Poeta Noturno

Poeta Noturno

Noite de festa alegria, família reunida e poesia

Ano novo chegando

Cá estou, só.  Na companhia da solidão,

Não quero ser o poeta noturno

Que se enfada com o calor do verão,

Que faz conjecturas políticas, com rimas caducas

E bebe na utopia da revolução,

Ano novo chegando,

Eu não quisera ser o poeta noturno

Que está acordado a meia noite do século XXI

Contando estrelas

Do Cruzeiro do Sul

 

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Não quero um país, mas o mundo. Não quero uma língua, mas várias (de carne, letras e fogos). Não quero uma bandeira nacional (e, muito menos, um hino nacional), mas a mente aberta para compreender as dores da humanidade. Não quero fronteiras, mas jardins imensos. Os  jardins são prazerosos; as fronteiras, destrutivas.

Não quero a teologização do mundo, mas a sua espiritualidade. E a espiritualidade não se encontra na Teologia, mas na Poesia, na Música, na Pluralidade, na Diversidade.

Não quero esses políticos tacanhos, mas Política, grandiosa e eloquente.

Não quero comer ou ser comido por alguém, mas amar intensamente ao ponto de aproximar almas e corpos e despertar prazeres diversos em todo percurso. Eu quero o prazer do encontro de almas e corpos libertos, libertos pelo amor, libertos para o amar. Não quero a tristeza das Academias, mas a alegria da simplicidade. 

Não quero falar ou ouvir sobre pessoas que não estejam presentes, mas apenas com pessoas sentadas para o café – um demorado café, com as quais eu possa rir, chorar, avançar, mergulhar, aprofundar, verticalizar ou simplesmente falar e ouvir de poesia, música, dança e de amores libertários.

Eu preciso de muito mais verduras e frutas, e menos – ou nada, de animais assassinados e seu sangue sobre a mesa. Não quero a financeirização do mundo, mas os valores que norteiam a economia. Não quero a escravização da terra, e sua exploração, mas a libertação da terra e seu uso familiar, solidário, comunitário, mutualista, inteligente, inclusivo. Quero a terra que produz o pão; não a especulação financeira.

Não quero o Ensino à Distância, mas Presencial, de encontros circulares, dialógicos, alegres. Não quero uma foto diante de mim, mas faces verdadeiras, que riem e choram. Não quero matriculados diante de mim (com seus celulares fiscalizadores ou emburrecedores), mas Estudantes, Estudantes profundos, com sua liberdade para ouvir, falar, ler, debater e compreender um mundo plural.

Não quero um Deus acima de tudo e de todos (esse Deus não presta!), mas quero a Alma humana e seus Atos de bondade, praticando, diuturnamente, a justiça, a igualdade e a solidariedade! Quero espaço para todos os Deuses e Deusas criados pela sensibilidade humana (e nenhum deles maior ou menor!).

Enfim, eu quero Poesia, não Poema!

Pietro Nardella-Dellova

imagem: Over the Town 1918 Marc Chagall

Desaguar

Desaguar

É preciso desaguar amarguras num lago de belas canções

E das agruras fazer doces composições

E da solidão fazer o flerte

Em pingos de emoções

No anoitecer mirar o cintilar da paisagem

Contar casos, bobagens…

Desaguar.

 

Para as mulheres de preto com algum toque vermelho… (um soneto completo e um poemeto de luta)

Para as mulheres de preto com algum toque vermelho… (um soneto completo e um poemeto de luta)

há uma certa beleza e há encanto

nessas Mulheres que se vestem,

assim, de vermelho e, no entanto,

sem pressa, em prazer, se despem

nos corredores, bibliotecas, Cafés…

e levantam os braços em vitória,

e lutam, e dançam sobre os pés

como quem levita e faz história;

e, quando em preto, há poesia plena

na delicadeza dos toques em vermelho:

porque há luta sem ódio – luta serena,

luta constante de quebrar o espelho:

é vida somente de beleza preto-rubra

e, pois, que eu viva e ela se descubra

sempre, em cada rua, avenida, praça, vila, bairro, sol e chuva, com uma canção de amor, nenhum hino, marcha, ódio ou grito, caminhando pelos mesmos sonhos anarquistas: para todos e todas, o pão e a uva, sem qualquer opressão, morte, reza, choro, dor e espírito aflito…

© Pietro Nardella Dellova

 

Imagem: L’Origine du monde, de 1866, de Gustave Courbet

A mulher feita de gozo e tudo azul…

A mulher feita de gozo e tudo azul…

A mulher

que vem pelo corredor

no vento, fogo, carne e ardor,

me leva pelos céus do seu rosto

e me beija com beijo de carne e gosto

voando nos azuis dos maiores cantos:

mulher de amar entre livros e aos cantos

atrás da porta, no pátio e sob escadas:

esta mulher, a mais branca das fadas,

a mais ungida de saliva, urros e vinho,

do umbigo mais ébrio e do maior carinho,

do maior sorriso, do gozo mais vermelho,

da beleza jamais vista em qualquer espelho

esta mulher

sem véu nem túnica

da boca mais lúbrica,

é tudo, é louca,

é céu e inferno: é única!

diante de quem,

largo o mundo, vírgulas e pontos,

assim, sem freios, sem Éden e, tontos,

no mergulho de frase livre, libertária,

sem fim ao fundo do seu mundo,

e

desde o seu desavergonhado rosto

beijo com beijo de carne e gosto

e

beija com beijo de carne e gosto

no gozo multifacetado sem receios

gozo de música sem partitura

gozo de ruptura

gozo de dança de corpo colado

que avança insano

dos

pés pernas jardim flor

braços umbigo cabelos e seios:

gozo de gozo integral de gozo humano!

© Pietro Nardella-Dellova

in “A Mulher Feita de Tudo Azul” (traduzido em português do meu poema italiano “La Donna D’Amore Blue“, 2001

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imagem: pintura de Iza Borgonovi Tauil, Rio de Janeiro

Aquela mulher, plena e liberta

Aquela mulher, plena e liberta

Aquela mulher, superior, a quem amei,
tanto amei, profunda e loucamente,
que morrendo e nascendo mil vidas,
em gozo que alegremente me inunda

em poesia, música e bocas incontidas
outra não amaria, assim, plenificado,
entregue, dado, vivo, como a ela me dei!

Aquela mulher que andava pelos corredores,
dançando, única e especialmente feminina,
e a cada passo se lhe abriam os caminhos
como a nenhuma outra dos meus amores;

Aquela mulher que me mostrava a estrela
e versos de uma língua que eu desconhecia,
e me levava, pela mão, entre linhas da literatura
abrindo meus olhos juvenis para compreendê-la;

Aquela mulher que cantava o Hino ao Amor
no seu melhor francês, feito de alma e corpo,
com a voz que expandia espaços e poesia,
e cantava rindo, e chorando, como quem voa
e amontoa brasas
fez-me ver as asas, então, asas que eu tinha
e me deu sua flor: “vem, beije-me na anarquia

Aquela mulher, amada, muito amada, diria,
cobrindo-me de beijos e alegria em cada canto
e que, enquanto amada, ria em seu mundo,
feito de livros, e textos, e linhas, e letras – e alma,
e corpo, e seios, e jardim, e flor,

rosada e aberta,
Fez-se, assim, Poesia, fazendo-me Poeta,
E me ensinou o mergulho no seu acalanto;

Aquela mulher, superior, que me ensinava versos
e dizia: “vai com estes versos e descobre a Poesia“,
como quem conhece os caminhos do mundo,
e transitava entre personagens como quem enxerga,
e, outra vez, dizia: “ande, voe, mergulhe e crie“,
desvendando em cada encontro os meus universos;

Aquela mulher infinita
que nos primeiros versos
não pude mencionar
deu-me, no entanto, a língua e o mar,
e o ar que eu não tinha,
mostrou-me o amor profundo,
e o caminho de sua vinha,
lambeu minhas asas,
abriu-me seu mundo, fez-me seu
e se converteu em cada letra e ponto,
honra e glória,
a quem, de longe, dediquei cada vitória
e a bondade do texto,
e a razão do meu sexto
e interminável dia de construção:
aquela mulher, então, que não pude mencionar,
aquela mulher, eu amei em verso e letras, desperto,
entre as quais ela me levou, superior, a passear
em um voo vermelho e liberto!

A ela, Aquela mulher,
esta mulher, ainda, hoje,
o meu vinho, o meu ninho,
o meu corpo, os meus joelhos nus,
os meus olhos vermelhos,
a minha boca, sonora e úmida,
a minha língua no lábio que aflora
a cada toque em gemido múltiplo e vário
e minha letra desenhando seus espelhos
na carne louca de qualquer carne amando
em um canto de gozo vivo e libertário!

© Pietro Nardella-Dellova,

in “Porque Ela Me Ensinou a Língua”.SCARPE DA DONNA, 2012 (in press)

foto: by Alessio Delfino, Italy