maior os recolhesse. No entanto, dez longos dias e noites se passaram sem comida ou bebida a bordo e nada de outra embarcação nem de algum sinal de vida no vazio do mar do Norte.

A noção de onde estavam e para onde iam dependia de Eli, o filho de quatorze anos de Ziesch. Tido como o malandro da família, principalmente depois que um vizinho veio reclamar que o menino tinha deflorado sua filha adolescente, ele havia aprendido nos escoteiros a se orientar pelas estrelas. Apesar daquele conforto inútil, o clima era de ansiedade, fome, sede e desorientação. Resignado com o inevitável, Rafael gravou seu nome na madeira para que soubessem de quem seria o corpo quando o encontrassem. Na décima manhã, a esperança apareceu na forma de um avião militar. Esperto, o garoto teve a ideia de usar um espelho para refletir a luz do sol nos olhos do piloto. Funcionou. A aeronave fez um círculo em torno do barco. Por sorte, era britânica.

O piloto apontou para a direção que tinham que seguir e deve ter avisado seu comando porque a marinha real enviou um navio para o resgate. Usando o que restava das suas forças, os naufragos voltaram a remar rumo à sobrevivência. Não tardou para que vissem um pequeno ponto no horizonte. A bordo do navio de guerra, a tripulação teve que agir rápido pois estavam próximo de um campo minado. Um atraso de algumas horas teria impossibilitado o resgate e teria significado a morte em alto-mar, quer por explosão, quer por inanição. Durante a operação, aviões alemães atacaram o navio matando alguns marinheiros. Devemos agradecer e admirar esses heróis anônimos. Sem o seu sacrifício e sem a humanidade da tripulação essa história nunca teria acontecido.

seguir

prefácio

Um indecoro carnavalesco

Um ano atrás, segundo turno chegando e eu fazia um vídeo onde contava a fábula do escorpião e o sapo. Em resumo, o sapo não acreditou que a natureza do escorpião pudesse falar mais alto.

Eis que a Folha de São Paulo nesta semana, publica um editorial onde em resumo, nos dá a entender que não acreditou na natureza do Bolsonaro. Achavam que ele como presidente honraria o cargo, deixaria de ser misógino, racista, homofóbico, extremista de direita, e passaria a respeitar a imprensa.

Ora, sejamos francos, vocês da FSP não podem ter sido ingênuos a este ponto. Vocês sabiam exatamente o que estavam fazendo quando apoiaram o golpe contra a Presidenta Dilma, elevaram o Temer a presidência e apoiaram este que agora lhes dá uma banana por dia em praça pública e xinga sua repórter no nível de uma roda de bêbados nos confins do Brasil.

Por uma suposta ilegalidade que se mostrou uma completa farsa, vocês pediram o Impeachment da Dilma. O que está faltando para vocês começarem a mesma campanha contra Bolsonaro. A total falta de decoro para o cargo que ocupa, envergonhando a todos os brasileiros parece que não é suficiente. O país sendo governado aos trancos não importa. A falta de apoio político no Congresso não lhes diz respeito. A humilhação a que ele submete a imprensa e seus repórteres vocês respondem com editoriais de lamentação e o nomeiam “chefe de um bando”. Façam o favor, tenham vergonha na cara!

É lamentável que não tenham aprendido com a história. Tudo o que a ditadura fez com a imprensa não lhes ensinou nada sobre o que significa uma imprensa livre em uma democracia. Ninguém deveria estar acima da lei, mas este Bolsonaro como presidente, assim se sente e vocês contribuem muito para isso. Quanto mais ele os defenestra, mais vocês se submetem.

Para sorte de vocês chegou o Carnaval. Ao menos por uma semana vão poder se lavar das bananas que receberam. Tomara pudessem aproveitas estes dias para fazerem também um exame de consciência e terem a decência de se posicionar ao lado do povo brasileiro, saindo de uma vez, desta fantasia corporativista que tão bem os protege.

O Brasil vai parar para a folia do Carnaval, mas a falta de decoro deste presidente promete não silenciar. Não deve nos dar sossego nem mesmo neste feriado e a qualquer momento virá mais uma barbaridade.

Por enquanto deixo com vocês aquela marchinha antiga que não me sai da cabeça nestes dias, “Doutor, eu não me engano, o Bozonaro é Miliciano”.

Bom carnaval a todos.

Fora de controle

Para completar a “semana jurídica” onde tivemos o juiz federal Bretas (RJ) adulando Bozo em cerimônias públicas, o que fere o código da magistratura, e Moro jogando Lula no alçapão da lei de segurança nacional (até onde sei a PF rejeitou a queixa), a presidenta da 1a. câmara do TRT Região 15, Dra. Olga Aida Joaquim Gomieri disse ser ‘fãzona’ do presidente, que ‘está brilhando’, ‘com muita garra’, fato que foi filmado em plena sessão de julgamento, algo que em uma visão nem tanto alargada fere também o código da magistratura além de ferir o princípio constitucional da impessoalidade na função pública e da isenção na jurisdição.

Não há muito tempo, a desembargadora Dra. Marilia Castro Neves, do RJ, ofendeu gravemente Marielle Franco, acusando-a de ser “engajada com bandidos”, o que lhe valeu a condição de ré por crime de caúnia.

A densidade crescente de maus comportamentos de magistrados, sua ousadia, e a natureza das lesões aos códigos públicos, à Constituição e a qualquer código de ética de um regime democrático de direito, mostram que está em curso uma verdadeira epidemia de algum tipo de desordem cognitiva caracterizada pela incapacidade de compreensão e adequação de comportamentos e instintos atávicos dessas senhoras e senhores.

É claro que o número de ocorrências deste tipo que vêm a público não é em si mesmo alarmante. Mas temos que considerar, como em qualquer dinâmica sócio-cultural, que a aberração que chega à observação plena da sociedade é um mero sintoma de uma condição subjacente de dimensões difíceis de se avaliar.

Como exemplo comparativo, o recente episódio do ex-secretário da cultura do governo federal entoando Goebbels ao som de Wagner postado em imagem rigorosamente construída à semelhança do regime nazista é também sintoma do aparato ideológico subjacente que criou todas as condições para que aquilo ocorresse, o que envolve um grande número de pessoas dos mais variados níveis hierárquicos.

E se temos que nos lembrar do passado nazista, temos que também lembrar que a máquina nazista apoiou-se fortemente no judiciário alemão da época. Em outras palavras, toda a construção nazista foi feita rigorosamente dentro da lei e julgada inocente.

Para muito além do caráter picaresco ou ridículo das cenas que vimos observando, o cenário mostra que pessoas investidas do poder de dizer à sociedade o que é certo e o que é errado, o que é legal e o que é ilegal, o que é criminoso e o que não é, estão com seus sistemas internos de pesos e contrapesos bastante desregulados, o que é um risco gravíssimo à democracia, o que não é tão novo. Talvez a Operação Lava-a-Jato possa ser mesmo vista aos olhos da história como verdadeira inauguração de era.

Sobre a incapacidade europeia de compreender a alucinação brasileira

Quando eu soube que o Mauro Nadvorny havia criado este novo e muito importante espaço na internet destinado à voz da Esquerda Judaica, e estava convidando outros ativistas a produzir para este juntamente com ele, me perguntei sobre como eu poderia colaborar. Refletindo sobre isto, e levando em consideração que já escrevo artigos e gravo vídeos para outros jornais e canais da Resistência Brasileira, surgiu-me a ideia de produzir aqui textos mais espontâneos, que relatem passagens interessantes ocorridas aqui na Europa (vivo em Hannover, Alemanha), ou opiniões menos analíticas e minuciosas, e mais despretensiosas e instintivas.

Vamos ver no que dá?

Pois bem, hoje eu gostaria de contar a vocês sobre o “desafio” que enfrento todas as vezes que procuro descrever a um alemão (ou a algum europeu de modo geral) a respeito da absurdez dos fatos que ocorrem no campo político do Brasil hoje em dia.

Quando estou em vias de começar a explicar a colegas sobre algum evento brasileiro, já suspiro, pois sei o que me espera. Além dos choques culturais que nunca permitirão que um europeu compreenda que movimentos políticos inventariam e promoveriam mentiras tão baixas como “kit gay” e “mamadeira de p…”, há também no cidadão do velho mundo uma completa incapacidade de assimilar alucinações em um nível que – aparentemente – só ocorrem no Brasil. “Jesus na goiabeira”, “menina de rosa, menino de azul”… É demais para os gringos. “Empregada doméstica ia à Disney”… Eles nem ao menos sabem o que é empregada doméstica (e nem o que é a neo-escravidão ou escravidão moderna).

Desta forma, após algumas tentativas desesperadas de relatar a colegas sobre os inacreditáveis eventos que começaram a se intensificar no Brasil em 2018, desisti de tentar “impressioná-los”. Escrevi entretanto uma formal carta aberta, lida em público na Universidade de Música de Hannover (onde sou professor e pesquisador), carta esta que continha as declarações mais palpáveis do atual presidente (“negros pesados por arroba”, “não te estupro porque você não merece”, “filho gay é melhor morto” e por aí adiante). Esta carta pareceu surtir algum efeito nos ouvintes. Ainda assim, meu trabalho de conscientização do povo daqui sobre o terror que o Brasil vive, é realizado a passo de formiguinha. Mas sigo em frente, pois sei que não haveria de ser diferente.

Enfim, no mês passado, decidi contar aos colegas o mais recente “causo” brasileiro, afinal este teve tudo a ver não somente com a história dos judeus, mas com a dos alemães também. Dispus-me então a explicar que o então Secretário de Cultura, escolhido pessoalmente pelo presidente, havia se filmado proferindo um discurso copiado de Goebbels de forma praticamente literal.

O rosto de meus colegas sugeria que por suas cabeças passava algo do tipo:

-“Acho que o Jean está gozando de nossa cara… Ele acha que somos bobos de acreditar em algo assim?”

Acrescentei então que no cenário do vídeo, cuidadosamente preparado, havia também a foto do Führer brasileiro e a bandeira nacional, exatamente como mandava o figurino hitlerista.

-“Talvez o Jean esteja confuso… Deve ter sido um vídeo de sátira, um esquete… E o Jean provavelmente não saca nada de comédia…”

Prossegui e relatei a cereja do bolo, mencionando que a trilha sonora era a música de Wagner.

-“Ah, o Jean está querendo impressionar a gente, pintando o terceiro mundo como um lugar selvagem, onde políticos podem emular Hitler em plena luz do dia…”

-“Nem o Trump (este nós conhecemos!), que é completamente lunático, fez coisas assim… Todas estas histórias que o Jean nos conta são meio mal contadas…”

-“Além do mais, o Jean é judeu, sul-americano e artista! Com esta combinação, dá para esperar histórias doidas mesmo!…”

Bem, ninguém me disse nada disso, mas é a impressão que tive, rs. Só ficaram me olhando com uma expressão de ponto de interrogação misturada a um ceticismo do estilo “essas histórias não pertencem ao nosso mundo”.

Diante da reação deles, acabei sorrindo/rindo de maneira genuína, mas ainda assim um pouco irônica e desesperançosa. Posso culpá-los por não entender o que ocorre no mundo paralelo e distópico que é hoje o Brasil? Talvez um pouco, pela conhecida alienação “primeiro mundista”. Mas não muito, afinal, a realidade do país de fato não é crível. Parece um pesadelo maluco todos os dias.

Enfim, eu já devo ter escrito isto em algum outro texto, mas cabe escrever aqui novamente, já que estamos falando de europeus, judeus, nazistas, distopias, incompreensões, etc. Sempre penso muito em Stefan Zweig, tanto por ser um de meus pensadores preferidos, quanto por questões pessoais que fazem com que eu me identifique muito com ele. Pois bem, em 1941 ele escreveu o livro ‘Brasil: Um país do futuro’. É um livro que julgo “problemático”, com traços da ingenuidade e da incompreensão europeia sobre o Novo Mundo. Ainda assim, há nele pontos reais, foi escrito por uma grande mente, e fez com que por muito tempo perguntássemos a nós mesmos se a premissa seria verdadeira em algum momento.

Pois é, hoje o Brasil caminha em direção à sua consolidação como a capital mundial do Neonazifascismo. Parece que a intuição de Zweig estava mesmo muito errada. E espero de coração que os europeus – e todos os estrangeiros do mundo – comecem realmente a compreender o que está ocorrendo no Brasil e ajudem a Resistência Brasileira nesta luta que está sendo perdida. Afinal, em breve será tarde demais. E os “causos” que hoje conto por aqui serão compreendidos no futuro apenas como antigas passagens de uma irreversível história de destruição.

Eu saúdo o Papa Francisco

SHABAT SHALOM, PAPA FRANCISCO!

Sou judeu e pouco tenho a ver com isso. Mas por ser judeu humanista e universalista não posso deixar de comentar algumas coisas.

Ver católicos revoltados com o Papa por ter recebido Lula no Vaticano é realmente algo inusitado.

Espera-se de um católico (que conheça minimamente a Paixão de Cristo) e outras partes da Bíblia que tenha capacidade de refletir sobre o conceito de pecado, crime, condenação, e sobre o Jesus histórico ou o Jesus homem.

Espera-se de um católico que conheça o fato de que nenhum idiota chega ao papado. Que para sentar-se no trono de São Pedro há de se comer muitos pães amassados pelo diabo. É muita formação, muita informação, muita disciplina, muita continência, muita capacidade. Inclusive sobre leis.

Como judeu, eu poderia até ficar verde de raiva e de sede de vingança contra a Igreja Católica. Mas meu tempo e lugar é outro. O Papa Francisco também está em outro tempo e lugar. Temos a felicidade e o privilégio de poder vê-lo à frente do Vaticano, pedindo perdão pelos erros do passado e lutando para corrigir os atuais.

Assim, é difícil imaginar-me como católico e não me sentir verdadeiramente intimado a uma reflexão profunda sobre o fato de o Papa Francisco receber Lula. Se sou católico observante e conhecedor da Igreja e do Papa, sou obrigado a rever meus conceitos e ideias preconcebidas sobre Lula quando o Papa o recebe. Na realidade, quando o Papa recebe Lula, ele convida todos os católicos que não gostam do Lula a fazer isso. Afinal, tenho que ter como pressuposto fundamental que o Papa tem conhecimentos, experiências e uma capacidade que eu não tenho.

Se como católico, coloco-me acima do Papa, é por que nunca fui católico. Não aprendi nada. Estou condenando uma pessoa simplesmente por que outras o condenaram. Isto, a Bíblia chama de “fofoca”. E penaliza gravemente, especialmente aos judeus, uma vez que este regramento é da Torá, ou Pentateuco, parte das Bíblias cristãs e judaicas.

O Papa sabe que boa parte da Lava-a-Jato é fofoca. O Papa sabe o que é LAWFARE e está protestando contra isso. Para tomar esta posição, ele, além de ser muito sábio e corajoso, está muito bem assessorado. Muito melhor do que pseudocatólicos hidrofóbicos e ignorantes.

Eu saúdo o Papa Francisco! Muito obrigado pela sua coragem!

Chic é ser desonesto

O PADRÃO MUDOU. CHIC É SER DESONESTO.
 
O assim chamado filósofo Luiz Felipe Pondé brinda-nos hoje, com seu artigo na Folha/UOL, com uma verdadeira ode ao pseudoevangelismo que assola o Brasil, defendendo a política pública proposta pela Ministra Damares, que é a da abstinência sexual como forma de prevenção de gravidez precoce e outras questões de impacto social.
 
Pondé defende que as igrejas evangélicas formam um poderoso vetor de organização social, que na sua descrição, “adiar a vida sexual, principalmente das meninas de classes sociais vulneráveis, é uma ferramenta comportamental de grande uso para evitar a gravidez indesejada, a violência contra a mulher, filhos abandonados que migram para o crime”.
 
Alega ainda que diante da “falência total do estado” as igrejas vem sendo ferramentas de organização de vidas”, e que “tem alunas que contam que seus pais, evangélicos, mantiveram-nas afastadas do destino mais comum de suas amigas, o de envolverem-se com traficantes que logo são assassinados e deixam filhos órfãos”.
 
Ele apoia a política de Damares, em síntese.
 
Como assim? Pode um professor de filosofia de nível universitário, pós-graduado e titulado, defender uma política pública sobre a qual, confessadamente (pela equipe da Ministra Damares) não há evidência científica alguma sobre sua eficácia?
 
Pode um professor de filosofia aceitar que o tipo de neopentecostalismo praticado no Brasil seja uma boa (e única, a julgar pelo seu texto) forma de se preencher os vazios do estado?
 
Pode um professor de filosofia induzir seus leitores a acreditar que a simples repressão moralista e vazia de valores sociais estruturantes é capaz de diminuir a violência contra a mulher, logo em um momento em que, associado ao crescimento do neopentecostalismo brasileiro, a violência contra a mulher e os feminicídios crescem epidemicamente?
 
Pode um professor de filosofia tentar convencer seus leitores com uma absurda visão racista que o crime nasce nas classes mais vulneráveis, quando vemos a violência miliciana crescente e oriunda de ex-oficiais e graduados das polícias?
 
Amigas e amigos, estamos diante de uma das maiores fraudes intelectuais já vista por estas paragens. Sabemos muito bem que a violência contra a mulher (e também contra os LGBTI) é na maior parte originária do moralismo de fundamento neopentecostal (não exclusivemente) que por sua vez fomenta a sociedade patriarcal machista e intolerante. A visão de mundo provida por boa parte destas igrejas forma pessoas limitadas a um tipo de visão de mundo em detrimento de outras, restringindo assim, especialmente so jovens, o acesso a experiências e diálogos com outros setores do conhecimento e com formas de amadurecimento psicológico, social e político.
 
Não se trata aqui de promover ódio contra a religião ou de negar seu valor como forma de organização social e cultural. Trata-se de combater a visão de que a religião e seus valores, em um dado momento de uma nação é a única forma (e como já disse, sem demonstração científica) de combater certas mazelas da sociedade, bem como combater a visão racista e restrita sobre a origem de nossos males.
 
O pior de tudo, a sociedade está engolindo este tipo de fraude e ainda paga por ela. Parece que a desonestidade intelectual passou a ser um valor capitalista, definitivamente.