A Mala Velha da Saudade

Trago uma mala velha,

Cheia de boas lembranças,

amigos, conversas, músicas, fé,
e canções do Belchior.

 

Trago uma mala velha,

Nela carrego toda saudade
que palpita dentro do peito,

Nela trago fotos na memória, a saudade que dói,

E os nossos sonhos para o pôr-do-sol da bela manhã.

 

Trago uma mala velha,

Sou um navegante de muitas léguas

Viajante entre tantos mundos

Não me julgue pelo sorriso

Nem pela lágrima,

Por tantas partidas sem despedidas …

 

Trago uma mala velha

Nela tenho um jornal

Com notícias bonitas
Mensagens de ano novo
e boas festas também.

 

Tenho,

Tudo aqui bem guardado
Na mala velha da esperança,

Os sonhos da infância, os medos de criança,

O manifesto pela paz mundial

e amor entre os povos,

O bálsamo para toda dor.

 

Na minha mala velha da esperança,

Trago os muitos planos

e toda incerteza do futuro,

E as angústias de um rapaz latino-americano

do interior .

 

Nela também trago o verbo amar:

Eu amo a vida, as pessoas,

dois dedos de prosa no bar

O abrir das flores,

Pétala a pétala abrindo na primavera,

As mariposas, as pernas das moças,

 

De todas as crônicas a mais bela é a vida,

De todas as poesias, a mais bela é a vida,

É um amor matreiro, é um conto ligeiro,

É um desaguar de boas lembranças,

É um rebento de saudade….

 

Flores…

Flores…

Foto de uma roseira do jardim da casa do autor.

Foto de uma roseira do jardim pessoal do autor.

Foto de uma roseira do jardim pessoal do autor.

Após o inverno vem o verão

Após o outono vem a estação das flores

Passado o tempo nublado

Vem o sol ao raiar da aurora

Já não haverá mais guerras,

Nem vis tiranias de outrora

As crianças brincarão pelas ruas

Foto de uma roseira do jardim pessoal do autor.

Foto de uma roseira do jardim pessoal do autor.

O poeta declamará ao ar livre seus versos de amor

O pintor registrará a felicidade estampada

das faces antes empalecidas,

A ciência servirá ao bem

Os sonhos serão outra vez possíveis,

Sonhos alegres, sonhos incríveis !

Toda inquietação cederá lugar à vida

E os passos cerrados do dia a dia

Já não serão contados pelo ponteiro do relógio.

A fome, a guerra e a pobreza,

A dor e toda tristeza cederão espaço às flores,

Ao perfume da vida, às mariposas de pétala em pétala,

Aos sorrisos das crianças, e aos beijos dos amantes!!

Terminal urbano

Paçoca, pipoca e cocada;

Criança peralta, moça bonita e catraca;

A fumaça que abate os pobres pulmões

Invade o ar

Como estes perfumes de moça.

Pessoas afadigadas entram e saem

Em grandes caixotes de metal

Com seus corpos cambaleantes

E ossos cansados,

Amontoa-se todos nestes caixotes motorizados

Umas chegam de muito longe

Outras não vão a lugar nenhum

Neste vaivém do terminal urbano

O homem da cocada passa gentilmente

Oferecendo os seus doces

Para os paladares amargos dos passageiros

Cada qual ao seu modo diz não

E talvez sim,

Cada qual carregando seus sentimentos

Quem saiba segredos, sonhos,

E talvez sorrisos disfarçados.

 

 

O nosso fado amor garboso

O nosso fado amor garboso

Hoje estou a embebedar-me

No vinho do teu amor fagueiro

que não canso de provar-me

Mergulho-me

na tua dorna

para ser pisado

pelos teus pés

O flâmeo que teu rosto

adorna!

estás a despir

então conheço

a tua verdadeira e bela forma

Na alcova do teu amor

fagueiro

aproveito o repouso

Aos teus lábios

provo o mais puro mosto

Ah o nosso fado amor

garboso!

Não és mesmo dócil?!

Na verdade és a edil

Que dá as ordenanças

A duquesa que está a eclipsar

As donzelas mais belas

do nosso universo

nem há palavras

para exprimir

e falar de ti

é preciso suprimir

o verso

Ou desaguar-me

no teu infinito

amor perverso

no qual

estou preso

acorrentado e

submerso!

No azul destes céus do rosto risonho

No azul destes céus do rosto risonho

No azul

destes céus do rosto risonho,

rasgados os véus,

eu crio o sonho – o sonho é branco

e um jardim de flores perfumadas,

os amores da amada

(do rosado, às vezes, cor de trigo)

(e ela me envolve em abrigo feito seda clara)

tão rara, tão alva e transparente de fios azuis,

que me guiam ao peito e aos seus rios e risos,

insinuantes e graciosos,

em que sou navegante pelos céus azuis da amada

que vem como brisa,

porque o seu Poeta tem o amor mais doce,

o amor mais puro, o amor mais delicado,

o amor mais inocente,

o amor mais liberto e intenso – amor-suavidade!

E este

amor não me faz pedinte,

não faz de mim

um homem triste,

este amor me faz completo:

um Homem-Poeta!

Sou, então,

homem livre

livre para voar e estar,

e andar:

livre para viver

e receber da natureza a Poesia

e ter

liberdade para respirar

o ar que se me entrega

e não quero destruir notas tais,

maravilhosas.

Sou

homem livre

para pensar

e não pensar

e seguir

o caminho que seguir

e rir com voz alta,

livre para estar

além da pauta…

Sou homem livre

da humana morte

e não espero ser forte

espero

ser.

O amor do Poeta é amor que humaniza

porque

aquela mulher

bebeu do amor,

sentiu

todos os poros

e converteu-se

em Mulher-Poesia

na experiência de terra-céu-encanto….

Adiante estou leve,

pois levo comigo a certeza de que tenhas sido amada,

muito amada, amada plenamente na leveza…

agora, trago-te uma vez mais a gratidão

por ter amado mulher, assim, tão única, tão linda, tão vida…

Vai agora, amor – vou também,

abre bem as tuas asas

e voe como águia nas alturas,

e sejam tantos os mundos,

tantas serão as criações do amor

com a mulher amada,

cujas faces trazem a lua e a descoberta!

© Pietro Nardella-Dellova

Conversa de Corredor, in “A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos”. São Paulo: Ed. Scortecci, 2009, p. 73-86

La sensación del mundo 

La sensación del mundo 

Carlos Drummond de Andrade na sala de seu apartamento em 1982, prestes a completar 80 anos Foto: Rogério Reis / Tyba / Rogério Reis / Tyba

No son palabras, el dolor o grito

O cansancio,

¡Que traigo conmigo en mi pecho!

Lo que me trae, lo que traigo,

¡Es el sentimiento del mundo!

Hay sonrisas y abrazos,

Más traigo sólo la sensación del mundo,

Tampoco son las noticias de las guerras en el este…

¡¡No!!

deseos de la revolución

o la poesía de Drummond,

Hay gritos a medianoche o al mediodía de la humanidad….

Más, lo que traigo conmigo en mi pecho,

Es sólo el sentimiento del mundo

Hay CDs o viejos libros polvorientos en el estante…

Lo que traigo,

¡No! ¡No es una dolor tardia!

Tampoco se trata de una flor para mi amor

¿Lo qué llevo conmigo en mi pecho? ¿Lo que llevo en mis manos?

Es sólo la sensación del mundo

À Carlos Drummond de Andrade, inspirado no poema “Sentimento do Mundo” .