Chamem Janete Clair!

“Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o Carnaval”

                  (Barão do Rio Branco)

 

Em maio de 2020, quando contávamos com aproximadamente 23000 mortos pela Covid, o Ministro Celso de Mello liberou o acesso ao vídeo  da reunião ministerial ocorrida no do dia 24 de abril desse mesmo ano, no Palácio do Planalto. Tal resolução se deu por conta do quiproquó do então Ministro da Justiça Sérgio Moro com Jair Bolsonaro. Moro acusou o presidente de tentar interferir na Polícia Federal e o vídeo seria uma prova disso, portanto o que aconteceu nessa caterva foi liberado para todo o cidadão brasileiro.

Movida por meu estoicismo patológico, não apenas assisti a reunião inteira, como escrevi, na época, sobre as minhas impressões. Um Ricardo Salles achando que a covid era uma ótimo negócio para, segundo ele, passar a boiada. Naquele momento  apenas um projeto, mas parabéns, seu plano de destruição em todos os sentidos tem dado super-certo. Vi uma Damares histérica falando sobre seringais (o que me despertou o tiozão adormecido no centro do meu ser, o que o seringueiro fica fazendo na mata?…o resto vocês completam), os planos do então Ministro do Turismo  Marcelo Alvaro Antonio (nome fantasia, o verdadeiro é Marcelo Henrique Teixeira Dias),de transformar o Brasil  numa terra de jogatina,  ministro este que acabou rodando por corrupção das brabas, daquelas que não dá pra botar glacê em cima  e por mandar bilhetinho malcriado para o General Ramos. Na época eu,  inocente,  me queixei dele arrebentar meus tímpanos de tanto falar SEJE.  Não imaginava que algo pior pudesse atingir meus sensíveis ouvidos. Mas Bozo nunca decepciona né?  Entrou em seu lugar  Gilson Machado, o ministro sanfoneiro, aquele mesmo que a cada tecla que aperta do acordeom Gonzagão e Dominguinhos se reviram no túmulo e que ao tocar Asa Branca  numa live do presidente para homenagear os mortos, acabou por torturar os vivos.

Teve de um tudo naquela reunião. Tarcísio comparando Bozo a Churchil e Roosevelt, Bozo explicando para o médico e morto-vivo Teich sobre a cloroquina e como usa-la,  Weintraub antes da fuga falando em prender os Ministros do STF, Paulo Guedes revelando que tem o dom da profecia ao falar “o Brasil vai surpreender o mundo”,  entre outras coisas observadas que agora já não fazem muito sentido repeti-las.  De todos ali, porém,  só livrei a cara de certa maneira do ex na época Chanceler, Ernesto Araújo, aqui repito minhas palavras:  Tivemos a prova que o Chanceler merece verdadeiramente o título de Ministro das Alucinações Exteriores, o caso ali é grave e sem querer ofender os loucos, passível de internação. O papo do Brasil sentar a mesa com as nações mais importantes para definir os rumos da nova ordem mundial foi a coisa mais delirante que ouvi nessas minhas quase duas horas de sofrimento. E olha que o páreo ali estava duro.”

Passado um ano , destituído do cargo, quatrocentos mil mortos depois, o ex-chanceler foi chamado a depor na CPI da covid. Até então eu não havia tido a oportunidade de vê-lo falando ao vivo. Ernesto muito tinha a responder, principalmente no que se refere a intrigas com o embaixador chinês , o que acabou por prejudicar a nós brasileiros pelos atrasos dos insumos para a produção da vacina. Com o carisma de uma cama enferrujada abandonada em um quintal, suas respostas eram evasivas, levava o nada a lugar nenhum, gaguejava, tropeçava, não completava o raciocínio. Levou uma bela carcada da Senadora Katia Abreu, sendo chamado por ela de bússola para o caos. Teve um momento que ele (acredito que num delírio) disse  “Minha gestão atendeu perfeitamente os interesses brasileiros no que se referiu a pandemia”. Ali minha certeza se confirmou, ele  não deveria estar sendo inquirido por uma CPI e sim por uma Junta Psiquiátrica.

Resolvi então saber um pouco mais sobre esse senhor e o que o levou a ocupar o posto de chanceler de nosso país. Em abril de 2019 a Revista Piauí fez uma longa reportagem sobre ele. A gagueira e as falas irresolutas não foram provocadas pelo nervosismo de estar numa CPI. O autor da matéria, ao traçar ser perfil, diz  ”Tem modos inseguros, voz discretamente desafinada, forma hesitante de se expressar, com emprego sistemático de eeee, perfeito, exato, ótimo, ou exato, após ser questionado por qualquer pergunta. “

Seu pai foi procurador da República do RS, mas mesmo com sua carreira no MP, foi eleito quatro vezes como deputado estadual .Apoiador do golpe de 64 foi nomeado Procurador Geral da Republica de Ernesto Geisel em 1975. Ernesto estudou em colégios católicos tradicionais de Brasília, na matéria diz que seu refúgio era a literatura e tinha facilidades com línguas. Aos dezessete anos lançou um livro de poemas: Ocidente. Pensava em ser professor de grego, para nosso azar optou pela carreira diplomática e para a sorte da poesia brasileira parou de cometer versos.

Seus antigos chefes,, embaixadores de renome, elogiam seu trabalho enquanto a função que escolheu exercer. Escrevia relatórios, se aplicava com afinco  a questões comerciais internacionais, ainda que as achasse tediosas. Cumpridor de horários, de serviço, um homem culto e que nunca havia misturado sua vida pessoal a sua vida profissional. Casado com uma secretária filha de embaixador respeitado, que veio a conhecer em Berlim, nada a se falar sobre ele.

Contudo em 2018 publicou um artigo: ”Trump e o Ocidente”, na revista semestral do IPRI, de mais de trinta páginas.  .Uma exaltação ao trumpismo, onde questões como imigração (ser um absurdo), investidas contra a Revolução Francesa, a defesa fervorosa a nacionalidade e se colocar contra o que ele chama de globalismo, foram o cerne dessa ode ao Cabelo de Cenoura . Aí fica fácil. Pelas mãos de Felipe Martins, o falso judeu cujo tio trambiqueiro vendeu uma rocha dizendo ser um pedaço de terra na Escócia para Uri Geller, o suposto paranormal da década de setenta que costumava entortar garfos e colheres usando a força do pensamento e Dudu Bolsonaro, Ernesto chegou ao astrólogo de churrascaria na Virginia.  E POR ELE foi indicado ao presidente da República para ser nosso chanceler.

Não sei se já comentei em alguma crônica anterior, mas em 1967 a Globo fez uma novela chamada Anastácia, a Mulher Sem Destino. Escrita inicialmente por Emiliano Queiroz, por conta da profusão de tramas paralelas e pela quantidade de personagens, nem a audiência, nem os atores entendiam mais nada.  Alguém da direção  gritou: ”Chama a Janete Clair, que ela resolve qualquer coisa!”  Como a história se passava numa ilha vulcânica, a idéia foi fazer uma erupção monumental, assim todos os personagens morreram, sobrando só uns três para Janete recomeçar a novela do nada. Quando me vejo falando de falso judeu assessor internacional da presidência, tio barão estelionatário, Olavo de Carvalho comandando os destinos de uma nação, tenho ímpetos de gritar: Chama a Janete!

Ernesto quis mexer com uma instituição, que mesmo nos piores momentos brasileiros, sempre teve como conduta a ponderação e o diálogo. Ele, no seu texto trumpista, diz que o globalismo quer destruir os valores cristãos, da família, da Sociedade Brasileira”.  O que acharia disso o Barão do Rio Branco…. Aquele que contrariando os desejos da família, de fazer um bom casamento e ascender socialmente, lutando contra  um destino traçado, afinal era nada mais que filho do Presidente de Conselhos de Ministros, apaixonou-se por Marie Philomene Stevens, moça belga chegada sozinha no Brasil, solteira e sem família , e que se virava sendo corista secundária num espetáculo de  can can can num Cabaré do Rio de Janeiro??? ..Com ela teve vários filhos e casou-se.. Gostaria de saber a opinião do diplomata sobre isso.

Não sei o que será resolvido no caso do ex-Chanceler. Por mais que acreditasse nas suas ideias paranoicas, o estrago que causou ao país, ao próprio Itamaraty, foi irreparável. Que foi cúmplice dessa infâmia, não tenho a menor dúvida e carregar quatrocentos mil mortos nas costas por loucura ou não, não livra a cara de ninguém. So espero, sinceramente, que ele não dê continuidade a sua carreira de escritor ficcional. Para quem não sabe, depois de cometer poesias, esse senhor lançou três obras ficcionais:” A Porta de Mogar” (1998), Xarab fica ( 1999) e Quatro 3 (2001).Lançados pela editora Alfa Ômega. São livros de poucas páginas, porém os enredos são ininteligíveis. Amigos, na maior boa vontade, me mandaram resenhas sobre eles, para enriquecer meus conhecimentos. Tentei. Até li trechos. Mas, como falei em uma postagem, não são obra para uma simples professora. Eles devem ser encaminhados a quem tem formação psiquiátrica. Pura psicose. E esqueçam Artaud, ao contrário do francês, ele não tem o menor talento. Fica aqui, para finalizar, uma frase do brioso diplomata na CPI: “Quem não sabe para onde está indo, não pode escolher o melhor caminho”. E a minha resposta para ela: Foi assim que você  nos meteu nesse poço fundo. Sem mais.

 

Carta ao Tomás

O exercício da memória é um esforço de companhia (valter hugo mãe)

Caro Tomás,

Não nos conhecemos, mas uma coincidência perturbadora nos une. Seu pai, Bruno Covas, acaba de morrer aos 41 anos. Você, navegando na adolescência aos 15 anos, acompanhou a fragilização implacável do pai e estava ao seu lado quando nada mais havia a fazer, a não ser a despedida última. Conheço um pouco do turbilhão emocional que acompanha a luta perdida contra a morte e, acredite, aconteceu comigo na mesma idade que você. Meu pai também morreu com 41 anos.

Numa quarta-feira de cinzas, acordou passando mal. Não chegou vivo à hora do almoço. Foi devorado por um infarto fulminante. Era um homem forte, mas tinha vida sedentária, fumava muito e não conseguia se livrar de uma tensão permanente. Meu susto, Tomás, foi tão grande, quanto o que imagino você sentiu ao perceber que o estado do Bruno não tinha mais volta. Não é nada fácil, ainda mais com 15 anos, vestir luto, sofrer com a ausência, compreender o alcance da perda definitiva. Nesta fase da vida, a gente convive, em porções variadas, com sentimentos de excitação e insegurança.

Ao te ver, aparentemente calmo, no velório do Bruno, lembrei que a sensação de anestesia foi igual comigo. Durante 22 anos, não admiti que o velho já não existia. Não poderíamos mais ir a um Fla-Flu em tarde luminosa no Maraca lotado, ver as diabruras do Dida. Tinham virado memória os passeios no Morris Oxford 1949. O cheiro da loção pós-barba, sinal de intimidade, de proximidade, foi para a névoa fluida das lembranças queridas.

O que vai faltar na tua vida agora, Tomás? Afinal de contas, tivemos ambos uma despedida trágica da infância, marcada pela separação súbita, indesejada, inegociável. As dores que se acumularam neste processo não são dimensionáveis. Mais ainda: a elaboração do que se perdeu não tem prazo para acabar. Depois de 22 anos, tive uma grande erupção vulcânica, que mobilizou todo o corpo e incinerou referências. A rigor, ainda está em andamento.

O que aprendi e te ofereço, não como bálsamo pretensioso, mas como diálogo em meio à dor? À “grande dor das coisas que passaram”, como bem disse Camões. É preciso, se possível, inventar um processo de cura pela memória. Não me refiro à memória factual, que essa tem o mau hábito de ser volátil. Vou na linha do encantamento poético que me ensinou valter hugo mãe. As palavras que não puderam ser ditas podem ser inventadas. Os gestos que ficaram incompletos podem ser concluídos numa história imaginada – mas não menos real.

Certo dia, em missão institucional, visitei o colégio judaico na Tijuca onde estudei até entrar na faculdade. Estava conversando com a diretora, quando ela pediu que esperasse um pouco, tinha algo para me dar. Depois de alguns minutos, voltou com um quadro. Era a fotografia do meu pai, inaugurada na secretaria logo após sua morte. Depois de tantos anos, aquele olhar sereno e triste voltava para mim. Cada vez que quero conversar e chorar com ele, olho para a foto e, juntos, inventamos o que não foi possível construir. Dida renasce, o sorriso fica mais solto, o Morris Oxford ganha potência. Sou capaz de sentir o aroma da loção pós-barba e recupero intimidades.

É isso, Tomás. A final da Libertadores no início deste ano, que você assistiu ao lado do Bruno, pode se repetir muitas vezes na memória inventada. Melhor: o placar ficará a teu critério, certamente com goleadas memoráveis do Santos (espero que livre a cara do Flamengo). Que a elaboração das dores deste momento te levem a muitos encontros com o Bruno. E, em algum momento, você encontre a paz possível.

Com meu abraço afetuoso e solidário.

Um olho de vidro na guerra

Entre os livros sobre a Segunda Guerra Mundial, há os que narram histórias incríveis ocorridas na retaguarda, como o Kaputt. Livro escrito pelo jornalista italiano Curzio Malaparte, que esteve presente na invasão alemã da Europa Oriental. Numa obra com mais de quatrocentas páginas, repleta de acontecimentos dramáticos, a mais famosa do livro, ocupa quatro páginas. É uma história sobre um oficial nazista que tinha um olho de vidro, que comandava um pelotão em 1941 na Ucrânia. Transcorreu durante a ofensiva alemã que deu início à derrocada do poderoso Terceiro Reich.
Havia bandos de guerrilheiros nos bosques e nos brejos ao longo do rio Dniepre e se escutavam tiros e, às vezes, rajadas de metralhadoras. Uma coluna de artilharia alemã percorria uma aldeia silenciosa, com cavalos mortos, alguns amarrados num clima sinistro. Um oficial cavalgava a frente de seu grupo num entardecer cinzento, quando se escutaram tiros de fuzis. Os tiros dos guerrilheiros desencadearam reação imediata do oficial, cuja ordem foi de pôr fogo em toda a aldeia.
As casas de madeira começaram a queimar e logo tudo foi dominado pelo fogo, os tiros foram diminuindo de intensidade. Havia muitos mortos estendidos no chão, alguns alemães tombaram, e de repente, no meio da fumaça, aparece alguém correndo com as mãos para cima. Logo o guerrilheiro é agarrado e percebem que é um menino, de não mais de dez anos, magro, sujo, com a roupa esfarrapada e o rosto preto de fumaça. O oficial olha o menino e lembra que em Berlim tem um filho com uma idade parecida, e chama um intérprete que fala russo e pergunta:
– Por que atiraste contra os meus soldados?
O menino fica quieto e a pergunta é repetida algumas vezes até que ele responde com calma, sem medo, com certa indiferença, em posição de sentido.
– Já o sabes, por que me perguntas?
– Sabes quem são os alemães? – pergunta o oficial.
– Acaso tu também não és alemão? – replica o preso.
O oficial, irritado com as respostas, decide matar o menino, mas de repente muda de ideia e, incomodado, diz ao prisioneiro:
– Eu não quero fazer-te mal, és uma criança, eu não faço guerra às crianças, mesmo que tenhas atirado contra os meus soldados. Escuta, eu tenho um olho de vidro. Se souberes dizer, sem ficar pensando, qual dos dois olhos é o de vidro, ponho-te em liberdade.
– O olho esquerdo.
– Como conseguiste percebê-lo?
– Porque, dos dois, é o único que tem qualquer coisa de humano.
Essa história revela a coragem e a sagacidade de um menino de dez anos que vale a pena conhecer. E a humanidade do oficial, que deu uma chance para o jovem guerrilheiro viver, portanto, há militares capazes de humanismo. Malaparte conclui assim o capítulo: – Todos os alemães têm um olho de vidro.
O Brasil está sendo atacado tanto pela pandemia como pelo governo mais olho de vidro da sua história. O passado elitista do país retornou com uma frieza mortífera assustadora. Um povo abatido começa expressar seu desejo humanista, em busca de justiça, numa sociedade em que a liberdade e a segurança nacional sejam para todos. A história do menino corajoso em plena guerra, me fez lembrar que há vida no meio das dores e mortes. É preciso despertar da letargia, lentamente nos levantaremos para não sucumbir a mediocridade. A construção de uma vida poética passa das decepções a imaginação de novos horizontes.

Nós somos a peste

Existe uma coisa mais perigosa que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem? (Yuval Harari)

Quando se fala em Primo Levi, a primeira associação que se faz é com o sobrevivente de Auschwitz, que se tornou cronista do campo de extermínio e das sequelas da guerra. Foi com surpresa que encontrei, num sebo de New York, o livro Dialogo. Trata-se da reprodução de uma série de encontros entre Primo e o físico italiano Tullio Regge, renomado especialista em mecânica quântica. Os dois conversam sobre o fascínio pela ciência, a sede interminável de descobrir a origem de tudo, o prazer estético da experimentação, o interesse comum pelo hebraico antigo (!), a literatura de ficção científica.

Como penetra naquele diálogo, tive especial interesse na parte da ficção científica. Criado a bordo da nave de Flash Gordon rumo ao planeta Mongo – que mais parecia um buscapé –, viciado nos filmes B que desembarcavam nos poeiras da Tijuca e pós-graduado no curso 2001: uma odisseia no espaço, li as especulações de Primo e Tullio sobre uma viagem a Proxima Centauri, estrela mais próxima da Terra depois do Sol.

Antes de mais nada, convém perguntar: para quê serve este tipo de especulação? Mesmo que o homem não complete o serviço antes, a Terra tem seus dias contados. Pelo nível de conhecimento atual, calcula-se que, em cerca de 3 a 4 bilhões de anos, o Sol sofrerá transformações radicais, que elevarão drasticamente sua temperatura e resultarão na evaporação completa de toda a água da Terra. A vida como a conhecemos será extinta, a esfera azulada ganhará tonalidade mortiça. Ninguém mais terá o privilégio de ouvir Bach ou ler Drummond. A solução para a humanidade seria colonizar corpos celestes, usando matérias-primas e fontes de energia presentes neles.

Tullio descreve, com razão científica e excitação colegial, o passeio até Proxima Centauri. Quarenta trilhões de quilômetros de estrada, equivalentes a quase 267 mil viagens ao Sol. Seria necessária uma nave descomunal, impulsionada pela energia de bombas de hidrogênio (daqui a uns trezentos anos, supõe o físico, controlaremos as explosões e a expansão da energia que daí resulta). Duzentas delas permitiriam que se alcançasse um por cento da velocidade da luz. Em modestos quatro séculos, a viagem estaria concluída. Os problemas deste tipo de deslocamento são monumentais e, hoje, insolúveis.

Em 1902, Georges Meliès imaginou a viagem à Lua através de um supercanhão. Era o possível na época. Menos de sete décadas depois, o primeiro homem pisava na Lua, usando uma tecnologia inimaginável para Meliès. Assim, o que hoje parece, no mínimo, improvável, pode se transformar em rotina pela ciência. Não há prazo de validade para a imaginação e as fronteiras do conhecimento são permanentemente fluidas.

O que aconteceria no Cosmos se o homem se espalhasse em poeiras de estrelas? Não duvido que, em pouco tempo, se organizasse a máfia dos anéis de Saturno. Lá, pelo que se sabe, há cerca de um milésimo de toda a água dos oceanos terrestres. Para ter acesso, as quadrilhas cobrariam pedágio. Em pouco tempo, multidões de sem-água vagariam desesperadas pelos desertos gelados de Júpiter.

Com a experiência acumulada pelos humanos na aniquilação de espécies, iniciada no século dezessete com os dodôs das ilhas Maurício, estariam ameaçados de extinção os incas venusianos e, se não tomassem cuidado, os rockymarcianos.

Todo tipo de preconceito se espalharia pela galáxia. A atleta Chú Santos, atacante do Palmeiras e da seleção brasileira de futebol, teria sua foto gravada nas aeronaves da ponte aérea Terra-Lua. Ela disse que, morto pelo coronavírus, o ator Paulo Gustavo iria “para o inferno”. A homofobia conheceria dias gloriosos.

Agora, falando sério, meus caros Primo e Tullio, não seria melhor apenas esperar os próximos 3 bilhões de anos e depois acompanhar a piedosa extinção de uma espécie que faz de tudo para não merecer o planeta belo em que vaga com apetite predatório?

Abraço. E coragem.

Sobre amizade, sincronicidades e resistência

Já chegou a hora quem lá no mato mora
É que vai agora se apresentar
No chão do terreiro, a flecha do Seu Flecheiro
Foi que primeiro zuniu no ar

Vi Seu Aimoré, Seu Coral, vi Seu Guiné,
Vi Seu Jaguará, Seu Araranguá,

Tupaíba eu vi, Seu Tupã, vi Seu Tupi,
Seu Tupiraci, Seu Tupinambá

Vi Seu Pedra-Preta se anunciar,
Seu Rompe-Mato, Seu Sete-Flechas,
Vi Seu Ventania me assoviar
Seu Vence Demandas eu vi dançar
Benzeu meu patuá

(Linha de Caboclo)

 

Assisti com décadas de atraso, por indicação de um amigo, o premiadíssimo filme argentino A História Oficial. Lançado em 1985, dois anos após o final da ditadura  mais sanguinária da América Latina, as feridas estavam abertas e em carne viva. A protagonista é uma professora de História, pertencente a burguesia portenha, cujo marido é um empresário beneficiado pelo governo militar, conservadora e alienada ao que acontecia em seu país. Em uma cena marcante, ela lecionava em uma escola só para meninos, numa classe composta por adolescentes, é confrontada por um aluno que dá uma versão diferente para determinado fato do passado. Diante da afirmativa dela, de que ele está distorcendo o que está registrado nos livros de história, ele responde:”A história é escrita por assassinos”.

Essa passagem me remeteu a época que fui aprovada na seleção de Mestrado em Literatura Portuguesa. O programa que abrangia literatura clássica e medieval, me atraiu por ser uma forma de entender o início de tudo, da língua, da nação, de seus desdobramentos no meu próprio país. Passei dois meses indo religiosamente ao Gabinete Português de Leitura, onde tive acesso a livros como As Crônicas de Fernão Lopes em português arcaico, e a impaciência do bibliotecário português, por ser uma das primeiras a chegar, pedir livros de difícil acesso  e invariavelmente ser  a última a sair. Ao saber dessa antipatia gratuita, minha avó separou uma latinha de biscoitos feitos pela D. Genoca,sua amiga doceira, as famosas madeleines e mandou um bilhetinho agradecendo a paciência (ou a falta dele) para com minha pessoa. Não consegui por mais que me esforçasse ler Proust e Em Busca do Tempo Perdido, mas uma coisa eu sei: madeleines tem poder. Se não for para recordar o passado, ajudam a melhorar o presente. E a partir daí ele passou a me chamar de Ceuzinha e a mandar recomendações para D. Lucila.Vovó sabia das coisas.

Preparada para a prova eu estava. Porém, como postou Constantino num de seus twittes idiotas: ” Não honrei a liturgia do cargo”. Meus colegas eram, em sua maioria, professores universitários há anos, estavam lá por uma exigência do MEC, que passou naquele ano  a cobrar diploma de mestrado para docentes de ensino superior. Era um ambiente sisudo, sério, de camisas abotoadas no punho e echarpes esvoaçantes .Não me sentia a vontade nem no figurino e nem preparada a altura. Meu primeiro seminário foi sobre o livro Os Bichos, de Miguel Torga. Foi sorteio e caiu para mim o Cachorro Nero. Fui a primeira a falar.  Preparei um seminário sobre o autor, que muito admiro, sobre as características do cão, sobre a narrativa, sobre os cães na literatura e sobre meu convívio com eles na vida real. Terminei minha explanação e o colega ao lado iniciou sua exposição, falou sobre  outro animal (no livro Torga em cada conto trata de um animal diferente) que não me lembro qual foi, só sei que ele começou assim:”Torga me lembra aqueles realistas russos, tem a maestria de um Tchechov… e pôs- se a falar em teoria literária. Mais em teoria literária do que no personagem?  Pensei: O que eu to fazendo aqui?  A professora, nada mais nada menos que D. Cleonice Berardinelli, elogiou minha abordagem do conto, mas minha autocrítica me chicoteia até hoje. Doida pra meter um realismo russo num artigo sobre o autor e acabar com esse trauma.

Eu me vestia como era. Cabelos soltos, compridos, vestido indiano, sapatilhas boneca chinesas de veludo compradas no Largo do Machado a vinte contos cada uma. Uma profusão de colares, adorno que sempre amei. E foi exatamente por esse estilo de vestir que uma das poucas pessoas que não me olhava torto, tornou-se minha amiga e guardiã. Ela se aproximou porque, nas palavras dela, eu fazia com que ela recordasse de seu tempo de UFRJ, da década de setenta. Seu nome era Icléia, foi de uma turma de graduação em que quase todos os nossos professores da pós foram seus colegas. Entrou no mestrado com eles, cumpriu os créditos, já estava com a dissertação encaminhada, mas a contragosto de seu orientador jogou tudo para cima para viver um grande amor. Foi viver em Paris , casou-se e passou por  situações surreais, que envolvia uma sogra cafetina, horário de visitação a coroa, para não ser confundida com uma das Belas da Tarde. O romance terminou depois de quase duas décadas, ela regressou ao país, o pai estava adoentado e dava aulas numa faculdade da Região dos Lagos. Como ela dizia firme: ”Estou vivendo um recomeço. Recomeços não me assustam”.

Ela era a mão que me guiava naquele mundo acadêmico cheio de códigos e que ser sincera era quase que uma sentença de morte. Numa matéria que fiz sozinha, ela não se matriculou, passei quarenta minutos ouvindo o professor e alunos exaltando uma biografia de uma certa autora. Como não sou de falar o que não conheço, não apenas havia comprado como tinha lido o livro.  Acreditando ingenuamente que o canal estava aberto, ergui as mãos e pedi licença para falar: ” Desculpem, acho que sou uma exceção. Achei esse livro pretensioso, sem informações novas, só não fiquei totalmente decepcionada por causa das fotografias,  muitas são inéditas e lindas”. Fez-se silêncio. Alguns colegas vieram me elogiar depois pela coragem, mas hoje acho que foi falta de noção mesmo. O professor me fuzilou com os olhos. Chamei o livro que ele incensava  praticamente de álbum de fotos. E olha que Caio Castro ainda não tinha iniciado essa moda. O que eu não sabia, sequer desconfiava e Icléia me contou isso dividida entre a vontade de rir e dar uma bronca a altura, é que a autora, que praticamente chamei de embuste, era uma das melhores amigas do mestre. Isso me valeu um semestre de perseguição. E a lição de nunca mais falar mais de um acadêmico para outro.

A história que ficou inscrita na minha vida, para sempre, foi o dia que Icléia me telefonou e fez uma estranha pergunta: ”Seu pai foi aluno da artista Giorgina de Albuquerque?”. Para quem não sabe Giorgina é considerada pioneira na pintura nacional e uma das primeiras mulheres a se firmar nacionalmente como artista. Diante da afirmativa do meu pai, Icléia explicou. Sua irmã, que trabalhava no Arquivo Municipal, que abrigava vários desenhos de alunos de Georgina, se encantou com uma aquarela. Décadas atrás. Como esses trabalhos seriam descartados, ela levou para a casa esse em especial, com o intuito de colocá-lo numa moldura. O tempo foi passando, a pintura ficou lá, guardada. Nesse dia específico, da ligação, as duas vasculhavam o armário procurando antigos documentos do pai. A irmã de Icléia desenrolou a pintura e disse: ”Olha que lindo, estou para emoldurar faz tempo”. No canto da pintura um escrito com letra infantil: LCMBahiense, nove anos de idade. Sabendo da inclinação artística do meu pai e do sobrenome, achou grande a possibilidade de ser dele. Sim, era a aquarela do meu pai. Não consigo descrever a emoção do homem de mais de 50 anos se encontrando com o menino de 9 que foi um dia. E as voltas que o mundo deu para que por vias tortuosas fosse parar de novo em suas mãos. Hoje ela está emoldurada, na sala de estar.

Icléia faleceu precocemente. Mas por que estou falando dela? Natural de Palmeiras dos Índios, neta direta de uma indígena com quem conviveu, me falava de uma infância de chás curativos, de lendas que ouvia como grandes verdades ( e quem há de dizer que não eram) de simplicidade e sabedoria. No seu pequeno apartamento no Grajaú, onde comíamos camarão frito e encharcávamos a alma de cerveja, ela me falava desse elo tão forte. Não eram só alguns traços físicos herdados geneticamente , mas uma imensa desconfiança. De tudo. De caráter, de intenções, estava sempre na retaguarda. Muitos dos nossos colegas sequer lembram dela, pela vida corrida de dar aula em outra cidade e porque paciência não era sua maior virtude. Mas a mim adotou. Conversávamos muito sobre o fazer a história,  e como ela era contada. Ou como não era contada. E aí que aporto na frase do rapaz do filme: todo cuidado é pouco quando a história é escrita pelos assassinos.

Todas essas rememorações me chegaram através de um artigo do professor Ronaldo Vainfas que li recentemente. Os índios brasileiros , pelo menos na época que eu frequentava os bancos letivos, apareciam como figuração daqueles cadernos escolares em que a capa era a Primeira Missa e a contracapa o Hino Nacional. Sobre eles sabíamos que caçavam, pescavam, dormiam em ocas, eram figurantes no grande  acontecimento do Descobrimento do Brasil  e saíam de cena. Só reapareciam magistralmente no episódio do Bispo Sardinha, sobre o qual já discorri , esse era o palmo que lhes cabia nesse latifúndio. Com a lei promulgada em 2008, numero 11645, instituiu-se a obrigatoriedade de ensino e culturas indígenas na educação básica. Algo que transcendesse as carinhas pintadas das crianças no dia 19 de abril. Tenho informações que alguns professores se esforçaram nesse sentido. Discorrendo sobre a participação indígena em alguns episódios da História Brasileira, como Confederação dos Tamoios, Guerra Guaranítica, Cabanagem, entre outros.

O movimento mais expressivo, de resistência sociocultural indígena, que só fui ter ideia agora, foi  A Santidade de Jaguaripe. Vários movimentos foram chamados de Santidades, pelos próprios jesuítas, o que é um paradoxo, O primeiro a descrevê-lo foi Padre Manoel da Nóbrega, era uma cerimônia comandada por um pajé, em que os nativos em transe se comunicavam com seus ancestrais e eram rogados a batalhar contra seus inimigos ou migrar buscando outras terras.A cerimônia era associada ao pajé açu ou caraíba, o poderoso pajé que tinha como dom se comunicar com os mortos e muitas vezes de encarná-los.

Nada porém supera a Santidade de Jaguaripe, localizada no sul da Bahia. Ela surgiu em 1580, liderada por um índio que viveu num aldeamento em Ilhéus , aprendeu o básico da catequese jesuítica , foi batizado pelo nome de Antonio e fugiu. Quatro anos depois o movimento já estava organizado, nos sertões de Jaguaripe e sua função era estimular revoltas e fugas dos engenhos em toda a capitania. Incontáveis portugueses foram mortos e engenhos queimados. Segundo Vainfas: “Os pregadores da Santidade  exortavam os fiéis a fugir dos brancos e atacá-los, acenando que o triunfo total estava próximo e com ele viria uma nova era de prosperidade a abundância. Os índios não precisariam mais trabalhar porque as flechas caçariam sozinhas nos matos, os frutos brotariam sem que ninguém plantasse. As índias velhas voltariam a ser jovens e os homens se tornariam imortais. Todos os portugueses seriam mortos ou tornar-se-iam escravos dos mesmos índios que também escravizavam. O triunfo seria a Terra dos Sem Males, o paraíso tupi”.

O crescimento da revolta apavorou os portugueses. O governador Teles Barreto até tentou organizar uma expedição no sertão, mas não conseguiu atingir o núcleo onde estava o líder Antonio. Aí que entra um personagem que acaba sendo protagonista desse evento. Um senhor poderoso de Jaguaripe, Fernão Cabral de Taíde, fidalgo, natural do Algarve, de confiança do governador. Fernão combinou com o governador que mandaria mamelucos de sua confiança, que falavam a língua dos nativos,  que deveriam atraí-los para as suas terras, prometendo que o lema seria liberdade: Os homens poderiam possuir varias mulheres, poderiam bailar e fumar a vontade, teriam toda a liberdade de cultuar seus ídolos, sem a presença de padre e nem cativeiro. O governador concordou achando que era a preparação de uma emboscada.

O que Teles não contava era que esse senhor Fernão não valia um pequi roído. Ele não tinha intenção alguma em devolver os índios. Ainda que se tenha sérias desconfianças que ele estava mesmo era formando trabalho braçal para ele, o que se sabe de sua biografia é que tinha tara por índias, assediou a própria cunhada, foi um senhor de escravos violentíssimo, mas gostava mesmo era de festa, orgia , birita e gandaia. Transe, sexo a vontade, cauim liberado,  música, muito maracá, igreja própria sem seguir ritual, só indo na onda do hibridismo que se formou entre a catequese e as crenças indígenas, ajudando inclusive a estimular fugas e rebeliões em todas as capitanias , numa escala muito superior que antes. A fazenda do homem foi transformada numa rave indígena, principal refúgio de índios aldeados ou cativados da Bahia. Foi assim que durante seis meses esse senhor construiu a primeira sociedade alternativa que se tem ideia no Brasil Quinhentista.

O fim da História é que o Governador cansou do abuso, organizou uma nova expedição, na minha humilde opinião tava todo mundo tão chapado que não houve resistência a prisão, os índios  foram reescravizados e devolvidos as antigas missões , os principais líderes desterrados e o líder Antonio, que não era bobo nem nada, sumiu sem deixar rastro. Em 1591, a Inquisição de Lisboa aqui esteve e prendeu o festeiro dono da taba.Foi encarcerado, denunciado, passou um ano fechado no Colégio dos Jesuítas. Sua condenação foi sair em auto público, ouvir a leitura de sua sentença, pagar uma grana bem elevada e foi desterrado  da Bahia por dois anos. Dessa visitação  resultam inúmeros documentos, que estão em Lisboa, sobre os seis meses mais lokos e bem vividos de toda a História do primeiro século do Brasil dominado por Portugal. Há coisas que por mais que tentem, não se apagam. E precisam, muito, ser contadas.

 

PS: Segue uma pequena bibliografia com os pormenores da história, para quem tiver interesse. Para quem quiser entender essa mitologia paralela entre a teologia cristã e a transposição para as crenças tupis, Alfredo Bosi e a sua Dialética da Civilização é essencial. ”Anchieta ou As Flechas Opostas do Sagrado”  é leitura Indispensável. O Dicionário do Brasil Colonial , de Vainfas, cita nome por nome, acontecimento por acontecimento, direcionando melhor a leitura e o entendimento. Mas é na obra A Heresia dos Indios: Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial, de Ronaldo Vainfas, São Paulo: Cia das Letras , 1995, que o autor esmiúça todo esse movimento, traçando ligações que vão do imaginário europeu medieval a seus desdobramentos no Brasil recém descoberto.

Mar e Teatro

O domingo amanhecia quando comecei a caminhar na beira do mar, sem saber o que estava por acontecer. A imensidão do mar acalma, há um cheiro de liberdade, que aumenta a coragem num movimento constante. Por mais belos os rios, as planícies e as montanhas, nada se iguala as emoções do mar quando se trata de liberdade. Li relatos de presos, falei com prisioneiros que me falaram das saudades do mar. Não me canso de caminhar na praia, de ver as ondas, a imensa bondade do ir e vir da maré. O mar está sempre em movimento, e foi olhando esse ir e vir que pensei sobre as pessoas. Tem as que são meio paradas, com pouco entusiasmo, se arriscam pouco. Há os que se movimentam para trás, os saudosistas, os que adoram os tempos autoritários, com pais idealizados que autorizam um outro a tudo. Também há os que vão em busca de sonhos desejantes, vivem entre o ânimo e o desânimo, mas tendem a ter o dom do humor. Brinco na caminhada sem máscara acompanhado pelo música das ondas e o som de pássaros felizes.
Divaguei junto ao mar, observei o sol despontando no horizonte, e começo a voltar e, de repente, uma miragem, onde há muita gente de máscara. São grupos de dez que formam umas vinte fileiras distantes uma da outra, logo nem abrindo os braços era possível se tocar. Os amigos do face estão na praia e o encontro é uma festa, após tanta solidão. Todos juntos na invisibilidade, pois ninguém via, mas estávamos juntos, e logo começaram os cantos. Parecíamos fiéis que vão às praias no dia dois de fevereiro para saudar Iemanjá, rainha do mar. Grande Dorival Caymi o poeta do mar recordou uma outra vida, outro Brasil, gente humana, solidária, espirituosa. Alguém propôs que num domingo pela manhã em Porto Alegre fôssemos todos ao Jardim Botânico, e assim nos despedimos na leveza da imaginação.
Domingo reencontrei gente no mar e no sábado seguinte reencontrei o teatro. Assisti pela primeira vez no zoom um espetáculo cujo palco era o rosto do ator Pedro Osório do Rio de Janeiro. Ele apresentou o espetáculo « A Peste » baseado no livro de Albert Camus durante uns quarenta minutos, pouco mais, e após teve comentários. Foram duas horas grudado na tela do computador, não imaginava que seria possível um teatro assim. Também não imaginei no ano passado que uma análise pudesse se desenvolver via celular. Diante dos obstáculos está sendo preciso criar novos caminhos, que requerem conviver com o invisível, uma outra realidade.
A novela « Peste » é uma metáfora do nazismo que invadiu a Europa, onde os ratos são os nazistas que tanta crueldade fizeram ao mundo. Impressionante como ocorre a negação, o desprezo pela medicina e a ciência pelas lideranças políticas. A « Peste » foi publicada dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um êxito de público impressionante. Camus alerta ao final do livro que as epidemias terminam mas voltam, e aí se pode associar ao tempo atual em nosso país na pandemia está dominado pela mentalidade miliciana. Depois do espetáculo falaram Julia Alexim do Rio de Janeiro, Ângela Lângaro Becker e Edson Luiz André de Sousa da APPOA que promoveram um sábado de arte e alegria.
Reencontros com o teatro, o mar, gente querida e as palavras de Albert Camus : « A imaginação oferece às pessoas consolação pelo que não podem ser e humor pelo que efetivamente são ». Revelou em sua vida, na sua obra e nas entrevistas sua crença na humanidade, mesmo diante do absurdo. Porque hoje é sexta e amanhã é sábado um viva ao humor, às artes que aceleram a imaginação, e ainda erotizam o amanhã.