Passarás, não passarás, quem me deixe eu passar

Passarás, não passarás, quem me deixe eu passar

Tudo passa, tudo passará/Nada fica, nada ficará (de uma canção composta e interpretada por Nelson Ned, grande sucesso em 1969)

Já aconteceu de vocês estarem lendo um texto sério e, de repente, caírem na gargalhada? Riso solto, não planejado, sem compromisso. Pois foi o que aconteceu comigo dia desses, ao ler a coluna semanal da Ana Paula Lisboa n’O Globo.

Verdade que suspeitei do título, uma referência a mercúrio. Achei que tinha a ver com o velho mercúrio cromo, líquido que curou as feridas da infância ao custo de ardências rubras. Conforme avancei na leitura, percebi que se tratava de um certo Mercúrio Retrógrado. Que diabos seria isso? Segundo os astrólogos, cáspite!, a posição deste planeta no cosmos é responsável por acontecimentos importantes na Terra. Como, por exemplo, o colapso recente e simultâneo do trio WhatsApp, Facebook e Instagram. Faz também, segundo Ana Paula, “caírem as máscaras”. Assim, não seria coincidência, ainda segundo sugere a colunista, que a revelação da existência da empresa offshore do Paulo Guedes em paraíso fiscal e os destemperos do Ciro Gomes acontecessem agora. A culpa, ora vejam só, é da órbita do planetinha laranja-amarelado, que sequer tem uma Lua para chamar de sua. Não resisti, a risada correu frouxa. Cada vez que leio essas patetices, lembro-me de uma frase memorável, atribuída a uma espécie de rei dos picaretas, Phineas Taylor Barnum: “Nasce um otário a cada minuto”.

Quando voltei a mim, reli para ter certeza. Era aquilo mesmo. Valeu, enfim, pela diversão. A mesma que experimentei quando li a parábola de Bertrand Russell sobre o bule de chá chinês que gira em torno do Sol e soube da existência do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador (e do racha que gerou a Igreja Reformada do Monstro do Espaguete Voador). Céus, quanta perda de tempo, quanta ilusão, quanto diversionismo. Talvez esteja tudo a esconder os verdadeiros, e às vezes insuportáveis, dilemas de existir. Parecidos com a jornada dos androides em Blade runner, em busca de respostas para uma questão singela: por que raios fomos criados com validade limitada? Tempo, tempo, tempo, diria o Caetano Veloso. Tempus edax rerum, o tempo esse devorador das coisas, diria o poeta romano Ovídio.

Um dia antes de esbarrar na comédia involuntária da Ana Paula, o Leo Aversa, leitura obrigatória de toda terça-feira, lascou um “tudo passa, demora, mas passa”. Tentava consolar uma mocinha desconhecida que ele supunha ter passado por desilusão amorosa. Compreendo que a circunstância pedia compaixão, e mesmo uma pitada de mentira caridosa, mas… Nem tudo passa, mesmo que demore. Gostemos ou não, somos uma combinação incontrolável, indimensionável, de passado e presente. Parte do que foi ainda é, varia o tamanho da herança e a forma como ela se incorpora à vida presente. Tempos que se cruzam.

Vou dar um exemplo dramático, que me impressionou bastante e chocou milhares de pessoas. Anthony Bourdain era um cara prestigiado no mundo gastronômico. Fugia dos clichês da cozinha pretensiosa. Roqueiro, puxado ao punk, sem problema para falar como gente comum, palavrões a rodo, procurava não apenas cozinhar mas entender o que estava por trás de comidas e tradições. Era o tipo de sujeito que qualquer um poderia convidar para um chope e tomar um porre sem a menor vergonha. Apareceu morto num quarto de hotel, na França. Cometeu suicídio, aos 61 anos. Viajava 200 dias por ano, se hospedava em hotéis de luxo, não tinha problemas financeiros. Parece que estava pensando em fazer uma terapia. Por que, então, desistir da vida? Que armadilha o tempo lhe havia aprontado? O que não foi possível transformar para seguir adiante? O que, enfim, não passou?

Comecei citando Nelson Ned, cantor anão que muita gente no meio artístico via como anomalia. Ou seria exotismo? À música citada, prefiro o Lulu Santos de Como uma onda: Tudo que se vê não é/igual ao que a gente viu há um segundo/tudo muda o tempo todo no mundo. Essa, digamos, interpretação dialética está mais de acordo com o que sinto. Não há garantia de que tudo passa. Às vezes dá um trabalho danado transformar o tempo que passou em aliado. Nem sempre dá certo, mas vale a pena tentar. Para que a onda flua.

Para não dizer que não falei de flores, devo acrescentar que há um departamento que, para o bem ou para o mal, certamente não passa. Recorro ao auxílio luxuoso de Machado de Assis. No livro Esaú e Jacó, diz o narrador da história: “Tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana”. Sim, meus caros, trata-se da nossa mui conhecida fofoca. O Bruxo do Cosme Velho sabia das coisas.

E tome polca!

Abraço. E coragem.

Estamos aflitos

Estamos aflitos

Talvez nem todos estejam aflitos, mas, pelo que escuto e leio, percebo a vida aflita. São tempos de angústia real, angústia sentida diante de ameaças externas e internas que repercutem em cada pessoa. Essa angústia pode ser traumática, pois os afluxos de excitação excedem a capacidade de absorção psíquica. As angústias reais geram traumatismos provocados pelo desamparo, que acomete a cada um. A realidade política gera, junto à pandemia, uma angustia real no povo brasileiro, onde os pobres, como sempre, são os que mais sofrem.
Recém estive numa ferragem comprando um pincel e escutei um senhor, falando da viagem à Dubai dos familiares do Presidente. Um senhor se disse arrependido de seu voto, pois pensou que o eleito iria trabalhar. Então perguntei se alguém que não trabalha vinte e oito anos, de repente pode se transformar em trabalhador. O desconhecido disse que não, confessou que votou mal e o dono da ferragem concluiu: “Parabéns, o senhor reconhece que errou e muitos precisam ainda aprender”.
Estamos aflitos, pois no passado ocorreram invasões: a portuguesa, francesa, holandesa, mas agora os novos invasores são bilionários com apoiadores armados, o Congresso, entre outros. Estamos aflitos porque nas ruas vemos como a pobreza voltou e com ela a fome. Vivemos um estado de calamidade, e se 2021 está difícil, há incertezas e ameaças para 2022.
Compartir as aflições alivia, é preciso não se isolar na dor. Tenho uma amiga viciada em ler, outra está cada dia mais religiosa, já um amigo se prepara para deixar o país. Aqui a gente escreve, lê, clica, e comparte, são redes para enfrentar as tormentas. As redes tecidas de parcerias na travessia de desertos e labirintos, porque não estamos condenados a um mundo de pesadelos. Sem laços amorosos, os nós da solidão apertam os horizontes.
Uma vez li que os amigos afastam a morte e diminuem as aflições, verdades que comprovei, mais uma vez, ao ver o filme “Dois Tempos” do diretor Pablo Francischelli. O documentário emociona, relata a história de dois amigos músicos: o argentino Lucio Yanel e de Yamandu Costa seu discípulo. Os dois fazem uma viagem de 700 quilômetros do interior do Rio Grande até a cidade de Corrientes na Argentina para tocarem num festival. Paisagens do pampa, do rio Paraná, de pequenas cidades, no meio das conversas sobre o destino, ora permanecem em silêncio, tocam e riem pela alegria de estarem juntos. O cineasta valoriza os momentos de ternura entre um pai e um filho simbólico, onde um ampara o outro. Lucio viaja preocupado como Yamandu dirige, que por sinal dirige bem. E o filme tem um diretor generoso que faz os espectadores viajarem ao lado dos músicos amigos. O mestre e o aluno festejam uma amizade de quase quarenta anos e quem vê o filme faz parte da festa.
As cenas e as imagens do filme seguiram na minha memória, estimulando a imaginação. Aliás, foi numa conversa, há uns dois anos, que falei, de passagem, na palavra imaginação. Vi na hora o amigo Edson anotar a palavra, não falei nada, mas fiquei pensando na imaginação que logo se uniu ao amanhã. Foi assim que nasceu o título “Imaginar o amanhã”, livro de reflexões, provocações, que com a capa da Alice ganhou um farol radiante na capa.
É preciso diminuir as aflições imaginando novos encontros após vinte meses, seiscentos dias e seiscentas noites. Tenho saudades, estamos saudosos das velhas turmas de conversas sobre a vida, a morte, o tempo, artes, e a traumática realidade. Sim, precisamos nos encontrar, se encontrar, encontros para recuperar os horizontes e brindar a graça de existir.
Kid Morengueira e as polacas

Kid Morengueira e as polacas

Calhava de ser na hora do almoço. Entrava no ar uma seleção musical e os ouvintes ligavam para escolher suas prediletas. Era o Peça bis pelo telefone, programa da rádio Mayrink Veiga. Imaginem vocês o engarrafamento telefônico numa época em que conseguir linha era mais difícil do que arrancar verba federal para a educação. O sucesso ganhava destaque nos Mexericos da Candinha.

Pois foi ali, pelas ondas do rádio a válvula, chiados em penca, que ouvi Moreira da Silva pela primeira vez. Eu ainda não sabia, mas aquele era o samba de breque em seu não raro esplendor. Kid Morengueira invadia o velho oeste como Rei do gatilho, numa sátira engraçadíssima. O Menino, fascinado, decorou a letra quilométrica, simulando duelos improváveis e soprando o cano fumegante de pistolas invisíveis. Até hoje lembro do início da história: Começa o filme com um garoto me entregando/um telegrama lá do Arizona onde um bandido de lascar/um bandoleiro que era o bamba lá da zona/e não deixava nem defunto descansar. E por aí a coisa ia, até o final, que era meio impróprio…

Pesquisando a trajetória do Moreira, descobri uma história de paixão que durou 18 anos e se confunde com a história do Rio. Em 1964, ele gravou Judia rara. No começo, fala em ídish: Minha linda menina, sou louco por você. Durma, minha criança. Imaginem um malandro frequentador da Lapa, terno branco e chapéu panamá, gingado até no gogó, falando na mame loshn! Intrigado com aquilo, corri atrás da dita cuja. Quem era? Como se conheceram?  Eis que surgem as polacas.

Na segunda metade do século XIX, a organização Zwi Migdal, uma espécie de máfia judaica com sede em Varsóvia, conduzia um negócio lucrativo. Rufiões muito bem apessoados percorriam aldeias e povoados da Europa profunda, oferecendo casamento a mocinhas judias. Vítimas de pobreza secular, virgens das malícias do mundo, as famílias consentiam que as moças viajassem com os charlatães. No navio, eram estupradas e, ao chegarem no destino, que podia ser o porto de Santos ou do Rio de Janeiro, acabavam em bordéis. Embora viessem de vários países, foram apelidadas de polacas. A paixão de Moreira da Silva, Estera Gladkovicer, era cafetina num daqueles bordéis.

Pequena pausa com patrocínio do Colírio Moura Brasil. Jacob do Bandolim, na verdade Jacob Pick Bittencourt, era filho de polaca. Sara Raquel Pick gerenciava uma pensão na rua Joaquim Silva, usada por prostitutas. Criança, Jacob ouvia um francês cego, sobrevivente da I Guerra Mundial, que, no térreo, tocava violino. Gostava daquilo e, sabendo disso, Sara lhe deu um de presente. Decepção. O arco do violino cansava demais o pequeno Jacob, que acabou dedilhando, melhor seria dizer pinicando, as cordas do instrumento com um grampo da mãe. Sofia, inquilina da pensão e com bom ouvido musical, percebeu a semelhança do novo timbre com o bandolim. Resultado: Jacob ganhou este instrumento aos 13 anos. Funcionou tão bem que, aos 15, estreava na rádio Guanabara. O resto, bem, o resto é a carreira de um dos maiores músicos que já pisaram nessa terra.

Voltamos à nossa programação normal. Para manter sua identidade, as polacas, perseguidas pela polícia e discriminadas pela comunidade judaica (que temia ser associada a uma atividade condenada pela moral da época e, com isso, abastecer o antissemitismo), criaram sinagoga e cemitério próprios, administrados por uma sociedade de ajuda mútua. O cemitério, inaugurado em 1916 e desativado desde a década de 1970, fica em Inhaúma. É interessante lembrar que os cafetões do Zwi Migdal patrocinaram peças do teatro ídish, encenadas nas décadas de 1910 e 1920 em teatros do Rio de Janeiro. Sob protesto de lideranças comunitárias judaicas, as polacas adquiriam os melhores lugares dos teatros e para lá iam, paramentadas comme Il faut.

Embora estudos acadêmicos já tenham lançado luz na trajetória destas mulheres, ainda hoje o assunto é uma espécie de tabu. Muitos judeus gostariam que a história permanecesse clandestina, não querem “manchar” a versão oficial, idealizada, da formação da comunidade judaica no Brasil. Não percebem, como lembrou o Millôr, que o passado não passa. E é melhor que não passe mesmo. Maquiá-lo ou apresentá-lo apenas como sucessão virtuosa de “superações” e “sacrifícios” significa legar às novas gerações uma farsa. As polacas morreram duas vezes. Primeiro, enganadas por exploradores, que lhes roubaram juventude e sonhos. Depois, por uma comunidade que não compreendeu seu drama. Censurou ao invés de dialogar ou simplesmente compreender e acolher. Não merecem a terceira morte: a do olvido, como se não tivessem sequer existido.

Abraço. E coragem.

Sobre horrores e telas

Sobre horrores e telas

Não faz muito, assisti a versão 2019 do Pinóquio, dirigida por Matteo Garrone. Baseado na história de Carlo Collodi, publicada no final do século dezenove, o filme vira de ponta-cabeça o desenho animado da Disney, estreado em 1940. O clima é sombrio, Gepetto passa fome e vive no limite da sobrevivência, nada de edulcorar o processo de amadurecimento do boneco de madeira, a baleia não passa de um bagre anabolizado que interage com Pinóquio e Gepetto.

Também dos estúdios Disney, o filme 20 mil léguas submarinas, de 1954, é uma tremenda distorção do livro de Jules Verne. O original mostra o capitão Nemo, idealizador do submarino Nautilus, como cientista criativo e ambientalista precoce. Tem, por exemplo, a ideia de plantar fazendas marinhas, multiplicando novas fontes alimentares para o planeta. No filme, ele aparece como vilão inescrupuloso, contraponto irrecuperável para o marinheiro bonitão Ned Land, interpretado por Kirk Douglas. Hollywood não podia viver sem a bipolaridade mocinho/bandido, sem concessões ou sutilezas. Verne, pesquisador do estado da arte das ciências em seu tempo, bufaria na tumba se soubesse o que fizeram com sua obra.

Passei a infância assustado com alguns personagens cinematográficos. A baleia disneyana do Pinóquio era predador implacável. Nada mais distante da realidade. Várias espécies deste mamífero estão ameaçadas de extinção, predador é o Homem. E a bruxa do desenho Branca de Neve, de 1938? Eu me apavorava mais com a rainha, que misturava beleza e perversidade. Havia, nos anos 50, um programa teatral de contos de fadas na televisão, apresentado por Shirley Temple. Quando levaram ao ar a história da Branca de Neve, eu me escondi atrás da almofada quando surgiu a rainha. Em carne e músculos, a imagem aterrorizante ganhando vida. Finalmente, sobe ao pódio a cena do vale dos leprosos, no filme Ben-Hur (que não passa, ao fim e ao cabo, de uma peça de proselitismo cristão). Não consegui ficar na sala refrigerada do Metro. De chagas já bastavam os joelhos ralados e os bifes pendurados na sola, acidentes de trabalho nas peladas da Vila, em cimento mais áspero do que a vida.

Nada, vilão ou monstro, supera o horror de uma tirinha do argentino Liniers, que reproduzo aqui. Nela, Gepetto aparece desejando que Pinóquio fosse um menino de verdade. Em seguida, o boneco, já com vida própria, fala ao celular. Seu criador, fica ali, estatelado, com cara de tacho, lambendo sabão e pensando na morte da bezerra. Solidão. Dependência. Indiferença.

Pesquisas recentes mostram o impacto da dependência de mídias sociais sobre a saúde mental. Especialmente em crianças e adolescentes. Com a massificação do uso de smartphones em geral, crescem a solidão e, bastante associadas a ela, a ansiedade e a depressão. Não se trata de fenômeno exclusivo da pandemia, já era perceptível bem antes dela. Pesquisadores norte-americanos concluíram que adolescentes que consomem muita mídia social têm piores níveis de saúde mental do que os que a consomem menos. Observam, por exemplo, os psicólogos Jonathan Haidt e Jean Twenge: “É mais difícil estabelecer uma conversa casual no refeitório ou depois da aula se todo mundo está de olho no celular. É mais difícil manter uma conversa séria quando os participantes são interrompidos por notificações”. Impressionante como se tornou comum achar que qualquer mensagem no celular precisa ser lida e respondida/comentada de imediato. O mundo passou a viver em estado (artificialmente) emergencial.

Há novas doenças associadas aos vícios virtuais. Na China,  existem clínicas para tratamento desses transtornos. Lá, a dependência dos cacarecos virtuais é classificada como “ópio espiritual”. Lei recente limita em três horas semanais o acesso de menores de 18 anos aos videogames. As empresas de internet que fornecem este serviço são rigidamente fiscalizadas. Não sei se é a melhor solução, mas ela ressalta a gravidade da situação. É importante lembrar o que disse o terapeuta britânico Steve Pope: ficar pendurado por mais de duas horas seguidas num videogame gera no organismo o mesmo efeito de cheirar uma carreira de cocaína.

Convivo mal com este mundo que seduz pela superfície. O desconforto foi muito bem traduzido pelo Marcos Nogueira, do Cozinha Bruta. Ele contou o que aconteceu num grupo de 20 pessoas com quem almoçava no dia do colapso do Facebook & satélites, quantas unhas roídas e lexotans ingeridos! Agitação, rebuliço, expressões de dor, quase pânico. “Como se todos perguntassem: de que vale comer se não podemos fotografar e postar a comida? Para que ir a um restaurante sem fazer check-in no Face? Como tolerar a companhia à mesa sem o dedo nervoso em seis grupos simultâneos de zap? Como, muito tempo atrás, conseguíamos comer com outras pessoas sem acessar as redes sociais?”. Para mim, a própria existência dessas perguntas revela as tripas de uma distopia. Nem mesmo Rod Serling, em seus momentos de alucinação, conseguiria usá-las para um episódio de Além da Imaginação. Seriam vetadas por inverossímeis…

Abraço. E coragem.

Para Lara com acertos

Para Lara com acertos

No leito frio e com dor

Com pipoca e dendê
Muita gente ele curou
Se seu corpo está ferido
E não pode mais suportar

Peça proteção a ele
Ele vai te ajudar
É obaluaê, é obaluaê
É atotô, é obaluaê é obaluaê

(Marthinho da Vila)

Não, ela não deve lembrar de mim. Mas eu tenho-a muito viva na memória. Devíamos ter uns 5 anos, dividíamos a mesma turma no jardim de infância. Seu nome era Lara. Lembro que a mantínhamos a parte nas brincadeiras do parquinho da escola, em que subíamos no trepa trepa e brincávamos de heroínas dos enlatados que passavam na TV. Mulher Maravilha, Poderosa Isis e uma brigalhada se formava entre as meninas, porque todas queriam ser a personagem da Farrah Fawcett nas Panteras, que com nosso parco conhecimento de mundo de cinco anos de idade era, para nós, a mulher mais bonita do planeta. Lara ficava sentada num banquinho, nos olhando brincar. Não queríamos aproximação, sobretudo que se encostasse em nós e jamais, em hipótese alguma , permitíamos que pegasse nos nossos objetos. Magrinha, cabelos crespos trançados, Lara era cheia de feridas, algumas abertas, outras cicatrizando. Entre as histórias contadas pelas crianças, não sei se procede ou não, é que alguém viu Lara levantando as tranças e notou que seu couro cabeludo também era cheio de feridas. Hoje sei que era portadora de alguma doença séria epidérmica. Só que estamos falando de um tempo que não havia a menor preocupação com inclusão. Nenhum dos adultos nos falava nada, para nós era apenas uma menina perebenta da qual queríamos distância. Ela não participava das brincadeiras, porque não deixávamos, ela pouco interagia na sala de aula, ficava sentada numa carteira no fundo. Lara era pária. Sequer lembro de sua voz. Mas de uma coisa eu tinha uma secreta e jamais admitida inveja dessa menina Enquanto eu sofria com minhas pesadas botas ortopédicas, ela usava um sapatinho boneca, de verniz, vermelho. Evitava olhar as suas feridas e cobiçava seus sapatos. Ninguém nunca nos esclareceu o porque daquelas chagas, ninguém nunca veio nos pedir que a incluíssemos nas brincadeiras. Muitas vezes ela caminhava na nossa direção, enquanto fazíamos aquela rodinha formada por meninas e nossa crueldade infantil nos levava a levantar e sair correndo em bando de perto dela. No ano seguinte Lara não estava mais lá. No ano seguinte eu mesma mal estava lá.
Sempre fui magrela, com as pernas compridas, não a toa meu pai me chama até hoje de Tuiuiu. Amava brincadeiras ao ar livre, pique bandeirinha, jogar queimado, bicicleta, subir em árvores e comer jabuticaba do pé. Só que de um dia para o outro as pernas começaram a doer, uma dor que chegava ao limite do insuportável. Logo depois essa dor espraiou-se para os pulsos e para cada junta das articulações. Febre altíssima, dores de garganta inenarráveis, os adultos mandavam eu abrir a boca e era só placa de pus. Engolir era difícil. Levantar da cama quase impossível, Não demorou muito e veio o diagnóstico: febre reumática. Remédio tinha. Benzetacil. Inicialmente todo dia, depois dia sim e dia não. Não vou me deter no que era pra uma criança de seis anos lidar com dor e com o sofrimento indescritível do líquido da seringa entrando na carne. Foi um período difícil, porque minha mãe já tinha passado dos quarenta e estava numa gravidez de risco , além de mim mais dois irmãos, sendo que Arthur, o mais velho, era um bárbaro. Grande frequentador de pronto socorro por suas artes. Meus avós que sempre seguram todas estavam morando no interior do Rio. A solução foi me deixar sob a responsabilidade da maravilhosa tia Ermelinda, única irmã viva da vovó hoje, exímia cozinheira e de uma cultura ímpar, odeia o Bozo mais que os nazistas, da tia Elza e do meu bisavô. Lá que comecei a ler. Quando voltei para a escola, sabia ler melhor que todo mundo, as manchetes do Jornal do Brasil, que eu lia devagar juntando as letras para eles, fez milagres. Durante anos, inclusive início da vida adulta, a Benzetacil foi minha companheira. Hoje agradeço ter nascido num tempo que ela já havia sido descoberta. Não fossem suas picadas dolorosas eu não estaria aqui hoje.
Aos 21 anos, já livre da febre reumática mas alerta as suas sequelas, como ecocardiograma anual, tive minha primeira grande depressão. Tinha um namorado bonito, muitos amigos, estudava numa universidade de elite, era querida pelos professores da faculdade, tinha pais presentes, materialmente nada me faltava. Então quando caí prostrada por dias e dias, sem levantar para nada, faltando aulas e com meu pai me forçando a comer me dando comida na boca, foi um prato cheio para os ignorantes. Cheguei a ouvir de uma pseudo amiga que se tivesse uma trouxa de roupa para lavar, não ficaria nessa palhaçada. Entre outras coisas me surgiu uma urticária nervosa, que carrego comigo até hoje. Quando não vejo saída para soluções da vida, ou quando tenho aborrecimentos graves, meu corpo enche de vergões que se assemelham a herpes zoster. Coçam, doem e tem um único antialérgico certo para sanar.
Foi assim, depois de ir em psiquiatras, psicólogos, tomar medicamentos, que meu pai, sem me dizer exatamente do que se tratava, me disse que me levaria em um lugar diferente. Um dia, daqueles que eu não saía da cama, me deu um ultimato. Ou vai comigo agora e procura de algum jeito sua melhora, ou fica mergulhada nesse lodo. Botei um moletom ordinário, fiz um rabo de cavalo, entrei no carro sem ter ideia de para onde ia. Sei que fomos para uma parte da cidade que não conhecia, local humilde, de gente simples. Papai estacionou o carro, me deu a mão e fez aquilo que sempre faz ao me ver frágil. Olhou nos meus olhos e disse: “Confia em mim?”. Sim, confio .Com isso pôs-se a me dar instruções, de que eu deveria ficar calada, só falar quando me perguntassem e sobretudo respeitar o ambiente.
Entramos. Era uma roda de Exus. Uma estrangeira, que não vou falar a nacionalidade para não expô-la, apenas digo que era do grupo de trabalho do meu pai, estava vestida como uma cigana, com uma roupa colorida , muitos penduricalhos, gargalhando com a alma, segurando nas mãos uma garrafa de caninha da Roça que tomava aos golões. . Fiquei petrificada. O curioso foi que, sem que eu sequer me movesse, as entidades foram se aproximando de mim e me saudando. O malandro Zé Pilintra, com seu gingado e seu chapéu, Maria Padilha, lindíssima trabalhada no vermelho, todos vieram falar comigo. E todos , sem que isso fosse combinado, disseram a mesma coisa “Moça bonita, tua tristeza é do Velho, você precisa cuidar dele, porque está se sentindo abandonado por você, logo ele que sempre esteve ao seu lado”. Foi dado ao meu pai um papel, por uma pessoa que estava sóbria, que lá estava apenas cuidando das entidades e quando vi , eu estava gargalhando , completamente a vontade e sorrindo, coisa que não fazia há tempos. Terminou a roda, houve o ritual para as entidades cantarem para subir (e só ali entendi a expressão) e as pessoas voltaram a ser elas mesmas. Sem os paramentos fui reconhecendo-os, Colegas de trabalho do papai, de médicos a guardas da portaria. A Cigana dos Sete Búzios, que comandava tudo e a única que não falou comigo, depois de sorver um litro de cachaça, voltou a ser a estrangeira de sempre, se despediu de todos sobriamente, trocou uma idéia em particular com o meu pai que acredito eu esteja ligada aos remédios alopatas que eu estava tomando, mudou de roupa e em seguida estava na direção do seu carro, dirigindo normalmente.
Voltamos para casa em silêncio. Só sei que no dia seguinte levantei cedo, coloquei um vestido larguinho e florido, botei meu material de estudo numa bolsa e fui tomar café no jardim com meu pai. Na vitrola botei Clube de Esquina e talvez esse disco me marque tanto porque representa o dia que resolvi voltar a viver. Meu pai não escondia sua alegria, pegou nas minhas mãos, falou coisas que costuma falar para louvar a vida a sua maneira e me ofereceu uma carona pra faculdade. Avessa a religiões que sou, tenho pavor de compromisso e custo a acreditar em D’us, não me tornei da umbanda ou do candomblé. Mas passei a querer entender aquilo um pouco melhor, através de artigos de pessoas sérias e do livro Orixás do Pierre Verger. Toda visita anual a Bahia para ver minha mãe incluia um jogo de búzios. E todos, todos, todos que eu consultei, foram unânimes em falar. Filha de Omolu e de Iansã .Sobre Iansã escreverei um dia, mas é para Omolu Obaluaê esse texto.
Vamos a ele. É bela e triste a história desse Orixá. Muitas são as lendas que falam sobre o seu nascimento e sua história. A mais recorrente é que foi abandonado por Nanã por ter nascido cheio de chagas, em um cesto no mar. Acabou sendo criado por Yemanja. Cresceu e tornou-se feiticeiro, guerreiro e caçador. Um dia “Chegando de viagem à aldeia onde nascera, Obaluaê viu que estava acontecendo uma festa com a presença de todos os orixás. Devido a sua medonha aparência, ficou espreitando o que ocorria pelas frestas do terreiro. Ogum, ao perceber sua angústia, cobriu-o com uma roupa de palha , que ocultava a sua cabeça , convidou-o a entrar nos festejos. Apesar de envergonhado, ninguém se aproximava dele. Iansã se compadeceu e esperou que ele estivesse no meio do barracão. Soprou suas roupas de mariô que cobriam suas pestilências. Nesse momento de encanto e ventania, as feridas de Obaluaê pularam para o alto, transformadas numa chuva de pipocas, que se espalharam brancas pelo barracão. Obaluaê transformou-se num jovem encantador e brilhante.” Essa é mais ou menos a narração de Teo, neto da coreógrafa Deborah Colker, portador de uma doença genética rara, epidermólise bolhosa, que abre o fabuloso e dilacerante espetáculo de dança CURA. Deborah nos chama para essa jornada, inspirada na luta que trava com a doença do neto, e a partir daí me veio a ideia de escrever esse texto.
Como todos os deuses de matriz africana, é um deus ambivalente. Se por um lado é temido, já que nada é escondido desse Orixá, ser responsável pela morte , já que rege a terra e é dela que tudo nasce e tem fim, é também protetor dos enfermos, principalmente dos doentes pobres. Por padecer de uma enfermidade, não quer ninguém passando por ela, daí sua associação com a cura. Tem o poder de causar uma epidemia, mas está em suas mãos a cura de todo mal. Sempre curvado, como quem sente intensa dor e sofrimentos, também é chamado de Velho.
Posso dizer, sem medo de errar, que a febre reumática me fez olha o outro de um jeito diferente. Doença não escolhe. Pobreza não escolhe. Já na primeira série primária sabia que o bullying era errado, muito antes de se começar a encará-lo como um grande problema a ser combatido. Tive também a sorte de ter a melhor professora do mundo, com quem não perdi contato, a tia Luiza, Com seus olhos azuis enormes, cabelo chanel escuro, era a nossa Branca de Neve. Foi uma das minhas maiores incentivadoras a seguir a literatura, por suas mãos descobri a biblioteca da escola, onde podia pegar livros e depois devolvê-los. Meiga, carinhosa, mas bastava alguém rir do “defeito” do outro, para o tempo fechar, Firme, nos lembrava que apelidar um colega de Dumbo, imitar algum que tinha gagueira, era feio, nos tornava pessoas piores. Não a toa é anti-bozo até a raiz do cabelo. Manteve sua coerência,
Anos atrás, já livre da febre reumática, fui, após uma sequência de 5 pneumonias, diagnosticada como portadora de artrite reumatoide. O pneumologista que constatou isso, foi muito honesto: ”Não tem cura, aprenda a conviver com ela”. Então eu fico atenta aos sinais. Quando me aborreço, quando tenho medo, a dor percorre meus ossos num ir e vir. Meus pés incham, Ficam vermelhos. A vermelhidão é quente e coça. O jeito é tomar os medicamentos. Com a situação do Brasil e impossibilitada da minha corrida diária, que ajudava as crises a ficarem mais esparsas, andei sofrendo. Da última vez tomei um remédio que é uma bomba e a orientação médica foi: Vamos ver se em três dias alivia, caso contrário teremos que apelar para a cloroquina. Esse remédio que o Bozo louva, das vezes que tomei, tive um acompanhamento ferrenho. Por ter tido descolamento de retina anos atrás e a febre reumática, que pode trazer sequelas ao coração, tomei fazendo exame de fundo de olho e ecocardiogramas. O que chega a ser engraçado é que minha preocupação maior não era a medicação e sim o fato de morrer previamente de vergonha ao pensar em ter que ir no balcão da farmácia, pedi-lo e ser confundida com negacionista .Dói muito saber que as pessoas tem tomado indiscriminadamente uma medicação cheia de efeitos colaterais como se fosse M&M. A artrite já se mostra presente no meu corpo. Meu dedo médio da mão direita está completamente torto, me impedindo de fazer aquele lindo gesto feito pelo Ministro da Saúde em NY. Mas não me abalo, uso a mão esquerda para tudo mesmo…Rá!
Antes que essa crônica vire uma paráfrase de O Pulso, dos Titãs, quero deixar algo registrado. Não sei se chegará a ela, o tempo nos separou. É um recado para minha coleguinha de sala. Lara, quero me desculpar com você. Imagino como devia ser insuportável você ir para a escola e sofrer aquilo tudo. Penso também na falta de tato dos adultos. Nunca nos reprenderam, nunca nos explicaram que o que você tinha não era contagioso, que fazia parte de uma condição, mas que você era uma criança cheia de sonhos e fantasias como todos nós. . Não pude deixar de pensar em você ao assistir o espetáculo Cura da Deborah Colker. Imagino o sofrimento que você passou, as dores que enfrentava, a sua solidão de criança que hoje me faz chorar. Quero te dizer que tento acertar com minha filha, aquilo que erraram comigo. Quero te dizer que não me desculpo nem perdoo, porque eu podia ter te defendido, como fiz depois ao longo da minha história com pessoas que julgava injustiçadas. E por fim, quero te falar que sempre que vejo um sapatinho boneca vermelho envernizado, não é da Dorothy do Mágico de Oz que lembro. É da menina de tranças sentada no cantinho da sala. Que Obaluaê nos proteja.

Com amigos a vida vale a pena

Com amigos a vida vale a pena

Gosto de ler o “Pirke Avot” (“Ética dos Pais”), o livro mais popular do Talmud, com histórias de experiência e sabedoria. Tenho vários “Pirke”, com diferentes traduções, mas a que mais li é a comentada pelo famoso Maimônides, médico e filósofo judeu da Idade Média. Já no primeiro capítulo destaca a importância dos amigos e elogia Aristóteles na sua “Ética”, que dá o lugar mais alto à amizade, que para ele é a condição da vida virtuosa. Escreveu o discípulo de Platão: “Sem amigos, a vida não vale a pena ser vivida”. Amizade ocorre entre amigos que se desejam reciprocamente, são agradáveis um com o outro, encontram prazer. Amizade só existe entre os prudentes e justos, é a mais alta virtude da Ética, é a nossa parte no divino, e faz a pólis imitar a autarquia do kósmos.
Já escrevi que os amigos são os irmãos da vida, os irmãos que encontramos na vida e geram uma cumplicidade empolgante. A partir do Renascimento, a condição humana exalta os amigos Montaigne e La Boétie. Entretanto, o que é mesmo um amigo? Muitas frases para definir essa forma de amor, mas destaco o escritor Guimarães Rosa, que no seu clássico “Grande Sertão: Veredas” escreveu: “Amigo… é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira o prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou –amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é”. As conversas nas amizades são essenciais, pois falar desarmado não é fácil, e só com os/as amigos/as é possível falar de tudo um pouco. Desde a infância até a velhice as amizades são essenciais, a vida se encanta na fraternidade, e assim caminhamos na construção do amanhã. Sonhar acordado numa vida com mais leveza, imaginar novas navegações, é dar um colorido ao cotidiano, pois sem amigos não há esperança. Entretanto, não é fácil ser amigo uns dos outros, como escreveu Bertold Brecht em seu famoso poema: “Aos que vão nascer”.
Quase no seu final se refere às amizades: “Ah, e nós, que queríamos preparar o chão para o amor, não pudemos nós mesmos ser amigos”. Inquietante a frase da dificuldade da amizade, logo parabéns a todas e todos que têm amigos com quem compartir o cotidiano, dividir o peso dos problemas e, unidos, criar arte, dividir leituras, dúvidas, impressões. Com amigos a vida vale a pena, são os que aumentam a confiança em novos projetos, e alegria quando algo pode ser concretizado.
Há uns dois meses, chegou o prefácio do livro “Imaginar o amanhã”, escrito pelo psicanalista Paulo Endo. Sua primeira frase é: “Dois amigos celebram a amizade com um livro escrito a quatro mãos em tempos de destruição”. Num certo momento, define o amigo como a garantia do propósito e a certeza da desventura que, talvez, sem ele/ela jamais ousássemos. Conclui que o livro foi escrito pelas tintas da amizade, da esperança e da indignação. O peso da pandemia no meio do desgoverno teve no trabalho de escrever o “Imaginar o amanhã”, o ânimo para seguir a luta. Trabalhar com amigos como o psicanalista Edson Luiz André de Sousa, junto as nossas conversas aqui, são espaços para sustentar os sonhos de outro amanhã. Ah, e se os indignados tiverem só pequenas vitórias, serão sempre os indignos que assassinam gente e florestas, o rosto e a alma diabólica.