Remédio do tédio

O remédio do tédio é mais que uma rima, e, se não é uma solução, pode abrir uma janela para conversar sobre esse sentimento. O tédio é um sentimento, e a vida pode ser tediosa seja por momentos ou muito mais tempo. Além do que, com a falta de encontros, a falta de abraços, a carência dos amigos, em um país onde os cientistas são chamados de canalhas, diminuem as luzes do Cruzeiro do Sul. Entretanto, há surpresas, e há anos aprendi uma das mais importantes lições sobre um dos remédios ao tédio. Era uma mulher que tinha a tendência de queixar-se de seu passado, queixas de que fora injustiçada, desprezada, e repetia as mesmas histórias. Tinha dias que me entediava, pois quando ela começava a falar eu já imaginava o script. Um dia (ainda bem que tem esses dias), recebi um e-mail dela sobre uma consulta em que falou quase sem respirar. “Tu não imaginas o quanto tu me ajudaste escutando, mesmo quando falo de situações que já passaram, pois me faz bem lembrar e saber que tenho força e sonhos com a graça de Deus. E com tua ajuda NÃO desabo, e quando envio pensamentos positivos estou dividindo contigo”. O “não” em maiúsculas foi dela mesmo, então fiquei surpreso e entendi que estava me pedindo para não desanimar. A paciência é um remédio ao tédio e a vida toda.
É frequente um analisando ser grato por ter alguém que o escute, ainda mais estando angustiado, carente de alguém. Recordo quando em 1972 em Buenos Aires esperava os minutos para ir até a calle Arenales, no “barrio Norte”, para deitar e falar à minha analista. Sou grato por ela ter aturado as minhas repetições e os choros de estar em um mundo tão diferente do velho Bom Fim. Uma das etapas da vida em que mais se fala em tédio é na adolescência, mas as crianças também falam em se sentir entediados, assim como os adultos e velhos.
Meu neto José, de cinco anos, ia passar um fim de semana fora de casa e pediu, muitas vezes, que fossem levados seus brinquedos. Perguntei por que precisava tanto deles se iria passear na natureza, e ele logo respondeu: “Se precisar ficar no quarto do hotel, quero ter com o que brincar, pois senão fico entediado”. Perguntei o que é se sentir entediado, e ele concluiu: “É não ter nada o que fazer”. O tédio é um sentimento que expressa angústia, sensação de desgosto, vazio, aborrecimento, tristeza.
O Rodrigo falava pouco, e, quando perguntado por qualquer coisa, respondia sempre: “Mais ou menos”. Passar com ele uma consulta inteira era sempre um desafio de paciência, de suportar o tédio dele e o meu. Um dia, perguntei-lhe com o que brincava na infância e me contou que tinha um carrinho que adorava e andava nele desviando dos pilares do edifício. Então observei como antes ele brincava tanto, inventava o dia a dia e tinha alegrias só com um carrinho, e agora estava sempre no mais ou menos. Vi seu espanto e ao mesmo tempo o meu, por ter levado tantos meses para sair do tédio semanal do mais ou menos. Não recordo quanto tempo passou para dizer que comprara a melhor caixa para bateria da cidade, pois ele era músico. Disse então: “Enfim saíste do mais ou menos”.
O tédio não ocorre só em alguém, pois há reuniões familiares tediosas, e uma partida de futebol pode ser chata. Também um país tem tempos autoritários, mentalidade negacionista (quase meio milhão de mortos), tempos entediantes. Incrível como aqui tem danças e músicas empolgantes, uma natureza de rara beleza (sendo queimada) e gente que só pensa em destruições e lucros. Já anunciaram os clarins a invasão dos armados amados pelo agropop e os donos do poder. Importante é não perder a poesia, não perder o humor, não perder a memória, que são alguns dos remédios para diminuir o tédio e elevar a dignidade.

Estou com Naomi

Espanto. Crítica muita. Solidariedade pouca. A atitude da tenista japonesa Naomi Osaka, abandonando o torneio de Roland Garros, suscitou pequena tormenta. Osaka, uma das melhores tenistas da atualidade e conhecida pela dificuldade de falar em público, alegou, entre outras coisas, que não suportava a obrigação de participar de entrevistas coletivas após cada partida. Disse que as perguntas eram repetitivas e invadiam sua privacidade, afetando, inclusive, seu equilíbrio emocional. Recebeu multa salgada e foi ameaçada de excomunhão, digo, de ser eliminada de outros torneios de ponta. Os patrocinadores não engoliram a independência da atleta.

Gosto de tênis, da plasticidade do esporte. Sempre que posso, assisto as partidas dos bons torneios. No entanto, sei que, como em tudo que mobiliza quantias milionárias, os envolvidos deixam de ser apenas protagonistas do jogo. São também personagens, garotos-propaganda, obedientes seguidores de regras que beneficiam os investidores. Só em Roland Garros, serão distribuídos 34 milhões de euros em prêmios. É uma sociedade do espetáculo e os rebeldes são sumariamente alijados. Como costumam repetir os patéticos comentaristas de futebol, os jogadores são “peças de reposição”. Não se diferenciam de pregos e arruelas.

Osaka teve coragem de desafiar uma regra inaceitável para ela. Foi punida e, simbolicamente, à sua maneira e em circunstâncias diferentes, repetiu o gesto de Muhammad Ali. Em 1967, Ali se recusou a servir ao exército norte-americano que agredia o Vietnã. Na ocasião, disse: “Por que eles deveriam me pedir para colocar um uniforme, ir a dez mil milhas de casa e atirar bombas e balas nas pessoas marrons no Vietnã, enquanto as pessoas chamadas de ‘nigger’ em Louisville são tratadas como cachorros e negados seus direitos humanos básicos?”. Seu título de campeão mundial foi cassado e ele condenado a cinco anos de prisão.

Quero aproveitar para questionar as entrevistas, coletivas ou não, que se convocam antes e após os jogos. As perguntas costumam ser indigentes, padrão beócio, e recebem respostas de nível equivalente. À falta do que falar, os abobrinhas-profissionais resvalam para a vida pessoal dos atletas. Vai daí que, em 2004, por exemplo, perguntaram à então emergente tenista russa Maria Sharapova se ela gostava de saber que era uma espécie de “garota de calendário”, sobretudo na Inglaterra. Tudo a ver com a cena esportiva, não é mesmo? Neste ano, ficamos sabendo, pelos valorosos arguidores de Roland Garros, que uma tenista ucraniana é a “chefe” da casa, que outra, bielorrussa, adora certo restaurante em Minsk, e que um destacado russo aprecia sashimi de atum. Como é que eu, interessado nos pormenores de aces e estratégias de jogo, poderia dormir sem conhecer estes notáveis – e picantes – bastidores familiar-gastronômicos? Voyeurs de todo o mundo, uni-vos!

Jornalistas chapa-branca correram para desancar Osaka. Precisa curar aquela cabeça desmiolada, excretaram. Dou o maior apoio a quem busca terapia para enfrentar seus temores e dores. No entanto, quando se trata da área esportiva, é preciso acender a luz amarela. Não é demais lembrar o caso da seleção brasileira de futebol de 1958. Naquele ano, a CBD contratou o psicólogo João Carvalhaes para avaliar a condição emocional dos jogadores. Depois de ministrar-lhes testes convencionais, chegou à conclusão de que Garrincha não conseguiria enfrentar jogos sob pressão. Pelé, com 17 anos, não teria senso de responsabilidade para jogos coletivos. O resto é história. Garrincha e Pelé foram vitais para a conquista da Copa, com atuações antológicas. Estraçalharam esquemas táticos e defesas imbatíveis. O doutor, vejam só, não entendia nada de futebol. Os desviantes, os improvisadores, os imprevisíveis, driblam fácil os formulários-padrão.

Tenho grande simpatia pela atitude de Naomi Osaka. Me parece que, a depender dela, o tênis teria mais cara de Carnaval Atlântida, com os desconcertos de Oscarito e Grande Otelo, do que de soirées ornamentadas com gravatas borboleta. Mais driblador habilidoso, ensaboado, enjoado de marcar, menos “extremo desequilibrante”. Mais cara de gente, homessa!

Abraço. E coragem.

Quem somos nós?

“Eu É Nós” é uma peça teatral escrita e dirigida pela amiga artista Suzana Saldanha. O título é uma ponte entre o quem eu sou e o quem é nós. A ponte tem nas identificações sua sustentação, pois expressa a incorporação de fragmentos do mundo transformados pelo indivíduo que assimila atributos do outro e os transforma. Logo, cada um de nós se constitui, através das identificações, em cada um há uma pluralidade de pessoas psíquicas.
Para que a gente possa se entender consigo surgem questionamentos diante as encruzilhadas. Durante anos busquei responder perguntas sobre as identidades ilusórias e necessárias. Na adolescência, perguntei o que é ser judeu, o que é ser homem; já na faculdade o que era ser de esquerda (geração 68) e o que seria na vida. Na formação profissional irrompeu sobre o que é ser psicanalista. Percebi o quanto essas perguntas integram identidades, e como a evolução das interrogações contém certa rebeldia diante das certezas.
Pensar em nós é perceber que se nasce em uma família, indispensável para crescer, e logo vem a construção das amizades, os apoios indispensáveis para dar amparo e afastar a morte. Aliás, há uma história entre dois poetas amigos e a morte, que ocorreu numa manhã cedinho. Thiago de Melo (“Faz escuro mas eu canto”) chegou na capela do cemitério, e logo viu Maria Julieta, filha do Drummond, dormindo coberta de flores, e cabisbaixo, num canto, o pai velava sua única filha. –“Poeta. Você veio…” disse o amigo surpreso. Ambos ficaram de mãos dadas por um bom tempo. Quando Thiago ia se indo, Carlos ainda disse:- “Amigo…”. Nessa cena distante se evidencia o quanto cada morte importa e o quanto o número de mortos impacta, mas se perde o humanismo. É triste também imaginar o cotidiano sem os amigos, sem os laços que se constroem entre palavras e mãos dadas.
Quem somos nós? Não sei, mas lembro do quanto uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas segundo a tradição africana do Ubuntu. Uma vez por semana estamos aqui reunidos, somos fãs dos trabalhadores da saúde, dos artistas, dos cientistas, que em tempo recorde inventaram tantas vacinas. Também os vejo como democratas de raiz, contra a tortura e todas as formas de genocídio. São diferentes formas de ser humanista, enriquecer com a alteridade e caminhar em busca de um país mais justo. As fotos escritas que fiz sobre nós, não revelam os sintomas, os conflitos que na verdade expressam que somos humanos.
Imagino a gratidão aos que lutaram e lutam por um país melhor para todos e não só para alguns. Não ser indiferente às mortes, defender que os crimes contra a humanidade sejam julgados. É preciso entender os apoiadores do governo, e torcer por um despertar e o afastamento do mais cruel dos presidentes do Brasil. Além do que um governo justo deveria gastar muito menos com as Forças Armadas, o Congresso, o Judiciário, o Executivo, e muito mais na ajuda ao povo sofredor.
Os sonhos se fortalecem com manifestações públicas lideradas por jovens. Elas revelam que um gigante adormecido potente para se levantar contra o autoritarismo. Entre um encontro de dois poetas, uma manifestação pública liderada por jovens entusiasmados estão também grupos como esse. Todas as semanas a gente se encontra nas esquinas do Face formando pontes entre nós. As redes sociais amparam, são frágeis redes de segurança, apoio no luto pelos mortos e na luta para manter o humanismo. Viver é aprender, somos aprendizes de uma travessia por desertos e labirintos infinitos, por um amanhã melhor.

Insubmissão e humanidade

Da minha aldeia vejo o quanto de Terra se pode ver no Universo

Por isso a minha aldeia é tão grande

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura”

(Alberto Caeiro)

 

Não sei se todo mundo tem a lembrança da primeira noção de que a morte existe, mas eu me lembro perfeitamente  da minha. Tem gente que acha a infância uma fase linda e idílica, teimo em não concordar. Porque é o momento que você se sente existindo e tudo, todos os sentimentos, inclusive o estranhamento a vida e perguntas que depois você descobre que nem seus pais podem responder, te atormentam. As brincadeiras e as fantasias, para mim pelo menos, eram uma forma de não pensar naquilo que nem eu, nem ninguém, tinha respostas. Um interlúdio.

Eu tinha uma cachorra, a Petit. Ela acabou cruzando com o cachorro da vizinha e eu via sua barriga crescendo, sabia que em breve teríamos cachorrinhos. Petit pariu debaixo da cama. E eu, que nada sabia sobre a ferocidade das mães, ao protegerem seus rebentos,  mesmo quando são doces, como era Petit, quis pegar um dos filhotinhos recém-nascidos e por pouco não levei uma mordida. Um adulto me explicou que enquanto eles fossem pequenininhos, era para deixá-la amamentando em paz. Mas minha vontade era tão grande de pegar um filhote que desobedeci. Fui devagarzinho para a toca, e vi que havia  um filhote a parte dos outros. Sozinho, largado num canto,  enquanto os irmãos mamavam avidamente Senti um misto de pena, pelo abandono do bichinho, de alegria , porque poderia  ver e acariciar o filhote e uma certa raiva da Petit, como se ela estivesse excluindo um filho da ninhada por não gostar dele. Então me aproximei devagar, ela não rosnou e peguei esse filhote. Só que alguma coisa estava errada. Fiz carinho, ele não se mexia. Estava rígido. Tentei abrir os olhos e só vi opacidade. Tentei colocar em pé e ele caía. Ele permanecia imóvel.

Chamei meu pai , nem liguei que podia levar uma bronca , mostrei o cachorro e perguntei o que era. Eu deveria ter uns quatro anos, porque minha irmã era bebê e a Petit foi me dada exatamente pra aplacar meu ciúme. Meu pai,  gravemente, do jeito que mantém até hoje quando quer falar de coisas sérias, me colocou sentada na janela. Eu era tão pequena que minhas pernas passavam pela grade de ferro e eu ficava balançando-as. Nervosa, queria uma resposta  e aí veio uma explicação que nunca vou esquecer. ”Não tem jeito filha, ele nasceu doente,  não tem mais conserto, isso que é morrer”. Aquilo bateu forte em mim e lembro de ter chorado. Porque mesmo não entendendo muito bem, se isso aconteceu com o cachorrinho, acontecia com todo mundo. Achei injusto. Porque eu mal estava me acostumando com a vida, que sempre me causou estranheza e descobria, como já escreveu Clarice:” que também se morre”. Comovido com minhas lágrimas, o céu estrelado, ele apontou pra cima e falou: ”Ele agora virou aquela estrela ali, tá feliz.” Fiz de conta que acreditei. Mas no fundo senti uma enorme pena do meu pai, porque o ceticismo nasceu comigo e achava realmente  que ele cria naquilo. Nunca que um cachorro ia virar estrela assim, sem mágica, sem nada. Esse foi o dia que descobri que a vida tinha fim.

Aos poucos fui me acostumando a essa realidade. E com a idade fui vendo os mais velhos da família seguindo o curso natural da vida, outros indo mais cedo do que deveriam, mas há de se encarar. Nunca fui religiosa, nunca tive a experiência do religare, por mais que tenha me esforçado. Não creio em vida após a morte, mas claro que é assunto instigante. Como diz a sabedoria popular: ”Ninguém voltou para contar”. Eis que  outro dia caí num documentário da Netflix cujo tema era: pessoas que passaram pela experiência da morte por alguns minutos e voltaram.  Um caso que me despertou a atenção foi o de uma gringa, que praticava canoagem com o marido e estava atravessando  um rio perigoso em algum país da América Latina. Sei que apesar da perícia dela, não era amadora no esporte, acabou indo pelo outro lado do rio e foi jogada muito longe. Essa moça passou horas debaixo d’água com grande parte dos ossos quebrados. E ela falou que naquele momento, que não conseguia se mover, nem respirar,  ter visto os avós, sobre uma luz aconchegante e se lembra da hora  de um deles dizer após abraçá-la :”Ainda não é a sua hora”. Foi encontrada ,rolaram  varias coincidências como uma ambulância estar passando naquele lugar ermo quando retiraram ela do fundo e tudo foi documentado. Sua longa recuperação para readquirir os movimentos e tal . Aquilo me intrigou, porque eu estive perto da morte. Muito perto. Tive uma pneumonia, logo depois da minha filha nascer, na verdade já era sinal da artrite reumatoide, ainda não diagnosticada. E a bactéria me derrubou. Duas semanas de UTI, com o pneumologista, a infectologista e meus pais tendo certeza que dali eu não escaparia. Sono profundo, soube depois que passei por vários procedimentos invasivos, tudo que vocês estão vendo acontecer nas UTIs agora, passei por coisa semelhante.

Eu fui caindo em mim de uma forma muito estranha. Eu achava que estava numa casa dos anos 70, com tacos de sinteco, e grandes samambaias choronas penduradas no teto. O que me incomodava era o barulho incessante do pi, pi, pi. Aquele barulho que me fez ter consciência de que era um monitor de UTI. Consegui abrir os olhos, vi que estava num lugar asséptico, com uma velhinha nas ultimas ao meu lado. Eu estive a a beira de uma septicemia. Mas assim como a Petit , em dado momento, lembrei que tinha uma cria. E que precisava viver. E surpreendentemente, para espanto de todos, principalmente do pneumologista, fui ganhando força. A minha ferocidade era comigo mesma. Uma parte de mim lutando com a outra. Mas não vi luz, não vi meus avós, porque ate minha experiência de quase morte é fuleira , D’us não capricha no meu roteiro, é incrível. Ao invés de tuneis, abraços saudosos dos antepassados, festas do Grande Gatsby  eu caí num cenário daquela série da década de setenta-oitenta, Ciranda Cirandinha. Faltou só a Lucélia Santos de polaina e collant, dançando jazz  ao som de Pai, tocada e cantada pelo Fabio Junior, o pai do Fiuk. Vai que cada um tem o que merece né?

O fato é que cá estou para contar a história. Acredito que viva, embora muitas vezes ache que estou penando em algum umbral, tal a nossa dose diária de surrealismo. Tudo isso me veio a mente porque encontrei, em uma caixa  antiga de livros, uma edição de 1945, que ganhei de presente em 1994, do livro Novos Contos da Montanha do Miguel Torga. Esse autor, que tanto prezo, nasceu numa aldeia transmontana, vindo de uma família muita humilde. Seu verdadeiro nome era Adolfo Correia da Rocha. Como era normal acontecer em famílias com  poucos recursos, aos 10 anos saiu da casa dos seus pais e foi trabalhar num casarão de gente rica no Porto. Era obrigado a usar roupa branca, polir corrimão, ser garoto de recados, todas essas explorações de trabalho infantil que infelizmente conhecemos tão bem nesse nosso Brasil.

Permaneceu um ano nessa função. Até ser demitido. Motivo: INSUBMISSÃO. O outro destino para um garoto pobre , naquele inicio do século XX, para levar uma vida minimamente decente, era entrar para a vida religiosa. Foi para um seminário, onde aprendeu latim, português, literatura, filosofia. Dois anos depois avisou ao pai que essa vida não era para ele. Hierarquia, dogmas, não era esse o seu caminho.

Em 1920 finalmente veio morar no Brasil, na fazenda de um tio em MG e esse tio teve sensibilidade para entender que,  pode não ser via de regra, mas insubmissos tendem a ser inteligentes. Ele fez o ginásio e o secundário em Minas e o tio, pelos 5 anos que ele trabalhou na fazenda, custeou seus estudos de medicina na Faculdade de Coimbra. O primeiro doutor da família, mas que nunca, nunca, nunca , abandonou suas raízes. Além de exercer a medicina, atendendo sempre os mais pobres, pessoas sem posses, em seu pequeno consultório, foi no mundo das letras que se encontrou. Como ele escreveu no prefácio dessa minha edição: ”Poeta, prosador, é na letra redonda que tem descanso as minhas angustias”

Navegou por todas as formas literárias, mas a que mais me encanta, talvez por eu achar o gênero mais difícil, é o conto. Seu pseudônimo é uma homenagem a Cervantes (Miguel) e Torga é uma planta que nasce nos lugares mais secos de Portugal. Ela desafia as possibilidades e floresce no meio das pedras. Mais uma vez a palavra ferocidade.

Torga é antes de tudo um humanista. Nesse livro em questão, encontramos personagens com defeitos e qualidades, capazes dos gestos mais vis, mas também dos mais ternos e generosos. Ele dá vida a pessoas simples, que bem poderiam ser de sua aldeia. Não  sei de quem é a autoria dessa frase, mas me lembro de um professor proferi-la numa aula, o que me levou a usar a epígrafe do Caeiro. Quanto mais particulares formos, mais universais seremos. E da aldeia do Torga, dá pra se ver o mundo.

Tudo isso na verdade é uma introdução para falar de um dos contos, na minha opinião, mais singulares da Literatura Portuguesa e que inicia o livro. O Alma Grande. A primeira frase do texto é:” Riba Dhal é terra de Judeus”.  Uma pequena aldeia, que por motivos óbvios finge assimilar o catolicismo, onde o padre de quando em quando vai visitar, para ensinar o catecismo, falar sobre o Novo Testamento, ensinar o Pai Nosso, a Ave Maria. No entanto, como diz o autor: ”Na destreza com que se desvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar, que por detrás da sagrada Cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Na hora da morte porém, que é o momento que já nenhum segredo importa, a comunidade é tomada pela aflição de que o doente , na extrema unção, faça a confissão de sua verdadeira crença. E aí que surge o personagem que dá o titulo ao conto: O Abafador. Desses servos de Moisés, palavras do autor,  o maior de todos era o Alma Grande. Quando alguém adoecia e sabia-se que a morte era iminente, antes que o padre aparecesse, o Alma Grande era chamado. Ele afastava as pessoas do quarto do doente, passava o braço pelas costas e aplicava o joelho sobre o tórax, ate asfixiá-lo. Era um acordo tácito. Não falado. Mas sempre que havia um moribundo,  a preocupação de salvaguardar a comunidade ia além de todo e qualquer princípio e o Alma Grande era chamado. Torga pinta-o como um homem grande, forte, de nariz adunco, solitário, que morava no alto de uma ladeira.

Um dia, o Isaac, um rapaz jovem,  adoece. Sua mulher Lia faz de tudo para que ele melhore de uma febre altíssima. O médico da comunidade  diz que não vai poder fazer nada, quinze dias febris, a morte era certa. E a Lia, chorosa,  pede para que o filho deles, o pequeno Abel, vá chamar o Alma Grande. O menino sobe a ladeira e diz que a mãe quer vê-lo, porque o pai está doente. Na inocência, Abel pergunta :”Mas o que o tio vai fazer com ele?”. Alma Grande, homem de poucas palavras, segue em silencio. Na casa, as pessoas estavam na sala, a Lia desolada e o Abafador adentra no quarto do doente. Mas aí é que tudo muda :”Quando o Alma Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo estendido. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido a seiva, corajosamente defendia o resto da muralha (…) De nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, a solenidade de tal hora.” Mas por desgraça, o Alma Grande não conseguia enxergar aquilo. Insensível aos mistérios da vida,  ele avançou para o leito, com as mãos ao pescoço, com o joelho a arca do peito”, para depois se retirar com sua missão cumprida. 

E aí o combate se inicia. O embate entre dois homens. Um a saber que ia matar, outro a saber que ia morrer. Por mais que o Isaac gritasse “Ainda não”, o Alma Grande queria cumprir sua missão. Nessa situação, a porta do quarto se abre. Era o Abel. Ele , o Abafador, não queria testemunhas. “E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da grandeza trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida e a vida não lhe dava grandeza”.

O Issac se curou, os dias seguiam normalmente, mas “Só os três sabiam que o drama fora mais negro e mais profundo”. O Isaac queria vingança, o Alma Grande pela primeira vez sentiu medo e o Abel, via apenas a angústia de não entender. Ate o momento que Isaac fez uma tocaia para o Abafador , e sendo mais novo e mais forte, com os olhos implacáveis que viu no Alma Grande na hora da agonia, asfixiou-o. O Abel , que tinha seguido o pai, assistiu a tudo atrás de um penedo. E assim Torga termina:” E, com mais um estertor apenas, estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, O Alma Grande já não sentia medo , e a criança compreendera, afinal”.

Li muitos artigos sobre esse conto, alguns bem equivocados falam sobre eutanásia, outros do Alma Grande como salvaguardor daquela comunidade, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre o Alma Grande, sua função e o desprezo pela vida .Muitas vezes, especialmente no episódio de Manaus, com pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio, pessoas amarradas as macas por falta de sedativos e o genocida que nos governa conseguindo fazer piada e achar graça disso tudo, esse personagem me veio a mente. Como eu sempre falo, ele tem um verdadeiro apetite por cadáveres. Assim como o Alma Grande, a vida não lhe traz grandeza.

Torga não era religioso. Era humanista. Na sua introdução, pede a nós leitores, que não julguemos seus personagens. Só que além de escritor, libertário, ele era médico e honrava seus juramento. Respeitava a vida. Falava de sua gente que não tinha voz. No prefácio dessa edição, ele escreve sobre sua ida a cidade natal: ”Encontrei tudo como o deixei ano passado. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero”. Se eu não tivesse indicado  vocês teriam certeza que foi algum escritor falando desse Brasil distópico de 2021.

Eu respeito a vida. E tenho lisura diante da morte. Não acredito em D’us e todos que me conhecem bem sabem, mas creio , ainda, no humano. Existem pessoas que se esforçam para ser gente, no sentido mais bonito da palavra.. Porque se eu não pensar isso prefiro parar de viver. É necessário um pouco de esperança.

Estamos atravessando uma tempestade sem fim. Desculpem a melancolia do texto, mas perdi gente amada e próxima essa semana, algo que poderia ser evitado. E revolta e angústia são péssimas companheiras.  Termino esse texto com  algo que constatei hoje. O nosso novo ministro da Saúde, do qual minha única opinião é o fato de integrar esse governo vergonhoso,  portanto cúmplice desse horror, tem o sobrenome de Queiroga. Queiroga e Torga são as mesma planta, mesmíssima. A mudança de nome é regional. E ambos, além dos sobrenomes que se assemelham , são médicos. Mas as coincidências acabam aí. Entre um insubmisso anti-salazarista e um capacho de um genocida não tem nem o que dizer.

Valsa triste

Uma majestade estranha desprendia-se deste titânico monte de escombros (Victor Hugo, em Os miseráveis)

Na pandemia, andar de metrô virou atitude kamikaze. Os usuários acabam sendo transmissores involuntários da Peste. Lamentando muito, fui obrigado a usar táxi para me locomover. Vou sempre com um motorista conhecido, cuidadoso. Dá para viajar sem muita neura.

Numa das conversas com o taxista, comentamos sobre o contraste entre os dois lados da orla carioca. De um, a maravilha do horizonte azul, enfeitado com ilhas. Do outro, os paredões de concreto, despersonalizados, testemunhas da ocupação predatória dos espaços na cidade. Passando em frente a uma escola municipal na avenida Atlântica, ameaçada de demolição pelo prefeito, para orgasmo dos especuladores imobiliários, ensaiamos um dueto de palavrões em homenagem ao janota que ocupa o Piranhão.

Perguntei ao ilustre motorista se já tinha ouvido falar de Marc Ferrez. Ante a resposta negativa, deitei falação. Marc, brasileiro descendente de franceses, foi um dos mais importantes fotógrafos deste país. Registrou paisagens e gente nos séculos XIX e XX. As imagens da antiga avenida Central, atual Rio Branco, mostram uma beleza arquitetônica de tirar o fôlego. Pois bem, com poucas exceções, foi tudo demolido para dar lugar a prédios comerciais projetados por arquitetos que, pelo mau gosto, mereciam ganhar um bacalhau do Chacrinha.

Com o passar dos anos, os arredores da Rio Branco, ainda em parte habitados (a família de Carmen Miranda, emigrada de Portugal, morou um tempo na região do SAARA), foram sendo abandonados. Muitos prédios de interesse histórico ou de nobreza arquitetônica viraram pouco mais do que ruínas. Hoje, mais de 500 imóveis que contam parte da história carioca no centro estão abandonados ou não passam de cascas na iminência de desabar. Desamor criminoso pela memória urbanística, a consagrar a estética da desolação.

Os escombros do centro ameaçam sentar praça no campus da UFRJ. Há um processo de asfixia orçamentária da instituição, que vem desde 2011. Em 2021, a universidade pode parar. Os recursos disponíveis não serão suficientes para cobrir sequer as despesas obrigatórias básicas. O resultado já se vê nas imagens melancólicas de abandono.

Quando entrei para a Escola de Química, o campus da ilha do Fundão ainda cheirava a tinta. Restos de obra e andaimes eram visíveis. A gente sentia enorme orgulho de estar ali, instituição pública de excelência. Um de nossos professores, Horácio Macedo, foi eleito, anos depois, para a reitoria. Certamente o primeiro reitor comunista das universidades brasileiras. Horácio, professor brilhante, trabalhou para aproximar a comunidade acadêmica do entorno do Fundão. Para os que não moram no Rio, digo que, cercando os prédios da UFRJ, existia uma enorme favela horizontal, a Maré, com barracos assentados em palafitas. Quem frequentava o campus, convivia diariamente com aquele exemplo da obscena desigualdade social brasileira.

Fotos mostram o Bloco A, portão de entrada para os cursos de engenharia, inteiramente degradado. Como estarão os laboratórios que me viram como protótipo do professor Pardal, de jaleco, a sentir aromas inusitados e a me encantar com as cores mutantes que habitavam tubos de ensaio e erlenmeyers?

Navegava nestas divagações, quando ouvi um som familiar. Surpreso, percebi que um vizinho ouvia a rádio MEC. Será possível? Era a Valsa triste, de Sibelius. Não podia ter melhor trilha sonora para o que escrevo. Esta cidade, que esconde minhas pegadas, maltrata minhas memórias, abraça meus descaminhos, rima beleza com tristeza. Ou, como diria Monsueto, “mora na filosofia, pra quê rimar amor e dor?”.

Abraço. E coragem.

Quem sou eu?

A pergunta sobre si cresce diante da solidão na pandemia. E foi na realidade virtual onde se encontram consolos de espelhos que diminuem as incertezas. Na verdade, cada pessoa se conhece e desconhece, entre sonhos e pesadelos. O exemplo do nome próprio revela o quanto a gente se conhece pouco, pois não sabe os desejos inconscientes dos pais na escolha de um nome. À medida que o tempo passa e aumentam as experiências de vida, se percebe que seu “eu” é mutante, complexo, conflitivo nas várias facetas. Na verdade, o EU não é senhor em seus domínios, devido o inconsciente, e aí ocorre um ferimento narcisista, um golpe na autoestima. A busca por quem se é passa por espelhos que oscilam entre a frágil ilusão da plenitude e o vazio.
Um exemplo de espelho hoje é quantas vezes por dia a gente olha o celular como se fosse um Narciso diante do lago. A tela do celular é na pandemia a esperança de ser restaurado naquilo que a gente é, ou sonha ser.
Conta-se que após Narciso morrer o lago que ele tanto olhou sua imagem passou de doce a ter águas salgadas. Então disseram à lagoa que ela chorou muito porque Narciso era tão bonito. A lagoa fica surpresa e pergunta sobre essa beleza e dizem a ela: “Quem poderia saber melhor do que você?”. E a lagoa responde: “Mas eu amava Narciso porque, quando ele se deitava em minhas margens eu via no espelho dos seus olhos a minha beleza refletida”. Narciso amava a imagem dele na lagoa e a lagoa via no espelho dos olhos dele sua beleza. Um depende do outro para se sentir amado, desejado, e por isso o amor é narcisista, mas, felizmente, ocorrem as feridas nesse amor.
Graças as feridas e cicatrizes a gente pode crescer entre ilusões e desilusões. Narciso e o lago se amavam, um se espelhava no outro nessa bela história escrita por Oscar Wilde, que tanto sofreu em sua busca desesperada do outro. Não faltam dependências mortificantes e há ainda os que se sentem dominados pelo dinheiro, “tempo é dinheiro”, ou se jogam em “tudo pelo poder”, num consumo empobrecedor.
Montaigne, no final dos “Ensaios”, no capítulo “Da experiência”, escreveu: “Nossa vida, como a harmonia dos mundos, é composta de elementos contrários e tons variados: doces e estridentes, agudos e surdos, frágeis e graves”. A vida é mutante, complexa, cada pessoa é constituída de pedaços costurados, sendo que há pedaços melhor costurados que outros. Cada pessoa é formada por uma rede de identificações que envolvem os familiares, os educadores. Portanto, de uma forma ou outra, todos perguntam aos espelhos quem é cada um. São diferentes forma de aliviar o desamparo que marca a condição humana e constitui nosso mal-estar.
“Quem sou eu?” é uma pergunta curiosa sobre si, o lugar que se ocupa na vida, no amor de quem se ama, enfim na relação com os demais. E há ainda as encruzilhadas de escolhas que a gente faz quanto aos amigos, os amores românticos, estudo, casamento, trabalho, solidão. A vida transcorre entre alegrias e angústias, o ânimo e o desânimo, um diante dos conflitos: familiares, institucionais e políticos.
Sempre gostei das interrogações, escrevo para responder as perguntas que me faço desde muito cedo na vida. Já entendi que estou ao lado dos que aceitam a complexidade do “eu”, do “nós”, importante para enfrentar os nós da vida. Diante dos nós da nossa solidão, é indispensável manter o humanismo como postura digna e existencial. Desprezar a morte hoje de quase meio milhão de brasileiros é uma expressão da frieza cúmplice da maior das crueldades de nossa história. Por isso uma ode aos humanistas diante um sábado esperançoso, de luto e luta. Enfim, merecemos um poema renascentista:
“Venho não sei de onde/Sou não sei quem/Morro não sei quando/Vou não sei aonde/Espanto-me de ser tão alegre”.